contos de alex castro

sou escritor profissional. para pagar as contas, preciso escrever muito. nem só ficção, como gostaria. muita polêmica, muita política. nem tudo presta.

não existe nenhum escritor que só tenha escrito o que prestava. como disse maugham, “só os medíocres estão sempre no seu melhor momento”. (má tradução para “only mediocre people are always at their best“, me perdoem, estou num dia ruim.)

o problema é antigo. machado, nelson, clarice, todos ganharam a vida escrevendo pra imprensa, textos diários e interessantes, textos que pagavam as contas, mas não necessariamente que gostariam de eternizar em livro.

(não, não estou me comparando a eles nem em qualidade de produção nem em talento, baco me livre. são infinitamente melhores. mas viveram a mesma vida e encararam os mesmos problemas. tudo o que machado escreveu é incrível: a grande diversão de ler os seus contos é se perguntar qual foi seu critério para querer eternizar uns nos livros e deixar outros esquecidos nos jornais. clarice era ótima nas suas crônicas do jb: quando acertou, foi nossa maior escritora, maior que machado, mas, para poder acertar esses acertos, teve que cometer erros ilegíveis — que lhe adicionam alguma grandeza trágica. já nelson, bem, quanto mais rápido escrevia, melhor era: transformou fofoca tijucana em literatura.)

gostaria de só escrever ficção, mas as contas precisam ser pagas.

separei para vocês os meus melhores textos de ficção que estão circulando por aí:

recentes

escritos em 2012. ainda inéditos em papel. gosto deles. um dia, saem publicados. talvez em versões ligeiramente diferentes.

duas profissões esquecidas do rio antigo

Catava esterco

Ao contrário de tantos pretos, não andava cantando sua ocupação. Puxava a carroça em silêncio, repicando um pequeno sino de cobre. Tinha pudor.

uma cigarrilha apagada

Vou contar pro seu marido.

Ela acorda antes dele. Na mesinha, uma cigarrilha em um cinzeiro de mármore. Pega a cigarrilha, põe nos lábios. Fica olhando pra ele. Dormia de boca aberta. Roncava de leve. Manchinha de baba no travesseiro. Cabelo rareando.

Você tem que contar a verdade.

publicados

ambos estão no meu livro de contos onde perdemos tudo, à venda:

quando morrem os pêssegos (1996)

Ele saíra de casa fazia dois meses, se declarando sem intenções de voltar. Levara só uma valise. Como estava se virando com tão pouca roupa? Belito sempre usou, no mínimo, duas cuecas por dia.

Sobre o aparador, permanecia a marca redonda na poeira. O abajur tinha se quebrado em tantos pedaços que Laís nem tentou colar. Havia sido ela a primeira a falar em separação, é verdade, mas a iniciativa de sair fora de Belito.

de portas abertas (2004)

Acariciei a maçaneta, que soluçou mecanicamente ao meu toque. Amanda eriçou as orelhas e ganiu: por favor, eu não quero ir embora, você prometeu que iríamos ficar juntos pra sempre, que me protegeria e me acompanharia, não pode me largar aqui fora, eu te peço.

rejeitados

escritos há muito tempo. não passaram no meu crivo para saírem em papel. têm o seu valor mas vão continuar só na internet:

a surdez do meu avô (1994)

Eu, na verdade, sei apenas o fim da história e não o começo. Teria ele pensado nisso assim que a viu? Talvez. Pode ser também que sua surdez tenha se desenvolvido somente após alguns anos de tentativas de convivência. Quem sabe?

duas manchas roxas (1996)

Eu tinha que me defender, ou a humanidade não me perdoaria. No quadro geral da vida, quem é a minha esposa? Um nada, um ponto, um ser insignificante. Minha obra, ao contrário, é um legado da coletividade e deve ser preservada a todo custo!

uma questão de fé (1996)

Ao narrar esse conto, não tenho intenção alguma de fazer suspense ou surpreender o leitor, mas apenas de iluminá-lo quanto às circunstâncias que me fizeram sair das trevas do ateísmo e abraçar a fé em Deus.

Coerente a esse princípio, faço questão de adiantar que Anália morre.

grandezas de candura (1994)

Era tarde da noite, estavam todos meio bêbados e alguém fez a pergunta a Tarquínio:

— Qual foi a melhor sensação da sua vida?

sangue e morte na noite de natal (1987)

Por um segundo ele ficou ali, imóvel, sem dizer uma palavra, e dona Gracila, tensa por causa de certos artigos no jornal, também se calou, fazendo o silêncio reinar na sala.

Meu deus!, ela pensou, não é o Nicanor! Esse Papai Noel não é o meu marido!

* * *

muito obrigado à revista fapesp, que comprou e publicou o conto duas profissões esquecidas; ao papodehomem, para quem trabalho como escritor contratado desde 2011 e onde saíram a maioria desses contos; a todos que compraram meus livros e ebooks, e, especialmente, aos mecenas, que doaram e contribuiram diretamente: sem vocês, não dá pra criar literatura.

* * *

gostou? então, compra um dos meus livros. tem o romance mulher de um homem só e a coleção de contos onde perdemos tudo. e que machado te abençoe.

Mulher de Um Homem Só, romance de Alex Castro Onde Perdemos Tudo

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