decameron, de boccaccio

notas de leitura sobre o decameron, de boccaccio.

Decameron by Boccaccio, Giovanni.

Decameron by Boccaccio, Giovanni.

em plena erupção da peste negra, um grupo de dez pessoas foge de florença e se isola em uma villa rural.

verdadeiras xerazades medievais, elas mantém a morte afastada contando histórias umas para as outras: dez pessoas, contando dez histórias por dia, durante dez dias. (daí o título decameron.)

nenhuma outra obra da literatura universal acontece sob a sombra de tanta tragédia.

nenhuma outra obra da literatura universal celebra a vida com tanto vigor, com tanta força, com tanta alegria.

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a peste negra

a peste negra matou quase metade da população da europa. é difícil de exagerar (e de conceber) o impacto social de uma doença que, em meros quatro anos, mata metade de um continente. (em algumas regiões do norte da itália, onde se passa o decameron, há estimativas de 80% de mortes.)

em comparação, no traumático onze de setembro, morreram três mil pessoas, ou cerca de 0,01% da população dos estados unidos.

imagine como seria sua vida hoje se metade das pessoas que você conhece tivesse morrido de 2012 pra cá. imagine que você não sabia se você ou suas pessoas mais queridas seriam as próximas vítimas. por fim, imagine como tudo seria pior se você vivesse em comunidades relativamente pequenas e unidas, onde todo mundo se conhecia.

esse é o contexto histórico do decameron.

mas o decameron não é sobre isso.

o decameron é radicalmente o oposto disso.

o decameron é a maior celebração da vida da literatura universal.

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decameron: celebração da vida

li o decameron por sugestão de henry miller, mais um de tantos presentes que esse velho sem-vergonha me deu: era um dos livros que ele lia quando queria se inspirar, se insuflar de energia, alçar voo.

das grandes obras universais, talvez seja a mais acessível: as histórias são curtas, divertidas, fáceis de ler.

o tema principal, sem dúvida, é sexo e adultério, mas sempre de uma perspectiva leve.

boccaccio é como se fosse um nelson rodrigues do bem, sem o lado sádico e reacionário do nosso anjo pornográfico.

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a (a)moralidade do decameron

mais do que isso,o decameron fala de sexo e adultério sem ser moralista.

nas cidades mercantis do norte da itália, começava a nascer um novo tipo de moralidade, mais burguesa e mais flexível, menos aristocrática e menos teocrática.

boccaccio, bardo dessa nova moralidade, não distingue entre amor e sexo, entre o sentimento do amor romântico e o sentimento do amor carnal.

para ele, o ser humano é parte da natureza, dotado de impulsos e vontades que não são éticos nem anti-éticos, mas apenas convenientes ou inconvenientes.

daí o decameron ser um grande elogio à inteligência, pois é através dela que as personagens conseguem tanto usufruir dos seus desejos quanto manter as aparências.

naturalmente, os personagens FALAM muito de amor romântico e virtudes cristãs, mas raramente AGEM de acordo.

mais importante, a voz narrativa não os pune por essas contradições: ao contrário, ela nos apresenta infindáveis trepadas e falcatruas sem nunca aprovar mas também sem nunca condenar.

essa ambivalência moral corre ao longo de todas as cem histórias do decameron como uma fissura geológica, jogando a narrativa contra si mesma e gerando acaloradas discussões que mantém a popularidade do livro há 700 anos.

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literatura em prosa

boccaccio quebra uma série de paradigmas: ele escreve em prosa; na língua vernácula que se falava nas ruas, o italiano; e sobre pessoas do povo.

até então, a literatura só era levada a sério se fosse drama ou poesia; em latim, pois era a língua da alta cultura; e sobre aristocratas e reis.

o decameron é um daqueles raríssimos livros que é tão, mas tão revolucionário que, 700 anos depois, parece até normal.

mas, na verdade, nossa literatura de hoje se parece com o decameron porque ela foi praticamentre inventada pelo decameron.

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o decameron e a grande conversa

durante boa parte da minha infância, a coleção great books of the western world (da qual falei aqui) foi a minha única guia na “grande conversa” que forma o cânone ocidental. (ninguém lia na minha família, então, eu não tinha nenhum “mentor intelectual” para me guiar.)

a própria ideia dessa coleção já é exclusionária e problemática mas, mesmo sem incluir nenhuma pessoa autora não-homem, não-branca, ela mudou minha vida e, com certeza, a de muita gente.

poderíamos ficar eternamente debatendo quem foi e quem não foi escolhida.

dada a limitação conceitual da lista, por exemplo, dá até pra entender porque, digamos, para ficarmos só no século XIX, austen e nietszche não entraram.

na minha área profissional, para dar outro exemplo aleatório, heródoto e tucídides são indiscutíveis, mas eu trocaria fácil plutarco e tácito por tito lívio e políbio. (tito lívio contando a história de aníbal e da guerra púnica foi uma das leituras mais empolgantes da minha infância.)

mas, enfim, nada disso pode ser considerado uma falha da coleção.

todo esse longo preâmbulo foi para dizer o seguinte:

a grande, enorme, gigantesca falha dessa coleção, de acordo com seus próprios critérios e objetivos, é ter deixado de fora o decameron, uma das obras fundadoras da literatura ocidental.

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tem uma coisa que não falei sobre a coleção great books of the western world, e que talvez tenha confundido algumas pessoas:

ela é péssima.

em primeiro lugar, as traduções quase sempre são fracas, antiquadas, cheias de erros.

em segundo, e talvez mais importante, a coleção parte de uma premissa terrível: que os grandes livros são grandes porque falam por si mesmos, logo não são necessárias notas explicativas ou introduções críticas.

ora, em se tratando de textos milenares, escritos em outras línguas, provenientes de outras culturas, repletos de todo tipo de erro factual ou científico já detectado, isso é um patente absurdo.

(quando lutero promoveu a contrarreforma, no século 16, uma de suas premissas era que nenhuma pessoa cristã precisava de qualquer “sábio da igreja” para lhe explicar a palavra de deus: a bíblia seria autoexplicativa, pois o próprio deus insuflaria cada pessoa leitora com o espírito do entendimento correto. como uma reação aos bispos corruptos de roma, até fazia sentido. hoje em dia, porém, o resultado é que as melhores bíblias de estudo, com notas explicativas e contextualização histórica, são as católicas, enquanto a maioria das pessoas que ainda lê a bíblia literalmente, apesar de flagrantes contradições às vezes no mesmo livro, são protestantes.)

mas a coleção serve como um portal.

porque ela está bem ali.

então, se alguém cita as confissões de agostinho, eu posso ir até a minha sala, abrir o livro, conferir a citação, ver seu contexto, talvez me perder um pouco na vida do velho pecador arrependido.

aí, se eu me interessar, se o texto me prender, se eu quiser saber mais, posso correr atrás por conta própria de uma edição melhor das confissões, com uma tradução mais legível, com mais contexto histórico.

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as traduções utilizadas

eu li, basicamente, a nova excelente tradução de ivone benedetti, publicada pela l&pm em 2013, em comemoração dos 700 anos de boccaccio. recomendo para todas as pessoas interessadas: está em catálogo, é fácil de encontrar, fluente, ágil, fiel. os contras: o livro é grande e pesado demais (deveriam ter ou usado papel mais leve ou dividido em dois volumes) e faltam melhores notas explicativas sobre o contexto histórico. (a tradutora conta aqui alguns dos critérios que nortearam a tradução: interessantíssimo.)

li outra excelente tradução, também em catálogo, do mesmo ano, de maurício santana dias, para a falecida cosac naify. o livro é lindo, ilustrado, charmoso mas não tem nenhuma nota explicativa. além disso, pelo quase mesmo preço da tradução acima, você só leva dez das cem histórias.

a edição mais fácil de encontrar no brasil, em sebos e bibliotecas, é a da nova cultural/abril, intitulada “decamerão”, e atribuída a torrieri guimarães em 1970, mas, na verdade, um copidesque de uma tradução anterior de raul de polillo, de 1952. (a indômita tradutora denise bottman conta essa história aqui e aqui.) apesar da fraude, e da falta de notas, a tradução é aceitável e legível: se você não tem oitenta reais pra dar nas traduções acima, se esta está mais acessível, vale a pena ler.

não consegui achar nenhuma tradução para o português em domínio público, mas essa aqui, em espanhol, sem atribuição, é deliciosa de ler e me parece bem acessível.

por fim, utilizei também a edição da penguin organizada e traduzida por. g. h. mcwilliam, em 1972, ainda em catálogo e fácil de encontrar. editoras como a penguin e a oxford publicam edições acessíveis de livros clássicos (muitas vezes, mesmo com o dólar a quatro reais, mais baratas que as brasileiras) mas com um aparato crítico mínimo que nós aqui raramente possuímos.

(repito que estou falando não de mega edições críticas para experts, mas do aparato crítico mínimo para uma leitora não-especialista poder aproveitar a obra em sua totalidade.)

eu li o decameron pela primeira vez lá pelo ano 2000, na tradução torrieri/pollilo: por sugestão de henry miller, foi durante anos o meu livro de banheiro, para ler as curtas histórias enquanto cagava. mas nunca li inteiro, nem na sequência: abria o livro aleatoriamente. (o livro acabou sendo vendido para um sebo.)

em 2005, quando cheguei na universidade da califórnia, berkeley, refugiado do katrina, ganhei um crédito enorme na livraria universitária e, com parte dele, comprei a tradução de mcwilliam, que li as histórias na sequência, mas nunca terminei. (o livro acabou sendo perdido em algumas das minhas cinco caixas de livros que se perderam na volta dos eua.)

finalmente, agora, em dezembro de 2015, eu li as dez histórias da tradução de maurício santana dias e as noventa restantes, na de ivonne benedetti, consultando as notas de g. h. mcwilliam e, ocasionalmente, cotejando trechos das traduções de torrieri/pollilo e da espanhola sem-nome.

decameron, de boccaccio

decameron, de boccaccio

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o decameron do alex castro

para quem não quiser ler todas as cem histórias, eu dou aqui a seleção das minhas 21 favoritas, junto com o resuminho de cada uma, alguns comentários e citações do texto.

basta ler todos para ter uma boa ideia do tom do decameron.

os resumos foram retirados da tradução de torrieri/polillo e as citações, salvo aviso, são da excelente tradução benedetti.

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primeiro dia, primeira novela

“O Senhor Ciappelletto engana um santo frade fazendo-lhe uma falsa confissão; e morre. Em vida tendo sido muito mau, é considerado santo após a morte, passando a ser chamado de São Ciappelletto.”

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segundo dia, sétima novela

“O Sultão da Babilônia faz viajar a sua filha, a fim de que ela se case com o rei do Garbo. Em inúmeras peripécias, passados quatro anos, a jovem cai nas mãos de nove homens diferentes, em diferentes lugares. Por fim, devolvida a seu pai, ainda como virgem, a jovem vai para junto do rei do Garbo, como era a sua primeira intenção, para ser a sua esposa.”

na verdade, seu destinado era o rei do algarve, hoje província meridional de portugal, na época um poderoso reino árabe que abrangia partes do sul da península ibérica e do norte da áfrica.

o final da novela:

“E ela, que com oito homens dormira talvez dez mil vezes, ao lado dele [o rei do algarve] se deitou como donzela e o levou a crer que assim fosse; e com ele viveu feliz como rainha durante muito tempo. E por esse motivo se diz: “Boca beijada não perde ventura; antes, renova como faz a lua.”

nesse caso, acho que a tradução inglesa de mcwilliam passa melhor a ideia:

“A kissed mouth doesn’t lose its freshness: like the moon it turns up new again.”

ou seja, lavou, tá novo.

é por isso que eu amo o decameron.

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segundo dia, décima novela

“Paganino de Mônaco rouba a esposa do Senhor Ricardo de Quinzica; sabendo onde ela está, este vai até lá e se faz amigo de Paganino. Solicita-lhe que devolva a esposa, e ele, desde que ela o deseje, atende-o. Contudo, ela não deseja voltar para junto dele; morrendo o Senhor Ricardo, torna-se esposa de Paganino.”

o resumo não faz justiça à história, cujo grande tema é a obrigação que os maridos têm de satisfazerem sexualmente as esposas. abaixo, trechos do discurso final da esposa, jogando na cara do marido porque o abandonou:

“[S]e era esperto… saberia do que as mulheres novas precisam, além de vestir e comer, mesmo que elas não digam, por vergonha … [M]ais me parecia um pregoeiro de festas e feriados, a tal ponto conhecia essas coisas, de jejuns e vigílias. E digo que, se tivesse dado aos trabalhadores que lavraram as suas terras os mesmos feriados que impunha àquele que deveria lavrar minha rocinha, o senhor nunca teria colhido nem um só grão de trigo. … Da minha honra não conheço ninguém que cuide mais que eu, agora que ninguém pode fazer mais nada; antes tivesse minha família cuidado quando me deu ao senhor! E se naquele tempo não cuidou, não vou eu agora cuidar dela; e se agora estou em pecado mortal, ou se um dia estarei em picudo morteiro, não se preocupe com isso mais do que eu. E digo mais: aqui me sinto mulher de Paganino, em Pisa me sentia sua vadia, pensando se por posições da lua e esquadros de geometria devíamos nós dois fazer a conjunção dos planetas, ao passo que aqui todas as noites Paganino me abraça, me aperta e me morde, e como ele me sova só Deus sabe.”

vale a pena lembrar que durante toda a história ocidental, até começos do século xx, sempre se acreditou que a mulher queria e precisava de sexo muito mais que o homem, um tema recorrente no decameron. essa ideia atual, de que os homens querem mais sexo, é uma invenção do século xx.

naturalmente, como a sociedade sempre foi patriarcal e machista, ambas as crenças, tanto que a mulher que mais como que quer menos sexo, foram usadas para legislar, vigiar, reprimir a sexualidade feminina.

para dar um gostinho da excelente tradução de macwilliam:

“[Y]ou should certainly have had the gumption to realize that a fresh and vigorous young woman like myself needs something more than food and clothes, even if modesty forbids her to say so. And you know how little of that you provided. ‘If you were more interested in studying the law than in keeping a wife, you should never have married in the first place. Not that you ever seemed to me to be a judge. On the contrary, you had such an expert knowledge of feasts and festivals, to say nothing of fasts and vigils, that I thought you must be a town-crier. And I can tell you this, that if you had given as many holidays to the workers on your estates as you gave to the one whose job it was to tend my little field, you would never have harvested a single ear of corn. … ‘As to my honour,’ the lady replied, ‘I mean to defend what remains of it as jealously as anyone. I only wish my parents had displayed an equal regard for it when they handed me over to you! But since they were so unconcerned about my honour then, I do not intend to worry about their honour now. And if I am living in mortar sin, it can be pestle sin too for all I care, so stop making such a song and dance about it. And let me tell you this, that I feel as though I am Paganino’s wife here. It was in Pisa that I felt like a strumpet, considering all that rigmarole about the moon’s phases and all those geometrical calculations that were needed before we could bring the planets into conjunction, whereas here Paganino holds me in his arms the whole night long and squeezes and bites me, and as God is my witness, he never leaves me alone.”

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terceiro dia, primeira novela

“Masetto de Lamporecchio finge-se mudo e torna-se jardineiro de um convento de mulheres; e elas disputam, entre si, para se deitarem com ele.”

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terceiro dia, segunda novela

“Deita-se um palafreneiro com a mulher de Agilulfo, rei; tacitamente, Agilulfo fica sabendo do caso; encontrando o culpado e tosa-o; o tosado tosa todos os demais; e desse modo foge à própria desgraça.”

uma das minhas preferidas. palafreneiro era a pessoa que cuidava dos cavalos, ou seja, era um serviçal muito baixo.

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terceiro dia, terceira novela

“Dando à sua artimanha o aspecto de confissão e de castíssima consciência, uma mulher apaixonada por um jovem leva um frade circunspecto (sem que ele o perceba) a fazer com que seja satisfeita a vontade dela.”

também uma das minhas preferidas. a mulher diz ao padre que fulano estava dando em cima dela: o padre recrimina fulano, e fulano passa a prestar atenção na senhora. ela diz ao padre que fulano lhe deu um presente que uma dama casada não pode aceitar e pede ao padre que o devolva: fulano aceita o presente. finalmente, ela diz ao padre que fulano está passando dos limites, pois aproveitou uma viagem de seu marido, no dia tal e hora tal, para pegar a escada escondida acolá e usá-la para aparecer no quarto dela (!!) e é naturalmente isso que ele faz. final feliz.

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terceiro dia, quarta novela

“Dom Félix ensina ao Frade Puccio de que maneira poderá tornar-se beato, submetendo-se a uma penitência. O Frade Puccio submete-se; enquanto isso, Dom Félix passa ótimos quartos de hora com a mulher do frade.”

era um frade laico, por isso, tinha esposa, aliás, mais uma mulher sedenta de sexo:

“A mulher, que se chamava monna Isabetta. jovem ainda, de vinte e oito a trinta anos, viçosa, bela e roliça, … em virtude da santidade e talvez da velhice do marido fazia frequentemente dietas muito mais longas do que desejaria; e sempre que queria dormir ou, quem sabe, brincar com o marido, este lhe contava a vida de Cristo, as pregações de frei Anastácio ou o lamento de Madalena e coisas desse gênero. … Dom Felice deu-se conta de qual era a coisa de que ela mais sentia falta e achou que, para poupar trabalho a irmão Puccio, talvez pudesse suprir essa falta. …

[Dom Felice diz que irmão Puccio deve ficar a madrugada inteira, rezando, imóvel, em penitência, para alcançar a santidade.]

A mulher entendeu muitíssimo bem o que o monge [Dom Felice] queria dizer com a história de ficar parado imóvel até de madrugada; por isso, achando muito boa ideia, disse que esse benefício ou qualquer outro que ele fizesse por sua alma a deixava contente. …

Continuando dessa maneira a penitência de irmão Puccio e o divertimento da mulher com o monge, várias vezes ela disse brincando a esse último: ‘Você manda irmão Puccio fazer penitência, e quem ganha o paraíso somos nós.’ …

[I]rmão Puccio, enquanto fazia penitência acreditando que ganharia o paraíso, dava-o ao monge, que lhe mostrara o caminho0 para lá chegar mais depressa, e à esposa, que com ele passava grande necessidade daquilo que o senhor monge, muito misericordioso, lhe deu em abundância.”

em outra história (oitavo dia, segunda novela), uma moça fica espantada ao saber que padre “faz dessas coisas” e o padre responde:

“[E] fazemos um trabalho muito melhor, pois nosso moinho funciona com água represada”

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terceiro dia, quinta novela

“Dá o Zima ao Senhor Francisco Vergellesi, o seu palafrém; assim, com licença dele, fala a sua mulher; como esta se cala, ele mesmo responde, fingindo ser ela que responde; e, conforme a sua resposta, segue-se a consequência devida.”

um potencial amante troca um presente ao marido pela licença de falar com sua esposa, desde que ela não responda nada. ainda assim, ele dá um jeito de armar um adultério na frente do otário.

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terceiro dia, décima novela

“Alibeque faz-se eremita, e o Monge Rústico ensina-lhe como se faz para reenviar o diabo ao inferno – iludindo a moça, tendo com a mesma relações carnais. Esta, dona de um “inferno”, deve receber-lhe o “diabo” quando, por orgulho, este levante a cabeça. Tendo seus pais morrido num incêndio, ela é feita herdeira, e Neerbal a desposa. Antes de com ele deitar-se, conta como fazia para servir a Deus, no deserto, criando assim um ditado popular, segundo o qual o “serviço mais prazeroso a ser prestado a Deus é o de colocar o diabo no inferno”.”

se ignorarmos o fato de que a moça, tecnicamente, foi estuprada, a história é de rachar de rir:

“A jovem, que nunca tinha posto diabo nenhum no inferno, na primeira vez sentiu-se um tanto incomodada…:

‘[M]uito má coisa… deve ser esse diabo, porque se até no inferno machuca quando é posto para dentro, imagina em outros lugares.’ …

‘Filha, nem sempre será assim.’ …

[A]ntes de saírem da caminha o puseram para dentro umas seis vezes, até que da última vez lhe abaixaram a tal ponto a cabeça soberba que de bom grado ele sossegou. Mas, como a soberba retornou várias vezes, e a jovem obediente sempre se dispôs a dobrá-la, aconteceu que ela começou a gostar da brincadeira…:

‘[N]ão me lembro de nunca ter feito nada que me desse tanto deleite e prazer quanto pôr o diabo no inferno… Meu pai, vim aqui para servir a Deus e não para ficar sem fazer nada; vamos pôr o diabo no inferno.'”

[A moça queria tanto servir a Deus que o monge malandro não aguentava mais.]

“[Ele] começou a dizer à jovem que o diabo só devia ser castigado ou posto para dentro do inferno quando levantasse a cabeça por soberba…:

‘[A]gora ele está pedindo sossego a Deus.'”

[Finalmente, foi a vez da dona do inferno colocar o dono do diabo contra a parede.]

“‘[S]e o seu diabo já está castigado e não o incomoda, a mim o inferno não dá paz; por isso seria bom que você, com o seu diabo, ajudasse a acalmar a fúria do meu inferno, assim como eu com o meu inferno ajudei a acalmar a soberba do seu diabo.'”

muito justo.

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quarto dia, segunda novela

“Frei Alberto convence certa mulher de que o anjo Gabriel está enamorando dela; e, tomando forma desse anjo, deita-se com ela inúmeras vezes. Depois, receando os parentes dela, joga-se da janela de sua casa, e vai curar-se na casa de um pobre homem. No dia seguinte, este o leva à praça pública, na forma de um homem selvagem. Ali, Frei Alberto é reconhecido e preso pelos frades, e depois encarcerado.”

essa história é analisada nos mínimos detalhes no nono capítulo de mímesis, de erich auerbach, um dos livros mais importantes da minha vida. auerbach não apenas me deu o empurrão final para fazer mestrado e doutorado em literatura mas também, só no primeiro capítulo, ao compará-los, me fez ler dois dos meus três livros favoritos: a ilíada e a bíblia. (o terceiro é declínio e queda do império romano.)

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quinto dia, décima novela

“Pedro de Vinciolo, de Perúsia, não era muito afeito às cousas de que gostam, ou devem gostar, os homens. Para manter a boa fama, entretanto, casou-se com uma fogosa mulher a quem não satisfez pois: “basta uma só mulher para cansar muitos homens, enquanto muitos homens não chegam a cansar uma só mulher”. Esta engendra um encontro com um rapaz que, numa noite em que o esposo sai para jantar em casa do amigo Herculano, vai ter-lhe na casa. Mas o marido logo retorna, dizendo que nem jantar houvera, pois o amigo descobrira um rapaz oculto pela mulher. Tendo ambos fugido, ele voltara. Então a esposa censurou a conduta da outra, enquanto seu amante jazia, por sua vez, oculto num cesto de carregar galinhas. Um jumento, então, pisa-lhe nos dedos, e o moço grita, atraindo a Pedro, que o descobre. Mas, para surpresa de todos, não recrimina a ninguém. No dia imediato o rapaz foi visto, sem saber se na noite anterior acompanhara à mulher ou… ao marido.”

essa história é interessantíssima por dois motivos.

em primeiro lugar, porque ela desenvolve e articula essa concepção generalizada de que as mulheres querem mais sexo que os homens. aqui, uma velha aconselha a pobre esposa insatisfeita, em um discurso muito lúcido sobre as agruras de ser mulher:

“[Os homens] nascem bons para mil coisas, não só para essa [o sexo], e na maioria das vezes são mais considerados na velhice do que na juventude. As mulheres, porém, nascem só para isso e para terem filhos, e por isso os outros lhes dão valor … [E]stamos sempre preparadas para aquilo, mas os homens não … [U]ma mulher pode deixar muitos homens cansados, ao passo que muitos homens não conseguem cansar uma mulher … [V]ocê faz muito bem em pagar seu marido com a mesma moeda, para que na velhice a alma não tenha o que reprovar à carne. Deste mundo cada um tem aquilo que toma, principalmente as mulheres, que precisam aproveitar o tempo que têm muito mais que os homens … [Q]uando envelhecemos nem o marido nem ninguém nos quer ver pela frente … nos enxotam para a cozinha e lá ficamos contando histórias ao gato e tomando conta de panelas e tigelas.”

em segundo lugar, porque aqui o marido não satisfaz a esposa por ser homossexual, o que adiciona um novo elemento à questão:

“[A esposa] vendo que era bonita e viçosa, [sentiu-se] forte e poderosa. … ‘[P]or que casou comigo se mulheres não são do seu agrado? Quem aguenta uma coisa dessas? Se eu não quisesse viver no mundo, teria virado freira; mas querendo viver no mundo, como quis e vivo, se for esperar alegria ou prazer desse aí, acho que vou envelhecer esperando à toa; e, quando for velha e me arrepender, de nada adiantarão as queixas de ter perdido a juventude; e, para achar consolo, ele é um ótimo mestre, pois mostra muito bem como eu posso conseguir prazer do mesmo modo que ele consegue; prazer que em mim é louvável e nele é muito reprovável: nisso só violo as leis, ele viola as leis e a natureza.'”

vale lembrar que, em muitas culturas ocidentais, até pouquíssimo tempo atrás, havia uma categoria de crimes chamados de “crimes contra a natureza” que englobava todo e qualquer sexo cujo fim não fosse reprodutivo, incluindo todos os atos homossexuais e até mesmo sexo anal em casais héteros. em muitos estados dos eua, essas leis só caíram nos último QUINZE anos.

mas, como sempre, a voz narrativa do decameron é moralmente ambígua: mesmo quando condena, é como se estivesse dando uma piscadela para nós.

como observa azzura givens, citada na introdução de macwilliam, no decameron não há imoralidade como tal, e sim a sensação de que o homem é parte de uma natureza não governada por leis ou princípios morais, mas que responde somente a instintos, impulsos e fenômenos biológicos além de qualquer jurisdição ética.

nesse caso, apesar das condenações débeis da voz narrativa, claramente o maior pecado do marido não era transar com homens, mas sim não satisfazer sua esposa. finalmente, quando o marido flagra a esposa com um amante no quarto do casal…. convida o amante para jantar!

“Depois do jantar, o que Pietro estava pensando em fazer para a satisfação dos três me fugiu da mente; só sei que na manhã seguinte o rapaz estava na praça sem saber ao certo a quem tinha feito mais companhia durante a noite, se à mulher ou ao marido.”

na tradução inglesa de macwilliam:

“How exactly Pietro arranged matters, after supper, to the mutual satisfaction of all three parties, I no longer remember. But I do know that the young man was found next morning wandering about the piazza, not exactly certain with which of the pair he had spent the greater portion of the night, the wife or the husband.”

o final feliz, ao não punir e, pior ainda, recompensar o “criminoso contra a natureza” joga por terra as condenações morais anteriores.

afinal, de que lado está boccaccio? o livro é moral ou imoral?

o debate está rolando há 700 anos e não dá mostras de parar.

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sexto dia, quarta novela

“Chichibio, cozinheiro de Conrado Gianfigliazzi, foi por este encarregado de assar um grou que abatera. O cozinheiro, porém, trocou uma das coxas do animal pelos favores de Brunetta e, chamado pelo patrão, garantiu-lhe que os grous têm apenas uma perna. No dia seguinte, foram ambos ao rio onde os pássaros dormiam sobre apenas uma das pernas. Mostrando-as, procurou Chichibio livrar-se do castigo, mas Conrado grita-lhes e, assustadas, as aves baixam sua outra perna. Vendo aquilo, o cozinheiro diz: “Mas ontem o senhor não gritou””

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sétimo dia, quarta novela

“Em Arezzo rico homem chamado Tofano tinha por esposa a bela Monna Guita, da qual tinha ciúmes. Esta, para vingar-se desse sentimento do esposo, deu vasão aos desejos de um rapaz que dela se enamorara. Incentivou as bebedeiras do marido, quando então se encontrava com o amante. Desconfiando, Tofano fingiu certa feita embriagar-se e, quando a mulher saiu, trancou-a fora de casa. Retornando, e vendo que este lhe armara uma cilada, deliberou uma solução: ameaçou atirar-se num poço e todos os arentinos, que não sabiam de suas escapadas, reputariam sua morte ao marido bêbedo. Assim, espertamente jogou n’água uma pedra. Tofano correu para salvá-la mas esta, que se ocultara, tranca-o fora de casa e, então, gritando contra as bebedeiras do marido, escandaliza sua conduta ignóbil. Este consegue voltar para casa, não sem antes permitir à mulher que procedesse como lhe aprouvesse, desde que discretamente.”

a quarta e a quinta novelas do sétimo dia são ambas libelos contra o ciúme. a quarta, acima, termina assim:

“Tofano, vendo … que o ciúme fora um mau conselheiro … [prometeu à esposa] que nunca mais seria ciumento; além disso, deu-lhe permissão para fazer tudo o que quisesse, mas com bastante cuidado, para que ele não percebesse. E assim, ao modo do insensato, depois do prejuízo fez o trato. Viva o amor, morte à guerra, viva toda a nossa companhia.”

seguindo o mote, a próxima novela começa assim:

“[O]s ciumentos são agressores da vida das jovens senhoras e buscam diligentemente a morte delas. … Por isso, … aquilo que uma mulher faz a um marido injustamente ciumento sem dúvida não deve ser condenado, mas louvado.”

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sétimo dia, sexta novela

“Estando com Leonetto, a senhora Isabel é visitada pelo senhor Lambertuccio, por quem é amada; o marido dela volta a casa; e Lambertuccio é despachado com um punhal na mão; em seguida, o marido dela acompanha Leonetto.”

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sétimo dia, sétima novela

“À senhora Beatriz, Ludovico revela o amor que lhe devota; ela manda Egano, seu marido, para um jardim, disfarçado, fingindo ser ela mesma; nesse entrementes, contudo, deita-se ela com Ludovico; depois, levantando-se da cama, Ludovico vai espancar Egano no jardim.”

malvada e esperta, beatriz é das minhas mulheres preferidas do decameron. não satisfeita em trair o otário marido, ela ainda cria uma situação para que ele leve uma surra do amante e não possa nem reclamar depois. tudo para sua “alegria e prazer”.

na cama, depois do sexo, nos braços do amante, ela lhe diz:

“‘Oh, lábios de mel, pegue um bom porrete, vá até o jardim e faça de conta que me cortejou só para me tentar; então comece a xingar Egano como se fosse eu e a lhe dar uma boa tunda com o porrete, porque com isso teremos depois muita alegria e prazer.'”

vale dizer, para quem gosta dessas coisas, que a mulher mais malvada do decameron é monna elena (oitavo dia, sétima novela), que seduz um erudito e faz com que ele fique esperando-a toda uma noite, do lado de fora, na neve, tirintando de frio, enquanto ela, no alto de uma torre, transa com o amante, se excitando muitíssimo de vê-lo sofrendo por ela lá embaixo:

“[P]assaram grande parte da noite em meio a regozijos e prazeres, rindo e escarnecendo do mísero erudito. … ‘O que acha, alma minha, do nosso erudito? O que você acha maior: a sabedoria que ele tem ou o amor que tenho por ele? Será que o frio que eu o faço passar tirará do seu peito aquilo que nele entrou no outro dia com minhas palavras?’ [Ou seja, mostrando ao amante que ele não tem razão para ter ciúme do pobre erudito.] ‘Ah! Vamos nos levantar um pouco e ir ver se já apagou o fogo no qual esse meu novo amante ardia o dia inteiro, segundo me escrevia.’ Levantando-se, foram até a janelinha e, olhando para o pátio, viram o erudito dançar miudinho sobre a neve, ao som do bater de dentes … ‘O que diz, minha doce esperança? Você acha que eu sei fazer os homens dançar sem som de trombetas ou cornamusas? … Vamos lá embaixo até a porta: você fica quieto, e eu falo com ele; vamos ouvir o que ele vai dizer e pode ser que seja mais divertido do que só ver.’ [Ela vai e se excita enormemente só de tripudiar dele.] O amante, que ouvia tudo com supremo prazer, voltou com ela para a cama e pouco dormiram naquela noite; ao contrário, passaram quase o tempo todo a gozar e a escarnecer do erudito.”

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sétimo dia, oitava novela

“Faz-se um homem ciumento de sua esposa; ela, amarrando um barbante a um dedo, no curso da noite, é avisada da chegada do seu amante. O marido percebe a artimanha. Enquanto o marido persegue o amante da esposa, esta põe, na cama, outra mulher, à qual o marido dá uma surra e corta as tranças; em seguida, vai o marido à procura dos irmãos da mulher, e conta-lhes a traição conjugal; percebem os irmãos que a acusação peca pela base; e dizem impropérios ao marido.”

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oitavo dia, primeira novela

“Gulfardo apaixona-se pela esposa de Guasparruolo Cagastraccio, seu amigo. Ao tentar seduzi-la, através de um emissário, porém, ela exige-lhe 200 florins de ouro. Ante a vilania daquela que supunha casta, engendrou o plano seguinte: tomou a quantia emprestada ao próprio marido da infiel e, quando este viaja, vai ter com ela, entregando a quantia diante do mesmo emissário, dizendo-lhe para ser entregue ao marido. Ela nada entende e entrega-se-lhe aos desejos. Tão logo retorna da viagem o esposo, Gulfardo, junto à testemunha, revela que não precisara do empréstimo feito, e que o devolvera à mulher. Esta, sem poder negar o fato, entrega ao marido o pagamento por sua traição que, assim, saiu de graça ao esperto cliente.”

essa história até hoje circula como piada.

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oitavo dia, oitava novela

“Dois moços de Siena, Spinellochio e Zeppa, eram amigos, vizinhos e ambos casados com belas esposas. Spinellochio visitava freqüentemente Zeppa e familiarizou-se com a esposa do amigo, a ponto de deitar-se com ela. Um dia, Zeppa voltou para casa antes da mulher, que chegou e não o viu. E logo chegou Spinellochio e a mulher disse que Zeppa não estava, começaram a se beijar e foram para a cama. Zeppa assistiu tudo em silêncio, tramando a vingança. Quando Spinelocchio saiu, Zeppa prometeu não castigar a esposa se ela cumprisse suas ordens: que chamasse Spinellochio a sua casa na tarde seguinte. E que quando Zeppa chegasse ela fizesse Spinellochio esconder-se num baú, que ela fecharia por fora. Sem escolha, a mulher aceitou. Com Spinellochio trancado na caixa, Zeppa mandou sua mulher convidar a mulher do vizinho, já que Spinellochio não voltaria para o almoço. Mandando que sua esposa saísse, Zeppa revelou à vizinha a traição de que estavam sendo vítimas, e convidou-a a se vingar do marido. Ela aceitou e a vingança se consumou sobre o baú, com Spinellochio a tudo ouvindo, sem reagir. Terminada a vingança, Zeppa chamou a mulher e abriu o baú, revelando a presença de Spinellochio. Acabaram concordando que o melhor seria continuarem em paz e, a partir de então, cada um dos maridos teve duas esposas, e cada esposa, dois maridos.”

o resumo já conta tudo dessa deliciosa história de troca de casais. acrescento apenas a moral da história, já dada no começo:

“[S]e alguém se põe a vingar uma injúria recebida, deve bastar-lhe … não injuriar além daquilo que seja adequado à vingança.”

E o delicioso final:

[Diz Spinellochio] “‘[U]ma vez que entre nós dois tudo é compartilhado, menos as mulheres, que agora passemos a compartilhá-las também.’ … [N]a maior paz do mundo, os quatro almoçaram juntos. E a partir de então cada uma daquelas mulheres teve dois maridos, e cada um dos amigos teve duas mulheres, sem que jamais ocorresse nenhuma discussão ou briga por esse motivo.”

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nono dia, segunda novela

“Uma abadessa ergue-se da cama, às pressas e no escuro, com o fito de ir surpreender uma sua monja, que fora acusada, junto com o próprio amante, no leito. Quem estava com a abadessa, na cama, era um padre; e a abadessa, pensando que punha na cabeça o saltério dos véus, colocou as calças daquele padre. Ao ver isso, a monja acusada fez com que ela notasse o engano; deste modo, a monja foi perdoada; e teve a comodidade que quis, para continuar com o seu amante.”

o final da história traz uma frase que parece resumir a opinião do autor:

[A abadessa] “concluindo afinal que era impossível defender-se dos estímulos da carne; por isso, tal como fora feito até aquele dia, disse que cada uma se divertisse como pudesse, discretamente.”

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nono dia, terceira novela

“Por insistência de Bruno, Buffalmacco e Nello, mestre Simão induz Calandrino a acreditar que está grávido. Calandrino dá, aos tais homens, capões e dinheiro, para que lhe comprem remédios; depois sara, sem dar à luz.”

ao “saber” que está grávido, calandrino se volta para a esposa e solta esse comentário memorável:

“Ai, Tessa, a culpa é sua, que só quer vir por cima: eu bem que dizia.” (trad. benedetti)

“Ai de mim, Tessa, isso é obra sua, que só queria ficar por cima: eu bem que lhe avisei!” (trad. dias)

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nono dia, sexta novela

“Em casa de certo homem, dois jovens hospedam-se; um deles vai deitar-se com a filha dele; e a mulher dele, sem o saber, deita-se com o outro. O rapaz que estava com a filha vai para a cama com o pai dela, e narra-lhe tudo o que aconteceu; fá-lo, porém, pensando contar ao seu colega; fazem os dois uma barulheira; a esposa, que só então toma ciência da situação criada, entra no leito da filha e, em seguida, com algumas palavras, consegue restabelecer a paz.”

mais uma história de todo mundo dorme com todo mundo e, no final, tudo fica bem.

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por fim, o decameron termina com uma breve defesa de si mesmo, sem deixar de conter uma certa dose de pornochanchada:

“E quem pode duvidar de que haja também aquelas [damas] segundo as quais minha língua é má e venenosa … Admito … que as coisas deste mundo não têm estabilidade alguma, que estão sempre mudando, e é isso que poderia ter acontecido com a minha língua; pois … há não muito tempo uma vizinha me disse que a minha língua é a melhor e a mais doce do mundo.”

e assim termina o decameron, de boccaccio.

decameron, de boccaccio

decameron, de boccaccio

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edições utilizadas

decameron, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: ivonne benedetti, 2013.) 29dez15-11jan16. releitura.

decameron, dez novelas selecionadas, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: mauricio santana dias, 2013.)

decameron, vols I e II, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: raul de polillo, 1952, atribuída a torrieri guimarães.)

decameron, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: g. h. mcwilliam, 1972.)

§ uma resposta para decameron, de boccaccio

  • Patricia disse:

    Obrigada pelos resumos e explicações Alex. Estórias maneirissimas graças eles foi possível entender a a importância de estudar pra conseguir ler textos complexos.
    É bom ouvir mensagens diferentes das mesmices de sempre. Mulheres insaciáveis, amei

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