Critérios para dar entrevistas

Quem um escritor de ficção “realmente é” se não a soma de todas as histórias mentirosas que contou ao longo de toda uma vida de trabalho?

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Tenho apenas um critério para dar entrevistas à imprensa: só falo sobre meu trabalho, nunca sobre minha vida pessoal.

Ou seja, se a pauta é não-monogamia, posso participar como um escritor que escreve sobre esse assunto, falando sobre a monogamia como fenômeno social e político, cultural e biológico, sobre como o mundo contemporâneo tem experimentado como novas formas de amar e de organizar relacionamentos, etc.

O que não vou falar, por ser irrelevante e minúsculo diante da enormidade estrutural desse assunto, é sobre minha vida pessoal e meus relacionamentos — que sinceramente não vêm ao caso.

Idem em relação ao minimalismo, simplicidade voluntária, etc: como escritor que escreve sobre esse assunto, posso falar sobre objetos do presente e do futuro, regras que ajudam a acumular menos, estudos que relacionam felicidade a morar perto do trabalho, etc, mas não sobre como vivo minha própria vida.

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Aí você me pergunta:

“Mas, Alex, você não fala sobre a sua vida pessoal nos seus textos?”

E eu respondo:

Sou um autor de ficção, escrevo textos de ficção.

Toda e qualquer anedota aparentemente autobiográfica em meus textos foi inventada por mim, para fortalecer ou ilustrar um argumento, e não possui relação alguma com a realidade.

A verdade raramente é verossímil: quanto mais verdadeiras parecerem as histórias, mais mentirosas serão. Na verdade, quase todas são reais, mas nenhuma é verdadeira. Algumas que digo que aconteceram comigo na verdade aconteceram com outras pessoas. Algumas que digo que aconteceram com outras pessoas na verdade aconteceram comigo.

Para evitar que meus textos se tornassem relatos egocêntricos da minha vida, todas as anedotas autobiográficas são consistentemente contraditórias, apenas acessórios a serviço de algum argumento sendo desenvolvido.

Não dá pra extrair nenhum conhecimento sobre minha vida pessoal, sobre quem eu “realmente sou”, a partir dos meus textos — que são, repito, todos ficcionais.

Aliás, existe isso de “realmente ser”?

Acreditamos mesmo que é possível ler uma entrevista, uma autobiografia, qualquer texto de não-ficção, e realmente conhecer a pessoa autora de qualquer maneira minimamente significativa?

Quem um escritor de ficção realmente é se não a soma de todas as histórias mentirosas que ele contou ao longo de toda uma vida de trabalho?

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O que importa são as ideias sendo expostas, não a pessoa que as está expondo. Você, a pessoa destinatária, é muito mais importante do que eu, a remetente. É você que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem. Meus textos vão dizer o que você disser que eles disseram.

Mas a ficção serve, entre outras coisas, para mostrar às pessoas leitoras que tudo é ficção. A verdade não existe. Tem coisa mais ficcional do que o telejornal da noite, do que um livro de História do Brasil, do que uma biografia de celebridade? É tudo mentira. Tudo. O tempo todo. Especialmente as coisas que batem no peito pra se afirmar verdades verdadeiras.

Qualquer informação que você obtenha nos meus textos deve ser conferida em uma fonte independente antes de ser passada adiante. Então, quando aprender a fazer isso comigo, passe a fazer isso com todas as informações que receber de qualquer pessoa. Porque, no fundo, na prática, estamos todas imersas em nossas pequenas realidades, inventando que somos aquilo que nunca seremos, criando narrativas com base em nossas esperanças e preconceitos.

Somos todas autoras de ficção.

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Criei a minha página Bio, em meu site, justamente para resolver todas as dúvidas sobre a minha vida pessoal.

Todas as informações, oficiais, confirmadas, verídicas, estão lá. Qualquer coisa fora disso é mentira, invenção, fofoca.

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