racismo reverso

uma camisa “100% branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar uma pessoa privilegiada celebrando seu privilégio.

uma camisa “100% negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.

existe uma enorme diferença.

* * *

a partir de agora, quando alguém vier me falar de racismo reverso, vou mostrar esse vídeo. tem legendas em português.

o desabafo da moça do crachá

em um belo dia de sol, minha vida bonita e organizada, meu emprego seguro e minha esposinha mais segura ainda, decidi ir ao shopping center e me fazer um agrado. “eu mereço!”, falei para mim mesmo.

confiando em um logotipo tradicional que conhecia desde a infância, entrei em uma loja, caminhei até uma das associadas, li e memorizei o conteúdo do crachá que ela trazia no peito, e, feliz comigo mesmo por ser o tipo de gente que chama as pessoas humildes pelo nome, sorri o meu sorriso mais caloroso e disse:

“oi, pri, tudo bem?”

antes, porém, que eu pudesse emendar o meu pedido, pri me interrompeu e começou:

“o senhor se acha o gostosão, né? só por falar comigo como se eu fosse gente, só por reconhecer minha humanidade, só por invocar meu nome como se ele fosse uma simpatia para garantir o seu perfeito atendimento de acordo com os padrões internacionais da nossa veneranda empresa, cujas franquias são sempre idênticas, seja em paris, pequim ou pirinópolis do mato dentro, uma vitória da logística padronizada do capitalismo ocidental!

“mas, me diga, sinhôzinho: de que me adianta esse meu apelido carinhoso em seus lábios de completo estranho? o senhor acha que está me fazendo algum bem? que existe algum mérito nisso? que o meu nome te inocenta?

“o senhor acha que essa fórmula invocatória me ajuda a conseguir quem tome conta da minha filha enquanto estou aqui no turno da madrugada, sacrificando minha saúde e minha vida pessoal, tentando ganhar alguns trocados a mais no fim do mês? o senhor acha que esse seu sorriso, tão bonito e tão perfeito, de quem teve condições financeiras de usar aparelho ortodôntico desde os dez aninhos de idade, vai me ajudar a pagar o aluguel do meu quarto, que já está atrasado e, aliás, vai aumentar, na verdade, dobrar mês que vem, porque, sabe como é, disse a proprietária, esse é meu único imóvel, vivo disso, minha filha, negócios são negócios, tem a copa vindo aí, sabe?, e ela é tão boa e tão simpática, me oferece pedaço de bolo e tudo, mas em fevereiro minha filha e eu não temos mais onde morar e nem ninguém para nos oferecer um mísero pedaço de bolo solado. (quando o bolo fica bom, ela não oferece.)

“enquanto isso, o senhor aí dizendo “pri” com um sorriso caloroso nesse rosto tão bem alimentado e satisfeito. tão feliz.

“e o que uma pessoa tão boa como o senhor está fazendo aí de pé na minha frente? o que poderia trazer um indivíduo tão generoso a uma instituição tão canalha e predatória quanto essa nossa empresa iso um milhão, presente em quinhentos e três países, gerando nove bilhões de empregos diretos e indiretos? será que o senhor não sabe que o nosso respeitável e bem-sucedido conglomerado internacional destrói todos os pequenos negócios a sua volta? que nossos funcionários, perdão, associados, ganham pouco, muito pouco, no limite ali do que a lei permite, só para evitar os incômodos benefícios trabalhistas? que essa empresa pilar do mundo corporativo trata os seus próprios fornecedores como uma verdadeira máfia, usando seu poder econômico para comprar mais e mais barato, às vezes quase a preço de custo, sem se preocupar com quantos pequenos produtores ela leva à falência? (afinal, sempre vai haver um fluxo infindável de empresas-lemingues querendo doar sua produção quase gratuitamente para a glória do nosso gigantesco império multinacional!)

“será que o senhor não sabe que os nossos preços à vista são de fato muito baixos mas só porque a maioria dos nossos clientes, de baixo poder aquisitivo, não compra nunca à vista e que a empresa ganha mesmo seus lucros abusivos e descarados cometendo os planos de parcelamento mais cruéis, enganadores e perversos jamais perpetrados por uma pessoa jurídica? que nos seus relatórios de fim de ano aos gordos e prósperos acionistas, nossos eficientes executivos, todos religiosos e atuantes em suas igrejas, se orgulham de vender uma geladeira pelo preço de três justamente aos consumidores mais pobres e indefesos que nunca conseguiram aprender matemática em nossas péssimas escolas públicas? e tudo isso, pasmem!, estritamente dentro da lei, da lei democraticamente produzida pelos políticos que o senhor democraticamente elegeu, políticos que receberam valiosas doações de campanha do nosso glorioso conglomerado cósmico, uma das empresas que mais doa para manter bem-lubrificadas as engrenagens democráticas desse nossa pátria amada e idolatrada, salve salve!

“mas, mesmo assim, quem diria, aqui está o senhor, uma pessoa tão boa e tão generosa, dizendo “pri” com um sorriso agora amarelo nessa cara cada vez mais vermelha e ainda esperando ser atendido. afinal, para economizar vinte reais no preço do seu microondas, vale a pena ser cúmplice de tudo isso, não? o que conta é a sua economia pessoal. tem que levar vantagem em tudo, certo? tem que pesquisar, tem que comparar. oferta e demanda, as belezas do capitalismo, a mão invisível da economia de mercado, trá-lá-lá. o senhor não é responsável pelos crimes e faltas dessa empresa que suas compras financiam. por favor! o senhor é inocente, claro! o senhor pessoalmente não fez nada de mal pra ninguém, não é? quantos fornecedores o senhor pessoalmente levou à falência? nenhum! quantos funcionários o senhor pessoalmente demitiu por ficarem tempo demais no banheiro? nenhum, claro! o senhor só quer o melhor negócio, o melhor preço, não é isso? quem poderia culpar o senhor? não é o que todo mundo faz? não é essa a norma, a regra? não foi o que nos ensinaram? por favor! não sejamos radicais, não é?

“o senhor pode até dizer (se não achar que essa defesa está muito gasta pelo excesso de uso) que estava só cumprindo ordens: as ordens das nossas onipresentes e multimilionárias campanhas de publicidade, em muros, ônibus, cartazes, tevê e filmes; com fotos completamente impossíveis dos nossos hambúrgueres (que nunca são tão bonitos assim!); com campanhas que associam nosso xarope gaseificado a pessoas lindas e magras que jamais seriam magras assim se realmente consumissem nossa bebida hiper-açucarada; com anúncios estrelados por celebridades ricas demais para jamais consumir um produto popular e mal-feito como o nosso; com slogans neurolinguisticamente elaborados para ecoar sem piedade e sem salvação dentro do seu crânio, te mandando comprar comprar comprar, curtir curtir curtir, economizar economizar economizar. coitado do senhor! nunca teve chance, né? ó dó. não é culpa sua, buana.

“pena que é sim. tudo culpa sua. eu, aqui, agora, pelos poderes concedidos a mim por essa hipertrofiada corporação multi-continental, convoco toda a culpa do universo e a deposito solenemente nos seus ombros. a culpa é toda sua, do senhor mesmo, aí dizendo “pri” com esse sorriso cada vez mais murcho.

“tenho nojo do meu nome nos seus lábios, paxá. tenho nojo de ser alvo de uma manipulação tão barata, tão óbvia, tão hipócrita. o senhor sabe por que estou usando um crachá com o meu nome? porque pesquisas de mercado lá da metrópole demonstraram que saber o nome da criadagem, ops, dos associados, faz com que os amos, ops, os consumidores se sintam entrando na casa de uma pessoa que conhecem. afinal, ninguém nunca vai na casa de alguém sem saber seu nome! o objetivo do crachá é fazer com que os clientes se sintam acolhidos e bem recebidos, e assim comprem mais, voltem numerosas vezes, tenham uma experiência melhor na loja, e gerem lucros, lucros, lucros. (se meu gerente achasse que ganharia um centavo a mais em seu bônus anual arrancando meu coração do peito ainda batendo, já teria feito isso na primeira oportunidade, seguro de contar com o entusiástico apoio da direção e dos acionistas.)

“o objetivo do meu nome no meu crachá nunca é e nem nunca foi reconhecer minha própria humanidade e subjetividade. rá rá, perdão, sahib, me engasguei de rir. se o engenho de fato reconhecesse minha individualidade de pessoa humana, então meu capataz, ops, meu gerente me trataria como se eu fosse gente e se dignaria a conversar comigo quando precisasse falar com ele; eu receberia duas horas a mais de trabalho por semana só para me qualificar pra uma série de benefícios trabalhistas que me fazem muita falta; minhas horas-extras seriam pagas em dia ou mesmo, rá rá, perdão de novo, simplesmente pagas; eu não seria tratada como uma engrenagem intercambiável que pode ser a qualquer momento substituída por outra engrenagem que faria rigorosamente a mesma coisa e ninguém perceberia a diferença.

“mas o meu nomezinho no meu crachazinho não é só para melhorar a experiência dos donos, ops, dos consumidores. aliás, adoro essa palavra: experiência. sempre penso que, nessa experiência, o único lugar que me cabe é o de beagle torturada e dissecada, sem ninguém para invadir o laboratório e me libertar. (não devo ser fofa o suficiente para valer o esforço!) mas estou divergindo, sinhôzinho, perdão.

“as mesmas pesquisas de mercado também indicam que os sultões sentem falta de saber o nome dos serviçais para poder melhor reclamar deles. afinal, ainda mais em democracias raciais como a nossa, os escravos, ops, os associados, se parecem todos uns com os outros, ou seja, tendem a ser de uma raça, de uma cor, de uma classe social diferente dos senhores de engenho, ops, dos clientes, então, convenhamos, fica até difícil diferenciá-los, né? do ponto de vista dos amos, quem não tem boa aparência é tudo igual.

“então, quando o senhor for reclamar de mim ao capitão-do-mato, não vai precisar expor seu racismo dizendo que a cativa que ficou emperrando a fila pra lhe dizer umas verdades era aquela “moreninha” do “cabelo ruim”, e sim que foi a “pri”. aliás, cabelo ruim é o caralho. ruim é a sua cegueira. ruim é a sua falta de consciência. ruim é você que está lendo esse texto de merda e balançando a cabeça em concordância, mas não vai fazer nada a respeito. ruim é você que está escrevendo essa porra inútil como se fosse mudar alguma coisa. fodam-se todos vocês.

“mas fica pior, kemosabe. sempre tem como piorar. sabe por que o meu crachá diz somente “pri” e não meu nome completo “priscila dos santos silva”? não, não é porque já somos amigos íntimos eu e o senhor — repara que nem ouso chamá-lo de “você”. não, não é porque eu, mesmo sem querer saber o seu nome de patrício bem-nascido, ainda assim estou lhe dando explicitamente o direito de me chamar por um apelido tão carinhoso. não, mestre.

“é porque as mesmas pesquisas de mercado indicaram que nomes completos teriam que ser escritos em fonte muito pequena, seriam difíceis de ler pelos marajás mais idosos ou mais míopes (ou faria com que tivessem que chegar perto demais da criadaria para poder ler seus nomes, talvez até perto o suficiente para sentir nossa inhaca de trabalhadores, deus nos livre!), e, mais ainda, seriam difíceis de decorar e lembrar. então, a ordem que nos deram foi dar um jeito de resumir nossos nomes em até quatro letras. quatro. e eu consegui em três! nosso lema é eficiência, buana.

“tem mais. quando os capatazes julgam que um dos escravos tem um nome difícil de pronunciar, ou pior ainda, nome de pobre, lhes rebatizam sem hesitação. um colega de senzala nigeriano chamado ilunga usa um crachá que diz “alan”. meu amigo uóston virou “fred”. eu ainda tive sorte de ser a “pri”. sou uma privilegiada. (mas o senhor nem saberia como é isso de ser privilegiado, né, patrão? depois o senhor me conta dos impostos escorchantes que pagou no seu novo ipad.)

“e ai de mim se tivesse me recusado a conceder a intimidade de me chamar de “pri” aos clientes sem consciência da nossa magnânima e sobranceira empresa, que é uma das maiores empregadoras da nação, parte integrante do projeto nacional-desenvolvimentista do nosso internacionalmente celebrado governo de esquerda. imagina! eu teria gerado um novo posto de trabalho ali mesmo.

“afinal, convenhamos, que diferença faz que eu seja a priscila dos santos silva, aquariana, flamenguista e viciada em novela, filha de felipe gois da silva e de maria josé de sá dos santos, que são gente, viveram, se conheceram, se amaram, me tiveram? priscila dos santos silva, filha de felipe gois da silva e de maria josé de sá dos santos, só tem uma. mas “pri”, ora, meu patrãozinho, tem uma “pri” em cada esquina. quando eu for terminada, expulsa, demitida, esmagada, deglutida, cuspida fora, não vão nem precisar de um novo crachá. haverá sempre um fluxo infindável de novas e novas pris para alimentar o moedor de carne dessa meritória e fecunda instituição, pilar divino da indústria nacional, abençoada seja, ela está no meio de nós.

“ah, sahib, então o senhor se preocupa mesmo com a sua serva aqui? esse seu sorriso frouxo ao invocar meu nome não era apenas um ritual vazio antes de me passar suas ordens? era carinho verdadeiro? era porque o senhor realmente se importa? eu acredito, claro. como duvidar de um homem de bem como o senhor? (eu não ousaria!) então, deixa eu lhe contar o segredo da senzala.

“não me adianta nada esse seu carinho.

“não adianta falar meu nome com um sorriso e me tratar como pessoa humana, ao mesmo tempo em que prestigia com as suas compras o mesmo engenho que diariamente me desumaniza. não adianta se vestir de branco e fazer passeata de mãos dadas contra a violência e contra a corrupção, bichos-papões convenientemente vagos e abstratos (alguém é pró-corrupção ou pró-violência, buana?), ao mesmo tempo em que elege e reelege os mesmos políticos com as mesmas plataformas pró-mercado & pró-indústria, anti-trabalhador & anti-assistência.

“não adianta nada entrar no ônibus (mas o senhor nem deve andar de ônibus, né?) e saudar a cobradora pelo nome, e então reclamar quando a greve da categoria lhe causa o mínimo desconforto. nem tudo gira em torno do seu cu privilegiado, vossa coxinhência. qualquer greve tem como objetivo não atrapalhar a sua bem-organizada vidinha mas conseguir melhores salários e condições para trabalhadores que sobrevivem mensalmente com uma fração da sua renda. os ônibus estão de greve? então, apoie o movimento e vá a pé. ou pegue um táxi: com certeza, o senhor pode pagar.

“eu não quero nem o seu bom-dia, nem o seu sorriso. não quero seu falso carinho, sua falsa intimidade, sua falsa preocupação. eu não quero ouvir sua voz pronunciando meu santo nome em vão. eu quero justiça social, direitos iguais, assistência do estado. eu quero que as autoridades públicas, que a polícia, que os meus empregadores, que os clientes que eu atendo, que os homens que me assediam na rua, reconheçam em mim a mesma humanidade, a mesma individualidade, a mesma subjetividade que veem em si mesmos. é pedir muito?

“eu quero que minha filha tenha acesso à saúde pública de qualidade para estar viva e saudável no momento em que a escola pública de qualidade lhe ensinar que não vale a pena comprar por 24 parcelas de cem reais uma tevê que custa 999 à vista. e isso só pra começar.

“agora, meu senhor, em que posso servi-lo? quer levar fritas grandes e uma garantia adicional de um ano por apenas mais dez reais?”

(publicada originalmente na revista fórum)

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racismo, miscigenação e casamentos interraciais no brasil

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ficção

duas profissões esquecidas do rio antigo (conto)

o baralho viciado

nossa sociedade não se organizou sozinha, nem caiu pronta do céu: foi organizada por muitos homens (ênfase em “homens”), ao longo de muitos séculos, e obedece, em larga medida, aos interesses de quem a organizou – interesses muitas vezes conflitantes e contraditórios, pois a sociedade é fruto não de uma “conspiração a portas fechadas”, mas de um longo processo social e político.

no caso do brasil, nossa sociedade foi engendrada por uma elite machista, classista, hierarquizada, racista, paternalista, hipócrita e autoritária, e continuamos funcionando de acordo com esse paradigma até hoje, mesmo que sob o verniz da democracia e do estado de direito.

então, se todas as pessoas brasileiras magicamente deixarem de ser machistas (ou racistas ou etc) mas as estruturas e instituições permanecerem inalteradas, essa nossa hipotética sociedade sem machistas e sem racistas continuará intrinsecamente machista e machista, e marcada pela mais profunda desigualdade racial e de gênero.

acredito nos bons sentimentos de todo mundo, mas não deixo de achar incrível que, mesmo ninguém sendo machista ou racista nessa nossa sociedade tão linda, o resultado final é que as pessoas brasileiras do sexo feminino ou de pele mais escura sempre acabam se fudendo.

o baralho que herdamos já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. não basta que os jogadores beneficiados simplesmente não trapaceem – pois, mesmo assim, vão continuar magicamente ganhando todas as partidas.

é necessário trocar de baralho.

a ambição dos escravos

O que é pior: a ambição dos escravos ou a falta de ambição dos escravos?

Palavras da Condessa de Merlin, uma nobre escravocrata cubana, escritas em 1841.

Reparem como ela passa de condenar a preguiça e falta de ambição dos negros (e por isso devem ser escravizados) para logo em seguida condená-los pela suposta ambição que demonstrariam assim que libertos (e por isso devem continuar escravizados).

“Suponhamos que os ingleses consigam obter, sem transtornos e sem desordens, a emancipação dos escravos de nossas colônias. Seu primeiro sentimento, sua primeira necessidade, qual será? Não fazer nada. O trabalho lhes é insuportável e só se consegue obrigá-los a trabalhar a força. Um negro indolente e selvagem, desprovido de todo desejo de progresso, de ambição, de dever, preferirá substituir sua vida vagabunda e sensual pelos rigores de um trabalho voluntário e de um sustento adquirido com o suor de sua testa? Mas suponhamos que, por um milagre, a educação moral dos escravos libertados se desenvolvesse de repente e os trouxesse a amar o trabalho. [Adoro esse "trouxesse": a Condessa de Merlin nunca trabalhou um dia sequer em sua vida.] Caso se convertessem em trabalhadores, os negros não demorariam em se ver atormentados pelo desejo de ser proprietários; pela rivalidade, pela ambição, pela inveja contra os brancos e suas prorrogativas. Sob um regime político constitucional, em um país governado por leis equitativas, não exigiriam participar destas mesmas instituições? E vocês lhes concederiam os seus mesmo direitos e os seus mesmos privilégios? Fariam deles os seus juizes, os seus generais, os seus ministros? Dariam-lhes suas filhas em matrimônio? Não é isso que queremos, exclamarão os amigos dos negros: que sejam livres, mas que se limitem a trabalhar a terra e a conduzir a cana como bestas de carga. Não consentirão: se hoje ocupam-se dessas atividades e consideram-se felizes em seu estado imperfeito de homens selvagens, no dia em que se acenda para eles a luz da inteligência perceberão que são homens como vocês, e o campo de batalha ficará com o mais forte. Reflitam: quando estalar o primeiro sinal de combate, não haverá piedade possível entre duas raças incompatíveis.”

O discurso da Condessa tem o grande mérito de desmascarar a hipocrisia dos abolicionistas, esses brancos bondosos que queriam a liberdade dos negros mas que sinceramente não podiam nem conceber um juiz negro ou, pior, muito pior, um genro.

pode um cabelo ser pior?

um dos grandes problemas das sociedades escravistas sempre foi como distinguir os escravos dos livres. cada cultura resolveu o problema de um jeito: mudança de nome, tatuagem, marcar a ferro, vestimentas.

* * *

na roma antiga, uma das maiores sociedades escravistas de todos os tempos, o problema era especialmente complicado.

não só os escravos poderiam ser de dezenas de cores e etnias por todo o império, como também havia um alto índice de manumissão e mistura com as parcelas livres e pobres.

para resolver o problema, conta sêneca em “tratado sobre a clemência”, um senador sugeriu que os escravos usassem um tipo específico de vestimenta.

ao que outro respondeu:

então, andando pelas ruas de roma, bastaria que olhassem em volta para se dar conta de sua superioridade numérica.

a ideia foi abandonada.

os senadores romanos tinham muita fé na natureza humana.

* * *

a cabeça raspada era associada à morte e à escravidão em todo o mundo, escreve orlando patterson. raspar o cabelo de um escravo simbolizava sua morte social e condição permanente de liminaridade, nem vivo e nem morto, nem pessoa e nem objeto.

a escravidão negra nas américas, entretanto, a outra grande sociedade escravista da história, foi a exceção à essa regra.

afinal, em um continente onde os tons de pele eram tão variados e misturados, os escravos já traziam bem visível nos cabelos a marca da sua negritude.

raspá-los só ofuscaria a distinção.

* * *

não é à toa que o cabelo dos africanos foi chamado de “ruim”. pode um cabelo ser pior do que o cabelo que lhe marca como cativo e sub-humano?

nossa tarefa hoje é ressignificá-lo. um afro de cada vez.

ressignificando o cabelo, um afro de cada vez.

shh!

“quem exige seu silêncio não é seu amigo.” alice walker (fonte)

ideia para adesivo de parachoque

“seu amigo negro não prova nada.”

Duas profissões esquecidas do Rio antigo

Revista Pesquisa FAPESP edição 205 de março de 2013Catava esterco

Ao contrário de tantos pretos, não andava cantando sua ocupação. Puxava a carroça em silêncio, repicando um pequeno sino de cobre. Tinha pudor.

Caminhava sempre pelas mesmas ruas, no mesmo horário, todos os dias. As mucamas já o conheciam: esperavam sua passagem e ficavam no aguardo do sino.

Ninguém queria contato. Tudo era muito rápido. A mucama saía porta afora com o balde de esterco quente nas mãos, ele abria o tampão da carroça, ela despejava ali a carga e voltava correndo para dentro. Não falavam com ele.

Havia sempre respingos. Ao final da tarde, estava salpicado pela própria mercadoria.

Os tigres eram mais dignos. Temidos, até. O próprio nome impunha respeito. Eram escravos fortes, que carregavam nos ombros os dejetos de suas casas. Não passavam o dia lidando com os excrementos dos outros. Despejavam tudo na lagoa mais próxima e já voltavam para cuidar de outras atividades.

Pensava muito nisso. Que ali, no barril do tigre, misturados aos dejetos dos sinhôs e das sinhás, das mucamas e dos moleques, estavam também os seus. O tigre carregava o próprio excremento. De algum modo, aos seus olhos, isso lhes conferia dignidade.

Mas nem toda casa tinha escravos. Então, ele ainda era útil.

Gostava mesmo era de uma mulatinha da rua da Ajuda. Era sempre ela que trazia o balde. Mas nunca teve coragem de lhe falar. O esterco os separava. Um dia, não apareceu mais e ele não teve coragem de perguntar por ela. Ficou a lembrança daqueles dentes brancos. Tinha todos. Era lindo.

Ao final do trajeto, ele percorria a rua do Aljube até a Prainha. As barcaças recolhiam os dejetos da Corte e os levavam para os engenhos do outro lado da baía, onde não havia gente para produzir tanto estrume.

Os galegos pagavam quase nada pelo esterco. Só valia a pena se enchesse a carroça até a borda. Afinal, era recolhido de graça. Conseguiria mais mendigando, era o conselho que recebia.

Mas gostava de saber que deixava a Corte mais limpa. Que o esterco que recolhia se transformava em açúcar. Que tudo se transformava em outra coisa. Que ele, que era tão baixo, tão preto, tão feio quanto seu esterco, um dia também talvez virasse açúcar.

 * * *

 Soltava passarinhos

Frequentava as quermesses e procissões. Sempre em feriados religiosos.

Carregava uma gaiola quase maior que ela. Tinha seis compartimentos independentes, cada um com sua portinha. Nunca mais perderia a viagem soltando todos os bem-te-vis ao mesmo tempo.

Era conhecida dos penitentes. Só não abordava os brancos ricos. Quem já vivia cheio de graça não precisava da graça adicional de soltar uns passarinhos.

Preferia os desgraçados e os desafortunados, os moleques e as mucamas, os mutilados e os coxos, os culpados e os esperançosos, os tísicos e os leprosos, os pretos e os pardos. Os seus.

Muitos não entendiam. Quando a menina levantava a gaiola, já gesticulavam seu desinteresse. E ela esclarecia, não vendo passarinho, não, moço. Eu solto.

Alguns continuavam sem entender: vou lá pagar para soltar passarinho, menina?

E ela dizia, Deus ajuda quem liberta suas criaturinhas. É graça para o ano inteiro. O senhor reza comigo a prece de São Francisco de Assis, escolhe um bem-te-vi e deixa voar. Deus proverá.

Escolhiam quase sempre os passarinhos mais vistosos. Será que Deus prefere que os belos sejam livres?, se perguntava a menina.

A velha lavadeira foi o oposto. Demorou longos minutos. Estudou bichinho por bichinho. Quis a certeza de soltar o mais velho e mais fraco, o mais feio e mais cansado.

Seus dedos mal funcionavam. Mãos escurecidas e descoloradas de bater roupa em pedra. Mas fez questão de ela mesma destravar o ferrolho. Não era fácil. O preto Sebastião construíra a gaiola especialmente para a menina, levando em conta seus dedos ainda finos e ágeis.

Finalmente, o bem-te-vi saiu cambaleando pelo ar.

Ao cair da tarde, a menina foi até um matinho próximo, abriu as portinhas da gaiola e assoviou. Um por um, todos voltaram. Menos o velho passarinho. No feriado seguinte, a lavadeira também não apareceu. A menina gostava de pensar que estavam juntos.

Em casa, braços cansados de carregar a gaiola, acomodou seus tostões e vinténs (nem uma pataca hoje) em um latão na despensa. A sinhá era generosa: lhe dava todos os dias santos e ainda lhe permitia guardar tudo o que ganhasse.

Deu boa-noite para a sinhá e se dispôs na esteira aos pés da cama. Sonhou que voava.

 * * *

 A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto menciona barcos chineses onde passarinhos e peixes eram soltos no ar e na água, em troca de esmola, para “serviço de Deus” (capítulo 98). Um texto chinês do século XVI, mesmo século no qual Mendes Pinto esteve na China, detalha um dos muitos rituais budistas que devem acompanhar o ato de libertação (“Freeing Animals from Bondage” em Buddhist scriptures, Penguin, 2004). No Brasil, a única menção que encontrei, que pode ou não ter relação com o budismo, está em uma crônica da juventude de Machado de Assis, que teria testemunhado essa prática durante a procissão dos ossos da Misericórdia (O Futuro, 15 de dezembro de 1863). Entretanto, em diversas ocasiões (o conto “O segredo do bonzo”, de 1882, ou o ensaio “Instinto de nacionalidade”, de 1873), Machado demonstrou ser leitor atento da Peregrinação. Terá o episódio sido apenas uma glosa de Mendes Pinto? Mera invenção do Bruxo? De Machado, pode-se esperar tudo.

Por coincidência, no mesmo capítulo 98, a Peregrinação também menciona os “mercadores de esterco” da China. Existe ampla documentação sobre os catadores de esterco do Rio antigo, como La Blanchardière, em 1748 (em Visões do Rio de Janeiro colonial, 1531-1800), e Schlichthorst, em 1824 (em O Rio de Janeiro como é – Uma vez e nunca mais, cap. IX). No Segundo Reinado, com o avanço das regulações sanitárias, a prática deve ter desaparecido. A última menção que encontrei foi no capítulo 4 de Mulheres e costumes do Brasil (1863), mas o sempre tão crítico Expilly menciona a atividade sem deixar claro se a testemunhou ou apenas ouviu falar. Finalmente, em 1864, foi inaugurado o serviço de esgoto da Corte.

Desnecessário acrescentar que esse é um conto de ficção.

Alex Castro, 39, é autor de Mulher de um homem só (2009, romance) e Onde perdemos tudo (2011, contos).

* * *

Originalmente publicado na Revista Pesquisa FAPESP, edição 205, de março de 2013. (link)

varrendo a piscina em frente à senzala

fazenda cachoeira grande, vassouras, rj.

fazenda cachoeira grande, vassouras, rj.

O Brasil das Minorias

O Brasil das minorias from Cinese on Vimeo.

Eu, falando sobre racismo e privilégio, no evento “O Brasil das Minorias”, parte da Semana Cinética.

o peso da história: a escravidão e as cotas

a história é uma bola de ferro que bisnetos e bisnetas das vítimas da escravidão ainda arrastam pelos tornozelos. seus efeitos nocivos continuam se fazendo sentir todos os dias.

eu (nascido em 1974) cursei o ensino fundamental no colégio santo agostinho (um dos melhores da cidade), o médio na escola americana do rio de janeiro (na época, a mais cara do brasil) e, depois, história no ifcs/ufrj (turma de 1999) porque meu pai cresceu em botafogo, fez o ensino médio no colégio andrews (tradicionalíssimo) e se formou bacharel em economia (turma de 1970) pela mesma ufrj.

meu pai (nascido em 1946) estudou na ufrj porque meu avô estudou engenharia no instituto eletrotécnico de itajubá, atual universidade federal de itajubá (turma de 1938) e trabalhou durante muitos anos para a chesf (companhia hidro-elétrica do são francisco), inclusive nas obras do complexo hidrelétrico de paulo afonso.

meu avô (1909-1989) foi engenheiro porque meu bisavô (1876-1965) saiu do mato grosso (onde seu pai, veterano do paraguai, estava servindo desde a guerra) pra estudar no colégio militar do rio de janeiro, onde foi comandante-aluno de 1897 (ou seja, tirou dez em tudo e foi imortalizado numa plaquinha), formou-se engenheiro militar, participou do episódio dos 18 do forte de copacabana e reformou-se coronel.

em 1888, com 12 anos de idade, meu bisavô estudava na capital do império, em um dos melhores colégios públicos do país, com bolsa integral, soldo e emprego garantido após a formatura.

se, ao invés disso, nesse mesmo ano, ele tivesse sido libertado (leia-se posto pra fora de casa) com a roupa do corpo, analfabeto e despreparado, sem conhecer pai e mãe, desprovido de qualquer poupança ou bens*, teriam seus filhos e netos e bisnetos estudado nas melhores escolas e universidades do país e feito parte da elite brasileira?

sem esse capital socioeconômico e cultural acumulado pelo meu bisavô em 1888 (para não irmos mais longe), onde teria ido parar a cadeia de acontecimentos que desembocou na minha vida? estaria eu, nesse momento, sadio e medindo 1,80m, cursando um doutorado no exterior e escrevendo essas linhas? dentre minhas realizações, quantas são exclusivamente por mérito meu e quantas são consequência direta da vida privilegiada que eu e meus antepassados levamos? que tipo de dívida eu tenho com as pessoas que não tiveram tanta sorte? será ético simplesmente dizer “sorte minha, azar deles, e foda-se, hoje já nivelou tudo e no vestibular todos têm chances iguais”?

dado que os efeitos nocivos da escravidão ainda se fazem sentir na pele dos bisnetos e bisnetas das vítimas diretas, não é tarde demais para serem indenizadas pelo estado.

e as cotas são um bom começo.

cotas raciais ou cotas sociais?

ser a favor de cotas raciais não quer dizer ser contra cotas sociais. aliás, não conheço nenhuma pessoa que defenda cotas raciais e que seja contra cotas sociais.

o problema é que quando se aplicam só cotas sociais (por renda, para pessoas oriundas de escolas públicas, etc), o que se vê são pessoas brancas se beneficiando delas desproporcionalmente mais do que negras ou indígenas.

o objetivo das cotas é corrigir distorções: se apenas fizermos cotas para corrigir as distorções sociais, corremos o risco de aprofundar ainda mais as distorções raciais.

precisamos corrigir todas.

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um link: por que as cotas raciais deram certo no brasil

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*riqueza [wealth] é um indicador mais importante de desigualdade racial do que renda pois, ao ser transmitida de uma geração a outra, acaba reproduzindo injustiças históricas ao longo do tempo. por exemplo, nos estados unidos hoje, enquanto a renda dos negros é 75% da dos brancos, sua riqueza líquida é de somente 18%. (telles, 116, mills, 37-38)

sou contra as cotas!

sou contra as cotas!

a nódoa da escravidão

Um dia, enquanto passeava com o Oliver aqui pelo meu bairrinho universitário classe média em Nova Orleans, uma soccer mom enfiava cuidadosamente seus quatro filhinhos, todos brancos e roliços, em seu jipão utilitário de luxo, também branco e roliço. Era uma senhora baixinha e gorducha, bochechas rosadas e orelhas de abano, carregando mochilas e merendeiras, parecendo dotada daquela infinita paciência que só uma mãe de quatro meninos pode ter. E, em seu para-choque traseiro, discretamente, estava o adesivo:

The South Will Rise Again (“O Sul se Erguerá de Novo”)

Como não se sentir ameaçado? Não conheço o contexto dessas palavras. Por tudo que sei, é um inocente desejo de revitalizar a economia local. Mas, ainda assim, nenhuma racionalização poderia apagar o meu calafrio ao ler aquela frase; nenhuma explicação lógica faria aquele adesivo soar menos sinistro. De certo modo, era como se o ressurgimento do Sul fosse indistinguível e indissociável do reescravizamento de toda uma raça.

E pensei: o Brasil foi tão ou mais escravista do que o Sul dos Estados Unidos, e resistiu por muito mais tempo até libertar seus escravos. Ainda mais doloroso pra mim, dos nove únicos deputados que tiveram a cara-de-pau e a temeridade de votar contra a Lei Áurea em pleno maio de 1888, já na véspera do século XX e na contra-mão de todos os ventos filosóficos do XIX, oito eram do Rio de Janeiro. Legítimos representantes eleitos do meu estado.

Entretanto, não ficamos nem o Rio e nem o Brasil maculados por essa nódoa. Um adesivo “O Brasil Crescerá” despertaria calafrios? Claro que não. Nem o Paraguai tem medo do Brasil. E concluí, aliviado: ainda bem que pelo menos o bom nome do meu país e do meu estado não estão ligados à escravidão.

Um segundo depois, bateu o estranhamento: mas… por que não? A falta de calafrios não corresponde à falta de crimes. O Sul dos EUA teve, no Norte, um vizinho incômodo que manteve viva a memória de seus crimes. Já em nosso caso, simplesmente varremos nossos crimes para debaixo do tapete.

Não somos mais virtuosos: somos melhores em esconder o corpo.

não é o seu cachorro que é racista

hoje, andando pela rua com o oliver, cruzamos por uma bela moça num carrinho de bebê e o oliver, pro meu imenso orgulho, fez festinha e tudo, cachorro charmoso que ele é. logo depois, cruzamos por um negão mal-encarado e o oliver, pra minha imensa vergonha, só faltou querer estraçalhar o moço, cachorro protetor que ele é. pedi desculpas e saí de fininho.

será verdade que cães podem ser racistas?

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criamos os cães à nossa imagem e semelhança. passamos milênios selecionando geneticamente cães com base em um único critério: sua compatibilidade conosco. sua capacidade de nos ler, nos entender, nos servir, se adaptar a nós.

quando seu cão late para o moço da geladeira, não é porque ele é um bom juiz de caráter, ou sabe quando “tem alguma coisa errada”, ou possui poderes sobrenaturais, ou tem capacidade de “ler almas”. provavelmente, ele não está nem mesmo latindo em reação ao moço da geladeira em si. o seu cachorro não sabe negociar com técnicos, ele não conhece as dicas sutis de que um prestador de serviços está enrolando ou superfaturando um trabalho. quem sabe essas coisas é você.

o seu cão está reagindo à única coisa no mundo na qual ele é expert absoluto: você.  ele está reagindo a mudanças no seu corpo que são tão sutis que você nem mesmo percebe mas que ele consegue captar. batimentos acelerados, suor, diferença na voz, algum tique físico que reconhece como uma típica reação sua ao estresse súbito. seu cheiro, seus hormônios, seus humores, sua voz, seus gestos.

seu cachorro não tem poderes sobrenaturais, nem sabe nada que você não saiba melhor – com uma única exceção. seu cão sabe confiar em seus próprios instintos caninos e, inclusive, confia mais nos SEUS instintos primatas do que você mesmo, que provavelmente os racionaliza. você, ao mesmo tempo em que dá um inconsciente passo atrás em resposta a algo suspeito que fez o moço da geladeira, também pensa: “que besteira, estou sendo paranóico”.

seu cachorro, por outro lado, leva essas coisas a sério. e faz bem.

(esse trechinho parafraseia o livro as virtudes do medo, de gavin debecker.)

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então, voltando ao exemplo inicial, não é o oliver que é racista, coitadinho.

sou eu que, mesmo sendo tão liberal e avançadinho, mesmo dando bom dia ao moço e não trocando de calçada (olha eu falando isso como se fosse grande vantagem!), ainda assim meu corpo deve tensionar, ainda assim eu devo me colocar em posição de alerta, ainda assim eu devo reagir ao homem como se ele fosse uma ameaça maior do que a mulher com o bebê.

e o oliver, que não é bobo, repara. e faz bem.

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releia o primeiro parágrafo. o oliver nem precisaria estar presente: ele poderia ter latido para o “negão” só pela minha escolha de palavras.  é assim que falamos. nosso racismo exala pelos poros, pelas entrelinhas.