A desesperança do luto

A esperança é nos fode. A esperança nos estressa. A esperança nos faz lutar infindavelmente em prol de causas perdidas — pois, afinal, há uma esperança.

Quantas pacientes de câncer não teriam aproveitado melhor e com mais substância seus últimos meses de vida, em paz, em contemplação, cercadas de seus entes queridos…

…se não estivessem “lutando até o fim”, pulando de médica em médica, sendo as “batalhadoras” contra o câncer que nossa sociedade espera que todas sejamos?

A beleza do luto é que não há mais esperanças.

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nosso maior medo é a falta de controle

acidentes aéreos escancaram nossa impotência diante do acaso. teorias da conspiração recuperam alguma medida de controle sobre nosso destino.

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esse seu problema aí

somos todas primatas sem alma, vivendo vidas sem sentido, presas na superfície de uma bola de pedra girando em torno de si mesma e se deslocando em círculos pelo vazio do espaço, destinadas a morrer em breve, junto com todas nossas pessoas queridas, assim como nossos países, nossas culturas e nossos idiomas, que vão desaparecer também, aquecidas por um sol que logo se auto-destruirá, levando com ele tudo o que já conhecemos.

então, sinceramente, no grande esquema das coisas, que importância pode ter esse seu probleminha aí?

tudo é prática

cada palavra conta. cada interação conta. tudo é prática.

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“esse é o último ano em que eu dei a mínima pra qualquer coisa”

admiro uma lojista que não só chuta o balde, como ainda deixa ali, na parede, a faixa de “feliz 2011” pra lembrar exatamente quando foi.

entropia

meus melhores textos sobre morte e entropia.
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seres inexistentes

se tudo acaba, se até mesmo o sol vai acabar, por que seria justamente eu a não acabar nunca?

por que eu seria tão importante assim?

aliás, por que a questão da minha existência seria minimamente importante?

por que eu deixar de existir é mais ou menos dramático do que um coelho deixar de existir?

passei a existir no momento no tempo que convencionamos chamar de 1974 mas, antes disso, eu não-existi por um período literalmente infinito.

e não foi ruim. não doeu. não foi desagradável.

muito em breve, voltarei a não-existir por um período infinito de tempo.

se não era ruim antes, por que seria ruim depois?

por que ter medo de voltar a um estado que já experimentei e que não foi ruim?

considerando o tempo que passamos existindo e o tempo que passamos não-existindo, nosso estado natural é a não-existência.

existir seria apenas um breve soluço, um glitch, um bug, dentro de uma perfeita, plena e eterna condição de não-existir.

somos todos seres inexistentes que, por um acaso, existem.

mas não por muito tempo.
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a certeza da incerteza

eu sei que várias certezas que já tive estavam erradas.

eu presumo que, das certezas atuais, muitas estão igualmente erradas.

por que então tenho tanta certeza de que as minhas certezas de hoje, essas sim, são as realmente certas?

* * *

talvez seja o meu maior desafio pessoal:

antes de falar, antes de agir, antes de escrever…

tentar internalizar, absorver, corporificar essa certeza:

que a única certeza que realmente tenho é que muitas das minhas certezas mais certas são, na verdade, incertas.

então, será que tenho direito de apontar esse dedo, de fazer essa crítica, de cometer esse julgamento?

* * *

esses temas são desenvolvidos nos meus textos prisão verdade e cultivar o não-conhecimento.

 

o vazio que nos consome

semana passada, dividi um táxi com um famoso coach e ele deu uma dica de carreira para uma moça que estava conosco:

“tem alguma coisa que as pessoas sempre mandam email te perguntando, pedindo sua ajuda? pois, se tem, então você pode ganhar a vida com isso.”

eu fiquei caladinho, pensando nos emails que recebo.

* * *

da prisão religião:

buscar pela melhor maneira de preencher nosso vazio (com mais consumo, mais ego, mais sucesso, mais ascetismo, mais religião, mais sexo, mais livros publicados, mais curtidas no meu post, etc) apenas faz com que pulemos de alternativa em alternativa, em uma infinita insatisfação.

se o buraco não tem fundo, tentar preenchê-lo não resolve.

buraco no peito prisao religiao

* * *

uma troca de emails que travei essa semana.

pessoa leitora:

“como viver com a certeza de que não há depois? como viver sabendo que sua vida e todos os seus feitos não fazem o menor sentido? como viver uma vida sem sentido? como não se importar com o amor (ou o não amor), já que ele próprio não faz sentido nenhum? … como você consegue deixar o buraco em seu peito vazio? por muito tempo eu preenchi o meu com a presença de um deus, mas não consigo mais. tentei colocar pessoas, mas nunca deu certo. me sinto tão perdido às vezes que penso que talvez a morte seja a escolha mais racional e libertadora. tem horas que não consigo continuar, que os sonhos que tenho não fazem sentido, que os livros que ainda quero escrever não fazem sentido. tem horas que é muito difícil.”

eu:

perguntar como consigo “deixar o buraco vazio” é como perguntar como consigo deixar meu nariz assim no meio da minha cara. e eu responderia: eu não deixo nem desdeixo. o nariz É no meio da minha cara.

pessoa leitora:

“eu … queria deixar o buraco vazio sem me importar, mas sinto que as vezes o vazio que carrego é tão grande que vai me engolir.”

eu:

o vazio sempre nos engole. a questão é o que vamos fazer antes disso.

pessoa leitora:

“obrigado. de verdade. seu último e-mail me ajudou bastante. obrigado.”

como des-mexer um ovo mexido

todo sistema tende à desordem. o universo caminha em direção à entropia. é mais fácil quebrar uma caneca do que fazer uma caneca. etc etc.

mas nós, os seres vivos (gerando cópias de nós mesmos e criando coisas, de origamis à muralha da china) somos focos locais de resistência, temporários e efêmeros, na guerra contra a entropia.

de acordo com a segunda lei da termodinâmica, não é possível des-mexer um ovo mexido.

na verdade, porém, existe uma maneira rápida e barata de fazer isso:

você pega uma caixa, com um buraco em cima, um buraco embaixo e uma galinha dentro. aí, basta despejar um ovo mexido pelo buraco de cima e, em poucas horas, recolher o ovo des-mexido que vai sair pelo buraco de baixo.

a vida é o antídoto da entropia.

* * *

o exemplo da “máquina de des-mexer ovos” é de richard gregory, em mind in science: a history of explanations in psychology and physics (1981), citado por daniel dennett, em darwin’s dangerous idea. evolution and the meanings of life (1995), presente da querida daniela vaz.

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afinal, a entropia aumenta com o tempo ou a entropia É o tempo? outro texto meu sobre entropia.

a entropia e o tempo

a entropia aumenta com o tempo ou a entropia É o tempo?

aprendemos na escola que o universo favorece à entropia (é mais fácil quebrar uma caneca do que fazer uma caneca) e que tudo caminha em direção à própria dissolução.

ou seja, aprendemos que a entropia aumenta com o tempo.

entretanto, existe outra maneira de ver a coisa: talvez a entropia SEJA o tempo.

pois, afinal, só conseguimos perceber ou medir o tempo através da entropia que percebemos no universo. não há como dissociar entropia do tempo.

em outras palavras, sabemos que o tempo está passando porque podemos ver a rosa progressivamente murchando dia a dia.

mas talvez não seja a entropia da rosa que aumenta com o tempo, mas sim que é o próprio tempo a entropia que destroi a rosa.

ficou claro? (se ficou, então você não entendeu nada.)

* * *

sobre isso: four reasons you shouldn’t exist

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alguns textos entrópicos:

cajuína // eu, que vou morrer, os saúdo, que também vão morrer // você não tem tempo

 

um café na beira da estrada

nessa época, eu estava me dividindo entre duas mulheres que eu amava (e ainda amo), uma no rio e outra em são paulo, tentando provar para as duas que esse tipo de relacionamento aberto funcionava, que eu podia ser homem pras duas, que eu podia fazer as duas se sentirem amadas e preenchidas. por causa disso, oliver e eu passamos muitas horas insones, ouvindo muitos audiobooks, fazendo a rio-sp de um lado pra outro, nas horas mais sinistras da noite. e, um dia, completamente exausto, parei num bar de caminhoneiros, porque precisava de cafeína, precisava esticar as pernas, precisava sair daquele carro. era alta madrugada, o bar quase vazio, eu com uma cara exausta, carregando um poodle no colo, e o moço do balcão puxou um café pra mim, feito na hora, não um espresso ou um cappucino ou essas novidades estrangeiras, mas um bom e velho e delicioso e 100% brasileiro café coado de beira de estrada. e eu fiquei ali, bebericando o café e olhando o carro de rabo de olho (lema: confie em todos, mas corte o baralho), enquanto o oliver explorava o bar e falava com todo mundo, e senti minhas energias voltando, e senti que a vida era linda e que tudo iria ficar bem. e quando me ofereci pra pagar, o atendente disse, aqui não se cobra por cafezinho, não, moço. e, não saberia dizer porque, talvez fosse a fadiga, talvez saudades de expatriado, mas aquilo me pareceu a coisa mais linda do mundo e ainda é um daqueles momentos especiais que eu carrego comigo, um recorte no tempo pra onde vou nos momentos de depressão, um instante que visito pra me recarregar. não lembro mais se foi na ida ou na volta, se foi perto do rio ou perto de são paulo. vai ver nem aconteceu. vai ver eu dormi e sonhei isso no último segundo de vida enquanto o carro saía da estrada. vai ver o oliver está agora latindo ao lado do carro – o puto com certeza sobreviveu e deve estar feliz na sua nova família. enfim. seis meses depois, ambas terminaram comigo. uma mais tarde voltou, e depois quem terminou fui eu. a outra veio e foi e, depois, foi e veio de novo. são duas mulheres incríveis e sinto falta delas. enquanto isso, a vida foi indo, como ela sempre faz, linda como ela sempre é.

só tecido morto não dói

levamos todos porrada da vida.

ninguém é sempre campeão. não somos semideuses.

atrás de toda pessoa feliz, deveria existir um homem com um martelo – para lhe golpear periodicamente a cabeça.

só porque a vida mais cedo ou mais tarde mostra suas garras.

só para lembrar que existem pessoas infelizes no mundo.

só pra lembrar que elas também amanhã estarão infelizes.

só porque ninguém é tão egoísta e autocentrado quanto alguém autenticamente feliz.

* * *

um belo dia, chega a porrada.

sofremos a traição e saboreamos a desilusão.

e é o fim de tudo: nunca mais confiaremos em ninguém, estamos fechados pro amor.

sentamos na sarjeta e choramos. choramos nossa miséria, nossa feiúra, nossa desesperança.

tão autocentrados, coitados de nós, quanto durante o auge da felicidade…

* * *

um dia, a dor também passa.

porque, afinal, apesar da dor e do horror, uma das mais importantes leis da física é a seguinte:

“lavou, tá novo.”

a dor e o prazer, a alegria e a tristeza: como diria o cobrador, é tudo passageiro.

não há mal que tanto dure, nem bem que tanto perdure.

* * *

mas existe um fascínio inegável pela sarjeta.

por andar se arrastando.

por fazer um espetáculo de nossa tristeza.

por jurar, copo de chope na mão, que o amor, ah!, esse nunca mais!

são como aqueles cachorros que você tenta acariciar… e eles estremecem de medo, se encolhem de horror, afastam a cabeça, se colocam fora da possibilidade do soco.

você percebe na hora: alguém um dia cobriu aquele cachorro de porrada.

ele apanhou.

ele sofreu.

e nunca mais esqueceu.

* * *

diz o budismo que toda emoção é dor.

que não existe emoção puramente prazeirosa que não vá, em algum momento, se converter em dor.

o carinho que sente pela namorada será inversamente proporcional à sua dor por perdê-la…. e perdê-la você vai, seja porque ela cansou de você, morreu ou o sol explodiu.

de qualquer modo, tudo é impermanente:

o bom e o mau. a dor de dente e o gozo. eu e a via láctea.

ainda assim, até fazermos nossos votos de monge budista, é preciso colocar a cara a tapa. se arriscar. tentar amar de novo.

mesmo sabendo que vamos sofrer. mesmo sabendo que vai doer.

porque sempre dói.

o hamburguer do mcdonald’s não apodrece porque não é comida. a maçã que você morde fica marrom porque ela está viva.

só tecido morto não dói.

* * *

tenho um conhecido cuja autodescrição do twitter é “pairando sobre um mundo hostil”.

fico triste por ele. ninguém merece viver num mundo hostil.

mesmo se o mundo for hostil de verdade.

especialmente se o mundo for hostil de verdade.

* * *

penso sempre em uma pintora que foi estuprada três vezes ao longo de sua vida. quando perguntaram como se recuperou e o que fez para voltar a ter relações saudáveis com homens, ela respondeu:

“em um dado momento, temos que escolher quem permitimos que nos influencie. eu poderia me permitir ser influenciada pelos três homens que me fuderam contra a vontade, ou podia escolher ser influenciada por van gogh. escolhi van gogh.

* * *

tomei lá minha farta dose de porradas em 2011 e 2012. quando achei que não tinha como ficar pior, ficou. quando achei que tinha me livrado dos malucos, apareceram piores.

mas me recuso a ser o cachorro que se encolhe diante da possibilidade do soco – ou da carícia.

sei que vou levar outros socos, e sei também que vou receber outras carícias. provavelmente, como quase sempre acontece, dadas pelas mesmas pessoas.

é melhor andar feliz e despreocupado por um mundo belo e seguro e, de vez em quando, levar uns tombos pelo caminho (eu sei me levantar!) do que viver sempre em um ambiente feio e hostil, cercado por cretinos e canalhas.

desfiz minhas barreiras. abaixei meus escudos. me expus à dor e ao amor.

sejam gentis.

eu, que vou morrer, os saúdo, que também vão morrer

a historinha abaixo formava a primeira parte do conto quando morrem os pêssegos, do meu livro onde perdemos tudo. foi cortada por entregar fácil demais o tema do conto.

* * *

conta a fábula que um homem estava andando pela mata quando foi atacado por uma onça. ele correu o máximo que pôde e chegou, por fim, a beira de um abismo. no fundo, em um rio, nadavam jacarés esfaimados. atrás dele, a onça se aproximava.

o homem decidiu pular e agarrou-se a um pequeno galho, na parede do penhasco. sobre sua cabeça, a onça rugia de frustração e, abaixo, os jacarés se agitavam, esperando sua queda. com sorte, pensou, conseguiria se aguentar o bastante para que a onça desistisse. depois, tentaria escalar o penhasco de volta.

estava sem sorte. o galho salvador era frágil e começava a ceder sob seu peso; em poucos instantes, se quebraria. não havia onde mais se segurar. na água, os jacarés se animavam.

percebeu, então, uma fruta na ponta do galho, uma jaboticaba de fim de estação. apenas uma. ele pegou a bolinha reluzente por entre os dedos e colocou-a na boca. chupou seu néctar. uma delícia.

* * *

termino o ano de 2012 simplesmente, completamente, head-over-heels apaixonado pela Outra Significativa.

histórias assim nunca têm um final feliz. ou eu termino com ela. ou levo o pé na bunda. ou eu morro. ou ela morre. ou morremos os dois. ou o brasil é tragado pelos oceanos. ou o sol explode. sempre tem alguma merda na próxima esquina.

mas, enquanto isso, antes da queda, pendurados no galho, a gente se diverte.

a jaboticaba está deliciosa.

* * *

estatisticamente, dos meus dez mil leitores habituais, dois vão morrer em 2013.

meu desejo é que não seja nem você e nem ninguém que você conhece.

* * *

outro desejo: que você não seja nunca a pessoa chata que escreveria um comentário pra corrigir a estatística acima, que é claramente um número inventado para fins estilísticos por um autor que mal sabe aritmética.

falando nisso, que deixe de ser a pessoa cri-cri que se incomoda – e pior, corrige! – os erros de português dos outros.

e, nessa linha, que aprenda a não se deixar mais incomodar pelos outros.

* * *

para você, meu desejo de fim-de-ano é que os outros, esse dito inferno sartreano, ao invés de fonte de dor-de-cabeça e aporrinhações, se convertam em fonte infindável de histórias, de sentimentos, de maravilhas.

que, através dos outros, perceba que pode ser uma pessoa melhor, mais bonita, mais humana.

que saia um pouco de si e escute mais, enxergue mais, perceba mais.

que perceba que a vida é muito curta para correr atrás da felicidade e simplesmente viva.

somos todos seres inexistentes que, por um acaso, existem. mas não por muito tempo.

nossa falta de tempo é nossa dádiva.

* * *

esses temas são desenvolvidos nas prisões felicidade, os outros e, especialmente, religião.

leia também só tecido morto não dói e você não tem tempo.

* * *

gostou? meus textos fazem diferença na sua vida? compre um livro ou faça uma contribuição. e eu te agradeço.

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muitos conhecem a frase latina “ave, césar, os que vão morrer te saúdam” dita pelos gladiadores ao imperador romano. poucos conhecem a resposta do imperador cláudio, registrada por suetônio:

ou não.

eu, que vou morrer, os saúdo, que também vão morrer

* * *

estamos todos pendurados no galho. a questão é se você está saboreando as frutas.

feliz ano novo.

as cortinas azuis

roberto e eu morávamos em nova orleans durante o furacão katrina, mas ainda não nos conhecíamos.

eu abandonei a cidade dois dias antes da tempestade e só voltei seis meses depois. ele passou o furacão cuidando de pacientes no hospital universitário, foi evacuado em helicópteros do exército e deixado em uma estrada deserta com as roupas do corpo. dez meses depois, respondeu a um anúncio meu procurando um colega de casa.

moramos juntos por um ano.

formado em cinema e concluindo sua residência médica, roberto me ensinou a malhar direito e comer melhor. ensinou ao oliver, meu poodle sem vergonha e também bravo sobrevivente do katrina, os melhores truques que ele usa até hoje pra seduzir as visitas. para se comunicar com o oliver, que não respondia bem ao inglês, roberto falava “blá blá blá” mas imitando meu sotaque, meu ritmo, minha cadência com tamanha perfeição que o oliver respondia empolgado aos seus comandos.

mais tarde, abrigou por dois meses a cachorrona de uma amiga sua que estava reformando a casa. ginger e oliver se deram muito bem.

ao terminar a residência, roberto decidiu que não queria mais saber de medicina, se candidatou a um posto de professor de inglês no japão e nos mandou procurar outro colega de casa. poucos dias depois de termos fechado com uma nova pessoa, ele soube que inexplicavelmente não tinha sido aceito. queríamos romper o acordo com o outro, para que ele continuasse morando conosco, mas roberto achou antiético. foi morar sozinho.

pelo ano seguinte, trabalhou de médico do trabalho por somente dois dias por semana (para pagar suas gigantescas e massacrantes dívidas estudantis) e, no resto do tempo, se dedicava a buscar um rumo. aprendeu piano, começou a fazer stand-up comedy, fotografou profissionalmente. minhas melhores fotos são dele. ninguém jamais me fotografou melhor, com um olhar tão generoso.

nos víamos com frequência, mas não tanto quanto deveríamos.

quando o furacão gustav forçou uma nova evacuação da cidade, em 2008, liguei para roberto e perguntei quais eram seus planos. evacuações forçadas são excelentes para recuperar contato com os amigos. soube que ele estava de mudança de volta ao texas justamente naquele dia: era uma despedida digna de nova orleans, sempre festeira e intensa, tempestuosa e caribenha.

em austin, decidiu adotar um cachorro e me citou como referência. avisou q talvez me ligassem pra perguntar se seria um bom dono. claro que seria, confirmei.

mas deve ter mudado de planos: dois meses depois, na véspera dos festejos do quatro de julho de 2009, formatou seu computador, doou quase todos seus objetos pessoais, dirigiu até a casa do lago do pai, parou o carro na garagem e ligou um pequeno forninho a gás. bem onde sabia que seria encontrado por toda a família durante o feriado.

roberto morava com a irmã nessa época e ela veio até nova orleans para me conhecer e visitar a casa. conversar e rememorar, aceitar e entender. trabalhar nosso luto. ela disse que eu tinha sido seu último contato humano importante. quando saiu da minha casa, roberto se tornara cada vez mais isolado e deprimido – algo que eu, cego e egocêntrico, não tinha visto nos nossos encontros esporádicos.

a irmã de roberto e eu passamos um fim-de-semana agridoce. comemos, bebemos, passeamos. foi bom ter alguém com quem conversar sobre ele. ninguém chorou.

voltei para o rio definitivamente há poucos meses, deixando para trás meu velho quarto de cortinas azuis.

alguns anos antes, enquanto passava as férias longas no brasil, subloquei meu quarto para uma moça chamada athena, de são francisco. os verões em nova orleans são quentes e batia muito sol no meu quarto de manhã. athena estava vulnerável, recém-saída de um mau relacionamento, e se apaixonou forte por roberto. ele não se apaixonou de volta, mas gostava dela e tentou não feri-la – óbvio que não deu certo. foram amantes de verão. transaram na minha cama e na dele. em algum ponto, talvez em um gesto másculo de carinho protetor, talvez em um gesto egoísta para salvaguardar seu sono, roberto instalou as cortinas azuis.

quando voltei para nova orleans, roberto já tinha se mudado da casa e athena (que nunca conheci) voltara para são francisco. durante os anos seguintes, nas minhas manhãs mais preguiçosas, as cortinas azuis continuaram sempre me protegendo do sol forte.

hoje, a casa tem novos moradores. eles comem e cozinham, dormem e decoram, brincam e brigam. e não fazem ideia que roberto um dia viveu. ainda assim, as cortinas azuis – penduradas com tesão ou egoísmo – os protegem igualmente do sol.

nunca conversei com roberto sobre as cortinas azuis: agora me ocorreu que podem também ter sido um presente pra mim.

* * *

em memória de roberto josé rivera, nascido em 23 de junho de 1976, falecido em 2 de julho de 2009.

temos tempo

quando alguém diz, “não se preocupe, temos tempo”, meus pelos da nuca logo se eriçam. porque nunca, nunca temos tempo. tempo é tudo que não temos. quem diz isso ou está se auto-enganando ou está enganando você.

causa mortis: incompetência

antigamente, morria-se.

a morte, as doenças, a decadência do corpo eram simplesmente inimigos poderosos demais. morrer não era uma derrota ou um azar: era triste, era terrível, era algo a ser evitado a todo custo, mas também era parte da vida.

hoje, não mais. você é que não comeu alimentos orgânicos o suficiente, não se exercitou a contento, não parou de fumar antes dos trinta, se estressou demais. a culpa é nossa: se tivéssemos somente feito tudo o que nos mandam as revistas de saúde (menos ovo nos anos pares, mais ovo nos ímpares) iríamos viver para sempre — como tem de ser! mas fomos fracas, ó vida ó azar, e por isso estamos aqui nessa cama de hospital, ao pé da morte.

pior ainda, a miragem do progresso eterno e irresistível nos promete sempre a solução de todos os problemas, logo ali, na próxima esquina, basta a gente conseguir chegar lá. então, pegar um câncer terminal é não apenas culpa do seu estilo de vida irresponsável mas também, coitado de você, bad timing! que azar! a pfizer está testando agora, hoje mesmo, a droga que poderia te salvar, mas só chega no mercado ano que vem! deu na superinteressante que cientistas de harvard garantem que esse seu tipo de câncer estará erradicado em dez anos, pôxa! se você tivesse comido mais alfafa, caramba, teria aguentado chegar até lá e aí então, claro, não morreria nunca!

afe!

tive a melhor vida que poderia desejar. fiz tudo o que quis na hora que quis. não tenho arrependimentos. não tenho nenhuma palavra por dizer a ninguém.

meu maior medo não é morrer, pois sei que existência tem começo, meio e fim, mas fraquejar e morrer como um bebê chorão. lamentando não ter comido mais anti-oxidantes.

sou ateu porque preciso

confesso: acredito viver no melhor universo possível.

não suportaria existir em um universo regido por uma força divina misteriosa e caprichosa.

não suportaria saber que minha alma viverá eternamente, em eterno prazer ou eterno sofrimento, baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses poucos anos terrenos, de acordo critérios inescrutáveis definidos por um ser para o qual sou menos que uma ameba.

se existe deus, então todos os esforços da humanidade para se entender e se auto-gerir, toda a ciência e toda a filosofia, de nada valem. se existe deus, então não existe ética ou moralidade: somente adequação ou não às regras impostas por essa divindade.

se existe deus e temos o livre-arbítrio, então o arbítrio de livre não tem nada, é uma dádiva da qual só desfrutamos porque nos foi concedida e pode ser tirada tão facilmente quanto.

se existe deus, então a vida não tem nenhum sentido. quem tem sentido é deus e o nosso sentido provém dele. não somos mais do que suas cobaias, manipuladas daqui pra lá, correndo como hamsters em rodinhas, ignorantes de seus verdadeiros propósitos. ao seu bel-prazer, somos mortas, escravizadas, santificadas, até mesmo afogadas em massa, quando falha o experimento.

se deus não existe e o universo é aleatório e sem sentido, a humanidade está livre para criar, através de suas ações e de seus pensamentos, de suas obras e de suas vontades, dia a dia, século a século, o seu próprio sentido.

por outro lado, se deus existe, o universo já tem sentido, um único sentido, o sentido que vem de deus, o sentido que está dado, e só cabe a nós descobrir esse sentido e viver de acordo com ele.

se deus existe, não há criação de sentido possível. não temos como ressignificar o mundo, a humanidade, o cosmos. não temos como dar sentido nem a um botão de rosa.

para mim, esse sim é um universo no qual não valeria a pena nem sair da cama.

* * *

talvez deus realmente exista. talvez sejamos todas somente marionetes em seu projeto cósmico.

mas, ainda assim, prefiro inverter a aposta de pascal. se não tenho a liberdade de dar sentido à minha vida, melhor então a ilusão da liberdade do que nada.

* * *

sou ateu não por ter concluído, após cuidadosa análise das evidências empíricas, que não existe base factual para sustentar a existência de deus.

sou ateu porque eu só poderia existir e funcionar como ser humano em um universo sem deus.

sou ateu porque preciso.

a gente não acredita no que quer, a gente acredita no que pode.

* * *

algumas pessoas às vezes me perguntam:

“então, você está vivo para quê?”

“para nada,” eu respondo. “para absolutamente nada. só estou vivo. não basta?”

a pessoa insiste:

“qual é o sentido da sua vida, então?”

“nenhum”, eu respondo. “absolutamente nenhum. só estou vivo. não basta?”

algumas vezes, a pessoa desafia:

“então, por que não se mata?”

além de ser uma pergunta agressiva e mal-educada, confesso que nunca entendi bem essa provocação. é como se eu estivesse gostosamente me balançando em uma rede e alguém perguntasse:

“se você sabe que vai ter que levantar daí inevitavelmente, por que não se levanta agora?”

mas a resposta me parece simples e auto-evidente:

“eu não me levanto agora porque agora estou muito bem aqui me balançando na rede.”

então, não me mato agora porque agora estou muito bem aqui vivo, comendo pipoca e me masturbando, indo à praia e lendo freud, essas coisas que uma pessoa faz quando está viva. não me mato porque quero ler o próximo romance do lobo antunes e ver o próximo filme do almodovar. não me mato porque tenho pelo menos umas quatro peças de teatro e uns cinco romances na cabeça que ainda quero escrever.

mesmo em um universo aleatório e sem deus, por que essas prosaicas razões não deveriam ser suficientes para uma pessoa não se matar?

quando chegar a hora de levantar, eu levanto. quando chegar a hora de morrer, eu morro.

até lá, aproveito.

* * *

uma amiga me perguntou:

“como alguém, um ser humano, consegue suportar a ideia de que, a qualquer sopro malfadado do destino, pode morrer e simplesmente sumir? nunca mais sentir, amar, sorrir, brigar, pensar, existir? … para a minha pobre consciência simplesmente e inadmissível deixar de existir.”

mas… se tudo acaba, se até mesmo o sol vai acabar, por que seria justamente eu a não acabar nunca? por que eu seria tão importante assim? aliás, por que a questão da minha existência seria minimamente importante? por que eu deixar de existir é mais ou menos dramático do que um coelho deixar de existir?

passei a existir no momento no tempo que convencionamos chamar de 1974 mas, antes disso, eu não-existi por um período literalmente infinito. e não foi ruim. não doeu. não foi desagradável.

muito em breve, voltarei a não-existir por um período infinito de tempo. se não era ruim antes, por que seria ruim depois? por que ter medo de voltar a um estado que já experimentei e que não foi ruim?

na verdade, considerando o tempo que passamos existindo e o tempo que passamos não-existindo, nosso estado natural é a não-existência.

existir seria apenas um breve soluço, um glitch, um bug, dentro de uma perfeita, plena e eterna condição de não-existir.

somos todos seres inexistentes que, por um acaso, existem.

mas não por muito tempo.

o porta-retratos sem retratos

dormi recentemente na casa de uma moça formada em letras. havia um porta-retratos vazio na estante.

em algum momento, presumo, a moça abriu o porta-retratos e retirou dali seja a foto antiga (amigo estremecido? ex-namorado?) ou foto genérica que veio da loja.

então, com o porta-retratos aberto em sua frente, ela poderia ter simplesmente já colocado uma nova foto (amiga recente? sobrinho recém-nascido?) ou guardado o porta-retratos em uma gaveta à espera de momentos recordáveis.

ao invés disso, ela fechou o porta-retratos sem retratos e o colocou, montado, de pé, em lugar de destaque em sua estante. para todo mundo ver o nada. como se fosse o próprio vazio aquele ente querido cuja imagem ela quer preservar, acarinhar, rever.

* * *

um dos livros mais importantes da minha vida é o mumonkan ou, em português, a porta sem porta.