Viver com menos

4 June, 2013

Por Felipe Sil. Jornal O Globo, Caderno Amanhã, 21 de maio de 2013.

A fotógrafa catarinense Claudia Regina, de 24 anos, vive num apartamento de 40 metros quadrados em Copacabana, na Zona Sul do Rio, sem liquidificador, micro-ondas e torradeira. Simples até na dispensa do sobrenome, ela também não tem carro. Dentro de casa, apenas uma cama, poucos armários e um frigobar. Os cabelos são mantidos praticamente raspados, o que elimina a necessidade do uso regular de shampoo e condicionador, assim como o de pente ou escova. O publicitário paulista Michell Zappa, de 28 anos, mora nos Jardins, bairro de classe alta em São Paulo, num apartamento do mesmo tamanho do de Claudia, mas sem TV a cabo, DVD ou Blu-Ray. Até virtualmente ele cortou supérfluos. Tudo que ouve é em serviço de streaming o que significa que não precisa baixar músicas, e os livros estão armazenados num Kindle.

Não foi a ruína financeira que levou Claudia e Zappa a aderir à redução do estilo de vida ao essencial. Eles não se conhecem, mas comungam dos mesmos ideais quando o assunto é a maneira de consumir. Mais do que isso, fazem parte de um fenômeno social que já começa a ser debatido. É o que faz o pesquisador da PUC do Paraná Jelson Oliveira. Ele está concluindo o livro Simplicidade, que será lançado até o final do ano. Entre os temas abordados está um dos aspectos da questão que Oliveira mais gosta de ressaltar: o culto de viver com menos não tem nada a ver com pobreza:

Adotar a ideia da simplicidade é estar disposto a abrir mão do excesso de bens de consumo. O aumento da procura por outra forma de viver é um sintoma de cansaço com a uma sociedade altamente consumista.

Criados na cultura digital, os adeptos da simplicidade voluntária subtraem móveis, roupas, sapatos, livros, qualquer bem de consumo considerado supérfluo de suas vidas. Ainda que seja um fenômeno social contemporâneo sem líderes nem regras, alguns usam o espaço virtual para divulgar suas ideias.

O escritor carioca Alex Castro, de 39 anos, que cresceu num apartamento de 600 metros quadrados na Barra da Tijuca, aderiu ao movimento e usa seu site pessoal para propagar suas ideias sobre a redução do estilo de vida ao essencial. A base de tudo é o minimalismo movimento cultural do século passado que faz uso de poucos elementos fundamentais como base de expressão.

“Antes eu atrelava os momentos felizes a objetos inanimados. Um dia, fiquei irritado porque um amigo usou minha caneca. Decidi que não queria ser essa pessoa. Descobri que jogar fora os objetos não significa jogar fora as emoções. Passei a viver uma vida sem rastro, aumentando a prática do desapego” .

Castro reduziu seus pertences de tal forma que garante caberem numa caixa. Poucas roupas e sapatos, assim como utensílios domésticos. Ele só não abre mão de investir num bom laptop, Kindle, celular, câmara digital e cachimbos. Todo o resto, teoriza, é supérfluo. Deixar tudo para trás, diz ele, é um exercício constante, que incluiu até livros caçados em sebos durante anos:

“Tenho menos objetos e mais tempo livre para mim. Não posso imaginar troca mais sensata”.

A sensação de liberdade por se livrar da necessidade de ter dinheiro para consumir cada vez mais é repetida por todos os seguidores de uma rotina mais simples. O relatório Estado do Mundo 2010″, da ONG ambientalista WorldWatch Institute, mostrou que apenas um terço da população mundial consome mais do que a Terra é capaz de repor. Os outros dois terços da população do mundo sequer conseguem ir às compras, já que apenas garantem sua própria sobrevivência.

Filósofos e escritores

A vida de pesquisador de tendências levou Michell Zappa a descobrir os benefícios do desapego. Hoje, é praticamente um nômade. Desde os 15 anos, quando saiu de São Paulo para morar em Estocolmo, na Suécia, troca de endereço periodicamente. Nos últimos sete anos morou em Amsterdã, Nova York e São Paulo. Cada mudança, lembra, exigia o exercício do desapego. Até que decidiu focar apenas em alguns móveis e objetos de arte, que ficam espalhados nas casas de familiares e amigos. O resto é descartável.

Hoje tenho um apartamento pequeno, que comporta apenas um sofá, uma estante, um baú e uma mesa com duas cadeiras.

A simplicidade ultrapassa a adoção de uma atitude menos consumista, mas não significa um rompimento total com a sociedade de consumo. Implica fundamentalmente em trocar o supérfluo pelo essencial.

O desejo de ser feliz com menos é mais antigo do que se imagina. Na antiga Grécia, o filósofo Diógenes de Sínope condenava os luxos da civilização. Diógenes, o Cínico, como era conhecido, teria vivido pelas ruas de Atenas e sua única posse era uma cuia. E até dessa se livrou ao ver um menino usando as mãos em forma de concha para beber água. Mas Diógenes, vale esclarecer, achava que pobreza era virtude. Seus discípulos e o também filósofo Antístenes são considerados os primeiros a defender a ideia de que bens e glórias podem se tornar fontes de infelicidade e prisões do espírito.

No século XVIII, o pensador Jean-Jacques Rousseau pregava uma vida bucólica, em contato com a natureza, enquanto o francês Pierre-Joseph Proudhon, no século seguinte, chegou a criar substitutos do dinheiro, como a troca de produtos de acordo com o tempo de trabalho. Escritores como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau também seguiram por caminhos semelhantes. No mundo contemporâneo, paradoxalmente, um dos exemplos de gente que adotou estilo de vida minimalista foi também um dos maiores criadores de símbolos de consumo. Steve Jobs, criador da Apple, marca-fetiche entre os adeptos do menos é mais, era minimalista em sua vida pessoal. Quando solteiro, vivia num ambiente decorado apenas com uma foto do físico Albert Einstein, uma luminária, uma cadeira e uma cama.

A ideia de simplicidade volta aos debates com frequência. Nos anos 1960, por exemplo, surgiram numerosos movimentos que defendiam uma vida mais comunitária e menos individualista. O que há hoje é uma mercantilização do mundo. Isso estressa as pessoas, e a situação que leva a isso não mudou com o passar das décadas. Uma sociedade extremamente voltada para o consumo apenas complica. Não simplifica. E ainda causa impactos enormes no meio ambiente argumenta Dulce Critelli, terapeuta e professora de filosofia da PUC de São Paulo.

Para ela, três fatores levam ao crescimento da tendência minimalista pelo mundo. Uma delas é o conceito de slow food que, ao criticar os efeitos padronizantes da fast food, reforçou a crítica ao ritmo da vida atual. O segundo é a crise econômica, que diminuiu o poder aquisitivo das pessoas e as fez repensar seus gastos. E, por fim, os movimentos de preservação ambiental, que não cansam de chamar a atenção, por meio de relatórios e documentos, para o excesso de consumo.

Consumo consciente

Pesquisa do Instituto Akatu, ONG que se dedica à conscientização da sociedade para o consumo consciente, mostra que o brasileiro não associa o sentimento de felicidade e de bem-estar à posse de bens. Das 800 pessoas entrevistadas, 66% apontaram a saúde, tanto a própria como a de parentes e de amigos, como um dos fatores para se sentirem satisfeitas. Apenas 33% indicaram aspectos relacionados ao consumo como condição primordial para o bem-estar. No quesito afetividade, a opção passar tempo com as pessoas levou nota 8,3; e comprar presentes conquistou 2,6 pontos.

Para Hélio Mattar, diretor-presidente do Akatu, existe uma tensão na sociedade de consumo que leva as pessoas a viverem um verdadeiro estresse cotidiano. Trabalha-se mais para se consumir mais. Um dos maiores dramas, para ele, é na economia. O excesso de desejo gera dívidas. Só que a vontade de comprar ainda mais não cessa, o que acaba alimentando um círculo vicioso que deixa a população numa situação vulnerável.

Segundo o Banco Central, cerca de 45% da renda anual da população estão comprometidos com dívidas. Por mês, o brasileiro gasta, em média, um quarto do salário para pagar o que deve. Os americanos, tradicionais consumistas, comprometem 16%. A consequência do aperto no orçamento é a dificuldade de manter em dia os compromissos financeiros.

Mattar lança mão de um estudo do WorldWatch Institute para discutir o tema:

Aproximadamente 16% dos países mais ricos do mundo são responsáveis por 78% do consumo total. Isso já ultrapassa o que o planeta é capaz de repor. Agora pensemos na certeza de que o número de pessoas que compram em alta intensidade irá aumentar nas próximas décadas. O planeta aguenta?

Uma solução é o desapego a pertences físicos. Solução essa que ganhou um aliado no mundo virtual. Acervos de fotos, livros, revistas, papéis, DVDs e documentos, que costumam encher armários e gavetas, podem ser guardados virtualmente. Nos Estados Unidos, a venda de livros tradicionais tem caído todos os anos, em contraste com o crescimento do comércio de e-books.

O analista de mídias sociais Ian Black, de 32 anos, não tem tocador de DVD e diz não frequentar locadoras de vídeo há quatro anos. Nos últimos dez anos acumulou um acervo considerável de música e entretenimento digital. Tem mais de 20 mil faixas armazenadas. Possui também aproximadamente 400 filmes baixados. Para ele, um jeito torto de ser ecologicamente correto.

“Consumir menos também significa gastar menos recursos naturais. Mas há um lado de conveniência mesmo. Ter uma estante com centenas de CDs significa que você precisa investir um bom tempo organizando, limpando e ainda tirando da embalagem para colocar em um aparelho específico. Também vou, aos poucos, me livrando dos livros. É o que considero mais absurdo. Dificilmente são relidos e depois só servem como decoração e como peso desconfortável na mudança”.

Black, que mora em São Paulo, diz que tenta aplicar o mesmo conceito para roupas. Cada vez mais se apega a peças lisas e fáceis de combinar, de maneira que não tomem tempo e espaço maiores do que o necessário:

“Não quero mais gastar tempo com detalhes supérfluos no meu dia a dia. Também não quero me matar de trabalhar para manter um estilo de vida mais extravagante. Recentemente, também mudei de escritório. Eu e minha equipe abandonamos uma casa alugada de 200 metros quadrados, na qual tínhamos que ter uma pessoa contratada exclusivamente para mantê-la funcionando. Optamos por um espaço mais central e menor que nos permita um contato maior com outros empreendedores. Nosso custo mensal passou de R$ 15 mil para R$ 3 mil”.

A vida editada pode fazer diferença para casais como o ilustrador Bruno Algarve, de 30 anos, e a designer Daisy Biagini, de 29 anos. Ambos são paulistas. O estalo começou da parte de Algarve, quando, em 2005, percebeu que não conhecia mais a voz dos clientes. Todo o trabalho era desenvolvido através de e-mails. Viu, então, que não precisaria se prender a São Paulo para trabalhar.

Algarve convenceu Daisy a venderem tudo que tinham e viajar. O que sobrou foi colocado em dez caixas de papelão e armazenado em um quartinho na casa dos pais dela. Agora são apenas duas mochilas para cada um. Uma para roupas e outra para o escritório. Na do trabalho de Algarve ficam laptop, câmera fotográfica e pen tablet, espécie de prancheta digital muito usada por ilustradores. O valor dos três itens não ultrapassa R$ 3 mil.

“E dessa maneira já viajamos para Uruguai, Chile, Peru e Bolívia. Em cada lugar, ficamos em apartamentos ou pousadas. Trabalhávamos onde estivéssemos. De vez em quando, ficamos em São Paulo, mas em casas de amigos ou da família. Até adquirimos um carro para ter mais mobilidade. Mas lá vão apenas as quatro mochilas. A prioridade, na verdade, é viajar. O minimalismo acabou sendo uma consequência que nos ensinou a nos livrar de objetos e praticar o desapego conta Bruno”.

Radicalismo

Poucos pessoas, no entanto, conseguem ser tão radicais quanto o economista britânico Mark Boyle. Em 2008, exatamente no mesmo dia das notícias sobre a quebra dos bancos envolvidos em negócios no mercado de hipotecas, ele resolveu renunciar ao dinheiro. Era dono de duas empresas de comida orgânica, em Londres. Boyle vendeu tudo que tinha e hoje, cinco anos depois, vive em um velho trailer no Sudoeste da Inglaterra.

Hoje, escreve artigos para o jornal The Guardian sobre sua atual rotina. Foi logo batizado pelo veículo como o homem sem dinheiro. Virou celebridade e chegou a publicar um livro, chamado O homem sem grana (Ed. Best-Seller), já lançado no Brasil. Também possui um site pessoal na internet e dá palestras em que conclama as pessoas a renunciar ao dinheiro.

“Todos nós conhecemos os benefícios do dinheiro. Somos informados disso constantemente desde o momento em que nascemos. Na realidade, porém, a experiência de 99% da população me diz que nada disso está perto de ser verdade. O pior de tudo é que, quando olhamos para os problemas do mundo, todos sabemos que esse tipo de cultura em que estamos envolvidos é o principal responsável por grandes problemas ecológicos, sociais e pessoais”, argumenta.

A fotógrafa Claudia não chegou ao extremo de Boyle, embora admita que raspar os cabelos foi uma forma de radicalização. Desde que trocou Curitiba pelo Rio depois de largar a vida de empresária, ela tinha um escritório de webdesign na capital paranaense, e o marido , ela passou a dar palestras sobre a vida minimalista:

“Minhas escolhas têm a ver com sustentabilidade e economia. Mas é também um ato político. Eu economizo, gasto menos recursos do planeta e me posiciono contra uma sociedade consumista”.

Um dos primeiros ativistas desse estilo de vida, o americano Duane Elgin, autor do livro Simplicidade voluntária, previa na sua obra, de 1981, a necessidade de mudança. Ele deixava claro que descomplicar não significava fazer voto de pobreza. Mas reduzir a demanda por elementos externos que proporcionam uma dose limitada de satisfação e sensação de bem-estar.

“Desde então, muita coisa mudou. Lembro que nos anos 1970, nas minhas primeiras palestras, eu era visto como um cara excêntrico. Agora sou apresentado como um exemplo positivo de que é possível mudar. O tema passou a ser visto com menos complacência e mais urgência. Naquela época, havia poucos debates sobre mudanças climáticas, problemas de energia e água… Agora, quanto mais perto observamos o planeta, mais vemos que ultrapassamos a capacidade do mundo em assegurar nosso nível extremado de consumo”, defende Elgin, em entrevista por email.

4 June, 2013

cú tem que ter acento. cú combina com acento. cú sem assento é um acinte.

a melhor coisa de escrever cú com acento é descobrir quem são os malas que vão te corrigir.

gentileza

30 May, 2013

se alguém te ajudou, você sempre pode pagar a dívida ajudando outra pessoa.

* * *

um dia, nove anos atrás, no fim de uma madrugada histórica, cometi um ato de mesquinharia e pequenez: neguei um favor simples a uma pessoa que eu não conhecia. a toa. não havia nenhum impedimento prático. não me custaria nada. eu só não quis.

não foi uma distração: uma amiga me puxou para o lado e me pediu, enfaticamente, para fazer isso por essa outra pessoa. insistiu bastante. neguei.

fiquei anos com isso na cabeça. com o tempo, a pessoa a quem neguei o favor se tornou uma amiga, alguém que admiro imensamente.

só ontem consegui pedir desculpas a ela. esse pedido de desculpas era das coisas que estava na minha garganta há quase uma década. daquelas coisas que, na hora da morte, a gente se arrepende de não ter dito.

então, ontem, eu disse.

* * *

nem sempre podemos retribuir diretamente quem nos ajudou, mas podemos repassar a gentileza para outras pessoas.

se você fez mal a alguém e quer expiar o seu pecado, não precisa ser necessariamente com sua vítima.

de forma consciente, para reparar minha falta, comecei a fazer por outras pessoas o favor que neguei naquela noite.

assim, conheci a Outra Significativa.

se eu não tivesse cometido aquela mesquinharia e se não estivesse ativamente tentando compensá-la, não teria conhecido minha atual companheira.

deve ter alguma moral aí.

doze anos

28 May, 2013

doze anos atrás, vivi um dos melhores fins-de-semana da minha vida, nas areias brancas e águas quentes de alter-do-chão, uma das praias mais lindas do brasil, no meio da amazônia, apaixonado, feliz, transando feito um louco com a mulher com quem passaria o resto da minha vida. e enquanto arrumava minha mala pra voltar pro rio, feliz, com todo meu futuro pela frente, herbert vianna sofreu um acidente de ultraleve que matou sua mulher e o deixou sequelado para sempre. e foi um momento agridoce tapa-na-cara pé-no-chão, porque herbert é da minha terra, usa óculos e adora ska como eu, acompanhei sua carreira, fui testemunha do seu enorme amor pela lucy e, agora, assim, de repente, enquanto eu transava apaixonado nas águas do tapajós, puff. acabou-se herbert&lucy. e fiquei tristíssimo mas ainda mais decidido a viver a minha vida, correr atrás da minha felicidade, vencer a distância, ser feliz com a mulher que eu acabara de escolher e que acabara de me escolher de volta. porque o tempo passa. e, enfim, inevitavelmente, como ele sempre faz, o tempo passou. nunca mais vou ser tão feliz como naquele fim-de-semana, porque o primeiro amor, de quando a gente ainda não foi ferido pela vida, de quando ainda não temos dúvidas nem traumas, não tem igual, não se repete. a vida guarda outras infinitas felicidades, e também é uma delícia o amor maduro entre dois veteranos sem-ilusões calejados nas guerras do coração, mas o primeiro amor, esse só acontece uma vez. eu fui feliz. aproveitei até o talo. casei, amei, me separei. herbert vianna, antes desenganado, hoje já voltou até a cantar. e eu, continuei sempre amigo da ex-mulher. na verdade, irmãos. ela sempre será a família-que-escolhi. faz três anos, cruzei o mundo para passar o mês com ela no timor-leste. há poucos dias, fui encontrá-la de novo em alter-do-chão e, depois, subimos o amazonas de barco até manaus – acompanhados de minha atual companheira e de seu atual companheiro. enquanto isso, como se fechando um ciclo, herbert vianna ganhou na justiça uma indenização do fabricante do ultraleve, contrariando os boatos de que tinha matado sua mulher por imperícia e incompetência, por estar fazendo malabarismos imaturos em seu brinquedinho de roqueiro rico. mas não, era o ultraleve que derretia no calor forte, e herbert agora vai mostrar aos filhos a prova de que não foi ele o culpado pela morte de mãe. e assim doze anos se passaram. e, por incrível que pareça, estamos quase todos aqui, um pouco mais velhos e barrigudos. até que, um dia desses, quando se passarem outros doze anos, teremos ficado em algum ponto do caminho, mas pessoas continuarão amando e se encontrando, e no dia em que eu morrer, de susto, bala ou vício, quem sabe na casa ao lado ou no quarto em frente, algum casal de tolinhos também vai estar se amando e também vão achar que é pra sempre, e, sabe qual é?, vai ser mesmo, até acabar. e então, vai ser pra sempre de novo. e de novo. e são pensamentos assim que me possibilitam a vida. porque hoje eu já chorei muito, pela morte de uma criança que nem conheço num bairro onde nunca nem fui. a única coisa que vence a morte é a vida: se não estou feliz, é importante que alguém, em algum lugar, esteja.

política de boatos

25 May, 2013

Parágrafo único:

Todo e qualquer boato sobre mim será sempre pronta e enfaticamente confirmado. – a não ser caso a confirmação me exponha a possível processo cível e/ou criminal.

(Exemplo: Esse negócio que você foi rico é tudo mentira, né? Tudo mentira. Você é casado? Sou. Você chupa pau? Chupo. Você é pedófilo? Não.)

política de comentários

23 May, 2013

na internet de hoje, comentários perderam a razão de ser e se transformaram em um festival dos horrores. não vale mais a pena.

aqui no meu site, encerrei. nos meus textos do papodehomem, faço questão de não ler. no facebook, encerraria, se pudesse, mas tenho apagado qualquer comentário agressivo e banido o autor já na primeira infração.

tenho uma página de contato, com meu email e telefone. quem quer entrar em contato comigo, travar um diálogo, fazer uma crítica construtiva, sabe como.

www.alexcastro.com.br/contato

regra de gramática para a vida

7 May, 2013

falar “mas” zera a oração anterior.

livre

5 May, 2013

se você quiser sair, não vou te segurar. se você quiser ficar, não vou te expulsar.

a outra sala

2 May, 2013

hoje, uma moça disse que sou a pessoa mais interessante que ela conhece.

mas ela é que deve andar com pessoas pouco interessantes.

* * *

depois de me hospedar em sua casa por alguns meses e conhecer meus amigos, meus familiares, minhas namoradas, eis que sônia se deu conta:

“alex, vc é a pessoa menos interessante de todo mundo que você conhece!”

* * *

do novo livro inédito da escritora paula abreu

“A dica de sucesso do ator e diretor Harold Ramis é: “Encontre a pessoa mais talentosa na sala, e se não for você, vá ficar do lado dela. Passe um tempo com ela. Tente ser útil.”

O escritor Austin Kleon completa essa ideia dizendo que “Se você descobrir que você é a pessoa mais talentosa da sala, você precisa encontrar outra sala”.

* * *

meu objetivo de vida é ser sempre a pessoa menos interessante do recinto.

gentileza é abrir a porta pro toninho bombadão

30 April, 2013

eu e a outra significativa temos um acordo: só faço por ela as gentilezas que faria igualmente pelo meu hipotético amigo toninho bombadão.

então, quando viajamos, não carrego sua mala, pois não carregaria a mala do toninho bombadão e porque acho que cabe a cada pessoa adulta só fazer uma mala que possa ela mesma carregar confortavelmente. e assim por diante.

mas, hoje, ela foi pegar um ônibus na praia às seis da manhã. quando comecei a me vestir pra ir junto, ela me olhou desconfiada:

“vc iria até a praia com o toninho bombadão esperar o ônibus com ele?”

e respondi, na lata:

“sim, mas só porque quero ver o sol nascer em niterói.”

“hmm, então tá.”

e foi realmente uma alvorada linda. se não fosse o toninho bombadão, teria perdido.

bendito toninho.

talvez sejam as mesmas pessoas

29 April, 2013

o mundo se divide entre as pessoas que voltariam no tempo pra estapear seus eus passados e as pessoas cujos eus passados viajariam no tempo pra estapear seus eus atuais.

monumento ao mendigo desconhecido

29 April, 2013

em homenagem aos 195 mártires que morreram para que tivéssemos uma copa do mundo que não nos envergonhasse perante os gringos.

vocês não serão lembrados, mas essa é a ideia mesmo.

(leia: histórias das ruas)

eventualmente, dou uma dentro

29 April, 2013

eventually, em inglês, quer dizer por fim ou finalmente.

he used to call once in a while. eventually, he gave up.

eventualmente, em português, quer dizer de vez em quando.

reparem como a frase acima, em uma má tradução bastante comum, não faz nenhum sentido:

ele ligava de vez em quando. eventualmente, desistiu.

uma tradução mais correta seria:

ele ligava eventualmente. por fim, desistiu.

apesar disso, os cool-americanófilos cometem tanto esse falso cognato que, daqui a pouco, ele vira regra.

mas agora está surgindo uma nova língua, chamada de eu english, ou seja, o inglês da comunidade européia, usado por europeus continentais não falantes nativos.

uma das tantas novidades do eu english é, por influência do francês, eventually significando de vez em quando.

fecha o círculo.

ideia para adesivo de parachoque

26 April, 2013

“seu amigo negro não prova nada.”

neodarwinismo

24 April, 2013

um dia alguém vai ter que me explicar porque é tão importante que a espécie humana não se extingua.

medo

23 April, 2013

acordo na hora que meu corpo deseja.

me alimento quando tenho fome.

meus pais são vivos e meu cachorro também.

ganho meu sustento escrevendo.

raramente tenho compromissos ou preciso estar em qualquer lugar.

só convivo com quem quero.

na maioria das noites, embalo o sono da minha companheira beijando seus pés até ela dormir.

se eu tivesse medo, teria medo de as coisas só poderem piorar.

mas não tenho medo.

um vestido estampado

20 April, 2013

um belo dia, você conhece uma mulher e ela está usando um vestido colorido estampado, ao mesmo tempo longilíneo e esvoaçante, sedutor e inesquecível, e você se apaixona por ela, naquele vestido e em muitos outros vestidos.

outro belo dia, seis meses depois, ao deixar um saco de roupa suja na lavanderia, enquanto a atendente vai separando as peças uma a uma, você percebe o vestido colorido, amarrotado e embolado, entre as suas próprias cuecas e meias, ainda lindo e fascinante, e relembra todas as delícias compartilhadas e decisões acertadas que fizeram com que o vestido sedutor de ontem estivesse na sua roupa suja de hoje.

e, então, você fica sorrindo que nem um bobo, no balcão da lavanderia, enquanto uma moça entediada conta camisetas.

O senhorio do desapego

18 April, 2013

Para ajudar nas finanças, estou alugando meu apartamento pelo site Airbnb.

minha casa. foto por claudia regina.

minha casa. foto por claudia regina.

O ato de sair de casa de um dia pro outro, deixando tudo pra trás, levando só uma sacola, confiando seus objetos a desconhecidos, é um exercício em desapego.

Desapego por tudo aquilo que você deixa pra trás. Desapego por seu próprio lar. Pelos livros que você caçou nos sebos de Buenos Aires. Pelas caríssimas panelas de aço inox. Pelo elegante e ascético fouton japonês. Por objetos.

Hoje, tenho roupas & cuecas, canecas & cumbucas espalhadas por quatro casas, três no Rio e uma em São Paulo. Nenhuma de membros da minha família, todas de pessoas que amo como se fossem. Acordo todo dia e nunca sei em qual casa dormirei à noite.

Para facilitar minhas idas e vindas, pensei em já deixar ao pé da porta uma bolsa com os pertences que levo comigo, mas é impossível: os pertences que levo comigo já são todas as coisas que uso diariamente e, portanto, não podem ficar pré-embalados.

Meu laptop, minha câmera, meu Kindle, meus cachimbos, minha necessaire. É só isso que levo comigo. (Não por coincidência, ano passado, quando fui furtado em um albergue de Paraty, foi isso que levaram.)

O Oliver, meu cachorro, tem mais bagagem que eu: bolsa de transporte, cama, cobertor, remédios, comida, ossinhos. Somos dois ciganos que já rodaram o mundo juntos: de trem & carro, navio & avião. Agora, ele está velhinho e fica em uma das casas onde me hospedo, sob os cuidados de uma amiga querida.

Pessoas estranhas naturalmente não podem ter acesso nem à minha pasta de documentos – passaportes, diplomas, etc – e nem ao meu HD pessoal – fotos comprometedoras, etc – mas também não fazia sentido ficar levando e trazendo esse peso a cada novo hóspede. Foram deixados em definitivo na casa de uma amiga. Quando precisar deles, o que hoje acontece com cada vez menos frequência, vou lá.

Alguns amigos ficam com receio, me aconselham ter cuidado, acham que é um risco.

Mas estou arriscando o quê?

Arrisco objetos. Arrisco um futon manchado, uma panela quebrada, um livro furtado.

Mas com o dinheiro dos aluguéis, ganho… tempo.

Um casal de australianos ficou no meu apartamento por seis dias durante o carnaval e foi menos um livro chato a traduzir, menos um frila de revisão a aceitar, menos um cliente exigente a aturar.

É um mês livre que ganho para trabalhar na minha própria arte, pra escrever meu romance, pra viver, pra transar.

Arriscar objetos para ganhar tempo livre: posso imaginar poucas trocas mais sensatas.

* * *

Leia também meu texto Menos. Para alugar meu apartamento, clique aqui e confira o anúncio.

minha memória mais antiga

16 April, 2013

sentado em casa. em frente a tv. queria ver os flintstones. estava esperando pelos flintstones. mas o desenho não passou. ao invés disso, havia um urso. um enorme urso chorando. eu não entendia nada do que estava acontecendo. nada da política mundial, boicote, guerra fria. mas me lembro bem. me lembro daquela frustração bem infantil de não conseguir o que eu queria por um motivo que eu ignorava. e me lembro bem daquele urso chorando. um dia, quando eu ficar velho, se eu ficar velho, quando as sinapses forem enfraquecendo, quando eu não conseguir mais reter novas informações, quando a ligação elétrica entre meus neurônios ficar cada vez mais fraca, quando eu for progressivamente esquecendo os eventos mais recentes, a impressão que tenho é que essa vai ser a última coisa que vou esquecer. a última informação. a última imagem. nessa minha mente que já tanto sonhou, pensou, chorou, sofreu, amou, invejou, vai restar somente a lágrima daquele urso.

A paixão segundo A.C.

15 April, 2013

Tenho usado sempre as escadas do meu prédio. Faz bem pra saúde. Me sinto melhor. Mais ativo, mais leve, mais alegre.

Uma semana atrás, apareceu uma barata morta entre o segundo e o terceiro andar. Tomei cuidado para não pisar nela, coitadinha.

No dia seguinte, a barata ainda estava lá. No outro dia, também. Comecei a ficar irritado:

“Mas será que não limpam esse prédio? Tenho que falar com o porteiro!”

Mais um dia e me irritei de novo:

“Caramba, não é coincidência, ninguém cuida mesmo dessas escadas! Hoje eu reclamo com o síndico!”

Com o passar dos dias, a barata sempre lá, fui sentindo emoções cada vez piores em relação aos funcionários do prédio. Raiva dos porteiros, ódio da equipe de limpeza, desprezo por todos os preguiçosos do Brasil que não sabem fazer seu trabalho direito:

“Nos Estados Unidos, isso não estaria acontecendo!”

Daqui a pouco, o ódio, a raiva, o desprezo começaram a ser direcionados em minha própria direção:

“Caralho, Alex, você é muito burro! Tá há uma semana pra falar com o porteiro e nunca fala! Lembra da barata morta quando vê mas depois esquece! Parece um peixinho dourado, capaz só de registrar o que está na frente dos olhos!”

E, naturalmente, eu não era o único culpado, mas todos os outros como eu:

“É foda isso. Brasileiro não sabe reclamar, não sabe exigir seus direitos, é por isso que esse país tá assim!”

Um dia, o Oliver, meu cachorro, decidiu cheirar a barata morta e eu puxei tão forte que ele quase caiu da escada:

“Idiota! Não vê que essa barata tá aí há dias?! Por que você tem que cheirar tudo de podre?!”

A caminhada pela escada, teoricamente para melhorar minha saúde, para me fazer sentir bem, tinha se tornado uma fonte de estresse.

Já estragava o meu dia logo de cara.

* * *

A história poderia continuar ad infinitum.

O próximo passo seria reclamar com o porteiro mas, depois de tanto tempo de emoções reprimidas, a reclamação quase certamente acabaria em escândalo, descompasso, rudeza. Talvez o porteiro se ofendesse, engolisse calado o insulto mas passasse a me boicotar no prédio, esconder minhas cartas, sonegar recados. Talvez o porteiro levantasse a voz no mesmo tom, escalasse o confronto, e acabasse despedido, um pai de família sem sustento. Talvez a questão terminasse envolvendo o síndico, o administrador, outros porteiros, a dona do imóvel. Talvez deflagrasse a terceira guerra mundial. Não é inconcebível.

Nada disso aconteceu.

No quarto ou quinto dia, quando vi que ninguém catava a falecida, eu voltei em casa, peguei uma folha de papel toalha e dei à barata morta um funeral apropriado.

* * *

Assim que escrevi esse texto, eu o mostrei à Sonia, minha anfitriã nessa casa e nesse prédio. No dia seguinte, ela veio falar comigo:

“Alex, tem uma barata morta na escada entre o segundo e terceiro andar.”

“Eu sei, Sonia.”

“Você não catou?”

“Não, Sonia.”

“Por quê?”

“Porque assim como eu não me irritei com a barata morta ao ponto de querer ir reclamar com o porteiro, eu também não me irritei com a barata morta ao ponto de catá-la do chão. Ela não me incomoda em nada e ainda me serviu de ponto de partida para essa crônica. A barata morta é real, todo o resto é invenção. Inclusive esse diálogo, que nunca aconteceu.”

“Você é um hóspede difícil, Alex.”

* * *

Originalmente publicado na Revista Pequena Morte, edição 23, setembro de 2011.