o porta-retratos sem retratos

18 julho, 2011 § 4

dormi recentemente na casa de uma moça formada em letras. havia um porta-retratos vazio na estante.

em algum momento, presumo, a moça abriu o porta-retratos e retirou dali seja a foto antiga (amigo estremecido? ex-namorado?) ou foto genérica que veio da loja.

então, com o porta-retratos aberto em sua frente, ela poderia ter simplesmente já colocado uma nova foto (amiga recente? sobrinho recém-nascido?) ou guardado o porta-retratos em uma gaveta à espera de momentos recordáveis.

ao invés disso, ela fechou o porta-retratos sem retratos e o colocou, montado, de pé, em lugar de destaque em sua estante. para todo mundo ver o nada. como se fosse o próprio vazio aquele ente querido cuja imagem ela quer preservar, acarinhar, rever.

* * *

um dos livros mais importantes da minha vida é o mumonkan ou, em português, a porta sem porta.

a vida sem rastros

21 junho, 2011 § 31

as cortinas azuis

As cortinas azuis do meu quarto foram instaladas pelo meu colega de casa Roberto em meados de 2007. Uma moça chamada Athena, de São Francisco, estava sublocando meu quarto durante aquele verão. Os verões em Nova Orleans são quentes e bate muito sol no meu quarto de manhã. Athena estava vulnerável, recém-saída de um mau relacionamento, e se apaixonou forte por Roberto. Ele não se apaixonou de volta, mas gostava dela e tentou não feri-la – óbvio que não deu certo. Foram amantes de verão. Transaram na minha cama e na dele. Em algum ponto, talvez em um gesto másculo de carinho protetor, talvez em um gesto egoísta para salvaguardar seu sono, Roberto instalou as cortinas azuis. (Nunca tive cortinas, pois gosto de dormir quando escurece e acordar quando fica claro. Não há despertador melhor do que o sol no rosto.)

Quando voltei para casa em agosto, depois de meses maravilhosos nos braços de Liloló, com anel no dedo e mais apaixonado do que nunca, Roberto já tinha se mudado e Athena (que nunca conheci) voltara para São Francisco. Roberto continuou meu amigo, foi pro Texas, morreu em julho de 2009 e faz muita falta na minha vida. Enquanto isso, nas minhas manhãs mais preguiçosas, as cortinas azuis continuaram sempre me protegendo do sol de Nova Orleans. Nunca conversei sobre Roberto sobre elas: agora me ocorreu que podem também ter sido um presente pra mim.

um grill

O George Foreman Grill na minha cozinha foi presente da Liloló. Pra eu comer mais proteínas e grelhados, e menos carboidratos. Um gesto de amor e cuidado para com seu homem. Não deu muito certo. Prefiro fazer os grelhados na frigideira. O grill é muito difícil de limpar: uso apenas para tostar bagels – ou seja, o inverso do objetivo. Também são presentes da Liloló um acendedor de fogão decorado com maçãs que parou de funcionar faz tempo, mas não joguei fora, e um avental verde e amarelo da Copa de 2006, cuja corda se rompeu, mas não joguei fora.

Liloló e eu nos separamos em janeiro de 2010, sem brigas, mas ela não fala mais comigo: é daquelas pessoas que acham que é melhor assim. Dói um pouco sempre. Dói muito de vez em quando. Os objetos que ela me deu ainda estão aqui, ainda úteis: a cada nova bagel tostada, é como se o amor dela ainda existisse e ainda me desse esse pequeno presente.

a vida sem rastros

Morei na minha casa atual por seis anos, entre 2006 e 2011. Foi sempre uma coisa provisória, só enquanto eu fazia meus estudos, roommates encontrados na Craigslist, sublocando o quarto para passar férias no Brasil. Na minha percepção emocional, sinto como se tivesse sido pouquíssimo tempo. (Em compensação, entre 2002 e 2004, os 22 meses que passei no apartamento onde vivi casado, onde fui delirantemente feliz, onde achei que seria para sempre, ainda me parecem tão vivos que quase posso fechar os olhos e voltar para lá.)

No dia primeiro de julho de 2011, me mudo de Nova Orleans para o Rio de Janeiro: saio dessa casa para não mais voltar, e deixo esses e muitos outros objetos para trás. A caneca da Tabasco que eu não queria que o Nate usasse. O pendurador de bananas enviado, decorado e desenhado pela minha mãe – pois nessa terra não se tem como amadurecer bananas direito. O wok e o liquidificador da Camila.

(Camila chegou em 2008, foi minha melhor amiga por dois anos e foi embora em 2010. Todo sábado, cozinhávamos juntos e víamos Seinfeld. Em 2009, meu presente de aniversário foi um wok. Essa cozinha ainda vibra com o eco das nossas vozes – mas é só porque falamos muito alto. Antes de sair do país, ela me legou seu liquidificador, que mais tarde meu roommate chef, o Nate, rachou tentando bater uma sopa quente. Continuamos usando o liquidificador rachado: em casa de pobre, se usa tudo até o limite. Camila hoje mora em São Paulo e, mês que vem, julho de 2011, eu vou ter a felicidade de estar no seu casamento.)

Nate também vai embora, depois de dois anos em Nova Orleans, tentar a sorte nas cozinhas de Nova Iorque.

A terceira colega de casa, Rebecca, que veio em janeiro de 2010, foi a última que escolhi pessoalmente: quando for embora, talvez daqui a alguns meses, talvez daqui a alguns anos, “Alexandre” vai passar a ser apenas um nome exótico em correspondências que não deveriam mais estar chegando.

Em poucos dias, vão haver duas novas pessoas nessa casa. Que vão comer e cozinhar, dormir e decorar, brincar e brigar. As cortinas azuis – penduradas com amizade, tesão ou egoísmo – vão protegê-las igualmente do sol. O grill da Liloló e o wok da Camila – dados ao amigo com quem se iria cozinhar ou ao homem que se queria cuidar – continuarão sendo usados, pra preparar pratos que eu talvez nunca tenha ouvido falar, por pessoas que nem conheço, conversando e rindo em línguas que eu talvez nem entenda.

Essas pessoas não vão saber a história desses objetos. Não vão saber qual foi dado com amor, com amizade, com tesão. Não vão saber que o Roberto um dia viveu, que a Liloló um dia me amou.

Meu lado historiador não gosta disso. Fico com raivinha dessas pessoas futuras e hipotéticas por ignorarem fatos tão importantes. Penso indignado que é assim que se perde a memória da humanidade. Tenho ganas de colar um post-it dizendo “Cortina pendurada por Roberto Rivera (1976-2009) no verão de 2007”.

Como se a vida só pudesse valer a pena se deixasse rastros, se produzisse memória.

Para essas novas pessoas, os objetos serão apenas objetos. Objetos velhos e já usados de uma casa que estão alugando por pouco tempo, dividindo com estranhos, enquanto terminam um curso, fazem um estágio, escrevem uma tese. Objetos pelos quais não se apegarão. Objetos que não terão problema algum em jogar fora quando pararem de cumprir seus objetivos.

Como tem que ser.

Pois que façam o que não tive coragem. Que usem sem apego. Que joguem fora. Que vivam o momento. E que sejam felizes. Menos quando não forem. E aí, então, depois de um tempo, que sejam felizes de novo.

Como tem que ser.

aconchego no vazio

2 junho, 2011 § 18

Em minha nova casa, não quero ter móveis, nem mesas, nem camas, nem objetos pessoais, nada. Minha vontade é deixar tudo para trás.

“Mas por quê?”, perguntou um amigo.

“Bem, acho que o acúmulo de bens e objetos nos impede de ver o essencial e de se focar no que é realmente importante.”

E ele me fez uma pergunta óbvia e provocadora:

“Ah, é? Mas então o que é realmente importante?”

E aquilo realmente me fez parar, sabe?, porque eu de fato não tinha uma resposta. Gosto desses momentos em que sou interpelado sem uma resposta pronta. É a hora de parar e pensar, reconsiderar e repriorizar. E respondi:

“Olha, também não sei o que é realmente importante, mas uma sala com sofá, carpete e TV tela plana com certeza não é.”

Dizem que minha casa é vazia, espartana, pouco aconchegante (“como é que você vai trazer mulherzinha pra uma casa que não tem nem cama nem água quente?!”), mas vejo aconchego no vazio.

O mundo lá fora já é tão atulhado, voluminoso, lotado: quero abrir minha porta de casa e ver uma sala ampla, deserta, silenciosa, com espaço para os meus pensamentos.

fetichizar a vida

2 junho, 2011 § 14

Todos guardamos objetos relacionados a momentos felizes do nosso passado.

Mas o objeto é só um objeto.

O momento feliz existe (ou não) em nossas memórias. Se o momento feliz está vivo dentro de nós, então o objeto é redundante. Se não está, então o objeto é inútil.

De um modo ou de outro, não há motivo para fetichizar nossas próprias vidas, projetando-a em objetos inanimados.

O momento feliz não está no objeto. Se jogarmos fora o objeto, o momento feliz não vai junto.

Podem experimentar.

você é o que você faz

31 maio, 2011 § 5

Em resposta ao texto do roommate e da caneca, muitos amigos me disseram:

“Alex, não adianta nada você ficar se estressando com isso, essa coisa ficar te remoendo por dentro, e você não falar nada com seu roommate! O que importa de verdade é que isso te incomoda, te faz mal. O que importa é o que você SENTE!”

Eu amo meus amigos, mas deixa eu discordar: o que importa é o que eu FAÇO.

* * *

A Lei Não Tem Espírito: A Lei É a Lei

Outro dia, eu estava conversando com um amigo judeu ortodoxo sobre os truques para burlar o shabat. Para quem não sabe, no shabat (que vai do pôr-do-sol de sexta ao pôr-do-sol de sábado), os judeus não podem exercer nenhuma atividade produtiva ou criadora: o dia deve ser dedicado ao lazer com a família, ao estudo da Lei, à renovação das forças. Em princípio, a regra é essa, mas como a lei foi escrita há milhares de anos, os exemplos específicos incluem acender fogo, raspar couro, agrupar feixes, etc. (Lista completa.) Mais tarde, ao longo dos séculos, painéis de rabinos e sábios foram atualizando as regras. Por exemplo, como “cortar” é proibido, entende-se que é proibido cortar papel higiênico de um rolo ou separar lenço de papel quando um está preso ao outro! Não é à toa que, no sábado de manhã, em São Paulo, se veem tanto judeus ortodoxos por todos os lados: eles estão caminhando para a sinagoga, pois não podem dirigir automóveis. Também não podem fazer coisas como acender a luz ou apertar o botão de um elevador. Para burlar essas regras, surgiram uma série de truques: elevadores que funcionam continuamente, parando em todos os andares, e luzes acionadas por timers ou sensores de movimento. Esse texto, muito completo, comenta todas as 39 proibições e suas aplicações contemporâneas.

(Exemplo de um debate rolando no Parlamento Israelense hoje: grupos ortodoxos de direita querem proibir os computadores do governo de aceitarem pagamento de contas públicas durante o Shabat; grupos seculares de esquerda argumentam que é um absurdo impedir os cidadãos cristãos e muçulmanos de pagar sua luz pela internet no sábado! E por aí vai. Leia matéria completa na The Economist: That Wobbly Balance: Another Row Between the Religious and the Secular in Israel)

Para mim, do alto de minha imensa sabedoria e borbulhante conhecimento da tradição judaica, tudo aquilo era muito estranho e um pouco cínico. Pra começar, os sábios tinham se preocupado mais com a letra da lei do que com o seu espírito. Ok, quando a lei foi escrita, atividades como acender um fogo e escrever (pensem plumas, tintas, pergaminhos, vela) eram muito trabalhosas, etc. Para um judeu de hoje, acender uma luz elétrica, escrever um bilhete ou dirigir não é trabalho nenhum. Mais importante, se você pode dirigir e acender a luz, é provável que possa se divertir muito mais com sua família no Shabat – e não é essa a idéia? Qual é o sentido de continuar proibindo coisas que, hoje, já não dão mais trabalho algum? E, por outro lado, com seus truques sabáticos, me parecia que os judeus estavam tentando ser mais espertos que deus. Mas como se pode burlar a lei de um ser onipotente e onipresente, que tudo sabe e tudo vê, inclusive dentro do seu próprio coração?

Meu amigo riu e disse que eu estava com uma mentalidade muito greco-romana-cristã. Quem se interessa pela intenção do criminoso, ou pelo que passa no coração dos homens, é o sistema jurídico romano baseado em uma moralidade cristã. No judaísmo, o que importa é o que você faz. Deus não está interessado em minúcias. Ele disse que não pode acender fogo nesse período, mas nunca disse que eu não podia acender o fogo antes e deixá-lo aceso. Ponto. O que não foi proibido está potencialmente permitido. Se eu consegui acender o fogo e ainda assim obedecer à lei, melhor pra mim. Não existe “intenção” ou “espírito” da lei. A lei não tem espírito. A lei é a lei. Somos o povo do livro justamente porque, pela primeira vez na história, valia o ESCRITO.

* * *

A Existência Precede a Essência

Sartre ensina que nossa existência precede nossa essência. A frase é difícil de entender a princípio, e é muito mal citada, mas quer dizer somente o seguinte: ao contrário do que dizem as religiões (que temos uma essência, a alma, que é eterna e existe antes e vai existir depois da nossa existência terrena), Sartre diz que nós primeiro começamos a existir e, então, através de nossas escolhas, de nossos gestos, de nosso comportamento, lentamente construímos nossa essência. Ou seja, nossa essência não nos é dada, não é pré-determinada: ela é uma construção DIÁRIA nossa:

“… se Deus não existe, há pelo menos um ser, no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significa então que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente é nada. Só depois será, e será tal como a si próprio se fizer.”

A frase consta da palestra “O Existencialismo é um Humanismo“, dada por Sartre em Paris, em 1946 – logo após a guerra, após a ocupação, após tanta tragédia. É um dos textos mais lindos, mais inspiradores, mais otimistas, mais humanos que o nosso triste século XX produziu. No meu mundo ideal, seria leitura obrigatória pra todas as pessoas. Clique aqui e baixe o texto em um PDF gratuito: é curtinho e muito mais acessível do que os textos filosóficos mais rigorosos de Sartre.

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Homem É Quem se Comporta como Homem

Judith Butler também afirma que não existe essência masculina ou essência feminina. Não existe “ser mulher” ou “ser homem”: nós construímos nossa identidade sexual diariamente, através de nossos atos. Desse modo, “ser homem” nada mais é do que simplesmente se comportar como a sociedade espera (ou determina) que homens se comportem. Não é à toa que muitos pais surtam quando veem seus filhos homens brincando com boneca: de um modo bem real e concreto, não é nem que brincar com bonecas pode fazer com que ele desenvolva tendências homossexuais no futuro, mas sim que brincar com bonecas faz dele, na prática, uma menina hoje, agora! “Ser menina” é exatamente isso.

Em “Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade” (1990), Butler ensina que atributos de gênero não são expressivos mas sim performativos e, portanto, esses atributos constituiriam de fato a identidade que pretendem expressar ou revelar. Em outras palavras, para Butler, ser homem ou ser mulher, ser heterossexual ou homossexual, não são categorias imanentes, pois não existiria uma essência, digamos, masculina que precederia a existência do indivíduo do gênero masculino: masculino seria quem se comporta de acordo com os padrões de comportamento culturalmente definidos como masculinos. Mais ainda, se não existe uma natureza pré-existente das identidades de gênero, então não existem atos sexuais verdadeiros ou distorcidos, e a própria noção de “gênero verdadeiro” revela-se uma manobra destinada a impor a dominação masculina e a heterossexualidade compulsória.

Mais uma vez, pouco importa essa sua tal “essência verdadeira” que ninguém nunca viu. O que determina quem você é são os seus ATOS.

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Slave Is As Slave Does

No século XIX, a Constituição e o Código Civil brasileiros não definiam com clareza o que era um escravo – na verdade, nem o mencionavam, nem reconheciam sua existência. Sem isso, como poderia funcionar uma sociedade complexa e sofisticada como o Brasil oitocentista, uma cultura completamente bacharelista, uma economia totalmente dependente do escravo?

Se não existia definição de escravo, então também não existia essência de escravo. Ou seja, a escravidão não era um SER, era um FAZER. Não existia teoria, somente a prática. Escravo é quem agia como escravo, escravo é quem era escravizado. Consequentemente, quem não agia como escravo, quem não se deixava escravizar… não era escravo! Pois, afinal, tirando o agir como escravo, de que outra maneira saberíamos quem era escravo e quem não era?

Em outras palavras, ecoando Judith Butler, ser escravo era “uma performance”. Como diz Maria Helena Machado, em O Plano e o Pânico:

“a única prova cabal do ser escravo restringia-se ao fato básico de sua condição”.(27)

Ou, como diríamos em inglês, slave is as slave does.

Todas essas contradições vieram à baila em 1882, durante um processo judicial acontecido na Comarca de Caçapava, interior de São Paulo, onde os 80 escravos do falecido Major Francisco Alves Moreira entraram na justiça alegando não ser escravos… porque o dono não os tratava como escravos!

Leiam a história completa no texto: Definindo a Escravidão: Afinal, O Que É um Escravo?

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O Tratamento Não É pra Você, É para os Outros

Por fim, narcisismo e ego são dois dos temas principais de um dos meus blogs favoritos, The Last Psychiatrist. No final de mais um texto sobre o assunto (“The Other Ego Epidemic“), ele responde ao pedido desesperado de um leitor:

“Help me, please, I think I’m a narcissist. What do I do?”

There are a hundred correct answers, yet all of them useless, all of them will fail precisely because you want to hear them.

There’s only one that’s universally effective, I’ve said it before and no one liked it. This is step 1: fake it.

You’ll say: but this isn’t a treatment, this doesn’t make a real change in me, this isn’t going to make me less of a narcissist if I’m faking!

All of those answers are the narcissism talking. All of those answers miss the point: your treatment isn’t for you, it’s for everyone else.

If you do not understand this, repeat step 1.”

Talvez seja simplesmente o melhor conselho que já ouvi na vida.

* * *

Luto diariamente contra duas forças: por um lado, narcisismo, vaidade, ego e, por outro, preguiça, omissão, inércia, apatia. Quase tudo o que faço na vida, eu faço por vaidade. Quase tudo o que eu não faço, não faço por preguiça. Antes de fazer qualquer coisa, eu me pergunto: estou fazendo isso só pra satisfazer meu ego? Antes de recusar qualquer coisa, eu me pergunto: estou deixando passar essa chance por pura preguiça? Gosto de pensar que tenho melhorado com a idade mas, é claro, só estou falando isso pra massagear meu próprio ego. A luta é inglória e não tem cura. “Bom dia, meu nome é Alex Castro e eu não faço nada por pura vaidade há doze horas” – e ninguém aplaude, senão estraga tudo.

Havendo ou não havendo deus, tanto os sábios do judaísmo quanto os ateus existencialistas, tanto as feministas pós-modernas quanto os abolicionistas militantes, parecem concordar em um ponto fundamental. Você será julgado pelos seus atos. Sua essência, sua personalidade, sua sexualidade, vão ser construídos pelas suas ações. Você é o que você faz, pois é através dos seus atos que você interage com o mundo.

E, como no sábio conselho do Last Psychiatrist, ninguém está muito interessado no que você pensa, no que você sente, em toda essa linda complexitude borbulhando dentro de você. Pouco importa se você odeia seu vizinho ou se sonha em comer o cú da própria filha. O que importa é o que você FAZ.

Então, voltando à pergunta inicial, com licença, mas eu posso até ser uma pessoa que se incomoda do roommate usar sua caneca preferida, mas eu não vou ser a pessoa que reclama com o roommate de ele estar usando sua caneca preferida. The treatment isn’t for you, it’s for everyone else. Amém.

“alex, como faço para ser uma pessoa melhor?”

31 maio, 2011 § 3

Muitos leitores admiram o meu “jeito de ser” – ou o jeito que digo que sou. Me escrevem dizendo que tentam ser menos mesquinhos, ciumentos, invejosos, e que é uma luta muito difícil. E me perguntam onde melhorar, o que fazer, como agir!

Eis algumas perguntas que me fazem:

eu quero passar por cima de toda a inveja que sinto de pessoas que conseguem o que eu não consigo. eu sempre acho que tou pra baixo, que sou menos… a partir de agora, vou aprender a sonhar meus próprios sonhos… obrigada.

Não consigo me desapegar da opinião dos outros com leveza. Se eu ficar nervoso consigo me desligar, mas aí não adianta. Só piora. Isso está me deixando louco. Fico com dor de cabeça. Alguma ideia de como fazer isso numa boa?

O que mais me irrita hoje é minha dificuldade de viver o momento, de vive-lo com leveza, bom humor, e de cagar pra opinião dos outros. Isso me deixa fisicamente doente, as vezes. Alguma idéia de como resolver isso?

O que fazer com os preconceitos que tenho e detesto, mas não consigo evitar?

E eu, que não escrevo livro de auto-ajuda, não sou guru e não tenho nenhuma resposta, conto a seguinte historinha.

* * *

Moro com dois roommates. Faz algum tempo, comprei uma caneca térmica transparente na loja da Tabasco – pra quem não sabe, Tabasco é uma marca aqui da Louisiana. Adoro minha caneca da Tabasco. Só bebo café nela.

De uns tempos pra cá, começou a sumir. Fui procurar e descobri que um dos roommates estava usando.

Me irrita bastante querer usar minha caneca e não poder. Afinal, não foi pra isso que eu a comprei? Para poder utilizá-la?

Toda vez que procuro minha caneca e não encontro, fico puto. Fico puto de verdade. Faço diálogos mentais de marchar quarto adentro do meu roommate e dizer coisas como:

“Olha só, vamos fazer um trato? Sim, todo mundo pode usar tudo de todo mundo, mas vamos combinar que cada um tenta usar prioritariamente as SUAS coisas e, se não estiverem disponíveis, as dos outros, ok?”

Com certeza, grande parte dos leitores concorda com minha irritação.

* * *

Pena que ela está errada. É babaca, pequena, mesquinha, egoísta.

O roommate não sabe que a caneca é minha, que eu me irrito que ele a use, que eu só bebo café nela: ele só sabe que não foi ele que comprou mas que ela está no armário junto com outras dez canecas que ele também não comprou. Como ela só some de vez em quando, ele não a usa sempre: deve simplesmente pegar a primeira que aparece e pronto.

Não, eu não uso nada dele. Teoricamente, os objetos de cozinha são de uso comum (facas, panelas, tupperware, canecas, etc), mas eu já tenho as minhas próprias coisas, não preciso usar as de ninguém.

Meu roommate é uma pessoa ótima, linda, aberta, carinhosa, generosa. Um cara realmente desapegado. Trabalhava em uma financeira, num emprego pacato e seguro, largou tudo pra ir fazer escola de culinária, e depois, veio pra Nova Orleans trabalhar no melhor restaurante da cidade, trazendo apenas a bagagem que cabia no seu carro. Ele usa minha caneca porque nem tem a dele.

Imagino que não haveria nenhum problema em falar sobre isso. Tenho certeza absoluta de que ele não teria nenhuma reclamação. Ele é americano, respeita a propriedade privada!

“Olha, sabe como é, eu gosto dessa caneca, só tomo café nela, de vez em quando eu procuro e não encontro, você poderia tentar usar as outras antes de usar essa? Na boa?”

Mas eu não vou falar nada. Porque o problema sou eu.

O problema não é meu roommate (gente boa pra caralho, que outro dia quase deu 50 dólares pra uma velha trambiqueira numa cadeira de rodas) abrir o armário e pegar a primeira caneca que vê pela frente. O problema sou eu ter qualquer tipo de apego a um objeto de plástico vagabundo, que custou 6,99 dólares mais taxes, sem qualquer valor intrínseco ou sentimental.

Eu não quero ser a pessoa que regula uma caneca. Eu não quero chegar pro meu roommate, com a mão das cadeiras e voz irritada, e pedir pra ele por favor não usar a MINHA caneca! Eu não quero aparecer no Passive-Agressive Notes, com um bilhetinho “vamos cada um usar suas próprias canecas?”

Eu não quero ser essa pessoa. Eu não sou essa pessoa. Eu não sou essa pessoa porque eu não quero ser essa pessoa. Eu não sou essa pessoa porque 99,99% de tudo o que acontece no universo (provavelmente mais) está fora do meu controle, mas eu pelo menos ainda tenho controle sobre algumas coisas: eu é que decido se eu vou ser a pessoa babaca e cri-cri que vai reclamar de estarem usando sua caneca.

Poucos conselhos são mais canalhas do que o clássico “seja você mesmo”. A maioria dos problemas do mundo veio de gente que estava simplesmente sendo si próprio. Mais importante do que “ser você mesmo” é ser quem você quer ser. Todas as forças do universo nos impelem a nos conformarmos, a aceitarmos as regras do mundo, a cedermos, nos moldarmos. Ser a pessoa que você quer ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. É uma luta diária, surda, interna, contra seus próprios preconceitos, suas mesquinharias, seus egoísmos.

Quer ser menos invejoso, menos ciumento, menos egoísta? Então, seja.

Ser quem você quer ser é o mínimo que deve a si mesmo. Se você não é nem isso, então você não é nada.

* * *

O texto continua em Você É o que Você Faz

onde estou?

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