polisingularidade

o filme ela, de spike jonze, é sobre um homem que se apaixona por um sistema operacional. lá pelo fim, ele fica inseguro e pergunta com quantas pessoas ela está falando naquele exato momento.

“oito mil trezentas e dezesseis”, responde ela.

a próxima pergunta é inevitável: “e você está apaixonada por alguma outra pessoa?”

“seiscentas e quarenta uma”, e ela ainda acrescenta, “mas isso não muda nada nos meus sentimentos, não influencia no quanto estou loucamente apaixonada por você!”

“então, você não é minha”, ele diz.

“eu sou sua”, ela responde, “e também não sou sua.”

agora ficou ESTRANHO!

naturalmente, ele dá um piti. o cara estava de boa em “namorar” e fazer sexo virtual com um software incorpóreo que era basicamente sua escrava e sua stalker. mas se ela (que é um pedaço de código, vamos lembrar) está apaixonada por outras seiscentas pessoas, opa, peralá, agora ficou estranho!

o que é a singularidade // meu texto sobre poliamor: a monogamia é uma prisão // minhas próximas oficinas “prisão monogamia”.

é com uma alegria tão profunda

acabei de reler a hora da estrela. talvez pela quinta ou sexta vez.

sim.

* * *

um dia, eu morei no exterior, como clarice também e machado nunca, e ensinei português e literatura brasileira, e tive a honra e o prazer e o privilégio de fazer com que algumas dezenas de estrangeiros lessem dom casmurro e a hora da estrela, e sei que esse karma positivo será sempre meu, e, sejamos francos, se você é um estrangeiro e já leu dom casmurro e a hora da estrela, já conheceu o que temos de melhor a oferecer, pode seguir viagem, pode ir ler kafka e tchecov, conrad e hugo.

como podem dois romances serem tão insuportavelmente perfeitos? mesmo entre os grandes mestres, kafka era um inconcluso, conrad se perdia, hugo era piegas. posso até imaginar algumas correções a fazer em memórias póstumas de brás cubas e em paixão segundo g.h., mas em dom casmurro e a hora da estrela não sobra nada, não falta nada. como conseguiram? (para não ser injusto, um artista da fome e os grandes contos e peças de tchecov também são intoleravelmente perfeitos.)

às vezes, não sei onde termina meu amor por clarice e hora da estrela, por machado e dom casmurro, e onde começa meu amor pelo rio de janeiro.

amo o rio de janeiro por ser o contexto cultural desses dois romances gigantescos, cósmicos, humanos? amo esses romances por serem tão quintessencialmente cariocas, em tudo o que temos de mais lindo e mais mesquinho?

uma cidade que tenha nos dado a hora da estrela e dom casmurro é uma cidade que já está no mapa da literatura humana, uma cidade que já cumpriu sua obrigação, uma cidade que já disse: “eu existo”.

talvez tenhamos fundado essa cidade nessa baía (não é uma hipótese descabida) só para que, um dia, pudessem existir dom casmurro e a hora da estrela.

posso imaginar, milênios e milênios no futuro, quando a língua portuguesa já estiver extinta, quando esse chão que me viu nascer já estiver abandonado, submerso, esquecido, talvez em outros planetas onde continuem existindo homo sapiens, pessoas vão ler dom casmurro e a hora da estrela, e talvez nem lembrem mais em que língua foram escritos, talvez sejam lidos em traduções das traduções para línguas que ainda nem existam, e pessoas que ainda não nasceram vão ler sobre macabéa morando na rua do acre e trabalhando na rua do lavradio, sobre capitu passando a lua-de-mel na tijuca e escobar morrendo afogado na praia de botafogo, e vão chorar e se emocionar, como eu chorei hoje e me emocionei hoje, e vão saber que um dia existiu um lugar chamado rio de janeiro, onde pessoas choravam e se emocionavam, assim como a dublin de joyce & a buenos aires de borges não vão desaparecer jamais.

e, apesar disso, existimos, e foi tão tudo tão real e concreto, e houve um dia, um dia real, em technicolor, um dia que um dia foi um dia ao vivo, em que uma mulher chamada clarice, judia e nordestina, foi à feira de são cristóvão com sua amiga olga, onde ela ia para comer comidas que lembravam sua infância no recife, e a feira ainda está lá, e essa mulher viu de relance uma moça nordestina e, no mesmo instante, tão real era a clarice, meu deus!, ela largou tudo, sentou num banco e escreveu, ali mesmo, enquanto comia beijus com rapadura, cinco páginas de notas, e eu posso ver isso também, clarice, com as mãos gordurosas da manteiga do beiju, criando macabéa em um banco na feira dos paraíbas, e é lindo.

houve uma época em que não existia a hora da estrela, até que clarice disse: sim.

* * *

todo artista precisa travar uma batalha de morte com seus antecessores. não faz sentido sentar para produzir literatura se não for para fazer melhor do que clarice e machado.

mas como?

é preciso pelo menos tentar. se você não se propõe tentar, então, não vale a pena nem começar. melhor ir vender seguros e ser apenas um bom leitor. borges já dizia que a literatura precisa de mais leitores que escritores. e estava certo.

o artista não tem como produzir arte comportando-se como tiete boquiaberta dos titãs.

os titãs precisam ser mortos a cada geração.

fernando pessoa dizia que só conseguiu encontrar sua voz de poeta depois de travar luta de morte contra walt whitman.

whitman é infinitamente melhor do que pessoa. nada que pessoa escreveu chega aos pés de song of myself. mas isso não é demérito algum. poucas coisas jamais escritas chegaram aos pés de song of myself. o que importa é que pessoa lutou o bom combate até o fim.

todo dia, eu acordo, ligo o computador e travo minha própria luta de morte contra clarice lispector.

às vezes, releio a hora da estrela só para fazer um reconhecimento do campo de batalha, para ver contra quem estou lutando, para conferir o tamanho do exército inimigo.

então, um contra um milhão, eu avanço de lança em punho contra as hordas clariceanas, sem esperança alguma de triunfar.

* * *

se você ainda não leu algum desses dois livros, por favor, pare tudo e leia agora. são curtos, menos de cem páginas cada um, fáceis de encontrar, baratos. você lê na internet ou encontra em qualquer sebo pelo preço de um café. o investimento de tempo e de dinheiro é baixíssimo. em um domingo, você lê os dois.

leia. e, se ler por minha causa, me conte. karma bom nunca é demais.

eu não sou ninguém

um grupo de estudantes pediu para me entrevistar e, logo na primeira pergunta, tascaram:

“quem é alex castro?”

“ninguém,” respondi.

era a única resposta verdadeira possível.

mais tarde, na apresentação à entrevista, eles escreveram:

“segundo ele mesmo, ninguém. alex castro, como definido em seu site pessoal, é “alex castro por enquanto. em breve, nem isso.” esse desapego ao ego revela uma face muito importante para sua literatura: O mundo a sua volta é muito mais interessante para ele do que o nosso mundo para nós que temos o costume de olhar o umbigo.”

a entrevista completa.

* * *

alex castro é comum

um moço que foi no primeiro encontro “as prisões” de curitiba me elogiou… por ser tão banal!

nas palavras dele:

“acho que é normal, quando a gente conhece alguém à distância que fala abertamente sobre nossos ideais mais profundos, aquilo que passamos a vida perseguindo, conferir a essa pessoa uma certa figura de autoridade. junto com isso, criamos uma série de expectativas sobre ela, sobre como ela deve ser sensacional, como sua presença deve ser marcante, como a mera possibilidade de ouvi-la ou tocá-la deve ser como uma pequena bênção…

inevitavelmente, levei essas expectativas comigo quando conheci o alex na apresentação da palestra as prisões, em curitiba, no último agosto. mas a pessoa que eu conheci não correspondia em nada à imagem que eu inventei dela. ele não tinha nada daquilo que estamos acostumados a imaginar numa pessoa que julgamos ser especial. ele não mostrou um sorriso hipnotizante, ele não usou de uma retórica refinada, ele não portou trajes de conotação hierárquica, ele não vendeu uma fórmula mágica. ele não era um super-homem, um profeta, um ser que irradiava qualquer tipo de energia transformadora. ele era um cara comum.

mas foi aí que eu me senti realmente tocado. se um cara comum como o alex pode ser uma pessoa tão sensível, tão empática, tão aberta, por que eu, outro cara comum, não posso? Se ele não é melhor do que eu, o que me impede, se não minha própria preguiça, de buscar ser uma pessoa mais amiga, mais acolhedora, mais humana?

obrigado, alex, por ter me motivado – mais do que isso, me desafiado – através de sua mais absoluta normalidade.”

* * *

alex castro é normal

uma moça que foi a um encontro “as prisões” no rio percebeu que as coisas mais legais nos eventos são justamente as que não sou eu que falo:

“‘você só sente a correnteza quando nada contra ela’, foi uma das pérolas do dia. soltada pelo alex? não. mesmo sendo tão foda e incrível, não é alex que reina nas prisões. ele abre espaço pra tudo o que você sinta vontade de contar, e vai guiando a “palestra” (veja os outros depoimentos, todos concordam que é muito mais pra um debate), sobrepondo seu ponto de vista sobre cada prisão em cima das histórias de quem foi lá. cheguei meio incerta, sem saber o que esperar. mas é assim mesmo. você chega devagarinho e em meia hora já se sente, de alguma forma, em casa. não pelo lugar onde está, mas pelas pessoas que te cercam. que falam, ouvem (ouvem mesmo), respondem. o alex merece tudo por proporcionar esse encontro. mas não tem como eu te fazer entender como é. você precisa ver, falar e ouvir por si próprio.”

* * *

alex castro é narciso

quando eu era mais jovem, eu me achava especial. que tinha um destino. que realizaria grandes feitos.

os anos passaram, a vida aconteceu, e me dei conta que eu era apenas mais um bichinho sem alma, nessa pedra girando pelo espaço, sem nada que me distinguisse.

entretanto, em nossa época narcisista, cercado de pessoas que se acham a última coca-cola do deserto, cada um protagonista do filme da sua vida, todos brigando por mais amigos no facebook, me dei conta que nada pode ser mais especial do que alguém que sabe sinceramente que é apenas mais um.

* * *

alex castro não importa

eu não importo. eu sou normal. eu sou banal. eu não sou ninguém.

meu mérito é estar cercado por vocês.

estou aqui para ser um conduite das suas histórias.

viver cercado de pessoas interessantes

em meu último texto no papodehomem, “a solidão de narciso“, alguém me perguntou:

“Alex, você faz propaganda das suas palestras. E penso eu que esse espaço aqui no PdH [a caixa de comentários] simule, com certa proporção, o que ocorre nelas. Ou seja, você introduz um assunto e há espaço para posterior discussão. Mas agora vai a minha pergunta: se você não participa nos comentários dos seus textos, como é a dinâmica das suas palestras? Você declama seu discursos e então vira as costas e vai embora? E daí outras pessoas fazem o papel de discutir com a platéia?”

e respondi:

olá. não pude responder antes, pois estava na palestra “as prisões” do rio.

(aliás, “palestra” é um nome que eu dou por falta de nome melhor, é mais uma grande conversa.)

pra você ter uma ideia, ontem, começamos às 13h e as pessoas participantes ficaram se apresentando e compartilhando suas histórias de vida até às 18:15. só então eu comecei de fato a, digamos, palestrar, o que foi só até às 19:30h.

(não faz sentido eu “falar” muito: tudo o que tenho a dizer já está nos textos que publico gratuitamente na internet, textos esses que a maioria das pessoas participantes inclusive já leu.)

depois disso, algumas pessoas ainda foram lá pra casa e ficamos conversando e tomando vinho até cerca de meia noite. e aí é que surgiram as melhores e mais interessantes confidências e histórias de vida.

eu ganho muito pouco (ontem, foram quase 60% de gratuidades e, dos pagantes, poucos pagaram o preço cheio) mas vale muito a pena. estou conhecendo algumas das pessoas mais interessantes e bonitas do brasil e tendo a oportunidade de ouvir suas histórias e aprender com elas. isso não tem preço.

depois que saíram as últimas pessoas, a Outra Significativa (minha companheira) virou pra mim e disse que, antigamente, quando saía com os “amigos” (e fez aspas com as mãos), ela sempre acabava, em algum momento da noite, depois do vigésimo comentário elitista, machista, racista, etc, se perguntando, “caralho, o que é que estou fazendo aqui!” e que agora ela nunca mais sente isso.

e nem eu.

* * *

para quem tiver curiosidade, na minha página “depoimentos“, tem várias opiniões de pessoas participantes das minhas palestras e oficinas. por acaso, o primeiro depoimento, na primeira linha, já diz:

“dizer palestra dá a impressão de que se fica lá 7 horas sentado ouvindo alguém falar ininterruptamente. não é isso o que acontece nas prisões. é um dia inteiro de conversa, troca de experiência, quebra de valores, sacudida nas certezas, risadas etc. sem contar que tem várias paradas pra lanche durante a palestra e dá pra conhecer todo mundo um pouco melhor. rs uma das coisas que eu achei mais fantásticas na experiência das prisões é que no fim, todo mundo que está ali se sente, de uma forma ou de outra, a ovelha negra, o diferente, o do contra… e acaba sendo uma experiência totalmente acolhedora encontrar tanta gente parecida. você percebe que não é estranho. ou pelo menos que não é o único estranho. não é um life coaching. não se descobre a verdade absoluta sobre a vida e o mundo. mas mexe com a gente. tive a oportunidade de participar de duas e posso dizer que cada palestra é única. a experiência põe seu mundo de cabeça para baixo, mas abre portas e te mostra caminhos. voltarei sempre que tiver a chance. recomendo para todos. é lindo.”

* * *

durante um tempo, eu não li nem respondi os comentários do papodehomem, por achar que é um ambiente bem tóxico e agressivo. aliás, ainda acho. agora, a pedidos do guilherme, o editor-chefe do site, voltei a ler os comentários e vou responder aqueles que eu achar que foram feitos de forma educada e polida, e que eu tenha algo positivo e produtivo a acrescentar na resposta.

ovelhas negras

não tenho nada a ensinar. não sou mestre, não sou guru, não sou coach.

o pouco que tenho a dizer eu já disse nos meus textos, todos disponíveis de graça na internet. (aliás, nas minhas palestras e oficinas, paga quem quer, paga quem pode.)

não tenho nenhum conhecimento para transmitir de cima para baixo, do “mestre” aos “discípulos”, de alguém-que-sabe aos que-não-sabem. (eu também não sei!)

pelo contrário: ofereço apenas um espaço para os iguais se encontrarem.

o meu público são as ovelhas negras. aquelas pessoas sempre um pouco deslocadas, algo incompreendidas, carentes de interlocutores.

disse um participante:

“acho que é a primeira vez na vida em que estou em um grupo de pessoas e ninguém acha que eu sou excêntrico.”

os eventos são para aprendermos a ser melhores ovelhas negras.

os livros que mais me marcaram

não necessariamente os livros que gosto mais. ou mesmo os livros que admiro.

mas os livros que mais me marcaram mesmo, que mudaram meu jeito de ser, de pensar, de escrever, de contar histórias, de ler.

biblia
declinio e queda do império romano, gibbon
agua viva, lispector
a hora da estrela, lispector
memórias de um caçador, turgeniev
folhas de relva, whitman
walden, thoreau
lord jim, conrad
os miseráveis, hugo
ficções, borges
cecilia valdés, villaverde
manual dos inquisidores, antunes
os trópicos, miller

* * *

ninguém lê do mesmo jeito depois de ler ficções. água viva e manual dos inquisidores me ensinaram que eu podia fazer muito mais com a língua portuguesa do que imaginava possível. a bíblia e gibbon me ensinaram tudo o que sei sobre a arte de contar histórias. os trópicos e folhas de relva me ensinaram um amor pela vida além de todas as fronteiras e de toda a lógica. walden e lord jim me ensinaram, pelo contrário, um certo autocontrole e uma sobriedade que são tão importantes quanto. cecília valdés me mostrou como os horrores da escravidão podem virar grande literatura. hora da estrela, miseráveis e memórias do caçador me ensinaram como escrever e como abordar as histórias das pessoas humildes e marginalizadas.

* * *

não entraram na lista meus dois autores preferidos, que me marcaram pela enormidade da obra e não por nenhum livro específico: tchecov e kafka.

* * *

meus autores preferidos.

do pudor

antigamente, na minha casa, as camisinhas e o ky ficavam na gaveta do banheiro.

na verdade, ficavam indo-e-vindo: em dias de sexo espontâneo, perdia-se um tempo precioso naquela corridinha besta cama-banheiro. e pra quê?

praticamente não tenho móveis. muito menos criado-mudo. em breve, as camisinhas e o ky foram passando tanto tempo ali no chão ao lado da cama que esse acabou sendo consagrado como seu lugar.

no começo, sempre que recebia visitas, me batia uma lufada de pudor. eu pensava: guardo tudo?

mas, logo depois, eu mesmo me desafiava: pra quê?

transar não é nem feio nem proibido, nem anti-ético nem nojento. os objetos não estão bagunçados, largados, babados. pelo contrário, o ky está de pé e as camisinhas, cuidadosamente empilhadas. ao lado, uma caneta, marcadores de página, um ou dois livros.

que tipo de pessoa poderia se sentir incomodada ou ofendida de ver um ky e algumas camisinhas? certamente, não o tipo de pessoa que eu gostaria de receber.

em minha casa, sempre estiveram à mostra as marcas de que fumo (cinzeiro na janela) e de que cago (papel higiênico no banheiro), de que como (garfos e talheres) e de que cozinho (panelas e frigideiras).

agora, também as marcas de que transo.

* * *

pós-escrito

quando foi publicado pela primeira vez, esse texto causou muita polêmica e diversas manifestações de ódio. li e reli o texto. não encontrei nada de errado nele. pelo contrário, o assunto do texto é JUSTAMENTE essa resposta extremada e raivosa: por que o sexo é tão tabu? por que podemos deixar à mostra os objetos que usamos, por exemplo, para fumar mas não para transar? por que até mesmo falar nisso já desperta tanta raiva, tanto ódio, tanta ojeriza? afinal, por que o sexo (especialmente o sexo praticado pelo Outro) ofende tanto? se o texto levantou essas questões, então cumpriu o seu papel.

“e a violência contra os homens?”

quando falo dos números da violência contra a mulher, uma objeção frequente dos homens é:

“mas iuzomi? os homens morrem muito mais vítimas da violência que as mulheres!”

sim, em números absolutos, os homens são a maioria das vítimas de homicídio. a diferença é que quem está matando os homens são os próprios homens.

quando uma mulher sofre uma violência, o agressor é geralmente homem. quando um homem sofre uma violência, o agressor quase sempre é um homem.

com uma grande diferença: as violências que sofrem as mulheres geralmente são por ser mulheres. as violências que sofrem os homens nunca são por serem homens mas sim por serem homens pobres, por serem homens negros, por serem homens homossexuais, por serem homens trans.

o fato de os homens serem a maior parte das vítimas da violência não quer dizer que a violência não é machista.

quer dizer que, além de machista, ela é classista, racista, homofóbica, transfóbica.

enfim, outrofóbica.

elogio ao ócio

elogio ao ócio

PORQUE NÃO USO MAIÚSCULAS AO ESCREVER.

porque me parece feio.

porque é menos um elemento gráfico atulhando minhas palavras.

porque Acho que Não fica estético na frase Aquelas letras de rePente mais altAs que As outras.

porque a pontuação já é suficiente para marcar que a frase anterior acabou e me parece redundante um outro elemento adicional para marcar o início da frase seguinte.

porque o contexto já sempre indica o que é nome próprio e o que não é.

porque o trabalho de ficar colocando isso e aquilo em maiúsculas, e de aprender o que vai em maiúsculas e o que não, não me parece que compensa o valor adicionado reduzido que esse elemento traz ao texto.

porque o uso convencionado desse elemento já se perdeu mesmo e as Pessoas hoje colocam em maiúsculas o que lhes dá na Telha, de forma aleatória, só para dar Ênfase.

na verdade, a única coisa que as maiúsculas comunicam hoje são as prioridades de quem escreve: em texto de economista, Economia sempre vai em maiúscula; de fotógrafo, Fotografia, e assim por diante.

mas o motivo principal é que me parece que maiúsculas não adicionam nada.

escrevo na ortografia convencionada, uso vírgula e ponto e vírgula, etc etc, porque tudo isso ajuda na compreensão da frase e na transmissão da mensagem.

uso carinhas felizes [:)] porque elas adicionam conteúdo importante e, um dia, sei que vão virar um elemento tão “canônico” quanto ponto de exclamação.

mas não vejo valor adicionado ou vantagem alguma em encher meus textos de maiúsculas.

acreditar no amor

a Outra Significativa não acredita em amor.

para ela, anarco-poliamorosa-sem-vergonha, o amor é um engodo que nossa sociedade heterocapitalista inventou para nos prender em casamentos monogâmicos possessivos, para nos fazer procriar criancinhas que logo vão virar consumidoras, para vender comédias românticas insossas que não passam no teste bechdel.

e eu, bem, também sou um anarco-poliamoroso-sem-vergonha e concordo.

mas acho que podemos ressignificar tudo, inclusive o amor. especialmente o amor.

* * *

um dia, faz dez anos, casei.

muito tempo depois, quando soube que o meu casamento era aberto, uma amiga que me conhecia bem exclamou:

ah, agora entendi. não é que você passou a ser a favor do casamento. você só mudou a SUA definição de casamento!

* * *

não é que eu “acredito” em amor.

“acreditar” dá a entender que o amor é uma coisa ali externa, que existe fora de nós, que podemos escolher acreditar ou negar. como se fosse um objeto. pior, um produto.

pra mim, amor é, um dia, de repente, encontrar uma pessoa e gostar dela.

e, mesmo sem laços possessivos ou comprometidos, no dia seguinte, você quer ver aquela pessoa de novo.

pois te parece que ela é o tipo de pessoa interessante que fala coisas interessantes e anda com outras pessoas interessantes e que vai fazer coisas interessantes, e você quer estar por perto pra participar disso.

e assim os dias vão passando. e viram meses e viram semanas e viram anos. e aquela pessoa continua sempre interessante e você continua interessado nas coisas interessantes que ela vai dizer e que ela vai fazer.

e, mais ainda, todos continuam livres, livres para também encontrar e ouvir e conviver e amar outras pessoas interessantes, pessoas que adicionam conteúdo e valor a nossas vidas, pessoas que vão constituindo uma rede admirável de pessoas interessantes que orbitam umas às outras.

e, todo dia, zera tudo. todo dia, a escolha é refeita. todo dia, podemos decidir que, finalmente, deu. que aquela pessoa já contribuiu tudo o que poderia contribuir. que não vai mais dizer ou fazer coisas interessantes. ou que não temos mais interesse nas futuras coisas interessantes que ela pode dizer ou fazer. e ninguém seria canalha por isso.

mas, olha, sei não.

acho que a Outra Significativa vai fazer e dizer coisas ainda mais interessantes e incríveis em 2014.

então, por enquanto, vou ficando.

* * *

sim, o amor pode ser heterocapitalista monogâmico careta possessivo. aliás, quase sempre é.

mas não precisa ser.

eu não “acredito” em amor: eu escolho construir e inventar o amor como eu acho que ele deve ser.

* * *

em 2013, cancelei minha internet, abandonei celular e saí do msn, facebook, twitter. (o facebook e o twitter ainda existem, mas não são administrados por mim e não tenho acesso a eles.)

resultado: muitas pessoas que pareciam próximas simplesmente sumiram. não era amizade: você só era conveniente de conversar porque estava ali online. nada de mal nisso. fico feliz de ter podido ajudar enquanto foi possível.

mas, por outro lado, a falta das redes sociais te joga de novo nos braços das pessoas de carne e osso. daquelas dez ou quinze pessoas cuja presença concreta já basta para fazer da sua vida plena, interessante, bonita.

* * *

nessa reta final de 2013, muito obrigado à Outra Significativa por ser a melhor companheira que uma pessoa poderia desejar. admirável, fodona, generosa, aberta. interessante.

obrigado também a todos os seres incríveis que passaram por minha vida. que me fizeram uma pessoa melhor. que me ajudaram, que me acolheram, que me estimularam. que compartilharam suas vidas, suas intimidades, seus beijos, seus problemas comigo. que me possibilitaram:

heloísa, paula, ricardo, leonardo, cariocas que admiro muito e que nunca vejo tanto quanto gostaria. alessandro, camila, fernando, biajoni, isabel, katy, pessoas queridas de fora que eu gostaria de ter mais à mão. ana luiza e julia, que se afastaram mas de quem morro de saudades todo dia. diane, melhor ex-esposa possível e imaginária. renata, fernanda, antonio, carlos, meus amigos mais antigos. sônia e flávia, minhas irmãs queridas, que me acolhem mais do que ninguém. oliver, claro.

e a todos os seres incríveis que ainda não tive a chance de conhecer tão bem quanto gostaria e que, quem sabe, farão parte da minha vida em 2014.

obrigado.

vamos derrubar tudo?

o desabafo da moça do crachá

em um belo dia de sol, minha vida bonita e organizada, meu emprego seguro e minha esposinha mais segura ainda, decidi ir ao shopping center e me fazer um agrado. “eu mereço!”, falei para mim mesmo.

confiando em um logotipo tradicional que conhecia desde a infância, entrei em uma loja, caminhei até uma das associadas, li e memorizei o conteúdo do crachá que ela trazia no peito, e, feliz comigo mesmo por ser o tipo de gente que chama as pessoas humildes pelo nome, sorri o meu sorriso mais caloroso e disse:

“oi, pri, tudo bem?”

antes, porém, que eu pudesse emendar o meu pedido, pri me interrompeu e começou:

“o senhor se acha o gostosão, né? só por falar comigo como se eu fosse gente, só por reconhecer minha humanidade, só por invocar meu nome como se ele fosse uma simpatia para garantir o seu perfeito atendimento de acordo com os padrões internacionais da nossa veneranda empresa, cujas franquias são sempre idênticas, seja em paris, pequim ou pirinópolis do mato dentro, uma vitória da logística padronizada do capitalismo ocidental!

“mas, me diga, sinhôzinho: de que me adianta esse meu apelido carinhoso em seus lábios de completo estranho? o senhor acha que está me fazendo algum bem? que existe algum mérito nisso? que o meu nome te inocenta?

“o senhor acha que essa fórmula invocatória me ajuda a conseguir quem tome conta da minha filha enquanto estou aqui no turno da madrugada, sacrificando minha saúde e minha vida pessoal, tentando ganhar alguns trocados a mais no fim do mês? o senhor acha que esse seu sorriso, tão bonito e tão perfeito, de quem teve condições financeiras de usar aparelho ortodôntico desde os dez aninhos de idade, vai me ajudar a pagar o aluguel do meu quarto, que já está atrasado e, aliás, vai aumentar, na verdade, dobrar mês que vem, porque, sabe como é, disse a proprietária, esse é meu único imóvel, vivo disso, minha filha, negócios são negócios, tem a copa vindo aí, sabe?, e ela é tão boa e tão simpática, me oferece pedaço de bolo e tudo, mas em fevereiro minha filha e eu não temos mais onde morar e nem ninguém para nos oferecer um mísero pedaço de bolo solado. (quando o bolo fica bom, ela não oferece.)

“enquanto isso, o senhor aí dizendo “pri” com um sorriso caloroso nesse rosto tão bem alimentado e satisfeito. tão feliz.

“e o que uma pessoa tão boa como o senhor está fazendo aí de pé na minha frente? o que poderia trazer um indivíduo tão generoso a uma instituição tão canalha e predatória quanto essa nossa empresa iso um milhão, presente em quinhentos e três países, gerando nove bilhões de empregos diretos e indiretos? será que o senhor não sabe que o nosso respeitável e bem-sucedido conglomerado internacional destrói todos os pequenos negócios a sua volta? que nossos funcionários, perdão, associados, ganham pouco, muito pouco, no limite ali do que a lei permite, só para evitar os incômodos benefícios trabalhistas? que essa empresa pilar do mundo corporativo trata os seus próprios fornecedores como uma verdadeira máfia, usando seu poder econômico para comprar mais e mais barato, às vezes quase a preço de custo, sem se preocupar com quantos pequenos produtores ela leva à falência? (afinal, sempre vai haver um fluxo infindável de empresas-lemingues querendo doar sua produção quase gratuitamente para a glória do nosso gigantesco império multinacional!)

“será que o senhor não sabe que os nossos preços à vista são de fato muito baixos mas só porque a maioria dos nossos clientes, de baixo poder aquisitivo, não compra nunca à vista e que a empresa ganha mesmo seus lucros abusivos e descarados cometendo os planos de parcelamento mais cruéis, enganadores e perversos jamais perpetrados por uma pessoa jurídica? que nos seus relatórios de fim de ano aos gordos e prósperos acionistas, nossos eficientes executivos, todos religiosos e atuantes em suas igrejas, se orgulham de vender uma geladeira pelo preço de três justamente aos consumidores mais pobres e indefesos que nunca conseguiram aprender matemática em nossas péssimas escolas públicas? e tudo isso, pasmem!, estritamente dentro da lei, da lei democraticamente produzida pelos políticos que o senhor democraticamente elegeu, políticos que receberam valiosas doações de campanha do nosso glorioso conglomerado cósmico, uma das empresas que mais doa para manter bem-lubrificadas as engrenagens democráticas desse nossa pátria amada e idolatrada, salve salve!

“mas, mesmo assim, quem diria, aqui está o senhor, uma pessoa tão boa e tão generosa, dizendo “pri” com um sorriso agora amarelo nessa cara cada vez mais vermelha e ainda esperando ser atendido. afinal, para economizar vinte reais no preço do seu microondas, vale a pena ser cúmplice de tudo isso, não? o que conta é a sua economia pessoal. tem que levar vantagem em tudo, certo? tem que pesquisar, tem que comparar. oferta e demanda, as belezas do capitalismo, a mão invisível da economia de mercado, trá-lá-lá. o senhor não é responsável pelos crimes e faltas dessa empresa que suas compras financiam. por favor! o senhor é inocente, claro! o senhor pessoalmente não fez nada de mal pra ninguém, não é? quantos fornecedores o senhor pessoalmente levou à falência? nenhum! quantos funcionários o senhor pessoalmente demitiu por ficarem tempo demais no banheiro? nenhum, claro! o senhor só quer o melhor negócio, o melhor preço, não é isso? quem poderia culpar o senhor? não é o que todo mundo faz? não é essa a norma, a regra? não foi o que nos ensinaram? por favor! não sejamos radicais, não é?

“o senhor pode até dizer (se não achar que essa defesa está muito gasta pelo excesso de uso) que estava só cumprindo ordens: as ordens das nossas onipresentes e multimilionárias campanhas de publicidade, em muros, ônibus, cartazes, tevê e filmes; com fotos completamente impossíveis dos nossos hambúrgueres (que nunca são tão bonitos assim!); com campanhas que associam nosso xarope gaseificado a pessoas lindas e magras que jamais seriam magras assim se realmente consumissem nossa bebida hiper-açucarada; com anúncios estrelados por celebridades ricas demais para jamais consumir um produto popular e mal-feito como o nosso; com slogans neurolinguisticamente elaborados para ecoar sem piedade e sem salvação dentro do seu crânio, te mandando comprar comprar comprar, curtir curtir curtir, economizar economizar economizar. coitado do senhor! nunca teve chance, né? ó dó. não é culpa sua, buana.

“pena que é sim. tudo culpa sua. eu, aqui, agora, pelos poderes concedidos a mim por essa hipertrofiada corporação multi-continental, convoco toda a culpa do universo e a deposito solenemente nos seus ombros. a culpa é toda sua, do senhor mesmo, aí dizendo “pri” com esse sorriso cada vez mais murcho.

“tenho nojo do meu nome nos seus lábios, paxá. tenho nojo de ser alvo de uma manipulação tão barata, tão óbvia, tão hipócrita. o senhor sabe por que estou usando um crachá com o meu nome? porque pesquisas de mercado lá da metrópole demonstraram que saber o nome da criadagem, ops, dos associados, faz com que os amos, ops, os consumidores se sintam entrando na casa de uma pessoa que conhecem. afinal, ninguém nunca vai na casa de alguém sem saber seu nome! o objetivo do crachá é fazer com que os clientes se sintam acolhidos e bem recebidos, e assim comprem mais, voltem numerosas vezes, tenham uma experiência melhor na loja, e gerem lucros, lucros, lucros. (se meu gerente achasse que ganharia um centavo a mais em seu bônus anual arrancando meu coração do peito ainda batendo, já teria feito isso na primeira oportunidade, seguro de contar com o entusiástico apoio da direção e dos acionistas.)

“o objetivo do meu nome no meu crachá nunca é e nem nunca foi reconhecer minha própria humanidade e subjetividade. rá rá, perdão, sahib, me engasguei de rir. se o engenho de fato reconhecesse minha individualidade de pessoa humana, então meu capataz, ops, meu gerente me trataria como se eu fosse gente e se dignaria a conversar comigo quando precisasse falar com ele; eu receberia duas horas a mais de trabalho por semana só para me qualificar pra uma série de benefícios trabalhistas que me fazem muita falta; minhas horas-extras seriam pagas em dia ou mesmo, rá rá, perdão de novo, simplesmente pagas; eu não seria tratada como uma engrenagem intercambiável que pode ser a qualquer momento substituída por outra engrenagem que faria rigorosamente a mesma coisa e ninguém perceberia a diferença.

“mas o meu nomezinho no meu crachazinho não é só para melhorar a experiência dos donos, ops, dos consumidores. aliás, adoro essa palavra: experiência. sempre penso que, nessa experiência, o único lugar que me cabe é o de beagle torturada e dissecada, sem ninguém para invadir o laboratório e me libertar. (não devo ser fofa o suficiente para valer o esforço!) mas estou divergindo, sinhôzinho, perdão.

“as mesmas pesquisas de mercado também indicam que os sultões sentem falta de saber o nome dos serviçais para poder melhor reclamar deles. afinal, ainda mais em democracias raciais como a nossa, os escravos, ops, os associados, se parecem todos uns com os outros, ou seja, tendem a ser de uma raça, de uma cor, de uma classe social diferente dos senhores de engenho, ops, dos clientes, então, convenhamos, fica até difícil diferenciá-los, né? do ponto de vista dos amos, quem não tem boa aparência é tudo igual.

“então, quando o senhor for reclamar de mim ao capitão-do-mato, não vai precisar expor seu racismo dizendo que a cativa que ficou emperrando a fila pra lhe dizer umas verdades era aquela “moreninha” do “cabelo ruim”, e sim que foi a “pri”. aliás, cabelo ruim é o caralho. ruim é a sua cegueira. ruim é a sua falta de consciência. ruim é você que está lendo esse texto de merda e balançando a cabeça em concordância, mas não vai fazer nada a respeito. ruim é você que está escrevendo essa porra inútil como se fosse mudar alguma coisa. fodam-se todos vocês.

“mas fica pior, kemosabe. sempre tem como piorar. sabe por que o meu crachá diz somente “pri” e não meu nome completo “priscila dos santos silva”? não, não é porque já somos amigos íntimos eu e o senhor — repara que nem ouso chamá-lo de “você”. não, não é porque eu, mesmo sem querer saber o seu nome de patrício bem-nascido, ainda assim estou lhe dando explicitamente o direito de me chamar por um apelido tão carinhoso. não, mestre.

“é porque as mesmas pesquisas de mercado indicaram que nomes completos teriam que ser escritos em fonte muito pequena, seriam difíceis de ler pelos marajás mais idosos ou mais míopes (ou faria com que tivessem que chegar perto demais da criadaria para poder ler seus nomes, talvez até perto o suficiente para sentir nossa inhaca de trabalhadores, deus nos livre!), e, mais ainda, seriam difíceis de decorar e lembrar. então, a ordem que nos deram foi dar um jeito de resumir nossos nomes em até quatro letras. quatro. e eu consegui em três! nosso lema é eficiência, buana.

“tem mais. quando os capatazes julgam que um dos escravos tem um nome difícil de pronunciar, ou pior ainda, nome de pobre, lhes rebatizam sem hesitação. um colega de senzala nigeriano chamado ilunga usa um crachá que diz “alan”. meu amigo uóston virou “fred”. eu ainda tive sorte de ser a “pri”. sou uma privilegiada. (mas o senhor nem saberia como é isso de ser privilegiado, né, patrão? depois o senhor me conta dos impostos escorchantes que pagou no seu novo ipad.)

“e ai de mim se tivesse me recusado a conceder a intimidade de me chamar de “pri” aos clientes sem consciência da nossa magnânima e sobranceira empresa, que é uma das maiores empregadoras da nação, parte integrante do projeto nacional-desenvolvimentista do nosso internacionalmente celebrado governo de esquerda. imagina! eu teria gerado um novo posto de trabalho ali mesmo.

“afinal, convenhamos, que diferença faz que eu seja a priscila dos santos silva, aquariana, flamenguista e viciada em novela, filha de felipe gois da silva e de maria josé de sá dos santos, que são gente, viveram, se conheceram, se amaram, me tiveram? priscila dos santos silva, filha de felipe gois da silva e de maria josé de sá dos santos, só tem uma. mas “pri”, ora, meu patrãozinho, tem uma “pri” em cada esquina. quando eu for terminada, expulsa, demitida, esmagada, deglutida, cuspida fora, não vão nem precisar de um novo crachá. haverá sempre um fluxo infindável de novas e novas pris para alimentar o moedor de carne dessa meritória e fecunda instituição, pilar divino da indústria nacional, abençoada seja, ela está no meio de nós.

“ah, sahib, então o senhor se preocupa mesmo com a sua serva aqui? esse seu sorriso frouxo ao invocar meu nome não era apenas um ritual vazio antes de me passar suas ordens? era carinho verdadeiro? era porque o senhor realmente se importa? eu acredito, claro. como duvidar de um homem de bem como o senhor? (eu não ousaria!) então, deixa eu lhe contar o segredo da senzala.

“não me adianta nada esse seu carinho.

“não adianta falar meu nome com um sorriso e me tratar como pessoa humana, ao mesmo tempo em que prestigia com as suas compras o mesmo engenho que diariamente me desumaniza. não adianta se vestir de branco e fazer passeata de mãos dadas contra a violência e contra a corrupção, bichos-papões convenientemente vagos e abstratos (alguém é pró-corrupção ou pró-violência, buana?), ao mesmo tempo em que elege e reelege os mesmos políticos com as mesmas plataformas pró-mercado & pró-indústria, anti-trabalhador & anti-assistência.

“não adianta nada entrar no ônibus (mas o senhor nem deve andar de ônibus, né?) e saudar a cobradora pelo nome, e então reclamar quando a greve da categoria lhe causa o mínimo desconforto. nem tudo gira em torno do seu cu privilegiado, vossa coxinhência. qualquer greve tem como objetivo não atrapalhar a sua bem-organizada vidinha mas conseguir melhores salários e condições para trabalhadores que sobrevivem mensalmente com uma fração da sua renda. os ônibus estão de greve? então, apoie o movimento e vá a pé. ou pegue um táxi: com certeza, o senhor pode pagar.

“eu não quero nem o seu bom-dia, nem o seu sorriso. não quero seu falso carinho, sua falsa intimidade, sua falsa preocupação. eu não quero ouvir sua voz pronunciando meu santo nome em vão. eu quero justiça social, direitos iguais, assistência do estado. eu quero que as autoridades públicas, que a polícia, que os meus empregadores, que os clientes que eu atendo, que os homens que me assediam na rua, reconheçam em mim a mesma humanidade, a mesma individualidade, a mesma subjetividade que veem em si mesmos. é pedir muito?

“eu quero que minha filha tenha acesso à saúde pública de qualidade para estar viva e saudável no momento em que a escola pública de qualidade lhe ensinar que não vale a pena comprar por 24 parcelas de cem reais uma tevê que custa 999 à vista. e isso só pra começar.

“agora, meu senhor, em que posso servi-lo? quer levar fritas grandes e uma garantia adicional de um ano por apenas mais dez reais?”

(publicada originalmente na revista fórum)

o papel dos homens no feminismo

para um homem, articular o discurso feminista é razoavelmente fácil: difícil é agir de acordo.

talvez uma das maiores contribuições dos homens para o feminismo seja simplesmente se posicionar no mundo de forma feminista.

o valente não é violento.

quais são as coisas que nós homens FAZEMOS que silenciosamente confirmam, aos olhos das crianças e do mundo, a desigualdade de gênero, o machismo, a transfobia, o sexismo?

nenhuma pessoa — e com certeza nenhum homem, mesmo o mais pró-feminista leitor de simone de bouvoir — está acima de fazer comentários machistas ou de ter atitudes transfóbicas. é preciso analisar todo dia nossas ações & nossas palavras. é preciso muita autocrítica. é preciso sempre saber ouvir.

falar o feminismo é a parte fácil. agir o feminismo, todos os dias, é que são elas.

* * *

esse texto é parte da blogagem coletiva “o valente não é violento”, promovida pela ONU mulheres, para lutar pelo fim da violência contra a mulher. leia o texto completo aqui: o poder do exemplo: sobre homens no feminismo.

quatro textos sobre privilégio

(envie para a sua pessoa privilegiada favorita)

carta aberta às pessoas privilegiadas

ação de graças pelos privilégios recebidos

o assunto não é você

o peso da história: a escravidão e as cotas

pino arriado

agora à noite. saindo do lançamento da paula abreu, na argumento do leblon. o céu subitamente despenca sobre o rio de janeiro.

entre a água que cai, mal e mal vislumbro um milagroso táxi lívre e faço sinal desesperado. o carro encosta quase em frente à livraria e corremos até ele, ficando completamente ensopados por menos de dez segundos de exposição às baldadas d’água.

lentamente, quase sem visibilidade nenhuma, passando com cuidado por cada cruzamento, vamos vadeando em direção à copacabana.

toca o telefone, ele atende:

“oi, meu amor. é, tá caindo um toró aqui também. eu sei, eu sei. eu tinha acabado de encostar pra ver a novela e esperar a chuva passar, mas um casal invadiu aqui o táxi. vou deixar eles em copacabana e depois eu páro. eu juro. de pino arriado.”

viver sem esperança

um belo texto de charlotte joko beck. um trecho:

Uma vida vivida sem esperança é pacífica, alegre e compadecida. Enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo — e todos fazem isso —esperaremos que aconteçam coisas que, em nossa opinião, tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. Esperamos ter sucesso. Esperamos ter saúde. Esperamos alcançar a iluminação. Há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça; e, evidentemente, toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. A pessoa que já praticou o sentar, seja qual for o período que durou sua prática, sabe que não existe passado ou futuro, exceto em nossa mente. Não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí, presente.

leiam o texto inteiro: sem esperança.

gentileza em copacabana

morei por vários anos no exterior (esse imenso e estranho lugar que inclui são paulo, os estados unidos e marte), mas finalmente consegui voltar ao rio de janeiro. hoje, vivo em copacabana.

quando o escritor luiz biajoni, paulista de americana, teve receio de escrever o romance elvis e madona, ambientado no bairro, sem conhecer nada dele, eu o tranquilizei. copacabana é como paris ou nova iorque: ela é plástica, mutável, literária. a copacabana de verdade não existe. a copacabana inventada é que é a real.

de copacabana, eu esperava, e ainda espero, tudo. o melhor e o pior que podem oferecer cento e cinquenta mil seres humanos apertados entre o mar e as montanhas.

o que não esperava é que fosse um bairro tão gentil.

* * *

antes de me mudar, fui a uma agência de banco perto da minha futura casa tentar resolver um daqueles típicos e infernais problemas bancários de quem volta a morar no brasil.

quando cheguei, a gerente estava atendendo, com infinita paciência e muito tato, uma velhinha surda e grosseira que não entendia o funcionamento do cheque especial e nem tinha noção de como estava gritando. depois, na minha vez, com uma boa vontade que me comoveu, ficou quase duas horas comigo, que nem era correntista daquela agência, resolvendo um problema exótico e raro.

só por causa dela, transferi minha conta para lá, pensando:

essa moça é a melhor gerente de banco do mundo!

* * *

meu prédio tem dez andares e cerca de quarenta apartamentos por andar. é uma pequena cidade, habitada por recém-casados, garotas de programa, velhinhos ranzinzas, estrangeiros deslumbrados… e eu.

o porteiro-chefe e sua equipe fizeram toda a reforma de quatro meses do meu apartamento, que basicamente teve que ser refeito do chão ao teto. enquanto lidava com os mil e um problemas que surgem em qualquer obra, ele era constantemente abordado, abusado, às vezes quase agredido por moradores grossos e impacientes, velhinhos com tempo livre demais nas mãos e controle de menos nos nervos.

ele respondia a todos com enorme paciência e infalível sorriso, sempre bonachão, calmo, tranquilo. e eu pensava:

esse homem é o melhor porteiro do mundo!

* * *

tem uma biblioteca municipal a um quarteirão do meu prédio. é onde estou agora escrevendo. venho muito trabalhar aqui.

a biblioteca tem duas coisas que não disponho em casa e que às vezes fazem falta: mesas e cadeiras, e ausência de internet. meus livros estão expostos na estante de lançamentos e é gostoso ver que nunca param quietos, a fileira de carimbos nos cartões só aumentando.

tecnicamente, é uma biblioteca infantil, mas estamos em copacabana: 90% do público é de velhinhos. e eles não querem nem ler jornal, nem olhar as estantes: exigem serviço! quais são as novidades? onde estão os lançamentos? rápido! rápido! e por que pararam de abrir sábado, hein?

e, incrivelmente, a bibliotecária, uma funcionária pública com estabilidade no emprego, não manda todos tomarem no cu. pelo contrário, demonstra imenso carinho, sabe seus nomes, conhece seus gostos, lembra seus hábitos: chegou o novo mário prata, a senhora não queria o último do joão ubaldo?, saiu um livro sobre a revolução francesa. às vezes, empurra até os meus: esse romance é daquele moço que está ali.

e eu, tentando escrever textos como esse que você está lendo e prestando atenção em tudo, pensava:

essa moça é a melhor bibliotecária do mundo!

* * *

até que finalmente caiu a ficha, né?

sem querer desmerecer os três profissionais citados acima, todos também moradores de copacabana, eles não são os únicos. poderia falar o mesmo de garçons e atendentes, caixas de supermercado e barbeiros. imagino que os profissionais que não tenham uma paciência especial para lidar com velhos rudes e sem noção acabam naturalmente saindo do bairro e aceitando outros empregos.

sobra então a força de trabalho mais gentil do mundo.

quando decidi que iria morar em copacabana, nunca imaginei que a melhor coisa do bairro fosse ser justamente… a gentileza.

* * *

uma amiga leu a primeira versão desse artigo e comentou:

“alex, você é muito engraçado mesmo. percebe que escreveu esse texto todo pra dizer que copacabana é o lugar mais gentil do mundo, mas o texto serviria igualmente dizer que é o lugar mais grosseiro? afinal, em cada história que você contou, além do profissional agindo de forma paciente e gentil, existem outras pessoas sendo rudes e exigentes. por que não escrever um texto dizendo que em nenhum outro lugar você viu tantos velhos mal-educados destratando as pessoas atenciosas que os serviam?”

e lembrei de uma pintora que foi estuprada três vezes ao longo de sua vida. quando perguntaram como ela se recuperou e o que fez para voltar a ter relações saudáveis com homens, ela respondeu:

“em um dado momento, temos que escolher quem permitimos que nos influencie. eu poderia me permitir ser influenciada pelos três homens que me foderam contra a vontade, ou podia escolher ser influenciada por van gogh. escolhi van gogh.”

pois bem. escolho a gentileza.

* * *

praia de copacabana, vista do leme.

tirada em 29 de novembro de 2013, do caminho dos pescadores, no leme. ao fundo, o morro dois irmãos, a pedra da gávea, o corcovado. clique para ver em tamanho maior. outros textos meus sobre copacabana.

ação de graças

em homenagem ao dia de graças, agradeço por todas as bençãos que recebi.

(um texto difícil, que estou gestando faz alguns anos. adoraria saber a opinião de vocês.)

racismo, os melhores textos

o melhor:

senzalas & campos de concentração

* * *

cotas

o peso da história: a escravidão e as cotas
carta aberta a uma estudante que perdeu a vaga por causa das cotas

* * *

racismo & imigração

racismo e imigração: de que cor devem ser nossos imigrantes?

* * *

politicamente correto & privilégio

carta aberta às pessoas privilegiadas
o assunto não é você
carta aberta aos humoristas do brasil

* * *

normatividade branca

racismo e normalidade

* * *

racismo & feminismo

racismo, miscigenação e casamentos interraciais no brasil

* * *

ficção

duas profissões esquecidas do rio antigo (conto)

monges budistas que bebiam merda

do sempre delicioso e indispensável fernão mendes pinto, português que passou trinta anos perdido pela ásia no século 16 e escreveu uma das obras mais importantes da nossa língua, a peregrinação.

o trecho abaixo, retirado do capítulo 160, teoricamente descreve os muitos personagens de um festival religioso budista que pinto teria testemunhado em burma, em 1545.

(vale a pena lembrar que ele mentia tanto que seu apelido era “fernão, mentes? minto”.)

“Vinhão tambem outros que se chamauaõ Nucaramoẽs, muyto feyos & mal assombrados, vestidos de pelles de tigres com hũas panellas de cobre debaixo dos braços, cheyas de hũa certa confeiçaõ de ourina podre, misturada com esterco de homẽs, taõ peçonhenta & de fedor taõ incomportauel, que por nenhum modo se podia sofrer nos narizes, & pedindo esmolla ao pouo dezião, dame esmola logo nessa hora, & se não comerey disto que come o diabo & borrifarteey com que fiques maldito como elle; a que logo todos acudião a lhe darem esmolla muyto depressa, & se tardaua mais hum momento do que elle queria punha a panella à boca, & bebendo hum grande trago daquella fedorenta confeyção, borrifaua com ela aos que queria fazer mal, porque toda a outra gente que os via borrifados, auendoos já por malditos, saltaua nelles, lhes daua tão mao trato, que os tristes naõ sabiaõ parte de sy, porque nenhũa pessoa cataua cortesia que o naõ deshonrasse, & lhe desse muytas bofetadas & arrepeloẽs, dizendo que erão escomungados por serem causa de aquelle homem santo comer aquella çugidade como os diabos, & ficar sempre fedorento diante de Deos, para não poder yr ao parayso, nem ninguem o ver mais neste mundo.”

junto com a bíblia e o declínio e queda do império romano, de gibbon, a peregrinação fecha meu trio de livros favoritos. (clique aqui para baixar a peregrinação completa, em português antigo.)