A Falta dos Violinos

25 fevereiro, 2010 § 0

Linda, inteligente, grande amiga, não-blogueira, Alessandra Souza também escreveu um não-post em seu não-blog sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:

O que eu mais gostei no RRR é a total ausência de trilha sonora de violinos. Sabe, aquela música triste que a gente sempre ouve na parte dramática dos filmes? Em nenhum momento, nem os que descrevem os aspectos mais difíceis da vida dos mais maltratados dos cubanos, minha cabeça produziu a trilha dos violinos tristes.

Isso porque, mesmo que seja de certa maneira “um retrato verdadeiro e sem disfarces da vida cubana e do sofrido, porém digno e corajoso povo de Cuba”, eca!, o livro é divertido. Muito divertido. Mais ainda se você conhece o Alex e consegue imaginar ele se passando por cubano na fila da sorveteria, paquerando a bibliotecária ou – a melhor de todas – aplicando o “contrajineteio” (tem que ler para entender).

Claro, se você precisa conhecer o autor para aproveitar a obra, é sinal que o livro não é tão bom assim. Apesar do que eu acabei de dizer, RRR não tem esse problema. Ele vale pelo que é: o relato da viagem de uma pessoa inteligente, observadora, mundana e praticamente sem vergonha na cara para um lugar que já é especial por várias razões.

Ainda por cima, o livro está lindo. Sério mesmo, a edição ficou o máximo, cheia de fotos ótimas que o Alex tirou por lá e é muito confortável para ler na tela ““ isso porque eu não gosto de ler nada mais longo que um conto no computador. Recomendado.

E então? Vai ficar só você sem ter lido?

Ah, e não conhece o não-blog da Alessandra, eu recomendo.

Chato, Crítico e Cínico

25 fevereiro, 2010 § 0

O simpaticíssimo Doni leu meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas e me fez elogios que me deixaram emocionado:Radical Rebelde Revolucionário

Cuba é a prova cabal de algo sobre as pessoas que eu, lento que sou, só fui aprender após alguns semestres de Psicologia: a grande maioria de nós apenas vê aquilo que quer ver. Os fatos não importam nada, pois haverá quase sempre um filtro moral ou ideológico que nos impedirá de enxergar mesmo. Ruim? Eu acho, mas a maioria de nós precisa disso, das verdades mastigadas que tornam a vida mais simples. Afinal, é muito mais fácil lidar com a dicotomia “nós x eles” do que com o absurdo da nossa imprevisibilidade.

Meus conhecidos “de esquerda”, mesmo quando voltam de visitas a Cuba, apenas falam das maravilhosas conquistas da revolução, de como aquele povo sofrido conquistou a dignidade, a igualdade e o direito de andar de cabeça erguida. É a terra prometida aos filhos de Trotsky. Já os “de direita”, você sabe, vão atentar para o fato de que o regime de Fidel Castro nada mais é que uma ditadura e que a população é sufocada em sua liberdade de expressão e etc. Os debates são como brigas de torcida, onde apenas valem as crenças e preconceitos de cada grupo, naturalmente melhores e verdadeiras.

Alex Castro é outro tipo de pessoa, tão ou mais irritante que os já citados, para ser sincero. Seja ele visto como um liberal libertário ou como um rebelde revolucionário, ele na verdade é um chato, crítico e cínico. É exatamente por isso que eu o acho a pessoa mais “confiável” para falar sobre Cuba, por mais que ele mesmo deixe claro já no início de seu livro Radical Rebelde Revolucionário que talvez nada do que ele relata nas 155 páginas seguintes seja verdade. É um bom começo.

Alex é curioso por natureza. Sua “vida burguesinha entre os shoppings da Barra da Tijuca” poderia tê-lo transformado no turista padrão, incapaz de ir além de seu mundinho, mas o leitor poderá perceber em diversos momentos que por mais que o ato de viajar seja custoso para ele, desconfortável, mais desconfortável ainda é não saber, não conhecer a fundo as pessoas. Assim, ele se torna um descobridor de histórias e de contradições.

A Cuba descrita em seu livro é feita de relações humanas, econômicas e afetivas, e não há maneira melhor de se estudar um povo. A narrativa é irônica, mas não sabemos se a ironia é a típica do autor ou está nas situações: Antes, gritavam aos exilados: “traidores!”. Hoje, o grito é outro: “trae dólares!”.

Tudo é paradoxal em Cuba. Meu momento favorito é quando ele fala de como é a imprensa estatal: “noticiar crimes, por exemplo, não está entre as tarefas de uma imprensa revolucionária. Poderia haver um serial-killer solto em Havana, com havaneiros tropeçando em corpos para chegar à banca de jornais, e não haveria nem uma linha sobre isso no Granma”. E de como o povo lida com isso: “Talvez vocês não tenham percebido a enorme ironia da situação. Se Cuba tivesse um povo largamente ignorante e semi-alfabetizado (como o brasileiro, por exemplo), pode até ser que engolissem tudo o que o governo diz. Entretanto, esse mesmo governo educou brilhantemente sua população no método científico, no materialismo dialético e no pensamento crítico. Ou seja, a prova de que a educação estatal funciona é justamente o fato de a população não acreditar na imprensa estatal”. Perfeito até ao falar do Brasil. Alex criou um livro cheio de belas referências, crítico, mas também poético e belo: “mãe, o moço quer tirar fotos dos meus pés. Tem problema?”.

A conclusão? “Alguns estrangeiros ignorantes ou preconceituosos dizem que não tem nada em Cuba. O governo diz que tem de tudo. A verdade está no meio”. O gostoso mesmo é compartilhar com ele cada uma das situações que o fizeram chegar a essa verdade, ou ilusão, quem sabe?

Obrigado, Doni! E você? Não vai ler?

Por Que Che Não Escreveu Isso Antes?

25 fevereiro, 2010 § 0

Meu hilário amigo Adaílton Persegonha, do Leite de Pato, também escreveu seu depoimento sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:Radical Rebelde Revolucionário

Pronto, lá vem Titio Persegonha falar mal de comunista outra vez”¦ Bom, apesar de eu achar que isso seja função social de quem não toma sorvete pela testa, não é nada disso. O blog é do meu caro amigo Alex Castro. De liberal, libertário e libertino (não necessariamente ordem) a radical, rebelde e revolucionário há uma grande distância. Não para a pena de Alex.

Alex foi a Cuba. E de lá nos trouxe as suas deliciosas, saborosas crônicas cubanas (não tão saborosas quanto Annie, sua companheira de viagem, presente no livro, mulher pela qual qualquer um se apaixona à primeira lida). E o legal de seu texto é exatamente a forma de descrever o dia-a-dia da ilha de Dom Fidel. Sem carregar nas tintas ideológicas – tanto para um lado, quanto pro outro. É um livro para aturdir esquerdistas e direitistas.

Foi com enorme prazer que li os originais do livro de Alex. Aliás, faltam algumas páginas, mas o desfilar de seus personagens reais, a paisagem de um país perdido entre o presente, o passado e um futuro sempre incerto, as confusões de suas diversas moedas, sua crítica ácida (e ranzinza no meu modo de ver) do turismo sob a batuta do seu imenso poder de observação e objetividade me fizeram ter um sonho: ver este livro lançado em território cubano!

Valeu, Persegonha! Agora só falta você comprar.

Por Um País Imperfeito

25 fevereiro, 2010 § 0

Resenha do meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas, por Luana Chnaiderman de Almeida, publicada em seu blog:Radical Rebelde Revolucionário

A difícil arte da viagem

Não há nada mais difícil do que sair de casa. Mesmo para aqueles que dizem que amam viajar, que são despreendidos e não sentem saudades nem falta de nada e que dizem chegar em qualquer lugar e se adaptar totalmente, é sempre difícil sair de casa. Sair de verdade. E casa, aqui, pode ser tomada no sentido de espaço privado, doméstico, conhecido, domesticado, obediente. Em casa sabemos quais são as regras, os gostos, as expressões. Podemos antecipar reações, calcular riscos. Sair de casa, para valer, significa estar num espaço que não é seu, em meio a códigos não dominados, estar aberto a surpresas e ao desconhecido. A entrada nesse espaço pode ser violenta ou suave, mas ela nunca é fácil. É como a primeira noite com um homem. Há um momento de re-conhecimento, de si e daquele que está a sua frente. Não é à toa que a antropologia discute esse tema sem parar. E esse é um dos temas do novo livro do Alex Castro.

Pode-se dar uma volta ao mundo, sem que se saia de casa. Nos casos mais drásticos, aqueles que conhecem o cardápio inteiro do McDonald’s de todos os países que visitaram; aqueles que colocam roupa de safári para andar pelo Rio de Janeiro; aqueles que simplesmente, não se abrem para novas experiências e não aprendem nem a falar obrigado e bom dia na língua local. Em casos mais disfarçados: aqueles que olham para o mundo sempre em termos de comparação, vangloriando-se de si próprios, e não alteram um dedo mindinho para conhecer, de fato, o outro. E saem de casa, passam por outras casas, e estão sempre no mesmo lugar. O livro Radical, Rebelde, Revolucionário é um relato de um viajante pesquisador, que um pouco por obrigação de ofício e um pouco por natureza pessoal, saiu de fato de casa. E foi passar um mês em Cuba.

O viajante intelectual, o viajante cronista.

Essa é a espinha dorsal do texto. A viagem começou antes do avião, bem antes. Não somente no fazer do projeto que justificasse uma viagem de estudos paga, mas no mergulho em filmes cubanos, na escuta diária de rádios cubanas, da leitura sistemática de romances cubanos. O trabalho do intelectual é sempre um trabalho bastante difícil, apesar da boa vida que esses caras levam. É difícil porque se não há essa disposição do sair de casa, o trabalho está condenado à mediocridade. Me explico melhor: se ao terminar a tese, o doutorando estiver achando e pensando as mesmas coisas que pensava e achava ao iniciá-la, o trabalho não foi bom. O intelectual sério permite ser alterado por seu objeto de estudo, mergulha nele, torna-se, também, objeto do objeto.

Se o cara for estudar Homero, tem que saber grego. Não somente saber, deve ler com fluência, ter no coração ( e como perdemos sempre o significado mais belo do verbo decorar) passagens inteiras, conhecer as personagens como se fora amigo íntimo de todas elas. Além disso, vai ter que dar conta do que já se escreveu sobre Homero, das principais linhas interpretativas, dos debates existentes, e assim por diante. Pois bem, uma parte significativa do trabalho de doutorado desse viajante será sobre a literatura cubana no século XIX. Para a frustração do historiador, não há como ir ao século XIX, mas dá para ir à Cuba, e ler os romances, e ler os jornais, freqüentar as bibliotecas e conhecer as gentes. Para a satisfação da pessoa, o lugar é o máximo, e o escritor também tirou seu pitaco da experiência e escreveu esse relato de viagem, que deu no livro.

Da inverossimilhança da história:

Antônio Candido fala que a verossimilhança da literatura é dada pelos detalhes. Quanto mais detalhes aparecem, mais as personagens, lugares, paisagens tornam-se passíveis de existência para a cabeça do crédulo leitor. Alex Castro nos avisa:aqui, tudo é ficção, tudo é inventado, pois “a história de Cuba é impossível demais para ser verdade“. Como o livro é cheio de detalhes, tolinhos, lemos como se fosse verdade, e algumas partes até emocionam.

E a história inventada não é a história de Cuba, nem a história das pesquisas feitas, embora elas apareçam um pouco também. A história inventada é a de um lugar onde chove todos os dias, tempestades de dez minutos, o povo se abriga nas marquizes e depois volta a viver suas vidas. Onde é impossível andar estando seco, onde as pessoas fumam charutos que desafiam a lei da gravidade, onde não se encontra bacon, e o jornal é usado para limpar a bunda. Lugar de um sistema monetário completamente doido, que o Alex explica bastante mas que eu não entendi direito até agora. Lugar onde a todo momento se é abordado, por jineteros, polícia… onde se anda livremente pelas ruas às três da manhã, sem medo de assaltos ou violências. Histórias de amizades, de andanças, da ida a um balé, das casas, dos encontros e das pessoas que o Alex encontrou e conheceu.

Uma história de amor.

Há no livro inteiro um sabor acridoce, não se trata somente das belas histórias do povo cubano. Pois o Alex também escapa da armadilha que seria escrever esse livro como um libelo pró ou anti Cuba. Se os esquerdistas mais ferrenhos não vão gostar, os direitistas também torcerão seus narizes. O cronista é ponderado e, se enxerga poesia no fato de que os antigos palacetes são agora habitados por uma população negra e pobre, escreve a dado momento que visitar Cuba é como visitar uma prisão; ele, viajante, pesquisador, tem uma liberdade que seus amigos cubanos não possuem. Assim, em meio ao povo culto, a pobreza e escassez de recursos; em meio à simpatia e acolhimento, a obrigação de anotar em caderninhos todos os que entram e saem… O tempo inteiro os relatos oscilam entre o doce e o amargo.

Voltemos à cama, ao tal do primeiro encontro. Pode ser que os corpos se estranhem, que um queira ir para um lado, outro para outro. Que o início seja difícil mas convide a uma nova tentativa. Que portas sejam abertas. Alex Castro foi conhecendo as ruas, casas e pessoas de Havana como quem conhece uma mulher. E o livro trata da história de um amor crescente. Não idealizada, repito. Uma mulher sofrida, envelhecida, em suspense absoluto quanto ao futuro; uma mulher dividida, uma mulher bela, de históriaRadical Rebelde Revolucionário singular. Como ele é generoso, e a favor do relacionamento aberto, divide essa mulher com a gente, dá dicas, orienta, conta segredos e ainda mostra fotos.

E ao lermos, crédulos, até acreditamos que essa mulher existe. Vale a pena conhecê-la, trata-se de uma bela viagem, para uma casa muito diferente, de fato, da nossa. Entremos.

Olha, se essa resenha não te fez querer comprar o livro, então desisto! Obrigado, Luana, você é linda!

Havaneiro Honorário

25 fevereiro, 2010 § 0

Radical Rebelde RevolucionárioAna Lucia Araujo, acadêmica, pesquisadora, blogueira e amiga, escreveu uma linda resenha sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:

Narrado na primeira pessoa, o primeiro elemento positivo do livro é que ele é totalmente em sintonia com o formato escolhido: o e-book. As crônicas são curtas, tem ritmo, você pode lê-las na ordem que quiser. Elas podem ser vistas como capítulos de um relato de viagem. Estão ali quase todos os elementos desse sub-gênero, que tem geralmente três modos de enunciação : o comentário, a descrição e a narração. O comentário seriam todas aquelas explicações que o autor dá muitas vezes citando datas, estatísticas, fatos históricos. As informações do “comentário” (onde às vezes o autor pode se pronunciar sobre algum tema importante) podem ser recolhidas pelo autor durante a estadia no lugar visitado, mas geralmente elas são de segunda mão, algo que ele leu em outros livros ou que tomou de outros viajantes. A descrição é o ato de descrever paisagens, objetos, pessoas : cores, formas, etc. A narração seria tudo aquilo que releva da ordem da experiência, se trata principalmente de contar ações, que se desenvolvem no tempo.

O Alex não caiu na armadilha de abusar dos comentários longos e enfadonhos (como essa resenha) sobre Cuba. O leitor que tiver interesse em conhecer mais sobre a história de Cuba, que procure as centenas de livros escritos por historiadores, sociólogos e outros que passaram anos a estudar o assunto. Sim porque não existe nada mais cansativo que ler um romance onde o autor encantado pela pesquisa de duas semanas que realizou na biblioteca pública municipal de Quixeramobim sobre plantação de abacaxis resolve começar a dar entrevistas sobre plantação de tomates. O Alex não precisa disso e o leitor agradece. Sendo assim, o comentário aparece aqui e acolá, mas ele se mistura bem com a descrição e o relato das experiências vividas.

Aliás, não suporto esses romances históricos que param a ação para o autor gastar onda de quanto pesquisou. O Xangô de Baker Street, por exemplo, poderia ter sido bom se não a ânsia do Jô (ou do estagiário que fez a pesquisa com ele) de enfiar no livro cada informaçãozinha que ele descobriu.

Para esse livro, eu tentei dar todas, ou quase todas, as informações mais históricas e chatinhas nos primeiros dois capítulos, e deixar o resto do livro só para as crônicas. Demorei duas semanas pra escrever esses dois primerios capítulos e duas semanas para escrever o resto do livro. É difícil escrever um texto tão informativo sem ser chato ou seco. Na verdade, foi tão difícil que eu estava quase achando que esse livro não iria rolar.

Para descrever a Havana de 2007, ele usa o recurso da analogia, comparando Cuba com regiões que também tem na sua história um passado escravista, como Rio de Janeiro, Atlanta, New Orleans. É claro que isso é possível porque o autor conhece os lugares do qual ele fala, não se trata de informação livresca e não se trata então de relato de marinheiro de primeira viagem. No meio da descrição e do relato, além da analogia uma outra maneira de contar suas experiências é apelar para as lembranças do passado, de outras viagens, de outras pessoas que encontrou. O relato é cheio de personagens e mesmo se eles aparecem numa única crônica eles são bastante ricos: Annie, a companheira de viagem “gringa” bonita; Dionisio, o chileno malandro que “odeia os cubanos”; Leonardo, o cubano negro, bonito, honesto e apaixonado; Cándido, o Bozó (porque até em Cuba tem Bozós “eu trabalho na tv tá legal?”; Dolores, a bibliotecária sexy e muitos outros.

“Em Cuba, falta de tudo, menos justiça poética.”

As experiências relatadas nas crônicas tocam em temas que foram bastante delicados para a Revolução cubana, entre os quais as mulheres e os homossexuais, e em outros temas que fazem parte da realidade cubana principalmente depois do começo dos anos noventa, como a prostituição. Na crônica Os Jineteiros o que era pra ser dramático fica engraçado, mas sem ser machista ou caricato.

Alex Castro observou o cubano mas também o turista gringo que ele critica por andar em terra estrangeira vestido como se fosse para um safári. O autor, além de narrador também vira personagem de histórias que nem sempre são coroadas de sucesso e Castro brinca com a sua dupla identidade de brasileiro/estrangeiro/turista, mas que ao mesmo tempo é latino-americano e pode em várias situações se passar por um nativo na fila pra comprar sorvete, na livraria, no mercado. Como todo bom viajante que “conta um conto e aumenta um ponto”, o narrador-personagem não deixa de se gabar por conseguir comprar produtos com preço local. Sua “cara-de-pau” acaba trazendo muitos dividendos, inclusive o Radical Rebelde Revolucionáriomelhor elogio que um turista-viajante pode receber de um nativo : “Alexandre, já podes se considerar um havaneiro honorário!”

Por todas essas razões vale a pena ler Radical, Rebelde e Revolucionário. Além de conhecer um pouco sobre Cuba, você vai dar boas risadas. Não preciso nem dizer que algumas crônicas vão servir de material para estimular a discussão na minha aula sobre revolução cubana desse outono e no curso sobre história das mulheres na América Latina após 1825. Na era da Internet, do skipe e da tv à cabo, essas crônicas têm a grande vantagem de constituirem um testemunho direto de alguém que viu e ouviu tudo que está contando e é esse olhar de testemunha ocular que faz elas serem tão boas.

Obrigado, Ana. E você, não vai ler não?

Viajando Junto com o Alex

25 fevereiro, 2010 § 0

Radical Rebelde RevolucionárioPaula Lee é inteligente, articulada e uma boa amiga. Ela é brasileira, mora em Portugal e acabou de lançar o livro Alugo meu Corpo, sobre sua iniciação na prostituição. Eis o que Paula teve a dizer sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:

Bem no início do livro Radical Rebelde Revolucionário, uma obra resultante da viagem do Alex Castro para Cuba, em função de duas bolsas de pesquisa, o autor deixa o aviso:”À exceção dos fatos narrados em primeira pessoa, não confiem nas informações deste livro”.

Tenho que aqui dizer que acredito em tudo o que o Alex Castro contou nesse livro. Por ingenuidade cega? Teimosia? Nenhuma das opções. Porque a verdade do livro não está nas provas, nos documentos, nem nos tão falados e incredíveis jornais de Cuba, descritos no livro. A verdade do livro está naquilo que o Alex viu, o que ouviu, tocou, cheirou, comeu, sentiu. Está naquilo que o Alex viveu em Cuba, não enquanto turista, mas enquanto descobridor, enquanto pesquisador, enquanto parte integrante do local, não apenas estudando a cultura de um povo, mas experimentando e tentando viver como um cubano, apesar de todas as divisões e limitações ali existentes.

E afinal o que importa a verdade num país que nem parece ser de verdade? Definir como verdade ou não o que está escrito no livro, seria anular tudo o que o Alex sentiu na sua “viagem-integração”. Independente de as informações por ele recebidas serem ou não verídicas, a verdade é, por si só, aquilo que viveu e sentiu, e isso ninguém pode lhe roubar.O Alex não foi para Cuba para conhecer uma nova terra, mas para conhecer um novo povo. Depois de Fidel, a primeira coisa que vem na minha cabeça quando a palavra Cuba é pronunciada é a minha paixão pelas danças latinas, especificamente a salsa. Tanto que, quando o Alex viajou, enviei-lhe um e-mail a dizer: dance salsa por mim.

“Na verdade, pensando bem, não confiem em nada, especialmente na minha narração em primeira pessoa. Este é um livro de ficção. Nenhuma das pessoas citadas existe. Nem eu. Todos os nomes de cubanos foram tirados do romance Cecília Valdés (1882), de Cirilo Villaverde. Não existe nenhum país chamado Cuba, nenhum presidente chamado Fidel Castro. Sério, vocês acreditaram mesmo que existia Cuba? Tolinhos.”

Mas o livro Radical Rebelde Revolucionário tem muito mais do que Fidel e salsa. Quando o Alex me puxou pela mão e me deixou em Cuba, eu disse: “Não ouse me abandonar, Alex, não me deixe aqui sozinha!”. Primeiro porque nem parece existir um país assim. É tudo muito irreal, ao mesmo tempo que soa tão verdadeiro, já que a verdade está em tudo aquilo que jamais poderia imaginar. Em segundo lugar porque só o Alex teria tanta desenvoltura para entrar dentro de Cuba, não como qualquer um entra como turista, mas entrar de verdade, de corpo, alma e charuto, para me apresentar o país. Quem diria que, no país onde sonhava ir dançar salsa, fosse descobrir tantos conflitos? E, mesmo assim com tantos conflitos, contrastes, limitações e miséria, Cuba fosse assim tão especial, tão quente?

Receei que em certa altura o Alex fosse largar a minha mão e dizer: “Se vira!”. Mas não, em momento algum ele fez isso. O Alex começa por me apresentar uma mulher tão segura que, nos tempos de hoje, parece não existir, juntamente com um país que parece obra de um artista cheio de imaginação. E me apresentou a moeda, e me fez também montar os pedaços do abacaxi, como num quebra-cabeças, para conferir se faltava alguma parte, me mostrou os livros proibidos da biblioteca nacional, me apresentou o cinema cubano, me fez quase fugir das casas de banho, se não estivesse tão apertada para fazer chichi.

Radical Rebelde RevolucionárioA escrita do Alex foi fazendo com que caminhasse por cada rua, conversasse com cada pessoa, inclusive os jiniteiros. E suas análises mais uma vez brilham, porque mostram várias faces de situações que muitas pessoas só enxergariam de uma única forma.Mesmo se você não tiver o mínimo interesse por Cuba, aconselho a viagem. Porque no Radical Rebelde Revolucionário a gente até se esquece que está lendo na tela do computador, porque estamos, na verdade, viajando junto com o Alex.

Paula, muito, muito obrigado! E você? Já comprou seu exemplar?

Observações de Acadêmico com Sacadas de Adolescente Velho

25 fevereiro, 2010 § 0

Sergio Leo, colunista do Valor, jornalista prestigiado, blogueiro polêmico, também leu meu Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas e escreveu uma resenha absolutamente elogiosa:Radical Rebelde Revolucionário

Hummm, relato de viagem sobre Cuba está em uma das últimas prateleiras de minha lista de prioridades, mas vamos ver o que tem aí, pensei eu, ao abrir o arquivo com o livro do Alex. Pé de pato mangalô tres vezes; tirei o computador da tomada antes que o capeta me pegasse e eu não conseguisse mais tirar os olhos da mardita obra.
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Alex tem um texto brilhante, claro, divertido, engraçado. Mistura observações de acadêmico com sacadas do adolescente velho que é. Não é livro a favor de Fidel Castro, asseguro. Nem é uma diatribe contra o dito-cujo; é um relato de viagem, de um cara inteligente, bem escrito, e interessante até para quem não pensa em passar nem perto de Cuba.
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Até onde li, fala de uma moça que o acompanha na viagem (quem nunca viajou ao lado de uma mulhar inalcançável que atire a primeira calcinha), conta detalhes a favor e contra a ilha de Fidel Castro. Explica como o sistema de subsídios da ilha e sua proverbial carência de bens de primeira necessidade estimula a abordagem dos jornais oficiais com outros olhos (ou falando mais claro: jornal, em Cuba, é muito mais barato que papel higiênico, que nem sempre tem. Daí…).
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Tem até filosofia no livro (“confie em todos, mas corte o baralho“, já dizia sabiamente a avó do Alex, que é Castro mas não tem nada a ver com o Fidel). Imagens, como as que ele usa para descrever os óculos cor-de-rosa da imprensa cubana são uma das especialidades dele.

Sergio, muito, muito obrigado. Sei que você é um leitor exigente e sem tempo, seus elogios significam muito pra mim.

E você? Ficou curioso pra ler mais?

E o Alex Castro Gosta de Picadura

25 fevereiro, 2010 § 0

Cardoso, do Contraditorium, dos blogueiros mais acessados do Brasil, leu Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas e adorou. Aqui vai seu comovente depoimento:Radical Rebelde Revolucionário

E o Alex Castro gosta de picadura

Calma.

OK, eu explico. “picadura” é como chamam, em Cuba, o fumo para cachimbo. E não, eu não sabia disso até alguns minutos atrás. E o que diabos tem o Alex Castro a ver com Cuba? Ele foi para lá, passou um mês, realizando um trabalho bancado por duas bolsas de pesquisa, e aproveitou para escrever o eBook Radical Rebelde Revolucionário.

O MeioBit recebeu uma cópia do livro, mas fugiria muito do nosso foco lá. O Leo então perguntou se eu queria resenhar o livro no Contraditorium.

Hum. Intelectual. Que fuma cachimbo. Passeando em Cuba bancado por universidades para estudar a Disneylandia do Socialismo? Isso sempre dá naqueles livros chatíssimos onde o cara republica propaganda do Partido, ou então é escrito por um anticomunista ferrenho que vai passar o tempo todo falando das atrocidades da Revolução. Todo livro sobre Cuba cai nesses dois modelos.

Respondi que a princípio não queria, isso é chutar cachorro morto. Fazer resenha de um livro que sei que não vou gostar é implicância pura e masoquismo.

Só que eu detesto ser pré-julgado, e imagino que o Alex também. Mesmo que tivesse 99% de certeza do que iria encontrar, abri o PDF. Afinal, se fosse o que eu imaginava iria deixar de lado, não publicaria e como se diz por aí, ninguém se machucaria.

O livro é excelente, li de uma sentada só, mesmo com isso soando altamente comprometedor em um post com esse título.

São 155 páginas com crônicas deliciosas, onde ele conta seu dia-a-dia na terra de Fidel. Ele descreve um povo como qualquer outro. Alegre, triste, otimista, conformado, assustado, orgulhoso, envergonhado.

Ele encontrou Dolores, a bibliotecária mais sensual desde a Barbara Gordon, descobriu que os cubanos também usam o Jeitinho Brasileiro e aprendeu que quem decide o menu é o burocrata do Governo que escolhe quais produtos colocar nas lojas naquela semana. Passou por saias justas com vendedoras de abacaxi, apaixonou-se por vários pés (longa história) e enganou a polícia para tomar sorvete barato.

Alex alterna momentos líricos com o mais puro sarcasmo. Vejam o trecho abaixo. Não é qualquer um que capta essa cena.

A coisa mais interessante da estrada foi ver policiais cubanos uniformizados singelamente pedindo carona aos carros que passavam. Fiquei dividido entre achar lindo e deprimente, mas acabei achando lindo. Tem uma poesia que não sei bem explicar.

Por outro lado, solta pérolas do sarcasmo como:

A praia, Mar Azul, era simplesmente linda. Se essa foi a que sobrou pros cubanos, fico me perguntando como devem ser as somente para turistas, aquelas com policiais uniformizados nas entradas exigindo passaporte dos visitantes. Fidel Castro, se fosse vivo, jamais permitiria uma situação dessas. Afinal, a Revolução não foi justamente pra evitar que Cuba se tornasse o bordel dos Estados Unidos?

Ele comete vários pecados que farão com que a Academia odeie seu livro, e desejasse estar sob o Regime Cubano, onde Alex seria preso e seus livros proibidos. Ele cita o prosperidade artificial graças ao Regime Soviético, conta que os jornais oficiais são subsidiados, e que o povo os usa como substituto de papel higiênico, conta dos táxis para cidadãos, proibidos por lei de levar turistas, e constantemente parados pelo polícia, e conta até algo que acho difícil de acreditar. Se fosse um livro de um autor histérico anti-comunista, eu descartaria:

Annie, minha companheira de viagem, é norte-americana, branca, loira, olhos azuis. Leonardo é negro, forte, alto, musculoso, bailarino profissional. Em um pequeno percurso de vinte minutos andando pelas ruas de Havana Velha, somos parados quatro vezes por policiais diferentes. Pedem seu carnê de identidade, perguntam quem ele é, o que faz, de onde nos conhece, pra onde está nos levando, anota nossos nomes e o dele. Falam grosso e arrogantemente, como qualquer policial, mas nos deixam ir.

Isso mesmo. Há racismo em Cuba, e é oficial. Que orgulho do Brasil, onde isso não existe!

Mesmo assim, Radical Rebelde Revolucionário não é um ebook-denúncia. Nem tudo é ruim, nem tudo é um dramalhão mexicano. Alex não tem uma agenda oculta através do livro. Ele consegue falar mal de uma coisa, e na próxima crônica falar bem de outra. Mostra que por detrás da propaganda e da antipropaganda há gente. E gente é sempre interessante

Recomendo muito a leitura do livro. Pode ser comprado aqui neste site e custa apenas 200 pesos cubanos não-conversíveis, ou R$20, ou praticamente um salário-mínimo cubano (192 pesos).

Valeu, Cardoso. Bem, colega, e você? Depois dessa, se você não comprar o livro, só pode ser pirraça.

Pé ante Pé: Mulher de Um Homem Só em Portugal

25 fevereiro, 2010 § 0

Desde 1996, a jornalista Isabel Coutinho assina semanalmente a coluna Ciberescritas, no jornal PÚBLICO, de Portugal, sobre o futuro dos livros, a presença de escritores na Internet e a relação entre as novas tecnologias e a literatura. Além disso, também mantém o excelente blog de mesmo nome, Ciberescritas. Vale a pena explorar.

Pois bem, sua coluna dessa semana foi sobre meu romance, Mulher de Um Homem Só, e vai transcrita abaixo:

Pé ante Pé

Quando Alex Castro “colocou um ponto final” no romance “Mulher de um Homem Só” decidiu abrir um blogue onde disponibilizou o livro para “download”. Era o mês de Julho de 2002 e quatro anos depois, em 2006, o ficheiro tinha sido descarregado trinta mil vezes.

Nessa altura, conta o carioca Alex (que actualmente vive nos Estados Unidos, em Nova Orleães, onde dá aulas de português) muita “gente boa e experiente” o avisou de que estaria “queimando” o futuro daquela obra: “nenhuma editora se iria interessar por um romance que já tinha sido tão baixado”.

“Mulher de um Homem Só” conta a história de dois amigos de infância, Júlia e de Murilo. Este, quando ainda está na faculdade, casa com Carla. É ela a narradora do livro e é através dela que entramos na vida dos três. Murilo é médico, Carla é dentista e Júlia, artista plástica, passa o tempo todo a pairar pela vida do casal. Por lá passam também fetiches por pés.

Esta história apaixonou Ana Maria Santeiro que achou que poderia como agente literária vender este livro – sobre qual o papel que a melhor amiga de um marido pode ter num casamento ou sobre uma mulher apaixonada/obcecada por outra – a uma editora brasileira. Perante a possibilidade de publicação através de meios tradicionais Alex Castro acabou com o “download” do seu livro.

Ana Maria Santeiro foi então falar com várias editoras. “O resultado foi zero. Rocco, Língua Geral e Objetiva enviaram cartinhas simpáticas e bem-educadas; a maioria me deixou de molho por meses, algumas por anos, e não tiveram a gentileza de dizer não. A culpa não foi dos 30 mil “downloads”, pois eles não chegaram jamais a ser mencionados”, conta Alex Castro no seu blogue [Liberal, Libertário Libertino] e no posfácio da edição impressa do seu livro. “Em minha fantasia, quatro anos na Internet, blogue conhecido, coluna semanal em jornal diário [Tribuna da Imprensa], milhares de leitores cativos e dezenas de milhares de “downloads” seriam suficientes para chamar a atenção do mundo editorial, cultural e jornalístico.” Não foram.

O ano passado, Alex Castro achou que tinha chegado a hora de “Mulher de um Homem Só” e lembrou-se de recorrer a velho método de publicação. Resolveu pedir a amigos e a desconhecidos que se tornassem mecenas e comprassem exemplares da obra antes da sua impressão.

Colocou então o livro à venda no “site”. Ainda não tinham passado dois dias e já tinha dinheiro para imprimir 50 exemplares. “O valor do livro foi deixado em aberto e cada mecenas deu o que considerou justo. A primeira edição de 200 exemplares de “Mulher de um Homem Só” é numerada e os mecenas que contribuíram com os maiores valores receberam os menores números”, explica.

Durante três semanas, entre o início das vendas e a impressão do livro pela editora Os Viralata, 107 pessoas “abriram as suas carteiras para financiar um romance brasileiro completamente independente. Esses ilustres anónimos, que não eram nem meus parentes nem amigos, confiaram em um autor que não conheciam, vendendo um livro que nem existia, que nem capa possuía ainda.” A capa foi discutida com os leitores que ajudaram o autor na escolha.

Por estes dias o “Mulher de Um Homem Só” está a ser traduzido para espanhol, está disponível gratuitamente através do Google Books, pode ser comprado para ser lido no Kindle da Amazon (em versão Kindle, mas para já só para quem vive nos Estados Unidos), pode ser lido no Sony Reader e em outros e-books readers (em versão PDF, peçam ao autor que ele envia), está à venda em algumas livrarias do Rio de Janeiro e se São Paulo (“onde você pode comprar o livro à moda antiga”). E a história chegou ao fim, pé ante pé.

Valeu mesmo, Isabel, e um beijo nos seus pés!

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Convencida, finalmente? Então, compre o livro.