hoje de manhã, chorei

o encontro “as prisões”, em belém, foi com certeza o mais esquentado e exaltado, mas também o mais aberto e mais emocionante.

nunca vi tantas participantes a beira das lágrimas. nunca tantas participantes se abrirem tanto, se exporem tanto, se sentirem tão livres para compartilhar e contribuir.

hoje de manhã, lendo os depoimentos das pessoas participantes, agarrei a Outra Significativa pela cintura e comecei a chorar.

fui durante muito tempo uma pessoa muito ruim e muito egoísta. provavelmente ainda sou.

não sinto culpa dos pecados passados. culpa nao faz sentido. culpa nao resolve nada.

mas sinto sim uma obrigação de reequilibrar a balança. de devolver um pouco do que recebi. de passar adiante as graças que usufruí.

então, chorei ao ver o impacto das minhas palavras em vocês. ao ver que estou ajudando minimamente.

sem querer salvá-los. sem querer carregá-los. sem querer dar respostas.

só mostrando um jeito diferente de pensar. só dando uma pequena ajuda. como tantas pequenas ajudas que recebi e nunca agradeci.

e que, agora, passo adiante.

muito obrigado.

prisão narcisismo

no encontro as prisões, passamos o dia inteiro conversando sobre todas essas bolas de ferro mentais que arrastamos pela vida. as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. enfim, as prisões.

a última, e a mais importante, a prisão sem a qual toda a discussão anterior não teria sentido, é a prisão narcisismo.

afinal, a maior de todas as prisões somos nós mesmos. nós e nosso imenso narcissismo. sempre só olhando para os nossos umbigos, para os nossos ó-tão-importantes problemas.

abaixo, alguns textos que desenvolvem o conteúdo da prisão narcisismo. são alguns de meus textos mais importantes:

eu não sei o que está acontecendo na líbia // zazen // uma caneca // somos todos fingidores // paradoxo de narciso // cajuína // vou mudar de vida… mas não hoje // o mal é a falta de atenção // a solidão de narciso

* * *

para ajudar em nossos esforços para sermos menos narcissistas, eu proponho os exercícios de empatia:

1. praticar um olhar generoso // 2. dar-se conta das pessoas // 3. ver na sua totalidade // 4. ouvir com atenção plena // 5. cultivar o não-conhecimento // 6. exercer a não-opinião // 7. não ser a constante // 8. colocar-se em outra pessoa // 9. escolher agir com empatia

como funciona o privilégio

um filme só sobre homens é um filme.

um filme só sobre mulheres é um filme feminino.

um ensaio fotográfico só de mulheres brancas é um ensaio de mulheres.

um ensaio fotográfico só de mulheres negras é um ensaio negro.

um romance sobre um casal hétero é um romance.

um romance sobre um casal homossexual é um romance gay.

quantas vezes não somos nós mesmas, na nossa fala e nas nossas ações, a perpetuar esse tipo de normatização tirânica?

como funciona o machismo

turismo na favela

de uns tempos pra cá, virou moda: turistas vêm ao rio e não querem mais conhecer o corcovado ou o pão de açúcar, mas sim a favela da rocinha e do vidigal. estão as pessoas gringas se aproveitando das faveladas? ou são as pessoas faveladas que estão cambalachando as gringas? o turismo estimula o progresso das favelas ou garante que nunca saiam da mesma estagnação?

o pós-turista

o turismo nas favelas é uma faceta no novo “pós-turismo”.

agora que pessoas de poder aquisitivo cada vez mais baixo já podem visitar os destinos turísticos tradicionais (a classe média sofre com esses pobretões na fila da disney!), as novas pós-turistas, para se distanciar da ralé e reestabelecer a distância original, precisam buscar novas experiências turísticas, mais inusitadas, mais interativas, mais aventureiras, indo a lugares que seriam a antítese do antigo turismo, localidades antes marginais e agora reinventadas e reapropriadas.

em outras palavras, com tantas pessoas pobres agora lotando gallerie laffayette, em paris, suas antigas frequentadoras hoje fazem safari tours em favelas.

a indústria do turismo classifica a pobreza como exótica, a transforma em mercadoria e a vende para turistas que queiram participar dessa “economia de sensações”, onde o que compram é justamente a sensação voyeurítica de poder vivenciar a pobreza e a miséria sem precisar, para isso, serem pobres e miseráveis.

o capitalismo celebra toda a diferença que seja capaz de mercantilizar.

turismo da miséria: prós e contras

eu sou do rio, morei por seis anos em nova orleans e faço pesquisas em havana. são três cidades turísticas (e lindas, diga-se de passagem) onde se faz esse “turismo da pobreza”.

no rio, são as favelas. em nova orleans, é a destruição causada pelo furacão katrina. em havana, são os prédios em ruínas. sempre cercados de belgas bem alimentados, calçando birkenstocks e tirando fotos com máquinas cujo valor alimentaria uma família local.

isso é bom?

para defensores da prática, ela tem as seguintes vantagens:

  • melhorar o desenvolvimento econômico da região;
  • conscientizar turistas;
  • aumentar a autoestima da população;
  • forjar lideranças locais;
  • compartilhar recursos e conhecimento entre pessoas que não teriam se encontrado se não fosse o turismo.

para quem está contra, existiriam dois grandes problemas:

  • os benefícios gerados vão em grande parte para as pessoas proprietárias das agências e não revertem em melhorias e investimentos nas comunidades;
  • mais que conscientização e mobilização social, essas visitas gerariam um certo voyeurismo diante da pobreza e do sofrimento.

quem é a turista da miséria?

em seu livro gringo na laje, a socióloga bianca freire-medeiros traçou um interessante estudo do turismo na favela da rocinha, falando com moradoras, turistas, guias de passeio e proprietárias de agência.

segundo suas pesquisas, a principal característica dessa turista seria sua ansiedade de se diferenciar:

  • das moradores; afinal, o turismo na favela não deixa de ser uma maneira de darem mais valor aos confortos materiais de casa.
  • das turistas convencionais, que só vão aos pontos turísticos previsíveis e jamais teriam coragem de encarar uma favela.
  • das turistas voyeurs e pouco engajadas, que visitam as favelas do jeito errado, como abutres, sem contribuir, sem ajudar, etc.
  • da elite local, preconceituosa e com medo de conhecer sua própria cidade.

mais do que tudo, essas turistas estão buscando por uma mítica “experiência verdadeira”, uma certa “realidade nua e crua” a qual teoricamente não têm mais acesso em casa – como se suas vidas afluentes e confortáveis na europa fossem menos reais e menos verdadeiras do que as vidas dos favelados da rocinha.

e saem do passeio com a sensação de terem desfrutado de uma experiência completamente inalcançável e intransferível, seja aos turistas comuns, seja às elites locais.

essa busca ansiosa pela ilusória “mediação não mediada” baseia-se na crença de que existem experiências turísticas “autênticas” que podem acontecer sem a mediação da indústria do turismo, sem serem produtos culturais prontos e pré-fabricados.

ou seja, é a miragem de que o produto “passeio de um dia na favela da rocinha”, vendido por uma agência de turismo, é intrinsecamente mais autêntico do que o produto “passeio de um dia no corcovado”, vendido pela mesmíssima agência.

para que a visita à favela sirva seu objetivo, a turista precisa se convencer que a sua visita, ao contrário das das outras turistas voyeurs, é um ato ético e solidário.

a experiência não deixa de trazer consigo uma certa ansiedade: afinal, como uma praia deserta, se todas a visitarem, ela deixa de ser deserta.

nesse ponto, o valor da favela está em ser exclusiva e fora do mainstream; quanto mais turistas a visitarem, menos desejável ela se torna como fator de diferenciação.

fica claro que, nessa economia de sensações do turismo da miséria, o que está sendo vendido à turista é principalmente uma certa sensação de superioridade moral e intelectual.

o que pensam as moradoras das favelas

a principal ilusão das turistas é que seus passeios trazem algum benefício à comunidade.

de fato, as agências são operadas de fora da favela e os lucros vão para suas proprietárias. quando muito, comerciantes da favela tem um pequeno aumento de vendas, mas a maioria diz que turistas só querem saber de tirar fotos e comprar água.

em muitas ocasiões, fica claro que as turistas querem apenas uma confirmação de sua própria imagem mental da favela. conta uma moradora:

“uma vez, quando meu filho era mais novo, [algumas turistas] quiseram tirar foto dele, mas quando cheguei com ele [que é branco], eles não quiseram, porque eles queriam um neguinho.”

na verdade, como disse um comerciante, as turistas dão somente uma pequena ajuda nos lucros, mas seu maior valor está em tirar a impressão de lugar violento que a favela tem. por isso, grande parte das pessoas moradoras vê esse tipo de turismo de modo positivo.

para as moradoras, a questão não é nem tanto se o turismo na favela deveria existir ou não, mas de que maneira ele poderia beneficiar a comunidade. a maioria das turistas pensa estar ajudando a comunidade simplesmente ao participar do passeio, mas as moradoras têm outra ideia do que constituiria ajuda:

“os turistas … às vezes … só passam pelos lugares mais ricos… [s]e eles fossem lá… onde o pessoal é mais necessitado, talvez eles pudessem se inspirar em limpar o lugar, talvez alguém se interessasse em ajudar os moradores… alguém poderia trazer dinheiro, consertar um cano. isso iria beneficiar a galera lá, porque ia incentivar os moradores a consertar as casas, tirar a lama, tirar o lixo.”

a questão do cheiro

o cheiro ruim é essencialmente subversivo. ele não pode ser banido, controlado, pasteurizado, estetizado.

se a fotografia permite que a miséria mais degradante transforme-se em objeto estético (oi, sebastião salgado), o cheiro não se presta a isso.

a vala aberta, o esgoto imundo, o lixo ao sol, o rato morto, nenhum deles pode ser tão facilmente domesticado, empacotado, vendido e distribuído ao mundo como uma bela foto de uma menina pobre e remelenta.

o cheiro exige ser confrontado: ou você fala sobre ele, ou você fica calado. não existe meio termo.

e, não por acaso, os relatos sobre visitas às favelas abundam em fotos, mas contém muito poucas referências ao cheiro.

nós também fazemos parte do problema

essa história não tem mocinhas nem vilãs. as faveladas não são pobres coitadas incapazes de pensar criticamente sua situação. as estrangeiras não são babacas ou iludidas ou ingênuas. as guias de turismo e donas de agência não estão explorando a favela.

senão, podemos acabar falando coisas assim:

“cabe a nós, elite ilustrada não-favela, defender as pessoas faveladas dessas turistas desalmadas e voyeuristas que as veem como animais em jaulas.”

na verdade, nosso papel nessa história é outro.

quando as turistas se gabam de visitar a favela, um lugar onde a preconceituosa elite local se recusa a ir… é de nós que estão falando.

quando as moradoras dizem que o maior benefício do turismo é quebrar a invisibilidade social da favela e ajudar a refutar os estigmas de violência e miséria… é de nós que estão falando, nós que criamos essa invisibilidade, nós que perpetuamos esse estigma.

e então? o que nós vamos fazer?

* * *

o texto que você acabou de ler é um resumo e uma paráfrase do livro gringo na laje: produção, circulação e consumo da favela turística, de bianca freire-medeiros, publicado pela editora fgv em 2009, e disponível em uma edição de bolso baratinha. recomendo com ênfase.

* * *

aviso sobre linguagem e gênero

o texto acima fez uma valente tentativa de ser unissex e usar uma linguagem de gênero sempre neutra. todas as explicações e argumentos, sem exceção, se aplicam igualmente a homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais. se alguma frase ou construção pareceu excluir essa ou aquela identidade, sexo, gênero ou orientação, foi descuido meu. por favor, avisem e vou corrigir. para mais detalhes sobre como utilizar uma linguagem menos sexista, por favor, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua.

esses textos que mudam nossas vidas

acontece muito: a pessoa me escreve efusivamente, agradece por um texto, diz que mudou sua vida, etc.

eu respondo agradecendo os elogios e pedindo que ela, se puder, se não for fazer falta, realize uma doação em dinheiro de um valor proporcional ao bem que o texto lhe fez. afinal, sou um artista independente, vivo disso e ela leu de graça o texto que mudou sua vida.

e a pessoa não responde nem nunca faz a doação.

ou seja, o texto que mudou sua vida não vale nada. ou vai ver vendem muito barato suas vidas.

* * *

eu trabalho duro para escrever os textos que vocês leem. não tenho outra atividade. só faço isso.

muita gente acha os textos blé. entendo, aceito e respeito.

mas, se você gosta, se repassa pras amigas, se cita os meus argumentos em conversas, se fica com as minhas palavras em sua cabeça, então, por favor, considere a possibilidade de remunerar a pessoa que trabalha duro para criar essas palavras.

um grande beijo em todas vocês.

* * *

para doar, visite minha página de mecenato.

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esse é o último texto que vêm gerando esse tipo de elogio. talvez você goste: prisão trabalho.

em cuba, atrás do poeta-escravo

em poucos meses, será publicada pela editora hedra minha tradução anotada da autobiografia do poeta-escravo afrocubano juan francisco manzano, escrita em 1836.

agora, estamos em cuba, buscando pelos traços de sua existência.

em havana, na biblioteca nacional josé martí, pedimos permissão (ainda não concedida) para consultar o manuscrito original.

a casa onde o poeta viveu, em havana velha, na esquina de o’reilly com brasil, foi completamente reformada pela oficina do historiador de havana. desde 2008, é o “hotel marquês de prado ameno”, nome da família que foi proprietária do poeta. as suítes e aposentos do hotel tem muitos nomes derivados da vida do poeta. o salão de reuniões se chama “salão manzano”.

ainda em havana, um funcionário aposentado da empresa que administra o hotel, e que já havia escrito diversos estudos sobre a vida do poeta afrocubano, nos forneceu importantes mapas para nos ajudar a encontrar o engenho “el molino” ou “los molinos”, em matanzas, onde o poeta também viveu e onde mais sofreu.

em matanzas, graças à ajuda do historiador da cidade, toda a equipe do museu provincial palacio de junco nos abriu as portas do museu (que estava fechado) para vermos tanto a lápide da primeira proprietária de manzano (famosa por ser a primeira escritora de cuba) como também um “tronco”, original e autêntico, utilizado para punir os escravos de matanzas na mesma época em que o poeta viveu.

claudia fotografando a casa-grande de los molinos 2 - Cópia

por feliz coincidência, a irmã de uma das seguranças do museu mora no terreno do engenho “los molinos”. ela havia chegado a viver em uma das casas-grandes, demolida em 1972. sua casa atual, e outras duas, repousam sobre as fundações da casa-grande.

da varanda, pode-se ver e ouvir os rios san juan e san agustín, em cujas margens o poeta pescava e compunha.

ao lado, ainda sobrevivem de pé as paredes, os muros e as fundações da antiga casa-grande, construída de pedra e provavelmente remanescente da época de manzano.

como em cuba tudo se reaproveita, a casa-grande onde aquela criança escravizada seguia sua senhora como um cachorrinho hoje é uma fábrica de gelo.

fabrica de gelo em los molinos - Cópia

em todas nossas pesquisas em matanzas, contamos com a ajuda, com a companhia e com a amizade do historiador urbano martínez, autor de dezenas de livros — entre eles, uma biografia do literato cubano que promoveu a coleta que comprou a liberdade do poeta-escravo.

depois, passamos por bayamo, manzanillo, cabo cruz, pilón, marea del portillo e, agora, estamos em santiago, no outro extremo da ilha de havana, cidade mais caribenha de cuba.

daqui, passaremos por guantanamo, baracoa e, então, a longa volta até havana.

claudia fotografando a casa-grande de los molinos - Cópia

só faz sentido escrever para ser do contra

às vezes, me perguntam: você é sempre do contra?

não, claro que não. a maioria das minhas opiniões é igual à opinião da maioria das pessoas. mas de que serve escrever sobre isso? se saiu o filme x e ele é uma unanimidade de crítica e público, todo mundo adorando o filme, e eu também adorando o filme… de que adianta eu escrever mais um texto dizendo que o filme é lindo e reforçando o que todo mundo já sabe e já acha?

de que adianta escrever para confirmar as opiniões e afagar o ego das pessoas leitoras?

então, não é que sou sempre do contra, mas que acho que só faz sentido escrever se for para ser do contra. se for para mostrar à leitora um novo ângulo. se for para sacudir suas certezas. para questionar suas ideias.

tomo o maior cuidado para nunca criticar pessoas vivas, para nunca acusar ninguém de nada, para nunca apontar dedos, mas é natural que algumas pessoas se sintam atacadas.

nesse caso, digo a elas: o texto não era sobre você, mas se você vestiu a carapuça e se sentiu atacada… então, é porque era.

o segredo de beleza dos homens

outro dia, uma amiga me perguntou, a sério:

ai, alex, qual é o segredo de beleza dos homens, pra eles envelhecerem tão bem, tão maduros e enxutos, enquanto as mulheres vão ficando umas dragas?

e fui obrigado a contar a ela o nosso grande segredo:

simples. basta nascer em uma cultura machista, que vê o homem mais velho como progressivamente mais maduro e com mais valor, e a mulher mais velha como progressivamente mais inútil e com menos valor, e, assim, os mesmíssimos sinais de velhice no rosto de ambos serão interpretados e lidos de forma positiva no caso dos homens e negativa no caso das mulheres.

portanto, o jeito de resolver o problema não é com hidratantes, mas com educação. ou com uma revolução. o que vier primeiro.

feminismo para homens: um curso básico

spoilers

eu não aviso sobre spoilers. avisos sobre spoilers são sempre redundantes.

quem não quer saber o final de moby dick não deve ler textos sobre moby dick.

spoiler alert!
qualquer texto de valor sobre uma obra narrativa, qualquer texto com insight, reflexão e scholarship, vai necessariamente conter vários exemplares daquilo que as pessoas hoje chamam de spoiler.

um texto sobre uma obra narrativa que não contenha spoilers é o seu press-release. é um texto vazio, promocional, de divulgação. é um texto que não se propõe a dizer nada novo sobre a obra.

sempre que me proponho escrever sobre uma obra narrativa é porque acredito que tenho algo novo a acrescentar à discussão dessa obra. e é impossível fazer isso sem spoilers.

o fetiche da surpresa é uma maneira muito simplista de consumir arte. existem mil maneiras de desfrutar uma obra de arte e nem todas passam pelo enredo, e muito menos pela surpresa em relação ao enredo.

se você não quer saber o final de um filme antes de assisti-lo, eu respeito. mas então, por favor, não leia nada sobre o filme.

alguns textos sobre cinema, todos cheios de spoilers: “Até a chuva”, um filme para quem gosta de ajudar // “Na Estrada”: você está lendo isso errado // A menina sonhadora feliz cabeça-de-vento // Por que precisamos destruir nossos ídolos?

polisingularidade

o filme ela, de spike jonze, é sobre um homem que se apaixona por um sistema operacional. lá pelo fim, ele fica inseguro e pergunta com quantas pessoas ela está falando naquele exato momento.

“oito mil trezentas e dezesseis”, responde ela.

a próxima pergunta é inevitável: “e você está apaixonada por alguma outra pessoa?”

“seiscentas e quarenta uma”, e ela ainda acrescenta, “mas isso não muda nada nos meus sentimentos, não influencia no quanto estou loucamente apaixonada por você!”

“então, você não é minha”, ele diz.

“eu sou sua”, ela responde, “e também não sou sua.”

agora ficou ESTRANHO!

naturalmente, ele dá um piti. o cara estava de boa em “namorar” e fazer sexo virtual com um software incorpóreo que era basicamente sua escrava e sua stalker. mas se ela (que é um pedaço de código, vamos lembrar) está apaixonada por outras seiscentas pessoas, opa, peralá, agora ficou estranho!

o que é a singularidade // meu texto sobre poliamor: a monogamia é uma prisão // minhas próximas oficinas “prisão monogamia”.

é com uma alegria tão profunda

acabei de reler a hora da estrela. talvez pela quinta ou sexta vez.

sim.

* * *

um dia, eu morei no exterior, como clarice também e machado nunca, e ensinei português e literatura brasileira, e tive a honra e o prazer e o privilégio de fazer com que algumas dezenas de estrangeiros lessem dom casmurro e a hora da estrela, e sei que esse karma positivo será sempre meu, e, sejamos francos, se você é um estrangeiro e já leu dom casmurro e a hora da estrela, já conheceu o que temos de melhor a oferecer, pode seguir viagem, pode ir ler kafka e tchecov, conrad e hugo.

como podem dois romances serem tão insuportavelmente perfeitos? mesmo entre os grandes mestres, kafka era um inconcluso, conrad se perdia, hugo era piegas. posso até imaginar algumas correções a fazer em memórias póstumas de brás cubas e em paixão segundo g.h., mas em dom casmurro e a hora da estrela não sobra nada, não falta nada. como conseguiram? (para não ser injusto, um artista da fome e os grandes contos e peças de tchecov também são intoleravelmente perfeitos.)

às vezes, não sei onde termina meu amor por clarice e hora da estrela, por machado e dom casmurro, e onde começa meu amor pelo rio de janeiro.

amo o rio de janeiro por ser o contexto cultural desses dois romances gigantescos, cósmicos, humanos? amo esses romances por serem tão quintessencialmente cariocas, em tudo o que temos de mais lindo e mais mesquinho?

uma cidade que tenha nos dado a hora da estrela e dom casmurro é uma cidade que já está no mapa da literatura humana, uma cidade que já cumpriu sua obrigação, uma cidade que já disse: “eu existo”.

talvez tenhamos fundado essa cidade nessa baía (não é uma hipótese descabida) só para que, um dia, pudessem existir dom casmurro e a hora da estrela.

posso imaginar, milênios e milênios no futuro, quando a língua portuguesa já estiver extinta, quando esse chão que me viu nascer já estiver abandonado, submerso, esquecido, talvez em outros planetas onde continuem existindo homo sapiens, pessoas vão ler dom casmurro e a hora da estrela, e talvez nem lembrem mais em que língua foram escritos, talvez sejam lidos em traduções das traduções para línguas que ainda nem existam, e pessoas que ainda não nasceram vão ler sobre macabéa morando na rua do acre e trabalhando na rua do lavradio, sobre capitu passando a lua-de-mel na tijuca e escobar morrendo afogado na praia de botafogo, e vão chorar e se emocionar, como eu chorei hoje e me emocionei hoje, e vão saber que um dia existiu um lugar chamado rio de janeiro, onde pessoas choravam e se emocionavam, assim como a dublin de joyce & a buenos aires de borges não vão desaparecer jamais.

e, apesar disso, existimos, e foi tão tudo tão real e concreto, e houve um dia, um dia real, em technicolor, um dia que um dia foi um dia ao vivo, em que uma mulher chamada clarice, judia e nordestina, foi à feira de são cristóvão com sua amiga olga, onde ela ia para comer comidas que lembravam sua infância no recife, e a feira ainda está lá, e essa mulher viu de relance uma moça nordestina e, no mesmo instante, tão real era a clarice, meu deus!, ela largou tudo, sentou num banco e escreveu, ali mesmo, enquanto comia beijus com rapadura, cinco páginas de notas, e eu posso ver isso também, clarice, com as mãos gordurosas da manteiga do beiju, criando macabéa em um banco na feira dos paraíbas, e é lindo.

houve uma época em que não existia a hora da estrela, até que clarice disse: sim.

* * *

todo artista precisa travar uma batalha de morte com seus antecessores. não faz sentido sentar para produzir literatura se não for para fazer melhor do que clarice e machado.

mas como?

é preciso pelo menos tentar. se você não se propõe tentar, então, não vale a pena nem começar. melhor ir vender seguros e ser apenas um bom leitor. borges já dizia que a literatura precisa de mais leitores que escritores. e estava certo.

o artista não tem como produzir arte comportando-se como tiete boquiaberta dos titãs.

os titãs precisam ser mortos a cada geração.

fernando pessoa dizia que só conseguiu encontrar sua voz de poeta depois de travar luta de morte contra walt whitman.

whitman é infinitamente melhor do que pessoa. nada que pessoa escreveu chega aos pés de song of myself. mas isso não é demérito algum. poucas coisas jamais escritas chegaram aos pés de song of myself. o que importa é que pessoa lutou o bom combate até o fim.

todo dia, eu acordo, ligo o computador e travo minha própria luta de morte contra clarice lispector.

às vezes, releio a hora da estrela só para fazer um reconhecimento do campo de batalha, para ver contra quem estou lutando, para conferir o tamanho do exército inimigo.

então, um contra um milhão, eu avanço de lança em punho contra as hordas clariceanas, sem esperança alguma de triunfar.

* * *

se você ainda não leu algum desses dois livros, por favor, pare tudo e leia agora. são curtos, menos de cem páginas cada um, fáceis de encontrar, baratos. você lê na internet ou encontra em qualquer sebo pelo preço de um café. o investimento de tempo e de dinheiro é baixíssimo. em um domingo, você lê os dois.

leia. e, se ler por minha causa, me conte. karma bom nunca é demais.

eu não sou ninguém

um grupo de estudantes pediu para me entrevistar e, logo na primeira pergunta, tascaram:

“quem é alex castro?”

“ninguém,” respondi.

era a única resposta verdadeira possível.

mais tarde, na apresentação à entrevista, eles escreveram:

“segundo ele mesmo, ninguém. alex castro, como definido em seu site pessoal, é “alex castro por enquanto. em breve, nem isso.” esse desapego ao ego revela uma face muito importante para sua literatura: O mundo a sua volta é muito mais interessante para ele do que o nosso mundo para nós que temos o costume de olhar o umbigo.”

a entrevista completa.

* * *

alex castro é comum

um moço que foi no primeiro encontro “as prisões” de curitiba me elogiou… por ser tão banal!

nas palavras dele:

“acho que é normal, quando a gente conhece alguém à distância que fala abertamente sobre nossos ideais mais profundos, aquilo que passamos a vida perseguindo, conferir a essa pessoa uma certa figura de autoridade. junto com isso, criamos uma série de expectativas sobre ela, sobre como ela deve ser sensacional, como sua presença deve ser marcante, como a mera possibilidade de ouvi-la ou tocá-la deve ser como uma pequena bênção…

inevitavelmente, levei essas expectativas comigo quando conheci o alex na apresentação da palestra as prisões, em curitiba, no último agosto. mas a pessoa que eu conheci não correspondia em nada à imagem que eu inventei dela. ele não tinha nada daquilo que estamos acostumados a imaginar numa pessoa que julgamos ser especial. ele não mostrou um sorriso hipnotizante, ele não usou de uma retórica refinada, ele não portou trajes de conotação hierárquica, ele não vendeu uma fórmula mágica. ele não era um super-homem, um profeta, um ser que irradiava qualquer tipo de energia transformadora. ele era um cara comum.

mas foi aí que eu me senti realmente tocado. se um cara comum como o alex pode ser uma pessoa tão sensível, tão empática, tão aberta, por que eu, outro cara comum, não posso? Se ele não é melhor do que eu, o que me impede, se não minha própria preguiça, de buscar ser uma pessoa mais amiga, mais acolhedora, mais humana?

obrigado, alex, por ter me motivado – mais do que isso, me desafiado – através de sua mais absoluta normalidade.”

* * *

alex castro é normal

uma moça que foi a um encontro “as prisões” no rio percebeu que as coisas mais legais nos eventos são justamente as que não sou eu que falo:

“‘você só sente a correnteza quando nada contra ela’, foi uma das pérolas do dia. soltada pelo alex? não. mesmo sendo tão foda e incrível, não é alex que reina nas prisões. ele abre espaço pra tudo o que você sinta vontade de contar, e vai guiando a “palestra” (veja os outros depoimentos, todos concordam que é muito mais pra um debate), sobrepondo seu ponto de vista sobre cada prisão em cima das histórias de quem foi lá. cheguei meio incerta, sem saber o que esperar. mas é assim mesmo. você chega devagarinho e em meia hora já se sente, de alguma forma, em casa. não pelo lugar onde está, mas pelas pessoas que te cercam. que falam, ouvem (ouvem mesmo), respondem. o alex merece tudo por proporcionar esse encontro. mas não tem como eu te fazer entender como é. você precisa ver, falar e ouvir por si próprio.”

* * *

alex castro é narciso

quando eu era mais jovem, eu me achava especial. que tinha um destino. que realizaria grandes feitos.

os anos passaram, a vida aconteceu, e me dei conta que eu era apenas mais um bichinho sem alma, nessa pedra girando pelo espaço, sem nada que me distinguisse.

entretanto, em nossa época narcisista, cercado de pessoas que se acham a última coca-cola do deserto, cada um protagonista do filme da sua vida, todos brigando por mais amigos no facebook, me dei conta que nada pode ser mais especial do que alguém que sabe sinceramente que é apenas mais um.

* * *

alex castro não importa

eu não importo. eu sou normal. eu sou banal. eu não sou ninguém.

meu mérito é estar cercado por vocês.

estou aqui para ser um conduite das suas histórias.

viver cercado de pessoas interessantes

em meu último texto no papodehomem, “a solidão de narciso“, alguém me perguntou:

“Alex, você faz propaganda das suas palestras. E penso eu que esse espaço aqui no PdH [a caixa de comentários] simule, com certa proporção, o que ocorre nelas. Ou seja, você introduz um assunto e há espaço para posterior discussão. Mas agora vai a minha pergunta: se você não participa nos comentários dos seus textos, como é a dinâmica das suas palestras? Você declama seu discursos e então vira as costas e vai embora? E daí outras pessoas fazem o papel de discutir com a platéia?”

e respondi:

olá. não pude responder antes, pois estava na palestra “as prisões” do rio.

(aliás, “palestra” é um nome que eu dou por falta de nome melhor, é mais uma grande conversa.)

pra você ter uma ideia, ontem, começamos às 13h e as pessoas participantes ficaram se apresentando e compartilhando suas histórias de vida até às 18:15. só então eu comecei de fato a, digamos, palestrar, o que foi só até às 19:30h.

(não faz sentido eu “falar” muito: tudo o que tenho a dizer já está nos textos que publico gratuitamente na internet, textos esses que a maioria das pessoas participantes inclusive já leu.)

depois disso, algumas pessoas ainda foram lá pra casa e ficamos conversando e tomando vinho até cerca de meia noite. e aí é que surgiram as melhores e mais interessantes confidências e histórias de vida.

eu ganho muito pouco (ontem, foram quase 60% de gratuidades e, dos pagantes, poucos pagaram o preço cheio) mas vale muito a pena. estou conhecendo algumas das pessoas mais interessantes e bonitas do brasil e tendo a oportunidade de ouvir suas histórias e aprender com elas. isso não tem preço.

depois que saíram as últimas pessoas, a Outra Significativa (minha companheira) virou pra mim e disse que, antigamente, quando saía com os “amigos” (e fez aspas com as mãos), ela sempre acabava, em algum momento da noite, depois do vigésimo comentário elitista, machista, racista, etc, se perguntando, “caralho, o que é que estou fazendo aqui!” e que agora ela nunca mais sente isso.

e nem eu.

* * *

para quem tiver curiosidade, na minha página “depoimentos“, tem várias opiniões de pessoas participantes das minhas palestras e oficinas. por acaso, o primeiro depoimento, na primeira linha, já diz:

“dizer palestra dá a impressão de que se fica lá 7 horas sentado ouvindo alguém falar ininterruptamente. não é isso o que acontece nas prisões. é um dia inteiro de conversa, troca de experiência, quebra de valores, sacudida nas certezas, risadas etc. sem contar que tem várias paradas pra lanche durante a palestra e dá pra conhecer todo mundo um pouco melhor. rs uma das coisas que eu achei mais fantásticas na experiência das prisões é que no fim, todo mundo que está ali se sente, de uma forma ou de outra, a ovelha negra, o diferente, o do contra… e acaba sendo uma experiência totalmente acolhedora encontrar tanta gente parecida. você percebe que não é estranho. ou pelo menos que não é o único estranho. não é um life coaching. não se descobre a verdade absoluta sobre a vida e o mundo. mas mexe com a gente. tive a oportunidade de participar de duas e posso dizer que cada palestra é única. a experiência põe seu mundo de cabeça para baixo, mas abre portas e te mostra caminhos. voltarei sempre que tiver a chance. recomendo para todos. é lindo.”

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durante um tempo, eu não li nem respondi os comentários do papodehomem, por achar que é um ambiente bem tóxico e agressivo. aliás, ainda acho. agora, a pedidos do guilherme, o editor-chefe do site, voltei a ler os comentários e vou responder aqueles que eu achar que foram feitos de forma educada e polida, e que eu tenha algo positivo e produtivo a acrescentar na resposta.

ovelhas negras

não tenho nada a ensinar. não sou mestre, não sou guru, não sou coach.

o pouco que tenho a dizer eu já disse nos meus textos, todos disponíveis de graça na internet. (aliás, nas minhas palestras e oficinas, paga quem quer, paga quem pode.)

não tenho nenhum conhecimento para transmitir de cima para baixo, do “mestre” aos “discípulos”, de alguém-que-sabe aos que-não-sabem. (eu também não sei!)

pelo contrário: ofereço apenas um espaço para os iguais se encontrarem.

o meu público são as ovelhas negras. aquelas pessoas sempre um pouco deslocadas, algo incompreendidas, carentes de interlocutores.

disse um participante:

“acho que é a primeira vez na vida em que estou em um grupo de pessoas e ninguém acha que eu sou excêntrico.”

os eventos são para aprendermos a ser melhores ovelhas negras.

os livros que mais me marcaram

não necessariamente os livros que gosto mais. ou mesmo os livros que admiro.

mas os livros que mais me marcaram mesmo, que mudaram meu jeito de ser, de pensar, de escrever, de contar histórias, de ler.

biblia
declinio e queda do império romano, gibbon
agua viva, lispector
a hora da estrela, lispector
memórias de um caçador, turgeniev
folhas de relva, whitman
walden, thoreau
lord jim, conrad
os miseráveis, hugo
ficções, borges
cecilia valdés, villaverde
manual dos inquisidores, antunes
os trópicos, miller

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ninguém lê do mesmo jeito depois de ler ficções. água viva e manual dos inquisidores me ensinaram que eu podia fazer muito mais com a língua portuguesa do que imaginava possível. a bíblia e gibbon me ensinaram tudo o que sei sobre a arte de contar histórias. os trópicos e folhas de relva me ensinaram um amor pela vida além de todas as fronteiras e de toda a lógica. walden e lord jim me ensinaram, pelo contrário, um certo autocontrole e uma sobriedade que são tão importantes quanto. cecília valdés me mostrou como os horrores da escravidão podem virar grande literatura. hora da estrela, miseráveis e memórias do caçador me ensinaram como escrever e como abordar as histórias das pessoas humildes e marginalizadas.

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não entraram na lista meus dois autores preferidos, que me marcaram pela enormidade da obra e não por nenhum livro específico: tchecov e kafka.

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meus autores preferidos.

do pudor

antigamente, na minha casa, as camisinhas e o ky ficavam na gaveta do banheiro.

na verdade, ficavam indo-e-vindo: em dias de sexo espontâneo, perdia-se um tempo precioso naquela corridinha besta cama-banheiro. e pra quê?

praticamente não tenho móveis. muito menos criado-mudo. em breve, as camisinhas e o ky foram passando tanto tempo ali no chão ao lado da cama que esse acabou sendo consagrado como seu lugar.

no começo, sempre que recebia visitas, me batia uma lufada de pudor. eu pensava: guardo tudo?

mas, logo depois, eu mesmo me desafiava: pra quê?

transar não é nem feio nem proibido, nem anti-ético nem nojento. os objetos não estão bagunçados, largados, babados. pelo contrário, o ky está de pé e as camisinhas, cuidadosamente empilhadas. ao lado, uma caneta, marcadores de página, um ou dois livros.

que tipo de pessoa poderia se sentir incomodada ou ofendida de ver um ky e algumas camisinhas? certamente, não o tipo de pessoa que eu gostaria de receber.

em minha casa, sempre estiveram à mostra as marcas de que fumo (cinzeiro na janela) e de que cago (papel higiênico no banheiro), de que como (garfos e talheres) e de que cozinho (panelas e frigideiras).

agora, também as marcas de que transo.

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pós-escrito

quando foi publicado pela primeira vez, esse texto causou muita polêmica e diversas manifestações de ódio. li e reli o texto. não encontrei nada de errado nele. pelo contrário, o assunto do texto é JUSTAMENTE essa resposta extremada e raivosa: por que o sexo é tão tabu? por que podemos deixar à mostra os objetos que usamos, por exemplo, para fumar mas não para transar? por que até mesmo falar nisso já desperta tanta raiva, tanto ódio, tanta ojeriza? afinal, por que o sexo (especialmente o sexo praticado pelo Outro) ofende tanto? se o texto levantou essas questões, então cumpriu o seu papel.

“e a violência contra os homens?”

quando falo dos números da violência contra a mulher, uma objeção frequente dos homens é:

“mas iuzomi? os homens morrem muito mais vítimas da violência que as mulheres!”

sim, em números absolutos, os homens são a maioria das vítimas de homicídio. a diferença é que quem está matando os homens são os próprios homens.

quando uma mulher sofre uma violência, o agressor é geralmente homem. quando um homem sofre uma violência, o agressor quase sempre é um homem.

com uma grande diferença: as violências que sofrem as mulheres geralmente são por ser mulheres. as violências que sofrem os homens nunca são por serem homens mas sim por serem homens pobres, por serem homens negros, por serem homens homossexuais, por serem homens trans.

o fato de os homens serem a maior parte das vítimas da violência não quer dizer que a violência não é machista.

quer dizer que, além de machista, ela é classista, racista, homofóbica, transfóbica.

enfim, outrofóbica.

elogio ao ócio

elogio ao ócio

PORQUE NÃO USO MAIÚSCULAS AO ESCREVER.

porque me parece feio.

porque é menos um elemento gráfico atulhando minhas palavras.

porque Acho que Não fica estético na frase Aquelas letras de rePente mais altAs que As outras.

porque a pontuação já é suficiente para marcar que a frase anterior acabou e me parece redundante um outro elemento adicional para marcar o início da frase seguinte.

porque o contexto já sempre indica o que é nome próprio e o que não é.

porque o trabalho de ficar colocando isso e aquilo em maiúsculas, e de aprender o que vai em maiúsculas e o que não, não me parece que compensa o valor adicionado reduzido que esse elemento traz ao texto.

porque o uso convencionado desse elemento já se perdeu mesmo e as Pessoas hoje colocam em maiúsculas o que lhes dá na Telha, de forma aleatória, só para dar Ênfase.

na verdade, a única coisa que as maiúsculas comunicam hoje são as prioridades de quem escreve: em texto de economista, Economia sempre vai em maiúscula; de fotógrafo, Fotografia, e assim por diante.

mas o motivo principal é que me parece que maiúsculas não adicionam nada.

escrevo na ortografia convencionada, uso vírgula e ponto e vírgula, etc etc, porque tudo isso ajuda na compreensão da frase e na transmissão da mensagem.

uso carinhas felizes [:)] porque elas adicionam conteúdo importante e, um dia, sei que vão virar um elemento tão “canônico” quanto ponto de exclamação.

mas não vejo valor adicionado ou vantagem alguma em encher meus textos de maiúsculas.

acreditar no amor

a Outra Significativa não acredita em amor.

para ela, anarco-poliamorosa-sem-vergonha, o amor é um engodo que nossa sociedade heterocapitalista inventou para nos prender em casamentos monogâmicos possessivos, para nos fazer procriar criancinhas que logo vão virar consumidoras, para vender comédias românticas insossas que não passam no teste bechdel.

e eu, bem, também sou um anarco-poliamoroso-sem-vergonha e concordo.

mas acho que podemos ressignificar tudo, inclusive o amor. especialmente o amor.

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um dia, faz dez anos, casei.

muito tempo depois, quando soube que o meu casamento era aberto, uma amiga que me conhecia bem exclamou:

ah, agora entendi. não é que você passou a ser a favor do casamento. você só mudou a SUA definição de casamento!

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não é que eu “acredito” em amor.

“acreditar” dá a entender que o amor é uma coisa ali externa, que existe fora de nós, que podemos escolher acreditar ou negar. como se fosse um objeto. pior, um produto.

pra mim, amor é, um dia, de repente, encontrar uma pessoa e gostar dela.

e, mesmo sem laços possessivos ou comprometidos, no dia seguinte, você quer ver aquela pessoa de novo.

pois te parece que ela é o tipo de pessoa interessante que fala coisas interessantes e anda com outras pessoas interessantes e que vai fazer coisas interessantes, e você quer estar por perto pra participar disso.

e assim os dias vão passando. e viram meses e viram semanas e viram anos. e aquela pessoa continua sempre interessante e você continua interessado nas coisas interessantes que ela vai dizer e que ela vai fazer.

e, mais ainda, todos continuam livres, livres para também encontrar e ouvir e conviver e amar outras pessoas interessantes, pessoas que adicionam conteúdo e valor a nossas vidas, pessoas que vão constituindo uma rede admirável de pessoas interessantes que orbitam umas às outras.

e, todo dia, zera tudo. todo dia, a escolha é refeita. todo dia, podemos decidir que, finalmente, deu. que aquela pessoa já contribuiu tudo o que poderia contribuir. que não vai mais dizer ou fazer coisas interessantes. ou que não temos mais interesse nas futuras coisas interessantes que ela pode dizer ou fazer. e ninguém seria canalha por isso.

mas, olha, sei não.

acho que a Outra Significativa vai fazer e dizer coisas ainda mais interessantes e incríveis em 2014.

então, por enquanto, vou ficando.

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sim, o amor pode ser heterocapitalista monogâmico careta possessivo. aliás, quase sempre é.

mas não precisa ser.

eu não “acredito” em amor: eu escolho construir e inventar o amor como eu acho que ele deve ser.

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em 2013, cancelei minha internet, abandonei celular e saí do msn, facebook, twitter. (o facebook e o twitter ainda existem, mas não são administrados por mim e não tenho acesso a eles.)

resultado: muitas pessoas que pareciam próximas simplesmente sumiram. não era amizade: você só era conveniente de conversar porque estava ali online. nada de mal nisso. fico feliz de ter podido ajudar enquanto foi possível.

mas, por outro lado, a falta das redes sociais te joga de novo nos braços das pessoas de carne e osso. daquelas dez ou quinze pessoas cuja presença concreta já basta para fazer da sua vida plena, interessante, bonita.

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nessa reta final de 2013, muito obrigado à Outra Significativa por ser a melhor companheira que uma pessoa poderia desejar. admirável, fodona, generosa, aberta. interessante.

obrigado também a todos os seres incríveis que passaram por minha vida. que me fizeram uma pessoa melhor. que me ajudaram, que me acolheram, que me estimularam. que compartilharam suas vidas, suas intimidades, seus beijos, seus problemas comigo. que me possibilitaram:

heloísa, paula, ricardo, leonardo, cariocas que admiro muito e que nunca vejo tanto quanto gostaria. alessandro, camila, fernando, biajoni, isabel, katy, pessoas queridas de fora que eu gostaria de ter mais à mão. ana luiza e julia, que se afastaram mas de quem morro de saudades todo dia. diane, melhor ex-esposa possível e imaginária. renata, fernanda, antonio, carlos, meus amigos mais antigos. sônia e flávia, minhas irmãs queridas, que me acolhem mais do que ninguém. oliver, claro.

e a todos os seres incríveis que ainda não tive a chance de conhecer tão bem quanto gostaria e que, quem sabe, farão parte da minha vida em 2014.

obrigado.

vamos derrubar tudo?