belmiro de almeida e o museu nacional de belas artes

23 março, 2012 § 5

semana passada, pela primeira vez desde que voltei definitivamente ao rio, estive no museu nacional de belas artes.

poderia passear pela sala de arte brasileira do século xix de pijama. o mnba é como se fosse minha casa.

a história é feita da nossa carne

a escola real de ciências, artes e ofícios foi fundada por d.joão vi em 1816.

com a independência, passou a se chamar academia imperial de belas artes.

em 1826, se transferiu para um prédio projetado pelo francês grandjean de montigny, na atual avenida passos.

escola nacional de belas artes, projeto de grandjean de montigny, foto por marc ferrez, 1891.

escola nacional de belas artes, projeto de grandjean de montigny, foto por marc ferrez, 1891.

na academia, casa de belmiro de almeida e muitos outros dos nossos grandes artistas, se travaram as grandes questões artísticas do século xix.

depois da república, passou a se chamar escola nacional de belas artes.

em 1908, com a construção do prédio atual do museu nacional de belas artes, na avenida rio branco, projeto do espanhol adolfo morales de los rios, a escola se trasferiu para ele.

atual prédio do museu nacional de belas artes, foto de marc ferrez, sd

atual prédio do museu nacional de belas artes, foto de marc ferrez, sd

(o prédio original, de grandjean de montigny, foi demolido em 1938, sobrando apenas seu pórtico, atualmente no jardim botânico.)

pórtico do prédio da academia nacional de belas artes, no jardim botânico

pórtico do prédio da academia nacional de belas artes, no jardim botânico

quando foi criada a universidade do brasil, a escola nacional de belas artes se incorporou à ela em 1931.

finalmente, em 1937, no mesmo prédio onde já funcionava a escola nacional de belas artes, foi inaugurado o museu nacional de belas artes.

durante os quase quarenta anos centrais do século xx, escola nacional de belas artes e o museu nacional de belas artes funcionaram no mesmo prédio, em frutífera simbiose. o próprio acervo da escola tornou-se o acervo do museu.

cresceram as árvores.

cresceram as árvores.

em 1965, quando a universidade do brasil passou a se chamar universidade federal do rio de janeiro, a escola também mudou levemente de nome: escola de belas artes.

em 1973, uma das alunas do curso de belas artes ficou grávida. no segundo semestre, já avançada na gravidez, desenhava apoiando a prancheta no barrigão. as aulas eram no subsolo e seu jovem marido, ainda apaixonado e trabalhando também no centro, ficava sempre agachado em plena calçada para poder vê-la através das janelinhas semi-circulares. no fim do ano, se formou aos trancos e barrancos e, em fevereiro do ano seguinte, nasceu seu primeiro filho.

um pouco acima do nível do chão, as janelinhas semicirculares.

um pouco acima do nível do chão, as janelinhas semicirculares.

pouco depois, em 1975, a escola de belas artes foi transferida para o campus do fundão.

muitos anos depois, em 2007, o filho do casal que namorava pelas janelas do museu visitou a nova sede da eba-ufrj para prestigiar a defesa de mestrado de sua melhor amiga, sobre arte e tecnologia, já apontando os caminhos por onde a arte brasileira vai fluir em seu terceiro século.

a história da nossa cultura é feita do nosso sangue e da nossa carne. as decisões de dom joão vi, os namoros dos meus pais e a escolha de tema da isabel são três pontos da linha do tempo da mesma instituição.

a história somos todos nós.

minha mãe (1974), pintada por hildebrando lima

minha mãe (1974), pintada por hildebrando lima

acima, minha mãe, em janeiro de 1974, grávida de oito meses de mim, pintada por seu então colega de classe na escola de belas artes, hildrebrando lima, hoje renomado escultor.

belmiro de almeida

belmiro de almeida foi cria da academia imperial de belas artes e é um de nossos maiores pintores.  o mnba também é sua casa, e conta em seu acervo com algumas de suas principais obras, como “arrufos” e “a tagarela“.

“arrufos”

arrufos. óleo sobre tela, 89 X 116 cm, por belmiro de almeida (1887)

arrufos. óleo sobre tela, 89 X 116 cm, por belmiro de almeida (1887)

a rosa despedaçada no chão, o vaso quebrado na mesa. a plácida indiferença do homem, calmamente apreciando o cigarro que acabou de enrolar, uma mão enluvada, outra nua, pensando: “odeio mulher histérica!”

cada um dos quadros de belmiro de almeida conta uma história com começo, meio e fim. valem por contos visuais.

a nova geração de pintores saudou “arrufos” como se fosse uma revolução. o escritor gonzaga duque, que serviu de modelo para o homem, exclamou que, no rio, ainda não se havia pintado um quadro importante como esse. talvez por isso, causou um pequeno escândalo na sociedade carioca, entre patronos do museu e a aristocracia do império, em uma época quando quadros ainda causavam escândalos.

mesmo se o rio de janeiro fosse a cidade mais sem atrativos do mundo, só “arrufos” já valeria a visita.

“os descobridores”

"os descobridores" (1899), óleo sobre tela, 260 X 200 cm

"os descobridores" (1899), óleo sobre tela, 260 X 200 cm

apesar de encomendado pelo governo para celebrar os 400 anos do descobrimento, o quadro escolhe retratar um instante patético e humano. dois marujos, em terra, e a frota de cabral se afastando no mar. um cai ao chão. o outro observa os navios.

quem são eles? degredados, deixados para trás como punição? marujos fugidos, que não agüentavam mais a vida a bordo? ou será que foram abandonados por engano?

o personagem à esquerda, caído aos pés da árvore, o que ele sente? total derrota, ao ver que está sozinho naquela tela estranha? ou total alívio, ao ver-se livre da rotina naval que o oprimia?

de qualquer modo, estão sós.

* * *

atualmente, “os descobridores” está no segundo andar do palácio do itamaraty, no rio de janeiro. em 2004, eu estava fazendo um serviço ali perto e decidi aproveitar para conhecê-lo pessoalmente, pois só tínhamos nos visto em livros.

cheguei no palácio às cinco horas e já estavam fechando. o guarda, solícito, me informou os horários das visitas diárias e e eu disse que não, que era um estudante de arte e que precisava dar só uma olhadinha em um quadro que tinha sido informado que estava ali. aliás, minha informação tinha mais de 50 anos. nesse meio tempo, o quadro poderia ter pego fogo, sido riscado por um adolescente louco ou ter mudado de residência quinze vezes.

comecei a descrever o quadro: ele é grande, quase três metros de altura por dois de largura, são dois marujos da época do descobrimento no alto de um morro, vendo a frota do cabral ir embora e—

ah, disse o guarda, o senhor quer ver o quadro do belmiro?

fazíamos parte de uma irmandade. ele não só soube na hora de que quadro eu estava falando, como ainda se referiu ao pintor com uma intimidade de velho conhecido: ah, o quadro do belmiro?

sim, claro, o quadro do belmiro.

ele me conduziu pelos belíssimos corredores e salas e antesalas do palácio, já às escuras, e me levou até o quadro. acendeu as luzes e ficamos lá, os dois, uns quinze minutos, embasbacados, apreciando o drama daqueles dois marujos.

infelizmente, o quadro não está em bom estado, apesar de ter passado por uma restauração somente dois anos antes. as cores apagaram, o navio no canto superior esquerdo sumiu totalmente. quem não conhecesse o quadro por outras reproduções, acharia que estavam fitando o mar vazio.

não vale a visita — a não ser para conhecer o sebastião, o guarda amigo do belmiro.

“a tagarela”

"a tagarela" (1893), óleo sobre tela, 128 X 83 cm.

"a tagarela" (1893), óleo sobre tela, 128 X 83 cm.

já visitei alguns dos melhores museus de arte do mundo. sei que seria uma temeridade classificar qualquer quadro como o melhor de todos os tempos. mas, de uma forma bem singela e pessoal, “a tagarela” é o meu quadro preferido.

quase todo ano vou visitá-la. arrasto um banquinho, ou sento no chão, e ficamos nos olhando. sei que está louca pra me contar uma fofoca quentíssima, mas não consegue se decidir. por enquanto, ainda não falou nada.

não importa. ela me fascina e me domina. penso nela freqüentemente. adoro o seu olhar, o seu sorriso, suas mãos apertadas, até a vassoura com a qual ela estava varrendo até um segundo atrás – até parar e decidir que, simplesmente, precisava me contar alguma coisa.

estou esperando.

“mulher em círculos”

"mulher em círculos" (1921), óleo sobre madeira, 45 x 38 cm

"mulher em círculos" (1921), óleo sobre madeira, 45 x 38 cm

por fim, belmiro vai para paris, onde morre em 1935.

dentre os nossos pintores, ele é tido como o que melhor absorveu as tendências da vanguarda moderna, como o cubismo e o futurismo.

apesar de esnobado pelos modernistas de 22, justamente por ter seu nome muito associado à escola nacional de belas artes (que então representava o velho contra o qual os modernistas se rebelavam), seu “mulher em círculos”, de 1921, um ano antes da semana de arte moderna, é considerado mais avançado esteticamente do que qualquer quadro brasileiro da década.

até 2004, fazia parte da coleção particular de josé paulo moreira da fonseca. hoje, não sei mais onde está. nunca nos encontramos.

(confesso: existe um certo charme, digamos aurático, em saber que esses quadros, apesar de tão importantes, tão falados, tão reproduzidos, são ainda assim simples objetos que moram fisicamente em um único lugar.)

* * *

já fui ao museu nacional de belas artes. já dei meu oi à tagarela. ela já deu sua benção oficial ao meu retorno. já posso me considerar oficialmente de volta ao rio de janeiro.

* * *

para saber mais sobre belmiro de almeida: “pintura: belmiro de almeida“, por daniela viana leal.

o cão

21 março, 2012 § 5

hoje de manhã, oito horas, copacabana. duas senhorinhas com cara de crente me abordam na porta do metrô.

o senhor sabia que vai haver uma mudança de governo na terra?

respondo com meu tom de voz mais polido, educado, agradável:

oi. bom dia. infelizmente, não estou interessado. eu sou adorador de satanás e vou pro inferno.

a senhorinha olha pra baixo, o oliver ali mais lindo do que nunca, feliz e sedutor com suas botinhas pretas de andar na rua, e tenta articular sua surpresa, algo tipo “como pode um satanista ter um cachorro tão lindo”, mas antes que ela  possa falar, eu completo:

e foi ele que me converteu. esse cão.

o cão

13 março, 2012 § 0

se você está em busca da felicidade, já está fazendo errado.

diálogos insondáveis da ponte aérea

11 março, 2012 § 5

Disse o paulista:

- Orra, véi, puta filme fodido, tá ligado?

Responde o carioca:

- Caraca, brother, muito sinistro mesmo, valeu?

E a grande dúvida: gostaram ou não do filme?

o que é literatura

7 março, 2012 § 7

em minha não-ficção (inclui meus livros de crônicas radical rebelde revolucionário e liberal libertário libertino), a linguagem é somente uma ferramenta para o enredo ou para o argumento. ela é trabalhada cuidadosamente, mas apenas para melhor transmitir o conteúdo sendo expresso. a linguagem, em si, não é uma atração. o texto não-ficcional não chama atenção para o fato de ser texto: idealmente, ele é invisível.

em minha ficção (inclui meu romance mulher de um homem só e meu livro de contos onde perdemos tudo), a linguagem é parte integrante do espetáculo. o texto literário é aquele que não quer ser transparente: ele lembra ao leitor, o tempo todo, de que a linguagem é uma convenção humana, uma criação traiçoeira. a literatura é complexa e sempre se apresenta em forma de enigma: quanto mais parece simples, menos o é. se for, ou não é literatura ou você perdeu alguma coisa.

enquanto a historinha acontece na superfície (o príncipe dinarmarquês que vê um fantasma, o homem que vira inseto, o defunto que narra do pós-tumulo), muito mais coisa acontece abaixo, em camadas mais e mais profundas, no espaço vazio entre as letras, nas entrelinhas: o texto literário é justamente aquele que não se limita a contar uma historinha.

todo texto literário também tem algo de poesia: as palavras não transmitem apenas um conteúdo, elas são o conteúdo. o som, o ritmo, a voz, as lacunas, as aliterações, as metáforas, tudo é proposital. em um texto literário, até os hífens são deliberados: cada palavra conta, principalmente as não ditas.

o sentido do texto de não-ficção é o argumento exposto ou a história narrada. já o texto literário é aquele que borbulha de sentido em cada vírgula.

Dicionário

5 março, 2012 § 5

FaronzadoAdjetivo e substantivo masculino. Aquele que foi ou sofreu faronzamento.

FaronzadorAdjetivo e substantivo masculino. Aquele que pratica o faronzamento, de forma amadora ou profissional.

FaronzamentoSubstantivo. Ato ou ação de faronzar.

FaronzarVerbo intransitivo. Realizar o faronzamento.

FaronzívelAdjetivo de dois gêneros. Que pode ser faronzado.

FaronzoSubstantivo masculino. Brincadeira na qual dicionaristas competem para ver quantos verbetes conseguem compor, todos remetendo uns aos outros, sem nunca revelar o significado da palavra sendo dicionarizada. Ganha quem causar mais suicídios em revisores, tradutores, escritores.

a sensação do trabalho

3 março, 2012 § 1

um colega e eu tínhamos que ler o mesmo romance para uma aula. ele pegou o livro, sentou numa mesa, espalhou cuidadosamente seus marcadores, cadernos, post-its. eu me larguei num sofá, fumando um cachimbo.

perguntei: “não vai querer sentar?”

ele: “não. se fico num sofá e não numa mesa, eu não sinto como se estivesse realmente trabalhando.”

eu: “curioso. é exatamente por isso que eu fico no sofá.”

quem eu era e quem eu sou

1 março, 2012 § 15

há dez anos, em julho de 2002, quando ainda assinava outro nome, criei um site de escritor. seu objetivo era divulgar meu romance mulher de um homem só e meu livro de contos onde perdemos tudo, ambos oferecidos para download gratuito. para falar um pouco de mim, escrevi um “quem sou eu”.

em uma enorme ironia, esse texto sobre arte e originalidade foi copiado e plagiado justamente pelas pessoas que mais gostaram dele e que menos entenderam sua mensagem.

a busca por algumas frases esparsas revela milhares de resultados: “aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho” (9.840), “assunto tende a brochar por aí” (1.870), “não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou” (61.800), “Ser artista independe de fazer arte” (2.430), “Quando me dei conta disso, chutei o balde” (1.230), “Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo” (1.100), “Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida” (3.460), etc. (escrevi sobre isso aqui e aqui.)

o texto foi se modificando ligeiramente ao longo dos dez anos de uso. abaixo, algumas versões:

Quem eu era em 2003

Meu nome é Alexandre Cruz Almeida e tenho 29 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alexandre. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa, à qual me dedicara exclusivamente por três anos, e fui dar aulinhas de inglês em cursinhos vagabundos. Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Leio, escrevo e passeio, exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Recomendo a todos ler meu romance, Mulher de um Homem Só, disponível pra download abaixo. Ele é curtinho, tem 50 páginas, e eu adoraria saber sua opinião. Se tiver tempo e gostar muito do romance, leia também os contos de Onde Perdemos Tudo, mas comece pelo romance.

Esse blog é sobre liberdade e literatura e sobre o processo de libertação pelo qual venho passando desde que chutei meu balde e abracei um estilo de vida diferente. Tudo regado a muito humor e literatura.

Espero que esteja gostando da visita, e que volte ainda muitas outras vezes.

Um grande abraço,

Alexandre Cruz Almeida

Quem eu era em 2006

Meu nome é Alex Castro e tenho 32 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alex. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa e fui dar aulinhas de inglês. Casei e separei. Escrevi e rasguei. Chupei e lambi.

Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Faço pão e fumo cachimbo. Beijo pezinhos e brinco com o cachorro. Leio, escrevo e passeio. Exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Hoje, tenho uma bolsa de estudos no exterior e morro de saudades dos amores que deixei no Brasil. Sou feliz.

O meu blog, Liberal, Libertário e Libertino, é sobre o processo de libertação pelo qual venho passando desde que chutei meu balde e abracei um estilo de vida diferente. Atualizado todo dia, com muito humor e literatura.

O site onde você está agora funciona como o arquivo dos meus melhores textos, sobre diversos assuntos. A maioria dos leitores prefere as prisões. Dê uma passeada e veja o que acha. Depois, me conte.

Por fim, se quiser ler mais, considere comprar meu livro de contos Onde Perdemos Tudo. É baratinho e você vai estar retribuindo um autor batalhador por todas as suas horas prazeirosas (espero!) de leitura aqui no site.

Um grande abraço,

Alex Castro
Nova Orleans, Novembro de 2006

Quem eu era em 2011

Meu nome é Alex Castro e tenho 37 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alex. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa e fui dar aulinhas de inglês. Casei e separei. Escrevi e rasguei. Chupei e lambi.

Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Faço pão e fumo cachimbo. Beijo pezinhos e brinco com o cachorro. Leio, escrevo e passeio. Exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Sou feliz.

Aqui, você pode comprar os livros, ler algumas das resenhas que receberam, conferir as entrevistas que dei e até ler uma palhinha dos contos. Qualquer dúvida, grite.

Um grande abraço,

Alex Castro

Nova Orleans, junho de 2011

* * *

hoje, esse texto já não me não serve. discordo de seus pontos mais fundamentais.

por isso, faço a doação em vida: que passe a pertencer a quem dele se apropriar e que viva eternamente em perfis de sites de namoro e em quem-sou-eus de blogs teens.

abaixo, minha nova biografia. talvez não poética, mas madura.

Quem sou eu em 2012

sou alex castro. por enquanto. em breve, nem isso.

estudei em boas universidades que não menciono para não ser pedante. vivi coisas lindas que não conto pois não vêm ao caso. passei por aventuras perigosas que não revelo para proteger os envolvidos. amei mulheres incríveis que não nomeio pois seria deselegante.

cheguei aos 38 e descobri que minha vida, apesar de vivida em público há tantos anos, tem mais entrelinhas que linhas.

e com razão. proteger quem dividiu comigo sua intimidade é mais importante do que toda a literatura do mundo. que diferença podem fazer meus diplomas? esse site é para divulgar a minha obra, mas pouco importa quem a escreveu.

escrevo. e esses são meus livros.

alex castro

copacabana, março de 2012

deixados pelo caminho

28 fevereiro, 2012 § 8

ontem, recebi uma amiga que não me visitava desde 2002.

nessa época, eu ainda não tinha conhecido o oliver, era casado e morava com a esposa em um quarto e sala em jacarepaguá. uma casa montadinha. cozinha completa. lavadora e secadora. armários. arquivo suspenso. quadros na parede. presentes de casamento.

hoje, os livros na estante e um sobretudo na arara são os únicos objetos remanescentes dessa minha outra vida.

a vida, pesada

25 fevereiro, 2012 § 13

aos 38, finalmente entendo quem desiste do amor.

para muitas pessoas, essa decisão pode ser o ponto ótimo de equilíbrio entre uma libido cada vez mais enfraquecida e um acúmulo de más experiências cada vez mais paralisante.

não estou lá ainda — mas agora entendo.

hoje, minha capacidade de amar me parece um velho número de telefone que costumava saber de cor. você não sente a existência dele no seu dia-a-dia, mas quando puxa, ele vem — até o dia em que descobre, muito para sua surpresa, que aquela gaveta mental está vazia. 345 ou 355? já não sabemos mais.

algo com que sempre contei não está mais comigo. algo que pode voltar em dois meses, ou dois dias, ou nunca, me deixando pra sempre um velho tio solteirudo.

e, pior, feliz e satisfeito em sua decisão de desistir do amor.

* * *

“Ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma. E para ser si mesmo é preciso um trabalho de mouro e uma vigilância incessante na defesa, pois tudo conspira para que sejamos meros números, carneiros nos vários rebanhos. (…) Há no mundo ódio a exceção e ser si mesmo é ser exceção.” (Roberto Freire, em sua Autobiografia)

* * *

minha vida, que sempre foi tão leve, ficou pesada pela primeira vez — e estou tentando recuperar o homem que sempre fui, um dia de cada vez.

mas ser você-mesmo, ser o você-mesmo-que-você-quer-ser, é um exercício diário, constante, sisifeano. é um contínuo perguntar:

o que o alex-que-eu-quero-ser faria agora?

metas para 2012

25 fevereiro, 2012 § 1

falar mais baixo.

não brigar com a mãe.

16 anos

16 fevereiro, 2012 § 8

menino de 16 anos, namorando menina de 14, relacionamento super complicado, brigas com pai dela, maior drama, e eu ouvindo aquilo tudo, e ele me pede um conselho, “alex, o que eu faço? me diz!” e eu, deus que me perdoe, mas, sinceramente, a única coisa que conseguir dizer foi, “não tenha 16 anos. ter 16 anos é uma merda“.

* * *
hoje faço 38. recomendo.

sou ateu porque preciso

18 janeiro, 2012 § 14

Confesso: eu acredito viver no melhor universo possível.

Não suportaria existir em um universo regido por uma força divina misteriosa e caprichosa.

Não suportaria saber que minha alma viverá eternamente, em eterno prazer ou sofrimento, baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses poucos anos terrenos, e com base em critérios inescrutáveis.

Não suportaria saber que vou seguir nascendo e renascendo, quase que infinitamente, mas sem lembrar de nada!

Se existe deus, então a vida não tem nenhum sentido. Quem tem sentido é deus e o nosso sentido provém dele. Não somos mais do que suas cobaias, manipulados daqui pra lá, correndo como hamsters naquelas rodinhas, ignorantes de seus verdadeiros propósitos. Ao seu bel-prazer, somos mortos, escravizados, santificados, até mesmo afogados em massa, quando falha o experimento.

Se existe deus, então todos os esforços da humanidade para se entender e se auto-gerir, toda a ciência e toda a filosofia, de nada valem. Se existe deus, então não existe ética ou moralidade: somente adequção ou não às regras impostas pela divindade.

Se existe deus e temos o livre-arbítrio, então o arbítrio de livre não tem nada, é uma dádiva da qual só desfrutamos porque nos foi concedida e pode ser tirada tão facilmente quanto.

Já disseram que, se deus não existe, então tudo é permitido. Mas se deus existe, por outro lado, então não vale a pena fazer nada, pois nada faz sentido.

Um leitor questiona:

“Para mim, a grande questão não é se deus existe ou não, mas se nós vamos de alguma maneira continuar existindo depois da morte. Eu acredito que vamos continuar, de alguma maneira. Tenho que acreditar. Porque se não vamos, o que é essa vida senão um sonho? Aí é que ela vida não tem mesmo sentido, propósito nenhum. Se não há sentido para quê continuar? Por que não dar um tiro na cabeça daqui a cinco minutos(quando terminar o café)?”

Eu não dou um tiro na cabeça agora porque (além de não ter uma arma) quero saber o fim da novela, porque ainda há uns dois mil livros que eu quero ler e umas cem mulheres que quero comer, porque eu quero assistir os próximos filmes do Almodóvar pra saber o que esse louco vai aprontar, porque ainda falta eu escrever no mínimo uma dúzia de livros que tenho dentro de mim, e etc etc. Será que tudo isso não é motivo suficiente pra não se enfiar uma bala na cabeça?

Talvez deus realmente exista. Sinto calafrios com essa possibilidade mas, sim, talvez sejamos todos somente marionetes em seu projeto cósmico.

Mas, se não podemos ter liberdade, melhor a ilusão da liberdade do que nada.

Sou ateu não por ter concluído, após cuidadosa análise das evidências empíricas, que não existe base factual para sustentar a existência de deus.

Sou ateu porque eu só poderia existir e funcionar como ser humano em um universo sem deus.

Sou ateu porque preciso.

* * *

O texto acima foi originalmente publicado em janeiro de 2005, como parte da Prisão Religião, e foi posteriormente tirado do ar. Hoje, descobri, para minha surpresa, que ele é muito popular e já foi republicado por dezenas de blogs. Então, coloco no ar de novo, para que exista uma versão, digamos, “original”.

o lado cômico do edifício master

31 dezembro, 2011 § 0

Aprendi muito sobre natureza humana durante o documentário Edifício Master.

Os entrevistados contaram coisas sérias e profundas, expuseram suas vidas frente às câmeras. E a platéia riu.

Quando não eram gargalhadas, era aquele silêncio de tsc tsc, aquele silêncio de coitadinha, aquele silêncio de que moça iludida. A empatia (sic?) do público oscilava entre escárnio e pena, sem meios-termos.

Edificio MasterFace ao estranho e ao novo, face às idiossincrasias de pessoas comuns, seus erros de gramática, suas ilusões e seus medos, o público ria de se descabelar, como se diante de um novo personagem do Casseta & Planeta: primeiro o Massaranduba, depois o Seu Creysson, agora a moça agorafóbica, com problemas mentais aparentemente sérios, que fala de modo muito estranho, nunca olha pra câmera e faz poemas em inglês aliás perfeito. A platéia parecia uma claque, de tanto que ria: ficaram faltando só os aplausos quando o personagem entra em cena e, claro, um bordão. Mais um novo personagem pro imaginário popular, tão engraçado quanto o Capitão Gay ou o Professor Raimundo.

A medida que a moça falava, entretanto, o riso foi se abafando, como se baixasse a convicção incômoda de que ih não, ela é de verdade, agora que lembrei, não posso rir, não tem graça. Uma das pessoas que estava comigo até comentou que só se sentiu mal mesmo de ter rido dessa moça. Mas riu. E não riu sozinha.

O humor se baseia em surpresa, inversão de expectativas e, principalmente, crueldade. Um dos axiomas do humor é que, pro público gargalhar, alguém tem que se estar dando mal. Não existe gargalhada do bem.

A grande diferença é que essa moça não é um quadro da Praça É Nossa. Ela é real, e não estava contando algo pra fazer rir, estava falando do seu namorado, de seus poemas, de Nova Orleans, de sua vida e do seu futuro.

Os artistas se expõem, por dever de ofício, ao escárnio público. Ou à glória pública. Ou ao mais absoluto descaso público. O artista é aquele pobre coitado da quermesse, que coloca sua cara no buraco e se expõe às tortas dos visitantes atiram. E quem lhe acertar bem no nariz, ainda ganha um ursinho. O artista que surtar quando seu trabalho for ridicularizado deveria ter estudado odontologia, como seu avô queria.

O artista sabe o quanto está se expondo.

Os entrevistados do Edifício Master sabiam?

Acho que não. Falaram com uma simplicidade e uma sinceridade que não dedicamos nem aos nossos psicanalistas. Falaram de coisas sérias e profundas e, com certeza, nunca lhes ocorreu que aquelas coisas sérias e profundas, ditas com seriedade e profundidade, seriam ouvidas com algo que não fosse seriedade e profundidade. Falaram sério e esperaram ser levados a sério. Será que ouviram as gargalhadas?

O diretor Eduardo Coutinho disse ter feito o possível, durante a edição, para minimizar o patético, pra não expor ao ridículo aquelas pessoas que, com ingenuidade até, haviam se aberto tanto pra ele. Eu acredito. O filme, hora alguma, estimula o patético ou enfatiza o risível. Mas, mesmo assim, no lugar dele, eu teria ficado desesperado.

Eu teria levantado no meio da sessão, parado tudo, mandado acender as luzes. E ficaria gritando, pregando no deserto, desesperado, dizendo não, gente, não é assim, não é isso que eu quis mostrar, isso não tem graça, essa velhinha é uma pessoa maravilhosa, o que ela falou é sério, muito sério, vocês não vêem?

Iriam rir dele também.

(Originalmente publicado em 2002.)

a nódoa da escravidão

15 novembro, 2011 § 1

Um dia, enquanto passeava com o Oliver aqui pelo meu bairrinho universitário classe média em Nova Orleans, uma soccer mom enfiava cuidadosamente seus quatro filhinhos, todos brancos e roliços, em seu jipão utilitário de luxo, também branco e roliço. Era uma senhora baixinha e gorducha, bochechas rosadas e orelhas de abano, carregando mochilas e merendeiras, parecendo dotada daquela infinita paciência que só uma mãe de quatro meninos pode ter. E, em seu para-choque traseiro, discretamente, estava o adesivo:

The South Will Rise Again (“O Sul se Erguerá de Novo”)

Como não se sentir ameaçado? Não conheço o contexto dessas palavras. Por tudo que sei, é um inocente desejo de revitalizar a economia local. Mas, ainda assim, nenhuma racionalização poderia apagar o meu calafrio ao ler aquela frase; nenhuma explicação lógica faria aquele adesivo soar menos sinistro. De certo modo, era como se o ressurgimento do Sul fosse indistinguível e indissociável do reescravizamento de toda uma raça.

E pensei: o Brasil foi tão ou mais escravista do que o Sul dos Estados Unidos, e resistiu por muito mais tempo até libertar seus escravos. Ainda mais doloroso pra mim, dos nove únicos deputados que tiveram a cara-de-pau e a temeridade de votar contra a Lei Áurea em pleno maio de 1888, já na véspera do século XX e na contra-mão de todos os ventos filosóficos do XIX, oito eram do Rio de Janeiro. Legítimos representantes eleitos do meu estado.

Entretanto, não ficamos nem o Rio e nem o Brasil maculados por essa nódoa. Um adesivo “O Brasil Crescerá” despertaria calafrios? Claro que não. Nem o Paraguai tem medo do Brasil. E concluí, aliviado: ainda bem que pelo menos o bom nome do meu país e do meu estado não estão ligados à escravidão.

Um segundo depois, bateu o estranhamento: mas… por que não? A falta de calafrios não corresponde à falta de crimes. O Sul dos EUA teve, no Norte, um vizinho incômodo que manteve viva a memória de seus crimes. Já em nosso caso, simplesmente varremos nossos crimes para debaixo do tapete.

Não somos mais virtuosos: somos melhores em esconder o corpo.

diálogo nas escadas

24 outubro, 2011 § 2

Descendo as escadas do meu prédio, encontro uma senhora sentada nos degraus, fumando.

“Boa noite!”, eu digo.

Empolgada, ela responde automaticamente:

“Boa noite!”

Mas logo depois pensa um pouco e se corrige:

“Boa tarde, na verdade!”

Ao ouvir aquilo, me dou conta que são onze da manhã e falo:

“Na verdade verdadeira, bom dia! Mas tudo bem, domingo é mesmo o dia de esquecer da rotina, dos dias, das horas.”

E ela:

“Hoje é sábado.”

“Então realmente não sei mais porra nenhuma.”

E desci.

cada coisa na sua hora

18 outubro, 2011 § 0

Existem fases na vida em que as experiências se acumulam com tanta velocidade e intesidade que é impossível conseguir tempo e paz para escrever sobre elas.

Existe fases na vida onde o tédio é tão absoluto que não há outro modo de tornar a vida tolerável a não ser escrevendo.

Se na primeira fase você se forçar a parar de viver para sentar e escrever, você não terá experiências sobre as quais escrever.

Se na segunda fase você se forçar a tirar o pijama e ir ver o sol brilhar lá fora, você nunca conseguirá escrever sobre as experiências que viveu.

amor silencioso

17 outubro, 2011 § 1

Na última parada antes da ponte Rio-Niterói, entra um casal no ônibus.

A menina vem se sentar no mesmo banco que eu. Baixa, branca, bonita. Pintinha nos lábios e flor nas sandálias.

O menino fica em pé ao seu lado. Negro, alto, bonito. Camiseta branca e boné vermelho.

Ambos surdos-mudos, ambos claramente apaixonados. Eles se beijam, se tocam, se gesticulam, totalmente absortos um no outro.

Junto com eles, entra também um mendigo de muletas, absolutamente imundo, incrivelmente fedido, definitivamente bêbado.

Senta-se do outro lado do corredor, em frente à menina, e começa a gritar impropérios sem dono. A zoeira é tanta que não consigo nem mesmo ler. À minha volta, todos estão visivelmente contrariados e incomodados. Rangem os dentes, tapam os narizes.

Enquanto o ônibus atravessa a belíssima baía de Guabanara, o mendigo gritando e os passageiros sofrendo, o casal se beija completamente impermeável ao mundo lá fora. Fechados em uma bolha de silêncio e amor.

multidão de boa-vontade

13 outubro, 2011 § 0

hoje, na marquês de abrantes, em frente ao senac.

uma senhora está falando ao telefone e, de repente, seus joelhos fraquejam e ela cai bem devagar. todos a volta correm até ela.

segundo me disseram, era uma funcionária do próprio senac e tinha acabado de ser informada. o menino de camisa branca, andando pela calçada na hora errada no local errado, morto pela explosão da manhã, era seu sobrinho.

fiz menção de ajudar, mas não foi necessário. ela foi lentamente levada de volta ao senac, amparada por uma verdadeira multidão de boa vontade.

bem-vindo ao rio de janeiro

25 agosto, 2011 § 12

Estou morando no Flamengo, bairro densamente urbano do Rio de Janeiro. Pela primeira vez na vida, saio do prédio… e estou no mundo. Cinco academias de ginástica e oito casas de suco só no meu quarteirão. Adoro.

Mas ontem, depois da caminhada matinal, tinha um cheiro estranho nas patas do Oliver. Forte, desagradável. Demorei a identificar. Querosene? Faísca? Não saía de jeito nenhum.

Era a creolina que jogam nas calçadas para afastar os moradores de rua.