ovelhas negras

não tenho nada a ensinar. não sou mestre, não sou guru, não sou coach.

o pouco que tenho a dizer eu já disse nos meus textos, todos disponíveis de graça na internet. (aliás, nas minhas palestras e oficinas, paga quem quer, paga quem pode.)

não tenho nenhum conhecimento para transmitir de cima para baixo, do “mestre” aos “discípulos”, de alguém-que-sabe aos que-não-sabem. (eu também não sei!)

pelo contrário: ofereço apenas um espaço para os iguais se encontrarem.

o meu público são as ovelhas negras. aquelas pessoas sempre um pouco deslocadas, algo incompreendidas, carentes de interlocutores.

disse um participante:

“acho que é a primeira vez na vida em que estou em um grupo de pessoas e ninguém acha que eu sou excêntrico.”

os eventos são para aprendermos a ser melhores ovelhas negras.

os livros que mais me marcaram

não necessariamente os livros que gosto mais. ou mesmo os livros que admiro.

mas os livros que mais me marcaram mesmo, que mudaram meu jeito de ser, de pensar, de escrever, de contar histórias, de ler.

biblia
declinio e queda do império romano, gibbon
agua viva, lispector
a hora da estrela, lispector
memórias de um caçador, turgeniev
folhas de relva, whitman
walden, thoreau
lord jim, conrad
os miseráveis, hugo
ficções, borges
cecilia valdés, villaverde
manual dos inquisidores, antunes
os trópicos, miller

* * *

ninguém lê do mesmo jeito depois de ler ficções. água viva e manual dos inquisidores me ensinaram que eu podia fazer muito mais com a língua portuguesa do que imaginava possível. a bíblia e gibbon me ensinaram tudo o que sei sobre a arte de contar histórias. os trópicos e folhas de relva me ensinaram um amor pela vida além de todas as fronteiras e de toda a lógica. walden e lord jim me ensinaram, pelo contrário, um certo autocontrole e uma sobriedade que são tão importantes quanto. cecília valdés me mostrou como os horrores da escravidão podem virar grande literatura. hora da estrela, miseráveis e memórias do caçador me ensinaram como escrever e como abordar as histórias das pessoas humildes e marginalizadas.

* * *

não entraram na lista meus dois autores preferidos, que me marcaram pela enormidade da obra e não por nenhum livro específico: tchecov e kafka.

* * *

meus autores preferidos.

do pudor

antigamente, na minha casa, as camisinhas e o ky ficavam na gaveta do banheiro.

na verdade, ficavam indo-e-vindo: em dias de sexo espontâneo, perdia-se um tempo precioso naquela corridinha besta cama-banheiro. e pra quê?

praticamente não tenho móveis. muito menos criado-mudo. em breve, as camisinhas e o ky foram passando tanto tempo ali no chão ao lado da cama que esse acabou sendo consagrado como seu lugar.

no começo, sempre que recebia visitas, me batia uma lufada de pudor. eu pensava: guardo tudo?

mas, logo depois, eu mesmo me desafiava: pra quê?

transar não é nem feio nem proibido, nem anti-ético nem nojento. os objetos não estão bagunçados, largados, babados. pelo contrário, o ky está de pé e as camisinhas, cuidadosamente empilhadas. ao lado, uma caneta, marcadores de página, um ou dois livros.

que tipo de pessoa poderia se sentir incomodada ou ofendida de ver um ky e algumas camisinhas? certamente, não o tipo de pessoa que eu gostaria de receber.

em minha casa, sempre estiveram à mostra as marcas de que fumo (cinzeiro na janela) e de que cago (papel higiênico no banheiro), de que como (garfos e talheres) e de que cozinho (panelas e frigideiras).

agora, também as marcas de que transo.

* * *

pós-escrito

quando foi publicado pela primeira vez, esse texto causou muita polêmica e diversas manifestações de ódio. li e reli o texto. não encontrei nada de errado nele. pelo contrário, o assunto do texto é JUSTAMENTE essa resposta extremada e raivosa: por que o sexo é tão tabu? por que podemos deixar à mostra os objetos que usamos, por exemplo, para fumar mas não para transar? por que até mesmo falar nisso já desperta tanta raiva, tanto ódio, tanta ojeriza? afinal, por que o sexo (especialmente o sexo praticado pelo Outro) ofende tanto? se o texto levantou essas questões, então cumpriu o seu papel.

“e a violência contra os homens?”

quando falo dos números da violência contra a mulher, uma objeção frequente dos homens é:

“mas iuzomi? os homens morrem muito mais vítimas da violência que as mulheres!”

sim, em números absolutos, os homens são a maioria das vítimas de homicídio. a diferença é que quem está matando os homens são os próprios homens.

quando uma mulher sofre uma violência, o agressor é geralmente homem. quando um homem sofre uma violência, o agressor quase sempre é um homem.

com uma grande diferença: as violências que sofrem as mulheres geralmente são por ser mulheres. as violências que sofrem os homens nunca são por serem homens mas sim por serem homens pobres, por serem homens negros, por serem homens homossexuais, por serem homens trans.

o fato de os homens serem a maior parte das vítimas da violência não quer dizer que a violência não é machista.

quer dizer que, além de machista, ela é classista, racista, homofóbica, transfóbica.

enfim, outrofóbica.

elogio ao ócio

elogio ao ócio

PORQUE NÃO USO MAIÚSCULAS AO ESCREVER.

porque me parece feio.

porque é menos um elemento gráfico atulhando minhas palavras.

porque Acho que Não fica estético na frase Aquelas letras de rePente mais altAs que As outras.

porque a pontuação já é suficiente para marcar que a frase anterior acabou e me parece redundante um outro elemento adicional para marcar o início da frase seguinte.

porque o contexto já sempre indica o que é nome próprio e o que não é.

porque o trabalho de ficar colocando isso e aquilo em maiúsculas, e de aprender o que vai em maiúsculas e o que não, não me parece que compensa o valor adicionado reduzido que esse elemento traz ao texto.

porque o uso convencionado desse elemento já se perdeu mesmo e as Pessoas hoje colocam em maiúsculas o que lhes dá na Telha, de forma aleatória, só para dar Ênfase.

na verdade, a única coisa que as maiúsculas comunicam hoje são as prioridades de quem escreve: em texto de economista, Economia sempre vai em maiúscula; de fotógrafo, Fotografia, e assim por diante.

mas o motivo principal é que me parece que maiúsculas não adicionam nada.

escrevo na ortografia convencionada, uso vírgula e ponto e vírgula, etc etc, porque tudo isso ajuda na compreensão da frase e na transmissão da mensagem.

uso carinhas felizes [:)] porque elas adicionam conteúdo importante e, um dia, sei que vão virar um elemento tão “canônico” quanto ponto de exclamação.

mas não vejo valor adicionado ou vantagem alguma em encher meus textos de maiúsculas.

acreditar no amor

a Outra Significativa não acredita em amor.

para ela, anarco-poliamorosa-sem-vergonha, o amor é um engodo que nossa sociedade heterocapitalista inventou para nos prender em casamentos monogâmicos possessivos, para nos fazer procriar criancinhas que logo vão virar consumidoras, para vender comédias românticas insossas que não passam no teste bechdel.

e eu, bem, também sou um anarco-poliamoroso-sem-vergonha e concordo.

mas acho que podemos ressignificar tudo, inclusive o amor. especialmente o amor.

* * *

um dia, faz dez anos, casei.

muito tempo depois, quando soube que o meu casamento era aberto, uma amiga que me conhecia bem exclamou:

ah, agora entendi. não é que você passou a ser a favor do casamento. você só mudou a SUA definição de casamento!

* * *

não é que eu “acredito” em amor.

“acreditar” dá a entender que o amor é uma coisa ali externa, que existe fora de nós, que podemos escolher acreditar ou negar. como se fosse um objeto. pior, um produto.

pra mim, amor é, um dia, de repente, encontrar uma pessoa e gostar dela.

e, mesmo sem laços possessivos ou comprometidos, no dia seguinte, você quer ver aquela pessoa de novo.

pois te parece que ela é o tipo de pessoa interessante que fala coisas interessantes e anda com outras pessoas interessantes e que vai fazer coisas interessantes, e você quer estar por perto pra participar disso.

e assim os dias vão passando. e viram meses e viram semanas e viram anos. e aquela pessoa continua sempre interessante e você continua interessado nas coisas interessantes que ela vai dizer e que ela vai fazer.

e, mais ainda, todos continuam livres, livres para também encontrar e ouvir e conviver e amar outras pessoas interessantes, pessoas que adicionam conteúdo e valor a nossas vidas, pessoas que vão constituindo uma rede admirável de pessoas interessantes que orbitam umas às outras.

e, todo dia, zera tudo. todo dia, a escolha é refeita. todo dia, podemos decidir que, finalmente, deu. que aquela pessoa já contribuiu tudo o que poderia contribuir. que não vai mais dizer ou fazer coisas interessantes. ou que não temos mais interesse nas futuras coisas interessantes que ela pode dizer ou fazer. e ninguém seria canalha por isso.

mas, olha, sei não.

acho que a Outra Significativa vai fazer e dizer coisas ainda mais interessantes e incríveis em 2014.

então, por enquanto, vou ficando.

* * *

sim, o amor pode ser heterocapitalista monogâmico careta possessivo. aliás, quase sempre é.

mas não precisa ser.

eu não “acredito” em amor: eu escolho construir e inventar o amor como eu acho que ele deve ser.

* * *

em 2013, cancelei minha internet, abandonei celular e saí do msn, facebook, twitter. (o facebook e o twitter ainda existem, mas não são administrados por mim e não tenho acesso a eles.)

resultado: muitas pessoas que pareciam próximas simplesmente sumiram. não era amizade: você só era conveniente de conversar porque estava ali online. nada de mal nisso. fico feliz de ter podido ajudar enquanto foi possível.

mas, por outro lado, a falta das redes sociais te joga de novo nos braços das pessoas de carne e osso. daquelas dez ou quinze pessoas cuja presença concreta já basta para fazer da sua vida plena, interessante, bonita.

* * *

nessa reta final de 2013, muito obrigado à Outra Significativa por ser a melhor companheira que uma pessoa poderia desejar. admirável, fodona, generosa, aberta. interessante.

obrigado também a todos os seres incríveis que passaram por minha vida. que me fizeram uma pessoa melhor. que me ajudaram, que me acolheram, que me estimularam. que compartilharam suas vidas, suas intimidades, seus beijos, seus problemas comigo. que me possibilitaram:

heloísa, paula, ricardo, leonardo, cariocas que admiro muito e que nunca vejo tanto quanto gostaria. alessandro, camila, fernando, biajoni, isabel, katy, pessoas queridas de fora que eu gostaria de ter mais à mão. ana luiza e julia, que se afastaram mas de quem morro de saudades todo dia. diane, melhor ex-esposa possível e imaginária. renata, fernanda, antonio, carlos, meus amigos mais antigos. sônia e flávia, minhas irmãs queridas, que me acolhem mais do que ninguém. oliver, claro.

e a todos os seres incríveis que ainda não tive a chance de conhecer tão bem quanto gostaria e que, quem sabe, farão parte da minha vida em 2014.

obrigado.

vamos derrubar tudo?

o desabafo da moça do crachá

em um belo dia de sol, minha vida bonita e organizada, meu emprego seguro e minha esposinha mais segura ainda, decidi ir ao shopping center e me fazer um agrado. “eu mereço!”, falei para mim mesmo.

confiando em um logotipo tradicional que conhecia desde a infância, entrei em uma loja, caminhei até uma das associadas, li e memorizei o conteúdo do crachá que ela trazia no peito, e, feliz comigo mesmo por ser o tipo de gente que chama as pessoas humildes pelo nome, sorri o meu sorriso mais caloroso e disse:

“oi, pri, tudo bem?”

antes, porém, que eu pudesse emendar o meu pedido, pri me interrompeu e começou:

“o senhor se acha o gostosão, né? só por falar comigo como se eu fosse gente, só por reconhecer minha humanidade, só por invocar meu nome como se ele fosse uma simpatia para garantir o seu perfeito atendimento de acordo com os padrões internacionais da nossa veneranda empresa, cujas franquias são sempre idênticas, seja em paris, pequim ou pirinópolis do mato dentro, uma vitória da logística padronizada do capitalismo ocidental!

“mas, me diga, sinhôzinho: de que me adianta esse meu apelido carinhoso em seus lábios de completo estranho? o senhor acha que está me fazendo algum bem? que existe algum mérito nisso? que o meu nome te inocenta?

“o senhor acha que essa fórmula invocatória me ajuda a conseguir quem tome conta da minha filha enquanto estou aqui no turno da madrugada, sacrificando minha saúde e minha vida pessoal, tentando ganhar alguns trocados a mais no fim do mês? o senhor acha que esse seu sorriso, tão bonito e tão perfeito, de quem teve condições financeiras de usar aparelho ortodôntico desde os dez aninhos de idade, vai me ajudar a pagar o aluguel do meu quarto, que já está atrasado e, aliás, vai aumentar, na verdade, dobrar mês que vem, porque, sabe como é, disse a proprietária, esse é meu único imóvel, vivo disso, minha filha, negócios são negócios, tem a copa vindo aí, sabe?, e ela é tão boa e tão simpática, me oferece pedaço de bolo e tudo, mas em fevereiro minha filha e eu não temos mais onde morar e nem ninguém para nos oferecer um mísero pedaço de bolo solado. (quando o bolo fica bom, ela não oferece.)

“enquanto isso, o senhor aí dizendo “pri” com um sorriso caloroso nesse rosto tão bem alimentado e satisfeito. tão feliz.

“e o que uma pessoa tão boa como o senhor está fazendo aí de pé na minha frente? o que poderia trazer um indivíduo tão generoso a uma instituição tão canalha e predatória quanto essa nossa empresa iso um milhão, presente em quinhentos e três países, gerando nove bilhões de empregos diretos e indiretos? será que o senhor não sabe que o nosso respeitável e bem-sucedido conglomerado internacional destrói todos os pequenos negócios a sua volta? que nossos funcionários, perdão, associados, ganham pouco, muito pouco, no limite ali do que a lei permite, só para evitar os incômodos benefícios trabalhistas? que essa empresa pilar do mundo corporativo trata os seus próprios fornecedores como uma verdadeira máfia, usando seu poder econômico para comprar mais e mais barato, às vezes quase a preço de custo, sem se preocupar com quantos pequenos produtores ela leva à falência? (afinal, sempre vai haver um fluxo infindável de empresas-lemingues querendo doar sua produção quase gratuitamente para a glória do nosso gigantesco império multinacional!)

“será que o senhor não sabe que os nossos preços à vista são de fato muito baixos mas só porque a maioria dos nossos clientes, de baixo poder aquisitivo, não compra nunca à vista e que a empresa ganha mesmo seus lucros abusivos e descarados cometendo os planos de parcelamento mais cruéis, enganadores e perversos jamais perpetrados por uma pessoa jurídica? que nos seus relatórios de fim de ano aos gordos e prósperos acionistas, nossos eficientes executivos, todos religiosos e atuantes em suas igrejas, se orgulham de vender uma geladeira pelo preço de três justamente aos consumidores mais pobres e indefesos que nunca conseguiram aprender matemática em nossas péssimas escolas públicas? e tudo isso, pasmem!, estritamente dentro da lei, da lei democraticamente produzida pelos políticos que o senhor democraticamente elegeu, políticos que receberam valiosas doações de campanha do nosso glorioso conglomerado cósmico, uma das empresas que mais doa para manter bem-lubrificadas as engrenagens democráticas desse nossa pátria amada e idolatrada, salve salve!

“mas, mesmo assim, quem diria, aqui está o senhor, uma pessoa tão boa e tão generosa, dizendo “pri” com um sorriso agora amarelo nessa cara cada vez mais vermelha e ainda esperando ser atendido. afinal, para economizar vinte reais no preço do seu microondas, vale a pena ser cúmplice de tudo isso, não? o que conta é a sua economia pessoal. tem que levar vantagem em tudo, certo? tem que pesquisar, tem que comparar. oferta e demanda, as belezas do capitalismo, a mão invisível da economia de mercado, trá-lá-lá. o senhor não é responsável pelos crimes e faltas dessa empresa que suas compras financiam. por favor! o senhor é inocente, claro! o senhor pessoalmente não fez nada de mal pra ninguém, não é? quantos fornecedores o senhor pessoalmente levou à falência? nenhum! quantos funcionários o senhor pessoalmente demitiu por ficarem tempo demais no banheiro? nenhum, claro! o senhor só quer o melhor negócio, o melhor preço, não é isso? quem poderia culpar o senhor? não é o que todo mundo faz? não é essa a norma, a regra? não foi o que nos ensinaram? por favor! não sejamos radicais, não é?

“o senhor pode até dizer (se não achar que essa defesa está muito gasta pelo excesso de uso) que estava só cumprindo ordens: as ordens das nossas onipresentes e multimilionárias campanhas de publicidade, em muros, ônibus, cartazes, tevê e filmes; com fotos completamente impossíveis dos nossos hambúrgueres (que nunca são tão bonitos assim!); com campanhas que associam nosso xarope gaseificado a pessoas lindas e magras que jamais seriam magras assim se realmente consumissem nossa bebida hiper-açucarada; com anúncios estrelados por celebridades ricas demais para jamais consumir um produto popular e mal-feito como o nosso; com slogans neurolinguisticamente elaborados para ecoar sem piedade e sem salvação dentro do seu crânio, te mandando comprar comprar comprar, curtir curtir curtir, economizar economizar economizar. coitado do senhor! nunca teve chance, né? ó dó. não é culpa sua, buana.

“pena que é sim. tudo culpa sua. eu, aqui, agora, pelos poderes concedidos a mim por essa hipertrofiada corporação multi-continental, convoco toda a culpa do universo e a deposito solenemente nos seus ombros. a culpa é toda sua, do senhor mesmo, aí dizendo “pri” com esse sorriso cada vez mais murcho.

“tenho nojo do meu nome nos seus lábios, paxá. tenho nojo de ser alvo de uma manipulação tão barata, tão óbvia, tão hipócrita. o senhor sabe por que estou usando um crachá com o meu nome? porque pesquisas de mercado lá da metrópole demonstraram que saber o nome da criadagem, ops, dos associados, faz com que os amos, ops, os consumidores se sintam entrando na casa de uma pessoa que conhecem. afinal, ninguém nunca vai na casa de alguém sem saber seu nome! o objetivo do crachá é fazer com que os clientes se sintam acolhidos e bem recebidos, e assim comprem mais, voltem numerosas vezes, tenham uma experiência melhor na loja, e gerem lucros, lucros, lucros. (se meu gerente achasse que ganharia um centavo a mais em seu bônus anual arrancando meu coração do peito ainda batendo, já teria feito isso na primeira oportunidade, seguro de contar com o entusiástico apoio da direção e dos acionistas.)

“o objetivo do meu nome no meu crachá nunca é e nem nunca foi reconhecer minha própria humanidade e subjetividade. rá rá, perdão, sahib, me engasguei de rir. se o engenho de fato reconhecesse minha individualidade de pessoa humana, então meu capataz, ops, meu gerente me trataria como se eu fosse gente e se dignaria a conversar comigo quando precisasse falar com ele; eu receberia duas horas a mais de trabalho por semana só para me qualificar pra uma série de benefícios trabalhistas que me fazem muita falta; minhas horas-extras seriam pagas em dia ou mesmo, rá rá, perdão de novo, simplesmente pagas; eu não seria tratada como uma engrenagem intercambiável que pode ser a qualquer momento substituída por outra engrenagem que faria rigorosamente a mesma coisa e ninguém perceberia a diferença.

“mas o meu nomezinho no meu crachazinho não é só para melhorar a experiência dos donos, ops, dos consumidores. aliás, adoro essa palavra: experiência. sempre penso que, nessa experiência, o único lugar que me cabe é o de beagle torturada e dissecada, sem ninguém para invadir o laboratório e me libertar. (não devo ser fofa o suficiente para valer o esforço!) mas estou divergindo, sinhôzinho, perdão.

“as mesmas pesquisas de mercado também indicam que os sultões sentem falta de saber o nome dos serviçais para poder melhor reclamar deles. afinal, ainda mais em democracias raciais como a nossa, os escravos, ops, os associados, se parecem todos uns com os outros, ou seja, tendem a ser de uma raça, de uma cor, de uma classe social diferente dos senhores de engenho, ops, dos clientes, então, convenhamos, fica até difícil diferenciá-los, né? do ponto de vista dos amos, quem não tem boa aparência é tudo igual.

“então, quando o senhor for reclamar de mim ao capitão-do-mato, não vai precisar expor seu racismo dizendo que a cativa que ficou emperrando a fila pra lhe dizer umas verdades era aquela “moreninha” do “cabelo ruim”, e sim que foi a “pri”. aliás, cabelo ruim é o caralho. ruim é a sua cegueira. ruim é a sua falta de consciência. ruim é você que está lendo esse texto de merda e balançando a cabeça em concordância, mas não vai fazer nada a respeito. ruim é você que está escrevendo essa porra inútil como se fosse mudar alguma coisa. fodam-se todos vocês.

“mas fica pior, kemosabe. sempre tem como piorar. sabe por que o meu crachá diz somente “pri” e não meu nome completo “priscila dos santos silva”? não, não é porque já somos amigos íntimos eu e o senhor — repara que nem ouso chamá-lo de “você”. não, não é porque eu, mesmo sem querer saber o seu nome de patrício bem-nascido, ainda assim estou lhe dando explicitamente o direito de me chamar por um apelido tão carinhoso. não, mestre.

“é porque as mesmas pesquisas de mercado indicaram que nomes completos teriam que ser escritos em fonte muito pequena, seriam difíceis de ler pelos marajás mais idosos ou mais míopes (ou faria com que tivessem que chegar perto demais da criadaria para poder ler seus nomes, talvez até perto o suficiente para sentir nossa inhaca de trabalhadores, deus nos livre!), e, mais ainda, seriam difíceis de decorar e lembrar. então, a ordem que nos deram foi dar um jeito de resumir nossos nomes em até quatro letras. quatro. e eu consegui em três! nosso lema é eficiência, buana.

“tem mais. quando os capatazes julgam que um dos escravos tem um nome difícil de pronunciar, ou pior ainda, nome de pobre, lhes rebatizam sem hesitação. um colega de senzala nigeriano chamado ilunga usa um crachá que diz “alan”. meu amigo uóston virou “fred”. eu ainda tive sorte de ser a “pri”. sou uma privilegiada. (mas o senhor nem saberia como é isso de ser privilegiado, né, patrão? depois o senhor me conta dos impostos escorchantes que pagou no seu novo ipad.)

“e ai de mim se tivesse me recusado a conceder a intimidade de me chamar de “pri” aos clientes sem consciência da nossa magnânima e sobranceira empresa, que é uma das maiores empregadoras da nação, parte integrante do projeto nacional-desenvolvimentista do nosso internacionalmente celebrado governo de esquerda. imagina! eu teria gerado um novo posto de trabalho ali mesmo.

“afinal, convenhamos, que diferença faz que eu seja a priscila dos santos silva, aquariana, flamenguista e viciada em novela, filha de felipe gois da silva e de maria josé de sá dos santos, que são gente, viveram, se conheceram, se amaram, me tiveram? priscila dos santos silva, filha de felipe gois da silva e de maria josé de sá dos santos, só tem uma. mas “pri”, ora, meu patrãozinho, tem uma “pri” em cada esquina. quando eu for terminada, expulsa, demitida, esmagada, deglutida, cuspida fora, não vão nem precisar de um novo crachá. haverá sempre um fluxo infindável de novas e novas pris para alimentar o moedor de carne dessa meritória e fecunda instituição, pilar divino da indústria nacional, abençoada seja, ela está no meio de nós.

“ah, sahib, então o senhor se preocupa mesmo com a sua serva aqui? esse seu sorriso frouxo ao invocar meu nome não era apenas um ritual vazio antes de me passar suas ordens? era carinho verdadeiro? era porque o senhor realmente se importa? eu acredito, claro. como duvidar de um homem de bem como o senhor? (eu não ousaria!) então, deixa eu lhe contar o segredo da senzala.

“não me adianta nada esse seu carinho.

“não adianta falar meu nome com um sorriso e me tratar como pessoa humana, ao mesmo tempo em que prestigia com as suas compras o mesmo engenho que diariamente me desumaniza. não adianta se vestir de branco e fazer passeata de mãos dadas contra a violência e contra a corrupção, bichos-papões convenientemente vagos e abstratos (alguém é pró-corrupção ou pró-violência, buana?), ao mesmo tempo em que elege e reelege os mesmos políticos com as mesmas plataformas pró-mercado & pró-indústria, anti-trabalhador & anti-assistência.

“não adianta nada entrar no ônibus (mas o senhor nem deve andar de ônibus, né?) e saudar a cobradora pelo nome, e então reclamar quando a greve da categoria lhe causa o mínimo desconforto. nem tudo gira em torno do seu cu privilegiado, vossa coxinhência. qualquer greve tem como objetivo não atrapalhar a sua bem-organizada vidinha mas conseguir melhores salários e condições para trabalhadores que sobrevivem mensalmente com uma fração da sua renda. os ônibus estão de greve? então, apoie o movimento e vá a pé. ou pegue um táxi: com certeza, o senhor pode pagar.

“eu não quero nem o seu bom-dia, nem o seu sorriso. não quero seu falso carinho, sua falsa intimidade, sua falsa preocupação. eu não quero ouvir sua voz pronunciando meu santo nome em vão. eu quero justiça social, direitos iguais, assistência do estado. eu quero que as autoridades públicas, que a polícia, que os meus empregadores, que os clientes que eu atendo, que os homens que me assediam na rua, reconheçam em mim a mesma humanidade, a mesma individualidade, a mesma subjetividade que veem em si mesmos. é pedir muito?

“eu quero que minha filha tenha acesso à saúde pública de qualidade para estar viva e saudável no momento em que a escola pública de qualidade lhe ensinar que não vale a pena comprar por 24 parcelas de cem reais uma tevê que custa 999 à vista. e isso só pra começar.

“agora, meu senhor, em que posso servi-lo? quer levar fritas grandes e uma garantia adicional de um ano por apenas mais dez reais?”

(publicada originalmente na revista fórum)

o papel dos homens no feminismo

para um homem, articular o discurso feminista é razoavelmente fácil: difícil é agir de acordo.

talvez uma das maiores contribuições dos homens para o feminismo seja simplesmente se posicionar no mundo de forma feminista.

o valente não é violento.

quais são as coisas que nós homens FAZEMOS que silenciosamente confirmam, aos olhos das crianças e do mundo, a desigualdade de gênero, o machismo, a transfobia, o sexismo?

nenhuma pessoa — e com certeza nenhum homem, mesmo o mais pró-feminista leitor de simone de bouvoir — está acima de fazer comentários machistas ou de ter atitudes transfóbicas. é preciso analisar todo dia nossas ações & nossas palavras. é preciso muita autocrítica. é preciso sempre saber ouvir.

falar o feminismo é a parte fácil. agir o feminismo, todos os dias, é que são elas.

* * *

esse texto é parte da blogagem coletiva “o valente não é violento”, promovida pela ONU mulheres, para lutar pelo fim da violência contra a mulher. leia o texto completo aqui: o poder do exemplo: sobre homens no feminismo.

quatro textos sobre privilégio

(envie para a sua pessoa privilegiada favorita)

carta aberta às pessoas privilegiadas

ação de graças pelos privilégios recebidos

o assunto não é você

o peso da história: a escravidão e as cotas

pino arriado

agora à noite. saindo do lançamento da paula abreu, na argumento do leblon. o céu subitamente despenca sobre o rio de janeiro.

entre a água que cai, mal e mal vislumbro um milagroso táxi lívre e faço sinal desesperado. o carro encosta quase em frente à livraria e corremos até ele, ficando completamente ensopados por menos de dez segundos de exposição às baldadas d’água.

lentamente, quase sem visibilidade nenhuma, passando com cuidado por cada cruzamento, vamos vadeando em direção à copacabana.

toca o telefone, ele atende:

“oi, meu amor. é, tá caindo um toró aqui também. eu sei, eu sei. eu tinha acabado de encostar pra ver a novela e esperar a chuva passar, mas um casal invadiu aqui o táxi. vou deixar eles em copacabana e depois eu páro. eu juro. de pino arriado.”

viver sem esperança

um belo texto de charlotte joko beck. um trecho:

Uma vida vivida sem esperança é pacífica, alegre e compadecida. Enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo — e todos fazem isso —esperaremos que aconteçam coisas que, em nossa opinião, tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. Esperamos ter sucesso. Esperamos ter saúde. Esperamos alcançar a iluminação. Há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça; e, evidentemente, toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. A pessoa que já praticou o sentar, seja qual for o período que durou sua prática, sabe que não existe passado ou futuro, exceto em nossa mente. Não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí, presente.

leiam o texto inteiro: sem esperança.

gentileza em copacabana

morei por vários anos no exterior (esse imenso e estranho lugar que inclui são paulo, os estados unidos e marte), mas finalmente consegui voltar ao rio de janeiro. hoje, vivo em copacabana.

quando o escritor luiz biajoni, paulista de americana, teve receio de escrever o romance elvis e madona, ambientado no bairro, sem conhecer nada dele, eu o tranquilizei. copacabana é como paris ou nova iorque: ela é plástica, mutável, literária. a copacabana de verdade não existe. a copacabana inventada é que é a real.

de copacabana, eu esperava, e ainda espero, tudo. o melhor e o pior que podem oferecer cento e cinquenta mil seres humanos apertados entre o mar e as montanhas.

o que não esperava é que fosse um bairro tão gentil.

* * *

antes de me mudar, fui a uma agência de banco perto da minha futura casa tentar resolver um daqueles típicos e infernais problemas bancários de quem volta a morar no brasil.

quando cheguei, a gerente estava atendendo, com infinita paciência e muito tato, uma velhinha surda e grosseira que não entendia o funcionamento do cheque especial e nem tinha noção de como estava gritando. depois, na minha vez, com uma boa vontade que me comoveu, ficou quase duas horas comigo, que nem era correntista daquela agência, resolvendo um problema exótico e raro.

só por causa dela, transferi minha conta para lá, pensando:

essa moça é a melhor gerente de banco do mundo!

* * *

meu prédio tem dez andares e cerca de quarenta apartamentos por andar. é uma pequena cidade, habitada por recém-casados, garotas de programa, velhinhos ranzinzas, estrangeiros deslumbrados… e eu.

o porteiro-chefe e sua equipe fizeram toda a reforma de quatro meses do meu apartamento, que basicamente teve que ser refeito do chão ao teto. enquanto lidava com os mil e um problemas que surgem em qualquer obra, ele era constantemente abordado, abusado, às vezes quase agredido por moradores grossos e impacientes, velhinhos com tempo livre demais nas mãos e controle de menos nos nervos.

ele respondia a todos com enorme paciência e infalível sorriso, sempre bonachão, calmo, tranquilo. e eu pensava:

esse homem é o melhor porteiro do mundo!

* * *

tem uma biblioteca municipal a um quarteirão do meu prédio. é onde estou agora escrevendo. venho muito trabalhar aqui.

a biblioteca tem duas coisas que não disponho em casa e que às vezes fazem falta: mesas e cadeiras, e ausência de internet. meus livros estão expostos na estante de lançamentos e é gostoso ver que nunca param quietos, a fileira de carimbos nos cartões só aumentando.

tecnicamente, é uma biblioteca infantil, mas estamos em copacabana: 90% do público é de velhinhos. e eles não querem nem ler jornal, nem olhar as estantes: exigem serviço! quais são as novidades? onde estão os lançamentos? rápido! rápido! e por que pararam de abrir sábado, hein?

e, incrivelmente, a bibliotecária, uma funcionária pública com estabilidade no emprego, não manda todos tomarem no cu. pelo contrário, demonstra imenso carinho, sabe seus nomes, conhece seus gostos, lembra seus hábitos: chegou o novo mário prata, a senhora não queria o último do joão ubaldo?, saiu um livro sobre a revolução francesa. às vezes, empurra até os meus: esse romance é daquele moço que está ali.

e eu, tentando escrever textos como esse que você está lendo e prestando atenção em tudo, pensava:

essa moça é a melhor bibliotecária do mundo!

* * *

até que finalmente caiu a ficha, né?

sem querer desmerecer os três profissionais citados acima, todos também moradores de copacabana, eles não são os únicos. poderia falar o mesmo de garçons e atendentes, caixas de supermercado e barbeiros. imagino que os profissionais que não tenham uma paciência especial para lidar com velhos rudes e sem noção acabam naturalmente saindo do bairro e aceitando outros empregos.

sobra então a força de trabalho mais gentil do mundo.

quando decidi que iria morar em copacabana, nunca imaginei que a melhor coisa do bairro fosse ser justamente… a gentileza.

* * *

uma amiga leu a primeira versão desse artigo e comentou:

“alex, você é muito engraçado mesmo. percebe que escreveu esse texto todo pra dizer que copacabana é o lugar mais gentil do mundo, mas o texto serviria igualmente dizer que é o lugar mais grosseiro? afinal, em cada história que você contou, além do profissional agindo de forma paciente e gentil, existem outras pessoas sendo rudes e exigentes. por que não escrever um texto dizendo que em nenhum outro lugar você viu tantos velhos mal-educados destratando as pessoas atenciosas que os serviam?”

e lembrei de uma pintora que foi estuprada três vezes ao longo de sua vida. quando perguntaram como ela se recuperou e o que fez para voltar a ter relações saudáveis com homens, ela respondeu:

“em um dado momento, temos que escolher quem permitimos que nos influencie. eu poderia me permitir ser influenciada pelos três homens que me foderam contra a vontade, ou podia escolher ser influenciada por van gogh. escolhi van gogh.”

pois bem. escolho a gentileza.

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praia de copacabana, vista do leme.

tirada em 29 de novembro de 2013, do caminho dos pescadores, no leme. ao fundo, o morro dois irmãos, a pedra da gávea, o corcovado. clique para ver em tamanho maior. outros textos meus sobre copacabana.

ação de graças

em homenagem ao dia de graças, agradeço por todas as bençãos que recebi.

(um texto difícil, que estou gestando faz alguns anos. adoraria saber a opinião de vocês.)

racismo, os melhores textos

o melhor:

senzalas & campos de concentração

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cotas

o peso da história: a escravidão e as cotas
carta aberta a uma estudante que perdeu a vaga por causa das cotas

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racismo & imigração

racismo e imigração: de que cor devem ser nossos imigrantes?

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politicamente correto & privilégio

carta aberta às pessoas privilegiadas
o assunto não é você
carta aberta aos humoristas do brasil

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normatividade branca

racismo e normalidade

* * *

racismo & feminismo

racismo, miscigenação e casamentos interraciais no brasil

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ficção

duas profissões esquecidas do rio antigo (conto)

monges budistas que bebiam merda

do sempre delicioso e indispensável fernão mendes pinto, português que passou trinta anos perdido pela ásia no século 16 e escreveu uma das obras mais importantes da nossa língua, a peregrinação.

o trecho abaixo, retirado do capítulo 160, teoricamente descreve os muitos personagens de um festival religioso budista que pinto teria testemunhado em burma, em 1545.

(vale a pena lembrar que ele mentia tanto que seu apelido era “fernão, mentes? minto”.)

“Vinhão tambem outros que se chamauaõ Nucaramoẽs, muyto feyos & mal assombrados, vestidos de pelles de tigres com hũas panellas de cobre debaixo dos braços, cheyas de hũa certa confeiçaõ de ourina podre, misturada com esterco de homẽs, taõ peçonhenta & de fedor taõ incomportauel, que por nenhum modo se podia sofrer nos narizes, & pedindo esmolla ao pouo dezião, dame esmola logo nessa hora, & se não comerey disto que come o diabo & borrifarteey com que fiques maldito como elle; a que logo todos acudião a lhe darem esmolla muyto depressa, & se tardaua mais hum momento do que elle queria punha a panella à boca, & bebendo hum grande trago daquella fedorenta confeyção, borrifaua com ela aos que queria fazer mal, porque toda a outra gente que os via borrifados, auendoos já por malditos, saltaua nelles, lhes daua tão mao trato, que os tristes naõ sabiaõ parte de sy, porque nenhũa pessoa cataua cortesia que o naõ deshonrasse, & lhe desse muytas bofetadas & arrepeloẽs, dizendo que erão escomungados por serem causa de aquelle homem santo comer aquella çugidade como os diabos, & ficar sempre fedorento diante de Deos, para não poder yr ao parayso, nem ninguem o ver mais neste mundo.”

junto com a bíblia e o declínio e queda do império romano, de gibbon, a peregrinação fecha meu trio de livros favoritos. (clique aqui para baixar a peregrinação completa, em português antigo.)

fincar o pé na correnteza

de vez em quando, me acusam de ficar “reafirmando” meu estilo de vida, como se estivesse me gabando, como se fosse inseguro, como se quisesse convencer os outros.

mas todas as forças do mundo nos impelem a nos conformar. a nos transformar no padrão que exigem de nós. a nos moldar em pais de família, trabalhadores, consumidores, monogâmicos, heterossexuais, eleitores do psdb.

ser quem queremos ser é uma luta diária. um exercício constante de bater o pé, se recusar a ser coagido, articular quem se deseja ser — e, então, e essa é a parte mais difícil, efetivamente ser essa pessoa.

quem está sendo o que a sociedade espera que seja não precisa se auto-afirmar.

quem está na contramão precisa.

é necessário articularmos sempre o nosso caminho — justamente para não sair dele.

* * *

ser bem-ajustado e bem-sucedido em um mundo escroto pode bem ser indicativo da sua própria escrotidão.

aliás, quem é você?

ônibus errado

ontem, um homem foi atropelado na saída da ponte rio-niterói.

ele tinha pego um ônibus errado, saltou no primeiro ponto de niterói e tentou atravessar a pista para pegar um outro ônibus no sentido rio. foi atingido por dois carros e um terceiro bateu na mureta para não atropelá-lo.

e eu, que também já peguei a ponte por engano, quando estava tentando chegar no fundão para a defesa de mestrado da minha melhor amiga, isabel, fiquei pensando nesse pobre moço atropelado por dois carros.

ninguém pega ônibus errado no trajeto casa-trabalho-escola. ônibus errado é para os dias especiais, para os dias fora da rotina, quando estamos indo a lugares diferentes, quando estamos fazendo coisas que nunca fizemos antes. boas ou ruins, estressantes ou relaxantes. uma entrevista de emprego, um exame médico, um encontro amoroso. algo que ocupa nossos pensamentos, nos desconcentra o foco, nos antecipa o futuro. será que é maligno? será que ela gosta de violetas? será que vão me contratar?

e assim, distraídos e felizes, ansiosos e talvez um pouco atrasados, atravessamos uma rodovia movimentada.

prisão monogamia

tudo o que eu tenho a dizer sobre monogamia, poliamor e relações abertas, em um só texto: a monogamia é uma prisão.

simplicidade voluntária

no programa capital natural, da bandnews, falando sobre simplicidade voluntária.