a importância dos rituais

nem todo ritual é bobagem.

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tudo é prática

cada palavra conta. cada interação conta. tudo é prática.

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Notas de um retiro em um campo de concentração

Na primeira semana de novembro de 2016 — entre o Dia de Todos os Santos, quando todos os maus espíritos estão soltos no mundo, e uma eleição norte-americana entre uma direitista militarista e um louco racista misógino; enquanto meu país sofre sob um desgoverno ilegítimo e meu estado enfrenta a ressaca pós-olímpica cortando serviços essenciais — participei de um retiro zen-budista em Auschwitz, na Polônia, realizado pela Ordem dos Pacificadores Zen.

Para quem está chegando agora, recomendo começar por meu texto Um escritor no campo de concentração, escrito antes do retiro. Abaixo, algumas palavras sobre a experiência pós-retiro zen em Auschwitz.

tomando sopa do lado de fora do campo de concentração auschwitz-birkenau. tomávamos sopa trazida em um caminhão, sempre com a mesma cumbuca e não podíamos usar colher

tomando sopa do lado de fora do campo de concentração auschwitz-birkenau. tomávamos sopa trazida em um caminhão, sempre com a mesma cumbuca e não podíamos usar colher

* * * » leia o texto completo «

Prisão Conhecimento

Cultivando o não-conhecimento e abraçando a não-certeza, exercendo a não-opinião e praticando o não-debate. Ouvindo e aceitando, acolhendo e abraçando.

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um escritor no campo de concentração

retiro-auschwitz-2

não há nada a ser ensinado. não há nada a ser aprendido. só existe a dor para ser compartilhada.

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cinco perguntas sobre religião

o que é ser uma pessoa religiosa?

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as cinco lembranças

— adoecer faz parte da minha natureza. adoecer é uma lembrança da presença do mundo em mim.

— envelhecer faz parte da minha natureza. envelhecer é o ornamento da minha impermanência.

— morrer faz parte da minha natureza. morrer é uma dádiva da impermanência.

— tudo aquilo que amo ou odeio (objetos, parentes, pessoas amigas e inimigas) também compartilham da mesma natureza impermanente e passageira.

— somente as minhas ações são os meus pertences verdadeiros. não posso fugir às suas consequências. minhas ações são o chão que fazem o meu caminho.

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quem sou eu, uma vídeo-biografia de alex castro

mais e mais pessoas autoras & artistas têm criado vídeos quem sou eu, onde falam sobre suas vidas & suas prioridades, seu trabalho & sua produção.

então, aqui vai a minha vídeo-biografia:

uma biografia em vídeo, do alex castro.

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habitar a dor

diz o budismo que toda emoção é dor: ou ela é literalmente dor, ou ela é uma felicidade transitória que em breve se tornará dor.

tenho algumas ausências que doem todo dia.

mas a ausência só dói porque está vinculada a coisas muito bonitas e incríveis que aconteceram e que fazem falta.

então, quando bate a dor, eu procuro uma dessas lembranças prazeirosas e entro fisicamente dentro dela, como quem entra em um quarto que está lá me esperando, com todos os seus toques, cheiros, sons, palavras.

não faço isso para negar a dor.

(a dor é minha e faz parte de mim. se eu quisesse negá-la, na minha esquina tem uma farmácia cheia de remédio pra isso.)

eu habito o momento de prazer para mostrar à dor de onde ela vem:

“você está doendo hoje, mas é só porque isso aqui ontem, ó, foi bão demais.”

contágio

agora à noite, saindo do inhotim, uma senhora ao telefone:

— oi, meu amor. papai morreu. sim, acabei de saber, nesse minuto. estou aqui no ônibus voltando para bh. ele estava internado e…

a conversa continua. ela ainda faz outras duas ligações: providências a tomar, problemas a resolver, a burocracia da morte.

de repente, em meio àquele breu refrigerado, começa a soar um verdadeiro coro polifônico de vozes sussurradas e luzes azuladas:

— oi, pai.

— liguei só pra ouvir sua voz, papai.

— a bença, meu pai.

— pai, o senhor melhorou da tosse?

— estou aqui em minas e pensei em você, pai.

esse último fui eu.

 

a importância das chaves

na minha rua, tem um chaveiro.

quando ele sai para atender alguém, deixa o quiosque aberto, como se tivesse ido só ali na esquina, mas ainda de olho, já voltando.

as pessoas aparecem para contratá-lo, veem tudo aberto e olham em volta — ele deve estar vindo, não?

mas ninguém chega.

aí perguntam pro garçom do boteco em frente:

“cadê o chaveiro?”

“deve estar atendendo alguém.”

“mas deixou tudo assim aberto e destrancado?! o chaveiro?”

“pra senhora ver!”

as quase-clientes bufam as ventas, circundam o quiosque, batem o pé: não sabem se ficam ou se saem, se guardam o forte ou se quebram tudo. acabam sempre indo embora, frustradas. onde já se viu!?

daqui a pouco, o chaveiro volta, senta lá dentro e espera, plácido, como um mestre zen dentro do seu koan, ensinando uma lição que ninguém compreende.

 

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as oito preocupações mundanas

1. querer elogio

2. não querer crítica

3. querer prazer

4. não querer dor

5. querer vitória

6. não querer derrota

7. querer reconhecimento

8. não querer menosprezo

* * *

sobre zen.

zen

alguns pensamentos esparsos sobre a prática zen.

Aqui existe o vazio

* * *

ontem ao assinar o livro de visitas do templo que frequento, escrevi “alex castro”.

alguns minutos depois, quando outro praticante olhou ali o meu nome e me chamou de “alex”, me bateu um estranhamento.

como se fosse esquisito ser chamado pelo meu nome-fantasia em um templo onde faço votos, entre outros, que a realidade é ilimitada e que devemos percebê-la.

* * *

o que há em um nome?

o nome alex castro nasceu em 2005.

nos primeiros anos, ainda havia uma distinção clara entre as duas identidades: só me chamava de “alex” quem tinha me conhecido pela internet.

mas, nos cadastros de loja, nos sites de compras, no ex-libris dos livros que comprava, eu ainda assinava com o outro nome.

agora, já se vão lá quase dez anos de “alex castro” e ele claramente tomou conta.

até minha companheira me chama de “alex”.

(o pedro dória escreveu  uma coluna sobre a minha mudança de nome para a folha. não dá pra saber com certeza se ele está zoando de mim ou não.)

* * *

sempre que menciono essa história, alguém pergunta:

“mas qual é seu nome verdadeiro?”

e me parece uma pergunta tão estranha!

ora, todos os meus nomes são verdadeiros. como não seriam?

mas, se você colocasse uma arma da minha cabeça e me mandasse escolher um, com certeza o meu nome mais verdadeiro, entre tantos nomes pelos quais respondo, é o nome que eu mesmo inventei, que eu mesmo me dei, o nome que a maioria das pessoas que me conhece associa a mim.

alex castro. muito prazer.

* * *

samsara

comecei a praticar o caminho no templo zen de nova orleans (nozt.org) e agora pratico no templo zen de copacabana (sanghazen.com.br), dois lugares fortemente associados a putaria, sexo e turismo sexual.

isso deve querer dizer alguma coisa. não sei bem o quê.

como disse uma moça nas últimas prisões, fazer ecovila de permacultura na serra da mantiqueira é fácil: quero ver fazer na avenida brasil!

* * *

o veneno e o antídoto

promovo os encontros “as prisões” porque eles ajudam alguns seres e porque são uma maneira digna e decente de ganhar a vida.

mas, pessoalmente, eles me fazem um certo mal.

meu principal projeto de vida hoje é o não-ego. sair de mim. ser menos auto-centrado.

e passar todo fim de semana cercado de pessoas que me admiram e, muitas vezes, viajaram longe e pagaram caro para estar comigo, só atrapalha.

encaro esses ossos-do-ofício como o meu atual desafio: promover o encontro “as prisões” sem deixar que ele me suba à cabeça.

para isso, a prática diária do zen é fundamental.

no templo, ninguém sabe quem eu sou, ninguém liga pra mim, ninguém leu meus textos, ninguém quer saber o que tenho a dizer. eu chego, sento, quebro o pão, varro o quintal, vou embora.

ontem, passei vários e vários longos minutos limpando cocô de passarinho do corrimão da escada externa.

e foi bom.

* * *

recomendações de leitura

sempre deixando claro que eu não sei nada sobre zen e não tenho autoridade alguma para me manifestar publicamente sobre zen, esses são os livros básicos e introdutórios que estão disponíveis em português e me ajudaram nos primeiros passos no caminho.

* * *

zen em quadrinhos, tsai chih chung

um dia, uma namorada me deu esse livrinho pra ler, dizendo que muitas dessas histórias pareciam com o meu “jeito”.

esse livro não é trivial. ele é uma quadrinização de alguns dos koans mais importantes do zen. (koan: uma narrativa que contém elementos inacessíveis à razão.)

abaixo, alguns dos meus preferidos.

leia o livro online, gratuitamente.

* * *

introdução ao zen-budismo, d. t. suzuki

depois disso, curioso, comecei a procurar mais e caí nos livros de d. t suzuki, em especial esse introdução ao zen budismo.

suzuki, um japonês leigo que escrevia em inglês, foi o grande introdutor e popularizador do zen no ocidente.

muitos estudiosos consideram que suzuki não só está superado como que distorceu muito do zen para torná-lo mais palatável à sensibilidade ocidental.

mas a verdade é que funcionou: para mim e para muitos, muitos ocidentais, suzuki foi quem nos interessou, empolgou, fisgou para o zen.

linksverbete na wikipedia // pdf em inglês // em português, na saraiva // em inglês, na amazon

* * *

budismo sem crenças, stephen batchelor

suzuki me atiçou o interesse intelectual e comecei a ler mais sobre zen.

naturalmente, ler sobre zen e nada é a mesma coisa. “interesse intelectual” é um outro modo de dizer “capricho intelectual”.

o zen é uma prática.

quem me fez finalmente começar a praticar foi esse livro.

embasado por uma leitura rigorosa dos sutras, batchelor propõe que não é preciso ser religioso, místico ou deísta para praticar o caminho.

para ele, o caminho é agnóstico.

(sutra: escrituras canônicas que são tratadas como registros dos ensinamentos orais de buda gautama.)

naturalmente, as ideias de batchelor são radicais e polêmicas, especialmente entre as muitas e muitas pessoas que consideram o caminho sua religião.

batchelor é polêmico mas respeitado. questionam suas ideias mas o levam a sério. em outras palavras, sua interpretação do caminho é viável e válida.

e, assim, satisfeito que eu não estaria me tornando uma pessoa religiosa por trilhar o caminho, eu visitei um templo zen pela primeira vez e comecei a praticar.

linksem português, na saraiva, ou em inglês, na amazon.

* * *

o que faz você ser budista?, dzongsar jamyang khyentse

por fim, um livro que não foi especialmente importante para mim, mas que é a melhor obra de referência em português, acessível e recente, para explicar budismo para leigos.

quando comecei a frequentar um templo zen e minha família, coitada, não entendeu bulhufas, foi esse livro que dei para eles lerem.

linksna saraiva, em português, ou na amazon, em inglês.

* * *

viver sem esperança

um trechinho do livro sempre zen, de joko beck:

“uma vida vivida sem esperança é pacífica, alegre e compadecida. enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo — e todos fazem isso —esperaremos que aconteçam coisas que, em nossa opinião, tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. esperamos ter sucesso. esperamos ter saúde. esperamos alcançar a iluminação. há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça; e, evidentemente, toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. a pessoa que já praticou o sentar, seja qual for o período que durou sua prática, sabe que não existe passado ou futuro, exceto em nossa mente. não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí, presente. …

o que de fato queremos é uma vida natural. mas nossas vidas são tão artificiais que essa busca, no começo, é bastante difícil.

apesar de estarmos começando um novo caminho, trazemos as mesmas atitudes que tínhamos anteriormente: não achamos mais que a resposta está em um novo carro de luxo, mas sim em alcançar a iluminação. continuamos na mesma corrida, apenas trocamos o troféu. agora temos um novo “se ao menos”: “se ao menos eu conseguisse entender um pouco melhor o universo, então eu seria feliz”; “se ao menos eu conseguisse atingir uma pequena experiência de iluminação, então eu seria feliz”, etc, etc.

muitas de nós acreditamos que se tivéssemos um carro maior, uma casa mais bonita, férias mais longas, um patrão mais compreensivo, ou um parceiro mais interessante, nossas vidas seriam muito melhores. não há quem não pense assim.

passamos a vida pensando que existe o “eu” e que existe essa outra coisa separada, “o tudo que não sou eu”, que nos causa alternadamente dor ou prazer. assim, evitamos tudo que nos fere ou desagrada ou causa dor; e buscamos ou toleramos ou aceitamos tudo que nos agrada ou nos envaidece ou nos causa prazer, fugindo de uns e perseguindo outros. sem exceção, todos fazemos isso.

ficamos apartados da vida, olhando para ela de fora para dentro, analisando, fazendo cálculos como “e o que eu ganho com isso? será que vai me trazer prazer ou conforto? será que devo fugir?” sob nossas fachadas agradáveis e amistosas, existe muita ansiedade.

se nosso barco cheio de esperanças, ilusões e ambições (de chegar a algum lugar, de tornar-se espiritual, de ser perfeito, de alcançar a iluminação) vira de cabeça pra baixo, o que é esse barco vazio? o que sobra? quem somos nós?”

* * *

sua vida, de cabeça pra baixo

um trechinho do livro not for happiness, de dzongsar jamyang khyentse, o mesmo autor de o que faz você ser budista:

“esses dias, o objetivo de muitos ensinamentos é fazer as pessoas “se sentirem bem”, validando seus egos e suas emoções. mas é um erro considerar que a prática do caminho vai nos acalmar ou nos ajudar a viver uma vida tranquila. se você só está preocupado em se sentir bem, melhor fazer uma massagem relaxante ao som de uma música new age.

o caminho não é terapia. pelo contrário, ele foi elaborado sob medida para expor nossas falhas e virar nossa vida de cabeça pra baixo.

aliás, se você pratica o caminho mas sua vida ainda não virou de cabeça pra baixo, então sua prática não está funcionando.”

* * *

o zen enquanto paliativo consumista

hoje em dia, no ocidente rico (inclui o eixo morumbi-leblon), onde pessoas brancas ricas e bem-educadas morrem de culpa de seus níveis insustentáveis de consumo, uma meditaçãozinha com uma ioguinha, uma bananinha orgânica fair trade com um ovinho free-range, fazem com que pessoas politicamente alienadas pensem que estão fazendo alguma coisa para ajudar o mundo.

como disse o zizek, você tem o prazer de comprar o produto e ainda compra junto a redenção da sua culpa consumista. é perfeito.

sob esse aspecto, o zen ocidental pode ser considerado sintoma de uma sociedade doente.

nada disso é razão para deixarmos de praticar. mas não podemos ignorar nosso contexto cultural.

(um artigo e uma palestra do zizek: from western marxism to western buddhism & , parodiando weber, the buddhist ethic and the spirit of global capitalism.)

* * *

as cinco lembranças

– adoecer faz parte da minha natureza. adoecer é uma lembrança da presença do mundo em mim.

– envelhecer faz parte da minha natureza. envelhecer é o ornamento da minha impermanência.

– morrer faz parte da minha natureza. morrer é uma dádiva da impermanência.

– tudo aquilo que amo ou odeio (objetos, parentes, pessoas amigas e inimigas) também compartilham da mesma natureza impermanente e passageira.

– somente as minhas ações são os meus pertences verdadeiros. não posso fugir às suas consequências. minhas ações são o chão que fazem o meu caminho.

* * *

minhas poesias zen favoritas.

* * *

o que aprendi na prática zen

assim que assumo a posição de meia-lótus, cruzo as pernas e pouso as mãos em frente ao umbigo, é nessa hora que meu nariz coça.

primeiro, vem a negação, imediatamente seguida pela revolta. caralho, não acredito que meu nariz escolheu coçar justo agora. putaqueopariu.

quanto mais tento esvaziar a mente, mais a coceira aumenta. em breve, a coceira está do tamanho do mundo. a coceira é maior do que eu, do que a vida, do que kafka, do que o sol, do que a vacuidade, dp que a morte.

a coceira é o universo. ali. na ponta do meu nariz.

mas não posso me mexer.

aí, vem a barganha.

que besteira!, penso. ninguém vai me ver. estão todos sentados, voltados pra parede, concentrados na prática. e, afinal, o que tem de mais coçar o nariz? o nariz não está coçando mesmo? não sou livre? não estou no templo praticando zen por vontade própria? não posso me levantar e ir embora a qualquer momento? por que não poderia coçar o nariz?

mas não. vai fazer barulho. o cotovelo vai estalar. o tecido da minha roupa vai farfalhar. naquele silêncio absoluto, esses sons seriam quase ensurdecedores.

então, a coceira some.

como tudo no universo, como nossas vidas, como as árvores, como o próprio sol, a coceira também passa.

porque se eu sinto coceira e não preciso coçar, então eu posso sentir fome e não preciso comer. posso sentir cansaço e não preciso sentar. posso sentir ira e não preciso gritar. posso sentir desprezo e não preciso humilhar.

porque a fome, o cansaço, a ira, o desprezo também passam.

viver sem esperança

um belo texto de charlotte joko beck. um trecho:

Uma vida vivida sem esperança é pacífica, alegre e compadecida. Enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo — e todos fazem isso —esperaremos que aconteçam coisas que, em nossa opinião, tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. Esperamos ter sucesso. Esperamos ter saúde. Esperamos alcançar a iluminação. Há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça; e, evidentemente, toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. A pessoa que já praticou o sentar, seja qual for o período que durou sua prática, sabe que não existe passado ou futuro, exceto em nossa mente. Não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí, presente.

leiam o texto inteiro: sem esperança.

simplicidade voluntária

no programa capital natural, da bandnews, falando sobre simplicidade voluntária.

zazen

assim que assumo a posição de meia-lótus, cruzo as pernas e pouso as mãos em frente ao umbigo, é nessa hora que meu nariz coça.

primeiro, vem a negação, imediatamente seguida pela revolta. caralho, não acredito que meu nariz escolheu coçar justo agora. putaqueopariu.

quanto mais tento esvaziar a mente, mais a coceira aumenta. em breve, a coceira está do tamanho do mundo. a coceira é maior do que eu, do que a vida, do que kafka, do que o sol, do que a vacuidade, dp que a morte.

a coceira é o universo. ali. na ponta do meu nariz.

mas não posso me mexer.

aí, vem a barganha.

que besteira!, penso. ninguém vai me ver. estão todos sentados, voltados pra parede, concentrados na prática. e, afinal, o que tem de mais coçar o nariz? o nariz não está coçando mesmo? não sou livre? não estou no templo praticando zen por vontade própria? não posso me levantar e ir embora a qualquer momento? por que não poderia coçar o nariz?

mas não. vai fazer barulho. o cotovelo vai estalar. o tecido da minha roupa vai farfalhar. naquele silêncio absoluto, esses sons seriam quase ensurdecedores.

então, a coceira some.

como tudo no universo, como nossas vidas, como as árvores, como o próprio sol, a coceira também passa.

porque se eu sinto coceira e não preciso coçar, então eu posso sentir fome e não preciso comer. posso sentir cansaço e não preciso sentar. posso sentir ira e não preciso gritar. posso sentir desprezo e não preciso humilhar.

porque a fome, o cansaço, a ira, o desprezo também passam.

uma caneca

de repente, minha caneca térmica de tomar café começou a sumir. fui procurar e descobri que um dos colegas de casa, o nate, estava usando.

uma caneca.

me irrita bastante não ter acesso a minha caneca. afinal, não foi pra isso que eu a comprei? para beber café?

toda vez que procuro minha caneca e não encontro, fico puto. fico puto de verdade. ensaio diálogos mentais de marchar quarto adentro do nate e dizer coisas como:

olha só, vamos fazer um trato? sim, todo mundo pode usar tudo de todo mundo, mas vamos combinar que cada um tenta usar prioritariamente as suas coisas e, se não estiverem disponíveis, as dos outros, ok?

talvez muitas pessoas concordassem com essa minha irritação.

pena que ela está errada. é babaca, pequena, mesquinha, egoísta.

o colega de casa não sabe que a caneca é minha, que me irrito que ele a use, que só bebo café nela: ele sabe apenas que não foi ele que comprou mas que ela está no armário junto com outras dez canecas que ele também não comprou. como ela só some de vez em quando, ele não a usa sempre: deve simplesmente pegar a primeira que aparece e pronto.

não, não uso nada dele. teoricamente, os objetos de cozinha são de uso comum (facas, panelas, potes, canecas, etc), mas eu já tenho as minhas próprias coisas, não preciso usar as de ninguém.

o nate é uma pessoa ótima, linda, aberta, carinhosa, generosa. um cara realmente desapegado. trabalhava em uma financeira, num emprego pacato e seguro, largou tudo pra fazer escola de culinária, e depois, veio pra nova orleans trabalhar no melhor restaurante da cidade, trazendo apenas a bagagem que cabia no seu carro. ele usa minha caneca porque nem tem a dele.

imagino que não haveria nenhum problema em falar sobre isso. tenho certeza absoluta de que ele não teria nenhuma reclamação. ele é norte-americano, respeita a propriedade privada!

olha, sabe como é, eu gosto dessa caneca, só tomo café nela, de vez em quando eu procuro e não encontro, você poderia tentar usar as outras antes de usar essa? na boa?

mas não vou falar nada. porque o problema sou eu.

o problema não é o nate (uma pessoa generosa que outro dia quase deu cinquenta dólares pra uma velha trambiqueira numa cadeira de rodas) abrir o armário e pegar a primeira caneca que vê pela frente. o problema sou eu ter qualquer tipo de apego a um objeto de plástico vagabundo, que custou 6,99 dólares mais impostos, sem qualquer valor intrínseco ou sentimental.

não quero ser a pessoa que regula uma caneca. não quero chegar pro meu colega de casa, com a mão das cadeiras e a voz irritada, e pedir pra ele por favor não usar a minha caneca! eu não quero escrever bilhetinhos “vamos cada um usar nossas próprias canecas?”

eu não quero ser essa pessoa. eu não sou essa pessoa. eu não sou essa pessoa porque eu não quero ser essa pessoa. eu não sou essa pessoa porque 99,99% de tudo o que acontece no universo (provavelmente mais) está fora do meu controle, mas eu pelo menos ainda tenho controle sobre algumas coisas: eu posso até ser uma pessoa que se incomoda do colega de casa usar sua caneca preferida, mas eu decido não ser a pessoa que reclama com o colega de casa de ele estar usando sua caneca preferida.

poucos conselhos são mais canalhas do que o clássico “seja você mesmo”. a maioria dos problemas do mundo veio de gente que estava simplesmente sendo si próprio.

mais importante do que “ser você mesmo” é ser quem você quer ser. todas as forças do universo nos impelem a nos conformarmos, a aceitarmos as regras do mundo, a cedermos, nos moldarmos. ser a pessoa que você quer ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. é uma luta diária, surda, interna, contra seus próprios preconceitos, suas mesquinharias, seus egoísmos.

se quero ser menos invejoso, menos ciumento, menos egoísta, então, basta ser.

ser quem eu quero ser é o mínimo que devo a mim mesmo. se não sou nem isso, então não sou nada.

a solidão é um egoísmo

narciso.

ninguém reclama “estar sozinho”, sente “vazio existencial”, ou quaisquer outros desses caprichos bem-alimentados, quando está ouvindo, acolhendo, se doando para outra pessoa.

narciso não estava só: ele tinha seu reflexo.

um pouco sobre bashô

cinco haicais

escritos na juventude de bashô, entre 1666 e 1672.

na festa junina
corações desencontram
chuvorgasmo

* * *

botões de flor
pena que primavera não abre
uma bolsa de poemas

* * *

dentro da igreja
fiéis não têm como saber
cerejeiras em flor

* * *

casal de veados
pêlo no pêlo em consenso
pêlo tão duro

* * *

broto de bambu
gerações também escorrem
pelo orvalho

* * *

algumas notas

no original do primeiro haicai, bashô faz referência a um festival de verão, frequentemente interrompido por chuvas, onde havia o equivalente das nossas simpatias românticas de santo antonio nas festas juninas. a última palavra é um neologismo entre chuva e orgasmo.

no original do terceiro haicai, ao invés de “igreja”, bashô cita o nome de um templo budista. esse haicai é geralmente considerado uma crítica ao egocentrismo das pessoas religiosas que “rezam” muito mas não enxergam o mundo a sua volta.

em suas cartas, bashô revelou desejos homoeróticos que não se sabe se realizou. o quarto haicai é geralmente lido sob essa luz. é interessante a repetição da palavra “pêlo” três vezes. o animal “veado” tem uma conotação homossexual em nossa cultura, mas não, que eu saiba, na japonesa.

* * *

bashô é um dos grandes nomes da literatura mundial e mestre reconhecido em haicai. as versões acima, libérrimas, são minhas, baseadas na tradução inglesa muito bem anotada por jane reichhold, publicada pela kodansha.

* * *

basho

a bananeira

em 1680, um estudante deu a bashô uma muda de bananeira para seu jardim, uma árvore muito rara e exótica no japão. sobre ela, o poeta escreveu:

“suas flores, ao contrário de outras, não têm alegria alguma. seu tronco é intocado pelo machado, pois sua madeira não serve para nada. porém, amo essa árvore por sua própria inutilidade. … sento sob suas folhas e aprecio ver o vento e a chuva soprando contra ela.”

pouco depois, o poeta mudou pela última vez de pseudônimo e passou a assinar “bashô”, nome pelo qual está eternizado.

em japonês, “bashô” quer dizer “bananeira”.

* * *

a libélula

um dos alunos de poesia de bashô veio mostrar a ele, empolgado, um haicai sobre arrancar as asas de uma libélula para deixá-la parecida a uma pimenta vermelha.

bashô, que não tolerava crueldade nem no faz-de-conta, sugeriu trocar a ordem dos fatores: acrescentar asas a uma pimenta vermelha para deixá-la parecida a uma libélula.

compromisso público

não sou guru, coach, terapeuta. não escrevo auto-ajuda.

não quero te convencer, não quero que você mude, não te digo o que fazer, não aponto dedos na sua cara, não te acuso, não te peço para concordar comigo.

não sou melhor que você, não levo uma vida melhor que a sua, não vendo meu estilo de vida.

não debato, não respondo provocações, não me irrito.

agradeço a atenção de quem me lê e, para quem acompanha e gosta, se não for fazer falta, peço uma doação correspondente ao valor que adicionei à sua vida:

www.alexcastro.com.br/mecenato