as oito preocupações mundanas

1. querer elogio

2. não querer crítica

3. querer prazer

4. não querer dor

5. querer vitória

6. não querer derrota

7. querer reconhecimento

8. não querer menosprezo

* * *

sobre zen.

homenagem

queijaria de beira de estrada, entre montevidéu e colônia. cabras felizes pastam ao redor.

no balcão, o retrato emoldurado de uma cabra, com a legenda “titi”.

revela o queijeiro, sorrindo:

“foi nossa primeira cabra!”

o céu está sempre azul

o céu está sempre azul e o sol está sempre brilhando.

talvez exista até algum obstáculo momentâneo impedindo a visão mas, acima dessas nuvens, do outro lado desse planeta, o céu está sempre azul e o sol está sempre brilhando.

nos meus momentos de depressão, esse pensamento me alegra.

(da série: “coisas que só se percebe na prática observando o céu enquanto se dirige mil quilômetros em um só dia pelos andes e pelos pampas.”)

o que é a História comparada a uma dor de dente?

estou lendo “vozes de chernobil”, uma história oral da tragédia nuclear, escrita por svetlana alexievich, vencedora do nobel de literatura desse ano.

um livro lindo, belíssimo, incrível, que eu (atenção para o maior elogio que uma pessoa escritora pode fazer a outra) gostaria de ter escrito.

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uma das histórias é de um professor de história que tinha acabado de descobrir o adultério de sua esposa e só conseguia pensar nisso, tinha até tentado o suicídio.

quando é convocado para trabalhar na limpeza de chernobil, ele pensa:

“se não estávamos em guerra, por que eu teria que arriscar a minha vida? e mais ainda se alguém comeu minha mulher! por que tem que ser eu, de novo, e não… “ele”?!”

durante os trabalhos, ele ganhou vários medalhas de valor, porque atuava sem nenhum medo da morte. para ele, nada daquilo era real. só conseguia pensar na traição que tinha sofrido.

no final do relato, ele conta a história de um moço que vivia em jerusalém na época de jesus.

ele estava em casa quando jesus passou carregando a cruz, tropeçou bem em frente a sua porta, se levantou, pegou a cruz de novo, voltou a carregar. e o homem dentro de casa, ouvindo toda aquela comoção, todo mundo chamando ele pra ver, mas ele não saiu:

estava morrendo de dor de dente.

e eu, alex, também professor de história como o autor desse relato, sei bem do que ele está falando. estudei história militar: sei quantas batalhas decisivas da humanidade foram perdidas porque algum general estava com dor de barriga e não conseguia se concentrar na batalha.

o que é a História Humana, assim em maiúsculas, com toda sua grandeza abstrata, comparada a uma raiz exposta, a um coração partido?

a Grande Conversa

tudo o que eu sempre quis foi fazer parte da Grande Conversa.

* * *

quando eu era criança, não tinham muitos livros na minha casa. meu pai e minha mãe eram pessoas instruídas, mas não eram leitoras. haviam alguns livros de arte da minha mãe (formada em belas artes)e muitos agatha christie, sidney sheldon, morris west e afins do meu pai.

na sala, havia uma enciclopédia britânica, edição de 1978, comprada mais por decoração e por status do que por leitura. (nunca vi nenhum dos dois mexendo nela, nem falavam inglês o suficiente para lê-la.) 

talvez tenham comprado pra mim.

nesse caso, foi um excelente investimento. pois estou aqui, quase quarenta anos depois, escrevendo um texto sobre a importância desses livros em minha vida.

não exatamente da enciclopédia britânica em si (que devorei com a fúria de menino leitor em casa de poucos livros) mas da coleção que veio com ela:

great books of the western world

vendi quase todos os meus livros faz muito tempo, mas guardei vários volumes dessa coleção. alguns muito remendados (como o segundo volume de “declínio e queda do império romano”, que levei durante a evacuação do furacão katrina), todos muito marcados.

talvez o melhor modo de ressaltar a importância dessa coleção seja listar os autores que eu li através dela:

homero, ésquilo, sófocles, eurípedes, aristófanes, heródoto, tucídides, lucrécio, virgílio, plutarco, agostinho, tomás de aquino, maquiavel, hobbes, spinoza, shakespeare, cervantes, descartes, sterne, rosseau, gibbon, mill, goethe, melville, darwin, marx, tolstoi, dostoievski e freud.

nem todos eu gostei. nem todos eu entendi. mas muitos estão entre os meus autores preferidos. e todos são necessários.

(naturalmente, é aquela velha coleção de livros canônicos, todos escritos por homens brancos ocidentais. nenhuma mulher, nenhuma pessoa autora periférica. eram outros tempos, definitivamente.)

mas não é desses gênios que quero falar.

* * *

dentre tantos livros clássicos, talvez o que mais me influenciou tenha sido o primeiro volume introdutório, escrito por um dos organizadores, robert maynard hutchins.

ele explica que a tradição ocidental está corporificada em uma Grande Conversa, que começou na aurora da humanidade e que continua até o dia de hoje. o que une os autores da coleção é justamente essa Grande Conversa que estão travando, na qual um responde aos seus antecessores e, por sua vez, será respondido por seus sucessores, e assim em diante.

por isso, desde a minha infância, graças a hutchins, nunca consegui ver esses livros como objetos de estudo ou de veneração, como textos chatos, ou pesados, ou densos, ou intimidadores.

nada disso: era A Grande Conversa, uma baita fofocada entre pessoas geniais, ao longo dos séculos, se dando tapinhas nas costas, se alfinetando, se louvando, se atacando, tudo acontecendo bem ali, na minha sala.

o que poderia ser mais legal que isso?

* * *

para mim, na prática, participar da Grande Conversa era hoje eu ler euripides e, amanhã, aristófanes zoando de eurípides; hoje ler sobre a guerra de tróia, na ilíada, e amanhã, ler virgílio preenchendo a lacuna sobre a queda da cidade no segundo canto da eneida; hoje ler agostinho inventando a autobiografia e, amanhã, ler sterne completamente subvertendo-a, às gargalhadas, no livro mais pândego de todos os tempos.

declínio e queda do império romano, de gibbon, até hoje é meu segundo livro preferido — só perdendo para a bíblia, que é imbatível. descartes me ensinou a ser adulto — como eu conto na prisão verdade. até hoje, todos os meus textos argumentativos servem as lições que me ensinaram darwin e freud — que já seriam grandes escritores independente de suas grandes ideias. sinto um amor por eurípedes como se fosse um velho amigo — e, aliás, detesto aristófanes, seu desafeto. alguma obra literária pode ser mais perfeita que a ilíada? ela é mãe de todos os romances, contos, peças, blockbusters de hollywood, e ainda não conseguimos fazer melhor — nada tão duro, tão sangrento. agostinho, tomás de aquino e, em menor grau, até descartes me ensinaram o quanto a religião pode distorcer o pensamento até das pessoas mais brilhantes. leio tomás de aquino com admiração e desespero, pensando: meu deus, esse homem poderia ter colocado a humanidade da lua… se não estivesse tão preocupado discutindo literalmente o sexo dos anjos!

* * *

quando eu, criança ainda, 30 anos atrás, decidi que seria escritor, tudo o que eu queria, na verdade, era dar meu pitaco na Grande Conversa.

no começo, e durante muito tempo, e um pouco até hoje, esse desejo era fruto do mais enraizado narcisismo, daquela ideia egocêntrica de que temos um direito sagrado à auto-expressão, daquela ideia megalomaníaca de que minha auto-expressão estaria no mesmo nível da auto-expressão de um freud, de um cervantes, de um  tucídides.

aí, a idade veio chegando e o narcissismo começou a perder terreno para a gratidão.

antes, eu olhava para os grandes livros e pensava:

“um dia, minha auto-expressão estará ali.”

agora, eu olho para os grandes livros e penso:

“quanta gratidão por essas pessoas tão incríveis que trabalharam tão duro por todas as suas vidas, enfrentando dificuldades cotidianas que eu mal imagino, que nunca nem conceberam minha existência, mas que, mesmo assim, adicionaram tanto valor, tanta beleza, tanto conhecimento à minha vida!”

obrigado, obrigado!

* * *

poderia usar qualquer um desses autores como exemplo, mas uso lucrécio, autor do poema “da natureza“. lucrécio, que viveu antes mesmo do nascimento da pessoa que hoje usamos para marcar o tempo. lucrécio, que escreveu em uma época em que a minha língua ainda nem sonhava existir. lucrécio, esse homem que, quando eu estava perdido, procurando uma alternativa racional ao cristianismo, me deu todo um vocabulário e toda uma lógica para entender o universo.

minha dívida com lucrécio é impagável.

e não só com ele. sou grato a caio mêmio, a quem o poema é dedicado e que era provavelmente mecenas de lucrécio, por ter lhe dado as condições materiais para compor o texto que mudou a minha vida; a todas as pessoas anônimas que copiaram o texto, a mão, ao longo dos séculos; a poggio bracciolini, que reencontrou o manuscrito, depois de séculos perdido, em 1417; a todas as pessoas tradutoras, editoras, organizadores que prepararam o manuscrito para que eu pudesse lê-lo.

é literalmente incontável o número de pessoas que, ao longo de dois milênios, trabalhou duro, muitas vezes sem pagamento, para que, hoje, em 2015, o texto de lucrécio possa continuar mudando a minha vida.

(em “a virada — o nascimento do mundo moderno“, stephen greenblatt considera a redescoberta de “da natureza” por poggio como o marco inaugural da grande virada que marcaria o fim da idade média e o começo do renascimento.) 

* * *

em setembro e outubro de 2015, 30 novas pessoas se tornaram mecenas. as assinantes (que fazem contribuições mensais regulares) já são 190. e o número total de mecenas pela primeira vez superou 400.

e eu fiquei ali, atualizando a lista de mecenas, colocando novos nomes em meio àqueles velhos nomes, recordando as palavras do velho hutchins, e pensei:

minha grande conversa é com vocês.

* * *

muito, muito obrigado mesmo.

para também se tornar mecenas, clique aqui.

* * *

a imersão “as prisões” de finados já é no próximo fim de semana. é uma das coisas mais legais que já fiz. dessa vez, ainda temos bastante vagas. não deixe de vir por falta de grana. veja os detalhes e fale comigo.

conselho de carreira

hoje, uma jovem me pediu conselho de carreira.

só tenho um, dividido em três partes:

evite ao máximo trabalhar, para não ser tentada a consumir.

evite ao máximo consumir, para não precisar trabalhar.

evite ao máximo procriar, para não usar a prole como desculpa para vender sua alma ao mercado de trabalho e ao mundo de consumo, fazendo concessões que jamais faria por si mesma.

evitando essas três armadilhas, o mundo vai se abrir para você em infinitas possibilidades.

ou não.

na pior das hipóteses, sua vida vai ser muito mais simples.

evite trabalhar

o miojo não comido

os namorados felipe caffé, 19, e liana friedenbach, 16, mentiram aos pais que iriam acampar com amigos e foram passar o feriado de finados juntos, em um sítio abandonado. no domingo, foram dados como desaparecidos.

quando soube disso, até pensei: lá se vão romeu e julieta ganhar o mundo.

nada disso. seus corpos foram encontrados 10 dias depois. felipe foi morto com uma bala na nuca. liana levou quinze facadas, foi degolada e estuprada.

liana e felipe mentiram aos pais que iriam viajar com um grupo de amigos. ao invés disso, se encontraram em são paulo, dormiram ao relento e pegaram um ônibus na manhã do dia seguinte. saltaram em uma cidade próxima ao sítio onde acampariam e ali compraram mantimentos, miojo, biscoitos, água, leite em pó.

o que aconteceu depois ainda não se sabe. só sabemos com certeza que morreram. e morreram de forma terrível. foi estuprada? foram mortos pelo rapaz que está preso? ele matou mesmo só porque teve vontade? quantos dias ficaram prisioneiros? foram torturados? isso não sabemos ainda.

mas sabemos que a sacola de mantimentos foi encontrada no local do acampamento. tudo fechadinho. nada foi consumido.

fico pensando na viagem até o local, na alegria deles comprando aquelas coisas simples, já antecipando o fim de semana romântico que teriam, quem sabe daqueles fins de semana que mudam nossas vidas pra sempre, um abraçando o outro enquanto pagavam pelos biscoitos, naquela excitação tão pura, tão intensa da adolescência.

eu gostaria de acreditar que ambos pelo menos tiveram sua noite de amor antes da tragédia. mas os mantimentos fechados contam outra história. nem isso tiveram.

foi o miojo não comido, esquecido fechado sob o carramanchão, que me fez chorar.

* * *

texto escrito em 2003, no calor do momento. hoje, já sabemos com detalhes o que houve.

das duas, uma

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ou você admite que meritocracia é uma farsa e que vivemos em um país racista;

ou você admite que sinceramente, de verdade, do fundo do seu coração, você acha que as pessoas negras gostam mais de ser assassinadas do que de cursar faculdade.

* * *

imagem: “quadro negro” (2015), de estevão haeser.

porque eu não curto suas postagens no facebook

há muito tempo, quando ainda circulavam piadas e ppts por emails, eu tinha uma resposta pronta para quem me mandava essas coisas:

“querida pessoa, tenho interese em TUDO o que você tenha a me dizer e em NADA do que tenha a me encaminhar.”

ou seja, pode me mandar um email de vinte páginas falando dos seus problemas, mas não me repassa piada.

estou no facebook 100% a trabalho, só para divulgar meus textos: não faço posts pessoais, compartilho muito pouco da minha vida.

de fato, não curto posts de ninguém porque tenho o maior cuidado de nunca VER os posts de ninguém.

hoje, eu diria algo assim:

“querida pessoa, tenho interesse em TUDO o que você tenha a me dizer e em NADA do que tenha a compartilhar no facebook.”

meu telefone está no site. estou aberto à visitas. quase todo dia, pessoas que às vezes nem conheço me ligam, aparecem no fim da tarde, me contam suas vidas, choram, riem. e eu ouço, acolho, abraço.

isso é conexão humana.

ficar curtindo as postagens das “personas de facebook” que minhas pessoas amigas criaram, pelo contrário, é só alimentar o monstro que está nos devorando.

facebook ego

* * *

aí, alguém poderia perguntar:

“isso é egoísta e egocêntrico. você compartilha seus textos mas não quer ver as coisas de mais ninguém. por que então eu te curtiria ou compartilharia?”

e eu responderia:

“se você acha que não deve curtir nem compartilhar os meus textos, então, não faça isso.

se tem alguma coisa que você quer que eu veja, por que não manda diretamente para mim? pode mandar por email. pode ligar e me contar. pode aparecer aqui em casa.

TEM que ser pelo facebook?”

se vc nao paga vc é o produto facebook

* * *

para me ligar ou me visitar, confira minha página de contato. o melhor modo de acompanhar meus textos é pela newsletter, que estabelece um canal direto entre nós.

tudo o que você precisa saber sobre o capitalismo, em uma livraria

moro entre dois bairros cheios de livrarias, inclusive algumas muito badaladas e gigantescas, como a livraria da travessa de ipanema.

como não tenho internet em casa, quando quero um livro, eu ligo pra uma meia dúzia de livrarias e pergunto.

e, apesar de todas essas livrarias, é sempre uma pequena livraria na esquina da minha rua que tem tudo o que eu quero.

com um problema.

chego lá e o jardim das aflições, magnus opum do vilósofo olavo de carvalho, lançado quinze anos atrás, está permanentemente exposto em lugar de honra, como se tivesse sido lançado ontem por uma editora que pagou caro pelo espaço na vitrine.

além disso, a obra está sempre ladeada de escudeiros: o novo livro do constantino, a biografia do lobão, o último lançamento da três estrelas, todos exibidos com destaque.

mas aí, outro dia eu estava buscando por uns livros obscuros do paulo freire, sabe quem é?, aquele comunista que as pessoas do leblon fazem passeata contra?, e eles tinham uma estante inteira com dezenas de obras do paulo freire, obras que não tinham em nenhuma das outras livrarias pra-frentex do bairro.

(não em destaque como as obras do olavão, claaaaro, mas estavam lá.)

aí, semana passada, decidi reler foucault, que eu tinha lido em xerox, e, de novo, a única livraria do bairro que tinha todas as obras do foucault que eu estava procurando, sabe quem é?, o filósofo careca pervertido gay que a igreja impediu de virar cátedra na puc?, foi essa livraria olavete.

(ok, de novo, não em destaque, mas estavam todos lá – e são muitos.)

essa pequena livraria olavete em copacabana simboliza tudo o que o capitalismo tem de melhor e de pior:

ele é o único sistema cuja ganância é tamanha que incorpora, aceita e coopta até mesmo o discurso que prega a sua própria destruição – desde que possa lucrar com isso – tudo sob o manto de uma democracia de fachada – que sempre vai só até certo ponto, e olhe lá.

enfim, virei freguês.

minhas contas mensais

como eu vivo da generosidade das minhas mecenas, acho importante que minhas contas sejam abertas e públicas.

minha casa.

minha casa.

no momento, minha única renda fixa são r$800 que ganho por textos que publico na internet.

todas as outras entradas possíveis são irregulares, incertas e imprevisíveis: vendas de livros ou de encontros, contribuições das mecenas, alguma turista querer ficar no meu apartamento. em qualquer dado mês, elas podem facilmente não render nem um único real.

já as despesas fixas mensais são aproximadamente: r$350 de condomínio, r$150 de gás/luz/internet/telefone fixo, r$400 de mercado, r$100 de transporte.

tenho um plano de internet popular de r$29, mas só para hóspedes: quando não tem hóspede, uma amiga fica com o modem, para eu poder trabalhar sem distrações. o plano de telefone fixo também é popular, só r$22. no gás, pago o mínimo, r$29.

algumas pessoas não acreditam que minha conta de luz seja tão barata, mas meus únicos aparelhos elétricos de uso contínuo são um frigobar e um laptop. além disso, tenho uma lâmpada fria no teto e outra em uma luminária de leitura, que nunca ficam acesas por mais de duas, três horas por noite. sobram apenas o chuveiro elétrico e o ar condicionado, dois aparelhos sazonais utilizados poucos meses por ano.

o que mais encarecia minhas compras de mercado eram bebidas, carnes e artigos industrializados, três coisas que não compro mais. sem isso, é impressionante o quanto rendem compras de grãos, frutas, legumes, ovos.

os gastos de transporte são baixos, pois faço tudo a pé, pelo bairro.

troco de computador nos anos pares, cerca de r$1.500, e de óculos nos ímpares, cerca de r$1.000, as únicas duas compras que programo e parcelo no cartão de crédito.

anualmente, pago cerca de r$100 de iptu.

não pago aluguel pois tenho a felicidade de ter recebido um apartamento, de forma completamente inesperada, em 2011. mas eu não estaria pagando aluguel de qualquer jeito. se esse apartamento não tivesse caído do céu, eu estaria morando, em definitivo e de favor, com a minha leitora e quase-irmã sônia, que cuidava do oliver durante minhas viagens, que me hospeda quando aparecem turistas para passar uns dias no meu apartamento, que agora hospeda até a minha companheira, que largou o aluguel e foi morar com ela.

(segundo a sônia, a primeira versão da prisão dinheiro, publicada em 2008, mudou sua vida e ela se sente em dívida comigo. eu sempre digo que ela não me deve nada, claro, mas aceito graciosamente o mecenato.)

minhas despesas fixas são essas. o que preciso pra viver é isso.

todo o resto ou é luxo (“olha que linda essa nova edição de moby dick“) ou é emergência — recentemente, minha geladeira pifou e precisei comprar uma nova (r$700, à vista).

ou seja, com cerca de mil reais por mês, eu vivo e vivo bem, com todas as minhas necessidades básicas preenchidas. usando laptop, consumindo cultura, comendo orgânicos. morando sozinho. na inflacionada zona sul do rio de janeiro.

se morasse com a família ou com uma companheira, em uma cidade ou bairro mais barato, poderia me bastar por muito menos.

em uma emergência, ainda dá pra apertar mais o cinto e abaixar esse número: comer mais frugalmente, andar mais a pé, usar menos eletricidade.

mas e o resto?, você poderia perguntar. viver não é apenas sobreviver. e os prazeres da vida?

sexo é de graça. passear em um parque, nadar no oceano, ver o pôr do sol no arpoador, tudo de graça. livros, eu pego na biblioteca, leio os que já tenho, baixo em pdf. exercícios, faço em casa ou na praia. internet, uso em qualquer café, quiosque, shopping center. filmes, baixo pela internet. saúde, o estado fornece de graça, inclusive meus remédios de pressão e diabetes. arte, sempre tem peça, show, exposições gratuitas, ou quase.

(na verdade, sem ser explorador demais, dá até para comer todas as refeições na casa das pessoas amigas. henry miller, em sua fase mais pobre de autor marginal, fazia uma escala de almoço com dezenas de pessoas conhecidas. com um mínimo de quinze, que nem é tanta gente assim, já dá pra marcar de aparecer na casa de cada uma em, digamos, terças-feiras alternadas e, assim, manter o papo sempre em dia e não explorar demais nenhuma única pessoa. em troca, henry se comportava como o artista marginal divertido e interessante que esperavam que fosse. devia ser um excelente negócio para todas as pessoas envolvidas: eu com certeza alimentaria henry miller duas vezes por mês. aliás, quem quiser me convidar para jantar regularmente, eu aceito.)

não estou dizendo que essa vida é desejável ou detestável, bonita ou feia, digna ou indigna, nenhum adjetivo positivo ou negativo.

estou dizendo que é possível.

para mim, é uma grande tranquilidade saber que me sustento com mil reais.

então, se vivo e me mantenho com mil reais, sem me faltar nada de necessário, isso quer dizer que viveria muito bem (luxuosamente até) com dois mil.

na prática, esse é o número que uso. considero que minha despesa mensal é de dois mil reais e meu atual objetivo financeiro é nunca gastar mais que isso por mês.

sendo bem sincero, me sinto até rico. afinal, é o dobro dos meus gastos fixos. mil reais de lambuja.

dá pra comprar uma geladeira novinha, o imprevisto dos imprevistos, e ainda ficar dentro do orçamento. dá pra comprar aquele livro que não resisti. dá pra pegar um táxi no dia em que estou carregando peso e está chovendo. dá pra assistir peças em teatros da prefeitura, onde o ingresso nunca passa de vinte reais. dá pra sair com as amigas pra jantar no mexicano da esquina.

em suma, dá pra ser flexível na frugalidade.

o que sobra eu economizo.

porque artista mambembe de vida incerta precisa economizar cada centavo. porque ter dinheiro economizado no banco é uma das formas mais concretas de liberdade.

* * *

abaixo, um trechinho da já citada prisão dinheiro, pré-respondendo uma objeção comum que esse texto suscita.

* * *

“ah, alex, viver assim é muito fácil! na minha vida, não daria!”

ao ler um texto como esse, muitas pessoas leitoras sentem uma ânsia irrefreável de ou apontar que a vida delas é diferente da minha (“para quem trabalha fora de casa não dá pra só gastar cem reais de transporte”, etc) ou interpelar a minha vida pessoal (“sendo dono de imóvel é fácil!”, “duvido que gaste só cem reais de luz, água, telefone!”, etc).

mas esse texto não é sobre a minha vida. a minha vida está apenas sendo utilizada como exemplo porque é a vida de quem escreveu o texto. naturalmente, os exemplos específicos da minha vida não vão se aplicar às vidas das pessoas leitoras.

hoje, em 2015, sou dono de imóvel. mas não era quando esse texto foi originalmente publicado em 2008, e muito menos nas duas vezes em que quebrei antes disso. em 2004, por exemplo, eu e minha esposa pagávamos r$600 por um quarto e sala em jacarepaguá, subúrbio do rio. em 2008, já sozinho, pagava trezentos e cinquenta dólares por um quarto em uma república de estudantes em nova orleans. o fato de eu ser dono ou não de um imóvel, hoje ou ontem, faz muito pouca diferença para a mensagem geral do texto.

o objetivo desse texto não é demonstrar que só dá para viver assim quem tem uma vida idêntica à minha ou que a minha vida é o máximo e todas devem me imitar. (que texto idiota seria esse!)

o objetivo desse texto é, através dos exemplos da minha vida, tão única e singular quanto a de qualquer pessoa, transmitir um novo jeito de pensar nossas despesas e nosso consumo, nossas necessidades e nossos prazeres, para que então cada um de nós possa decidir por conta própria o que quer fazer de nossas vidas tão únicas e tão singulares.

* * *

o texto acima faz parte da prisão dinheiro, onde esses temas são explorados mais à fundo.

eu sobrevivo graças à generosidade de cerca de 350 mecenas, que fazem contribuições em dinheiro para apoiar minha produção. se meus textos são importantes para você, por favor, considere a possibilidade de contribuir também.

para saber como, visite minha página de mecenato.

conselho

hoje, uma jovem me pediu conselho de carreira.

só tenho um, dividido em três partes:

evite ao máximo trabalhar, para não ser tentada a consumir.

evite ao máximo consumir, para não precisar trabalhar.

evite ao máximo procriar, para não usar a prole como desculpa para vender sua alma ao mercado de trabalho e ao mundo de consumo, fazendo concessões que jamais faria por si mesma.

evitando essas três armadilhas, o mundo vai se abrir para você em infinitas possibilidades.

ou não.

na pior das hipóteses, sua vida vai ser muito mais simples.

aviso de ficcionalidade

nunca é demais lembrar: sou um autor de ficção.

tudo o que escrevo deve ser tratado como ficção: eu invento fatos, eu invento pessoas, eu invento livros, eu invento citações.

é isso que faz um autor de ficção.

qualquer informação que você saiba por mim deve ser conferida em uma fonte independente antes de ser passada adiante.

então, quando você aprender a fazer isso comigo, passe a fazer isso com todas as informações que você receber de qualquer pessoa.

porque, no fundo, na prática, somos todas autoras de ficção, imersas em nossas pequenas realidades, inventando que somos aquilo que nunca seremos, criando narrativas com base em nossas esperanças e preconceitos.

* * *

todos os meus textos são textos de ficção, escritos por um autor de ficção, que assina um nome de ficção.

talvez crônicas ensaísticas, talvez romance pós-moderno. talvez histórias filosóficas, talvez ensaios narrativos.

toda e qualquer anedota aparentemente autobiográfica nos meus textos foi inventada por mim, para fortalecer ou ilustrar um argumento, e não possui relação alguma com a realidade.

a verdade raramente é verossímil. quanto mais verdadeiras parecerem as histórias, mais mentirosas serão.

na verdade, quase todas são reais, mas nenhuma é verdadeira. algumas que digo que aconteceram comigo na verdade aconteceram com outras pessoas. algumas que digo que aconteceram com outras pessoas na verdade aconteceram comigo. e vice-versa.

para evitar que meus textos se tornassem relatos egocêntricos da minha vida, todas as anedotas autobiográficas são consistentemente contraditórias, apenas acessórios a serviço de algum argumento sendo desenvolvido.

eu sou irrelevante.

o que importa é a mensagem, nunca o mensageiro.

o que importa são as ideias sendo expostas, não a pessoa que as está expondo.

* * *

como escritor de ficção, parte importante do meu trabalho é mostrar às pessoas leitoras que tudo é ficção. a verdade não existe. tem coisa mais ficcional do que o jornal nacional, do que um livro de história do brasil, do que uma biografia de celebridade?

é tudo mentira. tudo. o tempo todo. especialmente as coisas que batem no peito pra se afirmar verdades verdadeiras.

* * *

talvez minhas intenções sejam as piores possíveis. talvez eu tenha escrito o oposto do que realmente penso. talvez eu tenha sido do contra só para criar polêmica. talvez eu tenha dito tudo o que as pessoas queriam ouvir.

e daí? minha mentira pode ser a sua verdade. minha ironia, seu dogma.

você, a pessoa destinatária, é muito mais importante do que eu, a remetente. é você que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem. o meu texto vai dizer o que você disser que ele disse.

se gosta do que escrevo, se meus textos lhe ensinam alguma coisa, se julga que minhas ideias têm algum valor, então, essa é uma verdade mais importante do que qualquer verdade sobre minha biografia ou minhas intenções.

se não gosta, se não ensinam, se não têm valor, então a verdade sobre os detalhes da minha vida importa menos ainda.

só o texto importa.

* * *

alex castro, na verdade, não existe.

alex castro é um mentiroso patológico: mente sobre sua vida, seus sentimentos, mente até sobre mentir. não dá pra confiar em nada do que escreve. principalmente sobre ele mesmo.

alex castro é um grande fingidor: ele mente para convencer os outros ou acredita em suas próprias fantasias?

alex castro é um narcisista que finge não ser? ou finge que é o narcisista que não é?

alex castro não existe, mas você existe. pode se apalpar. se você pensa que está lendo esse texto, logo, você existe.

alex castro não importa, mas você importa

alex castro não existe, mas os minutos que você passa lendo os textos dele existem: para o bem ou para o mal, são concretos e foram perdidos para sempre.

alex castro não existe, mas tudo o que alex castro faz surgir em você, seja raiva ou desprezo, reflexão ou respeito, existe.

não adianta tentar entortar a colher: a verdade é que a colher não existe.

é só você, o tempo todo.

“não tente dobrar a colher. tente apenas perceber a verdade. a colher não existe. não é a colher que se dobra, é apenas você.”

“não tente dobrar a colher. tente apenas perceber a verdade. a colher não existe. não é a colher que se dobra, é apenas você.”

* * *

para saber a verdade sobre como fiquei assim, leia a minha bio.

para ler mais sobre como a verdade pode ser uma prisão, leia a prisão verdade.

porque não debato

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debater é uma atividade intrinsecamente narcisista, arrogante, competitiva.

minhas opiniões não são melhores que as das outras pessoas – uma premissa básica do debate, senão não tentaríamos convencer essas pessoas de que nossas idéias estão certas e as delas, erradas.

não cabe a mim a tarefa de corrigir, iluminar, convencer as pessoas que têm opiniões diferentes das minhas – pois, como minhas opiniões são as melhores, quaisquer opiniões diferentes são por definição piores.

evito atividades competitivas como argumentar e contraargumentar, pegar a outra pessoa em contradições, demonstrar as falácias de seus argumentos – na minha vida, prefiro atividades que não tenham vencedoras e perdedoras.

* * *

escrevo textos que expõem algumas das minhas ideias.

leio com atenção todo o feedback que recebo sobre esses textos.

e pronto.

outras pessoas usam meus textos, minhas ideias, meus argumentos para debater. não tenho controle sobre isso e respeito a decisão de quem faz.

mas eu prefiro só escrever os textos e, depois, ficar na minha.

* * *

algumas pessoas discordam veementemente de minhas ideias e me escrevem comentários apaixonados, cheios de argumentos, querendo me provocar ao debate.

mas não vou debater com essas pessoas, contraargumentar seus argumentos, convencê-las das minhas idéias, mostrar seus erros.

nada disso cabe a mim.

eu respeito suas opiniões e agradeço seu feedback.

* * *

de vez em quando, algumas pessoas ficam meio chocadas com essa minha posição, e perguntam:

“mas alex, se você não debate… como você aprende?!

nunca aprendi nada em nenhum debate, esse ambiente hipercompetivivo onde duas ou mais pessoas debatem os prós e contras de uma questão, tentando convencer umas às outras.

em debates, as pessoas só aprendem técnicas de oratória e narcissismo avançado.

eu aprendo lendo, vivendo, experimentando. em livros, em museus, nas ruas.

mais do que tudo, eu aprendo… ouvindo!

nada me ensinou mais do que simplesmente sentar com alguém e lhe oferecer o maior presente que posso dar:

minha atenção plena.

* * *

escrevi esse texto há muitos anos. ele é bastante citado e linkado pela internet – quase sempre por pessoas que também não querem debater.

incrivelmente, toda semana alguém me escreve querendo debater esse texto, ou seja, querendo debater comigo a minha posição de não debater.

minha resposta é sempre a mesma:

“respeito sua opinião. obrigado por me escrever.”

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se esse assunto lhe interessa, leia os exercícios de empatia.

para quem serve o brasil?

hoje, economistas admitem que o salário mínimo é desumano e indigno, mas argumentam, com resignação, que o país iria à falência se pagasse um salário mínimo humano e digno.

ontem, cafeicultores admitiam que a escravidão era desumana e indigna, mas argumentavam, com resignação, que o país iria à falência se as lavouras fossem plantadas por pessoas assalariadas.

seja na época colonial ou no governo lula, o consenso entre as pessoas brasileiras que vivem em condições humanas e dignas é sempre o mesmo: o brasil só pode existir enquanto entidade política viável se mantiver grande parte das outras pessoas brasileiras em condições desumanas e indignas.

mas é viável uma entidade política que não consegue nem mesmo garantir condições humanas e dignas para a maioria de sua população?

nesse caso, existir para quê? existir para quem?

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esse trecho faz parte do meu texto prisão patriotismo. (leia o texto inteiro aqui.)

as prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida. são as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido:

verdade // dinheiro // trabalho // privilégio // monogamia // religião // patriotismo // os outros // obediência // sucesso // felicidade // narcisismo

em junho, durante o feriadão de corpus christi, vai acontecer a segunda imersão as prisões, em uma fazenda na divisa rj-sp: vão ser quatro dias de trocar histórias, compartilhar vidas, debater perplexidades. quem comprar até 20 de fevereiro ganha r$200 de desconto. mas também rola vir de graça.

para saber mais sobre o projeto as prisões, clique aqui.

para saber mais sobre a imersão de corpus christi, clique aqui.

para acompanhar meus textos, assine meu newsletter.

exercícios de empatia

exercitar a empatia é escolher habitar a vulnerabilidade de outra pessoa.

malvados, por andré dahmer

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exercícios de empatia, a série completa

1. praticar um olhar generoso

2. dar-se conta das pessoas

3. ver na sua totalidade

4. ouvir com atenção plena

5. cultivar o não-conhecimento

6. exercer a não-opinião

7. não ser a constante

8. colocar-se em outra pessoa

9. escolher agir com empatia

10. visualizar o privilégio

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você daria uma esmola para ele?

gostou? assine minha newsletter.

o que o faxineiro disse ao porteiro

entreouvida em copacabana:

“hoje, dona míriam, do 802, veio me dar bom-dia, perguntou meu nome, disse que era a primeira vez que me via ali… rá! primeira vez que ela repara em mim, né? porque ela me vê todo dia aqui varrendo a portaria.”

as virtudes do medo, de gavin de becker: minha mais urgente recomendação de leitura

as virtudes do medo” de gavin de becker, sobre como se prevenir contra violência, é o livro que mais presenteei na vida. já salvou minha vida e pode ser que salve a sua.

se você só aceitar uma recomendação de leitura minha, aceite essa.

vale em dobro para as mulheres, sempre expostas a violências adicionais que nós homens muitas vezes nem imaginamos.

(leia também esses dois posts da lola sobre o livro: sinais que você deve temer & medo e intuição podem salvar nos salvar de perigos.)

como a edição nacional já está esgotada faz tempo, minha querida amiga maffalda (que também teve sua vida salva por “as virtudes do medo“) escaneou o livro e converteu para vários formatos de ebook (azw, epub, mobi), tornando-o assim disponível para todas as pessoas brasileiras.

que seja então um presente e um pedido, de mim para vocês, homens e mulheres, leitoras e leitores:

por favor, leiam “as virtudes do medo“.

(ou leiam o original em inglês, “the gift of fear“.)

distópicas e luditas

de repente, na rua, alguém fala comigo.

abro a boca para responder…

e a pessoa passa por mim como se eu fosse um fantasma:

estava apenas falando em seu fone bluetooth, totalmente imersa em seus próprios problemas, tratando a rua pública como se fosse uma esteira rolante por onde desliza fantasmagoricamente, sem estar realmente presente, enquanto resolve suas questões virtuais com pessoas virtuais através de uma tecnologia virtual.

errado sou eu de achar que a rua é um espaço público para interação concreta entre pessoas de carne e osso.

* * *

infelizmente, não aprendo. meus instintos ainda são totalmente antiquados, completamente século XIX:

sempre levanto os olhos otimista, achando que estão falando comigo, achando que estou prestes a embarcar em mais uma interação humana…

sempre abaixo os olhos cabisbaixo, sem conseguir reprimir uma inexplicável pontada de desamor e solidão.

* * *

outro dia, em copacabana, aconteceu de novo.

levantei os olhos para o moço, mas ele não estava falando comigo.

entretanto, pasmem!, conferi uma orelha, verifiquei a outra: nenhum fone!

era um maluco à moda antiga, falando sozinho pelas esquinas do bairro.

ninguém entende, mas aquilo me trouxe tanta esperança.

elogio aos cães

os cães foram criados pela humanidade, à nossa imagem e semelhança, tão variados entre si como são variadas as pessoas humanas e suas sociedades.

e são talvez nossa melhor, mais nobre criação.

se algum dia a humanidade desaparecer, que seja julgada não por suas bombas atômicas ou obras de arte, mas por essa criação magnífica e transcendental, coletiva e cumulativa, generosa mas interessada, verdadeiramente atemporal e transcultural: o cachorro.

se sumíssemos todas as pessoas, os cachorros seriam a melhor coisa que deixaríamos pra trás.

só que não aceitariam ser deixados para trás: viram junto conosco até o fim, se preciso.

trilhos do trem em nova orleans

oliver nos trilhos do trem, em nova orleans.

* * *

“eu sou a lenda“, com will smith, é um filme ruim baseado em um livro bom, mas vale pelo cachorro.

sozinhos em um mundo pós-apocalíptico, temos uma relação homem-cachorro paradigmática: acordam juntos, caçam juntos, dormem juntos – como tem de ser, em perfeita sintonia.

é a própria essência do companheirismo, uma relação tão primordial que chega a ser atemporal e transcultural: há 10 mil anos, um aborígine africano e seu cão, o que haveria de diferente?

resgata pós-katrina (2)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

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algumas pessoas gostam de se perguntar: “o que jesus faria numa hora dessas?”

eu sempre me pergunto: “o que meu cachorro faria numa hora dessas?”

meu cão, oliver, foi encontrado na favela de rio das pedras em março de 2003. estamos juntos há quase doze anos. enfrentamos o furacão katrina. atravessamos os eua fugindo do furacão gustav. Viajamos o mundo, de carro e barco, trem e avião. vivemos aventuras mais inacreditáveis que tintim e milu. ao longo desses doze anos de vida pública na internet, esse cachorro sem-vergonha amealhou uma legião de fãs.

tantos cachorros se traumatizaram com o katrina, mas oliver continuou tranquilo. adora crianças e tem infinita paciência com tapas na cara e puxadas de bigode. anda pela rua olhando pra cima, fazendo contato visual com todas as pessoas. Éé amigo de todos os cachorros que encontra. não possui objetos que defende com rosnados possessivos. recebe bem todas os muitos invasores em potencial que aparecem na minha casa.

é um cachorro do bem.

oliver & alex na rede

ler na rede com o oliver, minha coisa preferida da  vida.

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sempre que a vida fica pesada, confusa, complicada, eu tento me colocar no lugar do oliver. ver o mundo através das suas prioridades.

o oliver não liga pra dinheiro, prestígio, fama, respeito, vaidade. não tem medo da morte. não fica se admirando no espelho. não deixa seus fãs lhe subirem à cabeça. não tem apego a nenhum objeto. não faz ego search no twitter.

o oliver gosta de comer e de beber. de transar e de lamber pé. de correr e de brincar. de ficar imóvel ao sol por horas a fio. de entrar pulando no mar. de deitar juntinho de quem ele gosta. de seduzir as pessoas com seu olhar doce e sacana.

não é um cachorro perfeito, claro. tem medo de fogos de artifício, não gosta de motoqueiros e, mais do que tudo, não suporta não ser o centro das atenções.

na televisão

estrela da televisão.

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pratico zen.

todo dia, no templo ou em casa, sento em uma almofada redonda e fico voltado para a parede, imóvel, por muitos minutos.

em nova orleans, em uma casa de vários quartos, eu me fechava em um dos aposentos vazios. agora, em copacabana, moro em um quitinete de um só ambiente.

medito junto com o oliver. e ele não tolera. como assim eu não vou dar atenção para ele? nada disso.

oliver rosna. oliver grita. oliver puxa a minha camisa. oliver lambe a minha cara.

e fico lá, imóvel, não coçando a coceira, lembrando as últimas palavras do mestre hakuin:

“meditar no meio da ação é milhões de vezes superior a meditar em meio à placidez.”

obrigado, oliver.

aturando crianças

aturando uma criancinha com toda a paciência do mundo. :)

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perdi minhas maiores batalhas. tentei ser empresário e quebrei. tentei salvar meu casamento e falhei. ainda tento ter uma carreira literária e nada.

e, ainda assim, a pior noite da minha vida foi passada no aeroporto de detroit, véspera do katrina, dormindo sozinho no chão e chorando convulsivamente pelo amigo e companheiro que trouxera comigo do brasil e não conseguira salvar do pior furacão de todos os tempos.

nada nunca chegou perto do que senti essa noite.

na neve em nova orleans

na neve, em nova orleans.

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oliver se recusa a revelar a idade, mas já está velhinho. está comigo há 12 anos e já era adulto quando nos conhecemos.

na semana passada, ele chegou na veterinária com uma leve anemia e uma pequena infecção, mas foi tratado por uma semana inteira… para dor nas costas. e sempre piorando! resultado: uma semana depois, a anemia e a infecção estavam descontroladas!

quarta de manhã, quando o levei em outro veterinário, não conseguia nem ficar de pé.

estava com uma infecção, forte anemia, plaquetas baixíssimas, um terço do volume de sangue.

na quinta, teve quase todo o seu sangue trocado pelo de uma rotweiler fêmea de três anos chamada bones.

depois da dose maciça de sangue de rotweiler, ele já está querendo enfrentar um novo furacão.

agora, vai se recuperando mas ainda está internado.

internado (2)

internado, dezembro de 2014.

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não quero que o oliver viva pra sempre, nem vou tentar estender a existência dele além da sua qualidade de vida. só o que quero mesmo é poder passar 2015 grudado nele, me despedindo, curtindo, e compensando as muitas viagens que fiz em 2013 e 2014.

e ainda existem outras questões. em um mundo tão desigual, com tantas crianças passando fome, o quão ético é gastar fortunas para salvar a vida de um cachorro idoso, especialmente um que já viveu mais aventuras e já viu mais do mundo do que a maioria dos cachorros?

não tenho uma resposta para essa questão, mas estou com ela sempre em mente.

a conta das últimas duas semanas está em quatro mil reais e, se não fossem as pessoas que estão me ajudando financeiramente, não sei onde eu estaria.

mas… qual é o limite?

(aliás, muito, muito obrigado mesmo a todo mundo que ajudou. para ajudar também, clique aqui.)

internado (1)

internado, dezembro de 2014.

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ter um cão significa não apenas uma lição diária sobre os verdadeiros prazeres da existência (afinal, o que são dinheiro e prestígio perto de correr ao sol e lamber quem se ama?), mas também sobre o inevitável ciclo da vida.

ter cachorro é aprender que a nossa juventude acaba mais rápido do que imaginamos e que logo atrás vem a velhice, a decadência física e a morte.

e ter cachorro também, por outro lado, é aprender que a morte pode e deve ser encarada com naturalidade e tranquilidade, com força e com estoicismo.

nessa minha vida cinófila, já perdi três grandes amigos: dolly, 1977-1989, júnior, 1990-1992, átila, 1993-2002. oliver, companheiro atual, de idade desconhecida, está comigo desde março de 2003, quando já era adulto. apareceu em minha vida no mesmo mês em que criei o lll, o blog que mudou minha vida. simbólico?

átila morreu depois de uma semana de esforços frenéticos para salvá-lo. não o deixamos sozinho nem por um instante. quando finalmente morreu, minha irmã e eu dormimos abraçados ao seu corpo. sentimos o rigor mortis progressivamente ir e vir. no dia seguinte, o enterramos debaixo das flores que ele gostava de cheirar toda manhã. entre as flores, minha mãe colocou uma plaquinha: “canto do átila”.

nenhum herói de filme teve morte mais digna, nenhum guerreiro valente foi mais bravo do que esses três animais ao encararem a própria morte. quem me dera ter essa força, essa tranquilidade, essa segurança.

quem me dera ter um cachorro pra me lamber a mão enquanto morro.

quem me dera ter uma pessoa querida para cuidar dele com amor e carinho depois disso.

internado (3)

internado, dezembro de 2014

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odeio textos piegas. escrevo muitos. quase sempre, tenho a sabedoria de não mostrá-los a ninguém. com uma exceção: textos piegas sobre cachorros. quando falo de cachorros, eu viro uma manteiga derretida sem vergonha alguma.

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mais fotos

resgata pós-katrina (4)

resgata pós-katrina (3)

resgata pós-katrina (1)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

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rapper

rapper.

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pronto para a viagem

embarcando.

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por do sol

pôr-do-sol.

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papo reto

papo reto.

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oliver & co em são francisco

oliver & co, em são francisco.

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observando as ruas de nova orleans

observando as ruas de nova orleans.

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no seu puff

no seu puff preferido, na casa da sônia.

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no metrô do rio de janeiro

no metrô do rio de janeiro.

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natalino

ho-ho-ho!

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lendo mulher de um homem só

no lançamento de mulher de um homem só.

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lagoas da barra da tijuca

lagoas da barra da tijuca.

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grafitti pós-katrina em nova orleans

grafitti pós-katrina em nova orleans.

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enxerido

enxerido.

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em ubatuba

em ubatuba.

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em paraty

em paraty.

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close up

tímido.

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chegando em nova iorque durante furacão gustav

em newark, new jersey, chegando em nova iorque, fugindo do furacão gustav.

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caminha bang & olufsen

ninguém acredita quando digo que o oliver já teve uma cama bang & olufsen.

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remando com o oliver na baía de guanabara

remando na baía de guanabara.

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oliver faleceu no dia 17 de dezembro de 2014.