o fascismo de mim mesmo

algumas pessoas acham estranho eu me abrir para visitas.

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porque a rejeição dói tanto

por que sofremos tanto ao terminar um relacionamento ou sair de um trabalho?

resposta: ego, narcisismo, vaidade, apego.

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o meu entendimento é irrelevante

se outra pessoa precisa me explicar suas razões para só então eu respeitar sua escolha…

então, eu já estou arrogantemente me colocando como árbitro de sua vida.

o verdadeiro respeito não depende da capacidade de entendimento de quem ouve ou da capacidade de persuasão de quem explica.

eu respeito a decisão que outra pessoa tomou sobre sua própria vida simplesmente porque ela é uma outra pessoa, com outros valores e outras prioridades, que tem direito de decidir sobre sua própria vida tanto quanto eu da minha.

ela não precisa me convencer de nada. o meu entendimento é irrelevante.

* * *

textinho para ser incluído na futura prisão empatia.

a importância das chaves

na minha rua, tem um chaveiro.

quando ele sai para atender alguém, deixa o quiosque aberto, como se tivesse ido só ali na esquina, mas ainda de olho, já voltando.

as pessoas aparecem para contratá-lo, veem tudo aberto e olham em volta — ele deve estar vindo, não?

mas ninguém chega.

aí perguntam pro garçom do boteco em frente:

“cadê o chaveiro?”

“deve estar atendendo alguém.”

“mas deixou tudo assim aberto e destrancado?! o chaveiro?”

“pra senhora ver!”

as quase-clientes bufam as ventas, circundam o quiosque, batem o pé: não sabem se ficam ou se saem, se guardam o forte ou se quebram tudo. acabam sempre indo embora, frustradas. onde já se viu!?

daqui a pouco, o chaveiro volta, senta lá dentro e espera, plácido, como um mestre zen dentro do seu koan, ensinando uma lição que ninguém compreende.

 

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não sinta culpa por me ler de graça

os meus textos estão na internet para serem lidos, gratuitamente, por quem quiser, gostar, precisar.

quando um pastor pede por contribuições, existe uma ameaça implícita de que você pode ir para o inferno se não pagar.

quando eu peço por contribuições, não existe ameaça implícita alguma: se você não pagar, nada de mal vai acontecer, nem com você, nem comigo. (eu não te conheço e, se te conhecesse, não pensaria menos de você.)

sim, eu preciso das contribuições das minhas pessoas mecenas.

não tenho renda garantida nem emprego fixo. sem as mecenas, eu seria forçado a correr atrás de frilas, traduções, revisões, e acabaria escrevendo menos.

mas não seria o fim do mundo. e, mais importante, não é seu problema.

existem vários motivos para se tornar mecenas.

aceito sua generosidade altruísta em retribuição aos textos que leu de graça.

aceito seu autointeresse egoísta em possibilitar a produção de novos textos.

dispenso sua culpa.

adote o artista não deixe ele virar professor

(para contribuir e se tornar mecenas, clique aqui.)

quem tem medo de virar pária social?

as pessoas me falam:

“se eu fizer isso vou virar uma pária social!”

como se fosse uma coisa ruim!

mas “virar uma pária social” significa que pessoas chatas vão parar de….

…me chamar pra fazer coisas que não quero fazer;

…esperar que eu me comporte como elas;

…dar pitaco em minha vida;

…projetar em mim suas expectativas insensatas.

ou seja, “virar pária social” não é o problema: é o final feliz.

A fragilidade do corpo negro

Resenha de Entre o mundo e eu de Ta-Nehisi Coates para a Folha de S. Paulo, publicada no dia 2 de janeiro de 2016. Abaixo, a versão integral.

entre o mundo e eu ta-nehisi coates

* * *

Entre o mundo e eu, uma carta do jornalista norte-americano Ta-Nehisi Coates (pronúncia aproximada: tanarrássi) para seu filho de quinze anos, é um livro sobre o corpo. Mais especificamente, sobre o corpo negro.
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existe algo de grandioso se acumulando na pia

os grandes crimes da humanidade, as merdas absolutamente gigantescas, os genocídios e os fascismos, foram todos cometidos por pessoas que achavam fazer parte de algo “grandioso”.

as pessoas rebeldes, as pessoas incertas, as pessoas do contra, as pessoas confusas, essas podem até fazer muita besteira, mas não marcham em uníssono ao som de tambores.

sempre que me flagro pensando que o livro das prisões vai mudar o mundo, influenciar as pessoas, ser algo grandioso….

eu páro tudo e vou varrer o chão.

varrer o chão é a melhor cura para a grandiosidade.

recomendo.

quer participar de algo grandioso

(uma resposta a esse texto.)

manhãs de copacabana

Copacabana-sunrise

adoro acordar com o dia ainda escuro, ver o sol lentamente surgindo por cima do morro do cantagalo, ver as gaivotas sobrevoando a praia de copacabana, sentir o leve cheiro de maresia que vem chegando, sentir o bairro despertando.

adoro acompanhar o movimento do sol dentro da minha casa. primeiro, ele bate na cama, depois, na rede, e vem entrando e entrando, e me empurrando pra dentro de casa, até que, nessa época do ano, lá pelas sete, o único lugar que me sobra na casa é o balcão, para tomar café e trabalhar.

adoro o cheiro de café que vai aparecendo, aqui e ali, de muitos dos 400 apartamentos que me cercam só no meu prédio.

adoro ouvir as crianças chegando, falando, brincando na creche que fica ao lado da minha janela, o solar meninos de luz.

adoro a alegria ensandecida da capitu, cachorra de apenas seis meses de idade, ao perceber que está viva e tem mais um dia pela frente.

adoro o meu café da manhã de café, ovo mexido, torradas com manteiga e fruta, o cheiro de cada uma dessas coisas me confortando, me preenchendo, me deliciando, me colocando já no clima do novo dia.

por fim, adoro um senhor negro, magro e alto que, todo dia, lá pelas onze e pouco, passa pela minha rua gritando “ó o almoço da quentinha”, simbolizando assim o final oficial de mais uma manhã no rio de janeiro.

cada dia mais eu comprovo. minha hora produtiva é a manhã. se já não fiz o meu melhor trabalho até a chegada do moço da quentinha, melhor dormir cedo e tentar de novo no dia seguinte.

* * *

foto: um típico nascer-do-sol em copacabana, por aaron frutman. acreditem ou não, tem um desses aqui todo dia. eu não canso.

em linhas gerais, na praia de copacabana o sol pode ser visto nascendo do outro lado da baía de guanabara, atrás das montanhas de niterói, e, na de ipanema, se pondo atrás do morro dois irmãos.

meu apartamento é voltado para a praia de copa, que está a três quarteirões de distância, mas não tem vista para o mar: eu só vejo suas gaivotas, sinto seu cheiro, adivinho sua presença.

 

as oito preocupações mundanas

1. querer elogio

2. não querer crítica

3. querer prazer

4. não querer dor

5. querer vitória

6. não querer derrota

7. querer reconhecimento

8. não querer menosprezo

* * *

sobre zen.

homenagem

queijaria de beira de estrada, entre montevidéu e colônia. cabras felizes pastam ao redor.

no balcão, o retrato emoldurado de uma cabra, com a legenda “titi”.

revela o queijeiro, sorrindo:

“foi nossa primeira cabra!”

o céu está sempre azul

o céu está sempre azul e o sol está sempre brilhando.

talvez exista até algum obstáculo momentâneo impedindo a visão mas, acima dessas nuvens, do outro lado desse planeta, o céu está sempre azul e o sol está sempre brilhando.

nos meus momentos de depressão, esse pensamento me alegra.

(da série: “coisas que só se percebe na prática observando o céu enquanto se dirige mil quilômetros em um só dia pelos andes e pelos pampas.”)

o que é a História comparada a uma dor de dente?

estou lendo “vozes de chernobil”, uma história oral da tragédia nuclear, escrita por svetlana alexievich, vencedora do nobel de literatura desse ano.

um livro lindo, belíssimo, incrível, que eu (atenção para o maior elogio que uma pessoa escritora pode fazer a outra) gostaria de ter escrito.

chernobyl-timm-suess-lenin-square

uma das histórias é de um professor de história que tinha acabado de descobrir o adultério de sua esposa e só conseguia pensar nisso, tinha até tentado o suicídio.

quando é convocado para trabalhar na limpeza de chernobil, ele pensa:

“se não estávamos em guerra, por que eu teria que arriscar a minha vida? e mais ainda se alguém comeu minha mulher! por que tem que ser eu, de novo, e não… “ele”?!”

durante os trabalhos, ele ganhou vários medalhas de valor, porque atuava sem nenhum medo da morte. para ele, nada daquilo era real. só conseguia pensar na traição que tinha sofrido.

no final do relato, ele conta a história de um moço que vivia em jerusalém na época de jesus.

ele estava em casa quando jesus passou carregando a cruz, tropeçou bem em frente a sua porta, se levantou, pegou a cruz de novo, voltou a carregar. e o homem dentro de casa, ouvindo toda aquela comoção, todo mundo chamando ele pra ver, mas ele não saiu:

estava morrendo de dor de dente.

e eu, alex, também professor de história como o autor desse relato, sei bem do que ele está falando. estudei história militar: sei quantas batalhas decisivas da humanidade foram perdidas porque algum general estava com dor de barriga e não conseguia se concentrar na batalha.

o que é a História Humana, assim em maiúsculas, com toda sua grandeza abstrata, comparada a uma raiz exposta, a um coração partido?

a Grande Conversa

tudo o que eu sempre quis foi fazer parte da Grande Conversa.

* * *

quando eu era criança, não tinham muitos livros na minha casa. meu pai e minha mãe eram pessoas instruídas, mas não eram leitoras. haviam alguns livros de arte da minha mãe (formada em belas artes)e muitos agatha christie, sidney sheldon, morris west e afins do meu pai.

na sala, havia uma enciclopédia britânica, edição de 1978, comprada mais por decoração e por status do que por leitura. (nunca vi nenhum dos dois mexendo nela, nem falavam inglês o suficiente para lê-la.) 

talvez tenham comprado pra mim.

nesse caso, foi um excelente investimento. pois estou aqui, quase quarenta anos depois, escrevendo um texto sobre a importância desses livros em minha vida.

não exatamente da enciclopédia britânica em si (que devorei com a fúria de menino leitor em casa de poucos livros) mas da coleção que veio com ela:

great books of the western world

vendi quase todos os meus livros faz muito tempo, mas guardei vários volumes dessa coleção. alguns muito remendados (como o segundo volume de “declínio e queda do império romano”, que levei durante a evacuação do furacão katrina), todos muito marcados.

talvez o melhor modo de ressaltar a importância dessa coleção seja listar os autores que eu li através dela:

homero, ésquilo, sófocles, eurípedes, aristófanes, heródoto, tucídides, lucrécio, virgílio, plutarco, agostinho, tomás de aquino, maquiavel, hobbes, spinoza, shakespeare, cervantes, descartes, sterne, rosseau, gibbon, mill, goethe, melville, darwin, marx, tolstoi, dostoievski e freud.

nem todos eu gostei. nem todos eu entendi. mas muitos estão entre os meus autores preferidos. e todos são necessários.

(naturalmente, é aquela velha coleção de livros canônicos, todos escritos por homens brancos ocidentais. nenhuma mulher, nenhuma pessoa autora periférica. eram outros tempos, definitivamente.)

mas não é desses gênios que quero falar.

* * *

dentre tantos livros clássicos, talvez o que mais me influenciou tenha sido o primeiro volume introdutório, escrito por um dos organizadores, robert maynard hutchins.

ele explica que a tradição ocidental está corporificada em uma Grande Conversa, que começou na aurora da humanidade e que continua até o dia de hoje. o que une os autores da coleção é justamente essa Grande Conversa que estão travando, na qual um responde aos seus antecessores e, por sua vez, será respondido por seus sucessores, e assim em diante.

por isso, desde a minha infância, graças a hutchins, nunca consegui ver esses livros como objetos de estudo ou de veneração, como textos chatos, ou pesados, ou densos, ou intimidadores.

nada disso: era A Grande Conversa, uma baita fofocada entre pessoas geniais, ao longo dos séculos, se dando tapinhas nas costas, se alfinetando, se louvando, se atacando, tudo acontecendo bem ali, na minha sala.

o que poderia ser mais legal que isso?

* * *

para mim, na prática, participar da Grande Conversa era hoje eu ler euripides e, amanhã, aristófanes zoando de eurípides; hoje ler sobre a guerra de tróia, na ilíada, e amanhã, ler virgílio preenchendo a lacuna sobre a queda da cidade no segundo canto da eneida; hoje ler agostinho inventando a autobiografia e, amanhã, ler sterne completamente subvertendo-a, às gargalhadas, no livro mais pândego de todos os tempos.

declínio e queda do império romano, de gibbon, até hoje é meu segundo livro preferido — só perdendo para a bíblia, que é imbatível. descartes me ensinou a ser adulto — como eu conto na prisão verdade. até hoje, todos os meus textos argumentativos servem as lições que me ensinaram darwin e freud — que já seriam grandes escritores independente de suas grandes ideias. sinto um amor por eurípedes como se fosse um velho amigo — e, aliás, detesto aristófanes, seu desafeto. alguma obra literária pode ser mais perfeita que a ilíada? ela é mãe de todos os romances, contos, peças, blockbusters de hollywood, e ainda não conseguimos fazer melhor — nada tão duro, tão sangrento. agostinho, tomás de aquino e, em menor grau, até descartes me ensinaram o quanto a religião pode distorcer o pensamento até das pessoas mais brilhantes. leio tomás de aquino com admiração e desespero, pensando: meu deus, esse homem poderia ter colocado a humanidade da lua… se não estivesse tão preocupado discutindo literalmente o sexo dos anjos!

* * *

quando eu, criança ainda, 30 anos atrás, decidi que seria escritor, tudo o que eu queria, na verdade, era dar meu pitaco na Grande Conversa.

no começo, e durante muito tempo, e um pouco até hoje, esse desejo era fruto do mais enraizado narcisismo, daquela ideia egocêntrica de que temos um direito sagrado à auto-expressão, daquela ideia megalomaníaca de que minha auto-expressão estaria no mesmo nível da auto-expressão de um freud, de um cervantes, de um  tucídides.

aí, a idade veio chegando e o narcissismo começou a perder terreno para a gratidão.

antes, eu olhava para os grandes livros e pensava:

“um dia, minha auto-expressão estará ali.”

agora, eu olho para os grandes livros e penso:

“quanta gratidão por essas pessoas tão incríveis que trabalharam tão duro por todas as suas vidas, enfrentando dificuldades cotidianas que eu mal imagino, que nunca nem conceberam minha existência, mas que, mesmo assim, adicionaram tanto valor, tanta beleza, tanto conhecimento à minha vida!”

obrigado, obrigado!

* * *

poderia usar qualquer um desses autores como exemplo, mas uso lucrécio, autor do poema “da natureza“. lucrécio, que viveu antes mesmo do nascimento da pessoa que hoje usamos para marcar o tempo. lucrécio, que escreveu em uma época em que a minha língua ainda nem sonhava existir. lucrécio, esse homem que, quando eu estava perdido, procurando uma alternativa racional ao cristianismo, me deu todo um vocabulário e toda uma lógica para entender o universo.

minha dívida com lucrécio é impagável.

e não só com ele. sou grato a caio mêmio, a quem o poema é dedicado e que era provavelmente mecenas de lucrécio, por ter lhe dado as condições materiais para compor o texto que mudou a minha vida; a todas as pessoas anônimas que copiaram o texto, a mão, ao longo dos séculos; a poggio bracciolini, que reencontrou o manuscrito, depois de séculos perdido, em 1417; a todas as pessoas tradutoras, editoras, organizadores que prepararam o manuscrito para que eu pudesse lê-lo.

é literalmente incontável o número de pessoas que, ao longo de dois milênios, trabalhou duro, muitas vezes sem pagamento, para que, hoje, em 2015, o texto de lucrécio possa continuar mudando a minha vida.

(em “a virada — o nascimento do mundo moderno“, stephen greenblatt considera a redescoberta de “da natureza” por poggio como o marco inaugural da grande virada que marcaria o fim da idade média e o começo do renascimento.) 

* * *

em setembro e outubro de 2015, 30 novas pessoas se tornaram mecenas. as assinantes (que fazem contribuições mensais regulares) já são 190. e o número total de mecenas pela primeira vez superou 400.

e eu fiquei ali, atualizando a lista de mecenas, colocando novos nomes em meio àqueles velhos nomes, recordando as palavras do velho hutchins, e pensei:

minha grande conversa é com vocês.

* * *

muito, muito obrigado mesmo.

para também se tornar mecenas, clique aqui.

* * *

a imersão “as prisões” de finados já é no próximo fim de semana. é uma das coisas mais legais que já fiz. dessa vez, ainda temos bastante vagas. não deixe de vir por falta de grana. veja os detalhes e fale comigo.

conselho de carreira

hoje, uma jovem me pediu conselho de carreira.

só tenho um, dividido em três partes:

evite ao máximo trabalhar, para não ser tentada a consumir.

evite ao máximo consumir, para não precisar trabalhar.

evite ao máximo procriar, para não usar a prole como desculpa para vender sua alma ao mercado de trabalho e ao mundo de consumo, fazendo concessões que jamais faria por si mesma.

evitando essas três armadilhas, o mundo vai se abrir para você em infinitas possibilidades.

ou não.

na pior das hipóteses, sua vida vai ser muito mais simples.

evite trabalhar

o miojo não comido

os namorados felipe caffé, 19, e liana friedenbach, 16, mentiram aos pais que iriam acampar com amigos e foram passar o feriado de finados juntos, em um sítio abandonado. no domingo, foram dados como desaparecidos.

quando soube disso, até pensei: lá se vão romeu e julieta ganhar o mundo.

nada disso. seus corpos foram encontrados 10 dias depois. felipe foi morto com uma bala na nuca. liana levou quinze facadas, foi degolada e estuprada.

liana e felipe mentiram aos pais que iriam viajar com um grupo de amigos. ao invés disso, se encontraram em são paulo, dormiram ao relento e pegaram um ônibus na manhã do dia seguinte. saltaram em uma cidade próxima ao sítio onde acampariam e ali compraram mantimentos, miojo, biscoitos, água, leite em pó.

o que aconteceu depois ainda não se sabe. só sabemos com certeza que morreram. e morreram de forma terrível. foi estuprada? foram mortos pelo rapaz que está preso? ele matou mesmo só porque teve vontade? quantos dias ficaram prisioneiros? foram torturados? isso não sabemos ainda.

mas sabemos que a sacola de mantimentos foi encontrada no local do acampamento. tudo fechadinho. nada foi consumido.

fico pensando na viagem até o local, na alegria deles comprando aquelas coisas simples, já antecipando o fim de semana romântico que teriam, quem sabe daqueles fins de semana que mudam nossas vidas pra sempre, um abraçando o outro enquanto pagavam pelos biscoitos, naquela excitação tão pura, tão intensa da adolescência.

eu gostaria de acreditar que ambos pelo menos tiveram sua noite de amor antes da tragédia. mas os mantimentos fechados contam outra história. nem isso tiveram.

foi o miojo não comido, esquecido fechado sob o carramanchão, que me fez chorar.

* * *

texto escrito em 2003, no calor do momento. hoje, já sabemos com detalhes o que houve.

das duas, uma

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ou você admite que meritocracia é uma farsa e que vivemos em um país racista;

ou você admite que sinceramente, de verdade, do fundo do seu coração, você acha que as pessoas negras gostam mais de ser assassinadas do que de cursar faculdade.

* * *

imagem: “quadro negro” (2015), de estevão haeser.

porque eu não curto suas postagens no facebook

há muito tempo, quando ainda circulavam piadas e ppts por emails, eu tinha uma resposta pronta para quem me mandava essas coisas:

“querida pessoa, tenho interese em TUDO o que você tenha a me dizer e em NADA do que tenha a me encaminhar.”

ou seja, pode me mandar um email de vinte páginas falando dos seus problemas, mas não me repassa piada.

estou no facebook 100% a trabalho, só para divulgar meus textos: não faço posts pessoais, compartilho muito pouco da minha vida.

de fato, não curto posts de ninguém porque tenho o maior cuidado de nunca VER os posts de ninguém.

hoje, eu diria algo assim:

“querida pessoa, tenho interesse em TUDO o que você tenha a me dizer e em NADA do que tenha a compartilhar no facebook.”

meu telefone está no site. estou aberto à visitas. quase todo dia, pessoas que às vezes nem conheço me ligam, aparecem no fim da tarde, me contam suas vidas, choram, riem. e eu ouço, acolho, abraço.

isso é conexão humana.

ficar curtindo as postagens das “personas de facebook” que minhas pessoas amigas criaram, pelo contrário, é só alimentar o monstro que está nos devorando.

facebook ego

* * *

aí, alguém poderia perguntar:

“isso é egoísta e egocêntrico. você compartilha seus textos mas não quer ver as coisas de mais ninguém. por que então eu te curtiria ou compartilharia?”

e eu responderia:

“se você acha que não deve curtir nem compartilhar os meus textos, então, não faça isso.

se tem alguma coisa que você quer que eu veja, por que não manda diretamente para mim? pode mandar por email. pode ligar e me contar. pode aparecer aqui em casa.

TEM que ser pelo facebook?”

se vc nao paga vc é o produto facebook

* * *

para me ligar ou me visitar, confira minha página de contato. o melhor modo de acompanhar meus textos é pela newsletter, que estabelece um canal direto entre nós.

tudo o que você precisa saber sobre o capitalismo, em uma livraria

moro entre dois bairros cheios de livrarias, inclusive algumas muito badaladas e gigantescas, como a livraria da travessa de ipanema.

como não tenho internet em casa, quando quero um livro, eu ligo pra uma meia dúzia de livrarias e pergunto.

e, apesar de todas essas livrarias, é sempre uma pequena livraria na esquina da minha rua que tem tudo o que eu quero.

com um problema.

chego lá e o jardim das aflições, magnus opum do vilósofo olavo de carvalho, lançado quinze anos atrás, está permanentemente exposto em lugar de honra, como se tivesse sido lançado ontem por uma editora que pagou caro pelo espaço na vitrine.

além disso, a obra está sempre ladeada de escudeiros: o novo livro do constantino, a biografia do lobão, o último lançamento da três estrelas, todos exibidos com destaque.

mas aí, outro dia eu estava buscando por uns livros obscuros do paulo freire, sabe quem é?, aquele comunista que as pessoas do leblon fazem passeata contra?, e eles tinham uma estante inteira com dezenas de obras do paulo freire, obras que não tinham em nenhuma das outras livrarias pra-frentex do bairro.

(não em destaque como as obras do olavão, claaaaro, mas estavam lá.)

aí, semana passada, decidi reler foucault, que eu tinha lido em xerox, e, de novo, a única livraria do bairro que tinha todas as obras do foucault que eu estava procurando, sabe quem é?, o filósofo careca pervertido gay que a igreja impediu de virar cátedra na puc?, foi essa livraria olavete.

(ok, de novo, não em destaque, mas estavam todos lá – e são muitos.)

essa pequena livraria olavete em copacabana simboliza tudo o que o capitalismo tem de melhor e de pior:

ele é o único sistema cuja ganância é tamanha que incorpora, aceita e coopta até mesmo o discurso que prega a sua própria destruição – desde que possa lucrar com isso – tudo sob o manto de uma democracia de fachada – que sempre vai só até certo ponto, e olhe lá.

enfim, virei freguês.

minhas contas mensais

como eu vivo da generosidade das minhas mecenas, acho importante que minhas contas sejam abertas e públicas.

minha casa.

minha casa.

no momento, minha única renda fixa são r$800 que ganho por textos que publico na internet.

todas as outras entradas possíveis são irregulares, incertas e imprevisíveis: vendas de livros ou de encontros, contribuições das mecenas, alguma turista querer ficar no meu apartamento. em qualquer dado mês, elas podem facilmente não render nem um único real.

já as despesas fixas mensais são aproximadamente: r$350 de condomínio, r$150 de gás/luz/internet/telefone fixo, r$400 de mercado, r$100 de transporte.

tenho um plano de internet popular de r$29, mas só para hóspedes: quando não tem hóspede, uma amiga fica com o modem, para eu poder trabalhar sem distrações. o plano de telefone fixo também é popular, só r$22. no gás, pago o mínimo, r$29.

algumas pessoas não acreditam que minha conta de luz seja tão barata, mas meus únicos aparelhos elétricos de uso contínuo são um frigobar e um laptop. além disso, tenho uma lâmpada fria no teto e outra em uma luminária de leitura, que nunca ficam acesas por mais de duas, três horas por noite. sobram apenas o chuveiro elétrico e o ar condicionado, dois aparelhos sazonais utilizados poucos meses por ano.

o que mais encarecia minhas compras de mercado eram bebidas, carnes e artigos industrializados, três coisas que não compro mais. sem isso, é impressionante o quanto rendem compras de grãos, frutas, legumes, ovos.

os gastos de transporte são baixos, pois faço tudo a pé, pelo bairro.

troco de computador nos anos pares, cerca de r$1.500, e de óculos nos ímpares, cerca de r$1.000, as únicas duas compras que programo e parcelo no cartão de crédito.

anualmente, pago cerca de r$100 de iptu.

não pago aluguel pois tenho a felicidade de ter recebido um apartamento, de forma completamente inesperada, em 2011. mas eu não estaria pagando aluguel de qualquer jeito. se esse apartamento não tivesse caído do céu, eu estaria morando, em definitivo e de favor, com a minha leitora e quase-irmã sônia, que cuidava do oliver durante minhas viagens, que me hospeda quando aparecem turistas para passar uns dias no meu apartamento, que agora hospeda até a minha companheira, que largou o aluguel e foi morar com ela.

(segundo a sônia, a primeira versão da prisão dinheiro, publicada em 2008, mudou sua vida e ela se sente em dívida comigo. eu sempre digo que ela não me deve nada, claro, mas aceito graciosamente o mecenato.)

minhas despesas fixas são essas. o que preciso pra viver é isso.

todo o resto ou é luxo (“olha que linda essa nova edição de moby dick“) ou é emergência — recentemente, minha geladeira pifou e precisei comprar uma nova (r$700, à vista).

ou seja, com cerca de mil reais por mês, eu vivo e vivo bem, com todas as minhas necessidades básicas preenchidas. usando laptop, consumindo cultura, comendo orgânicos. morando sozinho. na inflacionada zona sul do rio de janeiro.

se morasse com a família ou com uma companheira, em uma cidade ou bairro mais barato, poderia me bastar por muito menos.

em uma emergência, ainda dá pra apertar mais o cinto e abaixar esse número: comer mais frugalmente, andar mais a pé, usar menos eletricidade.

mas e o resto?, você poderia perguntar. viver não é apenas sobreviver. e os prazeres da vida?

sexo é de graça. passear em um parque, nadar no oceano, ver o pôr do sol no arpoador, tudo de graça. livros, eu pego na biblioteca, leio os que já tenho, baixo em pdf. exercícios, faço em casa ou na praia. internet, uso em qualquer café, quiosque, shopping center. filmes, baixo pela internet. saúde, o estado fornece de graça, inclusive meus remédios de pressão e diabetes. arte, sempre tem peça, show, exposições gratuitas, ou quase.

(na verdade, sem ser explorador demais, dá até para comer todas as refeições na casa das pessoas amigas. henry miller, em sua fase mais pobre de autor marginal, fazia uma escala de almoço com dezenas de pessoas conhecidas. com um mínimo de quinze, que nem é tanta gente assim, já dá pra marcar de aparecer na casa de cada uma em, digamos, terças-feiras alternadas e, assim, manter o papo sempre em dia e não explorar demais nenhuma única pessoa. em troca, henry se comportava como o artista marginal divertido e interessante que esperavam que fosse. devia ser um excelente negócio para todas as pessoas envolvidas: eu com certeza alimentaria henry miller duas vezes por mês. aliás, quem quiser me convidar para jantar regularmente, eu aceito.)

não estou dizendo que essa vida é desejável ou detestável, bonita ou feia, digna ou indigna, nenhum adjetivo positivo ou negativo.

estou dizendo que é possível.

para mim, é uma grande tranquilidade saber que me sustento com mil reais.

então, se vivo e me mantenho com mil reais, sem me faltar nada de necessário, isso quer dizer que viveria muito bem (luxuosamente até) com dois mil.

na prática, esse é o número que uso. considero que minha despesa mensal é de dois mil reais e meu atual objetivo financeiro é nunca gastar mais que isso por mês.

sendo bem sincero, me sinto até rico. afinal, é o dobro dos meus gastos fixos. mil reais de lambuja.

dá pra comprar uma geladeira novinha, o imprevisto dos imprevistos, e ainda ficar dentro do orçamento. dá pra comprar aquele livro que não resisti. dá pra pegar um táxi no dia em que estou carregando peso e está chovendo. dá pra assistir peças em teatros da prefeitura, onde o ingresso nunca passa de vinte reais. dá pra sair com as amigas pra jantar no mexicano da esquina.

em suma, dá pra ser flexível na frugalidade.

o que sobra eu economizo.

porque artista mambembe de vida incerta precisa economizar cada centavo. porque ter dinheiro economizado no banco é uma das formas mais concretas de liberdade.

* * *

abaixo, um trechinho da já citada prisão dinheiro, pré-respondendo uma objeção comum que esse texto suscita.

* * *

“ah, alex, viver assim é muito fácil! na minha vida, não daria!”

ao ler um texto como esse, muitas pessoas leitoras sentem uma ânsia irrefreável de ou apontar que a vida delas é diferente da minha (“para quem trabalha fora de casa não dá pra só gastar cem reais de transporte”, etc) ou interpelar a minha vida pessoal (“sendo dono de imóvel é fácil!”, “duvido que gaste só cem reais de luz, água, telefone!”, etc).

mas esse texto não é sobre a minha vida. a minha vida está apenas sendo utilizada como exemplo porque é a vida de quem escreveu o texto. naturalmente, os exemplos específicos da minha vida não vão se aplicar às vidas das pessoas leitoras.

hoje, em 2015, sou dono de imóvel. mas não era quando esse texto foi originalmente publicado em 2008, e muito menos nas duas vezes em que quebrei antes disso. em 2004, por exemplo, eu e minha esposa pagávamos r$600 por um quarto e sala em jacarepaguá, subúrbio do rio. em 2008, já sozinho, pagava trezentos e cinquenta dólares por um quarto em uma república de estudantes em nova orleans. o fato de eu ser dono ou não de um imóvel, hoje ou ontem, faz muito pouca diferença para a mensagem geral do texto.

o objetivo desse texto não é demonstrar que só dá para viver assim quem tem uma vida idêntica à minha ou que a minha vida é o máximo e todas devem me imitar. (que texto idiota seria esse!)

o objetivo desse texto é, através dos exemplos da minha vida, tão única e singular quanto a de qualquer pessoa, transmitir um novo jeito de pensar nossas despesas e nosso consumo, nossas necessidades e nossos prazeres, para que então cada um de nós possa decidir por conta própria o que quer fazer de nossas vidas tão únicas e tão singulares.

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o texto acima faz parte da prisão dinheiro, onde esses temas são explorados mais à fundo.

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