diário de uma olimpíada: primeira semana

estou absolutamente feliz com a rio2016: arrumei um celular, voltei ao facebook e estou compartilhando por lá minhas experiências em tempo real.

abaixo, alguns dos menos piores momentos.

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aviso

dá pra ficar feliz e emocionado com os jogos olímpicos e ao mesmo tempo reconhecer todos os problemas sociais do rio, inclusive as remoções. uma coisa nao exclui a outra.

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boxe

estou assistindo boxe leve-ligeiro. sou mais pesado q ambos boxeadores juntos. chato isso.

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luta entre venezuelano e japonês. os brasileiros q torcem pelo venezuelano gritam o nome dele. os q torcem pelo japonês gritam jaspion e jiraya. assim fica difícil, gente.

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no boxe entre argentina e mongólia, público se jogou no grito “vai, seu mongol” sem medo do politicamente correto.

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boxeador budista q faz gashô pro adversario antes de moê-lo de porrada. cenas das olimpiadas.

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os irlandeses são os brancos mais brasileiros. parece q viemos deles e não dos melancólicos portugas.

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as filas que aqui caracolam não caracolam como lá

chego hj no riocentro e fila para entrar esta impossível. eu penso: nunca vou entrar la dentro, eh mt gente! o horror, o horror!

vinte minutos depois, eu estava aqui dentro.

na fila atras de mim, outro carioca nascido e criado pensou a mesma coisa:

“tem alguma coisa errada com essa fila, ela ta andando rápido demais!”

enqt isso, como apontou um jenio no twitter, nosso eixo morumbi-leblon pega 3h de fila na disney e bariloche, e acha tudo lindo; pega meia hora de fila na rio2016 e eh a catástrofe que comprova nossa viralatice.

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remo

bom dia.

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nossa judoca de ouro, rafaela, está aqui na lagoa com a gente, esperando o remo começar, enquanto as nuvens dançam ao redor do cristo e o dia vai abrindo.

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nariz a nariz.

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hoje é dia de festa

respeito muito quem consegue problematizar quando a sua cidade querida está recebendo um milhão de visitantes para um dos maiores eventos da humanidade…

… mas eu (que literalmente ganho a vida problematizando, vide meu livro “outrofobia: textos militantes“) não estou conseguindo, não está dando, mal aí.

quem acompanha minha newsletter já percebeu que não estou conseguindo nem escrever.

tenho passado o dia inteiro emocionado:

emocionado de ver as novas e incríveis construções, como o parque radical de deodoro e o parque olímpico, e ainda mais emocionado de ver tantos e tantos lugares importantes da minha vida, lugares de lembranças carinhosas e memórias fortes, brilhando nas olimpíadas: do riocentro ao maracanã, do sambódromo à lagoa, das ruas de copacabana à marina da glória.

em setembro, volto à programação normal, juro: vou votar no psol e tudo, protestar contra as remoções autoritárias e contra as contas superfaturadas, entre tantos outros problemas e autoritarismos.

esses absurdos eram absurdos ontem (quando passamos anos lutando para termos as olimpíadas que queríamos) e serão absurdos amanhã (quando procuraremos os culpados pelos desmandos das olimpíadas que tivemos) mas hoje, ah, hoje…

hoje, é dia de festa.

hoje, temos um milhão de visitas pra fazer sala.

hoje, temos que dar um jeito pra essa gente comer, beber, dormir, chegar nos lugares, se divertir, não falar mal de nós quando voltar pra casa.

como sabe qualquer folião (e somos uma cidade de foliões) depois da festa, a ressaca é inevitável.

aliás, quanto maior a festa, maior a ressaca.

e a única qualidade redentora da ressaca épica é a gente pelo menos ter se divertido epicamente na noite anterior.

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nessa olimpíada, sete pessoas, de três continentes, passarão pela minha casa. traduzi os cardápios de dois restaurantes de amigas. já perdi a conta de quantas turistas perdidas ajudei.

(a grana que ganho com as turistas olímpicas é a grana que gasto com os ingressos olímpicos: ou seja, olimpicamente fácil vem, olimpicamente fácil vai.)

para mim, a olimpíada também está sendo uma oportunidade de me reconectar com pessoas muito queridas: natação com a amiga querida, remo com a tia, polo aquático com a mãe, argolas com o pai, futebol feminino com a namorada.

se você quiser se juntar a mim, seria lindo. estou até com celular. fala comigo e te passo o número.

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canoagem slalom

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muito vento, muito frio e céu nublado para a final de caiaque slalom no parque radical de deodoro.

esse estadio de canoagem slalom esta sensacional.

tragam casacos: minima no rj para sexta será dez graus.

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brasileiro pedro da silva na final de caiaque masculino. ficou em sexto. resultado inédito.

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pão e circo

conheçam a nova figurinha da esquerda: “o patrulheiro da problematização alheia”.

de repente, ele bate no seu ombro, seríssimo, sempre seríssimo, e proclama:

“o que é isso, companheiro? feliz? rindo? e as criancinhas na áfrica? e os cachorrinhos abandonados? cadê a problematização? cadê o protesto? quer ser feliz, vá pra direita!”

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polo aquático

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brasil perdendo da rússia no polo aquático feminino. ao fundo, a lagoa de Jacarepaguá, onde eu andava de caiaque, décadas atrás.

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ginástica artística

estou na final de ginastica artística feminina por equipes. chorando horrores de pura emoção. uma das coisas mais lindas que já vi na vida. mt mt feliz de estar aqui.

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as ginastas chinesas não tem 16 anos nem aqui nem na china.

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sei que simone biles é uma lenda viva olímpica e que eu contaria aos meus netos, se os tivesse, que eu estava lá quando ela ganhou o ouro na rio2016…

…mas ela me ganhou mesmo MESMO ao usar “mas que nada” em sua apresentação de solo.

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eu nunca tinha visto nenhuma olimpíada, nenhum esporte, pela tv. então, pra mim, tudo é novidade, tudo é maravilha.

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lendo clarice e lobo antunes, eu penso: caralho, não sabia que dava pra fazer isso com a palavra escrita.

vendo ginastica artística, pensei: caralho, não sabia que dava pra fazer isso com o corpo humano.

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gente ruim

estou muito, muito feliz.

algumas pessoas se incomodaram com minha felicidade e vieram me dizer que eu não deveria estar feliz, por esse ou aquele motivo.

desamiguei essas pessoas.

não porque discordo delas – quase sempre eu concordava com todas as suas problematizaçoes.

mas porque só gente ruim vê uma pessoa muito feliz e vai lá encher o saco.

e eu escolho não ser amigo de gente ruim, mesmo se concordar com suas posições políticas.

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heroínas

assisti boxe, esgrima, polo aquático, ping pong, remo, natação, boxe, vôlei etc femininos. tudo, tudo é mais legal feito por mulheres do que por homens.

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melhor celebração

quando acerta um toque, esgrimista estoniana fica de cócoras e grita.

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de longe, tudo parece fácil

michael phelps parece nadar como uma pessoa normal – a gente é q sabe q não.

(como falou alguém, toda competição deveria ter uma pessoa normal na disputa, só pra comparação.)

por enquanto, só dois esportes DÁ PRA VER que exigem habilidades excepcionais:

ginástica artística e ping pong.

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kah ree oh ka

eu não diria que os jogos ajudarão o rio a ficar mais conhecido

(visitei 31 países e nunca encontrei uma pessoa q não conhecesse o rio – sorry, san paolo)

mas, definitivamente, agora o mundo todo passou a conhecer tambem o nosso gentílico:

kah ree oh ka

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tiro ao arco

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qq um q ja tentou acertar uma bolinha de papel num cesto de lixo a dois metros de distancia reconhece q o arco e flecha tb exige habilidades claramente sobre-humanas.

o alvo esta mt mais longe do q parece na tv – e VENTA!

inacreditável o q fazem.

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“o vento tá empurrando a flecha pro 9”: senhorinha do meu lado, melhor comentário.

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eventos

qq um q ja realizou um evento pra 20 pessoas sabe o inferno q eh.

nas olimpíadas, o rio esta recebendo um milhão.

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VENHA!

se você não está no rio e se pode vir ao rio na próxima semana…

…VENHA!

se não tem dinheiro pra hospedagem, fique no sofá de uma pessoa amiga. se não tem grana pra ingresso, perambule pelas ruas. se pode vir só por um dia, venha só por um dia.

até o final da olimpíada, o rio será a capital do mundo e está todo mundo aqui.

menos você.

se não vier, eu te juro, vai passar o resto da vida se arrependendo.

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a ressaca pós-olímpica será violenta e teremos muitos problemas para resolver.

então, vamos aproveitar ao máximo a festa enquanto ela durar.

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só não estrague a festa problematizando, por favor.

aqui no rio, passamos os últimos sete anos de preparação problematizando a festa e lutando para que fosse melhor e mais inclusiva, e passaremos os próximos anos limpando os cacos e procurando pelos culpados pelas merdas que aconteceram, mas, no meio da festa, durante a porra da festa, é hora de receber bem nossas convidadas, aproveitar, celebrar.

comer e beber, pois amanhã morreremos.

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reclamação de uma amiga querida

“tem me irritado um pouco ver os seus posts falando da festa maravilhosa e das pessoas mal humoradas problematizadoras, como se a festa estivesse sendo igual pra todo mundo.”

infelizmente, no mundo desigual e escroto que a gente vive, nada nunca é igual pra todo mundo. e eu sei bem disso.

(aliás, é basicamente só sobre isso q eu escrevo. vide meu livro “outrofobia: textos militantes“.)

tem muita problematização a se fazer, e é claro que um evento pra um milhão de pessoas vai ter uma série de problemas logísticos, e temos mesmo que vigiar e reclamar.

eu, como sempre, só posso falar a partir da MINHA experiência, que tem sido ótima, sempre consciente que a minha experiência ótima não desautoriza ou invalida a experiência péssima de ninguém.

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tenho tentado ir ao máximo possível de lugares, e pegar todos os meios de transporte, justamente para ver como estão as coisas.

já fui à cidade olímpica, ao riocentro, ao estadio de remo, ao parque de deodoro, ao sambódromo, à marina da gloria, ao estadio de vôlei de praia. (semana que vem, vou ver nossas deusas do futebol no maracanã.)

já andei do metrô novo, do brt novo, do vlt novo, já peguei até o trem antigo pra deodoro e o carrinho e o ônibus para pessoas com mobilidade reduzida, acompanhando uma pessoa idosa.

SÓ o que posso relatar é que a MINHA experiência foi ótima

(se falasse o contrário, seria mentira)

mas isso NÃO QUER DIZER que eu ache que todo mundo está tendo a mesma experiência ótima que eu, ou que as MINHAS experiências ótimas invalidem as SUAS experiências ruins.

temos um milhão de turistas na cidade, cada uma delas tendo suas próprias experiências individuais, boas e ruins, ótimas e péssimas, que não anulam umas às outras

e, como eu sempre digo e repito, aproveitemos a festa enquanto ela durar, porque a ressaca vai ser violenta.

no final do mês, as turistas vão embora e somos nós, as cariocas, que vamos ter que limpar a bagunça, catar os cacos e pagar as contas em aberto.

comamos e bebamos, pois amanhã morremos.

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o que é a violência?

“alex, como você pode gostar de um esporte violento como o boxe?”

o boxe não é violento.

a violência, por definição, é não-consensual.

a única diferença entre violência doméstica e um casal praticante de bdsm, entre uma briga de rua e um evento olímpico de boxe, é o CONSENTIMENTO:

é o fato de estarem ali, por vontade própria, de acordo com regras e limites estabelecidos previamente.

chamar isso de “violento” é tirar da palavra todo o seu sentido, toda a sua urgência.

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talvez você ache horrível ou incompreensível um marido aceitar ser surrado pela esposa, pelo prazer sexual de ambos, ou duas mulheres subirem em um ringue para trocar socos, pelo espírito esportivo de ambas.

é seu direito.

eu também acho horríveis e incompreensíveis uma série de coisas, desde alguém se dispor a trabalhar abrindo cadáveres até escalar o everest.

mas respeito que são pessoas adultas e livres, decidindo o que querem fazer de suas vidas, sem precisar nem de meu consentimento nem compreensão.

* * *

naturalmente, todas essas práticas, como tudo que fazem as pessoas humanas, são problemáticas.

e se a esposa só aceitou a tara de dominação para agradar o marido abusivo? e se o moço desprivilegiado teve no boxe sua única chance de subir de vida?

tudo isso é problemático e potencialmente violento JUSTAMENTE porque são situações onde o conceito de CONSENSUAL pode ser questionado.

de um modo ou de outro, voltamos à definição original:

o que define a violência é a falta (ou limitação) do consenso.

* * *

se um casal que troca tapas consensualmente na privacidade de sua casa, ou se uma dupla que troca socos consensualmente na publicidade de um ringue, forem considerados “violentos”, então estaremos esvaziando a palavra “violência” de qualquer sentido.

se formos por aí, jogar grand theft auto ou comer carne também serão “violências” a serem combatidas e proibidas.

* * *

se tudo é violência, então nada é violência.

como combatê-la?

violência é violência.

a natureza violenta da nossa espécie é um dos grandes problemas que a humanidade tenta resolver há milênios.

enquanto não conseguimos, simular a violência de forma vicária e consensual talvez seja uma maneira de canalizarmos instintos que ainda não sabemos como reprimir ou extinguir.

afinal, as olimpíadas também não passam de uma grande guerra mundial estilizada e simbólica:

competimos na quadra poliesportiva para não competirmos no campo de batalha.

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uma última coisa sobre o boxe olímpico:

o objetivo principal é acertar golpes na adversária, não necessariamente machucá-la ou derrubá-la.

como cada “toque” conta ponto, as lutadoras preferem dar mais golpes fracos e vencer por pontos, do que dar golpes fortes e vencer por nocaute — aliás, raríssimo no boxe olímpico.

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quer me encontrar?

aqui vai minha programação para a próxima semana. qualquer coisa, fala comigo.

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domingo 14, 11h-20h, riocentro:

boxe:

fem, médio: preliminar
masc, galo, meio-médio ligeiro: preliminar
masc, meio-pesado: quartas de final
masc, ligeiro: semifinal
masc, mosca ligeiro: final

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segunda, 15, 14h-17h, arena olímpica:

ginástica artistica:

argolas, salto masc, barras fem: final.

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terça, 16, 13h-15h, maracanã:

futebol:

fem: semifinal.

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quarta, 17, 9h-12h, estádio da lagoa:

canoagem velocidade:

canoa individual masc, caiaque individual fem: classificatória

caiaque duplo masc: semifinal

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quarta, 17, 15h-18h, estádio aquático olímpico:

polo aquático:

fem: classificação, semifinal

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quinta 18, 13h-17h, marina da gloria:

vela:

49er masc/fem: final.

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sábado, 20, 14h-16h, riocentro:

boxe:

fem mosca, masc galo, masc médio: final.

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para falar comigo, é só responder esse email. para me seguir no facebook, é aqui.

* * *

pra terminar

noite de sexta, exausto depois de uma semana intensa de olimpíada, relaxando na cantina donanna, em copacabana, em foto da querida juliana cunha.

(clique para ver em tamanho maior.)

alex na cantina donanna por juliana cunha 2016ago12

§ 2 respostas para diário de uma olimpíada: primeira semana

  • jose lauro magalhaes disse:

    Mais um texto – conteúdo – brasil real – parabéns a você e a todos os que nestes 7 anos trabalharam para este acontecimento excepcional.
    abraços

  • Cristiano disse:

    Oi Alex!
    Sou de SP e depois de um ano de preparativos, eu não ia mais à Rio2016, por conta das más notícias da mídia.
    Depois de ler seu artigo “você vai morrer”, decidi na mesma hora QUE IRIA SIM, com meu filho.
    E foi fantástico!!!
    Inesquecível!!!

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