31 março, 2012 §
Vocês podem até não acreditar mas houve época, lá entre a Idade da Pedra Lascada e da Pedra Polida, antes do celular, da internet e da água encanada, que o Brasil era um país completamente fechado às importações. Só circulavam produtos made in Brasil, desde carros até computadores.
Eu ainda me lembro, logo depois da abertura da economia pelo Collor, em 1990, os primeiros carros a serem importados. Foram Nivas, da Lada, uma fábrica soviética – sim, amiguinhos, naquela época ainda havia União Soviética, estamos falando da pré-história, eu avisei. Bem típico do Brasil que os primeiros carros a serem importados eram ainda piores do que os nossos.
Enfim, antes disso, só circulavam carros made in Brazil, todos muito parecidinhos e homogêneos.
Lá pelo final da década de 70, meu pai começou a fazer dinheiro na bolsa e decidiu gastar parte dele na sua grande paixão: carros. Mas qual a graça de comprar Fuscas, Passats e Variants? Na época, o topo de linha nacional era o Alfa-Romeo, grandalhão e feioso.
Havia uma brecha na lei de importações, porém. Diplomatas podiam importar carros. O privilégio era pouco usado, não se via nenhum carro importado nas ruas, mas era a saída pro meu pai. Não sei exatamente qual era a treta, e devia custar caro, mas ele conseguia comprar carros importados legalmente por diplomatas. Tivemos muitas BMWs, Mercedes e Porsches. O auge, se não me engano, foi uma Porsche 928, em 1983, que por pouco não matou meus dois pais em um cavalo-de-pau quase marítimo em plena Avenida Niemeyer.
(Hmm, se tivessem morrido naquela época, e se eu e minha irmã tivéssemos tido um bom tutor, eu poderia ser rico até hoje… Ah, deixa pra lá, prefiro meus pais vivos e pobres.)
Acho difícil de um jovem hoje conceber o quanto uma Porsche 928 chamava a atenção no Rio de 1983. Hoje, ainda chamaria atenção, e olha que temos trocentos carros importados em circulação, de todos os tipos e modelos.
Na época, uma Porsche, um BMW ou uma Mercedes seria praticamente o único carro importado entre Gols, Corcéis, Belinas, Brasílias, Paratis. Não havia nada que chegasse nem perto. Chegava a ser um carro inroubável, pois era único ao ponto de não ter valor de mercado. O que um bandido iria fazer com ele?
Todo mundo olhava. Todo mundo apontava. Todo mundo comentava. Circular ao lado do Presidente Figueiredo em um carro aberto chamaria menos atenção. Bem menos. O pobre do homem andava todo dia no Pepino e ninguém nem olhava.
Uma cena era típica. Estacionávamos na rua, íamos pra algum lugar e, na volta, sempre havia alguém babando no Mercedes, adolescentes empolgados sonhando com o carro que nunca teriam.
Meu favorito era o cara com a namorada, mãos ao redor de sua cintura, explicando detalhadamente que aquele era um BMW 973i, da série 28, que tinha duzentos e quarenta e oito e dois terços pistões de potência, e cinco rebimbocas da parafuseta, cinco!, enquanto o melhor carro nacional tinha no máximo três rebimbocas, e, por isso, ele fazia curvas com muito mais estabilidade, blá blá blá, e enquanto a pobre moça fazia de tudo pra parecer interessada, lá vinha o macho alfa, com sua esposa e sua prole, pavoneando-se, peito estufado, cauda colorida toda aberta, chave na mão, pra tomar posse do seu brinquedo.
O diálogo seguinte era inevitável e irresistível:
Puxa, você tem um Mercedes 283¼ M! É verdade mesmo que ele tem um carburador duplo com ventoinha acoplada turbo?
E meu pai, que adorava falar do seu brinquedo, explicava cada detalhe:
Na verdade, é a 845¾ T, série beta, que tem a ventoinha acoplada turbo, a 283¼ M tem ventoinha interna oblíqua, que permite maior blablalização do combustível.
Caramba, que máximo, hein?!
Pois é.
E minha mãe, a namorada e eu trocávamos olhares entediados de que coisa, hein, meninos e seus brinquedos, vai se fazer o quê?
Antes que comecem a malhar meu pai, deixa eu afirmar aqui que tive o melhor pai do mundo. Ele era presente, dedicado e companheiro. Como a bolsa só opera mesmo de manhã, ele saía de casa antes do nascer do sol e, se não tivesse almoço com cliente, já estava de volta bem cedo, para ficar com os filhos, brincar, passear ou, pior, muito pior, nos pegar no colégio.
Meu pai adorava nos pegar no colégio. E podem ficar certos que ele não ia de táxi.
Eu nunca fui dessas crianças bobas que tem vergonha dos pais. Eu tinha e tenho muito orgulho dos meus. Tinha vergonha era do carro.
Meu colégio funcionava em um condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Nenhum dos meus colegas era pobrinho. Mas, mesmo assim, um BMW era demais. Teoricamente, era algo que não poderiam ter nem se pagassem.
E lá vinha o macho-alfa, na fila dos carros, dirigindo seu brinquedão.
Pra mim, não havia saída. Das duas, uma.
Os meninos que não gostavam de mim caçoavam com fúria, me chamavam de filho de bicheiro, que meu pai tinha que ser ladrão, só pode!, senão como teria um carro daqueles?!, bandido, bandido!
Na verdade, eu nunca liguei pra esses. Pior eram os meus amigos.
Eles vinham falar comigo com uma empolgação quase contagiante. Quase. Pena que nasci imune:
Caralho, que máximo, você tem uma BMW 1985, série JG8½c! Não acredito! É essa que tem a injeção eletrotástica barométrica?
Não sei.
Como assim não sabe? Você tem uma BMW 1985, série JG8½c na garagem e não sabe se ela tem injeção eletrotástica barométrica?!
Não. Não sei nem o que é isso.
E válvula de escape ontológica ígnea?
Também não sei.
Porra, mas você não sabe nada.
E eu respondia: por que você não pergunta pro meu pai?
E adivinham o que acontecia? Exatamente isso, claro.
Meus amigos iam pra minha casa, cercavam meu pai como se ele fosse Sócrates na ágora, sorriso de orelha a orelha, mais feliz do que nunca, e ficavam horas conversando sobre todas as especificações técnicas do carro.
Depois, vinha o inevitável passeio.
Para quem não conheceu a Barra na década de 80, era o verdadeiro oeste selvagem. Não havia sinais de trânsito, pardais, faixas de pedestres, acostamento, faixas, nada. A lei e a ordem só iam até a Gávea. Os retornos e sinais de trânsito na Avenidas das Américas são de 1994. Quando eu aprendi a dirigir, em 1991, todo inseguro e morrendo de medo, uma das coisas que mais me confundia era que as auto-pistas simplesmente não tinham as faixas pintadas e eu dirigia que nem um bêbado indeciso.
Enfim, nada me tira da cabeça que meu pai foi morar pra Barra justamente porque era o único lugar da cidade onde ele podia levar seus carros pra passear como se estivesse em uma autobahn prussiana. E ele passeava, meus amigos. Os carros não podiam reclamar de saudades da Europa.
Pior era chegar na casa dos meus amiguinhos, meses depois, e ouvir até os pais comentando o passeio. Claramente, para meus amigos, não tinha sido só um passeio de carro, mas uma aventura memorável e única, uma história que se conta pra família assim que se chega em casa e passa a pertencer ao imaginário coletivo. E me cobriam de perguntas que eu não sabia responder.
Só uma única vez eu dirigi um dos carros importados do meu pai. Eu tinha 19 anos e iria passar o fim de semana no sítio de uma amiga, na serra, e na hora H, meu carro, um Suzuki Swift hatch 1.0, morreu. Meu pai estava fora da cidade e fora de alcance – antes de emails e celulares, lembram? – e eu, muito a contragosto, sem outra opção e me cagando de medo, deixei um recado pra ele na geladeira e subi a serra no seu BMW.
Pois bem. Eu estava dirigindo um BMW caríssimo e super potente, qualquer toquezinho no acelerador e ele já vai a 200km/h, qualquer movimento brusco no volante e a porra já dá um cavalo-de-pau. Cheguei no sítio dela completamente estressado. Além disso, éramos adolescentes e tínhamos coisas mais interessantes pra fazer, como jogar sueca e conferir nossas coleções de selos búlgaros. Esqueci completamente de ligar pra casa pra dizer que tinha chegado bem.
Resultado: meu pai, que perdeu a irmã em um acidente de carro, surtou. Pegou meu Suzuki, que ele conseguiu botar pra funcionar, e subiu a serra já esperando ver os destroços fumegantes pelo acostamento. Não sabia o endereço do sítio de Clarice e ficou perambulando pela cidadezinha, no meu carrinho hipercompacto, perguntando pra todo mundo se alguém tinha visto um adolescente gordinho passar num enorme BMW esportivo. Uma cena bizarra.
Não sei não, mas como ele nunca fez nada parecido, nem antes nem depois, acho que estava preocupado era com o carro.
A única vez que chorei de medo na vida foi descendo a serra, no meio de uma tempestade, e meu pai no volante. Na época em que tínhamos casa em Itaipava, o carro muitas vezes ia e vinha cheio de crianças e adolescentes. Anos depois, todos trintões, barbados e com filhos, fui descobrir que muitos dos meus amigos de infância são tão traumatizados quanto eu pela experiência de descer a serra com meu pai. Meus primos começavam a vomitar já dentro da cidade.
Mas coitadinhos dos carros. Assim como um pastor alemão, um BMW também precisa de exercício.
E dá-lhe acelerador.
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, que é um livrinho de papel mesmo, bonitinho, vermelhinho, com minhas melhores crônicas, incluindo alguns como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e revisada, conta com dois novos textos – inclusive um novo epílogo à narrativa do Katrina.

Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010) Livro.
Preço recomendado: R$35 / US$25, frete incluso.
Compre:
Direto do autor, versão livro, você decide o valor.
Amazon, versão ebook, por US$2,99
PapodeHomem, versão livro, por R$20 + frete.
27 fevereiro, 2012 §
Na Alemanha, respeita tds as leis. Desembarca no Galeão, aluga jipe & sai dirigindo como vândalo. Liberdade uber alles.
* * *
O mineiro Jean Charles foi confundido c/terrorista p/usar casaco pesado em dia quente d verão londrino. Fazia 15º.
* * *
Em Utah, dona-d-casa diz p/faxineira: “felizes são vcs, q tem cultura, cinco d mayo, dia d los muertos, tacos, burritos. Na América, ñ temos nd!”
* * *
Turista holandês na Faria Lima. Roupa cáqui, chapéu d abas moles, mochilona, garrafa d’água. Como se atravessando deserto inóspito.
* * *
Viajou p/Bolívia c/1 iPod q sustentaria 1 família inteira. Foi morto em Cochabamba & sustentou 1 família inteira. Comeram até filé.
* * *
Quis conhecer França. Leu Flaubert, viu Truffaut, namorou a parisiense do consulado. Ficou satisfeito. Agora, China.
* * *
Seleções do meu novo livro, Viagens na terra dos outros — aforismos turísticos & expatriados, 100% inédito, exclusivo para Kindle, só $2,99. Por esse preço, você pode arriscar, né? Compre aqui.

(se você não tem kindle, baixe o programa kindle for pc e leia no seu computador.)
6 fevereiro, 2012 §
Formou-se bióloga em Goiânia. Nunca conseguiu emprego na área. Virou puta na Espanha.
* * *
Era puta em Copacabana. Conseguiu bolsa d estudos p/mulheres negras latinas. Virou doutora na Inglaterra.
* * *
Vem ao BR a cd 3 meses. Traz presentes. Namoram, saem, transam. Diz q 1 dia vão casar & morar em Greenville USA. Tá.
* * *
Namora gringo gay, mas só p/sustentar família. Se diz Homem c/H. Gringo é padrinho d seu filho, traz presentes p/sua esposa, mete no seu cu.
* * *
P/gringo, é unbelievable trabalho q dá manter aquele belo Brazilian cock. O + sexy é ele ser tão machinho, se dizer até Homem c/H.
* * *
Jineteira. Do verbo “jinetear” ou “montar cavalos”. Cubanas q montam nos turistas & carinhosamente lhes extraem dólares.
* * *
Estudou engenharia na Univ d Habana. Pós-graduada, 3 línguas. Passa verões no Malecón, jineteando canadenses.
* * *
Estudou engenharia na Univ of Ontario. Pós-graduado, 3 línguas. Passa verões no 3º mundo, namorando mulatas.
* * *
P/ela, turistas eram fonte d dinheiro fácil. P/ele, mulatas eram fonte d sexo fácil. Quem estava enganando quem?
* * *
Ele se aproximou dela p/sua beleza latina; ela, p/seus dólares canadenses. Vejamos o q acaba primeiro.
* * *
É d Ipanema & odeia oportunistas q vão p/Europa & sujam bom nome das brasileiras: “sou estudante d pós, sou honesta, ñ sou dessas, ñ!”
* * *
É da Pavuna & odeia moralistas q vão p/Europa & lhe criticam p/trabalhar duro: “ñ conheci pai, ñ fiz univ, tenho filho p/criar!”
* * *
Moscou. Discurso d brasileira no bar: “vcs acham q BR é só samba, sol, sexo, mas temos Petrobras, Fiocruz, Embrapa!” Russo: “bela bunda”.
* * *
Seleções do meu novo livro, Viagens na terra dos outros — aforismos turísticos & expatriados, exclusivamente para Kindle. Compre aqui.
(se você não tem kindle, baixe o programa kindle for pc e leia no seu computador.)
2 fevereiro, 2012 §
Alemã q tinha tesão p/brasileiros queria mãos calosas & pele morena, samba & MPB, não ruivice & palidez, Nelson Freire & Ana Botafogo.
* * *
Aprendeu a ser brasileiro na Espanha. Sambou, comeu feijoada, foi à missa. Em SP, ouvia jazz, era ateu, vegano.
* * *
Roma. Mostrou à namorada italiana sua música brasileira preferida. “Manuel”, d Ed Motta. Ficou indignada: “isso ñ é música brasileira!”
* * *
Lei da brasilidade performática: maiores vantagens vão p/imigrante q melhor interpreta a brasilidade q nunca teve em casa.
* * *
seleções do meu novo livro, viagens na terra dos outros — aforismos turísticos & expatriados, exclusivamente para kindle. compre aqui.
30 janeiro, 2012 §

livro novo. 100% inédito. exclusivo para kindle. $2,99.
compre.
(se você não tem kindle, baixe o programa kindle for pc e leia no seu computador.)
6 junho, 2011 §
Eu: Mulher rindo. Alho refogando. Zíper abrindo. Ondas quebrando. Gemidos de gozo. Criança brincando. Dois sapatos caindo no chão, um depois do outro. O apito do sorveteiro que passava pela minha casa. Passos descalços no chão frio. “Eu te amo, Alexandre.” O Oliver latindo quando chego em casa. Saltos altos no mármore. Máquina de escrever elétrica. Pisada forte de mulher decidida. Apito do recreio. Pernas femininas, vestidas de couro ou latex, roçando uma contra a outra enquanto andam. Suspiro saciado de prazer. O telefone me acordando de manhã.
Ele: Não. Eu quis dizer de música.
Eu: Ah.
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino.
31 maio, 2011 §
Ocasionalmente, eu converso com pessoas-que-acreditam-em-coisas. Quase sempre, são pessoas que gostam muito de mim, me elogiam efusivamente, dizem que sou um espírito avançado, um homem libertário, uma mente aberta, e que por isso sabem que vou receber com carinho e respeito sua mensagem.
Entretanto, quando a conversa acaba, elas estão invariavelmente irritadas, frustradas e ofendidas. Um dedo sempre acaba sendo brandido na minha cara, em meio a palavras como: “você se acha muito mente aberta, mas sua cabecinha é totalmente fechada e impermeável à verdade!”
Eu, que tentei sinceramente ser carinhoso e respeitoso, fico sem saber o que aconteceu.
Na verdade, todo esse longo artigo é somente para fazer uma pergunta que eu sempre quis fazer sobre as pessoas-que-acreditam-em-coisas, mas tem que ficar pro final.
Auto-Definição de um Liberal Libertário Libertino
Como esse texto pode gerar respostas irritadas, acho melhor começar pelo consagrado hábito de definir as palavras. Primeiro, eu mesmo.
Sou um cético libertário e me acho de mente aberta, sim senhor. Tenho certeza de que o universo, a natureza, o corpo humano, a asa de um besouro, tudo, enfim, são muito mais complexos do que podem imaginar nossas vãs ciências. Imagino que muitos dos fenômenos hoje incompreensíveis, inexplicáveis e sobrenaturais são regidos por leis tão naturais, explicáveis e compreensíveis como a lei da gravidade.
Por isso, e por ser inatamente curioso, eu me deixo aberto a tudo. Visito as igrejas de quem me convida. Escuto as teorias de quem quiser contá-las. Leio sobre astrologia, catolicismo, medicina holística.
Cresci em casa de espíritas e umbandistas e já vi e ouvi coisas que a vã ciência realmente não explica. Muito dessa minha experiência está descrita no conto A Falta que nos Fazem os Figos, um dos meus melhores trabalhos, em meu livro Onde Perdemos Tudo, à venda por módicos dez reais, em formato ebook.
Por outro lado, um amigo meu chamado Guilherme me ensinou uma lição que nunca esqueci: a explicação mais simples em geral é a verdadeira.
Então, diante de uma pessoa que recebe um preto véio, qual é a explicação mais simples e mais provável?
a) que existe um outro mundo invisível, povoado por bilhões de espíritos desencarnados, que eles entram em contato com o nosso mundo, andam entre nós sem ser vistos exceto por alguns poucos, etc etc etc
b) esquizofrenia
Definição de Pessoas-Que-Acreditam-em-Coisas
Será que eu preciso mesmo explicar o que são pessoas-que-acreditam-em-coisas?
Grande parte dos fãs desse artigo são praticantes de religiões estabelecidas que acham que estou falando de místicos e ocultistas. Já soube até de um pastor evangélico que usou o texto para atacar espíritas e umbandistas. Alteridade zero, não entenderam que o artigo é sobre eles também.
Do ponto de vista externo, não há diferença alguma entre alguém que acredita em um negrinho de uma perna só que mora no redemoinho, em um biscoito de farinha que vira o corpo de alguém que morreu há dois mil anos, ou que a posição do planeta Netuno influencia nossas vidas. Um judeu ortodoxo não poderia se imaginar mais diferente do que um matuto que acredita no curupira mas católicos e wiccans, holísticos e macumbeiros, astrólogos e cientólogos, são todos igualmente pessoas-que-acreditam-em-coisas.
Alguém que só bebe cerveja não poderia ser mais diferente do que alguém que só bebe absinto, mas, do ponto de vista de um abstêmio, sinceramente, é tudo a mesma coisa.
Na prática, aliás, a diferença entre uma pessoa-que-acredita-em-coisas e um ateu é mínima: a pessoa-que-acredita-em-coisas acha que todas as crenças estão erradas, menos uma, e o ateu acha que essa também.
Se Você Diz, Eu Acredito
Vamos então ao diálogo. O diálogo abaixo já se repetiu dezenas de vezes na minha vida, com pequenas variações.
A pessoa-que-acredita-em-coisas me chama pra conversar. Sabe que sou uma mente aberta e libertária, blá blá, e quer me expor suas crenças. E eu, tolinho, aceito. A curiosidade sempre vence a experiência. Se não fosse isso, ninguém casava pela segunda vez.
Primeiro, ela me conta qual sua verdade. Essa é a parte fácil.
“Alex”, ela diz, pegando em minha mão, muito séria, “existem elefantes roxos que flutuam.”
Eu não duvido nem desduvido. Emito um grunhido descompromissado e peço pra pessoa-que-acredita-em-coisas continuar.
Nessa hora, a pessoa-que-acredita-em-coisas pega de novo em minha mão, me olha fundo nos olhos e praticamente implora: “Você acredita em mim, Alex?”
Eu digo que não acredito nem desacredito, mas que acredito que ela acredita e quer o meu bem, então, por mim já está mais que bom.
Algumas pessoas-que-acreditam-em-coisas nunca viram o seu elefante roxo flutuante. Outras afirmam conhecimento pessoal e direto:
“Eu vi. Eu conheço os elefantes. Já flutuei com eles. Agora, você acredita em mim?”
Respondo, pra não condenar prematuramente a conversa, que sim. Afinal, por muito menos testemunho que isso, os americanos proclamaram os irmãos Wright os pais da aviação:
“Se você diz que existem elefantes roxos que flutuam e que você viu, eu acredito.”
Se fosse só assim, seria ótimo. Mas nunca é assim.
Mas Como É Que Funciona?
Quase sempre, eu estrago tudo fazendo uma pergunta. Nunca é uma pergunta-desafio. Não nessa etapa. É uma pergunta-curiosidade mesmo. Se eu estou sentado com uma pessoa-que-acredita-em-coisas, é porque quero entender sua visão de mundo.
Então, eu pergunto:
“Mas como o elefante flutua? Quer dizer, se você dissesse que ele voa, eu iria presumir que ele fica batendo suas asinhas freneticamente no ar como um beija-flor. Mas se ele flutua, como ele flutua? Será alguma coisa relacionada aos campos magnéticos?”
Aí começam os gritos:
“Eu sabia! Você se diz mente aberta mas não tem fé nos elefantes roxos que flutuam, fica aí questionando tudo com sua mente tacanha infectada por essa pseudo-ciência que nos enfiam goela abaixo na escola. Onde estava esse seu espírito crítico todo quando lhe ensinaram que as doenças são causadas por micróbios que ninguém vê?”
“Não tenho nenhum amor pela ciência tacanha que nos enfiaram goela abaixo na escola. E não estou duvidando da existência dos elefantes roxos que flutuam. Se você me diz que viu, eu acredito. Mas só estava curioso pra saber o mecanismo através do qual eles flutuam.”
“Herege! Infiel! Descrente!”
Eu não me conformo:
“Mas você não teve nem um pouco de curiosidade? Você viu o elefante roxo flutuando e não parou pra se perguntar nem por um segundo como ele faz pra flutuar?”
“Claro que não. Eu não sou um espírito pequeno como você, amarrado a essa pseudociência dos homens. O elefante roxo que flutua é sagrado. Ele só pode ser visto por pessoas que estão em sintonia com as forças elementais do universo. Ele flutua porque não saberia não-flutuar. Na verdade, não é ele que flutua, é o chão que não-flutua aos seus pés.”
Esse primeiro atrito ainda dá pra superar. Eu paro de fazer perguntas que a pessoa-que-acredita-em-coisas não sabe mesmo responder e ela se acalma.
A próxima fase é que apresenta o conflito insuperável.
Preciso Que Prometa Mudar sua Vida
Finalmente, eu consigo convencer a pessoa-que-acredita-em-coisas de que sua palavra é suficiente para mim. Se ela diz que existem elefantes roxos que flutuam, então existem elefantes roxos que flutuam. Mas e daí?
Pois é no “e daí” que a coisa se complica. Os elefantes roxos que flutuam não se limitam a existir. Eles sempre querem alguma coisa de nós.
(Eu, por exemplo, bem acho que deus pode existir. Não vejo irracionalidade ou improbabilidade alguma em o big bang ter sido acionado por uma mão divina ou que uma mão divina tenha criado as espécies animais e os planetas, etc. A grande questão é outra: por que deveria eu viver de forma diferente só porque o universo foi criado por um ser divino e não por forças cósmicas aleatórias?)
Então, meu interlocutor coloca de novo a mão sobre a minha (pessoas-que-acreditam-em-coisas também acreditam firmemente em contato físico) e diz:
“Pois bem, Alex, já que você é uma mente cheia de luz que aceita a verdade cósmica dos elefantes roxos que flutuam, eu preciso te dizer que os elefantes roxos que flutuam revelaram para nós, os espíritos iluminados capazes de ver os elefantes roxos que flutuam, que a fonte de todo o mal na humanidade é usar camisetas brancas, aquelas básicas, de malha.”
“Hã, tipo Hering?”
“Nem fale esse nome que você atrai más vibrações. Essa empresa é a maior incentivadora do mal no mundo.”
(Por algum motivo que me escapa, as pessoas-que-acreditam-em-coisas geralmente implicam com as palavras, dando a elas um poder que não têm. Como nos livros de Harry Potter, onde ninguém, a não ser o Harry, tem coragem de pronunciar o nome do vilão Voldemort. Naturalmente, essa cegueira só faz facilitar o renascimento do feiticeiro. Mais naturalmente ainda, os livros de Harry Potter são quase que unanimimente considerados pelas pessoas-que-acreditam-em-coisas como fortes incentivadores das forças diabólicas blá blá)
Estamos chegando na parte complicada. A pessoa-que-acredita-em-coisas coloca a mão em cima da minha e diz:
“Você acredita em mim?”
“Sim”, eu digo, como o rapaz bonzinho que sou.
“Você acredita que eu só quero o seu bem, que só estou aqui com você (isto é, perdendo meu tempo falando com um descrente) porque acredito que você vale a pena, que você não veio a esse mundo por acaso, que você está pronto para receber a verdade que eles não querem que você saiba?”
“Sim”, eu respondo.
(Quase sempre, é verdade. Eu tenho um canto especial no meu coração para as pessoas que acreditam sinceramente que eu vou pro inferno por toda a eternidade e fazem tudo o que podem pra evitar essa tragédia.)
“Então, prometa que nunca mais irá usar camisetas brancas. Jamais. Para o seu próprio bem. Para o bem da sua alma.”
Pronto. Não há conversa com pessoa-que-acredita-em-coisas que não chegue inevitavelmente nessa fase.
As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas com o respeito que você tem pela crença delas. As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas de você garantir que confia em suas palavras e que, bem, se dizem que viram elefantes roxos flutuantes, então é porque existem mesmo.
Não, meus amigos. As pessoas-que-acreditam-em-coisas querem mudar a sua vida. E não se satisfazem com menos.
E a MINHA vida seria muito mais simples se eu fosse capaz de colocar minha mão em cima da mão deles que está em cima da minha outra mão e dizer:
“Sim!, claro!, claro que sim! Claro que vou mudar um hábito de toda uma vida só por causa de uma afirmação completamente não-fundamentada feita por um quase completo desconhecido. Como não?”
Mas, raios, eu não consigo.
Então, suavemente, respeitosamente, tomando o máximo de cuidado para enfatizar minha tolerância, eu digo:
“Olha, eu não posso prometer isso, não.”
O pior é a surpresa sincera de sua indignação:
“Mas como não? Você não ouviu tudo o que acabei de falar?!”
“Ouvi, claro, mas-”
“E, mesmo depois de ouvir tudo isso, como pode ainda assim dizer que continuará usando essas camisetas brancas de malha?”
Sei que estou em território minado e que todas essas palavras serão jogadas na minha cara com ódio de qualquer jeito mas, para satisfazer minha consciência, tomo todo cuidado possível para ser extra-delicado e respeitoso:
“Bem, acredito em você quando diz que viu os elefantes roxos flutuando, mas isso não significa que estou disposto a mudar minha vida por causa desse fato.”
E, com mais cuidado, eu acrescento:
“Além disso, você não me deu nenhum motivo concreto para parar de usar camisetas brancas.”
(Reparem que eu não disse “motivo lógico”. Para as pessoas-que-acreditam-em-coisas, a palavra “lógica” tem o mesmo efeito do que alho para vampiros. Confesso que também não gosto muito de lógica. As pessoas que invocam muito a lógica em geral estão querendo te engrupir. Hoje em dia, a lógica é muito mais usada para enganar e confundir do que para explicar, mas pelo menos não tenho medo da palavra.)
E continuo:
“Você nem mesmo me explicou a relação entre os elefantes roxos que flutuam e as camisetas brancas. De que modo as camisetas brancas nos afetam negativamente? O que exatamente elas fazem? Afetam nossas vibrações? Roubam nossa energia? Atraem maus espíritos?”
(Espero que a essa altura do campeonato vocês já tenham percebido que nada desse artigo é ficção. Todas as frases que estão aqui eu já ouvi trocentas vezes, de tudo quanto é pessoa-que-acredita-em-coisas, de evangélicos a wiccans. Essa próxima então é a minha preferida.)
“Alex”, diz o outro, com ar superior, “eu realmente não me rebaixaria a explicar, pra um homem da sua inteligência e da sua capacidade, o enorme poder nocivo das camisetas brancas.”
Eu coço a cabeça:
“Recusa?”
“Claro que recuso. É óbvio. Patentemente óbvio. Você só não vê porque não quer. Porque está com o coração endurecido. Porque, ao contrário do que pensa em sua imensa vaidade, sua mente está fechada a tudo que não se conforme à sua visão estreita de mundo. Porque está comprometido com a verdade DELES.”
É nesse ponto que fica patente a total inutilidade de conversar com pessoas-que-acreditam-em-coisas. Elas não querem que você escute suas crenças, ou que as respeite, ou mesmo que as aceite. Elas querem, sinceramente, a sua alma, e não se contentam com nada menos do que isso.
Na verdade, como nunca passei desse estágio, nem sei se é apenas isso que querem. Pode ser que quando você lhes hipoteque sua alma, eles queiram ainda mais. Pode ser que quando você diga “sim, claro, nunca mais usarei camisetas brancas”, eles já tenham outro pedido ainda mais despropositado pra fazer. Jamais saberei.
Finalmente, abandono um pouco a diplomacia e tolerância que mantive até ali e tento esclarecer:
“Desculpa, deixa eu ver se eu entendi direito. Você me vem com uma crença totalmente insensata de elefantes roxos que flutuam e espera que eu acredite nisso baseado somente na sua palavra. Ou seja, eu tenho que pesar, de um lado, toda a minha experiência de vida, tudo o que eu já observei e estudei e, do outro, somente você. Mesmo assim, contra qualquer lógica, eu escolho a sua palavra, apesar de você nunca se dar ao trabalho de nem mesmo tentar explicar como os elefantes ficaram roxos ou como flutuam.
Então, você afirma que a existência de elefantes roxos flutuantes significa que camisetas brancas são malignas, mas em momento algum você nem tenta clarificar qual é a conexão lógica entre esses dois fatos aparentemente desconexos. Também não explica de que modo ou porque as camisetas brancas são malignas, por isso ser tão patentemente óbvio para qualquer ser pensante. Por fim, com base nessa cadeia de afirmações mais frágil do que um prédio do Sergio Naya, você pretende que eu abandone um hábito de uma vida inteira. É isso?”
“Sim. Exatamente. Então, você promete?”
Você Precisa Sentir Que Estou Falando a Verdade
Estamos chegando finalmente à minha grande dúvida sobre as pessoas-que-acreditam-em-coisas, a dúvida que motivou todo esse artigo.
Quando digo que não vou mudar meus hábitos em função de suas crenças, as pessoas-que-acreditam-em-coisas ficam tão surpresas e indignadas que eu me pergunto: como reagem normalmente seus outros interlocutores? Será que sou o único que se recusa?
A maioria das pessoas-que-acreditam-em-coisas (exceto as que estão em maioria, como cristãos no ocidente, etc) vive em um mundo repleto de pessoas-que-não-acreditam-nas-coisas-em-que-acreditam. E suponho que devem rotineiramente expor suas crenças para os descrentes, especialmente para os descrentes que amam, para aqueles que querem sinceramente salvar dos efeitos malignos das camisetas brancas e afins.
E volto à dúvida: como é então que funciona isso? Será que sou o único que se recusa a mudar de hábitos?
E as pessoas-que-acreditam-em-coisas respondem, tentando fazer eu me sentir culpado:
“Você não entende, não é, Alex? Acha mesmo que eu me dou a tanto trabalho, que perco tanto tempo, com qualquer um? Estou aqui transmitindo essas verdades vitais pra você porque acho que você vale a pena, porque sei que você é um ser especial que foi colocado nesse planeta para cumprir uma missão única. Porque acreditei que entenderia.” (Quase dá pra ouvir seu coração lentamente se despedaçando.)
“Realmente não entendo.” Eu respondo: “Você esperava sinceramente que eu largasse hábitos de toda uma vida… só porque você disse pra eu fazer isso? Baseado em quê? Você nem ao menos me deu qualquer tipo de razão.”
E a pessoa-que-acredita-em-coisas mais uma vez coloca sua mão sobre minha mão e afirma:
“Baseado na sua intuição, na sua fé. Você tem que *sentir*, no seu âmago, que eu estou falando a verdade.”
“Pôxa”, eu respondo, “a única coisa que estou sentindo é vontade de ir embora.”
Nunca li Dawkins, que sempre me pareceu um ateu militante, algo que desprezo um pouco, mas Freud em O Futuro de uma Ilusão já falou tudo o que eu sempre quis dizer sobre religião.
Você Não Pode Estar Sinceramente nos Comparando a Eles!
Estamos chegando no fim da conversa.
A pessoa-que-acredita-em-coisas finalmente percebe que não vai conseguir mudar toda minha filosofia de vida ao longo de um único almoço. Então, fica puta, defensiva, ofendida.
“Você é o pior tipo de cético, Alex. Você é o cínico que vaidosamente se considera cabeça aberta. Mas você nunca deu uma chance à verdade que tentei lhe transmitir. Já chegou com ouvidos moucos e coração endurecido.”
“Não é verdade. Eu te ouvi com o mesmo respeito e atenção que ouço as pessoas que acreditam em rinocerontes verdes subterrâneos ou trutas vermelhas intergalácticas. Sei que são pessoas que acreditam sinceramente em suas crenças e que sinceramente querem o meu bem, então escuto com resp-
Pronto. É exatamente nesse momento que eu alieno, irremediavel e inapelavelmente, todas as pessoas-que-acreditam-em-coisas:
“Peraí, Alex, agora você está me agredindo. Você não pode sinceramente querer comparar a minha fé com a dessas pessoas que acreditam em rinocerontes verdes subterrâneos. Só fanáticos idiotas de uma seita xexelenta poderiam acreditam em uma superstição medieval sem nenhum embasamento como essa! Sobre os elefantes roxos flutuantes, por outro lado, já existe toda uma sabedoria acumulada, um cânone consagrado, milênios de estudos, um corpus de compêndios sapienciais, grandes exegetas e estudiosos, uma disciplina rigorosa de corpo e mente!”
Eu suspiro:
“O pessoal dos rinocerontes verdes subterrâneos fala a mesma coisa.”
“Sim, mas porque são uns fanáticos intolerantes que só enxergam sua própria superstição. Eu vou ficar ofendido se você der a entender, mais uma vez, que nós temos algo a ver com esses hereges dos rinocerontes verdes subterrâneos.”
“Bem, o pessoal dos rinocerontes verdes subterrâneos também chegou pra mim com a melhor das boas intenções, também me juraram que existem rinocerontes verdes subterrâneos, mas não explicaram como eles fazem pra viver debaixo do solo, e me alertaram para não usar camisas pólo azuis, mas não me explicaram nem porque elas fazem mal nem qual a relação delas com os rinocerontes verdes subterrâneos. Então, o que eu faço? Quem está com a razão?”
“Olha só, Alex, se não vai falar sério, não dá pra conversar. Eu perdi uma tarde inteira pra te ajudar e você me vem com deboche. Você não pode estar sinceramente considerando que esses caras são sérios. Eles acreditam em rinocerontes verdes subterrâneos, pelo amor de deus. Uma coisa que não faz o menor sentido. Totalmente ridícula!”
E ainda riem:
“Onde já viu! Rinocerontes verdes subterrâneos!”
* * *
Esse talvez seja o meu texto mais famoso, mais citado, mais republicado por aí. Ele está no meu livro Liberal Libertário Libertino, que é um livrinho de papel mesmo, bonitinho, vermelhinho, com minhas melhores crônicas, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e revisada, conta com dois novos textos – inclusive um novo epílogo à narrativa do Katrina.

Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010) Livro.
Preço recomendado: R$35 / US$25, frete incluso.
Compre:
Direto do autor, versão livro, você decide o valor.
Amazon, versão ebook, por US$2,99
PapodeHomem, versão livro, por R$20 + frete.
2 fevereiro, 2011 §
A série As Prisões foi publicada na internet entre 2003 e 2006, gerando muita polêmica e fortes paixões entre os leitores.
Os textos foram então retirados do ar e estão sendo retrabalhados, revisados e reorganizados por um editor independente. Em seguida, vamos procurar uma editora.
Muitos e muitos leitores entram em contato comigo, dizendo como As Prisões mudaram suas vidas e afirmando esperar ansiosamente pelo livro, para poder ler de novo e presentear os colegas.
Se esse é seu caso, por favor, deixe um depoimento nos comentários, de preferência com nome completo e email. Publicar livro nesse país é difícil; me ajude a mostrar às editoras que O Livro das Prisões JÁ TEM um público cativo e ansioso.
Muito obrigado. Vocês são lindos.
Alex Castro
1 junho, 2010 §
Compre.
“Narrado na primeira pessoa, Radical Rebelde Revolucionário é um livro de crônicas curtas, um relato de viagem cheio de ritmo e cadência. Para descrever Havana, Alex Castro compara a outras cidades de passado escravista, como Rio de Janeiro e Nova Orleans. No meio da descrição e do relato, também apela para lembranças do passado, de outras viagens, de 0outras pessoas que encontrou. O autor, além de narrador, vira também personagem de histórias que nem sempre são coroadas de sucesso; Castro brinca com suas duplas identidades de brasileiro/estrangeiro/turista e também latino-americano, fazendo-se passar por nativo na fila do sorvete, na livraria, no mercado. Sua «cara-de-pau» acaba trazendo muitos dividendos, inclusive o melhor elogio que um turista-viajante pode receber de um nativo : “Alexandre, já podes se considerar um havaneiro honorário!”” (por Vivian Soares)

Radical Rebelde Revolucionário (2007), crônicas cubanas. Ebook em pdf.
Preço recomendado: R$20 / US$15, envio por email
Compre.
Repercussão
Hum. Intelectual. Que fuma cachimbo. Passeando em Cuba bancado por universidades para estudar a Disneylandia do Socialismo? Isso sempre dá naqueles livros chatíssimos onde o cara republica propaganda do Partido, ou então é escrito por um anticomunista ferrenho que vai passar o tempo todo falando das atrocidades da Revolução. Todo livro sobre Cuba cai nesses dois modelos. … O livro é excelente, li de uma sentada só, mesmo com isso soando altamente comprometedor em um post com esse título. São 155 páginas com crônicas deliciosas, onde ele conta seu dia-a-dia na terra de Fidel. Ele descreve um povo como qualquer outro. Alegre, triste, otimista, conformado, assustado, orgulhoso, envergonhado. Ele encontrou Dolores, a bibliotecária mais sensual desde a Barbara Gordon, descobriu que os cubanos também usam o Jeitinho Brasileiro e aprendeu que quem decide o menu é o burocrata do Governo que escolhe quais produtos colocar nas lojas naquela semana. Passou por saias justas com vendedoras de abacaxi, apaixonou-se por vários pés (longa história) e enganou a polícia para tomar sorvete barato.
Alex alterna momentos líricos com o mais puro sarcasmo. … Ele comete vários pecados que farão com que a Academia odeie seu livro, e desejasse estar sob o Regime Cubano, onde Alex seria preso e seus livros proibidos. Ele cita o prosperidade artificial graças ao Regime Soviético, conta que os jornais oficiais são subsidiados, e que o povo os usa como substituto de papel higiênico, conta dos táxis para cidadãos, proibidos por lei de levar turistas, e constantemente parados pelo polícia. … Mesmo assim, Radical Rebelde Revolucionário não é um ebook-denúncia. Nem tudo é ruim, nem tudo é um dramalhão mexicano. Alex não tem uma agenda oculta através do livro. Ele consegue falar mal de uma coisa, e na próxima crônica falar bem de outra. Mostra que por detrás da propaganda e da antipropaganda há gente. E gente é sempre interessante. Recomendo muito a leitura do livro.
Carlos Cardoso, “Contraditorium“
… a verdade do livro não está nas provas, nos documentos, nem nos tão falados e incredíveis jornais de Cuba, descritos no livro. A verdade do livro está naquilo que o Alex viu, o que ouviu, tocou, cheirou, comeu, sentiu. Está naquilo que o Alex viveu em Cuba, não enquanto turista, mas enquanto descobridor, enquanto pesquisador, enquanto parte integrante do local, não apenas estudando a cultura de um povo, mas experimentando e tentando viver como um cubano, apesar de todas as divisões e limitações ali existentes. E afinal o que importa a verdade num país que nem parece ser de verdade? Definir como verdade ou não o que está escrito no livro, seria anular tudo o que o Alex sentiu na sua “viagem-integração”. Independente de as informações por ele recebidas serem ou não verídicas, a verdade é, por si só, aquilo que viveu e sentiu, e isso ninguém pode lhe roubar. …
Quando o Alex me puxou pela mão e me deixou em Cuba, eu disse: «Não ouse me abandonar, Alex, não me deixe aqui sozinha!». Primeiro porque nem parece existir um país assim. É tudo muito irreal, ao mesmo tempo que soa tão verdadeiro, já que a verdade está em tudo aquilo que jamais poderia imaginar. Em segundo lugar porque só o Alex teria tanta desenvoltura para entrar dentro de Cuba, não como qualquer um entra como turista, mas entrar de verdade, de corpo, alma e charuto, para me apresentar o país. Quem diria que, no país onde sonhava ir dançar salsa, fosse descobrir tantos conflitos? E, mesmo assim com tantos conflitos, contrastes, limitações e miséria, Cuba fosse assim tão especial, tão quente?
Receei que em certa altura o Alex fosse largar a minha mão e dizer: “Se vira!”. Mas não, em momento algum ele fez isso. O Alex começa por me apresentar uma mulher tão segura que, nos tempos de hoje, parece não existir, juntamente com um país que parece obra de um artista cheio de imaginação. E me apresentou a moeda, e me fez também montar os pedaços do abacaxi, como num quebra-cabeças, para conferir se faltava alguma parte, me mostrou os livros proibidos da biblioteca nacional, me apresentou o cinema cubano, me fez quase fugir das casas de banho, se não estivesse tão apertada para fazer chichi.
A escrita do Alex foi fazendo com que caminhasse por cada rua, conversasse com cada pessoa, inclusive os jiniteiros. E suas análises mais uma vez brilham, porque mostram várias faces de situações que muitas pessoas só enxergariam de uma única forma. Mesmo se você não tiver o mínimo interesse por Cuba, aconselho a viagem. Porque no Radical Rebelde Revolucionário a gente até se esquece que está lendo na tela do computador, porque estamos, na verdade, viajando junto com o Alex.
Paula Lee, “Amante Profissional”
Alex tem um texto brilhante, claro, divertido, engraçado. Mistura observações de acadêmico com sacadas do adolescente velho que é. Não é livro a favor de Fidel Castro, asseguro. Nem é uma diatribe contra o dito-cujo; é um relato de viagem, de um cara inteligente, bem escrito, e interessante até para quem não pensa em passar nem perto de Cuba. …
Sergio Leo, “Valor Econômico”
Narrado na primeira pessoa, o primeiro elemento positivo do livro é que ele é totalmente em sintonia com o formato escolhido: o e-book. As crônicas são curtas, tem ritmo, você pode lê-las na ordem que quiser. Elas podem ser vistas como capítulos de um relato de viagem. Estão ali quase todos os elementos desse sub-gênero, que tem geralmente três modos de enunciação : o comentário, a descrição e a narração. O comentário seriam todas aquelas explicações que o autor dá muitas vezes citando datas, estatísticas, fatos históricos. As informações do “comentário” (onde às vezes o autor pode se pronunciar sobre algum tema importante) podem ser recolhidas pelo autor durante a estadia no lugar visitado, mas geralmente elas são de segunda mão, algo que ele leu em outros livros ou que tomou de outros viajantes. A descrição é o ato de descrever paisagens, objetos, pessoas : cores, formas, etc. A narração seria tudo aquilo que releva da ordem da experiência, se trata principalmente de contar ações, que se desenvolvem no tempo.
O Alex não caiu na armadilha de abusar dos comentários longos e enfadonhos (como essa resenha) sobre Cuba. O leitor que tiver interesse em conhecer mais sobre a história de Cuba, que procure as centenas de livros escritos por historiadores, sociólogos e outros que passaram anos a estudar o assunto. Sim porque não existe nada mais cansativo que ler um romance onde o autor encantado pela pesquisa de duas semanas que realizou na biblioteca pública municipal de Quixeramobim sobre plantação de abacaxis resolve começar a dar entrevistas sobre plantação de tomates. O Alex não precisa disso e o leitor agradece. Sendo assim, o comentário aparece aqui e acolá, mas ele se mistura bem com a descrição e o relato das experiências vividas. …
Para descrever a Havana de 2007, ele usa o recurso da analogia, comparando Cuba com regiões que também tem na sua história um passado escravista, como Rio de Janeiro, Atlanta, New Orleans. É claro que isso é possível porque o autor conhece os lugares do qual ele fala, não se trata de informação livresca e não se trata então de relato de marinheiro de primeira viagem. …
«Em Cuba, falta de tudo, menos justiça poética.» As experiências relatadas nas crônicas tocam em temas que foram bastante delicados para a Revolução cubana, entre os quais as mulheres e os homossexuais, e em outros temas que fazem parte da realidade cubana principalmente depois do começo dos anos noventa, como a prostituição. Na crônica Os Jineteiros o que era pra ser dramático fica engraçado, mas sem ser machista ou caricato.
Alex Castro observou o cubano mas também o turista gringo que ele critica por andar em terra estrangeira vestido como se fosse para um safári. O autor, além de narrador também vira personagem de histórias que nem sempre são coroadas de sucesso e Castro brinca com a sua dupla identidade de brasileiro/estrangeiro/turista, mas que ao mesmo tempo é latino-americano e pode em várias situações se passar por um nativo na fila pra comprar sorvete, na livraria, no mercado. Como todo bom viajante que «conta um conto e aumenta um ponto», o narrador-personagem não deixa de se gabar por conseguir comprar produtos com preço local. Sua «cara-de-pau» acaba trazendo muitos dividendos, inclusive o melhor elogio que um turista-viajante pode receber de um nativo : “Alexandre, já podes se considerar um havaneiro honorário!”
Por todas essas razões vale a pena ler Radical, Rebelde e Revolucionário. Além de conhecer um pouco sobre Cuba, você vai dar boas risadas. … Na era da Internet, do skipe e da tv à cabo, essas crônicas têm a grande vantagem de constituirem um testemunho direto de alguém que viu e ouviu tudo que está contando e é esse olhar de testemunha ocular que faz elas serem tão boas.
Ana Lucia Araujo, Howard University
Antônio Candido fala que a verossimilhança da literatura é dada pelos detalhes. Quanto mais detalhes aparecem, mais as personagens, lugares, paisagens tornam-se passíveis de existência para a cabeça do crédulo leitor. Alex Castro nos avisa:aqui, tudo é ficção, tudo é inventado, pois “a história de Cuba é impossível demais para ser verdade”. Como o livro é cheio de detalhes, tolinhos, lemos como se fosse verdade, e algumas partes até emocionam.
E a história inventada não é a história de Cuba, nem a história das pesquisas feitas, embora elas apareçam um pouco também. A história inventada é a de um lugar onde chove todos os dias, tempestades de dez minutos, o povo se abriga nas marquizes e depois volta a viver suas vidas. Onde é impossível andar estando seco, onde as pessoas fumam charutos que desafiam a lei da gravidade, onde não se encontra bacon, e o jornal é usado para limpar a bunda. Lugar de um sistema monetário completamente doido, que o Alex explica bastante mas que eu não entendi direito até agora. Lugar onde a todo momento se é abordado, por jineteros, polícia… onde se anda livremente pelas ruas às três da manhã, sem medo de assaltos ou violências. Histórias de amizades, de andanças, da ida a um balé, das casas, dos encontros e das pessoas que o Alex encontrou e conheceu. …
Há no livro inteiro um sabor acridoce, não se trata somente das belas histórias do povo cubano. Pois o Alex também escapa da armadilha que seria escrever esse livro como um libelo pró ou anti Cuba. Se os esquerdistas mais ferrenhos não vão gostar, os direitistas também torcerão seus narizes. O cronista é ponderado e, se enxerga poesia no fato de que os antigos palacetes são agora habitados por uma população negra e pobre, escreve a dado momento que visitar Cuba é como visitar uma prisão; ele, viajante, pesquisador, tem uma liberdade que seus amigos cubanos não possuem. Assim, em meio ao povo culto, a pobreza e escassez de recursos; em meio à simpatia e acolhimento, a obrigação de anotar em caderninhos todos os que entram e saem… O tempo inteiro os relatos oscilam entre o doce e o amargo.
Voltemos à cama, ao tal do primeiro encontro. Pode ser que os corpos se estranhem, que um queira ir para um lado, outro para outro. Que o início seja difícil mas convide a uma nova tentativa. Que portas sejam abertas. Alex Castro foi conhecendo as ruas, casas e pessoas de Havana como quem conhece uma mulher. E o livro trata da história de um amor crescente. Não idealizada, repito. Uma mulher sofrida, envelhecida, em suspense absoluto quanto ao futuro; uma mulher dividida, uma mulher bela, de história singular. Como ele é generoso, e a favor do relacionamento aberto, divide essa mulher com a gente, dá dicas, orienta, conta segredos e ainda mostra fotos. E ao lermos, crédulos, até acreditamos que essa mulher existe. Vale a pena conhecê-la, trata-se de uma bela viagem, para uma casa muito diferente, de fato, da nossa. Entremos.
Luana Chnaiderman de Almeida

Radical Rebelde Revolucionário (2007), crônicas cubanas. Ebook em pdf.
Preço recomendado: R$20 / US$15, envio por email
Compre.
1 junho, 2010 §
Compre.
As melhores crônicas de Alex Castro, originalmente publicadas no jornal Tribuna da Imprensa e no blog Libertal Libertário Libertino, entre 2003 e 2007: “Fantasmas de Felicidades Passadas”, “Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas” e “Manifesto Libertário”, entre outras, além das aventuras do Oliver durante o Katrina. Agora (2010) em 2ª edição, revisada, com dois textos novos – incluindo um epílogo atualizado à narrativa do Katrina.

Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010) Livro.
Preço recomendado: R$35 / US$25, frete incluso.
Compre:
Direto do autor, versão livro, você decide o valor.
Amazon, versão ebook, por US$2,99
PapodeHomem, versão livro, por R$20 + frete.
* * *
Trechos
Fantasmas de Felicidades Passadas
Tanta felicidade morta tem um peso opressivo. Quanto maior a felicidade, mais fedorenta a massa putrefata. Um triplo assassinato não teria deixado a atmosfera tão pesada quanto aqueles longos beijos ao pôr-do-sol. Passo por lá e posso sentir o velho ponto de ônibus me atormentando, esfregando minha felicidade passada em minha própria cara, me acusando de não ser tão feliz quanto era, de não ser tão feliz quanto poderia ser. … Um momento realmente feliz nunca deixa de existir. Ele continua reverberando para sempre. Sua existência é tão concreta que ele quase pode ser visitado, como se visita a casa de um velho amigo.
Pessoas-Que-Acreditam-em-Coisas
As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas com o respeito que você tem pela crença delas. As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas de você garantir que confia em suas palavras e que, bem, se dizem que viram elefantes roxos flutuantes, então é porque existem mesmo. Não, meus amigos. As pessoas-que-acreditam-em-coisas querem mudar a sua vida. E não se satisfazem com menos.
A Tirania das Bananas
A banana é uma tirana caprichosa. Ontem, eu te desprezei, não queria nada com você, tinha outras prioridades. Hoje sou sua, inteira, doce, fálica. Amanhã já não estarei mais aqui, serei casca virada no seu folhetim.
A Auto-Confiança dos Ricos
Eu tinha um vizinho milionário. Ele detestava dirigir e não queria se estressar com documentação, impostos, seguro, consertos. Então, contratou uma empresa de rádio-táxi para que mantivesse um carro, a sua disposição, 24 horas por dia, na portaria do prédio. Pronto. Se um quebrasse, que mandassem outro. O homem só sabia uma coisa: tinha dinheiro que não acabava mais e não queria se aporrinhar. A pergunta: esse homem vivia fora da realidade?
Pra começar, que realidade, cara-pálida? Existe só uma realidade? Ou será que existe uma realidade certa e outras tantas realidades erradas? Se sim, quem decide qual é a certa e qual são as erradas?
Eu, Oliver e Katrina
Em agosto de 2005, eu e meu poodle Oliver (um cachorro de rua que encontrei na favela de Rio das Pedras), nos mudamos para Nova Orleans, onde eu começaria um doutorado em Português. Menos de duas semanas depois, a cidade teve que ser evacuada por causa do furacão Katrina. Sem carro, sem dinheiro e sem conhecer ninguém, eu acabei sendo obrigado a deixar o Oliver em casa, com comida para muitos dias, e fui evacuado junto com o pessoal da universidade para um abrigo em Jackson, Mississippi.
Dormi apenas uma noite no abrigo. No dia seguinte, ficou claro que a situação era muito mais séria do que imaginávamos. Abandonei o abrigo e consegui pegar um dos últimos vôos saindo de Jackson antes do aeroporto ser fechado. Viajei em uma daquelas cadeiras retráteis da tripulação. A noite que passei sozinho no aeroporto de Detroit, véspera do furação, assistindo a CNN prever a hecatombe do dia seguinte, pensando obsessivamente no cãozinho que dependia de mim e não consegui proteger, foi a pior da minha vida.
O Que Você Gosta de Ouvir?, Me Perguntou Um Amigo
Eu: Mulher rindo. Alho refogando. Zíper abrindo. Ondas quebrando. Gemidos de gozo. Criança brincando. Dois sapatos caindo no chão, um depois do outro. O apito do sorveteiro que passava pela minha casa. Passos descalços no chão frio. “Eu te amo, Alexandre.” O Oliver latindo quando chego em casa. Saltos altos no mármore. Máquina de escrever elétrica. Pisada forte de mulher decidida. Apito do recreio. Pernas femininas, vestidas de couro ou latex, roçando uma contra a outra enquanto andam. Suspiro saciado de prazer. O telefone me acordando de manhã.
Ele: Não. Eu quis dizer de música.
Eu: Ah.
Saindo do Armário
É ao me revelar que descubro que vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede. É ao me mostrar que descubro quem vai me dar as mãos nessa viagem e quem vai estancar na encruzilhada. Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas. Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.
Manifesto Libertário: Sejam Grandes
Tudo o que eu quero é abrir os seus olhos, nem que apenas por um segundo, nem que você discorde de mim, para o fato de que o mundo, como ele é hoje, não é uma construção unânime. O próprio processo histórico se encarrega de eliminar todas as possibilidades alternativas, todos os caminhos que poderiam ter sido percorridos e que não foram, até gerar a ilusão de que o modo como as coisas são é o único modo como poderiam ter sido. Mas não é verdade. Existem vozes dissidentes, existem pessoas que pensam diferente, existe a possibilidade de viver uma outra vida, sem mesquinharias, tribalismos, religiões, maniqueísmos, preconceitos, prisões. Mais ainda, sem esqueminhas mentais dogmáticos e pré-fabricados, que almejam explicar tudo com suas formulinhas, mas que só conseguem embotar o pensamento humano, como o marxismo e o cristianismo.
Ser pequeno, mesquinho, preconceituoso, ressentido, invejoso, tudo isso é muito fácil. E muito tentador. O desafio que lanço aos meus leitores é outro: sejam grandes!
* * *

Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010) Livro.
Preço recomendado: R$35 / US$25, frete incluso.
Compre:
Direto do autor, versão livro, você decide o valor.
Amazon, versão ebook, por US$2,99
PapodeHomem, versão livro, por R$20 + frete.
1 junho, 2010 §
Compre.
Cinco contos unidos pelo tema comum da perda.
“A unidade dos contos de Onde Perdemos Tudo encontra-se nos vinte e tantos sentidos da palavra perder. Com delicadeza, Alex Castro costura encontros e desencontros, achados e perdidos, sem perder o humor e a malícia. Apesar das perdas, o livro não é triste, mas cheio de beleza e reflexão. Onde Perdemos Tudo é lugar de encontrar.” (por Vivian Soares)

Onde Perdemos Tudo (2011), contos. Rio de Janeiro: Editora Oficina Raquel, 2011. R$35.
Compre:
No site da editora, versão livro, R$35 + frete.
Amazon, versão ebook, por US$6,99
Na Livraria da Travessa, versão livro, por R$35 + frete.
Repercussão
O conto mais bem realizado … é o primeiro “A morte de meu cachorro“. História de um momento em que um casal se separa, e cada um vai cuidar de sua vida. A velhice e a solidão são atingidas quando o narrador não é reconhecido por uma alma gêmea, obrigando-se a conviver com experiências que não são mais plenamente compartilháveis. Esse esvaziamento se dá num cenário que deveria ser palco de um reencontro. A amiga muda-se para Buenos Aires, o narrador segue para visitá-la, tentando vencer a distância espacial, que cumpre seu papel: “Lendo cada um sua seção do Clarín, Fiona e eu padecíamos de um silêncio ainda mais cancerígeno [sic]: o silêncio de quem tem muito a dizer, mas prefere calar; o silêncio da conveniência. Pra que discutir? Emudecer poupa dores-de-cabeça, explicações, embaraços. Sobra o nada”. Esta elevação do silêncio a uma categoria cancerígena revela a forma dramática de representar alguns episódios. O conto não segue um fluxo narrativo contínuo, trabalha com flash-back e janelas, que são abertas para esclarecer coisas ou resumir passagens. … O componente que dá literariedade aos contos é a ironia, a busca de soluções bem-humoradas. O autor, que brinca o tempo todo com conceitos literários, transita por um universo em que cabem produtos literários sofisticados e outros da cultura de massa. Os diálogos, os subtítulos e os títulos dos contos e dos livros inventados ganham um tom paródico. Tudo apontando para uma saborosa desconstrução da seriedade. Onde perdemos tudo apresenta narradores meio tagarelas – outro pedágio à internet? -, mas é justamente nisso que reside sua força. E se falta uma maior voltagem literária nestes contos, é indiscutível que a prosa de Alex Castro já possui apelo estilístico.
Miguel Sanches Neto, “O Globo“
[O livro de contos Onde Perdemos Tudo] é uma das melhores coisas que li nos últimos tempos. O conto De Portas Abertas é uma pérola, digno de figurar numa antologia dos 100 melhores contos brasileiros. Não é pouco. … [A Morte do Meu Cachorro] é brilhante. Narração de primeira linha. É um blues na temática (pois todo blues conta a história de uma perda) e abarrocado na sua forma, com as codas lambendo delicadamente cada parágrafo, a espasmos, acrescentando informações e apagando outras, vai pra frente & pra trás com uma desenvoltura de gente grande. São lambidas de gato, portanto. O tema da perda de uma amizade, aliás, se não me engano, é novo na literatura brasileira (não me lembro de outro). O estilo é maduro, adulto, sem que o distanciamento interfira no mergulho. Ele estraçalha o sentimento, vai fundo, tem Machado na parada, no sentido de esmiuçar até a exaustão cada milímetro da situação. … Intocável, perfeito.
Furio Lonza
… uma das coisas mais lindas que eu já li na vida, assim, em todos os tempos.
Fal Azevedo, “Drops da Fal”
[Sobre De Portas Abertas] Um bom conto se reconhece pelo final: vitória por nocaute. … Alex também é um escritor que conhece como poucos seu ofício. “De Portas Abertas” segue à risca os ensinamentos de mestre Júlio Cortázar, que dizia: “Enquanto no romance você conquista o leitor por rounds, no conto você deve abatê-lo por nocaute”. E, de fato, Alex Castro leva à lona seus leitores. Não apenas em “De Portas Abertas“, como também nas quatro outras narrativas que compõem o livro Onde Perdemos Tudo. … é um filho da puta que escreve bem, desgraçadamente bem. Bom nocaute.”
Alexandre Inagaki, “Pensar Enlouquece, Pense Nisso”
Contos
A Morte do Meu Cachorro
Uma caminhada pelas ruas de Buenos Aires revela questões sobre amizade homem e mulher, as armadilhas da memória e as dores do começo da idade adulta.
Só a teimosia ainda me impele: presumir que eu seria capaz de escrever sobre Fiona foi uma temeridade, um desvario de velho carente. Não ando mais pelo Largo da Carioca; da próxima vez, faço um desvio pela Sete de Setembro.
Fiquei sem graça sim, é verdade – talvez a única verdade dita até agora. Houve um quinto sorriso, tão completo e tão sincero quanto o anterior. Sorriso também de corpo inteiro e todo meu. A história então, sob escrutínio, se esfacela:
Fiona me dá um aperto de mão mais caloroso, me fita com seus olhos incandescentes e sorri, fogosa:
- É muito bom mesmo você estar aqui comigo! – Estoura ela.
O sorriso, entretanto, não morre. Não, meus amigos, o sorriso continua lá. Gostaria de poder afirmar que ele permanecia congelado em seu rosto, mas naquele momento não havia nada congelado em Fiona: ela estava em ebulição, faiscando. Sejamos sinceros: seu corpo inteiro sorria pra mim.
Quem não suportou o calor fui eu: fracassei em gerir tamanho sorriso e cedi ante a pressão do seu carinho. Fiona me derrubou com uma erupção de amor.
Percebo agora o quão piedosa era a minha falecida versão conveniente dos fatos: eu não sabia o que fazer, não sabia em que buraco me enfiar. De que maneira poderia me defender daquela salva maciça de paixão sendo arremetida contra mim? O tal sorriso de corpo inteiro – há pouco desejado – era um fardo incômodo do qual eu precisava me livrar. Sem meios de corresponder aos sentimentos que Fiona disparava, eu ia fraquejando sob sua força.
Desse modo, e muito à revelia, preencho a lacuna do café-da-manhã: eu peguei o Clarín, eu comecei a ler, eu puxei o primeiro cigarro. Pobre Fiona, inocente ao menos dessas acusações, só fez tirar o jornal de seu colo e depositá-lo sobre a mesa. Vagarosamente, com mãos de relojoeiro.
O Clarín seria minha salvação, decidi, aliviado, e peguei um caderno qualquer do jornal. E enquanto eu abria as folhas, bloqueando minha visão de Fiona, tive um último relance de seu rosto. Ela sorria. Ainda.
Inexpugnável em meu refúgio de papel, não sei por mais quanto tempo Fiona sorriu. Por fim, deve ter desistido: afirmou um suspiro, acendeu um cigarro e escolheu uma parte do jornal pra ler. As facturas e os cortaditos, quando vieram, foram consumidos em silêncio.
Onde Perdemos Tudo
“A história se passa numa festa, quando dois ex-namorados se encontram depois de um longo distanciamento. As conversas tendem ora para o dramático, ora para o banal, e nelas cabem, por exemplo, comentários sobre um tratamento de pele. A moça é uma ficcionista, no início de carreira, com as dificuldades normais de afirmação. O ex-namorado é o modelo de personagens para ela, o que mostra que esta é uma relação de atração e repulsa. O que os separou não é conhecido, e a vida dos dois segue vazia.” Miguel Sanches Neto, “O Globo“
Quando Morrem os Pêssegos
Começou a chorar.
Feito o relatório, Josino se afastara. Que digerisse sozinha a dor, refletiu. Quanto a ele, cabia-lhe esperar pela ambulância que não chegava nunca.
Aproximou-se ao reparar as lágrimas de Laís e ficou ainda mais sem graça. Sentiu-se quase culpado. De algum modo, deveria ter impedido o acidente. Era ele, Josino, o responsável pela viuvez da mulher.
Acariciou os ombros daquela completa estranha. Em sua cabeça, a experiência compartilhada pelos dois, em uma madrugada fria defronte à praia, lhe permitia a liberdade do toque. Apenas, para evitar mal-entendidos, tomou cuidado com o gesto e foi o mais suave que pôde:
- Fica assim não, dona Laís. Sei como a senhora se sente, já passei por isso também. A gente tem que ser forte, tem que confiar em deus. Não fomos nós que perdemos uma pessoa amada, foi deus quem ganhou uma.
Laís aceitou a carícia. Virou-se para ele e percebeu, pela primeira vez na noite, a presença do policial. Mas Josino entendera tudo errado.
De Portas Abertas
No silêncio, ouvi a respiração canina de Amanda do outro lado e caminhei até lá. O som do meu celular tocando chamou sua atenção e ela se achegou à porta, me deixa entrar, por favor, eu preciso entrar, eu preciso te ver, e passou os dedos sensualmente em volta do olho mágico, como se alisando meu rosto, aqueles dedos de unhas longas e negras que sempre me excitaram.
Acariciei a maçaneta, que soluçou mecanicamente ao meu toque. Amanda eriçou as orelhas e ganiu: por favor, eu não quero ir embora, você prometeu que iríamos ficar juntos pra sempre, que me protegeria e me acompanharia, não pode me largar aqui fora, eu te peço.
A Falta que nos Fazem os Figos
XV – À meia-noite, no quilombo, invocamos o escritor morto
Para quem visitou as grandes escavações greco-romanas da Europa, aquele terreno baldio de terra remexida e mato ralo podia ser tudo, menos um sítio arqueológico. Mas era. …
Tentei me concentrar no vento — nunca imaginei que fizesse tanto frio assim no estado — mas meus pensamentos ziguezagueavam frenéticos por entre os fatos que haviam me levado até ali. Lembrei de quando bolara — ou pensei que bolara — os figos em 91, como desculpa para não estudar química, e os cocos, menos de um mês atrás, na praia do Leblon, enquanto sentia o sal dos dedinhos de Gabriela em minha língua. Pude me ver deitado na cama, chorando como nunca chorara antes, e na casa de Mitzi, fazendo contas em velocidade histérica para chegar à tênue conclusão de que eu deveria ser a reencarnação do Gol. Revivi os momentos de puro pavor experimentados durante a descoberta das coincidências, eu quase descendo privada adentro, ou Gabriela chegando no meio da noite em minha casa, com os pêssegos debaixo do braço.
[U]m dos melhores escritores desse brasilzão de meldeos … Onde Perdemos Tudo é o que Alex tem de melhor. … [S]e ele continuasse nos contos, não seria páreo para ninguém no Brasil. Falo sério.
Luiz Biajoni, “Biajoni”
* * *

Onde Perdemos Tudo. Rio de Janeiro: Editora Oficina Raquel, 2011. R$35.
Compre:
No site da editora, versão livro, R$35 + frete.
Amazon, versão ebook, por US$6,99
Na Livraria da Travessa, versão livro, por R$35 + frete.
1 junho, 2010 §
Compre.
“Mulher de Um Homem Só devassa a cabeça de Carla, que tem a sensação de já ter chegado tarde à vida do marido, Murilo. Desde a infância, ele pertence à Júlia: é o melhor amigo, o confidente, o anjo da guarda e o referencial masculino. Em 25 mil palavras, o romance invade o feminino nas suas pequenezas e mazelas. Revela o ordinário; o dia a dia de um jovem casal que enfrenta os desafios do casamento, da falta de dinheiro, da busca de identidades e de lugares para ser e ocupar, tendo que lidar com a constante presença de Júlia entre os dois.” (por Vivian Soares)
A primeira edição foi azul (2009); a segunda, magenta (2009); agora, a terceira, laranja (2010).
Mulher de um Homem Só no GoogleBooks e no Skoob. Uma entrevista sobre o livro e uma matéria portuguesa sobre o processo de edição.

Mulher de Um Homem Só (2009), romance.
Preço recomendado: R$35 / US$25, frete incluso
Compre:
Direto do autor, versão livro, você decide o valor.
Amazon, versão ebook, por US$2,99
PapodeHomem, versão livro, por R$20 + frete.
Repercussão
Escrever assim é imperdoável. … Tem um por geração. O da nossa … é ele. Vai por mim. Não perca o Alex.
Fal Azevedo, “Drops da Fal“
… melhor livro que eu li em 2009. … tem uma visão bastante peculiar da psiquê feminina … A narradora … somos todas nós. Ou todos nós. … Um livro sobre esse tal mal-estar contemporâneo. Sobre indivíduos que se comunicam apenas através de loucuras. Sobre a dificuldade de mantermos em pé as instituições do passado (casamento, família). E tudo contado assim, através de uma personagem sem freio, que faz com que a gente desembeste com ela.
Mary W., “Segundo Sexo“
É um homem que tá escrevendo isso aqui? … Não me perguntem como ele … sabe destas incertezas e inseguranças tão femininas. Nem sei onde ele aprendeu estes tantos detalhes. … É esta maneira de narrar os detalhes, as pausas, os gestos e os olhares, quando nem ao menos se estava presente na cena, que faz com que a gente entenda Carla. Quem não é Carla? Vocês, homens, não são. Nem entenderiam. Só Alex.
Isabella Ianelli, “Isabelices“
Enredo intenso nos prende da primeira à ultima página. … Realmente intrigante … uma leitura incrível. Alex Castro realmente conseguiu traduzir nas páginas de seu livro a angústia de Carla com palavras e linhas de pensamento realmente femininas, superou os limites da natureza e encarnou uma esposa preocupada com o seu casamento com toda a originalidade que lhe cabe. Recomendo. … A sensação que tive ao terminar de ler o livro: faltou-me o ar.
Re Alves, “Entreditas“
Um livro cujo único defeito é não ter mais umas cem páginas contando mais e mais da história desse triângulo amoroso.
Juliana Dacoregio, “Heresia Loira“
Fiquei encantada com o estilo … com a velocidade dos acontecimentos, com a narrativa onisciente … e com todo o desenrolar dos acontecimentos. … O livro acabou e deixou um gosto de que não podia ter acabado. … Não era nem mesmo leitora … mas agora … vou ser, sim. Você também deveria.
Fernanda França, “Fernanda França“
“Me identifiquei com a compulsão metafórica do autor. E o fim é perfeito: instiga.”
Alexandre Inagaki, “Pensar Enlouquece, Pense Nisso“
Fiquei muito impressionado, literalmente, com tua habilidade na fraseologia ficcional, perfeitamente casada com a mentalidade da Carla; todo o vocabulário feminino, tanto de palavras como de linhas de pensamento, foi uma realização ímpar. … Com essa criação, vc matou a pau.
Doutor Plausível, “Doutor Plausível“
Eu tinha esquecido que era tão bom. … Um livro maduro, bem pensado. … É nessa narração que está um dos grandes trunfos do livro. Em Carla, Alex cria uma personagem crível, rica, e explora bem suas possibilidades. É aqui que o Alex demonstra ser um excelente escritor: ele tem perfeito domínio da voz feminina da Carla. É esse o grande segredo do livro.
Rafael Galvão, “Rafael Galvão”
Um livro impressionante, a narrativa sempre inteira, o domínio da língua sempre presente mas nunca intrusivo, uma prosa que flui tão fácil que o leitor nem percebe o labirinto em que está se enredando até ser tarde demais.”
Paulo Cândido, “Todos os Assuntos do Mundo“
Um bom livro. … parece ter um cuidado todo especial com a velocidade da narrativa. … O maior trunfo … é a narradora e as ambigüidades por ela evocadas. Ao usar a primeira pessoa onisciente, Alex Castro acaba por fazer com que duvidemos de tudo o que Carla nos conta. Este filtro pouco confiável é que dá profundidade a um romance.
Paulo Polzonoff, “Polzonoff“
“… o autor não permite que o texto o domine. … Esse jogo entre o dito, o explicitado e o entendido é rico, é a grande força do livro e o que me faz aguardar ansiosamente o próximo livro do autor.”
Carolina Vigna-Marú, “Aguarrás“
Trechos
Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela, política e fofocas em geral. Outras vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu mais apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, eu tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então, eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconseqüência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato, e eu quase achava, eu me pegava imaginando que Júlia era minha amiga, uma daquelas amigonas de infância, companheira pro que descesse e subisse, sempre comigo, e assim eu me despejava naquele toque, me sumia naquele carinho, me desenganava naquele afago.
“Desisti. Não tenho essa bondade toda no coração, o órgão que reservei pra Júlia é o intestino grosso. Sou mãe agora: quando quero ouvir histórias de criança, pergunto pra Raquel como foi seu dia no jardim de infância. Júlia me esvazia. Mas eu tentei. Confesso que tentei: nesse fronte, dei meu sangue durante vários anos, construí trincheiras e só atirei quando vi o branco dos olhos do inimigo. Fiz tudo o que pude para ajudá-la e isso era um esforço enorme para mim, porque não sou leviana e levo esses assuntos muito a sério. Eu a ouvia com toda a minha atenção, e ouvir com atenção dá trabalho, cansa, exige amor, concentração, disposição. E eu pensava e refletia, matutava e considerava. Oferecia a Júlia sempre minha melhor seleção de conselhos, conselhos sinceros, brutos, que eu minerava lá de dentro de mim, e eu mesma polia e lapidava, com carinho e dedicação. Era desgastante tamanha sinceridade, tamanha atenção: eu ficava exaurida de ter que descer a espaços tão fundos, onde a luz é tão pouca e o ar, rarefeito, onde cada movimento cansa.”
“Nem todos esses almoços serviam pra suavizar o vício de Murilo que possuía Júlia. Eu, que me achava sua clínica de reabilitação, era na verdade sua fornecedora clandestina: ela vinha me ver e fungava cada carreirinha de Murilo que pudesse encontrar. E eu fazia o mesmo, porque um gambá cheira o outro e eu também não sou lá muito diversa. Ela me sugava o presente, e eu, o passado. Júlia sabia tudo sobre o Murilo, cresceram juntos, nunca não se conheceram. Um era a constante da vida do outro. Júlia era tão constante que me fazia sentir a variável e isso me deixava tonta, imaginava Júlia, amanhã, fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e sugando o futuro. E eu pensava: o juramento foi comigo, a mulher dele sou eu.”

Mulher de Um Homem Só (2009), romance.
Preço recomendado: R$35 / US$25, frete incluso
Compre:
Direto do autor, versão livro, você decide o valor.
Amazon, versão ebook, por US$2,99
PapodeHomem, versão livro, por R$20 + frete.
25 fevereiro, 2010 §
O Prosa & Verso, suplemento literário do jornal O Globo, resenhou hoje 5 livros de literatura brasileira disponíveis pela internet. Eu, dois amigos (meu irmãozão Biajoni e minha colega de pós Ana Paula Maia) e dois que eu não conhecia. Os resenhistas não estavam puxando o saco de ninguém, porque os livros desses dois últimos foram literalmente destroçados. Para mim, pro Bia e pra Ana Paula, felizmente, só elogios.
Leia a resenha de Miguel Sanches Neto: Apelo estilístico em obra com tom de paródia (é preciso ser usuário cadastrado Globo Premium, mas é de grátis)
Aliás, se estou vendendo Onde Perdemos Tudo na internet, é graças a essa matéria. Quando o repórter Miguel Conde entrou em contato comigo (via Tata, muito obrigado!), eu não tinha nada disponível. Eu e a Ana, minha agente, tínhamos decidido parar os downloads dos livros enquanto ela bate perna procurando editora pra eles. Entretanto, para aparecer na matéria, o livro resenhado teria necessariamente que estar disponível na web – mas não necessariamente de graça. Já que teria que liberar os downloads de novo, por que não tentar uma nova experiência? Resultado: dos cinco livros, só o Onde Perdemos Tudo está a venda. Todos os outros são distribuídos gratuitamente. O que isso quer dizer? Não sei. Talvez eu seja o único metido o suficiente pra achar que meu livro vale alguma coisa.
Sobre a elogiosa resenha de Miguel Sanches Neto, só tenho uma coisa engraçada a observar: ele enfatiza várias vezes uma “gramática do meio eletrônico”, um “diálogo com formato blog” e uma “velocidade de leitura própria da internet” mas, com exceção de um curtíssimo conto, todos os outros foram escritos entre 1994 e 1997, quando mal existia a internet como conhecemos hoje, e portanto não sofreram influência alguma da estética web ou da linguagem de blog. Acho que isso só prova como o meio influencia o conteúdo, como o fato de ler um texto na web faz ele parecer um texto web. Na verdade, apesar de eu gostar dos contos, eles refletem meu estilo de dez anos atrás. Hoje, sim, meu estilo já é bastante influenciado pela internet e eu jamais, jamais usaria tantas epígrafes, por exemplo.
Se quiserem, deixem um comentário pra equipe do caderno e digam o que acharam da iniciativa. Eu achei porreta, mas eu sou suspeito, claro.
25 fevereiro, 2010 §
(Publicada no Prosa & Verso, do jornal O Globo, em 11 de novembro de 2006)
Disponíveis na internet, mas escritos para um volume impresso, os contos de “Onde perdemos tudo“, de Alex Castro, incorporam a gramática do meio eletrônico. O volume dialoga com o formato do blog, tanto pela diagramação quanto pela opção por fontes sem serifa e pela forma de dispor os parágrafos. Mais do que esse parentesco gráfico, os contos guardam a velocidade de leitura própria da internet. Lê-se com rapidez mesmo os relatos longos, que em nenhum momento se revelam cansativos. As frases e os parágrafos são curtos, o autor cria suítes, dividindo a história em blocos, com subtítulos divertidos.
O conto mais bem realizado, como quer o próprio autor, é o primeiro “A morte de meu cachorro“. História de um momento em que um casal se separa, e cada um vai cuidar de sua vida. A velhice e a solidão são atingidas quando o narrador não é reconhecido por uma alma gêmea, obrigando-se a conviver com experiências que não são mais plenamente compartilháveis. Esse esvaziamento se dá num cenário que deveria ser palco de um reencontro. A amiga muda-se para Buenos Aires, o narrador segue para visitá-la, tentando vencer a distância espacial, que cumpre seu papel: “Lendo cada um sua seção do Clarín, Fiona e eu padecíamos de um silêncio ainda mais cancerígeno [sic]: o silêncio de quem tem muito a dizer, mas prefere calar; o silêncio da conveniência. Pra que discutir? Emudecer poupa dores-de-cabeça, explicações, embaraços. Sobra o nada”. Esta elevação do silêncio a uma categoria cancerígena revela a forma dramática de representar alguns episódios. O conto não segue um fluxo narrativo contínuo, trabalha com flash-back e janelas, que são abertas para esclare cer coisas ou resumir passagens.
Outro conto interessante é o que dá título ao livro. A história se passa numa festa, quando dois ex-namorados se encontram depois de um longo distanciamento. As conversas tendem ora para o dramático, ora para o banal, e nelas cabem, por exemplo, comentários sobre um tratamento de pele. A moça é uma ficcionista, no início de carreira, com as dificuldades normais de afirmação. O ex-namorado é o modelo de personagens para ela, o que mostra que esta é uma relação de atração e repulsa. O que os separou não é conhecido, e a vida dos dois segue vazia.
Os personagens dos contos de Alex Castro apresentam uma tendência para filosofar, fortalecida pelas epígrafes, algumas longas, presentes em todos os contos. Em certas passagens, encontramos uma dramaticidade exacerbada, que valoriza o acontecimento marcante, em detrimento da exploração dos pequenos nadas. A morte, a separação e a briga acabam muito valorizadas, levando a narrativa a soluções folhetinescas.
O componente que dá literariedade aos contos é a ironia, a busca de soluções bem-humoradas. O autor, que brinca o tempo todo com conceitos literários, transita por um universo em que cabem produtos literários sofisticados e outros da cultura de massa. Os diálogos, os subtítulos e os títulos dos contos e dos livros inventados ganham um tom paródico. Tudo apontando para uma saborosa desconstrução da seriedade. Onde perdemos tudo apresenta narradores meio tagarelas – outro pedágio à internet? -, mas é justamente nisso que reside sua força. E se falta uma maior voltagem literária nestes contos, é indiscutível que a prosa de Alex Castro já possui apelo estilístico.
MIGUEL SANCHES NETO é escritor
* * *
Agradecimentos à Olivia sem acento, que me passou o texto em formato eletrônico. Aliás, dia 5 de dezembro, ela lança seu primeiro romance, Desumano, pela Brasiliense. Quando tiver mais detalhes, eu dou.
* * *
Onde Perdemos Tudo, meu primeiro livro de contos, lançado diretamente na internet, é formado por 5 contos, em 120 páginas, sobre o tema comum de perda.
O elogiadíssimo projeto gráfico (o livro está lindo!) é do designer Ricardo Couto, selecionado através de um concurso promovido aqui pelo blog, idéia de São Mauro Amaral.
Ficou curioso? Instigado? Pô, sete reáu é uma merreca, vale a pena arriscar. Deixe de comprar uma bananada e torne-se acionista da novíssima literatura brasileira.
25 fevereiro, 2010 §
Ontem, na Tribuna da Imprensa, uma matéria muito elogiativa de Marcelo Copelli sobre os lançamentos dessa semana:

O carioca Alex Castro é escritor, cronista e dono do blog Liberal, Libertário, Libertino, um dos mais lidos da internet brasileira. Dentre seus romances está “Mulher de um homem só”, baixado mais de 30 mil vezes durante o período em que esteve disponível gratuitamente. Uma marca, aliás, muitas vezes não atingida por escritores com livros publicados.
Na seqüência, foi um dos pioneiros em experiência de e-book (livro eletrônico) pago do Brasil, com “Onde perdemos tudo”. Começou a escrever antes mesmo de se ouvir falar em blogs, “quando eu mal tinha e-mail”, lembra Alex, que é cronista da Tribuna BIS. Resolveu, posteriormente, colocar seus textos na internet para testar a receptividade das pessoas.
E fez sucesso. Escreve, antes de tudo, por prazer (“É o que eu sei e quero fazer, desde que me entendo por gente”). e, neste ato, ousa, mescla nuances, porém reluta em atrelar as possíveis armadilhas e devaneios do seu ego ao trabalho, “Eu não sou o que eu faço, eu sou o que sou”, diz.
Ainda assim, é quase inevitável não associar o espírito contemplativo e satírico do autor aos seus textos, muitas vezes apimentados por uma intrínseca e inteligente irreverência, diga-se de passagem. Já Luiz Biajoni, jornalista paulista, igualmente blogueiro, é autor do e-book mais resenhado da rede “Sexo anal – Uma novela marrom”, romance que dá idéia de “jornalismo marrom”, explorando violência e o sexo, além de mais de 50 textos virtuais. 
Segundo Castro, “Biajoni é dotado de uma imensa genialidade e demonstra, em suas obras, uma força vital incontrolável”, comenta. Ambos, sucesso de visitas nos blogs, reconhecidos e agraciados pela crítica literária, conheceram-se pela internet. Tanto um quanto o outro usaram a experiência virtual como aprendizado, e não tiveram o uso do recurso como forma de limitação ou isolamento.
Ao contrário, fizeram da ferramenta um meio de interação com os leitores, que passam de 5 mil por dia. Os dois, então, desenvolveram conjuntamente um projeto e decidiram agora sair dos campos virtuais para o papel, lançando os livros “Liberal Libertário Libertino – Crônicas” e “Virgínia Berlim – Uma experiência”. Alex Castro, autor do primeiro, lança também em formato e-book “Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas cubanas”.
Casos inusitados
Em “Liberal Libertário Libertino – Crônicas”, Alex Castro escreve com envolvente habilidade sobre temas banais, descreve experiências e conta casos inusitados, como a história de sua fuga do furacão Katrina, em New Orleans, e a posterior busca por seu cão, Oliver, nos escombros da cidade.
Neste período, lembra Alex, “os leitores do blog acompanhavam diariamente meus passos. Preocupavam-se com o Oliver (o cachorro) e aguardavam notícias minhas. Parecia uma novela”, lembra o escritor. Em “Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas cubanas”, Alex nos mostra um novo olhar sobre Cuba, através de textos e imagens que oscilam entre a simpatia e a crítica, o amor e a repressão, revelando aspectos insólitos da cultura cubana.
Muitas das crônicas de ambos os livros foram publicadas originalmente, em sua coluna de sexta-feira, na TRIBUNA DA IMPRENSA. Luiz Biajoni, por sua vez, nos traz em “Virgínia Berlim – Uma experiência” um exercício de estilo para contar uma história de conquista e perda entre duas pessoas, colegas de trabalho que se apaixonam.
Uma obra intimista, que inova ao trazer, como brinde, um CD com canções que têm as letras traduzidas em anexo. O design e a edição dos três livros são de Albano Martins Ribeiro, do selo OsViraLata, um projeto inovador com foco na divulgação de trabalhos de escritores independentes e a promoção do contato entre autores e leitores. Através do site do selo (www.osviralata.com.br), o leitor poderá adquirir as obras, tanto as impressas quanto o e-book.
LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO – CRÔNICAS – Crônicas de Alex Castro. Edição OsViraLata. 136 págs. R$ 28,50
RADICAL REBELDE REVOLUCIONÁRIO – CRÔNICAS CUBANAS – Crônicas de Alex Castro. Ed. OsViraLata (e-book). 155 págs. R$ 20.
VIRGÍNIA BERLIM – UMA EXPERIÊNCIA. Romance de Luiz Biajoni. Ed. OsViraLata. 68 págs (inclui CD). R$ 28,50
* * *
Para comprar os livros, clique nos links acima. Não ficou interessado? Caramba, você é difícil de agradar.
25 fevereiro, 2010 §
Sou um homem erudito. Posso, em uma só respiração, citar trocentos clássicos (que realmente li!), relacioná-los com os movimentos estéticos em voga na época e ainda jogar umas palavras em latim e francês pra impressionar.
Vão aparecer alguns idiotas achando que estou me gabando, mas é bem o contrário. Erudição é o tipo de coisa inútil que só quem não tem acha que vale alguma coisa.
E, em arte, pior, só atrapalha. Nada mais chato do que aqueles autores que esfregam sua erudição na cara dos leitores, quase sempre de modo totalmente desnecessário.
Essas arroubos de erudição até me saem muito naturalmente. Meus primeiros rascunhos são cheios deles. Quase sempre, apago todos – para minha dor, pois alguns ficam até bons, mas minha teoria da literatura não permite essas babaquices. (Outro dia, o Doutor Plausível fez um artigo sobre o chatíssimo name-dropping da nova literatura brasileira.)
Enfim, meu romance Mulher de Um Homem Só não é sobre mim, é sobre a Carla, o Murilo e a Júlia. Eu sou erudito, é o meu hobby, a Carla não. Na versão original, ela citava até Nietszche e Sartre. Era ridículo. Carla jamais teria lido Nietszche e Sartre. (Até aí tudo bem, porque a maioria das pessoas que conheço que cita Nietszche e Sartre também não leu, mas outra característica de Carla é não ser poseur e cagar pra isso tudo.)
O trecho abaixo, em itálico, foi das que mais me doeu cortar. Quase tirei a referência ao niilismo também, mas decidi deixar.
Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo – carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado – e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. Tinha uma idéia totalmente distorcida de Dostoievski, claro, baseada em uma amostra não-representativa, e, por isso mesmo, não terminou os Karamazovi, parecia que o autor estava traindo a si mesmo. Se tivessem lhe dito que o Dostoievski verdadeiro era o dos Karamazovi, teria ficado furiosa, gritaria heresia! Deveria ter acabado o romance. E era – ou se dizia, ou se pensava – uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados em frente à praia e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso – por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as mulheres lavassem suas próprias calcinhas.
Por favor, não venham me dizer que esses trechos estão fracos. Ou acham que saíram do livro por estarem geniais?
* * *
O Erro de Nietszche
Nietszche descobriu Notas do Subsolo em 1887, um ano antes de ficar definitivamente louco e começar a conversar com cavalos, e exclamou:
I did not even know the name of Dostoievski just a few weeks ago. (…) An accidental reach of the arm in a bookstore brought to my attention L’Esprit Souterrain, a work just translated into French. (…) The instinct of kinship (or how should I mention it) spoke up immediately: my joy was extraordinary.
Naturalmente, não havia, nem poderia haver, kinship, ou irmandade, possível entre Nieszche e Dostoievski. Os dois provavelmente teriam caído na porrada. Mas o erro de Nietsche era compreensível. Quem lê um único livro de um autor, fora de contexto, teria todas as justificativas do mundo para presumir estar lendo as próprias idéias do autor. Afinal, a maioria dos autores faz isso.
Na verdade, Nietszche presta um grande elogio a Dostoievski. O espírito da ficção é esse: criar pessoas reais, capazes de idéias reais, que não necessariamente são as nossas. O autor, idealmente, deve desaparecer, e levar consigo suas idéias e sua biografia, e deixar que seus personagens vivam e brilham, alimentados por sua energia vital.
(Leia mais sobre isso no meu artigo sobre Dostoeivski.)
* * *
Meu romance “Mulher de Um Homem Só“, narrado por uma mulher, é minha humilde tentativa de entrar na cabeça de uma mulher, de falar como mulher, de ser mulher um pouquinho. Se esse assunto lhe interessa, se ficou curioso ou instigado, dê uma olhada e descubra se fui uma mulher convincente.
Algumas mulheres que gostaram: Alessandra Bonrruquer, Paula Lee, Mary W, Marina W, Ju Dacoregio, Isabella Ianelli, Fernanda França, Re Alves.
Para ler essas e outras resenhas, comentários e reações ao livro, visite a Seção Mulher de Um Homem Só.
* * *
Três entrevistas minhas, sobre esse livro e sobre literatura de modo geral:
- Quanto Vale ou É por Quilo – Revista Bula
- Alex Castro: Um blogueiro liberal, libertário e libertino – Global Voices Online
- Alex Castro: Escritor e Mindfucker – Portal Literal
* * *
Para quem gosta de folhear e cheirar, o romance pode ser comprado nas seguintes livrarias do Rio e de São Paulo:
São Paulo
- HQMix (livreiro Gualberto)
Pç Roosevelt, 142 (11-3258-7740)
Rio de Janeiro
Berinjela (livreiro Daniel)
Rio Branco, 185, lj 10, Centro (21-2215-3528)
Baratos da Ribeiro (livreiro Maurício)
Barata Ribeiro, 354, lj D, Copacabana (21 2549 3850)
* * *
Se você ainda está em dúvida se vale a pena, “Mulher de um Homem Só” também pode ser lido e folheado pelo Google Books. Mas só 50%, viu? Pra ler o resto, só comprando.
* * *

Para os tecnófilos, Mulher de Um Homem Só também está a venda na Amazon.com em formato kindle. Clique e confira .
Na verdade, se quer ler Mulher de Um Homem Só no seu kindle, fale comigo. Posso te mandar um PDF que fica muito mais bonito e legível no kindle do que o próprio formato kindle.
* * *
Finalmente, deixe de fazer doce e compre.
25 fevereiro, 2010 §
Os Viralata acabou mas meu romance Mulher de Um Homem Só continua a venda.
Em 2009, ele foi homenageado por duas pessoas que respeito muito: primeiro, a Mary W. o colocou como sua melhor leitura de 2009 e, depois, Mestre Inagaki, classificou-o entre os cinco melhores livros do ano – ao lado da buceta do Bia.
Ontem, a Cris Cerdera, mulher linda, querida e inteligentíssima, também publicou uma não-resenha sobre Mulher de Um Homem Só, ressaltando uma abordagem possível da história que poucos outros leitores mencionaram:
Não sou eu que tenho que resistir ao livro. É ele que precisa resistir a mim. Precisa dar um chute bem dado nas minhas desconfianças. Provar que merece minha atenção e meus afetos. Tenho que admitir que o livro do Alex fez isso ““ e fez bonito demais. Porque eu me apaixonei. …
Ele [O Alex] brinca com a língua, existe uma relação dele com a língua que é erótica, de desejo, de fruição, bem como fala o Barthes. O Alex tem intimidade com essa senhora. Nas mãos dele, ela ““ a língua ““ se entrega. …
A narradora [Carla, casada com Murilo], me confundiu, me exasperou, me deixou com vontade de dar um chute na bunda dela. Me levou pra dentro da história, dialogou comigo, olhou no fundo do meu olho e me perguntou: “Você me entende?” …
E existe também o fato ““ para mim muito claro ““ de que o autor lança uma bela e espessa cortina de fumaça nos nossos olhos. Porque, ao contrário do que possa parecer, MduHS não é uma história de ciúme. Isso não ficou claro logo no começo para mim. Foi preciso prestar atenção demorada às palavras de Carla pra perceber isso. MduHS é a história do amor de Carla por Júlia. E de como ela resistiu a esse amor até o fim. Esse dado, esse “˜truque”™ do autor me fisgou. Porque não há nada que seja dito claramente. A gente nunca vai poder dizer com toda certeza e eu acredito que a boa literatura faça exatamente isso. …
Me lembro de uma professora da graduação que dizia, ao comentar o texto do Eco, Obra aberta: “˜Gente, a obra é aberta, mas não é escancarada”™. E o que isso vem a ser? Isso quer dizer, apenas, que as possibilidades de leitura estão inscritas no próprio horizonte do texto. Essas possibilidades podem ser múltiplas ““ sim, óbvio ““ mas não infinitas. Não disparatadas. É no próprio tecido da narrativa que vamos encontrar as pistas de que necessitamos.
Então, só como exemplo, eu vou transcrever aqui uma das passagens do livro que para mim é das mais belas:
Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela e política e fofocas em geral. Outra vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconsequência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato [...]
Clique aqui para ler a não-resenha completa da Cris. Ou deixe de doce e compre o livro.

25 fevereiro, 2010 §
No depoimento insuspeito da brilhante Mary W. para o Amálgama:
Mulher de um homem só (Os Viralata, 2009) é o melhor livro que eu li em 2009. O autor, Alex Castro, tem uma visão bastante peculiar da psiquê feminina e então o livro é absurdamente relacional. O masculino e o feminino tentam dialogar e a verdade é que o masculino acaba calado. A narradora conta toda a história sem tentar encobrir neuroses e birutices de qualquer espécie. Daí que ela somos todas nós. Ou todos nós. A leitura flui e a gente não vê o tempo passar enquanto lê. O que é significativo já que
se trata de uma história que deveria ser pesada (ela está falando sobre um casamento marcado por desconfianças e a gente percebe que toda a vida dela é marcada por essa infelicidade conjugal). Mas a gente não se cansa. Não sente o peso. Há apenas identificação e gargalhadas. Um livro sobre esse tal mal-estar contemporâneo. Sobre indivíduos que se comunicam apenas através de loucuras. Sobre a dificuldade de mantermos em pé as instituições do passado (casamento, família). E tudo contado assim, através de uma personagem sem freio, que faz com que a gente desembeste com ela.
É muito significativo quando alguém que a gente respeita profundamente escreve um depoimento desses sobre nosso livro. Foi meu presente de natal.
O Amálgama me fez a mesma pergunta, mas não consegui dar uma resposta.
* * *
Leia gratuitamente via Google Books, compre via Kindle (tem uma boa seleção de blurbs nessa página), veja as resenhas e comentários de outros leitores, confira as livrarias no RJ e SP onde você pode comprar o livro à moda antiga, pague via PayPal (caso você não tenha cartão de crédito brasileiro) ou, simplesmente, pare de fazer doce e compre.
25 fevereiro, 2010 §
Para muitas leitoras, a história de Libeca – que pode ser lida como um conto independente – é a melhor parte de Mulher de Um Homem Só. Para convencer quem ainda estava em dúvida, o trecho completo:
* * *
Mas às vezes ele me choca, me choca de verdade. Algumas histórias não sei se teria casado se soubesse. A primeira vez que esses ideais inconstantes do Murilo foram postos à prova foi com o caso da Libeca e, nessa prova, o Murilo não passou não, não passou mesmo, teria ido direto pra recuperação e ia ficar dezembro todo na sala de aula. Mas acho que sou eu. Religiosa ou não, não interessa, sou muito passional, muito apegada à vida: uma vida, um minuto a mais de vida que seja, não vale todas as teorias e argumentações e racionalizações do Murilo, e não entendo como ele pode ser tão frio, como pode colocar idéias antes de gente, e isso me assusta, porque decidi passar a vida com esse homem, e ele é o pai da minha filha, e não sei se posso confiar nas decisões dele, se o seu bom senso errático não poderia preferir lealdade a algum ideal abstrato do que à vida de Raquel. E essa história me bota medo, mas vou contar mesmo assim, vou contar o que Murilo fez com a Libeca porque isso tem tudo a ver com o que houve depois.
Júlia, como sempre, estava lá. Os dois estudaram juntos em um colégio católico (até o Murilo se revoltar e pedir pra sair, vocês lembram), os dois cresceram juntos, porra. Faziam tudo juntos. Se não fosse por mim, ainda estariam fazendo, mas esquece. Apesar do companheirismo todo, apesar de tanto amor entre eles, não andavam no mesmo grupo: eram a única interseção de dois círculos diferentes. Os amigos de Júlia não entendiam o que via em Murilo, como agüentava andar com um chato daqueles, caretão e pentelho, de óculos fundo de garrafa e vocabulário difícil, e também tinham ciúmes dele, porque apesar do grupo e da galera, daquela turma toda de gente tão interessante e avançadinha (ou assim eles se consideravam), Murilo era a prioridade de Júlia e ela largava tudo para estar com ele. O vice-versa, naturalmente, era verdadeiro, como não?
E chegamos a Libeca, que andava com Júlia e seus amigos, fumava maconha e ouvia rock progressivo, pichava banheiros e matava aula de ginástica. Estavam todos no começo do segundo grau, ou ensino médio, é isso que estão chamando agora?, e finalmente podiam se vestir como quisessem: a obrigatoriedade do uniforme só ia até a oitava série. E Libeca era daquelas alunas citadas pelos freis mais conservadores para justificar a insensatez de tal medida: só se vestia de preto, jeans rasgados, coturnos fedorentos, essas coisas. Os jeans rasgados foram proibidos, sob o argumento de que as roupas dos alunos precisavam, pelo menos, estar inteiras, mas o resto era ou deixar ou voltar aos uniformes. Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo, carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado, e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. E era, ou se dizia, ou se pensava, uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados no melhor bairro da cidade e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso. Por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as meninas de sua idade lavassem as próprias calcinhas. Falando em calcinhas, Libeca e suas amigas também gostavam de defender o amor livre, que sexo não significava nada, que essas coisas não tinham importância alguma, e faziam pouco de meninas como eu, que éramos direitas e vaidosas, não fumávamos e tínhamos o mínimo de decoro. Mas muitas dessas minhas amigas tão decorosas já namoravam firme, aqueles calouros universitários que na época nos pareciam uns homenzarrões, e, com eles, perdíamos a inibição, ficávamos mais seguras de nossos corpos e brincávamos de colocar coisas deliciosas na boca, essas travessuras que só se faz com quem se confia, com quem se é íntimo, com quem se ama, mesmo sendo aqueles amores fugazes mas faiscantes da adolescência. Enquanto isso, Libeca sentava no colo dos garotos, se dava a intimidades físicas com todos, porque essas coisas não importavam, eles botavam a mão aqui e ali e, quem visse, diria que era mulher liberada e experiente, mas quando estava a sós com eles, toda a força dos valores culturais decadentes da nossa sociedade se fazia sentir e Libeca defendia com fúria aquele ultrapassado e cabeludo conceito de honra que residia ali no meio das suas pernas, e nunca fez nada com nenhum dos garotos em cujo colo sentou. E, às terças-feiras, Libeca se desvencilhava dos amigos em segredo e ia visitar sua bisavó, que era uma velha muito sozinha que morava em um asilo no subúrbio, seus pais e seus avós nunca iam, mas Libeca se sentia mal com isso, e ficava mais de duas horas em três ônibus pra chegar no asilo e nunca faltava, e levava escondido um saquinho de pão de mel pra bisavó, que não podia comer doce por causa do seu diabetes, mas que dizia pra Libeca que vida sem pão de mel não valia a pena, e Libeca levava, e ficava lá vendo a bisavó quebrar o pão de mel com os lábios porque não tinha mais dentes e deixava a massa derreter na boca, e as duas conversavam, a bisavó ouvia a Voz do Brasil todo dia e sempre perguntava pra Libeca suas opiniões, o que pensava desse novo Plano Cruzado, se era fiscal do Sarney, se a seleção tinha chances de levar o tetra no México ou até se a Viúva Porcina devia mesmo era ficar com o Roque, e era bom porque isso forçava Libeca a se informar e, além de ler Dostoievski e não entender, também enfrentava a Veja todo domingo. Enfim, quinze anos.
Desculpem o desvio mas é que, assim como a Libeca se sentia mal com o abandono da bisavó, também me sinto mal que Murilo e Júlia, apesar de tudo e depois de tudo, nunca tenham sabido quem era essa moça que queria se matar. Gosto de me enganar achando que saber do pão de mel teria feito alguma diferença para o Murilo mas não: ele agiria como agiu de qualquer jeito – Júlia talvez levasse o pão de mel em consideração.
E, nesse dia, estavam os dois, Murilo e Júlia, em um dos seus cantos preferidos do colégio, aproveitando sua meia hora de recreio debaixo da sombra de uma amendoeira: ela fumando e desenhando em um caderninho e ele lendo algum livro da coleção Vagalume, acho que o Escaravelho do Diabo. Então, apareceu a Libeca e, ao contrário de quase todos os outros colegas da Júlia, a Libeca tolerava o Murilo, até gostava dele um pouquinho. Tinha um assunto pessoal pra falar com a amiga, mas Murilo estava lá e a Libeca não se importou, contou pra ele também. Não era segredo.
Libeca queria morrer. A vida não fazia sentido, nossos valores morais eram falsos ícones impostos por uma mídia corrupta e globalizada, as relações humanas eram regidas por um deus artificial criado para facilitar a dominação dos mais fracos pelos grandes cartéis internacionais… Ah, chega! Quem é que já não ouviu esse tipo de conversa? Não tenho estômago de repetir essas besteiras todas, acho muito triste uma menininha assim já com tanto amargor na boca, e sem razão alguma, e não gosto de falar muito porque nessas horas penso na minha filha, se também não poderia estar falando pra outros jovens da idade dela que a vida não presta.
Mas tenho que continuar porque Libeca continuou, não parou; não parou mas falava com muita calma, aquela calma que assustava, e dizia que não queria mais, já tinha inclusive tentado o suicídio antes, ao treze anos, mas agora era pra valer. De que adiantava ficar no mundo quando não se gosta de nada? Não tinha vaidade, não gostava do seu corpo, não gostava da sua família, não gostava da sua vida, a vida não lhe dava prazer. E acrescentou, pra surpresa boba do Murilo, pois Júlia já sabia, não porque Libeca tinha contado, mas porque não comprava aquele mise-en-scene todo, que era virgem – virgem!, e Murilo corou, como se essa idéia atentasse contra algum senso de pudor seu, logo ele que só iria perder a virgindade dali a dois anos, em um puteiro de segunda – que não conhecia o prazer sexual e que nem queria conhecer, tudo era tão falso nesse mundo!, nem se masturbava, sentia nojo do menor prazer físico, e lá se foi Murilo corar de novo enquanto Júlia nem piscou.
E, no fundo, coitados deles dois, que se achavam tão adultos e inteligentes e sofisticados, mas só tinham quinze anos mesmo, e nem desconfiaram que Libeca nunca tinha tentado o suicídio coisa nenhuma e que se masturbava toda noite sim, muitas vezes passava a noite inteira se masturbando, como se aquele ato individual, aquele único ato não influenciado pelas forças imperialistas que dominavam todos os aspectos de nossas vidas, fosse, por isso mesmo, a única coisa que valesse a pena ser feita, e que tinha muito prazer sim cada vez que chegava no asilo e sua bisavó ainda estava viva, tinha medo profundo do dia em que chegaria lá e não houvesse a quem dar o pão de mel.
Mas Murilo e Júlia levaram aquilo a sério. Murilo e Júlia, aliás, levavam tudo muito a sério naquela época, eram jovens seríssimos, convencidos de uma suposta situação de maturidade precoce e que, portanto, deveriam se comportar de acordo. E tinham razão de levar Libeca a sério porque dessa vez era sério mesmo. Libeca queria morrer: o prazer de encontrar a bisavó era um prazer amargo, misturado com medo, e ela, quando se masturbava, não sentia realmente prazer físico algum, não pensava em ninguém, não visualizava nada, se masturbava a seco, se masturbava de ódio, ficava vermelha, inchada, depois ardia pra urinar, até o chuveirinho do bidê doía. Menos uma ou outra pequena mentira, Libeca queria mesmo morrer e, por isso, estava ali pedindo ajuda daquela maneira tão óbvia, tão ridícula, coitada. E também não tinha sido à toa que Libeca discutira o assunto na frente do Murilo, embora ela mesma nunca tenha se dado conta disso, porque, em sua cabeça, Murilo era mais centrado, mais adulto que Júlia. E Libeca esperava que fosse justamente ele quem a cortasse e dissesse o que é isso?, você é tão jovem!, que absurdo!, você tem a vida toda pela frente!, e esses clichês que, salpicados na hora certa, podem salvar uma vida, porque ninguém realmente deseja morrer – muito menos uma adolescente sadia, de dentes perfeitos e no peso certo.
Murilo, entretanto, que corava com masturbações e virgindades, permanecia impassível ao suicídio. E foi Júlia a primeira a falar, mas ainda demorou um tempo, porque estava chacoalhada por dentro, e precisou esfriar seu temperamento quente antes de abrir a boca, e se lembrou de o quanto realmente gostava de Libeca, e pensou em alguns bons momentos das duas, e enquanto isso o tempo ia passando, um silêncio desagradável debaixo da árvore, mas o engraçado é que não era, quero deixar bem claro, silêncio de hesitação. A resposta que Júlia deu ela teria dado imediatamente: o tempo de espera foi porque queria se controlar por dentro, queria ter certeza de que, quando falasse, seria de voz firme, queria fechar os olhos às lágrimas para que não escapulisse nenhuma. E se esfriou e olhou para Libeca e, com a seriedade que só uma adolescente extremamente convencida de sua própria importância pode ter, afirmou:
- Vou sentir muito a sua falta.
E Libeca emudeceu. Emudeceu mesmo. Não só naquela conversa não: ficou calada pelo resto do dia. Mas ah!, nem precisava falar: estava na presença de dois loquazes filósofos, bastava que ouvisse, que se regalasse com aqueles grãos-de-bico de sabedoria, maduras (quase podres) lições de vida. Estava muda mas ainda participava da conversa: virou-se para Murilo, a pessoa de quem mais esperava ajuda, o “homem” mais responsável do grupo, e ele apenas sacudiu a cabeça, concordando com Júlia. Sei o que Libeca pensou e não foi não, Libeca, isso é que é o pior. Os dois cretinos nunca tinham conversado sobre isso, nunca haviam debatido suicídio, nunca haviam decidido o que fazer se uma situação como aquela se apresentasse. Nada disso. Ambos chegaram àquela mesma posição ridícula espontaneamente. E nem mesmo foi um quem influenciou o outro. Murilo só não disse as mesmas palavras que Júlia porque mal conhecia Libeca, seria hipócrita dizer que sentiria a falta dela. Pensou um pouco no que falar e acrescentou, sem o menor constrangimento de usar a palavra sagrado:
- É seu direito. Nosso direito sagrado.
Libeca continuou muda e ele desenvolveu:
- Na nossa existência, só temos dois momentos realmente íntimos. Dois únicos momentos nos quais uma pessoa fica sozinha consigo mesma e ninguém tem nada a ver com isso.
E Murilo fez uma pausa, não uma pausa dramática, mas uma pausa cumplicitória, esperando que sua amiguelhazinha adivinhasse seu pensamento e completasse seu raciocínio. Júlia entendeu. A primeira era fácil:
- O suicídio e… Ela hesitou um pouco, formulou uma resposta, questionou, confirmou, verbalizou: …a masturbação.
Pronto. Feliz com sua comparsa, Murilo continuou o discurso, fruto de seus dezesseis anos incompletos de sabença, a cara cheia de cravos e erupções, o cabelo penteado em uma franja pra esconder as espinhas da testa:
- Nada é realmente nosso. Tudo pode ser tirado, recolhido, leiloado. Mas nossa vida é só nossa, só diz respeito a nós. Seria uma grande arrogância e uma enorme falta de respeito da nossa parte ter a ousadia de lhe dizer o que fazer com sua vida.
E Júlia, não encontrando mais nada eticamente aceitável para falar, repetiu:
- Vou sentir sua falta.
Libeca entendeu. Demorou um pouco, mas entendeu. Era sério mesmo. Os dois não estavam brincando. Não seria ali que Libeca ouviria os clichês de consolo de que precisava. Por fim, Júlia decidiu elaborar:
- Acho até filosoficamente errado (filosoficamente é o caralho!, pensou Libeca, mas continuou calada para ouvir até o fim) eu falar isso, não tenho nada a ver com sua vida, mas vou dizer de qualquer jeito: gosto muito de você, Libeca, muito mesmo!, e pegou a mão de Libeca, e Libeca estava tão anestesiada por aquela palhaçada que nem puxou a mão de volta como queria, e caso essa seja a sua decisão, quero que saiba que vou sentir muito sua falta e vou ficar muito triste.
E acabou. Murilo havia feito seu discurso. Júlia, já tendo falado mais do seria filosoficamente correto, também se absteve da conversa. E Libeca, Libeca concluiu que realmente não havia mais nada a ser dito, não tinha mais o que fazer ali, nunca teve. Foi embora.
E eu, o que posso dizer mais? Os dois sábios nem mesmo discutiram entre si o assunto depois. Não havia o que discutir. Concordavam de tal maneira que a única coisa que poderiam acrescentar eram parabéns mútuos por sua atitude lógica e coerente. Mas não havia por que parabenizar o outro por não ter feito mais do que sua obrigação de ser humano pensante. E é esse, minha amigas, o pai da minha filha. E, ainda mais assustador, Júlia é a madrinha.
(Quanto a Libeca, ela morreu, naturalmente. Teve um câncer maligno repentino nos ossos e se desmilingüiu em poucos meses. Deixou um viúvo, um ex-marido, três filhos e uma netinha que mal conheceu. Como quase todas nós, conseguiu sobreviver aos seus quinze anos. O mais irônico é que, talvez, com a ajuda de Murilo e Júlia. Dado seu rancor contra o mundo naquela época, não sei se clichês de CVV teriam salvo sua vida. Mas aquele choque com certeza a balançou. Libeca passou os dias seguintes odiando aqueles dois putos, nem se lembrou de o quanto odiava a si mesma. Quando passou o ódio, também havia passado o impulso. E não voltou mais. Entrou em outra fase, parou de ler e nunca nem abriu a coletânea de Nietzsche que comprara algumas semanas antes. Foi passar o verão no nordeste, se apaixonou por um surfista e deixou o cabelo crescer, trocou piercings por tatuagens e continuou sendo adolescente, e dali a pouco mudou tudo de novo, e assim foi indo. Só soube mesmo o que era orgasmo, entretanto, com o segundo marido, mas nem isso foi lá grande perda, porque passou todo o primeiro casamento achando que estava tendo orgasmos e gostando muito, e isso é o que conta. Enfim, Libeca sobreviveu e nunca mais dirigiu palavra a Murilo e, portanto, saiu da minha história.)
Ai, quem me dera ter contado esse caso apenas para exemplificar as esquisitices de Murilo e Júlia. Dizer: eles são assim, ó. Por exemplo, olha só o que eles fizeram quando tinham quinze anos. Mas não. A historinha é importante, pois não é a criança o pai do homem? Não estão esse Murilo e essa Júlia, que tão eticamente aconselharam a Libeca, dentro do pai e da madrinha da minha filha?
* * *
Convencida, finalmente? Então, compre o livro.

25 fevereiro, 2010 §
Acabei de revisar “Usucapión”, a tradução para o espanhol do meu romance “Mulher de um Homem Só“.
Foi uma das maiores emoções da minha vida. Jamais poderia imaginar que seria tão forte. Imagino que ser pai deva ser um pouco assim: porque aquela criança era minha, era minha como poucas coisas jamais poderão ser minhas, mas por outro lado também é da Ianina, tradutora de mão-cheia, que colocou ali muito do seu trabalho, do seu artesanato, das suas emoções, da sua sensibilidade.
Reler minhas palavras em espanhol me fez ficar ainda mais consciente da importância da escolha de cada palavra, de cada ambiguidade, de cada lugar-comum, de cada neologismo.
Estou mexendo no texto ainda, mas se houver tradutores ou falantes nativos de espanhol que queiram dar uma olhada, por favor, levantem o braço. Tenho muitas dúvidas esparsas e sempre preciso de feedback!
* * *
Um trechinho, para compararem com esse aqui:
Libeca cultivaba sus enormes ojeras con un cuidado parecido al que nosotras, las chicas más femeninas, sólo le dedicábamos a nuestras cabelleras: cabellera que Libeca había rapado al estilo cadete del ejército. Fumaba marihuana pero nunca sintió nada (fingía, para no pasar vergüenza) y era literata, tan literata como se puede ser a esa edad: adoraba a Dostoievski, había leído Memorias del subsuelo, cargaba siempre una edición en su cartera, que todo el grupo había leído y subrayado, y, atraída por el autor, comenzó a leer Los Hermanos Karamazovi pero nunca lo consiguió acabar. Y era, o se decía, o se pensaba, una rebelde, una nihilista (palabra que le encantaba salpicar en las conversaciones, para mostrar cuán sofisticada y culta era), y todo esto a los quince años, que, de hecho, pensándolo mejor, es en la única edad que es perdonable imaginarse nihilista. Vivía en un apartamento de casi mil metros cuadrados en el mejor barrio de la ciudad y tenía siempre un chofer a su disposición, pero, por cuestiones ideológicas, sólo iba a la escuela en ómnibus y tenía un orgullo planetario de eso. Por otro lado, nunca se le había ocurrido, que en el mundo exterior, las chicas de su edad se lavaban su propia ropa interior. Hablando de ropa interior, a Libeca y a sus amigas también les gustaba defender el amor libre, ya que el sexo no significaba nada y esas cosas no tenían ninguna importancia, no pensaban muy bien de chicas como yo, que éramos estrictas y vanidosas, no fumábamos y teníamos al menos un poco de pudor. Pero muchas de mis amigas más pudorosas ya estaban bien de novias con esos novatos de facultad que en aquella época nos parecían grandes hombres y con ellos, perdíamos todas las inhibiciones, estábamos más seguras de nuestros cuerpos y jugábamos colocándonos cosas deliciosas, esas travesuras que sólo se hacen con personas en las que se confía, con quien se es íntimo, con quien se ama, inclusive siendo esos amores fugaces de la adolescencia. Mientras tanto, Libeca se sentaba en el regazo de los chicos, tenía intimidad física con todos, porque esas cosas no importaban, ellos le metían la mano aquí y allá, y quien viera eso, diría que era una mujer liberal y con experiencia, pero cuando estaba sola con ellos, toda la fuerza de los valores culturales decadentes de nuestra sociedad se hacían sentir y Libeca defendía con furia aquel ultrapasado y peludo concepto de honra que residía allí en medio de sus piernas , y nunca hizo nada con los chicos en cuyos regazos se sentó. Y, los martes, Libeca se deshacía de los amigos y en secreto se iba a visitar a su bisabuela, que era una vieja muy solitaria que vivía en un asilo en los suburbios, sus padres y sus abuelos nunca iban, pero Libeca se sentía mal con eso, y pasaba más de dos horas en tres ómnibus diferentes para llegar al asilo y nunca faltaba, y llevaba una bolsita escondida con pan de miel para la bisabuela, que no podía comer dulces por causa de la diabetes, pero que le decía a Libeca que la vida sin pan de miel no valía la pena, y Libeca le llevaba el pan de miel y se quedaba viendo a la bisabuela partirlo con los labios porque no tenía dientes y dejaba la masa derretirse en la boca y ahí las dos conversaban, la bisabuela oía los noticieros de radio todos los días y siempre le preguntaba a Libeca cuáles eran sus opiniones sobre distintos asuntos, qué pensaba del nuevo presidente, si la selección tenía alguna posibilidad de ganar el Mundial de Fútbol, inclusive si la huérfana de la telenovela debía quedarse con el médico, y todo esto era bueno porque obligaba a Libeca a informarse, y además de leer a Dostoievski y no entenderlo, también tenía que enfrentarse con los periódicos todos los días. En fin, quince años.
* * *
Convencida, finalmente? Então, compre o livro.

* * *
Em tempo: para todas suas necessidades de tradução, revisão e transcrição, recomendo enfaticamente a empresa da Ianina e do Emanuel, Traduções Emcampos.