“seu amigo negro não prova nada.”
ideia para adesivo de parachoque
26 April, 2013
Duas profissões esquecidas do Rio antigo
16 March, 2013
Ao contrário de tantos pretos, não andava cantando sua ocupação. Puxava a carroça em silêncio, repicando um pequeno sino de cobre. Tinha pudor.
Caminhava sempre pelas mesmas ruas, no mesmo horário, todos os dias. As mucamas já o conheciam: esperavam sua passagem e ficavam no aguardo do sino.
Ninguém queria contato. Tudo era muito rápido. A mucama saía porta afora com o balde de esterco quente nas mãos, ele abria o tampão da carroça, ela despejava ali a carga e voltava correndo para dentro. Não falavam com ele.
Havia sempre respingos. Ao final da tarde, estava salpicado pela própria mercadoria.
Os tigres eram mais dignos. Temidos, até. O próprio nome impunha respeito. Eram escravos fortes, que carregavam nos ombros os dejetos de suas casas. Não passavam o dia lidando com os excrementos dos outros. Despejavam tudo na lagoa mais próxima e já voltavam para cuidar de outras atividades.
Pensava muito nisso. Que ali, no barril do tigre, misturados aos dejetos dos sinhôs e das sinhás, das mucamas e dos moleques, estavam também os seus. O tigre carregava o próprio excremento. De algum modo, aos seus olhos, isso lhes conferia dignidade.
Mas nem toda casa tinha escravos. Então, ele ainda era útil.
Gostava mesmo era de uma mulatinha da rua da Ajuda. Era sempre ela que trazia o balde. Mas nunca teve coragem de lhe falar. O esterco os separava. Um dia, não apareceu mais e ele não teve coragem de perguntar por ela. Ficou a lembrança daqueles dentes brancos. Tinha todos. Era lindo.
Ao final do trajeto, ele percorria a rua do Aljube até a Prainha. As barcaças recolhiam os dejetos da Corte e os levavam para os engenhos do outro lado da baía, onde não havia gente para produzir tanto estrume.
Os galegos pagavam quase nada pelo esterco. Só valia a pena se enchesse a carroça até a borda. Afinal, era recolhido de graça. Conseguiria mais mendigando, era o conselho que recebia.
Mas gostava de saber que deixava a Corte mais limpa. Que o esterco que recolhia se transformava em açúcar. Que tudo se transformava em outra coisa. Que ele, que era tão baixo, tão preto, tão feio quanto seu esterco, um dia também talvez virasse açúcar.
* * *
Soltava passarinhos
Frequentava as quermesses e procissões. Sempre em feriados religiosos.
Carregava uma gaiola quase maior que ela. Tinha seis compartimentos independentes, cada um com sua portinha. Nunca mais perderia a viagem soltando todos os bem-te-vis ao mesmo tempo.
Era conhecida dos penitentes. Só não abordava os brancos ricos. Quem já vivia cheio de graça não precisava da graça adicional de soltar uns passarinhos.
Preferia os desgraçados e os desafortunados, os moleques e as mucamas, os mutilados e os coxos, os culpados e os esperançosos, os tísicos e os leprosos, os pretos e os pardos. Os seus.
Muitos não entendiam. Quando a menina levantava a gaiola, já gesticulavam seu desinteresse. E ela esclarecia, não vendo passarinho, não, moço. Eu solto.
Alguns continuavam sem entender: vou lá pagar para soltar passarinho, menina?
E ela dizia, Deus ajuda quem liberta suas criaturinhas. É graça para o ano inteiro. O senhor reza comigo a prece de São Francisco de Assis, escolhe um bem-te-vi e deixa voar. Deus proverá.
Escolhiam quase sempre os passarinhos mais vistosos. Será que Deus prefere que os belos sejam livres?, se perguntava a menina.
A velha lavadeira foi o oposto. Demorou longos minutos. Estudou bichinho por bichinho. Quis a certeza de soltar o mais velho e mais fraco, o mais feio e mais cansado.
Seus dedos mal funcionavam. Mãos escurecidas e descoloradas de bater roupa em pedra. Mas fez questão de ela mesma destravar o ferrolho. Não era fácil. O preto Sebastião construíra a gaiola especialmente para a menina, levando em conta seus dedos ainda finos e ágeis.
Finalmente, o bem-te-vi saiu cambaleando pelo ar.
Ao cair da tarde, a menina foi até um matinho próximo, abriu as portinhas da gaiola e assoviou. Um por um, todos voltaram. Menos o velho passarinho. No feriado seguinte, a lavadeira também não apareceu. A menina gostava de pensar que estavam juntos.
Em casa, braços cansados de carregar a gaiola, acomodou seus tostões e vinténs (nem uma pataca hoje) em um latão na despensa. A sinhá era generosa: lhe dava todos os dias santos e ainda lhe permitia guardar tudo o que ganhasse.
Deu boa-noite para a sinhá e se dispôs na esteira aos pés da cama. Sonhou que voava.
* * *
A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto menciona barcos chineses onde passarinhos e peixes eram soltos no ar e na água, em troca de esmola, para “serviço de Deus” (capítulo 98). Um texto chinês do século XVI, mesmo século no qual Mendes Pinto esteve na China, detalha um dos muitos rituais budistas que devem acompanhar o ato de libertação (“Freeing Animals from Bondage” em Buddhist scriptures, Penguin, 2004). No Brasil, a única menção que encontrei, que pode ou não ter relação com o budismo, está em uma crônica da juventude de Machado de Assis, que teria testemunhado essa prática durante a procissão dos ossos da Misericórdia (O Futuro, 15 de dezembro de 1863). Entretanto, em diversas ocasiões (o conto “O segredo do bonzo”, de 1882, ou o ensaio “Instinto de nacionalidade”, de 1873), Machado demonstrou ser leitor atento da Peregrinação. Terá o episódio sido apenas uma glosa de Mendes Pinto? Mera invenção do Bruxo? De Machado, pode-se esperar tudo.
Por coincidência, no mesmo capítulo 98, a Peregrinação também menciona os “mercadores de esterco” da China. Existe ampla documentação sobre os catadores de esterco do Rio antigo, como La Blanchardière, em 1748 (em Visões do Rio de Janeiro colonial, 1531-1800), e Schlichthorst, em 1824 (em O Rio de Janeiro como é – Uma vez e nunca mais, cap. IX). No Segundo Reinado, com o avanço das regulações sanitárias, a prática deve ter desaparecido. A última menção que encontrei foi no capítulo 4 de Mulheres e costumes do Brasil (1863), mas o sempre tão crítico Expilly menciona a atividade sem deixar claro se a testemunhou ou apenas ouviu falar. Finalmente, em 1864, foi inaugurado o serviço de esgoto da Corte.
Desnecessário acrescentar que esse é um conto de ficção.
Alex Castro, 39, é autor de Mulher de um homem só (2009, romance) e Onde perdemos tudo (2011, contos).
* * *
Originalmente publicado na Revista Pesquisa FAPESP, edição 205, de março de 2013. (link)
varrendo a piscina em frente à senzala
1 December, 2012
O Brasil das Minorias
22 October, 2012
O Brasil das minorias from Cinese on Vimeo.
Eu, falando sobre racismo e privilégio, no evento “O Brasil das Minorias”, parte da Semana Cinética.
Gilberto Freyre e Casa-Grande & Senzala: historiografia & recepção
16 May, 2012
Quase oitenta anos após sua publicação, Casa Grande & Senzala continua sendo, ao mesmo tempo, um livro fácil e um livro dificílimo: fácil pelo estilo leve e coloquial de Freyre, que o coloca ao alcance de qualquer leitor médio em busca do prazer da leitura; difícil, dificílimo, pois a própria oralidade da linguagem, e a tendência freyreana de pensar em termos de “antagonismos em equilíbrio”, tornam Casa Grande & Senzala uma obra repleta de ambiguidades que, a todo momento, traem e enganam um leitor acadêmico que tente “isolar” os pensamentos e opiniões de Freyre. Em Casa Grande & Senzala, muitas vezes a afirmação vem seguida da sua negação, e vice-versa, e assim sucessivamente, “fazendo com que a cada avaliação positiva possa se suceder uma crítica … que acaba por dar um caráter antinômico à sua argumentação.” (Benzaquen)
No momento do seu lançamento, diz Antonio Candido, é difícil de se avaliar a enormidade do impacto da obra: “sacudiu uma geração inteira, provocando nela um deslumbramento como deve ter havido poucos na história mental do Brasil.” Monteiro Lobato compara sua publicação à chegada do cometa Halley – que foi muito mais impressionante em 1910 do que em 1986, cabe dizer, ou não se entenderá a comparação. Freyre oferece uma versão totalmente nova da História do Brasil, varre do pensamento brasileiro a noção de racismo científico e interpreta positivamente tanto a contribuição negra quanto a mestiçagem.
Em breve, porém, acadêmicos marxistas ligados à USP, como Florestan Fernandes, Caio Prado Jr, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e Antonio Candido, começam uma crítica sistemática às idéias de Freyre. Nas palavras de Gabriel Cohn, em oposição à visão patriarcal, “de cima”, mais culturalista e antropológica, de Freyre, propõem uma perspectiva plebéia, “de baixo”, mais sociológica e econômica. À leitura de Freyre, focada na singularidade cultural e racial do Brasil, Florestan Fernandes contrapõe uma leitura que enfatiza a participação do país nas grandes correntes históricas ligadas à expansão do capitalismo mundial. Ainda segundo Cohn, apesar da rivalidade entre elas, essas visões seriam mais complementares do que propriamente excludentes.
Entretanto, para debater ou refutar Freyre, primeiro era necessário defini-lo e enquadrá-lo, uma tarefa dificílima em se tratando de um autor tão ambíguo e escorregadio, sem afiliações acadêmicas, e capaz de chamar para si quase todos os rótulos sem jamais colar-se a eles. Carlos Guilherme Mota, por exemplo, em quase desabafo, nota que Freyre desenvolveu uma série de “mecanismos e artifícios” para não ser facilmente localizável: se colocar como sociológo ao mesmo tempo em que diz fazer anti-ciência; se definir como liberal, mas criticar os liberais; se afirmar um revolucionário, mas um revolucionário conservador; e por fim, se classificar simplesmente como “escritor”, o que, de acordo com Antonio Candido, é uma “teima” que serve apenas para indefinir suas verdadeiras coordenadas. Já pode-se ver o enorme incômodo que Freyre causava em uma parcela da academia: Mota, ao usar a palavra “desenvolver”, e Cândido, “teima”, praticamente sugerem que o estilo sincrético, paradoxal e iconoclasta de Gilberto Freyre seria não um reflexo legítimo de sua personalidade, mas somente “mecanismos e artifícios”, nas palavras de Mota, propositalmente criados para ludibriar seus adversários. Começa aqui a história das desleituras da obra de Freyre.
Com o passar dos anos, Freyre realmente sofre uma guinada conservadora: na década de sessenta, manifesta seu apoio às ditaduras do Brasil e de Portugal e começa, enfim, a utilizar o termo “democracia racial” – originalmente criado por Roger Bastide e que jamais aparece em Casa Grande & Senzala ou Sobrados & Mucambos. Entretanto, as posições conservadoras posteriores de Freyre são progressivamente projetadas em seus trabalhos anteriores, até o ponto de ser praticamente um truísmo (falso) que “Casa Grande & Senzala é o livro que defende/começa/define/promove/apresenta/etc a tese da democracia racial”.
Entre as décadas de sessenta e oitenta, quanto mais conservador Freyre se afirma, mais a crítica marxista a ele torna-se compreensivelmente feroz. Pode-se dizer que, durante esses anos, seu prestígio acadêmico esteve no nível mais baixo: quando Stuart Schwartz escreve seu seminal Segredos Internos: Engenhos e Escravos na Sociedade Colonial, seu objetivo original era simplesmente provar que “visão doce” que Freyre tinha da escravidão estava equivocada. Dante Moreira Leite parece fazer o epitáfio intelectual de Freyre quando afirma que sua posição parecia então [1969] inevitavelmente datada e anacrônica, identificando-o com os grupos mais conservadores e afastando-o dos intelectuais mais criadores. E conclui: Casa Grande & Senzala entretém mas não explica e, na verdade, por sua fórmula ensaística e universalista, encobre o problema real das relações de dominação no Brasil. Antonio Candido, como que curado do impacto que sofreu com a obra, desdenha: Casa Grande & Senzala não é uma interpretação do Brasil, mas uma autobiografia. Com a morte de Freyre em 1987 e a queda do muro de Berlim em 1989, entretanto, os ânimos começam a esfriar e Freyre pôde ser lentamente apropriado pela academia.
Em 1995, estudando História do Brasil, na PUC-RJ, recordo-me perfeitamente do professor que nos apresentou a Casa Grande & Senzala como um livro que há algum tempo não era ensinado e que “agora estava voltando”, pois era importante para a evolução do pensamento brasileiro, embora reacionário, conservador, ultrapassado, etc. É possível que a súbita popularidade de Freyre nessa universidade tenha se dado graças ao lançamento, no ano anterior, de Guerra e Paz. Casa Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30, por um professor da casa, Ricardo Benzaquen de Araújo, provavelmente o melhor livro acadêmico sobre Freyre. Voltaremos ao livro de Ricardo ao final desse ensaio; basta dizer que a década de noventa marca a “retomada freyreana”, na feliz colocação de Christopher Dunn.
Uma vasta gama de pensadores, personalidades e pesquisadores tem redescoberto e reutilizado Gilberto Freyre, desde o ex-ministro da cultura Gilberto Gil, tentando aumentar a mestiça auto-estima nacional, até a antropóloga Yvonne Maggie, uma das faces mais visíveis da luta contra a adoção de cotas raciais no Brasil. Apesar disso, a produção brasileira mais recente, em livro, não parece estar à altura do tema. Gilberto Freyre e a Invenção do Brasil (2000) e Gilberto Freyre e o Idéario Brasileiro (2005), de Roberto Cavalcanti de Albuquerque e Odilon Ribeiro Coutinho, são somente panegíricos freirianos, listagens dos elogios que ele recebeu e respostas aos seus críticos. Pelo menos, não escondem suas lealdades: no primeiro, o autor já afirma na orelha que foi amigo de Freyre por 30 anos e o segundo apresenta uma foto de Freyre com o autor na contracapa. A Construção da Brasilidade. Gilberto Freyre e sua Geração (2001), pelo respeitado historiador Vamireh Chacon, fala pouco sobre “a construção da brasilidade” mencionada no título, e contém pouca ou nenhuma análise sobre a obra freyriana: trata-se de um estudo documental sobre o impacto e as leituras de Casa Grande & Senzala, antologizando resenhas, correspondência e controvérsias: decepciona como trabalho acadêmico, mas pode tornar-se uma boa fonte primária. Gilberto Freyre, Um Vitoriano nos Trópicos (2005), de Maria Lúcia Pallares-Burke, é um trabalho acadêmico de peso mas talvez com um recorte excessivamente estreito: a influência de autores ingleses na formação intelectual de Gilberto Freyre até Casa Grande & Senzala. Por fim, mais interessantes, três coleções de artigos trazem contribuições inovadoras à pesquisa freyriana no século XXI: Gilberto Freyre e os Estudos Latino-Americanos (2006), organizado por Joshua Lund e Malcolm McNee, O Imperador das Idéias. Gilberto Freyre em Questão (2001), organizado por Joaquim Falcão e Rosa Maria Barbosa de Araújo, e a edição crítica de Casa Grande & Senzala da Coleção Archivos (2002), organizada por Guillermo Giucci, Enrique Rodriguez Larreta e Edson Nery da Fonseca.
Também no exterior, acadêmicos têm se debruçado sobre Gilberto Freyre, em novos livros como Colonialism and Race in Luso-Hispanic Literature (2006), de Jerome Branche, White Negritude. Race, Writing and Brazilian Cultural Identity (2008), de Alessandra Isfahani-Hammond e a coletânea de artigos The Masters and the Slaves. Plantation Relations and Mestizaje in American Imaginaries (2005), editado pela mesma autora. Essa mais recente produção norte-americana tem feito fortíssimas críticas a Freyre, partindo não mais de bases marxistas ou materialistas históricas, mas dos estudos culturais, pós-coloniais e afro-americanos.
O livro de Branche exemplifica bem essa nova variação de uma antiga maneira de desler a obra de Freyre: é uma análise de raça enquanto narrativa no cânone luso-hispânico, desde o século XV até o presente, buscando por instâncias de traços racistas, mesmo que atenuados e suavizados, no discurso dominante. Naturalmente, Branche também se debruçou sobre Freyre: ele aponta que o próprio título Casa Grande & Senzala, com sugestões de inerentes hierarquias sociais, raciais e sexuais, desmente as teorias freyrianas de relações sociais e raciais harmoniosas. Continua Branche: as referências à casa-grande e à senzala já remeteriam a um espaço de dominação econômica e política, com potencial inerente de coerção e brutalidade; além disso, a referência ao patriarcado no subtítulo (“Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal”) também evocaria toda a dominação patriarcal masculina branca do senhor de engenho sobre suas escravas, filhas e esposas.
Naturalmente, a explicação verdadeira pode ser rigorosamente oposta: dado que o próprio título Casa Grande & Senzala enfatiza as hierarquias sociais, raciais e sexuais do Brasil Colônia, então talvez seja Branche quem fez uma leitura equivocada do livro, ao atribuir a ele idéias que o próprio Branche reconhece que são desmentidas pelo título! Talvez, ao contrário do que Branche parece apressadamente concluir, colocar a palavra “patriarcado” no subtítulo de um trabalho de História não signifique necessariamente celebrar esse patriarcado, mas denunciá-lo, entendê-lo, estudá-lo. A precariedade da leitura de Branche, que ao mesmo tempo registra em Freyre a presença das ausências que aponta, é explicitada no seguinte trecho, sintomático de uma des-leitura bem comum de Casa Grande & Senzala. Vale a pena a citação longa, pois é flagrante como uma frase desmente rigorosamente a frase anterior:
“Freyre’s authorial ambivalence emerges again as he identifies slave children as indispensable playmates of the off-spring of the slave-owning class, while they are also seen as a source of moral and physical corruption for them. Slave boys teach their young masters obscene language, and the slave girls introduce them to sex and often to syphilis. The repeated image of interracial childhood interaction in Masters and the Slaves, as putative metaphor for racial democracy among the young by way of the effect of affect, is by no means watertight. Its purported sincerity is exploded by the sadism that often characterizes the relationship between the young slave owner’s son and his black slave companion and in his ininhibited sexual access to black and mulatto girls at the onset of puberty. In fact, the unenvenness of such relationships is vividly depicted by Freyre’s nonchalant reference to the belief among diseased young males of the slave-holding class that having sex with a twelve- or thirteen-year-old virgin would cure their syphilis.”
O trecho é tão contraditório que quase poderia ter sido escrito por Freyre e ser um exemplo do seu estilo de “antagonismos em oposição”. Nas primeiras duas frases, Branche chama a atenção para as várias descrições de exploração sexual de crianças brancas sobre negras e mulatas em Casa Grande & Senzala, algo que não se esperaria em um livro que, como ele parece acreditar, promove a “democracia racial”, mas Branche não vê a contradição em seu próprio argumento. Na terceira frase, o autor comenta que essa interação sexual infantil forçada “não funciona como metáfora da democracia racial” – mas não se sabe de onde ele tira que essas relações de estupro e dominação poderiam jamais ser consideradas metáforas de qualquer tipo de democracia racial. Aparentemente, ele acredita que Freyre diz isso, mas não cita onde. Por fim, na quarta e quinta frases, Branche se contradiz de novo e lista várias ocasiões em que Freyre, mais uma vez, descreve os crimes sádicos das relações sexuais entre senhores e escravos, sem jamais parecer compreender que são essas descrições, entre outras coisas, que comprovam que Casa Grande & Senzala não defende que o Brasil Colônia fosse um paraíso racial.
Poderíamos nos perguntar: se o livro descreve tantos horrores da relação entre senhores e escravos, como pode promover a democracia racial? Se promove a democracia racial, por que incluir tantos e longos trechos sobre sadismos, torturas, estupros? A leitura de Branche, que já escreve buscando o racismo disfarçado do discurso oficial, é sintomática da forma mais comum de desleitura freyreana: é impressionante a quantidade de atrocidades, torturas e estupros que um leitor precisa relevar ou esquecer para fechar Casa Grande & Senzala e tachá-lo de livro “promotor da democracia racial”.
Também não está se tentando aqui glorificar ou defender Gilberto Freyre – pecado de parte da bibliografia atual. Naturalmente, se Branche buscava pelo racismo subjacente ao discurso oficial, mesmo se atenuado ou suavizado, ele poderia encontrar muitos exemplos em Casa Grande & Senzala – somente não os que ele cita – e não apenas aí, mas em toda a produção literária brasileira até então. Por exemplo, quando Gilberto Freyre escreve que todo brasileiro,
“mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo … a sombra … principalmente do negro. … Em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer…”,
não há dúvida de que se trata de uma operação de exclusão, ainda que presumivelmente bem-intencionada. O negro, apesar de tão valorizado no texto, é claramente excluído da categoria “todo brasileiro” ou mesmo do “nós”. Ele é quem está fora, ele é a “sombra”. Ele “nos” dá de mamar, justamente por não ser parte desse “nós”: é externo a ele, está fora de nós. Aliás, a primeira pessoa do plural é sempre complexa na prosa freyriana, mais um exemplo da ambiguidade que dificulta sua assimilação pela academia: para Gilberto Freyre, “nós” pode ser desde “brasileiros brancos descendentes de senhores de engenho nordestinos” até “brasileiros brancos, mas sem incluir negros e índios”, passando inclusive por “todos os cidadãos brasileiros”. É a proliferação do primeiro “nós” que permite que Antonio Cândido, não sem alguma razão, classifique Casa Grande & Senzala como autobiografia.
O que muitas vezes falta aos autores que embarcam em críticas semelhantes contra Freyre é a contextualização de quão pouco racista o seu discurso era, em comparação ao discurso contemporâneo e anterior. Aos nossos ouvidos politicamente corretos de começos do século XXI, um autor dizer que todo brasileiro mamou em tetas negras pode parecer somente uma operação de exclusão. Em 1933, “sacudiu uma geração inteira”, nas palavras de Cândido. Pinçar racismos aqui e ali na prosa ambígua de Gilberto Freyre é muito fácil; fazê-lo sem contextualizar o impacto de sua obra na atmosfera racista de então é má-fé acadêmica.
Recentemente, alguns intelectuais brasileiros têm revalorizado a contribuição de Freyre, especialmente no sentido de superar o racismo científico e estabelecer a democracia de raças como um ideal a ser atingido. Hermano Vianna ataca o “mito do mito da democracia racial”, muito em voga entre brazilianistas, segundo ele, e que teria se originado de “uma leitura apressada, tendenciosa e burra” de Casa Grande & Senzala:
“como dizer que CG&S criou uma imagem idílica da sociedade colonial se, logo no prefácio de sua primeira edição, aprendemos que os senhores mandavam ‘queimar vivas, em fornalhas de engenho, escravas prenhes, as crianças estourando ao calor das chamas’…?”
Vianna também considera que o melhor do Brasil seja nossa valorização da mestiçagem, que não seria sinônimo de defender a idéia de vivermos em uma democracia racial.
Já em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (2007), de Antonio Risério, a presença de Gilberto Freyre é sentida em cada página, mesmo quando não mencionado. Em muitos trechos, Risério parece literalmente incorporar Freyre:
“Quando falo de sociedade urbana convivial, não estou me referindo a uma sociedade harmônica, sossegada, entregue à sua própria placidez. Não me refiro sequer a um espaço social onde os conflitos se apresentassem de forma atenuada. Em outras circunstâncias, estes esclarecimentos seriam dispensáveis, mas o ambiente brasileiro não se encontra hoje, mentalmente, em condições normais de temperatura e pressão. Parece até que as pessoas estão fazendo questão de parecer burras. Daí o didatismo e a redundância a que somos obrigados.”
Neste livro, Risério busca entender dois fenômenos fundamentais do Brasil: a mestiçagem e o sincretismo, resgatando-os e valorizando-os. Sobre a democracia racial, ele aponta que o próprio impacto e recepção de Casa Grande & Senzala provaram não ser o Brasil uma democracia racial, mas essa tornou-se uma das grandes aspirações nacionais. De certo modo, à sua maneira, mesmo sem inventar a expressão “democracia racial” ou usá-la em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre deu ao país o seu “Brazilian Dream”. E, desde que não seja usada conservadora e reacionariamente, como uma desculpa para alienação política, como uma realidade que o Brasil já alcançou, qual é o problema da “democracia racial” como projeto, como sonho, como aspiração? Será algo tão ruim assim? Não será essa, talvez, a maior contribuição do Brasil à cultura mundial? E fecha o livro com a frase: “Cumpre, portanto, fazer com que o mito se encarne na história.”
Por fim, como já foi dito, talvez o melhor livro acadêmico sobre Freyre nas últimas décadas tenha sido Guerra e Paz: Casa-Grande e Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30, de Benzaquen. Fugindo de interpretações fáceis de Gilberto Freyre, sem nem pinçar seus trechos mais felizes para endeusá-lo, nem seus piores deslizes, para pintá-lo como um ideológo reacionário, Benzaquen foi direto ao cerne do estilo freyriano, à sua característica talvez mais difícil: seus “antagonismos em conflito”, “sua heterogeneidade”, “sua imprecisão”, que seria “um dos componentes mais importantes de Casa Grande & Senzala”, “fornecendo valiosas pistas para a compreensão de alguns dos seus mais importantes propósitos”.
Em suma: a parte constitutiva do pensamento freyriano seria justamente a imprecisão que Mota havia desdenhado como “mecanismo e artifício”. Para Benzaquen, o pano de fundo de Casa Grande & Senzala é o realce dado por Gilberto Freyre ao caráter despótico e mesmo brutal de nossa tradição patriarcal, capaz de permitir uma certa dose de intimidade entre grupos sociais divergentes sem que isso cancelasse ou sequer diminuísse a desigualdade e a opressão embutidas em seu relacionamento. Depois de listar alternadamente alguns trechos sobre sadismo e sobre confraternização entre brancos e negros, dando a impressão de uma certa esquizofrenia autoral por parte de Freyre, Benzaquen dá o passo que Branche, e outros críticos, não deram:
“CGS dá a impressão de ter sido escrito justamente para acentuar a extrema heterogeneidade que caracterizaria a colonização portuguesa, ressaltando basicamente a ativa contribuição de diversos e antagônicos grupos sociais na montagem da sociedade brasileira.”
Assim como, na sociedade, diversos opostos conseguem conviver de lado a lado, em amálgama tenso mas equilibrado, Gilberto Freyre, ao vencer a desconfiança fundamental que o pensamento ocidental nos ensinou a manter quanto à contradição, também consegue reunir elementos antagônicos sem se preocupar com sua síntese ou com o estabelecimento de mediação entre eles, fazendo assim desse relativo louvor da ambiguidade o ponto central e decisivo de sua reflexão. O estilo de Freyre era um modo concreto de trazer para a escrita parte da instabilidade, ambiguidade e excesso que caracterizavam a sociabilidade da casa grande.
O Peso da História: A Escravidão e as Cotas
25 April, 2012
A História ainda é uma bola de ferro que os descendentes dos escravos arrastam pelos tornozelos. Os efeitos nocivos da escravidão continuam afetando os bisnetos de suas vítimas diretas.
Eu (n.1974) cursei o ensino fundamental no Colégio Santo Agostinho, o médio na Escola Americana do Rio de Janeiro e, depois, História no IFCS/UFRJ (’99) porque meu pai cresceu em Botafogo, fez o ensino médio no Colégio Andrews e se formou bacharel em Economia (’70) pela mesma UFRJ.
Meu pai (n.1946) estudou na UFRJ porque meu avô estudou engenharia no Instituto Eletrotécnico de Itajubá, atual Universidade Federal de Itajubá (’38) e trabalhou durante muitos anos para a Chesf (Companhia Hidro-Elétrica do São Francisco), inclusive nas obras do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso.
Meu avô (n.1909) foi engenheiro porque meu bisavô (n.1876) saiu do Mato Grosso (onde seu pai, veterano do Paraguai, estava servindo desde a guerra) pra estudar no Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde foi comandante-aluno de 1897, depois formando-se engenheiro militar, participando do episódio dos 18 de Forte e reformando-se coronel.
Em 1888, com 12 anos de idade, meu bisavô estudava na capital do Império, em um dos melhores colégios públicos do país, com bolsa integral, soldo e emprego garantido após a formatura.
Se, ao invés disso, nesse mesmo ano, ele tivesse sido libertado (leia-se posto pra fora de casa) com a roupa do corpo, analfabeto e despreparado, sem conhecer pai e mãe, desprovido de qualquer poupança ou bens*, teriam seus descendentes estudado nas melhores escolas e universidades do país e feito parte da elite brasileira?
Sem esse capital socio-econômico e cultural acumulado pelo meu bisavô em 1888 (para não irmos mais longe), onde teria ido parar a cadeia de acontecimentos que desembocou na minha vida? Estaria eu, nesse momento, sadio e medindo 1,80m, cursando um doutorado em Nova Orleans e escrevendo essas linhas? Dentre minhas realizações, quantas são exclusivamente por mérito meu e quantas são consequência direta da vida privilegiada que eu e meus antepassados levamos? Que tipo de dívida EU tenho com as pessoas que não tiveram tanta sorte? Será ético simplesmente dizer “sorte minha, azar deles, e foda-se, hoje já nivelou tudo e no vestibular todos têm chances iguais”?
Dado que os efeitos nocivos da escravidão ainda se fazem sentir na pele dos descendentes das vítimas, não é tarde demais para serem indenizados pelo Estado.
E as cotas são um bom começo.
* * *
*Riqueza [wealth] é um indicador mais importante de desigualdade racial do que renda pois, ao ser transmitida de uma geração a outra, acaba reproduzindo injustiças históricas ao longo do tempo. Por exemplo, nos Estados Unidos hoje, enquanto a renda dos negros é 75% da dos brancos, sua riqueza líquida é de somente 18%. (Telles, 116, Mills, 37-38) Esse texto sobre cotas tem uma série de adendos e respostas a comentários dos leitores que podem ser lidos aqui. Leia também: Brasil, Meritocracia de Todos. Ou melhor, leia meus melhores textos sobre raça no Brasil.
a nódoa da escravidão
15 November, 2011
Um dia, enquanto passeava com o Oliver aqui pelo meu bairrinho universitário classe média em Nova Orleans, uma soccer mom enfiava cuidadosamente seus quatro filhinhos, todos brancos e roliços, em seu jipão utilitário de luxo, também branco e roliço. Era uma senhora baixinha e gorducha, bochechas rosadas e orelhas de abano, carregando mochilas e merendeiras, parecendo dotada daquela infinita paciência que só uma mãe de quatro meninos pode ter. E, em seu para-choque traseiro, discretamente, estava o adesivo:
The South Will Rise Again (“O Sul se Erguerá de Novo”)
Como não se sentir ameaçado? Não conheço o contexto dessas palavras. Por tudo que sei, é um inocente desejo de revitalizar a economia local. Mas, ainda assim, nenhuma racionalização poderia apagar o meu calafrio ao ler aquela frase; nenhuma explicação lógica faria aquele adesivo soar menos sinistro. De certo modo, era como se o ressurgimento do Sul fosse indistinguível e indissociável do reescravizamento de toda uma raça.
E pensei: o Brasil foi tão ou mais escravista do que o Sul dos Estados Unidos, e resistiu por muito mais tempo até libertar seus escravos. Ainda mais doloroso pra mim, dos nove únicos deputados que tiveram a cara-de-pau e a temeridade de votar contra a Lei Áurea em pleno maio de 1888, já na véspera do século XX e na contra-mão de todos os ventos filosóficos do XIX, oito eram do Rio de Janeiro. Legítimos representantes eleitos do meu estado.
Entretanto, não ficamos nem o Rio e nem o Brasil maculados por essa nódoa. Um adesivo “O Brasil Crescerá” despertaria calafrios? Claro que não. Nem o Paraguai tem medo do Brasil. E concluí, aliviado: ainda bem que pelo menos o bom nome do meu país e do meu estado não estão ligados à escravidão.
Um segundo depois, bateu o estranhamento: mas… por que não? A falta de calafrios não corresponde à falta de crimes. O Sul dos EUA teve, no Norte, um vizinho incômodo que manteve viva a memória de seus crimes. Já em nosso caso, simplesmente varremos nossos crimes para debaixo do tapete.
Não somos mais virtuosos: somos melhores em esconder o corpo.
não é o seu cachorro que é racista
16 June, 2011
hoje, andando pela rua com o oliver, cruzamos por uma bela moça num carrinho de bebê e o oliver, pro meu imenso orgulho, fez festinha e tudo, cachorro charmoso que ele é. logo depois, cruzamos por um negão mal-encarado e o oliver, pra minha imensa vergonha, só faltou querer estraçalhar o moço, cachorro protetor que ele é. pedi desculpas e saí de fininho.
será verdade que cães podem ser racistas?
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criamos os cães à nossa imagem e semelhança. passamos milênios selecionando geneticamente cães com base em um único critério: sua compatibilidade conosco. sua capacidade de nos ler, nos entender, nos servir, se adaptar a nós.
quando seu cão late para o moço da geladeira, não é porque ele é um bom juiz de caráter, ou sabe quando “tem alguma coisa errada”, ou possui poderes sobrenaturais, ou tem capacidade de “ler almas”. provavelmente, ele não está nem mesmo latindo em reação ao moço da geladeira em si. o seu cachorro não sabe negociar com técnicos, ele não conhece as dicas sutis de que um prestador de serviços está enrolando ou superfaturando um trabalho. quem sabe essas coisas é você.
o seu cão está reagindo à única coisa no mundo na qual ele é expert absoluto: você. ele está reagindo a mudanças no seu corpo que são tão sutis que você nem mesmo percebe mas que ele consegue captar. batimentos acelerados, suor, diferença na voz, algum tique físico que reconhece como uma típica reação sua ao estresse súbito. seu cheiro, seus hormônios, seus humores, sua voz, seus gestos.
seu cachorro não tem poderes sobrenaturais, nem sabe nada que você não saiba melhor – com uma única exceção. seu cão sabe confiar em seus próprios instintos caninos e, inclusive, confia mais nos SEUS instintos primatas do que você mesmo, que provavelmente os racionaliza. você, ao mesmo tempo em que dá um inconsciente passo atrás em resposta a algo suspeito que fez o moço da geladeira, também pensa: “que besteira, estou sendo paranóico”.
seu cachorro, por outro lado, leva essas coisas a sério. e faz bem.
(esse trechinho parafraseia o livro as virtudes do medo, de gavin debecker.)
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então, voltando ao exemplo inicial, não é o oliver que é racista, coitadinho.
sou eu que, mesmo sendo tão liberal e avançadinho, mesmo dando bom dia ao moço e não trocando de calçada (olha eu falando isso como se fosse grande vantagem!), ainda assim meu corpo deve tensionar, ainda assim eu devo me colocar em posição de alerta, ainda assim eu devo reagir ao homem como se ele fosse uma ameaça maior do que a mulher com o bebê.
e o oliver, que não é bobo, repara. e faz bem.
* * *
releia o primeiro parágrafo. o oliver nem precisaria estar presente: ele poderia ter latido para o “negão” só pela minha escolha de palavras. é assim que falamos. nosso racismo exala pelos poros, pelas entrelinhas.



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