não existe originalidade

somos sete bilhões de pessoas vivas e muitos bilhões de pessoas mortas: qualquer coisa a meu respeito que me pareça mais original, mais única, mais minha… já foi feita por muitas dessas pessoas.

minha percepção da minha própria originalidade é diretamente proporcional a minha enorme ignorância em relação a essas outras pessoas.

ser criativo não é ser original: ser criativo é roubar o mínimo possível do máximo possível de pessoas.

uma moça chamada lisa

lisa era pobre mas tinha um nome importante. o seu marido era rico, bem mais velho, mas não tinha nome. casaram. para marcar sua ascensão social, encomendaram um retrato da esposa, então com vinte e poucos. ela posou para o pintor diversas vezes ao longo de anos. ele fazia de tudo para distraí-la e manter sempre um sorriso em seus lábios. (como seria a convivência entre os dois? do que conversavam?) o pintor não ficou satisfeito com o quadro. nunca recebeu o dinheiro da comissão, nunca entregou o quadro inacabado. quando se mudou de cidade, levou o quadro junto. não sabemos a relação do casal com o quadro que encomendaram, não pagaram, não levaram. será que viram? devem ter vivido suas vidas sem pensar muito nisso. lisa teve 5 filhos e morreu aos setenta e poucos. hoje, 500 anos depois, ela talvez seja o rosto humano mais famoso de todos os tempos.

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é arte

quando realizei um encontro “as prisões” em belém, fui entrevistado pela versão local do “sem censura”, programa ao vivo.

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tem uma pessoa do outro lado da crítica

sobre o trabalho de artistas vivas, eu só falo coisas boas. as ruins, eu calo.

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“meu texto é bom?”

um texto só pode ser bom em função do seu objetivo. aquilo que “sai pronto de você” “em um jato de inspiração”… é urina.

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a arte melhora uma cidade

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em el bolsón, na patagônia, existe uma tradição local de artistas entalharem imagens em árvores mortas.

para melhorar a cidade.

inhotim

o inhotim, um parque-museu perto de belo horizonte, é meu lugar favorito no mundo.

na foto, por laura de las casas, eu e meu caderninho dentro do desert park (2010) de dominique gonzalez-foerster.

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quem não é ficcional?

nunca é demais lembrar: sou um autor de ficção.

tudo o que escrevo deve ser tratado como ficção: eu invento fatos, eu invento pessoas, eu invento livros, eu invento citações.

é isso que faz um autor de ficção.

qualquer informação que você saiba por mim deve ser conferida em uma fonte independente antes de ser passada adiante.

então, quando você aprender a fazer isso comigo, passe a fazer isso com todas as informações que você receber de qualquer pessoa.

porque, no fundo, na prática, somos todas autoras de ficção, imersas em nossas pequenas realidades, inventando que somos aquilo que nunca seremos, criando narrativas com base em nossas esperanças e preconceitos.

* * *

leia também a prisão verdade.

não existe artista charlatão, existe mau artista

de vez em quando me perguntam:

“alex, você não acha que fulano é um charlatão?”

e respondo:

“como assim charlatão? você está me perguntando se ele é um fingidor, se está fingindo ser artista? mas faz sentido uma pergunta que já sugere um julgamento de valor NÃO sobre a produção artística da pessoa mas sobre suas intenções, sobre sua essência? como eu vou saber se ele é charlatão ou não? não é mais fácil, mais justo, mais objetivo simplesmente julgarmos o valor da obra que essa pessoa de fato produziu?”

* * *

por que esse discurso só existe nas artes plásticas e na literatura?

muita gente não gosta de jorge vercilo, mas ninguém diz que ele não é músico, que não é cantor, que é um charlatão, que é um fingidor.

entretanto, muitas das mesmas pessoas, para criticar um romero britto ou um paulo coelho, imediatamente lhes cassam a carteirinha de artista:

“esse aí é um charlatão!”

* * *

a obra de qualquer artista está no mundo para ser usufruída e avaliada.

mas uma coisa é considerar que fulano é um mau artista porque sua obra tem esses e aqueles problemas.

outra coisa, bem diferente, é nos darmos ao direito e à autoridade de afirmar categoricamente que fulano não é artista.

existem mil maneiras válidas de se criticar o trabalho de um artista. cassar sua carteirinha de artista é a pior delas.

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receber todos, procurar ninguém

aos 12 anos, decidi que seria escritor.

não apenas escritor, mas escritor de ficção.

ou seja, artista.

para mim, artista era aquela pessoa que, ao mesmo tempo em que se colocava à disposição de seu público, com a generosidade e com a abertura de receber muito bem a todas as pessoas que a procuravam, também era autônoma e autossuficiente: quando não era procurada por ninguém, aproveitava para mergulhar na criação e na produção de seus muitos projetos.

hoje, percebo que vivi os últimos trinta anos assim:

nunca procurando ninguém, buscando sempre receber bem quem me procura.

continua sendo o meu mantra.

continuo aberto à visitação.

* * *

se meus textos tiveram impacto em você, se usa meus argumentos para ganhar discussões, se minhas ideias adicionaram valor à sua vida, por favor, considere fazer uma contribuição do tamanho desse valor.

assim, você estará me dando a possibilidade de criar novos textos, produzir novos argumentos, inventar novas ideias.

e que machado te abençoe.

mecenato eu dei

torne-se mecenas.

por quem choram as carpideiras de stalin

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quando stalin morreu, as próprias pessoas que ele tiranizou durante décadas, que tiveram entes queridos mortos pelo ditador, foram às ruas, trincando os cabelos e arrancando os dentes, numa dor intensa, num luto desesperado.

muita gente do lado de cá da cortina de ferro não entendeu, acharam que elas talvez estivessem sendo vigiadas, que fingiam o luto para não serem perseguidas pela kgb, etc.

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mas a questão não é de afeto, é de grandeza:

se até uma figura tão sobre-humana pode morrer…

então, que chance EU tenho?
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olha-me, e olha-te bem

epitáfio de gil vicente, um dos grandes escritores da nossa língua, reinventor do teatro:

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O grão juízo esperando,
jazo aqui, nesta morada
também da vida cansada,
descansando.

Pergunta-me quem fui eu,
atenta bem para mi,
porque tal fui, como a ti,
e tal hás de ser como eu.

E pois, tudo a isto vem,
ó leitor de meu conselho
toma-me por teu espelho,
olha-me, e olha-te bem.

auto-promoção

algumas pessoas reclamam minha “auto-promoção”.

entendo que às vezes pode ser frustrante e incômodo, mas, infelizmente, é o preço da independência.

não tenho emprego. não tenho renda. não tenho contracheque. não pertenço a nenhum grupo, clube, organização. não tenho acesso às grandes editoras, aos grandes veículos de mídia. (nada disso é reclamação: sou assim porque ESCOLHI ser assim.)

ganho a vida vendendo meus próprios livros, dando minhas próprias palestras, vendendo meus próprios textos. os livros não podem ser encontrados em livrarias, as palestras não tem a chancela de nenhum “instituto”. tudo independente, tudo na minha mão. tudo pela internet, tudo pelo meu site, tudo pelo meu facebook.

sou sempre só eu. aqui. sozinho. acompanhando somente pelos leitores que me seguem.

odeio ficar me auto-promovendo. é pesado, embaraçoso, chato.

mas já fiz vários testes: se passo um mês inteiro sem falar do meu romance “mulher de um homem só”, vendo pouquíssimos exemplares. se faço alguns posts sobre o livro, vendo dezenas. e etc e etc.

se você, pessoa leitora querida, tem um emprego certo e uma renda segura, não faça pouco de um pobre artista independente, que começa o mês sem saber de onde virá seu próximo dinheiro, cuja renda depende quase unicamente da quantidade de auto-promoção que ele faz dos seus próprios livros e eventos.

a escritora afro-americana alice walker dizia: quem exige seu silêncio não é seu amigo.

eu concordo e completo: quem critica o seu único jeito de ganhar a vida também não.

* * *

sobre a vaidade e auto-promoção dos artistas.

do balé ao funk, entre nazistas e aiatolás

faz cem anos da primeira apresentação do balé sagração da primavera em paris. com música de stravinski e coreografia de nijinski. um dos eventos que inauguram o século vinte nas artes. houve brigas na platéia. testemunhas dizem que nem se conseguia ouvir a música. talvez o ponto alto da história do balé, em uma época na qual balé ainda conseguia causar escândalo.

nos nossos dias, balé virou sinônimo de balé clássico. palavra odiosa essa. clássico. clássico nada mais é que um outro nome para algo morto e estático, que não cresce e que não muda, que imita um passado longínquo sem conseguir nem alcançá-lo, nem criar algo diferente. uma diversão segura e refinada para burgueses bem-alimentados aumentarem seu capital cultural — ao mesmo tempo em que apoiam a decisão da polícia militar de proibir os bailes funk nas comunidades pacificadas.

no ocidente de hoje, beethoven pode até ter virado música de elevador, mas suas obras ainda são proibidas no irã. claramente, os aiatolás vêem uma força transgressora em beethoven que já não enxergamos.

talvez apenas entendam mais de arte do que nós.

nijinski

* * *

essa noite, vou assistir sagração da primavera no teatro municipal. tentando ter em mente todo o seu potencial escandaloso. tentando vê-lo pelos olhos de quem formou sua consciência artística no século xix. tentando vê-lo como meus amigos hoje veem o funk.

* * *

um dos mais brilhantes livros de história que já li: “a sagração da primavera: a grande guerra e o nascimento da era moderna“, do historiador canadense modris eksteins.

começando com a primeira apresentação de sagração da primavera em 1913, passando pelo trauma da primeira guerra mundial, e culminando na ascensão do nazismo, eksteins traça a criação da nossa consciência artística moderna.

para eksteins, o nazismo é antes de mais nada um movimento artístico. e tudo começa com a sagração da primavera e nijinski dançando ao som de stravinski.

a genialidade da obra está na maneira como eksteins faz essa ponte.

recomendo.

a holandesa que pintava sorrisos

"the jolly troper" (1629) de judith leyster
sobre o quadro acima, “jolly troper” (1629), e os sorrisos na pintura:

This last painting — this plump, gregarious man — it struck me. It looks like a bad Photoshop job. It looks like a botched anachronism. The man’s tunic, hat and vessel look early modern, but his face looks like a caricature from the 20th century. I half-expected him to be some 1940s character actor, a face grafted onto a 1620s body.I think it has to do with his smile. You don’t see smiles like that in portraits. … But I’m not used to seeing smiling subjects set in the past to be, truly, envoys from and creations of the past. Without ever planning it, smiles became little historical wayfinding aids: A big, happy, drunk dude like this, his face like a stylized photograph, has to be post-1900. (fonte)

* * *

sobre a vida e os quadros de judith leyster:

* * *

depois de casar e ter filhos, a pintora de pessoas felizes não pintou mais.

como tantas outras mulheres talentosas ao longo da história, judith não tinha (na expressão de virginia woolf) “um teto só para si”.

nas palavras da fotógrafa claudia regina:

“No seu texto “Um teto todo seu”, Virgínia Woolf descreve por que seria impossível para uma hipotética irmã de Shakespeare escrever de forma genial como ele. Woolf diz:“quando lemos sobre uma bruxa sendo queimada, uma mulher possuída por demônios, uma mulher sábia vendendo ervas… acho que estamos olhando para uma escritora perdida, uma poeta anulada.”Desde o início do patriarcado, há cinco mil anos, as mulheres não tiveram liberdade suficiente para serem cientistas ou artistas. Woolf explica:“liberdade intelectual depende de coisas materiais. … E mulheres foram sempre pobres, não por duzentos anos, somente, mas desde o início dos tempos.”Esse argumento não serve somente para mulheres: negros, pobres e outras minorias não poderiam ser geniais poetas pois, para isso, é necessário liberdade material.”

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um beijo em você, judith.

amor vândalo

amor vândalo.

amor vandâlo.

preliminares

pra fazer literatura, não é preciso ser inteligente, articulada, embasada. na literatura, tentamos criar sensações na outra: fazer rir, chorar, sentir medo. é como o sexo, onde você estimula o corpo da parceira, buscando aqui uma cócega, ali uma mordida, quem sabe uma arranhada, talvez uma lambida. é uma atividade quase física que não requer nenhuma inteligência, apenas sensibilidade.

a literatura é uma carícia no clitoris.

compromisso público

não sou guru, coach, terapeuta. não escrevo auto-ajuda.

não quero te convencer, não quero que você mude, não te digo o que fazer, não aponto dedos na sua cara, não te acuso, não te peço para concordar comigo.

não sou melhor que você, não levo uma vida melhor que a sua, não vendo meu estilo de vida.

não debato, não respondo provocações, não me irrito.

agradeço a atenção de quem me lê e, para quem acompanha e gosta, se não for fazer falta, peço uma doação correspondente ao valor que adicionei à sua vida:

www.alexcastro.com.br/mecenato

entreouvido hoje em uma discussão sobre arte contemporânea no inhotim:

“esse negócio de estar vivo é muito mainstream!”

explicando a arte contemporânea

inhotim. as cosmococas são cinco instalações interativas de hélio oiticica e neville d’almeida, uma obra para interagir, contemplar, literalmente entrar na arte.

a sala cosmococas 2, “onobject”, tem chão de espuma grossa (onde é difícil andar sem afundar), e objetos geométricos, também de espuma, espalhados pelo chão: cones, cilindros, cubos, esferas. ouvem-se músicas do álbum solo de yoko ono. ocasionalmente, um telefone toca. as luzes estão apagadas e imagens são projetadas em duas das quatro paredes da sala: fotos de yoko, capas de livros.

CC2 ONOBJECT, de 12 de agosto de 1973.

a Outra Significativa e eu estamos deitados na espuma, em um canto, agarradinhos.

de repente, entram dezenas de crianças, uma turma inteira em excursão, já alucinadas, correndo e afundando e pulando na espuma, jogando os objetos geométricos contra as outras, chutando, uma verdadeira força da natureza. (neville e oiticica teriam ficado orgulhosos.)

o primeiro menino a penetrar mais fundo na sala escura topa comigo e com a Outra, ambos encolhidos no chão, tentando evitar chutes e objetos voadores, e trava, visivelmente surpreso:

isso é de verdade?!“, exclama.

arte contemporânea é isso. literalmente. é esse “isso” dito pelo menino surpreso.

* * *

texto escrito no café do teatro, em inhotim, que já é meu lugar preferido do brasil, apesar (talvez por causa) de todas as suas flagrantes contradições. leia mais sobre o inhotim e sobre as cosmococas.