fausto, de goethe

notas de leitura sobre o fausto, de goethe.

faust goethe by harry clarke (35)

fausto, obra-prima da vida de goethe, talvez maior nome da literatura alemã, escrito ao longo de sessenta anos, é a história do homem que vende sua alma ao diabo — nesse caso, mefistófeles.

em seu afã criador e aperfeiçoador, tentando adaptar o mundo a si mesmo, fausto é a própria encarnação do capitalismo, destruindo tudo o que toca.

as duas histórias mais conhecidas são, com justiça, os pontos altos do poema: a “tragédia de gretchen”, na primeira parte, e a “tragédia do colonizador”, ou “colônia de fausto”, no quinto ato da segunda parte.

(filemon e baucis, na primeira cena do quinto ato da segunda parte, são os protótipos daquilo que hoje se tornou lugar-comum: o bondoso casal de velhinhos cuja única função narrativa é ser trucidado e estabelecer além de qualquer dúvida a malvadeza do vilão.)

faust goethe by harry clarke (2)

o poema busca abraçar o mundo, a experiência humana e todo o conhecimento literário e filosófico, teológico e científico da humanidade até então.

ou seja, é tão amplo e descomunal e ambicioso e genial quanto o homem que se dedicou a escrevê-lo.

na verdade, que projeto poderia ser mais literalmente fáustico do que passar sessenta anos escrevendo o fausto?

talvez fosse o final perfeito para um poema tão metalinguístico: fausto, quando fracassa seu projeto colonizador, em vez de morrer, senta-se para começar a escrever o poema que estamos lendo.

faust goethe by harry clarke (13)

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as traduções utilizadas

li o fausto em duas traduções: a brasileira, em verso rimado, de jenny klabin segall (sogra da atriz beatriz segall), publicada entre 1949 e 1967, e uma norte-americana, também em verso rimado, de george madison priest, publicada em 1932, que faz parte da coleção “great books of the western world”, da qual falei aqui.

a tradução de segall e a edição da editora 34 são excelentes. a tradução de priest, apesar de ser muito criticada por estudiosos de goethe por se dar muitas liberdades com o texto, também me pareceu bonita, fluente, legível.

naturalmente, eu não leio alemão e não posso dar pitaco, mas, como vocês verão abaixo, ambas as traduções são bem parecidas.

faust goethe by harry clarke (26)

a tradução de priest também é criticada por outro motivo, digamos, mais político: na introdução à edição original, de 1932, o moço elogiava o espírito alemão superior, simbolizado por goethe e agora encarnado pelo incrível adolf hitler! ops!

vinte anos depois, quando as pessoas organizadoras das coleção “great books” decidiram usar sua tradução, convenientemente mantiveram as notas mas a introdução se extraviou pelo caminho.

abaixo, vou comparar as duas traduções.

reparem como uma tradução sempre, inevitavelmente, dialoga, critica, comenta, esclarece a outra.

faust goethe by harry clarke (52)

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o paradoxo da poesia em tradução

ler poesia em tradução é um exercício sempre frustrante: ou a tradutora será fiel às palavras utilizadas e a poesia vai por água abaixo; ou será fiel à poesia e acabará tendo que escolher outras palavras.

não existe solução perfeita, não existe resposta certa.

a melhor solução, além de ler tudo sempre no original, é ler no mínimo duas traduções: uma mais literal, que quase sempre será em prosa, e vai traduzir tudo palavra por palavra, e outra mais poética, tentando captar mais o espírito e a sonoridade do original.

faust goethe by harry clarke (54)

no caso do fausto, não segui o conselho acima: li duas traduções em verso rimado, ambas bem mais livres do que literais.

mas é só porque, na excelente edição da editora 34, o professor marcus vinicius mazzari, abençoado seja, sempre que a tradutora voava muito longe do original, dava a tradução literal em nota de pé de página.

faust goethe by harry clarke (24)

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alguns trechos comentados:

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prisão verdade

dois versos que cabem na prisão verdade:

“O que hás herdado de teus pais,
Adquire, para que o possuas.” (682-3)

“All that you have, bequeathed you by your father,
Earn it in order to possess it.”

faust goethe by harry clarke (1)

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tentação ao suicídio

desesperado com a falta de sentido da vida, fausto contempla o suicídio. falando em voz alta, tenta juntar coragem para o gesto:

“Atreve-te a romper esses portais
Dos quais cada um teme o terror sombrio;
É tempo de provar que, à altura de imortais,
Em nada o cede do homem o alto brio,
De não tremer ante a sinistra gruta
Em que a imaginação cria tormento eterno.
De arremessar-se a essa abertura abrupta,
Em cuja estreita boca arde, flamante, o inferno,
De, plácido, empreender essa jornada,
E seja a risco, até, de resvalar no Nada.” (710-9)

“Upon earth’s lovely sun, and now
Make bold to fling apart the gate
Which every man would fain go slinking by!
Here is the time to demonstrate
That man’s own dignity yields not to gods on high;
To tremble not before that murky pit
Where fantasies, self-damned, in tortures dwell;
To struggle toward that pass whose narrow mouth is lit
By all the seething, searing flames of Hell;
Serenely to decide this step and onward press,
Though there be risk I’ll float off into nothingness.”

vale a pena lembrar que o primeiro grande sucesso literário de goethe, os sofrimentos do jovem werther (1774), teria causado uma onde suicídios pela europa, imitando o gesto final do protagonista.

faust goethe by harry clarke (4)

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nossa cegueira constitutiva

esses outros versos poderiam ser a epígrafe do livro das prisões, que será, afinal, sobre todas as alternativas que nunca enxergamos:

“O que se ignora é o que mais falta faz,
E o que se sabe, bem algum nos traz.” (1066-7)

“What man knows not, is needed most by man,
And what man knows, for that no use has he.”

faust goethe by harry clarke (11)

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homenagens aos assassinos

sobre alquimia, ontem, homeopatia, hoje:

“Soa hoje a escárnio o ruído que me aclama.
Pudesses ler-me no íntimo, ai!
Quão pouco dignos de tal fama
Foram o filho como o pai!
Obscuro homem de bem esse era,
Que a natureza e seu sagrado engenho
Sondava com inteligência austera,
Porém com fantasioso empenho;
Que, em companhia de sectários,
Trancando-se na negra cava,
Com fórmulas de electuários,
O adverso um a outro misturava. …
Era o remédio, faleciam os pacientes,
Sem que alguém indagasse: e quem sarou do mal?
Assim, com drogas infernais, mais males
Causamos nesses morros, vales,
Do que da peste as feras lidas.
Dei eu próprio a milhares o veneno,
Foram-se; devo eu ver, sereno,
Que honram os torpes homicidas.”
(1030-55)

“The crowd’s applause now sounds like scorn to me.
Oh, could you but within me read
How little, son and father, we
Were worthy such a fame and meed!
My father was a simple, worthy man,
Who over Nature and her every sacred zone,
Quite honestly, in his odd plan
Mused with a wayward zeal that was his own,
Who, with adepts their presence lending,
Shut him in that black kitchen where he used,
According to receipts unending,
To get the contraries together fused. …
Here was the medicine; the patients died,
And no one questioned: who got well?
Thus we with hellish nostrums, here
Within these mountains, in this dell,
Raged far more fiercely than the pest.
I gave the poison unto thousands, ere
They pined away; and I must live to hear
The shameless murderers praised and blessed.”

(um artigo meu sobre homeopatia.)

faust goethe by harry clarke (17)

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o gênio que sempre nega, a carne que sempre afirma

“O Gênio sou que sempre nega!
E com razã0; tudo o que vem a ser
É digno só de perecer;
Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais.
Por isso, tudo a que chamais
De destruição, pecado, mal,
Meu elemento é, integral.”
(1338-44)

“I am the Spirit that denies!
And rightly too; for all that doth begin
Should rightly to destruction run;
‘Twere better then that nothing were begun.
Thus everything that you call Sin,
Destruction — in a word, as Evil represent
That is my own, real element.”

um dos trechos mais famosos, a apresentação do demônio mefistófeles.

faust goethe by harry clarke (23)

como diz marcus vinicius mazzari, nas notas da minha edição, essas palavras ecoam por várias literaturas.

em “a igreja do diabo”, machado de assis o coloca se apresentando assim:

“senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.”

já james joyce define o fluxo de consciência de molly bloom, no último capítulo de ulisses, como sendo a

“carne que sempre afirma”

(o romance termina com a palavra “sim”.)

inspirado nesses mestres, compus uma nova biografia:

“alex castro é o espírito que sempre nega, a carne que sempre afirma.”

faust goethe by harry clarke (3)

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caos e entropia

mefistófeles:

“Quando o homem, o pequeno mundo doudo,
Se tem habitualmente por um todo;
Parte da parte eu sou, que no início tudo era,
Parte da escuridão, que à luz nascença dera,
À luz soberba, que, ora, em brava luta,
O velho espaço, o espaço à Noite-Mãe disputa;
Tem de falhar, porém, por mais que aspire à empresa,
Já que ela adere aos corpos, presa.
Dos corpos flui, beleza aos corpos dá,
Um corpo impede-lhe a jornada;
Creia, pois, que não dure nada,
E é com os corpos que perecerá.”
(1347-58)

“A man, the microcosmic fool, down in his soul
Is wont to think himself a whole,
But I’m part of the Part which at the first was all,
Part of the Darkness that gave birth to Light,
The haughty Light that now with Mother Night
Disputes her ancient rank and space withal,
And yet ‘twill not succeed, since, strive as strive it may,
Fettered to bodies will Light stay.
It streams from bodies, it makes bodies fair,
A body hinders it upon its way,
And so, I hope, it has not long to stay
And will with bodies their destruction share.”

(dois textos meus sobre entropia: a entropia e o tempo & como desmexer um ovo mexido.)

faust goethe by harry clarke (37)

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quem nunca?

fausto amaldiçoa tudo, em um incrível, poderoso desabafo:

“Maldita seja a presunção,
Em que o critério se emaranha!
Maldito o encanto da visão
Que no íntimo sensual se entranha!
Maldito o que em vão sonho enleia,
De fama e glória o falso brilho!
Maldito o haver que lisonjeia
Como lar, servo, esposa, filho!
Mamon maldito, quando à empresa
Audaz seu ouro nos arroja,
Quando aos prazeres e à moleza,
Em seda e plumas nos aloja!
Do amor, maldita a suma aliança!
Maldita da uva a rubra essência!
Maldita fé, crença e esperança!
E mais maldita ainda, a paciência!”
(1591-1606)

Cursed, before all, the high adherence
To some opinion that ensnares the mind!
Cursed be the blinding of appearance
That holds our senses thus confined!
Cursed be dissembling dream-obsessions,
The fraud of fame, a name’s enduring life!
Cursed all that flatters as possessions,
As slave and plough, as child and wife!
Cursed too be Mammon, when with treasures
He stirs us on to deeds of might,
When he, for lazy, idle pleasures,
Lays down for us the cushions right!
Cursed be the grape’s sweet juice deceiving!
Cursed Love’s supreme, delicious thrall!
A curse on Hoping! on Believing!
And cursed be Patience most of all!”

mamon era o demônio da riqueza.

faust goethe by harry clarke (16)

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sempre ridícula nostalgia

nunca vi nenhuma nostalgia que não fosse fundada em uma sólida ignorância do passado.

quatro versinhos, falados por um velho ranzinza:

“Tudo está roto, agora, é desaforo!
Só os bons tempos ainda exalto;
Pois, se houve alguma idade de ouro,
Foi quando estávamos nós no alto.”
(4080-4)

“Now all too far away from right are men,
I praise the good and old, and duly;
When we were all-in-all, ah, truly,
The real, real golden age was then.”

(um texto meu sobre nostalgia.)

faust goethe by harry clarke (22)

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a tragédia de gretchen

da chamada “tragédia de gretchen”, história dentro da história que ocupa a segunda— metade da primeira parte de fausto, eu sublinhei pouco.

mas ela não deixa de ser incrível:

faust goethe by harry clarke (32)

 

a felicidade de gretchen depois de transar com fausto, o modo diferente como ela agora escuta as histórias de perdição de outras mulheres, seu medo do amante ter desaparecido, seu tormento na catedral, tudo culminando na lindíssima última cena, em sua cela, onde espera a execução pelo crime de… aborto.

o que poderia ser mais contemporâneo e atual?

faust goethe by harry clarke (41)

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a segunda parte do fausto

a segunda parte, mais longa, foi terminada poucos meses antes da morte de goethe e publicada, por vontade dele, postumamente.

walter kaufmann, um filósofo alemão radicado nos eua a quem serei sempre grato por ter me ensinado existencialismo e por ter tão bem traduzido nietszche, fez uma excelente, incrível mesmo, tradução da primeira parte do fausto, mas se recusou a traduzir a segunda, dizendo:

“deixar goethe falar inglês é uma coisa, transpor ao inglês sua tentativa de imitar poesia grega em alemão é outra.”

para mim, que não conheço alemão, lendo a tradução de jenny klabin segall, a mudança foi imperceptível mas fiquei sempre com o aviso de kaufmann na cabeça.

faust goethe by harry clarke (50)

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uma crítica ao colonialismo

costuma-se dizer que a primeira parte de fausto é mais íntima e mais interna, as cenas quase sempre acontecendo em locais privados, enquanto a segunda é mais política e mais pública, com cenas descomunais de grandes bailes, grandes batalhas, grandes construções.

uma distinção possível, inspirada pelo comentário de kaufmann, é que a primeira parte é a única realmente alemã.

já a segunda seria mezzo grega, retornando sempre a motivos, personagens, temas clássicos, e também mezzo-americana (ou talvez até africana!), pois o quinto ato, o episódio chamado de “colônia de fausto”, remete às obras e aos crimes cometidos por colonizadores europeus em suas colônias fora da europa.

aliás, não fosse a loucura da era hitler, capaz de fazer um estrago desproporcional ao piscar de olhos histórico que durou, talvez hoje louvássemos o povo alemão como os europeus menos culpados dos crimes do colonialismo.

faust goethe by harry clarke (47)

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meritocracia é coisa do diabo

segunda parte, primeiro ato: mefistófeles faz pouco dos sábios alquimistas que buscavam a pedra filosofal e, ao mesmo tempo, defende a infernal ideia da meritocracia

(eu sempre soube que a meritocracia tinha sido inventada pelo diabo pra foder com a gente!)

“Que o mérito e a fortuna se entretecem,
Em tontos desses é ideia que não medra;
E se a pedra filosofal tivessem,
Ainda o filósofo faltava à pedra.”
(5061-5)

“How closely linked are Luck and Merit,
Is something fools have never known.
Had they the Wise Man’s Stone, I swear it,
There’d be no Wise Man for the Stone.”

faust goethe by harry clarke (20)

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o bem supremo do homem

“estremecer”, ou seja, sentir, emocionar-se, maravilhar-se, “the thrill of awe”, é o bem supremo do homem.

(fausto fala isso com inveja, pois, ao longo de todo o poeta, ele é mostrado como um homem fleumático, impassível, que nada faz “estremecer”.)

“Não viso a enrijecer! Sentir não temo,
É estremecer do homem o bem supremo;
Por alto que lhe cobre o preço o mundo,
Estremecendo, o Imensurável sente a fundo.”
(6271-4)

“And yet in torpor there’s no gain for me;
The thrill of awe is man’s best quality.
Although the world may stifle every sense,
Enthralled, man deeply senses the Immense.”

faust goethe by harry clarke (36)

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ambição destrutiva

segunda parte, segundo ato: manto, profetisa e sacerdotisa de apolo, descreve fausto:

“Esse é a quem amo, quem almeja o Impossível!”
(7488)

“Who yearns for the impossible I love.”

o poema fausto pode ser visto como uma longa descrição de todo potencial destrutivo desse anseio faustiano pelo impossível: que o digam gretchen e sua família, que o digam baucis, filemon e até o pobre náufrago que tinham salvo.

faust goethe by harry clarke (39)

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se não fossem as bruxas, quem iria querer ser diabo?

mefistófeles, fazendo pouco dos homens, trouxas burlados desde adão:

“Homens, nós, sempre essa maldição!
Trouxas burlados desde Adão!
Fica-se velho, mas sagaz?
Não foste já logrado assaz?

Da grei se sabe que não vale nada,
Ventre enfaixado, cara maquilhada;
Para retribuir, não tem nada de são;
Onde se pegue é tudo podridão.
Vemo-lo, ouvimo-lo, sabê-lo cansa,
Mas se a súcia assobia, a gente, ainda assim, dança! …
Se não houvesse bruxas, diabo
Algum ser diabo ainda quisera!”
(7710-7725)

“grei”, que significa “povo”, nesse caso quer dizer, naturalmente, as mulheres, que enfaixam o ventre com corpetes e maquiam a cara.

faust goethe by harry clarke (40)

o significado literal dos últimos versos, em nota de marcus vinicius mazzari, é:

“Se não houvesse bruxas, / Quem, diabo, ia querer ser diabo!”

e eu, que sempre tive tesão só pelas bruxas mais malvadas, dei um sorriso cúmplice: quem nunca fez loucuras por uma bruxa?

(leia meu elogio às malvadas.)

faust goethe by harry clarke (38)

na tradução de priest:

“Cursed fate! Men are but women’s fools!
From Adam down, becozened tools!
Older we grow but who grows wise and steady?
Were you not fooled enough already?
We know that wholly worthless is this race
With pinched-in waist and painted face;
Naught’s wholesome in a folk so misbegotten;
Grasp where you will, in every limb they’re rotten.
We know it, see it, we can feel it,
And still we dance if but the vile jades reel it! …
For if no witches were about,
Why, who the devil would a devil be!”

faust goethe by harry clarke (29)

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a tragédia do colonizador

para quem não se empolgou muito com a primeira parte do fausto, recomendo ler somente o quinto ato da segunda parte, episódio conhecido como “a colônia de fausto”.

em retribuição ao seus serviços ao imperador, fausto recebe um território para colonizar. imediatamente, ele se joga em uma empreitada faraônica, aterrando o mar, irrigando as terras, transpondo os rios.

os planos de fausto ecoam não apenas algumas obras sendo realizadas na época na europa, como o porto de bremen, mas também obras faraônicas então sendo planejadas, como o canal do panamá e de suez. lembrem-se que estamos entrando no século xix, o último século onde o ser humano sinceramente acreditava no progresso e na ciência.

entretanto, para que sejam realizadas essas obras que teoricamente beneficiarão o povo, esse mesmo povo precisa ser desalojado, transferido, escravizado, recrutado, sacrificado.

ou seja, do quinto ato do fausto para as obras para os jogos olímpicos no rio de janeiro, pouca coisa mudou.

faust goethe by harry clarke (49)

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assim é o progresso, bem vindos ao capitalismo!

para mim, esse é o discurso central do poema, que inviabiliza qualquer leitura positiva que se possa fazer do protagonista: egoísta e invejoso, fausto não admite a presença próxima de um casal de velhos camponeses, os únicos que se recusaram a vender sua propriedade, cuja casinha é visível da sacada do palácio de fausto.

eis como ele articula sua indignação para mefistófeles:

“É o que me deixa irado e aflito.
Contigo, esperto e apto, é que falo;
Ofende e fere-me em excesso;
Não me é possível aturá-lo,
E envergonhado é que confesso:
Das tílias quero a possessão,

[duas árvores que havia na propriedade dos velhos camponeses]

Ceda o par velho o privilégio!
Os poucos pés que meus não são
Estragam-me o domínio régio.

[se alguém mais compartilhar isso comigo, então pra mim perde a graça!]

Lá quero armas, de braço em braço,
Andaimes sobre o vasto espaço,
A fim de contemplar, ao largo,
Tudo o que aqui fiz, sem embargo,
E com o olhar cobrir, de cima,
Do espírito humano a obra-prima,
Na vasta e sábia ação que os novos
Espaços doou ao bem dos povos.

[ou seja, para poder doar seu trabalho aos povos, que ele, na sua arrogância, chama de “obra-prima”, fausto precisa primeiro expulsar o povo dali.]

Na posse, assim, mais nos assalta
Mágoa e ânsia pelo que nos falta.
Das tílias o hálito e o perfume,
Bafo de cripta e igreja assume.
Do poderoso o arbítrio férro
Estaca ante um recanto térreo.
Como livrar-me desse fardo!
Toca a sineta, e em cólera ardo. …

[uma sineta que os velhinhos tocavam ocasionalmente e que fausto ouvia]

A resistência, a teimosia,
O esplendor todo me atrofia,
E é só com ira e a muito custo
Que me conservo ainda justo. …

Bem, vai; põe-nos enfim de lado! —
Sabes da bela quintazinha
Que aos velhos reservado tinha.”
(11.234-77)

ao que mefistófeles responde:

“A gente os pega e os bota lá,
De novo em pé ver-se-ão num já;
Compensa o susto e a violência
À farta a nova residência.”
(11.278-81)

à essas ordens oblíquas de fausto, mefistófeles obedeceu matando os velhos e queimando sua casa, morrendo até um visitante que recebiam, velho náufrago que eles tinham salvo décadas atrás.

assim é o progresso. bem vindos ao capitalismo!

faust goethe by harry clarke (55)

na tradução de priest:

“It gives my heart sting after sting;
It is impossible to bear it,
And yet I’m shamed to say the thing.
The old folks there should make concession,
I’d have the lindens for my throne;
The few trees there, not my possession,
Spoil me the world I call my own.
There I would fain, for world-wide gazing
From branch to branch a scaffold raising,
Open to view the course I’ve run,
That I might see all I have done,
View at one glance, before me brought,
The masterpiece of human thought,
Which made a fact shrewd wisdom’s plan
And won broad dwellingplace for man.
Thus suffer we the sorest rack,
Midst riches feeling what we lack.
The chime, the scent of linden-bloom,
Close round me as with church and tomb.
The power of my all-conquered will
Breaks down before that sandy hill.
How shall I ever free my spirit?
The bell rings and I rage to hear it! …
Their opposition, stubbornness,
Spoil the most glorious success,
Till in deep, angry pain one must
At last grow tired of being just. …
Then go and shift them to one side!
You know the farm — it’s small but fair
I’ve chosen for the aged pair.”

“We’ll bear them off and on new ground
They’ll stand before one looks around.
For violence that’s past and done
A pretty dwelling will atone.

faust goethe by harry clarke (53)

* * *

a canção do vigia

outro trecho que ficou famoso é a assim chamada “canção de linceu”, um vigia, que resumiria a concepção religiosa munda de goethe.

os primeiros versos são lindos:

“A ver destinado,
À torra preposto,
Vigia jurado,
O mundo é meu gosto.
Contemplo distante
E próximo observo
O luar no levante,
O bosque, a ave e o cervo.
Assim vejo em tudo
Beleza sem fim,
E, como me agrada,
Agrado-me a mim.
Felizes meus olhos,
O que heis percebido,
Lá seja o que for,
Tão belo tem sido.”
(11.288-11.303)

ao ver a casa dos velhinhos em chamas, linceu lamenta:

“O que a vista deliciava
Com os séculos se foi.”

e comenta michael jaeger, citado por mazzari, em um estudo sobre a colônia de fausto:

“no mar de chamas descrito por linceu consomem-se os vigamentos que sustentam a edificação da cultura europeia”.

faust goethe by harry clarke (15)

na tradução de priest:

“Keen vision my dower,
Placed here for my sight,
And sworn to the tower,
In the world I delight.
I gaze at the far,
I look at the near,
The moon and the star,
The wood and the deer.
In all things around me
Is grace without end,
And as they astound me,
Myself I commend.
Thou fortunate vision,
Thou mayest have seen
Whatever there may be,
Yet fair hath it been.”

“Gone what once the eye delighted,
With the centuries is gone.”

faust goethe by harry clarke (48)

* * *

o paradigma do homem ocidental mimado

fausto, cuja ascensão meteórica foi possibilitada por seu pacto com o demônio, desabafa:

“Pudesse eu rejeitar toda a feitiçaria,
Desaprender os termos de magia,
Só homem ver-me, homem só, perante a Criação,
Ser homem valeria a pena, então.”
(11.404-7)

“Could I all magic from my pathway banish,
Could quite unlearn its spells and bid it vanish
Nature, could I face thee, in thy great plan,
Then were it worth the pain to be a man.”

como indicam as notas de marcus vinícius mazzari, muitas pessoas que leem fausto como uma história de “aperfeiçoamento humano contínuo”, um “movimento ascendente no sentido do humanismo”, etc, costumam citar esses versos em defesa do protagonista.

faust goethe by harry clarke (28)

eu penso o oposto:

para mim, fausto é o paradigmático homem ocidental mimado e egoísta, cuspindo no prato onde se fartou.

o que ele quer é, ao mesmo tempo, a riqueza e o poder que obteve com a mágica e, também, o orgulho meritocrático de ter conseguido tudo sozinho, por conta própria, por esforço pessoal.

como se diz em inglês, to eat his cake and have it too.

faust goethe by harry clarke (18)

* * *

manifesto ateu-materialista

fausto prossegue, na mesma linha, louvando o mundo material, perceptível, humano:

“Pelo mundo hei tão só corrido;
A todo anelo me apeguei, fremente,
Largava o que era insuficiente,
Deixava ir o que me escapava.
Só desejado e consumado tenho,
E ansiado mais, e assim, com força e empenho
Transposto a vida; antes grande e potente,
Mas hoje vai já sábia, lentamente.
O círculo terreal conheço a fundo,
À nossa vista cerra-se o outro mundo;
Parvo quem para lá o olhar alteia;
Além das nuvens seus iguais ideia!
Aqui se quede, firme, a olhar à roda;
Ao homem apto, este mundo acomoda.
Por que ir vagueando pela eternidade?
O perceptível arrecade.”
(11.433-11.448)

“Through the world I have but flown.
Whatever I craved, I seized it by the hair,
Whatever sufficed not, I let fare.
Whatever escaped, I let it go.
I’ve but desired and but achieved, each hour,
And then again have wished, and so with power
Stormed through my life; at first with power and greatness;
But now life moves with cautious, wise sedateness.
Well do I know the sphere of earth and men.
The view beyond is barred to mortal ken;
A fool! who thither turns his blinking eyes
And dreams he’ll find his like above the skies.
Let him stand fast and look around on earth;
Not mute is this world to a man of worth.
Why need he range through all eternity?
Here he can seize all that he knows to be.”

faust goethe by harry clarke (51)

* * *

depressão

surge uma personagem chamada Apreensão, que seria a corporificação desse estado de espírito.

ao falar de si mesma, ela descreve, em forma poética, sensações muito familiares à qualquer pessoa já diagnosticada com depressão:

“Quem possuo é meu a fundo,
Lucro algum lhe outorga o mundo;
Ronda-o treva permanente,
Não vê o sol nascente ou poente;
Com perfeita vista externa
No Eu lhe mora sombra eterna,
E com ricos bens em mão,
Não lhes frui a possessão.
Torna em cisma azar, ventura,
Morre à míngua na fartura;
Seja dor, seja alegria,
Passa-as para outro dia,
Do futuro, só, consciente,
Indeciso eternamente.”
(11.453-11.466)

“Whom I once possess will ever
Find the world not worth endeavour;
Endless gloom around him being,
Rise nor set of sun he’s seeing.
Be each outer sense excelling,
Still is darkness in him dwelling;
He cannot through any measures
Make him lord of any treasures.
All luck turns into caprices;
Him midst plenty hunger seizes.
Be it joy or be it sorrow,
He postpones it till the morrow,
Waiting for the future ever
And therefore achieving never.”

faust goethe by harry clarke (25)

* * *

um resumo da pior ideologia capitalista

a Apreensão cega a fausto (eu não saberia explicar o porquê!) e ele reage à cegueira com mais um discurso titânico de ação, completamente auto-iludido e fora de si:

“A noite cai mais fundamente fundo,
Mas no íntimo me fulge ardente luz;
Corro a pôr termo ao meu labor fecundo;
Só a voz do amo efeito real produz.
De pé, obreiros, vós! o povo todo!
Torne-se um feito que ideei com denodo.
Pegai da ferramenta, enxadas, pás!
Completai logo o traçamento audaz.
Esforço ativo, ordem austera,
O mais formoso prêmio gera.
A fim de aviar-se a obra mais vasta,
Um gênio para mil mãos basta.”
(11.449-11.510)

praticamente um resumo da pior ideologia capitalista.

na tradução de priest:

“Night presses round me, deep and deeper still.
And yet within me beams a radiant light;
What I have planned, I hasten to fulfil;
Only the master’s word has weight and might.
Up from your couches, vassals, every man!
Bring happily to sight my daring plan.
Seize shovel, spade! With all your tools lay on!
The work staked out must with all speed be done.
Strict order and swift diligence
Result in fairest recompense.
To consummate the greatest enterprises
One spirit for a thousand hands suffices.”

faust goethe by harry clarke (9)

* * *

último discurso ao pé da cova

fausto, o homem que fez um pacto com o demônio e acha que domou a natureza, faz seu último discurso capitalista-desenvolvimentista literalmente à beira da própria cova:

“Com rogo e mando,
Contrata obreiros às centenas,
Promete regalias plenas,
Paga, estimula, vai forçando!
De dia em dia deixa-me informado
De como se prolonga a obra do cavado.”

e mefistófeles, que está literalmente cavando sua cova, responde, irônico:

“Trata-se, disso tive nova,
Não de cavado, mas de cova.”
(11.553-11.558)

“Be it done as it may,
Bring crowd on crowd of workmen here!
Spur them with rigour and good cheer,
Entice, coerce, give ample pay!
I wish each day fresh news of what’s been done,
How the groove lengthens that we have begun.”

“The talk was — when the news they gave-
Not of a groove but of a grave.

faust goethe by harry clarke (46)

* * *

mais niilismo

finalmente, morre fausto.

e diz o demônio, em mais um discurso niilista:

“Ao último, oco, insípido momento,
Tenta apegar-se ainda o coitado.
Quem se me opôs com força tão tenaz,
Venceu o tempo, o ancião na areia jaz. …
De que serve a perpétua obra criada,
Se logo algo a arremessa para o nada?
Pronto, passou! Onde há nisso um sentido?
Ora! é tal qual nunca houvesse existido,
E como se existisse, embora, ronda em giro.
Pudera! o Vácuo-Eterno àquilo então prefiro.”
(11.589-11.603)

“The last vile, empty moment — this!
The poor wretch wished to hold it fast forever.
Him who against me stoutly held his stand,
Time conquers — here the old man lies in sand. …
Of what avail’s perpetual creation
If later swept off to annihilation?
“So it is past!” You see what that must mean?
It is the same as had it never been,
And yet whirls on as if it weren’t destroyed.
I should prefer the Everlasting Void.”

faust goethe by harry clarke (56)

* * *

pobre diabo ludibriado

o final do livro é de uma injustiça enorme.

apesar de fausto ter sim feito um pacto satânico, apesar de mefistófeles ter sim cumprido sua parte, apesar de fausto ter sim se mostrado um belo canalha…

no fim, coitado, o diabo perde a alma que deveria ter recebido:

“O corpo jaz e à fuga o espírito se apronta;
O título, ei-lo aqui: firmado em sangue, e idôneo;
O mal é que hoje em dia, há métodos sem conta,
Para se subtrair almas ao demônio.
Por modo antigo a gente ofende,
Não há, por novo, quem nos recomende;
A sós teria o feito dantes,
Hoje preciso de ajudantes.”
(11.612-11.619)

um pobre diabo não pode mais confiar em ninguém.

faust goethe by harry clarke (33)

lamenta-se mefistófeles, após perder a alma de fausto, em suas últimas palavras no poema:

“Foi-se o tesouro! Ao alto a súcia carregou-mo!
Eis por que andaram este túmulo rodeando!
Foi-me abstraída a posse única e rara,
A alma sem par, que se me penhorara:
Raptaram-na, com sutil contrabando.
E pra dar queixa agora, aonde, a quem me dirijo?
De quem meu bom direito exijo?
Logrado em tua idade vês-te!
Passas mal, e além disso o mereceste!
Pudera! fiz asneira grossa,
Tanto aparato, e em vão, tudo esbanjado!
Vulgar luxúria, absurdo amor se apossa
Do Satanás empezinhado.
E se essa farsa infantil, tola e oca,
O esperto e prático embrulhou assim,
De fato a parvoíce não é pouca
Que dele se apossou no fim.”
(11.827-11.843)

“The body lies, and ere the spirit flee,
I’ll quickly show the blood-writ scroll;
But they’ve so many means — alas for me!
To cheat the Devil out of many a soul.
If one pursues the old way, one’s resisted,
And to the new we do not feel commended;
I could of old have done it unattended,
But now I have to be assisted. …

Where have they gone, I wonder?
You have surprised me, young folk though you be,
And flown away to Heaven with the plunder.
Hence played they round this grave so wantonly!
A treasure great, unique, they’ve confiscated.
The lofty soul, to me hypothecated,
Out of my hands they’ve smuggled craftily.
To whom now shall my sad case be presented?
Who’ll get for me my well-earned right?
In your old age you have been circumvented,
But you deserved it, wretched is your plight.
I have mismanaged in disgraceful fashion;
Great outlay shamefully I’ve thrown away.
A vulgar lust, an absurd, lovesick passion,
Led the well-seasoned Devil far astray.
Since with this childish, silly folderol
I — shrewd and would-be wise — obsessed me,
In very truth the folly is not small
That in conclusion has possessed me.”

faust goethe by harry clarke (19)

* * *

e assim acaba o fausto.

* * *

edições utilizadas

fausto I, de johann wolfgang goethe, 1806, alemão. (trad: jenny klabin seagall, 1949.) 20dez15.

fausto II, de johann wolfgang goethe, 1832, alemão. (trad: jenny klabin seagall, 1967.) 22dez15.

faust, parts one and two, de johann wolfgang goethe, 1806-1832, alemão. (trad: george madison priest, 1932)

faust goethe by harry clarke (42)

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todas as ilustrações são do artista irlandês harry clarke (1889-1931), para uma edição norte-americana do fausto, publicada pela hartsdale house em 1925. confira todas as ilustrações aqui. (vale muito a pena.)

faust goethe by harry clarke (45)

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esses textos de leituras são os que me dão mais trabalho e me trazem menos retorno, tanto em termos de feedback quanto de dinheiro. então, se você leu e gostou, se foi útil pra você, escreva e me conte ou faça uma contribuição.

faust goethe by harry clarke (44)faust goethe by harry clarke (8)

§ 2 respostas para fausto, de goethe

  • Ana maria Ferreira Rios disse:

    Estou fazendo um estudo sobre Goethe e comecei a procurar agora . Preciso muito mais e ta dificil achar se puderem me ajudar ficarei grata bjs

  • Alice disse:

    “apesar de fausto ter sim feito um pacto satânico, apesar de mefistófeles ter sim cumprido sua parte, apesar de fausto ter sim se mostrado um belo canalha…

    no fim, coitado, o diabo perde a alma que deveria ter recebido”

    Não é bem assim, O Fausto de Goethe é diferente das versões do mito que vieram antes. Ele não fez um pacto com o diabo propriamente dito, ele fez uma aposta, o que muda toda a dinâmica entre ele e mefisto. Mefisto acredita que pode vencer Fausto, e assim vencer a aposta com Deus. E quem venceu a aposta é discutível. Há argumentos para os dois lados, incluindo uma discussão sobre tempos verbais.

    Mas no geral, adorei seu texto, difícil achar uma discussão legal fora dos meios acadêmicos.

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