habitar a dor

diz o budismo que toda emoção é dor: ou ela é literalmente dor, ou ela é uma felicidade transitória que em breve se tornará dor.

tenho algumas ausências que doem todo dia.

mas a ausência só dói porque está vinculada a coisas muito bonitas e incríveis que aconteceram e que fazem falta.

então, quando bate a dor, eu procuro uma dessas lembranças prazeirosas e entro fisicamente dentro dela, como quem entra em um quarto que está lá me esperando, com todos os seus toques, cheiros, sons, palavras.

não faço isso para negar a dor.

(a dor é minha e faz parte de mim. se eu quisesse negá-la, na minha esquina tem uma farmácia cheia de remédio pra isso.)

eu habito o momento de prazer para mostrar à dor de onde ela vem:

“você está doendo hoje, mas é só porque isso aqui ontem, ó, foi bão demais.”

medos

algumas pessoas têm medo de enlouquecer, de ficar de fora, de ser excluídas.

eu olho em volto, vejo um mundo absolutamente canalha e desigual, e tenho medo de me pegar subitamente bem-ajustado, dentro do sistema, incluído.

meu maior medo é ser cúmplice.

mapa de pressão, versão política

a História aí acontecendo e nós aqui cismando de levar nossas vidinhas.

dilma-discursa

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corporificando a narrativa

em 2003, entrei na internet para publicar os primeiros textos da série “as prisões“.

na época, criei para mim a narrativa de ser um escritor “liberal”, “libertário”, “libertino”, que pensava e escrevia o que bem entendia, doa a quem doer, etc.

ao longo dos anos, dia a dia, texto a texto, sempre em público, essa narrativa foi mudando.

enquanto isso, fui morar no exterior e pude observar as mazelas sociais do brasil de longe, ao mesmo tempo em que senti na pele os efeitos da enorme tragédia social que foi o furacão katrina.

hoje, para minha surpresa, percebo que criei para mim uma nova narrativa: a de que sou uma pessoa ruim, narcisista, vaidosa, egocêntrica, mas que tenta ser uma pessoa melhor, mais aberta, mais generosa, mais empática.

apesar de muitos deslizes pessoais da minha parte, as pessoas de modo geral acreditam nessa narrativa: quando me encontram ou interagem comigo, essa é a pessoa que esperam que eu seja.

por isso, mesmo nos dias em que não estou com saco de ser generoso ou empático, às vezes à minha revelia, acabo me vendo obrigado a me comportar de maneira a confirmar e sustentar essa narrativa.

então, ao agir de acordo com essa narrativa, eu acabo corporificando essa narrativa, reforçando e confirmando as expectativas alheias sobre mim, e criando assim um loop que se retroalimenta:

em minha próxima interação humana, será ainda mais difícil que eu escape dessa narrativa que eu mesmo criei e que eu, assim, corporifico.

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o problema da gentileza

não é porque eu fui gentil com você, ou te recebi na minha casa, ou escrevi um texto que te marcou, que eu quero ser seu amigo.

jokl

* * *

acontece muito comigo:

faço uma pequena gentileza e a outra pessoa reage como se aquilo tivesse sido uma prova de amor, um gesto de amizade, uma demonstração de carinho, como se nunca ninguém tivesse sido amoroso, amigo, carinhoso com ela.

e eu fico com vontade de dizer:

“eu não desgosto mas também não gosto de você. foi uma gentileza que eu faria literalmente por qualquer pessoa. até por uma pessoa que eu odiasse e desprezasse. um gesto completamente vazio de significado, fruto de mera educação e polidez.”

mas não falo nada, apenas agradeço e penso:

que merda é viver em um mundo tão rude que gentileza virou prova de amor verdadeiro.

inhotim

o inhotim, um parque-museu perto de belo horizonte, é meu lugar favorito no mundo.

na foto, por laura de las casas, eu e meu caderninho dentro do desert park (2010) de dominique gonzalez-foerster.

alex castro no inhotim 2 por laura de las casas
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contágio

agora à noite, saindo do inhotim, uma senhora ao telefone:

— oi, meu amor. papai morreu. sim, acabei de saber, nesse minuto. estou aqui no ônibus voltando para bh. ele estava internado e…

a conversa continua. ela ainda faz outras duas ligações: providências a tomar, problemas a resolver, a burocracia da morte.

de repente, em meio àquele breu refrigerado, começa a soar um verdadeiro coro polifônico de vozes sussurradas e luzes azuladas:

— oi, pai.

— liguei só pra ouvir sua voz, papai.

— a bença, meu pai.

— pai, o senhor melhorou da tosse?

— estou aqui em minas e pensei em você, pai.

esse último fui eu.

 

comentaristas do prato alheio

para as pessoas de modo geral, existem vários comportamentos eliminatórios à mesa: falar de boca aberta, arrotar, comer feijão com arroz de colher, etc.

devo ser mesmo muito diferente, pois nada disso me incomoda.

tem apenas um comportamento à mesa que considero eliminatório. já me levantei de algumas mesas por causa dele. existem várias pessoas com quem não sento mais à mesa por serem reincidentes.

é o comentarista do prato alheio:

“vai comer tudo isso?” // “vai comer só isso?”

“não pegou salada?” // “não pegou carne?”

“nossa, já acabou?” // “nossa, ainda não acabou?” etc etc

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a sujeira do mundo somos nós

uma estrada de terra não é suja. ela só é. o chão é o chão.

entretanto, se eu piso nela com meu o pé descalço, o meu pé fica sujo.

aquelas partículas da estrada de terra, que não eram sujas quando estavam no chão, se transformam automaticamente em sujeira quando entram em contato com o meu corpo e grudam na minha sola do pé, uma sujeira da qual eu preciso me livrar, uma sujeira que eu preciso lavar e purgar.

se não existisse o meu pé, se não existissem seres humanos, não existiria sujeira. a terra seria só a terra.

a sujeira do mundo somos nós.

como ajudar sem ser mecenas

você não precisa pagar nada para ler meus textos: eles estão aí, na internet, para isso.

mas, se você gosta, quer me ajudar mas não pode ser mecenas, eis algumas coisas que você pode fazer por mim:

1. assinar meu newsletter
2. comprar meus livros.
6. vir aos meus encontros.
8. se veio a um encontro, escrever um depoimento.
9. encaminhar minhas cartas para pessoas amigas.
22. me seguir no facebook, na página e no perfil.
45,8. compartilhar meus textos nas redes sociais.
81. vir me visitar quando estiver no rio.
102. responder minhas cartas dizendo o que achou.
987. só ler e já tá bom demais.

todas essas coisas, em maior e menor grau, me ajudam a permanecer aqui nesse caminho.

e eu agradeço.

o fascismo de mim mesmo

algumas pessoas acham estranho eu me abrir para visitas.

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porque a rejeição dói tanto

por que sofremos tanto ao terminar um relacionamento ou sair de um trabalho?

resposta: ego, narcisismo, vaidade, apego.

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quem não é ficcional?

nunca é demais lembrar: sou um autor de ficção.

tudo o que escrevo deve ser tratado como ficção: eu invento fatos, eu invento pessoas, eu invento livros, eu invento citações.

é isso que faz um autor de ficção.

qualquer informação que você saiba por mim deve ser conferida em uma fonte independente antes de ser passada adiante.

então, quando você aprender a fazer isso comigo, passe a fazer isso com todas as informações que você receber de qualquer pessoa.

porque, no fundo, na prática, somos todas autoras de ficção, imersas em nossas pequenas realidades, inventando que somos aquilo que nunca seremos, criando narrativas com base em nossas esperanças e preconceitos.

* * *

leia também a prisão verdade.

o meu entendimento é irrelevante

se outra pessoa precisa me explicar suas razões para só então eu respeitar sua escolha…

então, eu já estou arrogantemente me colocando como árbitro de sua vida.

o verdadeiro respeito não depende da capacidade de entendimento de quem ouve ou da capacidade de persuasão de quem explica.

eu respeito a decisão que outra pessoa tomou sobre sua própria vida simplesmente porque ela é uma outra pessoa, com outros valores e outras prioridades, que tem direito de decidir sobre sua própria vida tanto quanto eu da minha.

ela não precisa me convencer de nada. o meu entendimento é irrelevante.

* * *

textinho para ser incluído na futura prisão empatia.

o dom da leitura

existe gente que “leva jeito” para ler?

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“esse é o último ano em que eu dei a mínima pra qualquer coisa”

admiro uma lojista que não só chuta o balde, como ainda deixa ali, na parede, a faixa de “feliz 2011” pra lembrar exatamente quando foi.

Juan Francisco Manzano: el esclavo y la palabra

Ponencia de Alex Castro, a 17 de febrero de 2016, como parte del seminário internacional 130 aniversário de la abolición de la esclavitud en Cuba, en Casa de las Américas.

seminario internacional 130 aniversario de la abolición de la esclavitud en cuba

seminario internacional 130 aniversario de la abolición de la esclavitud en cuba

Introducción » leia o texto completo «

leituras comentadas, dezembro 2015

1. the blind, de maurice maeterlinck, 1891, francês. (trad: maya slater, 1997.) 9dez15.

2. entre o mundo e eu, de ta-nehisi coates, 2015, inglês. (trad: paulo geiger, 2015.) 11dez15.

3. são joão marcos, patrimônio e progresso, de mv serra (org), 2011, português. 13dez15.

4. thinking, fast and slow, de daniel kahneman, 2011, inglês. 14dez15.

5a. fausto I, de johann wolfgang goethe, 1806, alemão. (trad: jenny klabin seagall, 1949.) 20dez15.

5b. fausto II, de johann wolfgang goethe, 1832, alemão. (trad: jenny klabin seagall, 1967.) 22dez15.

5c. faust, parts one and two, de johann wolfgang goethe, 1806-1832, alemão. (trad: george madison priest, 1932)

6. os monumentos do rio de janeiro – inventário 2015, de vera dias, 2015, português. 23dez15.

7a. decameron, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: ivonne benedetti, 2013.) 29dez15-11jan16. releitura.

7b. decameron, dez novelas selecionadas, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: mauricio santana dias, 2013.)

7c. decameron, vols I e II, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: raul de polillo, 1952, atribuída a torrieri guimarães.)

7d. decameron, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: g. h. mcwilliam, 1972.)

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decameron, de boccaccio

notas de leitura sobre o decameron, de boccaccio.

Decameron by Boccaccio, Giovanni.

Decameron by Boccaccio, Giovanni.

em plena erupção da peste negra, um grupo de dez pessoas foge de florença e se isola em uma villa rural.

verdadeiras xerazades medievais, elas mantém a morte afastada contando histórias umas para as outras: dez pessoas, contando dez histórias por dia, durante dez dias. (daí o título decameron.)

nenhuma outra obra da literatura universal acontece sob a sombra de tanta tragédia.

nenhuma outra obra da literatura universal celebra a vida com tanto vigor, com tanta força, com tanta alegria.

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a importância das chaves

na minha rua, tem um chaveiro.

quando ele sai para atender alguém, deixa o quiosque aberto, como se tivesse ido só ali na esquina, mas ainda de olho, já voltando.

as pessoas aparecem para contratá-lo, veem tudo aberto e olham em volta — ele deve estar vindo, não?

mas ninguém chega.

aí perguntam pro garçom do boteco em frente:

“cadê o chaveiro?”

“deve estar atendendo alguém.”

“mas deixou tudo assim aberto e destrancado?! o chaveiro?”

“pra senhora ver!”

as quase-clientes bufam as ventas, circundam o quiosque, batem o pé: não sabem se ficam ou se saem, se guardam o forte ou se quebram tudo. acabam sempre indo embora, frustradas. onde já se viu!?

daqui a pouco, o chaveiro volta, senta lá dentro e espera, plácido, como um mestre zen dentro do seu koan, ensinando uma lição que ninguém compreende.

 

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