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	<title>alex castro &#187; livros</title>
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	<description>escritor</description>
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		<title>os carros do meu pai</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Mar 2012 18:11:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>alexcastro</dc:creator>
				<category><![CDATA[liberal libertário libertino]]></category>

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		<description><![CDATA[Vocês podem até não acreditar mas houve época, lá entre a Idade da Pedra Lascada e da Pedra Polida, antes do celular, da internet e da água encanada, que o Brasil era um país completamente fechado às importações. Só circulavam produtos made in Brasil, desde carros até computadores. Eu ainda me lembro, logo depois da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vocês podem até não acreditar mas houve época, lá entre a Idade da Pedra Lascada e da Pedra Polida, antes do celular, da internet e da água encanada, que o Brasil era um país completamente fechado às importações. Só circulavam produtos made in Brasil, desde carros até computadores.</p>
<p>Eu ainda me lembro, logo depois da abertura da economia pelo Collor, em 1990, os primeiros carros a serem importados. Foram Nivas, da Lada, uma fábrica soviética &#8211; sim, amiguinhos, naquela época ainda havia União Soviética, estamos falando da pré-história, eu avisei. Bem típico do Brasil que os primeiros carros a serem importados eram ainda piores do que os nossos.</p>
<p>Enfim, antes disso, só circulavam carros made in Brazil, todos muito parecidinhos e homogêneos.</p>
<p>Lá pelo final da década de 70, meu pai começou a fazer dinheiro na bolsa e decidiu gastar parte dele na sua grande paixão: carros. Mas qual a graça de comprar Fuscas, Passats e Variants? Na época, o topo de linha nacional era o Alfa-Romeo, grandalhão e feioso.</p>
<p>Havia uma brecha na lei de importações, porém. Diplomatas podiam importar carros. O privilégio era pouco usado, não se via nenhum carro importado nas ruas, mas era a saída pro meu pai. Não sei exatamente qual era a treta, e devia custar caro, mas ele conseguia comprar carros importados legalmente por diplomatas. Tivemos muitas BMWs, Mercedes e Porsches. O auge, se não me engano, foi uma Porsche 928, em 1983, que por pouco não matou meus dois pais em um cavalo-de-pau quase marítimo em plena Avenida Niemeyer.</p>
<p>(Hmm, se tivessem morrido naquela época, e se eu e minha irmã tivéssemos tido um bom tutor, eu poderia ser rico até hoje&#8230; Ah, deixa pra lá, prefiro meus pais vivos e pobres.)</p>
<p>Acho difícil de um jovem hoje conceber o quanto uma Porsche 928 chamava a atenção no Rio de 1983. Hoje, ainda chamaria atenção, e olha que temos trocentos carros importados em circulação, de todos os tipos e modelos.</p>
<p>Na época, uma Porsche, um BMW ou uma Mercedes seria praticamente o único carro importado entre Gols, Corcéis, Belinas, Brasílias, Paratis. Não havia nada que chegasse nem perto. Chegava a ser um carro inroubável, pois era único ao ponto de não ter valor de mercado. O que um bandido iria fazer com ele?</p>
<p>Todo mundo olhava. Todo mundo apontava. Todo mundo comentava. Circular ao lado do Presidente Figueiredo em um carro aberto chamaria menos atenção. Bem menos. O pobre do homem andava todo dia no Pepino e ninguém nem olhava.</p>
<p>Uma cena era típica. Estacionávamos na rua, íamos pra algum lugar e, na volta, sempre havia alguém babando no Mercedes, adolescentes empolgados sonhando com o carro que nunca teriam.</p>
<p>Meu favorito era o cara com a namorada, mãos ao redor de sua cintura, explicando detalhadamente que aquele era um BMW 973i, da série 28, que tinha duzentos e quarenta e oito e dois terços pistões de potência, e cinco rebimbocas da parafuseta, cinco!, enquanto o melhor carro nacional tinha no máximo três rebimbocas, e, por isso, ele fazia curvas com muito mais estabilidade, blá blá blá, e enquanto a pobre moça fazia de tudo pra parecer interessada, lá vinha o macho alfa, com sua esposa e sua prole, pavoneando-se, peito estufado, cauda colorida toda aberta, chave na mão, pra tomar posse do seu brinquedo.</p>
<p>O diálogo seguinte era inevitável e irresistível:</p>
<p>Puxa, você tem um Mercedes 283¼ M! É verdade mesmo que ele tem um carburador duplo com ventoinha acoplada turbo?</p>
<p>E meu pai, que adorava falar do seu brinquedo, explicava cada detalhe:</p>
<p>Na verdade, é a 845¾ T, série beta, que tem a ventoinha acoplada turbo, a 283¼ M tem ventoinha interna oblíqua, que permite maior blablalização do combustível.</p>
<p>Caramba, que máximo, hein?!</p>
<p>Pois é.</p>
<p>E minha mãe, a namorada e eu trocávamos olhares entediados de que coisa, hein, meninos e seus brinquedos, vai se fazer o quê?</p>
<p>Antes que comecem a malhar meu pai, deixa eu afirmar aqui que tive o melhor pai do mundo. Ele era presente, dedicado e companheiro. Como a bolsa só opera mesmo de manhã, ele saía de casa antes do nascer do sol e, se não tivesse almoço com cliente, já estava de volta bem cedo, para ficar com os filhos, brincar, passear ou, pior, muito pior, nos pegar no colégio.</p>
<p>Meu pai adorava nos pegar no colégio. E podem ficar certos que ele não ia de táxi.</p>
<p>Eu nunca fui dessas crianças bobas que tem vergonha dos pais. Eu tinha e tenho muito orgulho dos meus. Tinha vergonha era do carro.</p>
<p>Meu colégio funcionava em um condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Nenhum dos meus colegas era pobrinho. Mas, mesmo assim, um BMW era demais. Teoricamente, era algo que não poderiam ter nem se pagassem.</p>
<p>E lá vinha o macho-alfa, na fila dos carros, dirigindo seu brinquedão.</p>
<p>Pra mim, não havia saída. Das duas, uma.</p>
<p>Os meninos que não gostavam de mim caçoavam com fúria, me chamavam de filho de bicheiro, que meu pai tinha que ser ladrão, só pode!, senão como teria um carro daqueles?!, bandido, bandido!</p>
<p>Na verdade, eu nunca liguei pra esses. Pior eram os meus amigos.</p>
<p>Eles vinham falar comigo com uma empolgação quase contagiante. Quase. Pena que nasci imune:</p>
<p>Caralho, que máximo, você tem uma BMW 1985, série JG8½c! Não acredito! É essa que tem a injeção eletrotástica barométrica?</p>
<p>Não sei.</p>
<p>Como assim não sabe? Você tem uma BMW 1985, série JG8½c na garagem e não sabe se ela tem injeção eletrotástica barométrica?!</p>
<p>Não. Não sei nem o que é isso.</p>
<p>E válvula de escape ontológica ígnea?</p>
<p>Também não sei.</p>
<p>Porra, mas você não sabe nada.</p>
<p>E eu respondia: por que você não pergunta pro meu pai?</p>
<p>E adivinham o que acontecia? Exatamente isso, claro.</p>
<p>Meus amigos iam pra minha casa, cercavam meu pai como se ele fosse Sócrates na ágora, sorriso de orelha a orelha, mais feliz do que nunca, e ficavam horas conversando sobre todas as especificações técnicas do carro.</p>
<p>Depois, vinha o inevitável passeio.</p>
<p>Para quem não conheceu a Barra na década de 80, era o verdadeiro oeste selvagem. Não havia sinais de trânsito, pardais, faixas de pedestres, acostamento, faixas, nada. A lei e a ordem só iam até a Gávea. Os retornos e sinais de trânsito na Avenidas das Américas são de 1994. Quando eu aprendi a dirigir, em 1991, todo inseguro e morrendo de medo, uma das coisas que mais me confundia era que as auto-pistas simplesmente não tinham as faixas pintadas e eu dirigia que nem um bêbado indeciso.</p>
<p>Enfim, nada me tira da cabeça que meu pai foi morar pra Barra justamente porque era o único lugar da cidade onde ele podia levar seus carros pra passear como se estivesse em uma autobahn prussiana. E ele passeava, meus amigos. Os carros não podiam reclamar de saudades da Europa.</p>
<p>Pior era chegar na casa dos meus amiguinhos, meses depois, e ouvir até os pais comentando o passeio. Claramente, para meus amigos, não tinha sido só um passeio de carro, mas uma aventura memorável e única, uma história que se conta pra família assim que se chega em casa e passa a pertencer ao imaginário coletivo. E me cobriam de perguntas que eu não sabia responder.</p>
<p>Só uma única vez eu dirigi um dos carros importados do meu pai. Eu tinha 19 anos e iria passar o fim de semana no sítio de uma amiga, na serra, e na hora H, meu carro, um Suzuki Swift hatch 1.0, morreu. Meu pai estava fora da cidade e fora de alcance &#8211; antes de emails e celulares, lembram? &#8211; e eu, muito a contragosto, sem outra opção e me cagando de medo, deixei um recado pra ele na geladeira e subi a serra no seu BMW.</p>
<p>Pois bem. Eu estava dirigindo um BMW caríssimo e super potente, qualquer toquezinho no acelerador e ele já vai a 200km/h, qualquer movimento brusco no volante e a porra já dá um cavalo-de-pau. Cheguei no sítio dela completamente estressado. Além disso, éramos adolescentes e tínhamos coisas mais interessantes pra fazer, como jogar sueca e conferir nossas coleções de selos búlgaros. Esqueci completamente de ligar pra casa pra dizer que tinha chegado bem.</p>
<p>Resultado: meu pai, que perdeu a irmã em um acidente de carro, surtou. Pegou meu Suzuki, que ele conseguiu botar pra funcionar, e subiu a serra já esperando ver os destroços fumegantes pelo acostamento. Não sabia o endereço do sítio de Clarice e ficou perambulando pela cidadezinha, no meu carrinho hipercompacto, perguntando pra todo mundo se alguém tinha visto um adolescente gordinho passar num enorme BMW esportivo. Uma cena bizarra.</p>
<p>Não sei não, mas como ele nunca fez nada parecido, nem antes nem depois, acho que estava preocupado era com o carro.</p>
<p>A única vez que chorei de medo na vida foi descendo a serra, no meio de uma tempestade, e meu pai no volante. Na época em que tínhamos casa em Itaipava, o carro muitas vezes ia e vinha cheio de crianças e adolescentes. Anos depois, todos trintões, barbados e com filhos, fui descobrir que muitos dos meus amigos de infância são tão traumatizados quanto eu pela experiência de descer a serra com meu pai. Meus primos começavam a vomitar já dentro da cidade.</p>
<p>Mas coitadinhos dos carros. Assim como um pastor alemão, um BMW também precisa de exercício.</p>
<p>E dá-lhe acelerador.</p>
<p>* * *</p>
<p>Essa crônica faz parte do meu livro <a href="../liberal">Liberal Libertário Libertino</a>,  que é um livrinho de papel mesmo, bonitinho, vermelhinho, com minhas  melhores crônicas, incluindo alguns como Fantasmas de Felicidades  Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A  primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e  revisada, conta com dois novos textos &#8211; inclusive um novo epílogo à  narrativa do Katrina.</p>
<p><a title="Liberal Libertário Libertino - Crônicas" href="../liberal"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4075/4863537330_0c5220af7f_m.jpg" alt="Liberal Libertário Libertino - Crônicas" width="160" height="240" /></a></p>
<p>Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010)<strong> Livro.</strong><br />
Preço recomendado: <strong>R$35 / US$25, frete incluso.</strong></p>
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		<title>o calor londrino &amp; outros aforismos expatriados</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Feb 2012 16:15:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>alexcastro</dc:creator>
				<category><![CDATA[viagens na terra dos outros]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Alemanha, respeita tds as leis. Desembarca no Galeão, aluga jipe &#38; sai dirigindo como vândalo. Liberdade uber alles. * * * O mineiro Jean Charles foi confundido c/terrorista p/usar casaco pesado em dia quente d verão londrino. Fazia 15º. * * * Em Utah, dona-d-casa diz p/faxineira: &#8220;felizes são vcs, q tem cultura, cinco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na Alemanha, respeita tds as leis. Desembarca no Galeão, aluga jipe &amp; sai dirigindo como vândalo. Liberdade <em>uber alles</em>.</p>
<p>* * *</p>
<p>O mineiro Jean Charles foi confundido c/terrorista p/usar casaco pesado em dia quente d verão londrino. Fazia 15º.</p>
<p>* * *</p>
<p>Em Utah, dona-d-casa diz p/faxineira: &#8220;felizes são vcs, q tem cultura, <em>cinco d mayo</em>, <em>dia d los muertos</em>, <em>tacos</em>, <em>burritos</em>. Na América, ñ temos nd!&#8221;</p>
<p>* * *</p>
<p>Turista holandês na Faria Lima. Roupa cáqui, chapéu d abas moles, mochilona, garrafa d’água. Como se atravessando deserto inóspito.</p>
<p>* * *</p>
<p>Viajou p/Bolívia c/1 <em>iPod</em> q sustentaria 1 família inteira. Foi morto em Cochabamba &amp; sustentou 1 família inteira. Comeram até filé.</p>
<p>* * *</p>
<p>Quis conhecer França. Leu Flaubert, viu Truffaut, namorou a parisiense do consulado. Ficou satisfeito. Agora, China.</p>
<p>* * *</p>
<p>Seleções do meu novo livro, <a href="http://www.amazon.com/gp/product/B007360YUU/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&amp;tag=liberliberl0a-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B007360YUU">Viagens na terra dos outros — aforismos turísticos &amp; expatriados</a>, 100% inédito, exclusivo para Kindle, só $2,99. Por esse preço, você pode arriscar, né? <a href="http://www.amazon.com/gp/product/B007360YUU/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&amp;tag=liberliberl0a-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B007360YUU">Compre aqui</a>.</p>
<p><a href="http://www.amazon.com/gp/product/B007360YUU/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&amp;tag=liberliberl0a-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B007360YUU"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7151/6787277235_9cf889dc12.jpg" alt="viagens na terra dos outros — aforismos turísticos &amp; expatriados" /></a></p>
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<p>&nbsp;</p>
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		<title>o bom nome das brasileiras &amp; outros aforismos de turismo sexual</title>
		<link>http://alexcastro.com.br/turismo-sexua/</link>
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		<pubDate>Mon, 06 Feb 2012 15:32:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>alexcastro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Formou-se bióloga em Goiânia. Nunca conseguiu emprego na área. Virou puta na Espanha. * * * Era puta em Copacabana. Conseguiu bolsa d estudos p/mulheres negras latinas. Virou doutora na Inglaterra. * * * Vem ao BR a cd 3 meses. Traz presentes. Namoram, saem, transam. Diz q 1 dia vão casar &#38; morar em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Formou-se bióloga em Goiânia. Nunca conseguiu emprego na área. Virou puta na Espanha.</p>
<p>* * *</p>
<p>Era puta em Copacabana. Conseguiu bolsa d estudos p/mulheres negras latinas. Virou doutora na Inglaterra.</p>
<p>* * *</p>
<p>Vem ao BR a cd 3 meses. Traz presentes. Namoram, saem, transam. Diz q 1 dia vão casar &amp; morar em Greenville USA. Tá.</p>
<p>* * *</p>
<p>Namora gringo gay, mas só p/sustentar família. Se diz Homem c/H. Gringo é padrinho d seu filho, traz presentes p/sua esposa, mete no seu cu.</p>
<p>* * *</p>
<p>P/gringo, é <em>unbelievable </em>trabalho q dá manter aquele belo <em>Brazilian cock</em>. O + sexy é ele ser tão machinho, se dizer até Homem c/H.</p>
<p>* * *</p>
<p>Jineteira. Do verbo &#8220;jinetear&#8221; ou &#8220;montar cavalos&#8221;. Cubanas q montam nos turistas &amp; carinhosamente lhes extraem dólares.</p>
<p>* * *</p>
<p>Estudou engenharia na Univ d Habana. Pós-graduada, 3 línguas. Passa verões no Malecón, jineteando canadenses.</p>
<p>* * *</p>
<p>Estudou engenharia na Univ of Ontario. Pós-graduado, 3 línguas. Passa verões no 3º mundo, namorando mulatas.</p>
<p>* * *</p>
<p>P/ela, turistas eram fonte d dinheiro fácil. P/ele, mulatas eram fonte d sexo fácil. Quem estava enganando quem?</p>
<p>* * *</p>
<p>Ele se aproximou dela p/sua beleza latina; ela, p/seus dólares canadenses. Vejamos o q acaba primeiro.</p>
<p>* * *</p>
<p>É d Ipanema &amp; odeia oportunistas q vão p/Europa &amp; sujam bom nome das brasileiras: &#8220;sou estudante d pós, sou honesta, ñ sou dessas, ñ!&#8221;</p>
<p>* * *</p>
<p>É da Pavuna &amp; odeia moralistas q vão p/Europa &amp; lhe criticam p/trabalhar duro: &#8220;ñ conheci pai, ñ fiz univ, tenho filho p/criar!&#8221;</p>
<p>* * *</p>
<p>Moscou. Discurso d brasileira no bar: &#8220;vcs acham q BR é só samba, sol, sexo, mas temos Petrobras, Fiocruz, Embrapa!&#8221; Russo: &#8220;bela bunda&#8221;.</p>
<p>* * *</p>
<p>Seleções do meu novo livro, <a href="http://www.amazon.com/gp/product/B007360YUU/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&amp;tag=liberliberl0a-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B007360YUU">Viagens na terra dos outros — aforismos turísticos &amp; expatriados</a>, exclusivamente para Kindle. <a href="http://www.amazon.com/gp/product/B007360YUU/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&amp;tag=liberliberl0a-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B007360YUU">Compre aqui</a>.</p>
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		<title>lei da brasilidade performática</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 16:43:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>alexcastro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Alemã q tinha tesão p/brasileiros queria mãos calosas &#38; pele morena, samba &#38; MPB, não ruivice &#38; palidez, Nelson Freire &#38; Ana Botafogo. * * * Aprendeu a ser brasileiro na Espanha. Sambou, comeu feijoada, foi à missa. Em SP, ouvia jazz, era ateu, vegano. * * * Roma. Mostrou à namorada italiana sua música [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alemã q tinha tesão p/brasileiros queria mãos calosas &amp; pele morena, samba &amp; MPB, não ruivice &amp; palidez, Nelson Freire &amp; Ana Botafogo.</p>
<p>* * *</p>
<p>Aprendeu a ser brasileiro na Espanha. Sambou, comeu feijoada, foi à missa. Em SP, ouvia jazz, era ateu, vegano.</p>
<p>* * *</p>
<p>Roma. Mostrou à namorada italiana sua música brasileira preferida. &#8220;Manuel&#8221;, d Ed Motta. Ficou indignada: &#8220;isso ñ é música brasileira!&#8221;</p>
<p>* * *</p>
<p>Lei da brasilidade performática: maiores vantagens vão p/imigrante q melhor interpreta a brasilidade q nunca teve em casa.</p>
<p>* * *</p>
<p>seleções do meu novo livro, <a href="http://www.amazon.com/gp/product/B007360YUU/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&amp;tag=liberliberl0a-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B007360YUU">viagens na terra dos outros — aforismos turísticos &amp; expatriados</a>, exclusivamente para kindle. <a href="http://www.amazon.com/gp/product/B007360YUU/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&amp;tag=liberliberl0a-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B007360YUU">compre aqui</a>.</p>
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		<title>viagens na terra dos outros — aforismos turísticos &amp; expatriados</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 12:01:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>alexcastro</dc:creator>
				<category><![CDATA[viagens na terra dos outros]]></category>

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		<description><![CDATA[livro novo. 100% inédito. exclusivo para kindle. $2,99. compre. (se você não tem kindle, baixe o programa kindle for pc e leia no seu computador.)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.amazon.com/gp/product/B007360YUU/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&amp;tag=liberliberl0a-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B007360YUU"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7151/6787277235_9cf889dc12.jpg" alt="viagens na terra dos outros — aforismos turísticos &amp; expatriados" /></a></p>
<p>livro novo. 100% inédito. exclusivo para kindle. $2,99.</p>
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		<title>o que você gosta de ouvir?, me perguntou um amigo</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 18:58:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>alexcastro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu: Mulher rindo. Alho refogando. Zíper abrindo. Ondas quebrando. Gemidos de gozo. Criança brincando. Dois sapatos caindo no chão, um depois do outro. O apito do sorveteiro que passava pela minha casa. Passos descalços no chão frio. &#8220;Eu te amo, Alexandre.&#8221; O Oliver latindo quando chego em casa. Saltos altos no mármore. Máquina de escrever [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu: Mulher rindo. Alho refogando. Zíper abrindo. Ondas quebrando. Gemidos de gozo. Criança brincando. Dois sapatos caindo no chão, um depois do outro. O apito do sorveteiro que passava pela minha casa. Passos descalços no chão frio. &#8220;Eu te amo, Alexandre.&#8221; O Oliver latindo quando chego em casa. Saltos altos no mármore. Máquina de escrever elétrica. Pisada forte de mulher decidida. Apito do recreio. Pernas femininas, vestidas de couro ou latex, roçando uma contra a outra enquanto andam. Suspiro saciado de prazer. O telefone me acordando de manhã.</p>
<p>Ele: Não. Eu quis dizer de música.</p>
<p>Eu: Ah.</p>
<p>* * *</p>
<p>Essa crônica faz parte do meu livro <a href="http://alexcastro.com.br/liberal/">Liberal Libertário Libertino</a>.</p>
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		<title>pessoas-que-acreditam-em-coisas</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 08:43:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>alexcastro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ocasionalmente, eu converso com pessoas-que-acreditam-em-coisas. Quase sempre, são pessoas que gostam muito de mim, me elogiam efusivamente, dizem que sou um espírito avançado, um homem libertário, uma mente aberta, e que por isso sabem que vou receber com carinho e respeito sua mensagem. Entretanto, quando a conversa acaba, elas estão invariavelmente irritadas, frustradas e ofendidas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ocasionalmente, eu converso com pessoas-que-acreditam-em-coisas.  Quase sempre, são pessoas que gostam muito de mim, me elogiam  efusivamente, dizem que sou um espírito avançado, um homem libertário,  uma mente aberta, e que por isso sabem que vou receber com carinho e  respeito sua mensagem.</p>
<p>Entretanto, quando a conversa acaba, elas  estão invariavelmente irritadas, frustradas e ofendidas. Um dedo sempre  acaba sendo brandido na minha cara, em meio a palavras como: &#8220;você se  acha muito mente aberta, mas sua cabecinha é totalmente fechada e impermeável à verdade!&#8221;</p>
<p>Eu, que tentei sinceramente ser carinhoso e respeitoso, fico sem saber o que aconteceu.</p>
<p>Na  verdade, todo esse longo artigo é somente para fazer uma pergunta que  eu sempre quis fazer sobre as pessoas-que-acreditam-em-coisas, mas tem  que ficar pro final.</p>
<p><strong>Auto-Definição de um Liberal Libertário Libertino</strong></p>
<p>Como  esse texto pode gerar respostas irritadas, acho melhor começar pelo  consagrado hábito de definir as palavras. Primeiro, eu mesmo.</p>
<p>Sou  um cético libertário e me acho de mente aberta, sim senhor. Tenho  certeza de que o universo, a natureza, o corpo humano, a asa de um  besouro, tudo, enfim, são muito mais complexos do que podem imaginar  nossas vãs ciências. Imagino que muitos dos fenômenos hoje  incompreensíveis, inexplicáveis e sobrenaturais são regidos por leis tão  naturais, explicáveis e compreensíveis como a lei da gravidade.</p>
<p>Por  isso, e por ser inatamente curioso, eu me deixo aberto a tudo. Visito  as igrejas de quem me convida. Escuto as teorias de quem quiser  contá-las. Leio sobre astrologia, catolicismo, medicina holística.</p>
<p>Cresci  em casa de espíritas e umbandistas e já vi e ouvi coisas que a vã  ciência realmente não explica. Muito dessa minha experiência está  descrita no conto A Falta que nos Fazem os Figos, um dos meus melhores  trabalhos, em meu livro <a href="http://alexcastro.com.br/onde/">Onde Perdemos Tudo</a>, à venda por módicos dez reais, em formato ebook.</p>
<p>Por outro lado, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Occam">um amigo meu chamado Guilherme</a> me ensinou uma lição que nunca esqueci: a explicação mais simples em geral é a verdadeira.</p>
<p>Então, diante de uma pessoa que recebe um preto véio, qual é a explicação mais simples e mais provável?</p>
<blockquote><p>a)  que existe um outro mundo invisível, povoado por bilhões de espíritos  desencarnados, que eles entram em contato com o nosso mundo, andam entre  nós sem ser vistos exceto por alguns poucos, etc etc etc</p>
<p>b) esquizofrenia</p></blockquote>
<p><strong>Definição de Pessoas-Que-Acreditam-em-Coisas</strong></p>
<p>Será que eu preciso mesmo explicar o que são pessoas-que-acreditam-em-coisas?</p>
<p>Grande  parte dos fãs desse artigo são praticantes de religiões estabelecidas  que acham que estou falando de místicos e ocultistas. Já soube até de um  pastor evangélico que usou o texto para atacar espíritas e umbandistas.  Alteridade zero, não entenderam que o artigo é sobre eles também.</p>
<p>Do  ponto de vista externo, não há diferença alguma entre alguém que  acredita em um negrinho de uma perna só que mora no redemoinho, em um  biscoito de farinha que vira o corpo de alguém que morreu há dois mil  anos, ou que a posição do planeta Netuno influencia nossas vidas. Um  judeu ortodoxo não poderia se imaginar mais diferente do que um matuto  que acredita no curupira mas católicos e wiccans, holísticos e  macumbeiros, astrólogos e cientólogos, são todos igualmente  pessoas-que-acreditam-em-coisas.</p>
<p>Alguém que só bebe cerveja não  poderia ser mais diferente do que alguém que só bebe absinto, mas, do  ponto de vista de um abstêmio, sinceramente, é tudo a mesma coisa.</p>
<p>Na  prática, aliás, a diferença entre uma pessoa-que-acredita-em-coisas e  um ateu é mínima: a pessoa-que-acredita-em-coisas acha que todas as  crenças estão erradas, menos uma, e o ateu acha que essa também.</p>
<p><strong>Se Você Diz, Eu Acredito</strong></p>
<p>Vamos então ao diálogo. O diálogo abaixo já se repetiu dezenas de vezes na minha vida, com pequenas variações.</p>
<p>A  pessoa-que-acredita-em-coisas me chama pra conversar. Sabe que sou uma  mente aberta e libertária, blá blá, e quer me expor suas crenças. E eu,  tolinho, aceito. A curiosidade sempre vence a experiência. Se não fosse  isso, ninguém casava pela segunda vez.</p>
<p>Primeiro, ela me conta qual sua verdade. Essa é a parte fácil.</p>
<p>&#8220;Alex&#8221;, ela diz, pegando em minha mão, muito séria, &#8220;existem elefantes roxos que flutuam.&#8221;</p>
<p>Eu não duvido nem desduvido. Emito um grunhido descompromissado e peço pra pessoa-que-acredita-em-coisas continuar.</p>
<p>Nessa  hora, a pessoa-que-acredita-em-coisas pega de novo em minha mão, me  olha fundo nos olhos e praticamente implora: &#8220;Você acredita em mim,  Alex?&#8221;</p>
<p>Eu digo que não acredito nem desacredito, mas que acredito  que ela acredita e quer o meu bem, então, por mim já está mais que bom.</p>
<p>Algumas pessoas-que-acreditam-em-coisas nunca viram o seu elefante roxo flutuante. Outras afirmam conhecimento pessoal e direto:</p>
<p>&#8220;Eu vi. Eu conheço os elefantes. Já flutuei com eles. Agora, você acredita em mim?&#8221;</p>
<p>Respondo,  pra não condenar prematuramente a conversa, que sim. Afinal, por muito  menos testemunho que isso, os americanos proclamaram <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/1584048/conexao+wright+santos+-+dumont/?franq=136855">os irmãos Wright os pais da aviação</a>:</p>
<p>&#8220;Se você diz que existem elefantes roxos que flutuam e que você viu, eu acredito.&#8221;</p>
<p>Se fosse só assim, seria ótimo. Mas nunca é assim.</p>
<p><strong>Mas Como É Que Funciona?</strong></p>
<p>Quase  sempre, eu estrago tudo fazendo uma pergunta. Nunca é uma  pergunta-desafio. Não nessa etapa. É uma pergunta-curiosidade mesmo. Se  eu estou sentado com uma pessoa-que-acredita-em-coisas, é porque quero  entender sua visão de mundo.</p>
<p>Então, eu pergunto:</p>
<p>&#8220;Mas como o elefante flutua?  Quer dizer, se você dissesse que ele voa, eu iria presumir que ele fica  batendo suas asinhas freneticamente no ar como um beija-flor. Mas se  ele flutua, como ele flutua? Será alguma coisa relacionada aos campos  magnéticos?&#8221;</p>
<p>Aí começam os gritos:</p>
<p>&#8220;Eu sabia! Você se diz  mente aberta mas não tem fé nos elefantes roxos que flutuam, fica aí  questionando tudo com sua mente tacanha infectada por essa  pseudo-ciência que nos enfiam goela abaixo na escola. Onde estava esse  seu espírito crítico todo quando lhe ensinaram que as doenças são  causadas por micróbios que ninguém vê?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não tenho nenhum amor  pela ciência tacanha que nos enfiaram goela abaixo na escola. E não  estou duvidando da existência dos elefantes roxos que flutuam. Se você  me diz que viu, eu acredito. Mas só estava curioso pra saber o mecanismo  através do qual eles flutuam.&#8221;</p>
<p>&#8220;Herege! Infiel! Descrente!&#8221;</p>
<p>Eu não me conformo:</p>
<p>&#8220;Mas você não teve nem um pouco de curiosidade? Você viu o elefante roxo flutuando e não parou pra se perguntar nem por um segundo como ele faz pra flutuar?&#8221;</p>
<p>&#8220;Claro  que não. Eu não sou um espírito pequeno como você, amarrado a essa  pseudociência dos homens. O elefante roxo que flutua é sagrado. Ele só  pode ser visto por pessoas que estão em sintonia com as forças  elementais do universo. Ele flutua porque não saberia não-flutuar. Na  verdade, não é ele que flutua, é o chão que não-flutua aos seus pés.&#8221;</p>
<p>Esse  primeiro atrito ainda dá pra superar. Eu paro de fazer perguntas que a  pessoa-que-acredita-em-coisas não sabe mesmo responder e ela se acalma.</p>
<p>A próxima fase é que apresenta o conflito insuperável.</p>
<p><strong>Preciso Que Prometa Mudar sua Vida</strong></p>
<p>Finalmente,  eu consigo convencer a pessoa-que-acredita-em-coisas de que sua palavra  é suficiente para mim. Se ela diz que existem elefantes roxos que  flutuam, então existem elefantes roxos que flutuam. Mas e daí?</p>
<p>Pois  é no &#8220;e daí&#8221; que a coisa se complica. Os elefantes roxos que flutuam  não se limitam a existir. Eles sempre querem alguma coisa de nós.</p>
<p>(Eu,  por exemplo, bem acho que deus pode existir. Não vejo irracionalidade  ou improbabilidade alguma em o big bang ter sido acionado por uma mão  divina ou que uma mão divina tenha criado as espécies animais e os  planetas, etc. A grande questão é outra: por que deveria eu viver de  forma diferente só porque o universo foi criado por um ser divino e não  por forças cósmicas aleatórias?)</p>
<p>Então, meu interlocutor coloca de  novo a mão sobre a minha (pessoas-que-acreditam-em-coisas também  acreditam firmemente em contato físico) e diz:</p>
<p>&#8220;Pois  bem, Alex, já que você é uma mente cheia de luz que aceita a verdade  cósmica dos elefantes roxos que flutuam, eu preciso te dizer que os  elefantes roxos que flutuam revelaram para nós, os espíritos iluminados  capazes de ver os elefantes roxos que flutuam, que a fonte de todo o mal na humanidade é usar camisetas brancas, aquelas básicas, de malha.&#8221;</p>
<p>&#8220;Hã, tipo <a href="http://www.submarino.com.br/portal/HomeMarca/531460/hering/?franq=136855">Hering</a>?&#8221;</p>
<p>&#8220;Nem fale esse nome que você atrai más vibrações. Essa empresa é a maior incentivadora do mal no mundo.&#8221;</p>
<p>(Por  algum motivo que me escapa, as pessoas-que-acreditam-em-coisas  geralmente implicam com as palavras, dando a elas um poder que não têm.  Como nos livros de <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/21214617/harry+potter+e+as+reliquias+da+morte/?franq=136855">Harry Potter</a>, onde ninguém, a não ser o Harry, tem coragem de pronunciar  o nome do vilão Voldemort. Naturalmente, essa cegueira só faz facilitar  o renascimento do feiticeiro. Mais naturalmente ainda, os livros de <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/21214617/harry+potter+e+as+reliquias+da+morte/?franq=136855">Harry Potter</a> são quase que unanimimente considerados pelas  pessoas-que-acreditam-em-coisas como fortes incentivadores das forças  diabólicas blá blá)</p>
<p>Estamos chegando na parte complicada. A pessoa-que-acredita-em-coisas coloca a mão em cima da minha e diz:</p>
<p>&#8220;Você acredita em mim?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim&#8221;, eu digo, como o rapaz bonzinho que sou.</p>
<p>&#8220;Você  acredita que eu só quero o seu bem, que só estou aqui com você (isto é,  perdendo meu tempo falando com um descrente) porque acredito que você  vale a pena, que você não veio a esse mundo por acaso, que você está  pronto para receber a verdade que eles não querem que você saiba?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim&#8221;, eu respondo.</p>
<p>(Quase  sempre, é verdade. Eu tenho um canto especial no meu coração para as  pessoas que acreditam sinceramente que eu vou pro inferno por toda a  eternidade e fazem tudo o que podem pra evitar essa tragédia.)</p>
<p>&#8220;Então, prometa que nunca mais irá usar camisetas brancas. Jamais. Para o seu próprio bem. Para o bem da sua alma.&#8221;</p>
<p>Pronto. Não há conversa com pessoa-que-acredita-em-coisas que não chegue inevitavelmente nessa fase.</p>
<p>As  pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas com o respeito  que você tem pela crença delas. As pessoas-que-acreditam-em-coisas não  estão satisfeitas de você garantir que confia em suas palavras e que,  bem, se dizem que viram elefantes roxos flutuantes, então é porque  existem mesmo.</p>
<p>Não, meus amigos. As pessoas-que-acreditam-em-coisas querem mudar a sua vida. E não se satisfazem com menos.</p>
<p>E  a MINHA vida seria muito mais simples se eu fosse capaz de colocar  minha mão em cima da mão deles que está em cima da minha outra mão e  dizer:</p>
<p>&#8220;Sim!, claro!, claro que sim! Claro que vou mudar um hábito  de toda uma vida só por causa de uma afirmação completamente  não-fundamentada feita por um quase completo desconhecido. Como não?&#8221;</p>
<p>Mas, raios, eu não consigo.</p>
<p>Então, suavemente, respeitosamente, tomando o máximo de cuidado para enfatizar minha tolerância, eu digo:</p>
<p>&#8220;Olha, eu não posso prometer isso, não.&#8221;</p>
<p>O pior é a surpresa sincera de sua indignação:</p>
<p>&#8220;Mas como não? Você não ouviu tudo o que acabei de falar?!&#8221;</p>
<p>&#8220;Ouvi, claro, mas-&#8221;</p>
<p>&#8220;E, mesmo depois de ouvir tudo isso, como pode ainda assim dizer que continuará usando essas camisetas brancas de malha?&#8221;</p>
<p>Sei  que estou em território minado e que todas essas palavras serão jogadas  na minha cara com ódio de qualquer jeito mas, para satisfazer minha  consciência, tomo todo cuidado possível para ser extra-delicado e  respeitoso:</p>
<p>&#8220;Bem, acredito em você quando diz que viu os elefantes  roxos flutuando, mas isso não significa que estou disposto a mudar  minha vida por causa desse fato.&#8221;</p>
<p>E, com mais cuidado, eu acrescento:</p>
<p>&#8220;Além disso, você não me deu nenhum motivo concreto para parar de usar camisetas brancas.&#8221;</p>
<p>(Reparem que eu não disse &#8220;motivo lógico&#8221;. Para as pessoas-que-acreditam-em-coisas, a palavra &#8220;<a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/39352/logica/?franq=136855">lógica</a>&#8221; tem o mesmo efeito do que alho para vampiros.  Confesso que também não gosto muito de lógica. As pessoas que invocam  muito a lógica em geral estão querendo te engrupir. Hoje em dia, a <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/39352/logica/?franq=136855">lógica</a> é muito mais usada para enganar e confundir do que para explicar, mas pelo menos não tenho medo da palavra.)</p>
<p>E continuo:</p>
<p>&#8220;Você  nem mesmo me explicou a relação entre os elefantes roxos que flutuam e  as camisetas brancas. De que modo as camisetas brancas nos afetam  negativamente? O que exatamente elas fazem? Afetam nossas vibrações?  Roubam nossa energia? Atraem maus espíritos?&#8221;</p>
<p>(Espero que a essa  altura do campeonato vocês já tenham percebido que nada desse artigo é  ficção. Todas as frases que estão aqui eu já ouvi trocentas vezes, de  tudo quanto é pessoa-que-acredita-em-coisas, de evangélicos a wiccans.  Essa próxima então é a minha preferida.)</p>
<p>&#8220;Alex&#8221;, diz o outro, com  ar superior, &#8220;eu realmente não me rebaixaria a explicar, pra um homem da  sua inteligência e da sua capacidade, o enorme poder nocivo das  camisetas brancas.&#8221;</p>
<p>Eu coço a cabeça:</p>
<p>&#8220;Recusa?&#8221;</p>
<p>&#8220;Claro que recuso. É óbvio. Patentemente óbvio. Você só não vê porque não quer. Porque está com o coração endurecido. Porque, ao contrário do que pensa em sua imensa vaidade, sua mente está fechada a tudo que não se conforme à sua visão estreita de mundo. Porque está comprometido com a verdade DELES.&#8221;</p>
<p>É  nesse ponto que fica patente a total inutilidade de conversar com  pessoas-que-acreditam-em-coisas. Elas não querem que você escute suas  crenças, ou que as respeite, ou mesmo que as aceite. Elas querem,  sinceramente, a sua alma, e não se contentam com nada menos do que isso.</p>
<p>Na  verdade, como nunca passei desse estágio, nem sei se é apenas isso que  querem. Pode ser que quando você lhes hipoteque sua alma, eles queiram  ainda mais. Pode ser que quando você diga &#8220;sim, claro, nunca mais usarei  camisetas brancas&#8221;, eles já tenham outro pedido ainda mais  despropositado pra fazer. Jamais saberei.</p>
<p>Finalmente, abandono um pouco a diplomacia e tolerância que mantive até ali e tento esclarecer:</p>
<p>&#8220;Desculpa,  deixa eu ver se eu entendi direito. Você me vem com uma crença  totalmente insensata de elefantes roxos que flutuam e espera que eu  acredite nisso baseado somente na sua palavra. Ou seja, eu tenho que  pesar, de um lado, toda a minha experiência de vida, tudo o que eu já  observei e estudei e, do outro, somente você. Mesmo assim, contra  qualquer lógica, eu escolho a sua palavra, apesar de você nunca se dar  ao trabalho de nem mesmo tentar explicar como os elefantes ficaram roxos  ou como flutuam.</p>
<p>Então,  você afirma que a existência de elefantes roxos flutuantes significa  que camisetas brancas são malignas, mas em momento algum você nem tenta  clarificar qual é a conexão lógica entre esses dois fatos aparentemente  desconexos. Também não explica de que modo ou porque as camisetas  brancas são malignas, por isso ser tão patentemente óbvio para qualquer  ser pensante. Por fim, com base nessa cadeia de afirmações mais frágil  do que <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/48815/palace+ii:+a+implosao+velada+da+engenharia/?franq=136855">um prédio do Sergio Naya</a>, você pretende que eu abandone um hábito de uma vida inteira. É isso?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim. Exatamente. Então, você promete?&#8221;</p>
<p><strong>Você Precisa Sentir Que Estou Falando a Verdade</strong></p>
<p>Estamos  chegando finalmente à minha grande dúvida sobre as  pessoas-que-acreditam-em-coisas, a dúvida que motivou todo esse artigo.</p>
<p>Quando  digo que não vou mudar meus hábitos em função de suas crenças, as  pessoas-que-acreditam-em-coisas ficam tão surpresas e indignadas que eu  me pergunto: como reagem normalmente seus outros interlocutores? Será que sou o único que se recusa?</p>
<p>A  maioria das pessoas-que-acreditam-em-coisas (exceto as que estão em  maioria, como cristãos no ocidente, etc) vive em um mundo repleto de  pessoas-que-não-acreditam-nas-coisas-em-que-acreditam. E suponho que  devem rotineiramente expor suas crenças para os descrentes,  especialmente para os descrentes que amam, para aqueles que querem  sinceramente salvar dos efeitos malignos das camisetas brancas e afins.</p>
<p>E volto à dúvida: como é então que funciona isso? Será que sou o único que se recusa a mudar de hábitos?</p>
<p>E as pessoas-que-acreditam-em-coisas respondem, tentando fazer eu me sentir culpado:</p>
<p>&#8220;Você não entende, não é, Alex? Acha mesmo que eu me dou a tanto trabalho, que perco tanto tempo, com qualquer um? Estou aqui transmitindo essas verdades vitais pra você porque acho que você vale a pena,  porque sei que você é um ser especial que foi colocado nesse planeta  para cumprir uma missão única. Porque acreditei que entenderia.&#8221; (Quase  dá pra ouvir seu coração lentamente se despedaçando.)</p>
<p>&#8220;Realmente  não entendo.&#8221; Eu respondo: &#8220;Você esperava sinceramente que eu largasse  hábitos de toda uma vida&#8230; só porque você disse pra eu fazer isso?  Baseado em quê? Você nem ao menos me deu qualquer tipo de razão.&#8221;</p>
<p>E a pessoa-que-acredita-em-coisas mais uma vez coloca sua mão sobre minha mão e afirma:</p>
<p>&#8220;Baseado na sua intuição, na sua fé. Você tem que *sentir*, no seu âmago, que eu estou falando a verdade.&#8221;</p>
<p>&#8220;Pôxa&#8221;, eu respondo, &#8220;a única coisa que estou sentindo é vontade de ir embora.&#8221;</p>
<p>Nunca  li Dawkins, que sempre me pareceu um ateu militante, algo que desprezo  um pouco, mas Freud em <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/81297/futuro+de+uma+ilusao,+o/?franq=136855">O Futuro de uma Ilusão</a> já falou tudo o que eu  sempre quis dizer sobre religião.</p>
<p><strong>Você Não Pode Estar Sinceramente nos Comparando a Eles!</strong></p>
<p>Estamos chegando no fim da conversa.</p>
<p>A  pessoa-que-acredita-em-coisas finalmente percebe que não vai conseguir  mudar toda minha filosofia de vida ao longo de um único almoço. Então,  fica puta, defensiva, ofendida.</p>
<p>&#8220;Você é o pior tipo de cético,  Alex. Você é o cínico que vaidosamente se considera cabeça aberta. Mas  você nunca deu uma chance à verdade que tentei lhe transmitir. Já chegou  com ouvidos moucos e coração endurecido.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não é verdade. Eu  te ouvi com o mesmo respeito e atenção que ouço as pessoas que  acreditam em rinocerontes verdes subterrâneos ou trutas vermelhas  intergalácticas. Sei que são pessoas que acreditam sinceramente em suas crenças e que sinceramente querem o meu bem, então escuto com resp-</p>
<p>Pronto. É exatamente nesse momento que eu alieno, irremediavel e inapelavelmente, todas as pessoas-que-acreditam-em-coisas:</p>
<p>&#8220;Peraí,  Alex, agora você está me agredindo. Você não pode sinceramente querer  comparar a minha fé com a dessas pessoas que acreditam em rinocerontes  verdes subterrâneos. Só fanáticos idiotas de uma seita xexelenta  poderiam acreditam em uma superstição medieval sem nenhum embasamento  como essa! Sobre os elefantes roxos flutuantes, por outro lado, já  existe toda uma sabedoria acumulada, um cânone consagrado, milênios de  estudos, um corpus de compêndios sapienciais, grandes exegetas e  estudiosos, uma disciplina rigorosa de corpo e mente!&#8221;</p>
<p>Eu suspiro:</p>
<p>&#8220;O pessoal dos rinocerontes verdes subterrâneos fala a mesma coisa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim,  mas porque são uns fanáticos intolerantes que só enxergam sua própria  superstição. Eu vou ficar ofendido se você der a entender, mais uma vez,  que nós temos algo a ver com esses hereges dos rinocerontes verdes  subterrâneos.&#8221;</p>
<p>&#8220;Bem, o pessoal dos rinocerontes verdes  subterrâneos também chegou pra mim com a melhor das boas intenções,  também me juraram que existem rinocerontes verdes subterrâneos, mas não  explicaram como eles fazem pra viver debaixo do solo, e me alertaram  para não usar camisas pólo azuis, mas não me explicaram nem porque elas  fazem mal nem qual a relação delas com os rinocerontes verdes  subterrâneos. Então, o que eu faço? Quem está com a razão?&#8221;</p>
<p>&#8220;Olha  só, Alex, se não vai falar sério, não dá pra conversar. Eu perdi uma  tarde inteira pra te ajudar e você me vem com deboche. Você não pode  estar sinceramente considerando que esses caras são sérios. Eles  acreditam em rinocerontes verdes subterrâneos, pelo amor de deus. Uma  coisa que não faz o menor sentido. Totalmente ridícula!&#8221;</p>
<p>E ainda riem:</p>
<p>&#8220;Onde já viu! Rinocerontes verdes subterrâneos!&#8221;</p>
<p>* * *</p>
<p>Esse talvez seja o meu texto mais famoso, mais citado, mais republicado por aí. Ele está no meu livro <a href="../liberal">Liberal Libertário Libertino</a>,  que é um livrinho de papel mesmo, bonitinho, vermelhinho, com minhas  melhores crônicas, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades  Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A  primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e  revisada, conta com dois novos textos &#8211; inclusive um novo epílogo à  narrativa do Katrina.</p>
<p><a title="Liberal Libertário Libertino - Crônicas" href="../liberal"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4075/4863537330_0c5220af7f_m.jpg" alt="Liberal Libertário Libertino - Crônicas" width="160" height="240" /></a></p>
<p>Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010)<strong> Livro.</strong><br />
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		<title>o livro das prisões</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Feb 2011 04:22:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>alexcastro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A série As Prisões foi publicada na internet entre 2003 e 2006, gerando muita polêmica e fortes paixões entre os leitores. Os textos foram então retirados do ar e estão sendo retrabalhados, revisados e reorganizados por um editor independente. Em seguida, vamos procurar uma editora. Muitos e muitos leitores entram em contato comigo, dizendo como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A série <strong>As Prisões</strong> foi publicada na internet entre 2003 e 2006, gerando muita polêmica e fortes paixões entre os leitores.</p>
<p>Os textos foram então retirados do ar e estão sendo retrabalhados, revisados e reorganizados por um editor independente. Em seguida, vamos procurar uma editora.</p>
<p>Muitos e muitos leitores entram em contato comigo, dizendo como <strong>As Prisões</strong> mudaram suas vidas e afirmando esperar ansiosamente pelo livro, para poder ler de novo e presentear os colegas.</p>
<p>Se esse é seu caso, por favor, deixe um depoimento nos comentários, de preferência com nome completo e email. Publicar livro nesse país é difícil; me ajude a mostrar às editoras que <strong>O Livro das Prisões</strong> <strong>JÁ TEM</strong> um público cativo e ansioso.</p>
<p>Muito obrigado. Vocês são lindos.</p>
<p>Alex Castro</p>
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		<title>Radical Rebelde Revolucionário, crônicas cubanas</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 01:19:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[livros]]></category>
		<category><![CDATA[radical rebelde revolucionário]]></category>

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		<description><![CDATA[Compre. &#8220;Narrado na primeira pessoa, Radical Rebelde Revolucionário é um livro de crônicas curtas, um relato de viagem cheio de ritmo e cadência. Para descrever Havana, Alex Castro compara a outras cidades de passado escravista, como Rio de Janeiro e Nova Orleans. No meio da descrição e do relato, também apela para lembranças do passado, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://alexcastro.com.br/compre">Compre</a>.</p>
<p>&#8220;Narrado na primeira pessoa, <strong>Radical Rebelde Revolucionário</strong> é um livro de crônicas curtas, um relato de viagem cheio de ritmo e cadência. Para descrever Havana, Alex Castro compara a outras cidades de passado escravista, como Rio de Janeiro e Nova Orleans. No meio da descrição e do relato, também apela para lembranças do passado, de outras viagens, de 0outras pessoas que encontrou. O autor, além de narrador, vira também personagem de histórias que nem sempre são coroadas de sucesso; Castro brinca com suas duplas identidades de brasileiro/estrangeiro/turista e também latino-americano, fazendo-se passar por nativo na fila do sorvete, na livraria, no mercado. Sua «cara-de-pau» acaba trazendo muitos dividendos, inclusive o melhor elogio que um turista-viajante pode receber de um nativo : “Alexandre, já podes se considerar um havaneiro honorário!”&#8221; (<em>por Vivian Soares</em>)</p>
<p><a href="http://alexcastro.com.br/radical/"><img class="size-medium wp-image-25 alignnone" title="Radical Rebelde Revolucionário (2007), crônicas cubanas de Alex Castro" src="http://alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2010/02/rrr-300x300.jpg" alt="Radical Rebelde Revolucionário (2007), crônicas cubanas de Alex Castro" width="300" height="300" /></a></p>
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<p><strong>Repercussão</strong></p>
<blockquote><p>Hum. Intelectual. Que fuma cachimbo. Passeando em Cuba bancado por universidades para estudar a Disneylandia do Socialismo? Isso sempre dá naqueles livros chatíssimos onde o cara republica propaganda do Partido, ou então é escrito por um anticomunista ferrenho que vai passar o tempo todo falando das atrocidades da Revolução. Todo livro sobre Cuba cai nesses dois modelos. &#8230; O livro é excelente, li de uma sentada só, mesmo com isso soando altamente comprometedor em um post com esse título. São 155 páginas com crônicas deliciosas, onde ele conta seu dia-a-dia na terra de Fidel. Ele descreve um povo como qualquer outro. Alegre, triste, otimista, conformado, assustado, orgulhoso, envergonhado. Ele encontrou Dolores, a bibliotecária mais sensual desde a Barbara Gordon, descobriu que os cubanos também usam o Jeitinho Brasileiro e aprendeu que quem decide o menu é o burocrata do Governo que escolhe quais produtos colocar nas lojas naquela semana. Passou por saias justas com vendedoras de abacaxi, apaixonou-se por vários pés (longa história) e enganou a polícia para tomar sorvete barato. </p>
<p>Alex alterna momentos líricos com o mais puro sarcasmo. &#8230; Ele comete vários pecados que farão com que a Academia odeie seu livro, e desejasse estar sob o Regime Cubano, onde Alex seria preso e seus livros proibidos. Ele cita o prosperidade artificial graças ao Regime Soviético, conta que os jornais oficiais são subsidiados, e que o povo os usa como substituto de papel higiênico, conta dos táxis para cidadãos, proibidos por lei de levar turistas, e constantemente parados pelo polícia. &#8230; Mesmo assim, Radical Rebelde Revolucionário não é um ebook-denúncia. Nem tudo é ruim, nem tudo é um dramalhão mexicano. Alex não tem uma agenda oculta através do livro. Ele consegue falar mal de uma coisa, e na próxima crônica falar bem de outra. Mostra que por detrás da propaganda e da antipropaganda há gente. E gente é sempre interessante. Recomendo muito a leitura do livro.<br />
<strong>Carlos Cardoso</strong>, &#8220;<a href=""http://www.contraditorium.com/2007/07/18/e-o-alex-castro-gosta-de-picadura/">Contraditorium</a>&#8220;</p></blockquote>
<blockquote><p>&#8230; a verdade do livro não está nas provas, nos documentos, nem nos tão falados e incredíveis jornais de Cuba, descritos no livro. A verdade do livro está naquilo que o Alex viu, o que ouviu, tocou, cheirou, comeu, sentiu. Está naquilo que o Alex viveu em Cuba, não enquanto turista, mas enquanto descobridor, enquanto pesquisador, enquanto parte integrante do local, não apenas estudando a cultura de um povo, mas experimentando e tentando viver como um cubano, apesar de todas as divisões e limitações ali existentes. E afinal o que importa a verdade num país que nem parece ser de verdade? Definir como verdade ou não o que está escrito no livro, seria anular tudo o que o Alex sentiu na sua “viagem-integração”. Independente de as informações por ele recebidas serem ou não verídicas, a verdade é, por si só, aquilo que viveu e sentiu, e isso ninguém pode lhe roubar. &#8230; </p>
<p>Quando o Alex me puxou pela mão e me deixou em Cuba, eu disse: «Não ouse me abandonar, Alex, não me deixe aqui sozinha!». Primeiro porque nem parece existir um país assim. É tudo muito irreal, ao mesmo tempo que soa tão verdadeiro, já que a verdade está em tudo aquilo que jamais poderia imaginar. Em segundo lugar porque só o Alex teria tanta desenvoltura para entrar dentro de Cuba, não como qualquer um entra como turista, mas entrar de verdade, de corpo, alma e charuto, para me apresentar o país. Quem diria que, no país onde sonhava ir dançar salsa, fosse descobrir tantos conflitos? E, mesmo assim com tantos conflitos, contrastes, limitações e miséria, Cuba fosse assim tão especial, tão quente?</p>
<p>Receei que em certa altura o Alex fosse largar a minha mão e dizer: “Se vira!”. Mas não, em momento algum ele fez isso. O Alex começa por me apresentar uma mulher tão segura que, nos tempos de hoje, parece não existir, juntamente com um país que parece obra de um artista cheio de imaginação. E me apresentou a moeda, e me fez também montar os pedaços do abacaxi, como num quebra-cabeças, para conferir se faltava alguma parte, me mostrou os livros proibidos da biblioteca nacional, me apresentou o cinema cubano, me fez quase fugir das casas de banho, se não estivesse tão apertada para fazer chichi.</p>
<p>A escrita do Alex foi fazendo com que caminhasse por cada rua, conversasse com cada pessoa, inclusive os jiniteiros. E suas análises mais uma vez brilham, porque mostram várias faces de situações que muitas pessoas só enxergariam de uma única forma. Mesmo se você não tiver o mínimo interesse por Cuba, aconselho a viagem. Porque no Radical Rebelde Revolucionário a gente até se esquece que está lendo na tela do computador, porque estamos, na verdade, viajando junto com o Alex.<br />
<strong>Paula Lee</strong>, &#8220;Amante Profissional&#8221;</p></blockquote>
<blockquote><p>Alex tem um texto brilhante, claro, divertido, engraçado. Mistura observações de acadêmico com sacadas do adolescente velho que é. Não é livro a favor de Fidel Castro, asseguro. Nem é uma diatribe contra o dito-cujo; é um relato de viagem, de um cara inteligente, bem escrito, e interessante até para quem não pensa em passar nem perto de Cuba. &#8230;<br />
<strong>Sergio Leo</strong>, &#8220;Valor Econômico&#8221;</p></blockquote>
<blockquote><p>Narrado na primeira pessoa, o primeiro elemento positivo do livro é que ele é totalmente em sintonia com o formato escolhido: o e-book. As crônicas são curtas, tem ritmo, você pode lê-las na ordem que quiser. Elas podem ser vistas como capítulos de um relato de viagem. Estão ali quase todos os elementos desse sub-gênero, que tem geralmente três modos de enunciação : o comentário, a descrição e a narração. O comentário seriam todas aquelas explicações que o autor dá muitas vezes citando datas, estatísticas, fatos históricos. As informações do &#8220;comentário&#8221; (onde às vezes o autor pode se pronunciar sobre algum tema importante) podem ser recolhidas pelo autor durante a estadia no lugar visitado, mas geralmente elas são de segunda mão, algo que ele leu em outros livros ou que tomou de outros viajantes. A descrição é o ato de descrever paisagens, objetos, pessoas : cores, formas, etc. A narração seria tudo aquilo que releva da ordem da experiência, se trata principalmente de contar ações, que se desenvolvem no tempo.</p>
<p>O Alex não caiu na armadilha de abusar dos comentários longos e enfadonhos (como essa resenha) sobre Cuba. O leitor que tiver interesse em conhecer mais sobre a história de Cuba, que procure as centenas de livros escritos por historiadores, sociólogos e outros que passaram anos a estudar o assunto. Sim porque não existe nada mais cansativo que ler um romance onde o autor encantado pela pesquisa de duas semanas que realizou na biblioteca pública municipal de Quixeramobim sobre plantação de abacaxis resolve começar a dar entrevistas sobre plantação de tomates. O Alex não precisa disso e o leitor agradece. Sendo assim, o comentário aparece aqui e acolá, mas ele se mistura bem com a descrição e o relato das experiências vividas. &#8230;</p>
<p>Para descrever a Havana de 2007, ele usa o recurso da analogia, comparando Cuba com regiões que também tem na sua história um passado escravista, como Rio de Janeiro, Atlanta, New Orleans. É claro que isso é possível porque o autor conhece os lugares do qual ele fala, não se trata de informação livresca e não se trata então de relato de marinheiro de primeira viagem. &#8230; </p>
<p>«Em Cuba, falta de tudo, menos justiça poética.» As experiências relatadas nas crônicas tocam em temas que foram bastante delicados para a Revolução cubana, entre os quais as mulheres e os homossexuais, e em outros temas que fazem parte da realidade cubana principalmente depois do começo dos anos noventa, como a prostituição. Na crônica Os Jineteiros o que era pra ser dramático fica engraçado, mas sem ser machista ou caricato.</p>
<p>Alex Castro observou o cubano mas também o turista gringo que ele critica por andar em terra estrangeira vestido como se fosse para um safári. O autor, além de narrador também vira personagem de histórias que nem sempre são coroadas de sucesso e Castro brinca com a sua dupla identidade de brasileiro/estrangeiro/turista, mas que ao mesmo tempo é latino-americano e pode em várias situações se passar por um nativo na fila pra comprar sorvete, na livraria, no mercado. Como todo bom viajante que «conta um conto e aumenta um ponto», o narrador-personagem não deixa de se gabar por conseguir comprar produtos com preço local. Sua «cara-de-pau» acaba trazendo muitos dividendos, inclusive o melhor elogio que um turista-viajante pode receber de um nativo : &#8220;Alexandre, já podes se considerar um havaneiro honorário!&#8221;</p>
<p>Por todas essas razões vale a pena ler Radical, Rebelde e Revolucionário. Além de conhecer um pouco sobre Cuba, você vai dar boas risadas. &#8230; Na era da Internet, do skipe e da tv à cabo, essas crônicas têm a grande vantagem de constituirem um testemunho direto de alguém que viu e ouviu tudo que está contando e é esse olhar de testemunha ocular que faz elas serem tão boas.<br />
<strong>Ana Lucia Araujo</strong>, Howard University</p></blockquote>
<blockquote><p>Antônio Candido fala que a verossimilhança da literatura é dada pelos detalhes. Quanto mais detalhes aparecem, mais as personagens, lugares, paisagens tornam-se passíveis de existência para a cabeça do crédulo leitor. Alex Castro nos avisa:aqui, tudo é ficção, tudo é inventado, pois “a história de Cuba é impossível demais para ser verdade”. Como o livro é cheio de detalhes, tolinhos, lemos como se fosse verdade, e algumas partes até emocionam.</p>
<p>E a história inventada não é a história de Cuba, nem a história das pesquisas feitas, embora elas apareçam um pouco também. A história inventada é a de um lugar onde chove todos os dias, tempestades de dez minutos, o povo se abriga nas marquizes e depois volta a viver suas vidas. Onde é impossível andar estando seco, onde as pessoas fumam charutos que desafiam a lei da gravidade, onde não se encontra bacon, e o jornal é usado para limpar a bunda. Lugar de um sistema monetário completamente doido, que o Alex explica bastante mas que eu não entendi direito até agora. Lugar onde a todo momento se é abordado, por jineteros, polícia&#8230; onde se anda livremente pelas ruas às três da manhã, sem medo de assaltos ou violências. Histórias de amizades, de andanças, da ida a um balé, das casas, dos encontros e das pessoas que o Alex encontrou e conheceu. &#8230;</p>
<p>Há no livro inteiro um sabor acridoce, não se trata somente das belas histórias do povo cubano. Pois o Alex também escapa da armadilha que seria escrever esse livro como um libelo pró ou anti Cuba. Se os esquerdistas mais ferrenhos não vão gostar, os direitistas também torcerão seus narizes. O cronista é ponderado e, se enxerga poesia no fato de que os antigos palacetes são agora habitados por uma população negra e pobre, escreve a dado momento que visitar Cuba é como visitar uma prisão; ele, viajante, pesquisador, tem uma liberdade que seus amigos cubanos não possuem. Assim, em meio ao povo culto, a pobreza e escassez de recursos; em meio à simpatia e acolhimento, a obrigação de anotar em caderninhos todos os que entram e saem&#8230; O tempo inteiro os relatos oscilam entre o doce e o amargo.</p>
<p>Voltemos à cama, ao tal do primeiro encontro. Pode ser que os corpos se estranhem, que um queira ir para um lado, outro para outro. Que o início seja difícil mas convide a uma nova tentativa. Que portas sejam abertas. Alex Castro foi conhecendo as ruas, casas e pessoas de Havana como quem conhece uma mulher. E o livro trata da história de um amor crescente. Não idealizada, repito. Uma mulher sofrida, envelhecida, em suspense absoluto quanto ao futuro; uma mulher dividida, uma mulher bela, de história singular. Como ele é generoso, e a favor do relacionamento aberto, divide essa mulher com a gente, dá dicas, orienta, conta segredos e ainda mostra fotos. E ao lermos, crédulos, até acreditamos que essa mulher existe. Vale a pena conhecê-la, trata-se de uma bela viagem, para uma casa muito diferente, de fato, da nossa. Entremos.<br />
<strong>Luana Chnaiderman de Almeida</strong></p></blockquote>
<p><a href="http://alexcastro.com.br/radical/"><img class="size-medium wp-image-25 alignnone" title="Radical Rebelde Revolucionário (2007), crônicas cubanas de Alex Castro" src="http://alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2010/02/rrr-300x300.jpg" alt="Radical Rebelde Revolucionário (2007), crônicas cubanas de Alex Castro" width="300" height="300" /></a></p>
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		<title>liberal libertário libertino, crônicas</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 00:41:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Compre. As melhores crônicas de Alex Castro, originalmente publicadas no jornal Tribuna da Imprensa e no blog Libertal Libertário Libertino, entre 2003 e 2007: &#8220;Fantasmas de Felicidades Passadas&#8221;, &#8220;Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas&#8221; e &#8220;Manifesto Libertário&#8221;, entre outras, além das aventuras do Oliver durante o Katrina. Agora (2010) em 2ª edição, revisada, com dois textos novos &#8211; incluindo um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://alexcastro.com.br/compre/">Compre</a>.</p>
<p>As melhores crônicas de Alex Castro, originalmente publicadas no jornal Tribuna da Imprensa e no blog Libertal Libertário Libertino, entre 2003 e 2007: &#8220;Fantasmas de Felicidades Passadas&#8221;,  &#8220;Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas&#8221; e &#8220;Manifesto Libertário&#8221;, entre outras, além das  aventuras do Oliver durante o Katrina. Agora (2010) em<strong> 2ª edição</strong>, revisada, com <strong>dois textos novos</strong> &#8211; incluindo um epílogo atualizado à narrativa do Katrina.</p>
<p><a title="Liberal Libertário Libertino - Crônicas" href="http://alexcastro.com.br/liberal"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4075/4863537330_0c5220af7f_m.jpg" alt="Liberal Libertário Libertino - Crônicas" width="160" height="240" /></a></p>
<p>Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010)<strong> Livro.</strong><br />
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<p>* * *</p>
<p><strong>Trechos</strong></p>
<p><strong>Fantasmas de Felicidades Passadas</strong></p>
<blockquote><p>Tanta felicidade morta tem um peso opressivo. Quanto maior a felicidade, mais fedorenta a massa putrefata. Um triplo assassinato não teria deixado a atmosfera tão pesada quanto aqueles longos beijos ao pôr-do-sol. Passo por lá e posso sentir o velho ponto de ônibus me atormentando, esfregando minha felicidade passada em minha própria cara, me acusando de não ser tão feliz quanto era, de não ser tão feliz quanto poderia ser. &#8230; Um momento realmente feliz nunca deixa de existir. Ele continua reverberando para sempre. Sua existência é tão concreta que ele quase pode ser visitado, como se visita a casa de um velho amigo.</p></blockquote>
<p><strong>Pessoas-Que-Acreditam-em-Coisas</strong></p>
<blockquote><p>As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas com o respeito que você tem pela crença delas. As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas de você garantir que confia em suas palavras e que, bem, se dizem que viram elefantes roxos flutuantes, então é porque existem mesmo. Não, meus amigos. As pessoas-que-acreditam-em-coisas querem mudar a sua vida. E não se satisfazem com menos.</p></blockquote>
<p><strong>A Tirania das Bananas</strong></p>
<blockquote><p>A banana é uma tirana caprichosa. Ontem, eu te desprezei, não queria nada com você, tinha outras prioridades. Hoje sou sua, inteira, doce, fálica. Amanhã já não estarei mais aqui, serei casca virada no seu folhetim.</p></blockquote>
<p><strong>A Auto-Confiança dos Ricos</strong></p>
<blockquote><p>Eu tinha um vizinho milionário. Ele detestava dirigir e não queria se estressar com documentação, impostos, seguro, consertos. Então, contratou uma empresa de rádio-táxi para que mantivesse um carro, a sua disposição, 24 horas por dia, na portaria do prédio. Pronto. Se um quebrasse, que mandassem outro. O homem só sabia uma coisa: tinha dinheiro que não acabava mais e não queria se aporrinhar. A pergunta: esse homem vivia fora da realidade?</p>
<p>Pra começar, que realidade, cara-pálida? Existe só uma realidade? Ou será que existe uma realidade certa e outras tantas realidades erradas? Se sim, quem decide qual é a certa e qual são as erradas?</p></blockquote>
<p><strong>Eu, Oliver e Katrina</strong></p>
<blockquote><p>Em agosto de 2005, eu e meu poodle Oliver (um cachorro de rua que encontrei na favela de Rio das Pedras), nos mudamos para Nova Orleans, onde eu começaria um doutorado em Português. Menos de duas semanas depois, a cidade teve que ser evacuada por causa do furacão Katrina. Sem carro, sem dinheiro e sem conhecer ninguém, eu acabei sendo obrigado a deixar o Oliver em casa, com comida para muitos dias, e fui evacuado junto com o pessoal da universidade para um abrigo em Jackson, Mississippi.</p>
<p>Dormi apenas uma noite no abrigo. No dia seguinte, ficou claro que a situação era muito mais séria do que imaginávamos. Abandonei o abrigo e consegui pegar um dos últimos vôos saindo de Jackson antes do aeroporto ser fechado. Viajei em uma daquelas cadeiras retráteis da tripulação. A noite que passei sozinho no aeroporto de Detroit, véspera do furação, assistindo a CNN prever a hecatombe do dia seguinte, pensando obsessivamente no cãozinho que dependia de mim e não consegui proteger, foi a pior da minha vida.</p></blockquote>
<p><strong>O Que Você Gosta de Ouvir?, Me Perguntou Um Amigo</strong></p>
<blockquote><p>Eu: Mulher rindo. Alho refogando. Zíper abrindo. Ondas quebrando. Gemidos de gozo. Criança brincando. Dois sapatos caindo no chão, um depois do outro. O apito do sorveteiro que passava pela minha casa. Passos descalços no chão frio. &#8220;Eu te amo, Alexandre.&#8221; O Oliver latindo quando chego em casa. Saltos altos no mármore. Máquina de escrever elétrica. Pisada forte de mulher decidida. Apito do recreio. Pernas femininas, vestidas de couro ou latex, roçando uma contra a outra enquanto andam. Suspiro saciado de prazer. O telefone me acordando de manhã.</p>
<p>Ele: Não. Eu quis dizer de música.</p>
<p>Eu: Ah.</p></blockquote>
<p><strong>Saindo do Armário</strong></p>
<blockquote><p>É ao me revelar que descubro que vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede. É ao me mostrar que descubro quem vai me dar as mãos nessa viagem e quem vai estancar na encruzilhada. Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas. Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.</p></blockquote>
<p><strong>Manifesto Libertário: Sejam Grandes</strong></p>
<blockquote><p>Tudo o que eu quero é abrir os seus olhos, nem que apenas por um segundo, nem que você discorde de mim, para o fato de que o mundo, como ele é hoje, não é uma construção unânime. O próprio processo histórico se encarrega de eliminar todas as possibilidades alternativas, todos os caminhos que poderiam ter sido percorridos e que não foram, até gerar a ilusão de que o modo como as coisas são é o único modo como poderiam ter sido. Mas não é verdade. Existem vozes dissidentes, existem pessoas que pensam diferente, existe a possibilidade de viver uma outra vida, sem mesquinharias, tribalismos, religiões, maniqueísmos, preconceitos, prisões. Mais ainda, sem esqueminhas mentais dogmáticos e pré-fabricados, que almejam explicar tudo com suas formulinhas, mas que só conseguem embotar o pensamento humano, como o marxismo e o cristianismo.</p>
<p>Ser pequeno, mesquinho, preconceituoso, ressentido, invejoso, tudo isso é muito fácil. E muito tentador. O desafio que lanço aos meus leitores é outro: sejam grandes!</p></blockquote>
<p>* * *</p>
<p><a title="Liberal Libertário Libertino - Crônicas" href="http://alexcastro.com.br/liberal"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4075/4863537330_0c5220af7f_m.jpg" alt="Liberal Libertário Libertino - Crônicas" width="160" height="240" /></a></p>
<p>Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010)<strong> Livro.</strong><br />
Preço recomendado: <strong>R$35 / US$25, frete incluso.</strong><strong> </strong></p>
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