Uma resenha da “Autobiografia do Poeta-Escravo”, de Juan Francisco Manzano

Por Liliam Ramos da Silva.

Publicada na Revista Mulemba, v. 2, n. 14 (2016), da Faculdade de Letras da UFRJ.

homepageImage_pt_BR

» leia o texto completo «

“e pelos coxinhas, ninguém tem empatia?”

um leitor pergunta, em tom de desafio:

“e pelos coxinhas, ninguém tem empatia?”

mas toda nossa sociedade já foi construída e é mantida como um imenso mecanismo para “ter empatia”, ou seja, para passar a mão na cabeça das pessoas privilegiadas.

o policial que “tem empatia” e quer ajudar a pobre loira branca que sofreu uma violência… ignora a cidadã negra favelada que tentou dar queixa da mesma violência.

o médico que “tem empatia” pela dor das pessoas brancas… dá menos anestesia para as pessoas negras.

nos escritórios, há muita “empatia” pelos pobres homens calorentos vestindo terno e nenhuma pelas mulheres friorentas de perna de fora. etc etc.

os exemplos poderiam continuar ao infinito.

então, não.

não são as pessoas privilegiadas que devem levantar os braços e pedir:

“poxa, e pra mim, não tem empatia?”

pelo contrário, são os homens que têm que ter empatia pelos problemas das mulheres, são as pessoas brancas que têm que ter empatia pelos problemas das pessoas negras, são as pessoas que moram em apartamentos de três quartos no eixo morumbi-leblon que têm que ter empatia pelas pessoas que precisam de bolsa-família para sobreviver.

meu trabalho é ensinar as pessoas privilegiadas a terem mais empatia pelas menos privilegiadas, e não a dominarem um novo vocabulário para exigir ainda mais privilégios:

“poxa, pelos empresários ninguém têm empatia, né?”

* * *

esse é o tema principal do meu livro outrofobia: textos militantes. se o assunto te interessa, experimente ler.

novas dedicatórias apócrifas

o saldão dos meus livros foi um sucesso. onde perdemos tudo e lll estão esgotados, e sobraram só nove cópias do mulher de um homem só.

(cometi o erro de folhear o lll e quase devolvi o dinheiro de quem comprou, mas vá lá. saibam que o livro é horrível e que eu discordo de 80% do que está lá!)

os livros serão todos enviados ainda hoje.

para comprar meu novo livro outrofobia, ou uma das últimas nove cópias de mulher de um homem só, e também receber sua dedicatória apócrifa, visite minha página de livros.

* * *

passei as últimas semanas escrevendo mais de duzentas dedicatórias.

abaixo, algumas das melhores.

muito obrigada a todas as pessoas que mandaram sugestões de dedicatórias.

de brinde, algumas fotos da capitu (tosada!) interagindo com os livros.

alfabetização

arruma emprego para filho do amigo » leia o texto completo «

marcadores de página

quem compra os meus livros na minha mão, seja aqui pelo site ou em algum evento, ganha marcadores de página exclusivos.

marcador de página código de barras

marcador de página outrofobia

mulher de um homem só marcador GRANDE

meus livros à venda estão aqui.

a autobiografia do poeta-escravo

Juan Francisco Manzano, poeta na ilha de Cuba, foi a única pessoa escravizada latino-americana a escrever uma autobiografia sobre sua experiência no cativeiro.

manzano ediciones matanzas capa

Autobiografía, de Juan Francisco Manzano. Edição, introdução e notas de Alex Castro. (Ediciones Matanzas, Cuba, 2016.) R$200, com direito a dedicatória & marcadores exclusivos. Só 40 exemplares.



A edição cubana da Autobiografia do Poeta-Escravo não será comercializada no Brasil e tenho apenas 40 examplares. Por isso, estou vendendo mais caro, só para pessoas leitoras que queiram a satisfação fetichista de possuir um objeto-livro raro e exclusivo. Se você quer só ler o conteúdo do livro, está aqui. A compra dá direito a uma dedicatória exclusiva e individual, marcadores de página também exclusivos e, mais importante, a satisfação de estar ajudando diretamente o autor dos textos que você curte. 

* * *

manzano hedra capa

A autobiografia do poeta-escravo, de Juan Francisco Manzano. Edição, tradução, introdução e notas de Alex Castro. (Editora Hedra, 2015.)

Compre no site da editora Hedra, da Livraria Cultura, da Livraria da Travessa, da Amazon.

* * *

A autobiografia de Juan Francisco Manzano

“Em 1835, sob encomenda de um grupo de literatos, o poeta cubano Juan Francisco Manzano redigiu um testemunho de suas experiências enquanto escravo, um empreendimento repleto de dificuldades práticas e políticas. O quanto falar? O quanto silenciar? O quanto aqueles homens brancos e ricos, aparentemente tão tolerantes, eram capazes de ouvir e aceitar? Como denunciar a escravidão sem ofender seus patronos escravocratas? Após consideráveis revisões e reescrituras, o manuscrito foi traduzido para o inglês e publicado por abolicionistas em Londres.

A autobiografia do poeta-escravo é pela primeira vez publicada no Brasil, um dos países que mais tarde aboliu o horror narrado com tamanha vivacidade por estas páginas. É diante de tal delicadeza histórica que o tradutor e organizador Alex Castro nos apresenta o resultado de uma tarefa também árdua, a de transladar o texto de Manzano mantendo seu vigor e respeitando suas idiossincrasias, marcas tão reais e concretas como lanhos de chicote na carne do escravo. O livro inclui duas versões da Autobiografia, uma tradução para a norma culta do português e uma transcriação criativa, acompanhadas por mais de 300 notas explicativas e um conjunto de textos que torna a presente edição um marco na memória da escravidão e da luta pela liberdade.”

Da orelha da edição brasileira, publicada pela Editora Hedra em 2015.

O livro também foi publicado em Cuba, pela primeira vez em quarenta anos, em edição fac-símile da Ediciones Matanzas, com minha introdução e notas.

Para saber mais, confira o site dedicado ao autor, Juan Francisco Manzano.

* * *

Trechos

Tradução à norma culta do português:

Uma tarde, saímos ao jardim e, durante muito tempo, fiquei ajudando minha ama a colher flores ou transplantar alguns matinhos como passatempo, enquanto o jardineiro andava por toda a largura do jardim, cumprindo sua obrigação. Ao nos retirarmos, sem consciência realmente do que fazia, peguei uma folhinha, uma folhinha qualquer de botão de gerânio. Essa malva extremamente cheirosa ia em minha mão, junto com sei lá mais o que eu levava. Distraído com meus versos de memória, seguia minha sinhá à distância de dois ou três passos e caminhava tão alheio a tudo que ia despedaçando a folha, do que resultava maior fragrância. Ao entrar em uma antessala, não sei com que motivo minha sinhá retrocedeu. Eu lhe dei passagem mas, ao passar por mim, lhe chamou atenção o cheiro. Imediatamente colérica, com uma voz fortíssima e alterada, me perguntou:

“O que tens nas mãos?”

Fiquei morto. Meu corpo gelou-se em um instante e, sem poder quase ficar de pé pelo tremor que me deu em ambas as pernas, deixei cair a porção de pedacinhos no chão.

Ela me tomou as mãos e as cheirou. Pegando os pedacinhos, eles pareciam um montão, um matagal, um atrevimento.

Quebraram meu nariz.

* * *

Transcriação:

huma tarde sahimos ao jardim durante muinto tempo fiquei ajudando minha ama á colher flores ou transplantar alguns matinhos como pasatempo enquanto o jardineiro andava pr. toda a largura do jardim cumprindo sua obrigaçaõ ao nos retirarmos sem consiensia realmente do qe. fazia peguei huma folhinha, huma folhinha coalquer de botaõ de geranio esta malva estremamente odoroza ia em minha maõ junto com sei la mais o que eu levava distraido com meus versos de memoria seguia minha sinhá á distansia de dois ou trez pasos e caminhava taõ alheio á tudo qe. ia dispedaçando a folha do qe. rezultava maior fragansia ao entrar numa antesala naõ sei com qe. motivo a sinhá retrocedeu, le dei pasagem mas ao pasar por mim le chamou atensaõ o cheiro imediatamente colerica com huma voz fortisima e alterada me perguntou qe. tens nas maõs; eu fiquei morto meu corpo gelou-se num instante e sem poder quasi sustentar-me pelo tremor qe. me deu em ambas pernas, deixei cahir a porsaõ de pedaçinhos no chaõ me tomou as maõs e as cheirou e pegando os pedaçinhos paresiaõ hum montaõ hum matagal e hum atrevimento de nota quebraraõ meu nariz

* * *

Original em espanhol:

una tarde salimos al jardin largo tiempo alludaba a mi ama a cojer flores o trasplantar algunas maticas como engenero de diversion inter el jardinero andaba pr. todo lo ancho del jardin cumpliendo su obligasion al retirarnos sin saber materialmente lo qe. asia cojí una ojita, una ojita no mas de geranio donato esta malva sumamente olorosa iva en mi mano mas ni yo sabia lo qe. llebaba distraido con mis versos de memoria seguia a mi señora a distansia de dos o tres pasos e iva tan ageno de mi qe. iva asiendo añiscos la oja de lo qe. resultaba mallor fragansia al entrar en una ante sala nosé con qe. motivo retrosedió, ise paso pero al enfrentar conmigo llamole la atension el olor colerica de proto con una voz vivisima y alterada me preguntó qe. traes en las manos; yo me quedé muerto mi cuerpo se eló de improviso y sin poder apenas tenerme del temblor qe. me dió en ambas piernas, dejé caer la porsión de pedasitos en el suelo tomóseme las manos se me olio y tomandose los pedasitos fue un monton una mata y un atrevimiento de marca mis narises se rompieron

* * *

As capas, abertas

(Clique para ver em tamanho maior.)

manzano capa hedra 2a versao

Autobiografía Manzano, cubierta

* * *

O manuscrito

A primeira página do manuscrito original, na caligrafia de Manzano, disponível na Biblioteca Nacional José Martí, em Havana:
(Clique para ver em tamanho maior.)

2

A edição cubana será fac-símile e vai contar com fotos de todas as páginas do manuscrito.

* * *

As fotos

Em abril de 2014, a fotógrafa Claudia Regina e eu estivemos em Cuba para buscar os vestígios da passagem do poeta-escravo pela ilha. Ambas as edições cubana e brasileira serão ilustradas com as belíssimas fotos da Claudia Regina.

Ruínas da antiga casa-grande do Engenho Los Molinos, em Matanzas 7

Ruínas da antiga casa-grande do Engenho Los Molinos, em Matanzas 3

Ruínas da antiga casa-grande do Engenho Los Molinos, em Matanzas 7

Ruínas da antiga casa-grande do Engenho Los Molinos, em Matanzas 7

* * *

Em Cuba

manzano ediciones matanzas capa

Autobiografía, de Juan Francisco Manzano. Edição, introdução e notas de Alex Castro. (Ediciones Matanzas, Cuba, 2016.) R$200, com direito a dedicatória & marcadores exclusivos. Só 40 exemplares.



outrofobia, textos militantes

Outrofobia. s.f. Rejeição, medo ou aversão ao outro. Termo genérico utilizado para abarcar diversos tipos de preconceito ao outro, como machismo, racismo, homofobia, elitismo, transfobia, classismo, gordofobia, capacitismo, intolerância religiosa etc.

* * *

outrofobia Capa

Outrofobia, textos militantes. (Editora Publisher Brasil, 2015.)

Compre no site da editora, da Livraria Cultura, da Livraria da Travessa.

* * *

Uma coletânea dos meus melhores textos políticos, sobre racismo, feminismo, transfobia, privilégio.

Textos de luta. Feitos para incomodar, despertar, cutucar.

Não são textos acadêmicos. Não trazem fatos novos, formulações originais, pesquisa primária, questões aprofundadas.

Eu jamais presumiria “ensinar” racismo para pessoas negras, feminismo para mulheres, transfobia para pessoas trans*.

O objetivo desse livro é tentar abrir os olhos das pessoas privilegiadas.

* * *

 

Conteúdo

Prefácio, por Aline Valek

Sobre um uso da língua menos sexista e mais humano

Pra começar

Uma história de quatro pessoas

Racismo

Senzalas & campos de concentração

O peso da história: a escravidão e as cotas

Imigrantes sim, mas de que cor?

Racismo, miscigenação e casamentos interraciais no Brasil

Feminismo

Feminismo para homens, um curso rápido

A fácil paternidade

Cavalheirismo é machismo

O papel dos homens no feminismo

O segredo de beleza dos homens

Conversando sobre transfobia com uma criança

Faixa-bônus:

Como se sente uma mulher, por Claudia Regina

Privilégio

Carta aberta às pessoas privilegiadas

O assunto não é você

Ação de graças pelos privilégios recebidos

Carta aberta às humoristas do Brasil

Pra encerrar

O desabafo da moça do crachá

O baralho viciado

* * *

Capa, contracapa, orelhas

Clique na imagem para ver em tamanho maior.

Outrofobia capa isabel final 19nov14.pdf

* * *

Prefácio, de Aline Valek

Não gostar do Alex Castro foi a minha primeira reação. Foi até natural: quando descobri seus textos, descobri também que eles me provocavam certo mal-estar. Era comigo que eles falavam. Era pelo meu braço que eles me agarravam, sacudiam e ainda tentavam me arrastar para fora das linhas que delimitavam a minha zona de conforto.

Não encontro outra forma de começar a não ser com todo esse narcisismo: o que esses textos ME causaram, como eles pareciam ser escritos para MIM, como EU me senti. Eu. Eu. Eu. Porque, de certa forma, esses textos foram o aríete a derrubar meu ego para que eu pudesse enxergar a mensagem: o mundo não é sobre você.

Quão péssimo pode ser encarar essa verdade?

As páginas a seguir podem trazer o mesmo desconforto. Não é fácil digerir a possibilidade de ser um outrofóbico, alguém incapaz de perceber as outras pessoas e de se solidarizar com qualquer drama que vá além das paredes do seu mundo pessoal. Mas ninguém disse que se tornar uma pessoa melhor, mais empática e menos babaca, seria um passeio no parque.

A escrita de Alex Castro está aí para facilitar um pouco esse trabalho. Em ficção ou temas sérios, Alex consegue prender a atenção com uma linguagem constrangedoramente direta e não tem medo de te conduzir às mais profundas questões humanas, mesmo até aquelas das quais você talvez preferisse manter distância. É uma leitura que exige alguma coragem; Alex escreve como quem busca uma conversa franca. Aliás, Alex escreve como fala em seus encontros sobre As Prisões, dos quais já participei uma vez: enquanto fala dos costumes, tradições e preconceitos que arrastamos pela vida como bolas de ferro mentais, ele conta histórias e traz questionamentos provocadores, sem se importar se isso vai perturbar ou destruir todas as certezas de quem ouve. Tudo isso falando com muita calma, sentado bem à vontade sobre as pernas cruzadas e ainda preparando um cachimbo.

Tendo em mente esse cara zen e despreocupado, que ouve com tanta atenção, fica difícil se manter na defensiva contra um suposto escritor malvado apontador-de-dedos que quer um conflito com você. Porque o assunto aqui não é você, mas tampouco Alex. Se não é sobre leitor nem autor, é sobre quem?

No seriado Lost, sobreviventes de um trágico acidente de avião se veem perdidos em uma ilha misteriosa. Os protagonistas estão vulneráveis, desesperados e confusos; quando percebem que eles não são os únicos habitantes da ilha, bate um terror. Em vários episódios, quando nossos heróis e heroínas estão andando na selva, ouvem vozes por todos os lados. Ouvem passos. Quando se escondem, são capazes de ver pernas de homens, mulheres e crianças passarem por eles. Começam a chamá-los de Os Outros. Pessoas que eles não sabem quem são, o que fazem, onde vivem e o que querem com eles – e, por isso mesmo, só podem ser uma ameaça.

Somos, em alguma medida, esses protagonistas nesse exato momento da história. Sabemos que não estamos sozinhos, mas não conhecemos aqueles que dividem o mundo, essa ilha misteriosa, com a gente. Os Outros são apenas sombras que passam por nós na floresta e vozes que ouvimos ao longe, mas não conseguimos distinguir o que dizem. Temos medo d’Os Outros. Passamos a desenvolver mecanismos de defesa para nos proteger dessa ameaça que Os Outros possam representar e fechamos a escotilha de nós mesmos para não precisar entrar em contato com eles.

É no sentido de desconstruir essas muralhas invisíveis e de nos abrir para o conhecimento do Outro que Alex escreve. O assunto aqui são Os Outros: justamente esses que fomos ensinados a ignorar, a não ouvir, a tratar como inimigos.

É isso que torna a leitura de Outrofobia tão difícil e, ao mesmo tempo, tão necessária. Se você for capaz de se abrir para essa proposta, já terá dado o primeiro passo para se abrir também a uma visão mais humana do mundo. Garanto que pode não ser agradável, mas o mundo sem empatia já não é um lugar muito suportável.

Aline Valek, escritora e feminista, publica seus textos na Carta Capital e no site alinevalek.com.br, e é co-criadora do projeto de ficção científica feminista “Universo Desconstruído”.

* * *

outrofobia Capa

Outrofobia, textos militantes. (Editora Publisher Brasil, 2015.)

Compre no site da editora, da Livraria Cultura, da Livraria da Travessa.

dedicatórias apócrifas

todos os meus livros que vendo, seja pessoalmente ou pelo meu site, vêm sempre com uma dedicatória única e exclusiva, apócrifa e 100% falsa.

algumas vezes, escrevo como um pai dedicando um livro à filha. noutras, como um filho dedicando o livro ao pai. amante rejeitando, ou amante rejeitado. etc etc.

as dedicatórias fazem parte da própria ficcionalidade das obras e ajudam a borrar um pouco mais a relação autora-leitora.

além disso, cada edição de cada um dos meus livros de ficção tem sempre uma biografia do autor apócrifa e diferente.

todas essas iniciativas, que parecem brincadeira mas não são, fazem parte do mesmo projeto artístico de apagamento do autor, de demonstrar que o autor não importa, só o texto importa.

ocasionalmente, as dedicatórias causam problemas, crises de ciúmes, revoltas paternas. hoje, soube de uma moça que pegou antipatia de mim por ter pensado que a dedicatória era algum tipo de indireta sarcástica contra ela.

quando isso acontece, apesar de eu saber que a possibilidade sempre existe, fico bem chateado e peço desculpas.

só pessoas lindas e incríveis compram livros independentes direto da mão do autor — ao invés de simplesmente comprarem o novo best seller genérico na fnac mais próxima. a última coisa que quero é chatear minhas leitoras fiéis.

então, mais uma vez, perdão. as dedicatórias são minicontos ficcionais: quaisquer correspondências com a realidade serão sempre mera coincidência.

se você tem uma dedicatória apócrifa que gostou, compartilhe uma imagem dela nos comentários.

e eu te agradeço.

* * *

abaixo, alguns exemplos.

dedicatoria apocrifa (1)

dedicatoria apocrifa (2)

dedicatoria apocrifa (3)

dedicatoria apocrifa (4)

dedicatoria apocrifa (5)

dedicatoria apocrifa (6)

dedicatoria apocrifa (7)

dedicatoria apocrifa (8)

dedicatoria apocrifa (9)

dedicatoria apocrifa (10)

dedicatoria apocrifa (11)

dedicatoria apocrifa (12)

dedicatoria apocrifa (13)

dedicatoria apocrifa (14)

dedicatoria apocrifa (15)

dedicatoria apocrifa (16)

dedicatoria apocrifa (17)

dedicatoria apocrifa (18)

dedicatoria apocrifa (19)

dedicatoria apocrifa (20)

dedicatoria apocrifa (21)

* * *

para comprar meus livros e receber a sua, clique aqui.

ebook grátis: “viagens na terra dos outros”, de alex castro


(ao clicar em “quero ebook”, você estará voluntariamente entrando no meu mailing list e vai receber avisos periódicos sobre minhas palestras, novos livros, promoções, ebooks gratuitos, etc. depois não diga que não avisei!)

viagens na terra dos outros, ebook de alex castro

viagens na terra dos outros, ebook de alex castro

encontros do alex castro: depoimentos

alguns depoimentos de pessoas que vieram aos encontros do alex castro. as versões completas estão nos comentários.

* * *

* * *

é uma possibilidade de estar no mundo. e não simplesmente assisti-lo passar através das grades de nossa rotina.

filipe gonçalves

* * *

na cidade maravilhosa, uma maravilhosa experiência. me abrir com estranhos, parece estranho, mas deveria ser a coisa mais comum do mundo. sem conhecer quem senta do teu lado, aquela pessoa também está disposta a se abrir com você. me identifiquei com muitas histórias do grupo e eu só queria abraçar e chorar junto. dizer: “olha, qualquer coisa, estou aqui por vc”. terminou, e percebi que sozinha nesse mundo eu não estou. que meus problemas são problemas de muitas outras pessoas. e que minhas soluções podem estar em um simples aperto de mão. agradeço pela oportunidade e eu espero ter outras. recomendo para quem está precisando de ajuda e companhia. quando a gente não consegue sozinho, o melhor que podemos fazer é sim: pedir ajuda. mas não espere soluções diretas. talvez vcs a encontrem ao simplesmente ficar calado e ouvir o próximo. obrigada mesmo!

sarah carolina

* * *

a experiência … beira ao indescritível. só sabe de fato o que é, quem fez. é lindo, transformador, libertador. nos faz nos reconhecer em completos estranhos e reconhecer nossos privilégios. mudou minha visão sobre os outros. foi sensacional. =)

karen montanholi

* * *

* * *

… eu não sabia o que poderia esperar.

então eu encontrei, de cara, a liberdade de tirar os sapatos e encarar com naturalidade, em silêncio, cada estranho ali na sala. … um a um, os estereótipos vão sendo desconstruídos quando a gente ouve a questão do outro. eu fui ouvida sem interrupções, sem julgamentos, sem que rissem de mim. …

toda roda de conversa em que estive depois me pareceu diferente. virei aquela que retruca, quando se fala de alguém: “não, péra, essa pessoa não é só isso.”. me ponho a ouvir tentando não opinar – ainda é difícil. meu olhar pro outro não é mais o mesmo. isso me causa menos sofrimento, porque eu não preciso mais querer que a outra pessoa seja como eu acho que ela tem que ser. ela é o que é e ponto. é tão simples e tão estranho que não seja natural!

agradeço muito a oportunidade. a cada um dos que participaram comigo e, em sua generosidade, me expuseram suas questões, se despiram emocionalmente sem me conhecer.

karina chamklidjian

* * *

… foi preciso estar na companhia de desconhecidos para me abrir, para me perceber privilegiada, para ceder. ouvirmaisquefalarouvirmaisquefalar. que difícil esse exercício de sair um pouco de si. …

luana

* * *

… devia ser feriado pessoal após a oficina de empatia. acordar hoje às 6h para vir trabalhar depois da experiência de ontem foi duro. estou fora de órbita. fora do eixo. digerindo tudo que foi dito por vocês e por mim também. foi uma experiência impagável. …

alvaro diogo

* * *

… dedicar aquele tempo a ouvir outras pessoas, perceber mais profundamente o que nos conecta e diferencia delas foi sem dúvida uma experiencia muito positiva, que espero carregar no meu comportamento daqui em diante. …

andré lobato

* * *

* * *

… me fez refletir e aprender. ouvi histórias bonitas, tristes, complicadas; coloquei minhas próprias questões em perspectiva e acho que a oficina cumpriu 100% o propósito que eu tinha: fazer um exercício de escutar, ter empatia, tirar a mim mesma do centro de tudo pelo menos por algumas horas. … não foi fácil em vários momentos. a tentação de dar conselhos, criticar e julgar é enorme. foi realmente um exercício, e saí de lá com a sensação de que preciso praticar muito mais. … recomendo! vão.

zel

* * *

a maravilhosa oficina de empatia foi o melhor exercício prático de esvaziamento de mim mesma, e de por um momento, me permitir “entrar” em outro ser, outra alma, e sentir as suas dores. e o mais importante: sem hierarquizar sofrimentos e opressões. mais uma vez obrigada … por reunir tanta gente significativa em um só lugar.

aline xavier

* * *

um banho de perspectiva. experiência muito bacana. falar de si mesma e ouvir os outros, te dá duas coisas: 1) a nítida sensação de que pessoas aparentemente diferentes têm problemas bastante similares, 2) a sensação de que “suas questões” são pequenas demais perto de outras “questões”. a caminhada do privilégio deixa muito claro, para quem acredita na meritocracia, que o buraco é bem mais embaixo. você visualiza, literalmente, como a vida é mais “justa” com você e como você é co-responsável por quebrar tradições tão arraigadas na nossa sociedade. e, por fim, você descobre como é difícil ouvir e comentar sem dar um exemplo parecido, sem trazer você próprio para dentro da questão, sem tentar resolver a questão do outro. valeu demais!

daniela

* * *

… é lindo quando você reconhece as outras pessoas como pessoas, se enxergando e se identificando com cada uma! a última frase da boneca de sal: “o mar sou eu” é tatuada na alma ao final da oficina. essa oficina não foi feita para ser explicada e sim para ser sentida. gratidão. …

talita

* * *

… foi muito significativo pra mim.dentro do meu egoísmo, cheguei ali achando que era única, que meus problemas eram “meus”, eram orgânicos.

saí de lá com a certeza de que meus problemas são de todos, e os problemas de todos são meus.

não por demagogia, mas por saber que há sim uma inquietação comum a todos, reflexões sobre a vida, sobre as escolhas conscientes e inconscientes…

não por demagogia, mas por sentir que aquelas dores doíam em mim também.

não é ruim criar um personagem para sobreviver à selva. ruim é quando não se tem consciência nem participação nisso. é escolher não sofrer. é escolher diminuir o ego ao ouvir o outro.

ouvir… o encontro me fez ver o quão difícil é ouvir. ali, aquelas narrativas eram parte de mim porque eu escolhi estar ali. ouvir era fácil. mas, e quando a gente não ouve em casa, no trabalho? culpa de quem? do trabalho estressante, do marido chato? não, culpa minha que não consigo sair do meu eu e atentar, com todo o meu corpo, ao que existe agora.

saí exausta do encontro mais longo acontecido até agora. não pela duração, mas pela intensidade. no dia seguinte, meu corpo somatizou. dormi muito.

finalmente no primeiro dia acordada, pude sair mais vazia de mim. é um exercício minuto a minuto, que ainda terá muitas histórias a ser vividas.

pretendo, se possível, um dia chegar ao amor altruísta. quem sabe ser mais generoso mesmo seja mais factível do que amar?

daniela dantas

* * *

… intenso, complexo e profundo. … propicia um olhar para dentro de si a partir do outro, por meio do exercício da empatia. …

evie santiago

* * *

… algo indescritível.

quando marquei com uma amiga para irmos juntas um pensamento era unânime: mas o dia inteeeeiro? (com a voz de sofrimento) era o dia inteiro, ela teria que deixar a filha e eu o marido. então tá, vamos ver, ver qualé, qualquer coisa a gente vai embora depois do almoço…

acho que não há quem consiga fazer isso!

o encontro é tão envolvente, tão sedutor, ‘abridor’ de mente!

chegamos para o encontro às 9 da manhã e meia-noite não queríamos ir embora!
passei o dia inteiro com aquelas pessoas que não conhecia, nunca tinha visto na vida, gente legal, gente boa, gente amável, gente tão diferente! gente que ficou aberta à se mostrar, pois estávamos todos abertos à ouvir!

depois do encontro, estou todos os dias tentando me tornar uma pessoa que questiona, que quer saber, quer entender, quer se colocar no lugar do outro.

e continuo tentando…

taysa

* * *

pessoas bastante distintas, falando sobre assuntos profundos, intimidades, com outras completamente estranhas. uma espécie de encontro fora do tempo e rotina. propício para descosturar amarras e alinhavar e reforçar alguns pontos em si mesma e em outras, pela simples proposta de escutar, falar e ser escutada. no dia em que foi, o quórum feminino dominou (algo como 2 homens, contando com o alex, e 10 mulheres), talvez coincidência, talvez reflexo de que faltam espaços na vida para se colocar enquanto pessoa essência, e enquanto mulher. foi bonito, uma espécie de empoderamento feminino deu o tom do dia.

thaiza pedroso

* * *

… um sábado extraordinário, um exercício de dar ouvidos e praticar empatia, cultivar novas amizades e sentir que somos todos humanos, que as questões que afetam uns, afetam todos. … uma experiência única.

manuela

* * *

foi a primeira vez que não ouvi falarem em tom irônico: – nossa, mas vc está falando demais (!), pq o exercício era justamente o contrário de encenar um teatro social, de representar em uma conversa casual onde cada um toma a palavra e precisa prender a atenção de todos. ao contrário, no encontro se está livre para falar, ficar calado mas acima de tudo ouvir mais o outro que seus pensamentos. obrigado a todos … que me fizeram sair de mim mesmo, me acolheram, sem julgamentos e conseguiram me fazer ter mais que uma conversa banal, é uma puta experiencia, recomendo.

vinícius

* * *

… lá estávamos em contato com cada ser humano. lindo, complexo, incrível, cheios de dúvidas e certezas, como revela nossa incompletude. por diversos momentos, buscávamos: o que nos une? o que nos divide? o que nos caracteriza!? cada relato tratado e cuidado como uma entrega do mais genuíno do humano, da luz que cada um carrega em sua singularidade! entretanto, tantas marcas, feridas (e cicatrizes, as vezes) do que nos diz o socialmente constituído! olhar, olhar-se, sentir, sentir-se, sempre esse movimento do eu, outro, eu, outro… nós! algumas horas! algumas mesmo, que apenas pareceram minutos! e ainda há tanto, pouco não! tanto pra ser vivido, discutido, realizado e querido!

juliana

* * *

saí do encontro por volta das 23h30, e só consegui dormir (por cansaço) às 2hs da manhã porque “as prisões” se movimentavam o tempo inteiro dentro de mim. não se trata somente de um (des)encontro, mas sim de todo um período que você terá que lidar após ele: rever sua rotina, seu trabalho, as pessoas que passam a maior parte do tempo com você (seja por escolha ou não). é muito difícil; contudo permanecer no automático (e não rever este tempo que temos por aqui) é insuportável. vá.

daniele lacerda

* * *
não vá. há riscos grandes de te fazer começar a viver.

reinaldo ramos da silva

* * *

… foi uma experiência poderosa. nos possibilitou compreender melhor a empatia, nossa relação com o outro e nós mesmos, nosso (sempre presente, ainda que raramente percebido) narcisismo. nos mostrou que existem muitas formas de ser e pensar, todas perfeitamente válidas. e nos deu a oportunidade de rever nossas próprias maneiras de ser e pensar, e perceber que elas podem mudar, não apenas involuntariamente, mas propositalmente. uma oportunidade única de mergulhar dentro de nós mesmos, e de ver no espelho não só nós mesmos, mas também o outro.

alina

* * *

… ao longo do dia, conforme o assunto vai evoluindo, de uma forma única (porque únicas são as histórias e sentimentos compartilhados), vamos tendo a rara oportunidade de perceber na sua essência o humano (e sublime) no outro e, através disso, em nós mesmos. um lembrete, totalmente acachapante, do fato de que cada pessoa que encontramos é um universo a ser percebido, acolhido, compreendido. e que nós mesmos também temos a possibilidade de acessar essa percepção, acolhimento, compreensão. Um espaço raro de troca, de abertura, de muita escuta, de conversas com pés no chão e olhos nos olhos. uma experiência única e indescritível, mesmo, em palavras, por mais que a gente tente. talvez as únicas palavras a serem ditas sejam: se tiver a oportunidade de participar, não deixe passar. será transformador e inesquecível.

joão dal mollin

* * *

assim como não se vive através de leituras sobre a vida, é difícil ter empatia sem praticá-la. penso no encontro como um exercício duro, mas bonito, tanto de empatia, como de confiança, de entrega. sem esses componentes, percebo agora ser bastante improvável que haja uma comunicação autêntica com os demais seres vivos, ainda que machuque, que assuste. saí d’as prisões bem confusa, porém, sem tanto medo do outro, de me ver no outro, de viver. obrigada!

ana pw

* * *

… de repente em um turbilhão de palavras, gestos e sons foram se desnudando em um encontro com seus fantasmas diante de várias testemunhas. um momento único e mágico que as transformaram em cúmplices.

telma silva

* * *

um dia para mexer com emoções e fazer a cabeça girar de tanto pensar sobre você, sobre a vida, sobre os outros… fui achando que 10h era muito tempo para o encontro. saí de lá achando que era pouco. é incrível mergulhar da vida de pessoas que nunca viu antes, saber suas aflições, preocupações formas de viver, sentir, lidar com situações…

eliza oliveira

* * *

o encontro colaborativo do alex, e dos que participam dele, fez uma baita mistura do que estava dentro de mim com o que estava fora. incrível perceber o quanto nos perdemos em conversas superficiais no dia-a-dia e o quanto este mesmo dia-a-dia pode ser muito mais interessante e intenso se nos permitimos falar e escutar sem julgar (e ser julgado), buscando a empatia, a compaixão. espantosa a discrepância entre a aparência (primeira impressão) e a essência das pessoas: como elas são profundas. participar das prisões aumenta nossa potência diante da vida, nos alegra. valeu muito a pena de sair da zona de conforto, que pra mim não foi nada fácil.

alex campos

* * *

é libertador. passamos o dia trabalhando nossa forma de ouvir as pessoas e percebemos não apenas que estamos cercados de pessoas incríveis naquele dia, mas que estamos cercados de pessoas incríveis o tempo todo, só não nos damos conta. o saldo, pra mim, foi mais tranquilidade, serenidade e, principalmente, empatia. terminamos a noite exaustos e com uma vontade grande de sermos pessoas melhores.

duda de oliveira

* * *

um dos dias mais memoráveis da minha vida. foi realmente incrível. um encontro com pessoas desconhecidas, que ao final da noite estavam guardadas em nossos corações. vale muito a pena ir. seja pra conhecer o bando de malucos que vão, seja pra falar em voz alta o que te aflige, seja para ouvir.

maira solá smaniotto

* * *

… foi uma soltura – perceber que existem pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas. que questionam, que querem aprender, que não concordam com muita coisa fechada e acorrentadora com as quais vivemos. muito bom. ao contrário do que li algumas pessoas falando, não precisei digerir nada. difícil é digerir o que vemos no dia a dia… pra mim, o que se viveu no encontro foi agradável como um abraço. encontrar “semelhantes” por mais duro que seja o que se fala ou que se vive, é sempre agradável. recomendo.

fabinho vieira

* * *

foi uma imersão. como andar em uma estrada que se transforma em um mar. mergulhamos na lama para tentar achar alguma essência intocada. não achamos nada, mas desabrochamos um pouco. afinal, não se trata de um encontro que traz certezas, pelos contrário. a gente sai com mais perguntas do que entra, e é bom que seja assim. de repente estamos lá, dez pessoas que não se conhecem, compartilhando as profundezas. o que há de belo e o que há de feio. alguns até saem enlameados, levam um tempo para tentar parar de entender. pode ser que levem a vida inteira. mas pelo menos, é um começo. uma busca que acontece sob o olhar de um cara interessante, que nos questiona com sagacidade, e com seus questionamentos nos trouxe até ali, paciente e amorosamente, tecendo os fios do destino. de repente, nós nos descobrimos assim, alguns pela primeira vez, outros mais do que antes: questionando tudo, viajantes do nada. mais abertos graças a isso.

antonella yllana

* * *

… aqueles desconhecidos, tão diferentes entre si em quase tudo, logo se mostraram pessoas não apenas legais e educadas, mas também interessadas em cada palavra trocada, numa intensidade incomum ao nosso cotidiano monossilábico. eles, de repente, sabiam o que nunca contamos a nossas mães e irmãos. traziam ponderações em uma riqueza admirável: o que era um problemão para um, era uma alforria para outro; o que ameaçava alguns, significava uma bem vinda transformação para outros; uns diziam um sinto muito, outros um boa sorte e um sorriso compassivo e esperançoso. foi um sábado muito muito longo, mas muito significativo para mim. hoje, semanas depois do encontro, poucos dos meus amigos ainda acreditam no tempo gasto apenas escutando atentamente, poucos percebem o bem que fez me reconhecer no problema dos outros. e, sobretudo, ninguém me tira a sensação de que ter descoberto um tesouro ao conhecer pessoas interessadas em extrair algo mais significativo da vida e não apenas recreação superficial. hoje digo em voz alta, sem medo: perdidos na vida, uni-vos! vocês são o passarinho voando que vale mais do que aqueles dois na mão das certezas que nos entucham!

alexandre avelino

* * *

é engraçado como a gente tem uma grande facilidade para sentar e discutir por horas e horas a formação tática do barcelona e as vantagens do escanteio curto, mas acha extremamente difícil falar dos grandes problemas da nossa vida. aqueles nos quais a gente pensa o tempo todo. e também nos pequenos. … foi bonito ouvir gente chorando porque botou pra fora uma pressão social ridícula que carregava nas costas por 15, 20 anos. foi bonito ver alguém dizer que teve um monte de problema foda e passou por um monte de confusão e hoje tá bem. foi bonito ver gente dizendo que não tava bem, e as pessoas dizendo que ia ficar. também foi bonito ver que o mundo continua cheio de problemas, cheio de merda, cheio de coisa pra ser consertada. mas é assim mesmo. foi bonito observar que todo mundo tem uma história massa para contar, que todo mundo está lutando e precisando de ajuda e também disposto a ajudar. … vá e escute. vá e fale. vá, escute e fale. faça o que você quiser. é somente uma conversa. pode não servir pra nada. ou pode começar a te dar ideias. pode esclarecer dúvidas ou criá-las.

alex luna

* * *

imagine o avesso: uma prisão que liberta. um encontro que é des-encontro. liberta por dentro e para dentro rumo ao que é fora. encontro que é desencontro porque desestrutura e desarticula conceitos, opiniões, impressões e julgamentos que em essência nem sempre se justificam ou se sustentam. encontro e prisão que abrem os olhos para se abrir caminhos. é assim.

liberta por dentro rumo ao que é fora, mas a certa hora se percebe que o dentro é o fora, que o fora é o dentro, são um só. que a fronteira entre eles é imaginária. tudo uno, tudo único, a inteireza do um.

13 pessoas 14 horas juntas, a dialogarem sobre temas socialmente oblíquos, a reverem seus universos pessoais, à luz ou não do tema do encontro. na busca da essência, que no grupo ironizamos “caminho, verdade e vida”, vale tudo, mas vale mais a verdade. será? mas o que é a essência? o que é a verdade? o que é ser espontâneo e autêntico?, alex firme a certa altura me desafiou. neste encontro, nada é subestimado, menosprezado nem fica impune. tudo se indaga e se confere. é preciso ter coragem e desejo para participar.

mesmo depois de tanto tempo e da carga informativa, emocional, sentimental e existencial que se formou, uma voz continua vibrando por dentro de cada um, ansiosa ainda a virar palavras a se dividir com o grupo. mas já é tarde. o caminho próprio, tem horas, precisa ser construído e trilhado sozinho e em silêncio.

no dia seguinte, muito do que vi nas ruas, antes não tinha visto, pensado nem sentido. mas como, se na véspera o mundo já era deste jeito? a visão é que era romântica para algumas coisas e cega para outras. na descontrução e desestruturação de rígidos conceitos foi-se embora a ingênua inocência. então, chegou a hora de botar a mão na massa. e olha que já estou jogando aos 10 minutos do segundo tempo…

emilio

* * *

… um espelho em que você se vê no outro. acho que é transformador. tem força. tem honestidade.

elisabeth andrade

* * *

uma das coisas que mais se comenta antes e depois de “as prisões” é da dificuldade de tentar definir o encontro.

levei duas semanas pra escrever esse depoimento, justamente tentando “definir” o encontro. devo dizer que falhei miseravelmente. o que não é uma coisa ruim, na verdade. só mostra que o encontro é uma coisa tão fora do comum (o que é bem triste, dado o conteúdo dele) em nossas “vidas corridas”, que quem está envolvido não possui experiências anteriores pra definir. porque não vamos lá pra falar de nós mesmos e sermos ouvidos, como é o comum em nossa sociedade auto-centrada e individualista. lá, nós falamos, mas não é esse nosso objetivo: nós vamos lá para OUVIR. mais que isso: vamos lá para ouvir e NÃO JULGAR as outras pessoas (ou pelo menos, tentar). não julgar suas roupas, cor de pele, história de vida, decisões tomadas. não julgar se tal escolha (alheia) foi a melhor escolha. não julgar as pessoas desconhecidas e também não julgar nossos amigos (e nós sabemos como a intimidade pode nos fazer achar que podemos julgar alguém). não achar que nossa experiência de vida pode ser usada para parametrizar a vida alheia. nós vamos lá para fazer algo que rotineiramente não fazemos, exceto em locais pré-determinados pelos outros: nós vamos conhecer pessoas, e elas não são de nossa família, não estudam no mesmo local em que estudamos, não trabalham onde nós trabalhamos, não moram onde nós moramos. nós vamos lá para lembrar que cada uma daquelas pessoas que nunca iremos conhecer (ou que achamos que nunca iremos, pelo menos), que frequentam aqueles locais que nunca entramos ou não queremos entrar, que têm uma idade que não conseguimos nos imaginar tendo, cada uma delas é uma pessoa tão complexa e com uma vida tão cheia de detalhes quanto a nossa e que nós saberíamos disso no nosso dia-a-dia se parássemos pra conversar e OUVIR, cada uma delas. e apesar disso parecer óbvio, não há como descrever o que sentimos quando, de fato, alguém começa a falar. .. como anfitrião, ele faz o máximo possível pra nos sentirmos à vontade, para “valer a pena” esse “vôo cego” em que nos metemos. pague pra ver. nós pagamos e podemos dizer que vale a pena.

fenrir henrique

* * *

… ouvir histórias de pessoas que, como você, têm angústias, insatisfações, que possuem as suas próprias histórias de vida. algumas mais profundas, outras mais atuais, o que importa é que todos estamos no mesmo barco: todos temos um calo que dói. o encontro teve um efeito inesperado em mim: entrei querendo falar de monogamia, achei por muitos momentos que era tão bom conhecer aquelas pessoas que talvez eu nem devesse falar, acabei falando de traumas de infância, saí de lá querendo botar no colo cada uma das pessoas que eu conheci naquele dia. foi mágico.

franciele bischoff

* * *

… não se trata somente de um (des)encontro, mas sim de todo um período que você terá que lidar após ele: rever sua rotina, seu trabalho, as pessoas que passam a maior parte do tempo com você (seja por escolha ou não). é muito difícil; contudo permanecer no automático (e não rever este tempo que temos por aqui) é insuportável. vá.

daniele lacerda

* * *

…lá estávamos em contato com cada ser humano. lindo, complexo, incrível, cheios de dúvidas e certezas, como revela nossa incompletude. por diversos momentos, buscávamos: o que nos une? o que nos divide? o que nos caracteriza!? cada relato tratado e cuidado como uma entrega do mais genuíno do humano, da luz que cada um carrega em sua singularidade! entretanto, tantas marcas, feridas (e cicatrizes, as vezes) do que nos diz o socialmente constituído! olhar, olhar-se, sentir, sentir-se, sempre esse movimento do eu, outro, eu, outro… nós! algumas horas! algumas mesmo, que apenas pareceram minutos! e ainda há tanto, pouco não! tanto pra ser vivido, discutido, realizado e querido!

juliana

* * *

… no encontro se está livre para falar, ficar calado mas, acima de tudo, ouvir mais o outro que seus pensamentos. obrigado a todos … participantes que me fizeram sair de mim mesmo, me acolheram, sem julgamentos e conseguiram me fazer ter mais que uma conversa banal. é uma puta experiencia, recomendo.

vinícius

* * *

pessoas bastante distintas, falando sobre assuntos profundos, intimidades, com outras completamente estranhas. uma espécie de encontro fora do tempo e rotina. propício para descosturar amarras e alinhavar e reforçar alguns pontos em si mesma e em outras, pela simples proposta de escutar, falar e ser escutada. no dia em que fui, o quórum feminino dominou (algo como 2 homens, contando com o Alex, e 10 mulheres), talvez coincidência, talvez reflexo de que faltam espaços na vida para se colocar enquanto pessoa essência, e enquanto mulher. foi bonito, uma espécie de empoderamento feminino deu o tom do dia.

thaiza pedroso

* * *

eu fui para ouvir. … e exercitar a outridade foi muito bom. pari o silêncio para escutar as vozes. fechei um ciclo. outros começaram. criamos vínculos intensos e verdadeiros com pessoas estranhas em um único encontro. isso nos dá possibilidades de acreditar ainda mais em nossa espécie em nossos sonhos. … agora começa a escuta muito mais atenta e os exercícios de empatia são realmente valiosos. … alex é um belo ouvinte e um fantástico falante também. na oratória e na “escutatória” poética de rubem alves ele vai além do que pude supor.

domingos sávio

* * *

nas primeiras horas do encontro, achei que nunca na minha vida estive cercado de tantas pessoas interessantes com histórias de vida incríveis. no final do encontro, percebi que provavelmente cruzo com pessoas incríveis todos os dias — talvez não tantas de uma vez só — mas raramente me coloco disponível para ouvi-las, conhece-las e apreciar toda a complexidade de um outro ser humano, tão humano quanto eu. … enquanto você não passa por uma experiência dessas, não sabe o quão transformador isso pode ser. provavelmente subestimamos o poder do ato de ouvir justamente por não termos esse hábito.

raphael dourado

* * *

me sinto como uma cobra que comeu algo grande demais, e vai levar um bom tempo digerindo tudo.

lucas maimone

* * *

o grande pano de fundo da conversa é “menos você”, mais generosidade, mais respeito ao outro. o mundo não gira em torno da gente. recomendo fortemente para pessoas adultas de todas as idades, crenças, estilos de vida.

clara machline

prisões, natal, 30ago14. foto: claudia regina.

prisões, natal, 30ago14. foto: claudia regina.

* * *

um encontro de vidas. uma vivência para o espirito. um desenlace de pouco a pouco. na minha condição de estudante de comportamento (das áreas da antropologia e e psicanálise) posso dizer que vive ali uma experiência prática de tudo aquilo que investigo. e isso abrigou no meu corpo todo muitas sensações. a cabeça pensante deixei em casa e vivi! sai dali com o meu corpo todo marcado, ou melhor, entendendo sobre as minhas marcas, pois o meu corpo real, estava todo dolorido, vinham flashes da noite passada, da vida, das repetições e das marcas mesmo, machucados, dores e cortes. foi uma experiência inesquecivel.

maria carmencita job

* * *

o bacana do encontro é que por mais que você leia os depoimentos e os textos, nunca vai conseguir explicar com clareza como é passar o dia realmente ouvindo, se doando e inexplicavelmente se sentindo bem conhecendo os outros mais do que fazendo-os conhecer você.

80% do debate no dia fica realmente a cargo de nós compartilhando sobre nossas vidas, sobre as prisões que encaramos, problemas e situações tão diferentes e ao mesmo tempo que jamais faríamos ideia da similaridade entre todos se não estivéssemos ali, no mesmo barco de narcisismo e ego, de valores que por vezes não podemos entender ou justificar simplesmente nos foram dados prontos e assim os aceitamos.

o encontro é uma ótima oportunidade para encarar esse tipo de situação e ver que mesmo de formas diversas, todos nós queremos questionar, podemos entender e perceber que no fim, grande parte da mudança não depende de uma autoridade sobre nós, apenas de nós mesmos.

allan cutrim

* * *

participar do encontro é um processo que, como toda experiência transformadora, começa com um “sim”. sim, eu vou. sim, posso dispor de um dia para ouvir, aprender e ser transformado. quando falamos um “sim”, abrimos mão instantaneamente de qualquer possibilidade de controle sobre o que vai ou não nos transformar. nos colocamos abertos ao que o momento poderá nos proporcionar. e aí a mágica acontece. você ganha uma alteração permanente na sua capacidade de ser no mundo, de se relacionar, de pensar e também de sentir. você se encontra e se perde nos depoimentos, nas trocas, no contato. e é por isso que o encontro transforma. mas esse “sim” é, por sua vez, resultado de um processo que já se desencadeava. e esse mesmo “sim” é mais um elo nesse amontoado de experiências para as quais você se abriu e continuará se abrindo, porém é também um marcador importante. na verdade, é muito mais simples do que tudo isso. é um momento de encontro entre pessoas que se gostam antes mesmo de se conhecerem. e aí a mágica acontece!

izabela o. bandeira de melo

* * *

não perca nenhuma oportunidade de falar, o q vc fala pode ser decisivo pra quem está ouvindo.

livia sheila

* * *

desde a confirmação do encontro em recife até ele acontecer de fato foram quase 8 meses. nesse meio tempo eu imaginei mil coisas mirabolantes sobre o encontro! mas foi completamente diferente, mais completo e mais simples! as pessoas foram mais abertas, as histórias foram mais intensas e alex, claro, põe as coisas de uma forma que entendemos e, raramente, discordamos.

camila manguinhos

* * *

estou até hoje tendo insights sobre diversas situações ocorridas no dia a dia, é incrível!!! na correria de hoje em dia é tão difícil as pessoas falarem e as outras ouvirem, e o mais importante: ouvirem com interesse e empatia. só por isso já vale a pena participar. o papel do alex nesse processo é muito legal, ele não dita nada, vai só fazendo as intervenções dentro do contexto, é mais um do grupo, que com a sua experiência vai delineando a conversa, para que todos participem, de uma forma muito natural e espontânea.

priscilla martinelli

* * *

prisões, recife, 23ago14, coletivo lugar comum. foto claudia regina

prisões, recife, 23ago14, coletivo lugar comum. foto claudia regina

participar de um encontro como “as prisões” é obrigatório para quem tenta ser uma pessoa melhor. … ninguém jamais será a mesma pessoa, nem olhará para o próximo da mesma maneira. ouvir outras pessoas pode ser libertador e, no mínimo, fará seu mundo deixar de girar ao redor do seu próprio umbigo. tampouco olhará novamente para a sua vida, ou para dentro de você, sem algum estranhamento ou desconforto. afinal, todas essas coisas que me ensinaram até hoje… o que é mesmo que elas estão fazendo aqui? por que as reproduzo sem pensar sobre isso?

eva guimarães

* * *

alex tem um jeito de falar diretamente sobre os pontos cegos e mais difíceis de serem observados por nós mesmos… é isso que nos chacoalha … é um encontro onde realmente somos tocados, seja pelas identificações com aspectos das questões das outras pessoas, seja pela beleza, coragem ou dor reveladas em suas histórias. … uma semana se passou e ainda reflito sobre coisas que ouvi naquele domingo… algumas, com certeza, me acompanharão por muito tempo!

gabriela de paula bicalho

* * *

uma experiência singular. acostumado a diálogos cada vez mais vazios e superficiais, o encontro “as prisões” me fez perceber o quão importante é manter o bom e velho contato “olho-no-olho”, e o quão interessante pode ser as vivências íntimas e angustiantes de um semelhante.

felipe de oliveira

* * *

o encontro das prisões toma forma de acordo com a busca das pessoas que estão lá e o que elas escolhem compartilhar. … é uma experiência bem diferente ouvir histórias de pessoas até então desconhecidas que por vezes passaram por experiências parecidas com a nossa e também ouvir histórias de pessoas com percursos totalmente diferentes do nosso. sentir a dor dos outros como se fosse sua, mesmo por um curto momento faz com que a gente mude nosso olhar.

gustavo thron

* * *

como foi bom ter ido! pessoas tão diferentes umas das outras, e ao mesmo tempo tão iguais. cada um com seus problemas, sua vida, sua verdade… um a um, todos depositaram seus sentimentos ali no meio do grupo. e aí eu olhei para as minhas questões, aquelas que estavam me agoniando e pensei: mas isso não é nada! esqueci de minhas angústias, das minhas feridas, para olhar os meus iguais. saí exausta, o corpo doído. mas a cabeça, ah, a cabeça leve, leve…

vania lacerda

* * *

vi que cada um ali tinha uma parte que tinha a ver comigo … as coisas foram se encaixando na minha cabeça e vi que foi muito proveitoso ouvir os depoimentos e questionamentos e relacioná-los dentro da minha mente borbulhante. … fico pensando em como as pessoas são tão diferentes e ao mesmo tempo tão próximas. todas as relações que eu faço/tenho com as pessoas “automaticamente” começam a fazer parte de mim, me tornando diferente do dia anterior … cheguei no analista pensando: hoje vai render!

livia kodato

prisões, salvador, 3ago14. foto: claudia regina.

prisões, salvador, 3ago14. foto: claudia regina.

* * *

olá, você-que-eu-não-conheço-e-só-posso-supor,

se você caiu aqui significa que tem afinidade com os textos e as ideias do alex, e possivelmente esteja pensando em participar de um dos encontros.

não sei qual seu nome, seu endereço, sua filosofia de vida, se gosta da gema do ovo mole ou dura. talvez você seja uma mulher negra linda que teve que assumir o controle da própria beleza e do sonho de ser cientista. ou quem sabe um cara que foi amante de uma mulher e, pra disfarçar, fez amizade com o marido dela (e esse é só o começo da história!). pode ser uma moça com ascendência japonesa que rejeitou a associação pré-concebida sobre a sua etnia como “monstros das ciências exatas” e, além de professora de arte, toca bateria numa banda de heavy metal.

ou não. essas foram, na verdade, algumas das pessoas incríveis que conheci no encontro das prisões. se pudesse voltar àquela sala e me apresentar, diria que sou uma garota mimada tentando ir contra anos de soluções prontas e coisas que aparecem (ou somem) magicamente, sempre a meu favor.

com essa descrição talvez seja mais fácil se identificar. =p

a verdade é que as prisões funcionam como um exercício prático de empatia. éramos 14 pessoas numa sala com o único objetivo de nos vermos, nos conectarmos, nos conhecermos. nossas próprias histórias, o combustível que nos fazia levantar temas espinhosos – monogamia, narcisismo, trabalho, dinheiro, sexismo, racismo, felicidade… – sempre com a contribuição generosa do alex.

quando fiz jornalismo, eu pensava em sair por aí catando as histórias do mundo. é infinitamente mais fácil do que imaginava, e não existe diploma que me credencie para tanto. cruzamos com centenas, milhares delas, todos os dias na rua. o que nos separa é um simples “olá”.

foi um dia para abalar certezas muito bem decoradas (as nossas prisões). agora continua o treino. (:

você certamente não precisa desse encontro para isso. as ideias do alex estão muito bem expostas nos textos dele, disponibilizados gratuitamente na internet. a diferença aqui é colocar a própria vida na fogueira, compartilhá-la com pessoas que nunca viu na vida, ouvir de verdade, provocar as certezas do outro.

espero voltar numa próxima oportunidade.

melina lima de franca

* * *

foram treze horas chafurdando o que tinha de mais íntimo e vendo em outras pessoas um reflexo do que somos como sociedade. os sentimentos surgem do nada e variam de acordo com o assunto e a pessoa. raiva, amor, amizade, compaixão, admiração e várias outras emoções que na verdade não buscamos e não percebemos em nosso dia a dia.

o alex com seu papo inicial manso nos deixa livres e parece que a intimidade latente vem desde a infância entre aquelas pessoas. nunca nos vimos, temos idades diferentes, nada sabemos da vida de cada um e todos contam detalhes que não diriam para um irmão na mesa do bar. claro que as pessoas ali são as erradas e ovelhas-negras sociais, mas mesmo assim, fica difícil de se gerar uma interação tão boa entre desconhecidos. …

obrigado alex! obrigado por não dizer o que eu queria ouvir. por não mostrar nenhum caminho. por não estabelecer nenhuma regra. aprendi a desaprender.

joão marcelo moreira

prisoes, rj, 29mar14 foto alex castro

prisoes, rj, 29mar14 foto alex castro

* * *

consciência plena. é o que o encontro “as prisões” te faz adquirir. tu sai dele consciente de que a culpa por todo e qualquer sofrimento na tua vida é apenas tua. consciente do quanto tu se contorce pra criar falsas justificativas pras escolhas que tu fez e te fazem, de alguma maneira e com relativa intensidade, sofrer. depois do encontro, tu te torna consciente de que sofre por escolha. mais: te torna consciente de que a qualquer momento pode escolher não sofrer mais por nada.

depois do encontro, tem consciência de que é apenas um mímico fingindo ter paredes à sua volta. consciência de que é um pássaro cantando tristemente por estar preso dentro de uma gaiola que ele mesmo armou. percebe que a qualquer hora pode bater as asas e voar. porque tu é livre. todos somos.

obrigado, alex, por me ajudar a achar a última peça do meu quebra-cabeça. foi o melhor presente de aniversário que eu poderia ter recebido. tudo tá em harmonia. que não te falte saúde. boa sorte.

josé ary da silva júnior

* * *

foi incrível a diversidade de pessoas que tivemos no nosso evento em vitória/vila velha!

só pelas idades, já percebi a quantidade de histórias distintas que cada um já viveu, com pessoas de 19, 20, 30, 40, indo até 60 anos.

o meu destaque vai para um senhor de uns 60 anos, que outrora era um “cabeça fechada”, e deu um belo depoimento demonstrando o quanto queria e já estava mudado.

durante o evento, eu fui me dando conta do quanto minhas ações eram diferentes do que a minha cabeça pensava, não dando para algumas pessoas a liberdade de serem quem elas queriam, cerceando suas liberdades apenas por “ir na onda dos outros”, com brincadeiras que todos faziam, mas sem perceber o mal que eu poderia ter causado para eles (ou nas palavras do alex, a “violência” que eu estava cometendo com eles).

mesmo assim, ao fim do depoimento, eu percebi que eu tinha entendido a teoria, mas a prática não era nada simples. coloquei isso para os demais e vi que eu não era o único a perceber a dificuldade de agir de maneira não narcisista, ainda mais com tantas pessoasl em volta com quem eu me preocupo e quero “ajudar”.

dias após o evento, a prática continua se revelando complicada. é uma vigília própria constante para atentar para meus atos e palavras, e assim espero levar para o resto da minha vida.

joão olavo vasconcelos

* * *

é muito saudável ter um espaço como esse para se despir das máscaras que são usadas no dia-a-dia. um ambiente com pessoas estranhas, que não esperam nada de nós, que não podemos decepcionar. dá uma segurança incrível para se abrir (e há algo de substancialmente errado com uma sociedade em que é mais fácil se abrir com estranhos).

cada um tem a sua própria noção do que seria um mundo melhor e obviamente não existem respostas prontas, então, é um exercício fundamental ouvir o outro falar de seus próprios defeitos e não julgá-lo por isso, mas apenas reconhecer sua humanidade, com respeito e compreensão. e a única forma de termos empatia pelas falhas e problemas do outro é saindo do nosso pedestal de “pessoas-legais-diferenciadas-que-tentam-construir-um-mundo-melhor”. é reconhecendo que temos mil coisas podres dentro da gente, tanto quanto qualquer pessoa. por circunstâncias pessoais, familiares, sociais, culturais, etc, desenvolvemos mais ou menos coisas boas e ruins, como qualquer ser vivo sobre a terra (sem desconsiderar que há pouca unanimidade sobre o que é bom ou ruim).

o encontro nos deixa com a sensação, ao mesmo tempo inquietante e reconfortante, de que, como você, ninguém no mundo sabe o que está fazendo. seria suficientemente legal se parássemos de agir como se soubéssemos.

luiza montenegro

* * *

uma experiência onde você entra com uma concepção de si, e sai com outra – não uma outra concepção totalmente diferente da inicial, mas uma concepção nova, uma que você jamais enxergaria se não se permitisse viver essa experiência.

é tão difícil descrever esse encontro quanto descrever a mim mesma, logo, meu depoimento se resumirá a uma palavra: participe!

dizer o que foi para mim, é narcisista demais (aprendi no encontro), portanto se você quer um experiência fora da sua vida ordinária (no sentido do dicionário, não no sentido cumpadre washington) essa é uma das mais interessantes que você pode ter.

karlena holanda

* * *

desde a primeira leitura, tive uma sensação de acolhimento! e pelas leituras seguintes, também muita desconstrução. encontrar alex pessoalmente não foi diferente; houve papo profundo e descontraído, depoimentos densos, frenesi, tarde aconchegante e marcante. tenho lembrança cheia de ternura e incômodo: saí sem querer ir, com tudo flutuante, extremamente perturbado, ansioso pra viver mais: minhas verdades, queridas e mimadas verdades, construídas com vaidoso cuidado, se soltaram de minhas paredes internas para se saculejarem indefinidamente – e o meu maior medo: permanentemente.

viver essas treze horas (sim, treze horas voadoras!) me fez lembrar mais uma vez que algo especial acontece dentro de mim: eu cresço e posso tornar a existência das outras pessoas mais agradável na medida que me disponho a vê-las como as humanas que são.

conheci gente (alex e todos os outros participantes) rica do coração e de atitude. gente que eu finjo (!) me identificar e, sobretudo, que me dá muita vontade de viver pra ver mais do mundo e da vida, de todas as formas possíveis, e ser cada vez mais rico e vivo pra continuar essa corrente de gente que quer ser melhor (ou menos medíocre) e fazer o mundo melhor…

obrigado, alex, pela tarde, pela presença, pelo carinho, pelas pessoas, pelos pensamentos que continuam latejando! espero sempre por um próximo encontro, em leitura e em voz. sucesso!

henrique bettin

prisões, sp, 25jan14, foto flávia tótoli

prisões, sp, 25jan14, foto flávia tótoli

* * *

… deu para conhecer um pouquinho de cada pedacinho de carne que estava ali e a cada depoimento, foram se transformando em humanos cheios de histórias e com umas mais interessantes que outras, cada uma com sua dor e sua superação.

somos todos prisioneiros narcisistas, mas saímos de lá um tanto mais conscientes disso, o que nos dá mais motivação ainda para mudar.

cada humano ali que desabafava, quase chorava, tocava um pouco o meu coração e transformava muito o meu universo.

e no fim do dia, o que eram antes pedaços de carne, depois humanos, agora eram pessoas que eu queria bem!!! que maluco!!!

todos nos transformamos ali e com certeza, continuaremos essa transformação.

jéssica nicole fialho oliveira

* * *

fui ao encontro com a ideia de desabafar. mas descobri (felizmente) o delicioso exercício de ouvir. coisa que a gente finge que faz quando, na verdade, procura o tempo todo nas histórias e problemas dos outros uma deixa pra falar mais e mais da gente ou o quanto fazemos isso ou aquilo melhor.

também descobri no “prisões” o prazer de notar que não sou tão fundamental quanto sempre acreditei ser. e o “day after” foi a prova disso.

exausta depois de um dia inteiro de encontro, decidi ficar dormindo até tarde. minha mãe, habituada a me ver logo cedo aos domingos, achou estranho e me ligou umas 12 vezes. sem resposta, avisou parentes que “algo tinha acontecido”. eles também me ligaram e mandaram mensagens dizendo “sua mãe quer falar urgente com você”.

acordei leve e tranquila e li as mensagens. percebendo que se tratava de uma preocupação exagerada, voltei pra cama e depois de mais algum tempo, tomei banho bem devagar. liguei muito depois pra mamãe, que só disse “tu és louca por me deixar tão preocupada?”. respondi “não sei o que pode haver de tão grave em dormir e tomar banho”.

e esse é o resultado do “prisões” que percebi assim, de imediato. notei que eu sou mais uma na multidão. que não posso e nem quero ser essencial para o equilíbrio das coisas. e que dormir numa manhã de domingo sempre vai ser mais “produtivo” que alimentar a neura alheia e se deixar contaminar por ela.

malu alcântara

* * *

um encontro prazeroso e desconfortável ao mesmo tempo. é difícil de digerir. você sai dele cansada, exausta, esvaziada… lá você pode se dar conta, dentre uma infinidade de outras coisas, do quão arrogantes somos com as outras pessoas, por mais críticos e sensíveis tentemos ser em nosso cotidiano. sem duvidas é um encontro que, pra mim pelo menos, me influenciará por muito e muito tempo ainda! os “clicks” estão apenas começando.

ágnes bonfá

* * *

duas experiências formidáveis, totalmente diferentes de tudo o que já vivi, na quais os protagonistas, os problemas e as soluções somos nós. o alex é um mediador impecável – se é que assim posso chamá-lo. por mais que ele sempre afirmasse que não traz respostas a ninguém, no fundo sempre esperei uma palavra, um conselho quase que mágico, uma solução pronta ou até mesmo um insight, e o que encontrei e as conclusões a que cheguei foram surpreendentes.

num bate-papo mais que informal, descobri que o ser humano tem mais ou menos os mesmos dramas familiares, as mesmas questões existenciais, os mesmos segredos quase inconfessáveis, o mesmo medo do futuro, e que nossos problemas são mais comuns – e mais possíveis de serem resolvidos – do que se possa imaginar.

poderia definir o encontro “as prisões” e a oficina “prisão dinheiro” como uma oportunidade de conhecer pessoas diferentes e incríveis. como eu, como o alex e até como você, que em algum aspecto nessa vida é diferente da maioria. que pensa fora da caixa. que vai de encontro ao modelo ideal socialmente estabelecido de uma porra qualquer. que muitas vezes tentou agradar as pessoas próximas – como amigos e família – em vão. que questiona tudo o tempo todo – não por mera chatice ou teimosia, mas por não ser mais um boi ou vaquinha de presépio, por não seguir o fluxo, por não ser simplesmente mais algum peso morto no mundo.

como mero articulador e mediador, o alex é nada mais, nada menos que uma pessoa humana. assim como nós. no mesmo patamar que nós. e se uma pessoa como ele foi capaz de descobrir tantas coisas e de levantar tantos pontos sobre coisas que não fazem sentido nenhum na sociedade em que vivemos, por que eu também não poderia começar a refletir acerca do mundo em que vivo?

no discorrer das conversas, percebi que as respostas não estão em lugar algum a não ser dentro da gente. mas que para encontrá-las, é preciso aprender a fazer as perguntas certas.

concluí também que podemos ter a vida que quisermos, desde que tenhamos a capacidade e a coragem de bancar as nossas decisões. a vida é nossa, as experiências são nossas, a escolha é nossa, os benefícios e as consequências das ações tomadas são nossos, caralho! pode soar muito simples, mas levei algumas horas para amadurecer o que em muitos anos de trabalho, estudo e convívio social eu não fui capaz de crescer.

aprendi que, no fundo, ninguém sabe de porra nenhuma. ninguém tem a solução para os problemas da humanidade, ninguém é mais pica das galáxias em função da quantidade de estudo adquirida durante a vida, ninguém é mais merda nenhuma do que ninguém.

e o que dizer das pessoas? lindas ovelhas negras que amei conhecer, que disseram o que eu precisava ouvir – e não o que eu, necessariamente, desejava. gente com quem eu pretendo encontrar e conviver por muito tempo. gente que, acima de tudo, me entende.

alex chacoalhou todas as minhas certezas, aquilo que eu acreditava ser, mas que nada verdade, construí e alimentei, dia após dia. e há poucas outras coisas pelas quais eu, hoje, seja tão grata.

aline xavier

prisões, bh, 18mai. pç st tereza. foto: claudia regina.

prisões, bh, 18mai. pç st tereza. foto: claudia regina.

* * *

realmente o que vivi naquelas mais de 12 horas juntos vai me acompanhar pra vida toda. é difícil, no entanto, chamar aquilo de palestra. sei lá, me parece meio pouco. nenhuma palestra que eu já tenha ido se assemelha com o que vivemos naquele dia. tentei formular a frase usando “evento” que é mais genérico e abrangente… mas daí ficou superficial demais, parecendo uma festa ou algo do tipo. também não rolou. curso? nahh… não era aula… não tinha quele ar professoral de forma alguma. dinâmica? vivência? também não… não quero lembrar disso como algo de auto ajuda ou pior, uma entrevista de emprego. encontro? não rola por que a revista mais cochinha de bh tem esse nome.

enfim. acho que às vezes é bom não ter nome. às vezes é bom não conseguir definir. é bom manter essa sensação (tão rara hoje em dia) de participar de algo que realmente… bom, você entendeu.

muito obrigado, anyway.

lucas de lima goulart

* * *

[no encontro “as prisões” em bh no dia 18 de maio] conheci uma louca que quer que se namorado paquere a colega de trabalho, um doido que saiu de casa com 10 anos, ficou um mês fora e depois voltou, uma pirada que pensava que namorados deveria ir na mesma festa de familia, mesmo se faltassem outra festa de familia (para não desgrudar!), um maluco beleza que que ser ceo do bem, levei um sem juízo que aos 30 anos não tem carteira de trabalho (ó procê vê!), uma sem-mãe que não depila o sovaco, uma sonhadora que abriu uma empresa de bolsas que era tão perfeccionista que não conseguia deixar ninguém fazer bolsas além dela, um motoquero-roquero, uma solteirona, uma pós adolescente libertária, um casal de mariconas sorridentes, uma surtada que não pode pronunciar mal uma palavra em inglês, um japa músico ex-formiguinha-operária da fiat, um pai de 3 filhos em todas as diferentes modalidades de pai……. um hospício!

mas principalmente conheci mais outra pessoa, mais maluca, mais surtada, mais libertária, mais maricona que é ……………..o alex castro!

(poderia concluir essa sequência dizendo que conheci pricipalmente mais de mim mesma, mas melhor deixar eu de lado…. porque esse foi o objetivo final do encontro)

flávia leite

* * *

participar da conversa com o alex e com todas as outras é uma experiência que leva um tempo pra ser assimilada. queremos que o aprendizado e, principalmente, o desaprendizado passado ressoe nas nossas atitudes cotidianas; porém, num mundo insano, ser divergente não é algo muito confortável. então, aprendemos a ser a pessoa para a qual isso não é um problema, aprendemos a escutar sem julgar, reconhecemos a nossa insignificância e o quão isso pode colocar uma lupa no significado do nosso trabalho, da nossa vida. despir-se de preconceitos e ouvir o outro como pessoa. e mil outras quebras de paradigmas que nos permeiam durante essa existência. recomendo para todos aqueles que sabem, ou desconfiam, que não somos tão livres quanto querem nos fazer acreditar. obrigada, alex, pelas tuas explanações, pelos teus questionamentos e por tornar esse nosso caminho mais belo com essas ideias. participem desse encontro sem precedentes, o cara é um misto de sócrates com comediante stand-up.

ana carolina fernandes

* * *

acho que é normal, quando a gente conhece alguém à distância que fala abertamente sobre nossos ideais mais profundos, aquilo que passamos a vida perseguindo, conferir a essa pessoa uma certa figura de autoridade. junto com isso, criamos uma série de expectativas sobre ela, sobre como ela deve ser sensacional, como sua presença deve ser marcante, como a mera possibilidade de ouvi-la ou tocá-la deve ser como uma pequena bênção…

inevitavelmente, levei essas expectativas comigo quando conheci o alex na apresentação da palestra as prisões, em curitiba, no último agosto. mas a pessoa que eu conheci não correspondia em nada à imagem que eu inventei dela. ele não tinha nada daquilo que estamos acostumados a imaginar numa pessoa que julgamos ser especial. ele não mostrou um sorriso hipnotizante, ele não usou de uma retórica refinada, ele não portou trajes de conotação hierárquica, ele não vendeu uma fórmula mágica. ele não era um super-homem, um profeta, um ser que irradiava qualquer tipo de energia transformadora. ele era um cara comum.

mas foi aí que eu me senti realmente tocado. se um cara comum como o alex pode ser uma pessoa tão sensível, tão empática, tão aberta, por que eu, outro cara comum, não posso? se ele não é melhor do que eu, o que me impede, se não minha própria preguiça, de buscar ser uma pessoa mais amiga, mais acolhedora, mais humana?

obrigado, alex, por ter me motivado – mais do que isso, me desafiado – através de sua mais absoluta normalidade.

denny seccon

prisões, recife, 23ago14, coletivo lugar comum. foto claudia regina

prisões, recife, 23ago14, coletivo lugar comum. foto claudia regina

* * *

você só sente a correnteza quando nada contra ela”, foi uma das pérolas do dia. soltada pelo alex? não. mesmo sendo tão foda e incrível, não é alex que reina nas prisões. ele abre espaço pra tudo o que você sinta vontade de contar, e vai guiando a “palestra” (veja os outros depoimentos, todos concordam que é muito mais pra um debate), sobrepondo seu ponto de vista sobre cada prisão em cima das histórias de quem foi lá. cheguei meio incerta, sem saber o que esperar. mas é assim mesmo. você chega devagarinho e em meia hora já se sente, de alguma forma, em casa. não pelo lugar onde está, mas pelas pessoas que te cercam. que falam, ouvem (ouvem mesmo), respondem. o alex merece tudo por proporcionar esse encontro. mas não tem como eu te fazer entender como é. você precisa ver, falar e ouvir por si próprio.

gabriela peres

* * *

foi dia de alimentar discretas esperanças de que existe muita gente boa, muitas histórias de resistência, e um longo caminho a ser percorrido para tornarmo-nos pessoas mais legais, simples e libertas. pode não ser fácil, mas também não é impossível.

adriano lourenço

* * *

dizer palestra dá a impressão de que se fica lá 7 horas sentado ouvindo alguém falar ininterruptamente. não é isso o que acontece nas prisões. é um dia inteiro de conversa, troca de experiência, quebra de valores, sacudida nas certezas, risadas etc. sem contar que tem várias paradas pra lanche durante a palestra e dá pra conhecer todo mundo um pouco melhor. rs uma das coisas que eu achei mais fantásticas na experiência das prisões é que no fim, todo mundo que está ali se sente, de uma forma ou de outra, a ovelha negra, o diferente, o do contra… e acaba sendo uma experiência totalmente acolhedora encontrar tanta gente parecida. você percebe que não é estranho. ou pelo menos que não é o único estranho. não é um life coaching. não se descobre a verdade absoluta sobre a vida e o mundo. mas mexe com a gente. tive a oportunidade de participar de duas e posso dizer que cada palestra é única. a experiência põe seu mundo de cabeça para baixo, mas abre portas e te mostra caminhos. voltarei sempre que tiver a chance. recomendo para todos. é lindo.

amanda parra

* * *

o encontro foi sobre os conceitos e pré-conceitos que nos “impedem” de manifestar a versão “melhorada” de nós mesmos. as amarras conceituais que, de forma bem prática, nos impedem de agir, trabalhar, respirar, amar da forma como queremos, desejamos e acreditamos. a forma como a gente pensa sobre verdade, gênero, monogamia, dinheiro, tempo, etc etc… até que ponto estamos sendo guiados por algo escrito não sei onde não sei por quem, até que ponto direcionamos a nossa vida para onde a gente quer? o alex, em algum processo de desconstrução que vem seguindo por sua vida, é um exemplo vivo (com histórias bem interessantes) de como é possível viver através de perspectivas diferentes. … a troca com os demais participantes é um dos processos mais ricos do encontro, pois é na história do outro que você percebe seus próprios reflexos. recomendo!

nina taboada

prisoes sao paulo 16dez13 foto por flavia totoli 2

* * *

já fui duas vezes. muda nossa vida. por isso, é pros fortes, pra quem quer mexer em tudo que sente e pensa. MARAVILHOSO.

halina medina

* * *

alex é uma pessoa muito instigante, provocadora e, sobretudo, muito sensível. le conduz a palestra, ou melhor, o encontro, de forma muito habilidosa, tornando a experiência muito rica e inspiradora. eu diria que, também, de muitas formas, reconfortante, embora muitas questões difíceis tenham sido expostas e debatidas. foi muito interessante encontrar pessoas tão diferentes, mas, ao mesmo tempo, tão parecidas nas suas dúvidas e questionamentos. eu pude ver um pouco dos meus conflitos e da minha busca pessoal em vários dos participantes, o que foi incrível, porque é muito gostoso encontrar os semelhantes. recomendo a experiência a todos que tiverem a curiosidade e a oportunidade de participar dessa palestra/conversa/confronto/encontro. O nome não importa.

irene caminada

* * *

me lembrei dos retiros espirituais que eu participava quando era católica. recordo-me das pessoas saindo emocionadas, com sede de mudar de vida (phn – por hoje não – não vou mais pecar, hahahahahah). a verdade é que nunca havia sentido essa sensação e não compreendia bem a convicção dessas pessoas. consequência: sentia-me péssima, insensível e culpada (ah, a boa e velha culpa cristã…). disse tudo isso só para destacar que, finalmente (!) compreendi a experiência daquelas pessoas quando sai da palestra do alex no domingo. e foi uma delícia, aquele desejo de libertação das tantas prisões, um alívio, como se tivesse finalmente descarregado boa parte da mochila pesada que carrego nas costas. adorei conhecer as pessoas, ouvir e ser ouvida. foi lindo. obrigada!!”

jussara lopes

* * *

se você sente que está quase sozinho com esses novos pensamentos, ainda mal estruturados, e desejos de se libertar, é muito provável que essa não-bem-palestra seja exatamente o que você precisa. uma oportunidade quase única de dar forma às suas ideias, de encontrar pessoas com anseios parecidos, e de ouvir um cara que, convenhamos, é foda. foi um dia fantástico, cheio de histórias, aprendizagens e amadurecimento.

felipe gurgel tiso

* * *

na minha vida tenho me reconhecido incomodada com muitos fatos. quando olhava para o outro, o outro não parecia está-lo ou pelo menos eu não conseguia enxergar seus incômodos. às vezes porque mesmo ele ou ela no sentia o que eu sentia, a vezes por meu machucado olhar. deixava meus incômodos para lá e me submetia ao mundo achando-me doida ou paranoica – ou qualquer outro juízo disso que desmobilizam-. com o tempo fui percebendo que minha incomodidade tinha sentido e que não posso estar incomoda na minha própria vida. também percebi que a incomodidade dos outros tinha sentido. estou aprendendo a falar. quando alguma coisa me incomoda, para rever comigo mesma e com os outros essa incomodidade. estou aprendendo a escutar a incomodidade dos outros, dar um espaço e tempo nesta fugaz vida para o outro se criar a vontade. existem incomodidades compartilhadas outras talvez não. mas existem. o alex na sua conversa compartilha sua vida em processo, sua vida em construção, mostra o que tem – e às vezes continua- aprisoando ele e com um desenvolvido sentido do olhar consegue perceber que ainda que é sua vida, o problema não é só individual senão social. quer dizer que aquelas coisas que tinham aprisoado ele, também estão aprisionando-me (e aprisoando a vc). vale a pena assistir. é um espaço onde você pode se sentir a vontade e onde talvez se pergunte: o que faz eu não me sentir assim a vida toda? gratidão, alex. gratidão.

ana corina salas correa

* * *

alex tem uma presença pessoal típica de quem se empodeirou de sua mutação constante. seu bom humor agridoce unido à sua capacidade de destrinchar temas difíceis me transportaram para dentro de minhas culpas e vergonhas com muita serenidade. … pude revisitar muitas crenças ultrapassadas e certezas empoeiradas. … tive a chance de me reencenar e descobrir novos agentes de minha personalidade. … saí horrorizado com minha condição humana, mas profundamente conectado com cada pessoa humana. meu coração respirou mais leve e mais comprometido com coisas que eu tinha deixado de canto. para quem se acha dono da verdade ou se pensa muito livre recomendo esse encontro com alex, qualquer um dos dois sairá com as respostas que veio ou não veio encontrar.

frederico mattos

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

* * *

as horas passaram voando, tanto que quis encompridar mais a sensação que estava tendo de pertencimento à minha vida. … foi interessante ter alguns paradigmas modificados e discutir questões que normalmente não discutimos por ser incômodas ou por preguiça de começar a pensar no assunto. penso logo existo foi o que me sobrou. me senti mais livre, em meu momento atual, por certificar que existem mais opções dos que as que a sociedade me apresenta como únicas e corretas e só depende de mim a escolha do que quero para minha vida.

laura pimenta

* * *

em curitiba foram quase sete horas de palestra. e não vi as horas passarem. interessante como ele simplifica as coisas. alex de fato parece ser extremamente racional, todas as suas colocações são muito bem embasadas e fundamentadas… a palestra é uma ótima oportunidade pra quem procura contato com pessoas também abertas a opiniões adversas.

thiago michel

* * *

quando eu soube da palestra do alex em bh fiquei meio ressabiada por serem 6 horas, “um quarto do dia!”, eu pensei, mas resolvi encarar mesmo assim. e ainda bem que encarei! o tempo passou super rápido mas os efeitos da palestra ficaram. ainda que eu já conhecesse bem o conteúdo, a troca com as outras pessoas é muito boa e um tapa na cara aqui e outro acolá acontecem pelo caminho. quando acabou eu não queria falar nada, nem queria que o momento acabasse. e não acabou porque acabei conhecendo pessoas com pensamento alinhado com o meu.

fernanda

* * *

a palestra foi uma viagem dentro de mim mesmo, várias das prisões eu já havia identificado e lutava pra desconstruir, e na conversa com o alex eu encontrei novos argumentos e novos caminhos pra experimentar. por mais que as histórias pessoais sejam sempre tão diferentes e, por isso, a reconquista de nossa autonomia passe por etapas diferentes, é compensador estar num ambiente com pessoas que buscam as mesmas coisas, que objetivam o mesmo final. foi um dia bem atípico na minha rotina, mas a sensação no final foi de um profundo bem-estar!

denny

* * *

sabe tudo aquilo que você sempre acreditou ser o correto e normal simplesmente por que são coisas que parecem ser indiscutíveis e perfeitamente moldadas a você? a palestra “as prisões” vai desconstruir estas certezas, sem piedade e sem nem te dar chance de argumento que não o faça recorrer a outra prisão tão inútil quanto. depois da palestra, o que nos sobra é remontar o quebra-cabeça da nossa vida desde o início. mas dessa vez usando criteriosamente e cuidadosamente cada peça do jeito que queremos. olha, dá trabalho…

jorge buratti

* * *

não só te faz perceber a jaula que você está preso, mas também mostra todas as possibilidades de escapar dela. quebrando, abrindo com as chaves, socando ponta de pedra. tomara que você já esteja vivendo a sua vida de forma autônoma e convivendo com as consequências de suas escolhas, mas se não, como eu, a palestra é uma mão estendida. pra você e o mundo ao seu redor. pra você fazer as suas escolhas, e quebrar as prisões que te impossibilitam.

henrique barbosa justini

prisoes sp 23mar14 por flavia totoli

* * *

algumas pessoas, sentadas na sala em cadeiras e almofadas, num (quase) circulo, todos iguais, descontraídos, conversando e compartilhando experiencias da vida. Uma tarde de domingo ótima. “as prisões” faz a gente refletir muito sobre nossas escolhas, nossos motivos, nossos objetivos. muito boa a palestra! alex está de parabéns! obrigada.

livia cecilia

* * *

a palestra foi ótima, os temas abordados são extremamente pertinentes… alex nos faz pensar… pensar sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo… mas é um pensar diferente, é antes de tudo um pensar crítico, instigante e questionador : ) super recomendo : )

daiane cristina guerra

* * *

o argumento para alguém como eu, leitor antigo do alex e familiarizado com a maior parte das estórias, é ver a narrativa se desenrolar de uma prisão para a outra naturalmente de assuntos que ele escreve há anos: autoconhecimento, questionamento das instituições (estado, família, poder, etc) e outros tantos assuntos mais recentes como: privilégio, sexismo, racismo, zen de uma forma natural e que direciona o esforço da transformação não só para ser um indivíduo mais completo mas também o mundo em um lugar um pouco menos desigual, uma ação de cada vez.

ótima chance também de entrar em contato com pessoas que estão em fases diferentes dessa jornada, alguns estão ‘livres’ há anos, encontraram a vida plena e podem relembrar as forças que colocaram a suas vidas em movimento novamente. outras estão nos primeiros passos tímidos da libertação ainda juntando o impeto para começar, e todos os semi-tons desse intervalo.

é difícil dizer se essa mistura de diálogo, contação de estórias e espaço de troca de experiências funciona para qualquer pessoa, mas, sem dúvida, se você está com uma inquietação e vontade de chutar o balde metafórico, nesse espaço encontrará outros como você.

eduardo gomes

* * *

pra mim foi jóia. pude ir conhecer em pessoa um dos caras mais admiráveis que eu tenho notícia. não por sua excepcionalidade, mas justamente porque fez escolhas que eu achava não ter coragem pra fazer, e mostrou que quem faz o que quer, quem segue o próprio caminho, sobrevive pra contar a história.

vinícius souza maia

* * *

achei excepcional. me clareou a mente, me tirou de algumas prisões que vivia, me fez/faz lutar pra sair de outras, entender melhor ideias e conceitos impostos pela sociedade desde que nascemos e desconstruí-los pra podermos adquirir novos com absoluta personalidade.

lucas petraglia

* * *

fodástica a palestra. crescendo em 6h o que, muitas vezes, levamos anos para amadurecer. vale a pena!

amanda medeiros

* * *

a noite realmente foi mágica, inspiradora e instigante. a abordagem sobre cada prisão foi uma oportunidade de troca e reflexão sobre conceitos, sociedade, e até sobre mim mesma. o louco é que cada tema, por si só, já renderia uma palestra. acho que a espontaneidade como tudo se construiu também foi bastante rica. muito bom, havendo possibilidade, vou aos próximos, com certeza!

juliana

* * *

obrigada alex mais uma vez. você é bem interessante, assim como seus textos. uma tarde muito enriquecedora. acho incrível a possibilidade de conhecer pessoas que tem os mesmos interesses, a mesma vontade de evoluir como ser humano, apesar de todo o bombardeio de preconceitos e valores distorcidos. bem melhor poder ler suas escritas tendo te conhecido pessoalmente. um grande abraço!

fernanda luiz

* * *

você me levou numa noite de quinta para a praia. estavam la: a lua, o oliver, … a sua coragem e sensibilidade e inteligência. tem magia! obrigada.

cristiani elias

onde perdemos tudo, contos

Cinco contos unidos pelo tema comum da perda.

A unidade dos contos de Onde Perdemos Tudo encontra-se nos vinte e tantos sentidos da palavra perder. Com delicadeza, Alex Castro costura encontros e desencontros, achados e perdidos, sem perder o humor e a malícia. Apesar das perdas, o livro não é triste, mas cheio de beleza e reflexão. Onde Perdemos Tudo é lugar de encontrar.

onde perdemos tudo

Onde Perdemos Tudo (2011), contos. Rio de Janeiro: Editora Oficina Raquel, 2011. ESGOTADO

 

Repercussão

O conto mais bem realizado … é o primeiro “A morte de meu cachorro“. História de um momento em que um casal se separa, e cada um vai cuidar de sua vida. A velhice e a solidão são atingidas quando o narrador não é reconhecido por uma alma gêmea, obrigando-se a conviver com experiências que não são mais plenamente compartilháveis. Esse esvaziamento se dá num cenário que deveria ser palco de um reencontro. A amiga muda-se para Buenos Aires, o narrador segue para visitá-la, tentando vencer a distância espacial, que cumpre seu papel: “Lendo cada um sua seção do Clarín, Fiona e eu padecíamos de um silêncio ainda mais cancerígeno [sic]: o silêncio de quem tem muito a dizer, mas prefere calar; o silêncio da conveniência. Pra que discutir? Emudecer poupa dores-de-cabeça, explicações, embaraços. Sobra o nada”. Esta elevação do silêncio a uma categoria cancerígena revela a forma dramática de representar alguns episódios. O conto não segue um fluxo narrativo contínuo, trabalha com flash-back e janelas, que são abertas para esclarecer coisas ou resumir passagens. … O componente que dá literariedade aos contos é a ironia, a busca de soluções bem-humoradas. O autor, que brinca o tempo todo com conceitos literários, transita por um universo em que cabem produtos literários sofisticados e outros da cultura de massa. Os diálogos, os subtítulos e os títulos dos contos e dos livros inventados ganham um tom paródico. Tudo apontando para uma saborosa desconstrução da seriedade. Onde perdemos tudo apresenta narradores meio tagarelas – outro pedágio à internet? -, mas é justamente nisso que reside sua força. E se falta uma maior voltagem literária nestes contos, é indiscutível que a prosa de Alex Castro já possui apelo estilístico.
Miguel Sanches Neto, O Globo

[O livro de contos Onde Perdemos Tudo] é uma das melhores coisas que li nos últimos tempos. O conto De Portas Abertas é uma pérola, digno de figurar numa antologia dos 100 melhores contos brasileiros. Não é pouco. … [A Morte do Meu Cachorro] é brilhante. Narração de primeira linha. É um blues na temática (pois todo blues conta a história de uma perda) e abarrocado na sua forma, com as codas lambendo delicadamente cada parágrafo, a espasmos, acrescentando informações e apagando outras, vai pra frente & pra trás com uma desenvoltura de gente grande. São lambidas de gato, portanto. O tema da perda de uma amizade, aliás, se não me engano, é novo na literatura brasileira (não me lembro de outro). O estilo é maduro, adulto, sem que o distanciamento interfira no mergulho. Ele estraçalha o sentimento, vai fundo, tem Machado na parada, no sentido de esmiuçar até a exaustão cada milímetro da situação. … Intocável, perfeito.
Furio Lonza

… uma das coisas mais lindas que eu já li na vida, assim, em todos os tempos.
Fal Azevedo, “Drops da Fal”

[Sobre De Portas Abertas] Um bom conto se reconhece pelo final: vitória por nocaute. … Alex também é um escritor que conhece como poucos seu ofício. “De Portas Abertas” segue à risca os ensinamentos de mestre Júlio Cortázar, que dizia: “Enquanto no romance você conquista o leitor por rounds, no conto você deve abatê-lo por nocaute”. E, de fato, Alex Castro leva à lona seus leitores. Não apenas em “De Portas Abertas“, como também nas quatro outras narrativas que compõem o livro Onde Perdemos Tudo. … é um filho da puta que escreve bem, desgraçadamente bem. Bom nocaute.”
Alexandre Inagaki, “Pensar Enlouquece, Pense Nisso”

Contos

A Morte do Meu Cachorro

Uma caminhada pelas ruas de Buenos Aires revela questões sobre amizade homem e mulher, as armadilhas da memória e as dores do começo da idade adulta.

Só a teimosia ainda me impele: presumir que eu seria capaz de escrever sobre Fiona foi uma temeridade, um desvario de velho carente. Não ando mais pelo Largo da Carioca; da próxima vez, faço um desvio pela Sete de Setembro.

Fiquei sem graça sim, é verdade – talvez a única verdade dita até agora. Houve um quinto sorriso, tão completo e tão sincero quanto o anterior. Sorriso também de corpo inteiro e todo meu. A história então, sob escrutínio, se esfacela:

Fiona me dá um aperto de mão mais caloroso, me fita com seus olhos incandescentes e sorri, fogosa:

– É muito bom mesmo você estar aqui comigo! – Estoura ela.

O sorriso, entretanto, não morre. Não, meus amigos, o sorriso continua lá. Gostaria de poder afirmar que ele permanecia congelado em seu rosto, mas naquele momento não havia nada congelado em Fiona: ela estava em ebulição, faiscando. Sejamos sinceros: seu corpo inteiro sorria pra mim.

Quem não suportou o calor fui eu: fracassei em gerir tamanho sorriso e cedi ante a pressão do seu carinho. Fiona me derrubou com uma erupção de amor.

Percebo agora o quão piedosa era a minha falecida versão conveniente dos fatos: eu não sabia o que fazer, não sabia em que buraco me enfiar. De que maneira poderia me defender daquela salva maciça de paixão sendo arremetida contra mim? O tal sorriso de corpo inteiro – há pouco desejado – era um fardo incômodo do qual eu precisava me livrar. Sem meios de corresponder aos sentimentos que Fiona disparava, eu ia fraquejando sob sua força.

Desse modo, e muito à revelia, preencho a lacuna do café-da-manhã: eu peguei o Clarín, eu comecei a ler, eu puxei o primeiro cigarro. Pobre Fiona, inocente ao menos dessas acusações, só fez tirar o jornal de seu colo e depositá-lo sobre a mesa. Vagarosamente, com mãos de relojoeiro.

O Clarín seria minha salvação, decidi, aliviado, e peguei um caderno qualquer do jornal. E enquanto eu abria as folhas, bloqueando minha visão de Fiona, tive um último relance de seu rosto. Ela sorria. Ainda.

Inexpugnável em meu refúgio de papel, não sei por mais quanto tempo Fiona sorriu. Por fim, deve ter desistido: afirmou um suspiro, acendeu um cigarro e escolheu uma parte do jornal pra ler. As facturas e os cortaditos, quando vieram, foram consumidos em silêncio.

Onde Perdemos Tudo

“A história se passa numa festa, quando dois ex-namorados se encontram depois de um longo distanciamento. As conversas tendem ora para o dramático, ora para o banal, e nelas cabem, por exemplo, comentários sobre um tratamento de pele. A moça é uma ficcionista, no início de carreira, com as dificuldades normais de afirmação. O ex-namorado é o modelo de personagens para ela, o que mostra que esta é uma relação de atração e repulsa. O que os separou não é conhecido, e a vida dos dois segue vazia.” Miguel Sanches Neto, O Globo

Quando Morrem os Pêssegos

Começou a chorar.

Feito o relatório, Josino se afastara. Que digerisse sozinha a dor, refletiu. Quanto a ele, cabia-lhe esperar pela ambulância que não chegava nunca.

Aproximou-se ao reparar as lágrimas de Laís e ficou ainda mais sem graça. Sentiu-se quase culpado. De algum modo, deveria ter impedido o acidente. Era ele, Josino, o responsável pela viuvez da mulher.

Acariciou os ombros daquela completa estranha. Em sua cabeça, a experiência compartilhada pelos dois, em uma madrugada fria defronte à praia, lhe permitia a liberdade do toque. Apenas, para evitar mal-entendidos, tomou cuidado com o gesto e foi o mais suave que pôde:

– Fica assim não, dona Laís. Sei como a senhora se sente, já passei por isso também. A gente tem que ser forte, tem que confiar em deus. Não fomos nós que perdemos uma pessoa amada, foi deus quem ganhou uma.

Laís aceitou a carícia. Virou-se para ele e percebeu, pela primeira vez na noite, a presença do policial. Mas Josino entendera tudo errado.

De Portas Abertas

No silêncio, ouvi a respiração canina de Amanda do outro lado e caminhei até lá. O som do meu celular tocando chamou sua atenção e ela se achegou à porta, me deixa entrar, por favor, eu preciso entrar, eu preciso te ver, e passou os dedos sensualmente em volta do olho mágico, como se alisando meu rosto, aqueles dedos de unhas longas e negras que sempre me excitaram.

Acariciei a maçaneta, que soluçou mecanicamente ao meu toque. Amanda eriçou as orelhas e ganiu: por favor, eu não quero ir embora, você prometeu que iríamos ficar juntos pra sempre, que me protegeria e me acompanharia, não pode me largar aqui fora, eu te peço.

A Falta que nos Fazem os Figos

XV – À meia-noite, no quilombo, invocamos o escritor morto

Para quem visitou as grandes escavações greco-romanas da Europa, aquele terreno baldio de terra remexida e mato ralo podia ser tudo, menos um sítio arqueológico. Mas era. …

Tentei me concentrar no vento — nunca imaginei que fizesse tanto frio assim no estado — mas meus pensamentos ziguezagueavam frenéticos por entre os fatos que haviam me levado até ali. Lembrei de quando bolara — ou pensei que bolara — os figos em 91, como desculpa para não estudar química, e os cocos, menos de um mês atrás, na praia do Leblon, enquanto sentia o sal dos dedinhos de Gabriela em minha língua. Pude me ver deitado na cama, chorando como nunca chorara antes, e na casa de Mitzi, fazendo contas em velocidade histérica para chegar à tênue conclusão de que eu deveria ser a reencarnação do Gol. Revivi os momentos de puro pavor experimentados durante a descoberta das coincidências, eu quase descendo privada adentro, ou Gabriela chegando no meio da noite em minha casa, com os pêssegos debaixo do braço.

[U]m dos melhores escritores desse brasilzão de meldeos … Onde Perdemos Tudo é o que Alex tem de melhor. … [S]e ele continuasse nos contos, não seria páreo para ninguém no Brasil. Falo sério.
Luiz Biajoni, “Biajoni”

* * *

onde perdemos tudo

Onde Perdemos Tudo (2011), contos. Rio de Janeiro: Editora Oficina Raquel, 2011. ESGOTADO

mulher de um homem só, romance

Mulher de Um Homem Só devassa a cabeça de Carla, que tem a sensação de já ter chegado tarde à vida do marido, Murilo. Desde a infância, ele pertence à Júlia: é o melhor amigo, o confidente, o anjo da guarda e o referencial masculino. O romance invade o feminino nas suas pequenezas e mazelas. Revela o ordinário; o dia a dia de um jovem casal que enfrenta os desafios do casamento, da falta de dinheiro, da busca de identidades e de lugares para ser e ocupar, tendo que lidar com a constante presença de Júlia entre os dois.

A primeira edição foi azul (2009); a segunda, magenta (2009); agora, a terceira, laranja (2010).

Mulher de um Homem Só no GoogleBooks e no Skoob. Uma entrevista sobre o livro e uma matéria portuguesa sobre o processo de edição.

mulher de um homem só

Mulher de Um Homem Só (2009), romance. (4ª ed: 2013) ESGOTADO.

Repercussão

Escrever assim é imperdoável. … Tem um por geração. O da nossa … é ele. Vai por mim. Não perca o Alex.
Fal Azevedo, “Drops da Fal

… melhor livro que eu li em 2009. … tem uma visão bastante peculiar da psiquê feminina … A narradora … somos todas nós. Ou todos nós. … Um livro sobre esse tal mal-estar contemporâneo. Sobre indivíduos que se comunicam apenas através de loucuras. Sobre a dificuldade de mantermos em pé as instituições do passado (casamento, família). E tudo contado assim, através de uma personagem sem freio, que faz com que a gente desembeste com ela.
Mary W., “Segundo Sexo

É um homem que tá escrevendo isso aqui? … Não me perguntem como ele … sabe destas incertezas e inseguranças tão femininas. Nem sei onde ele aprendeu estes tantos detalhes. … É esta maneira de narrar os detalhes, as pausas, os gestos e os olhares, quando nem ao menos se estava presente na cena, que faz com que a gente entenda Carla. Quem não é Carla? Vocês, homens, não são. Nem entenderiam. Só Alex.
Isabella Ianelli, “Isabelices

Enredo intenso nos prende da primeira à ultima página. … Realmente intrigante … uma leitura incrível. Alex Castro realmente conseguiu traduzir nas páginas de seu livro a angústia de Carla com palavras e linhas de pensamento realmente femininas, superou os limites da natureza e encarnou uma esposa preocupada com o seu casamento com toda a originalidade que lhe cabe. Recomendo. … A sensação que tive ao terminar de ler o livro: faltou-me o ar.
Re Alves, “Entreditas

Um livro cujo único defeito é não ter mais umas cem páginas contando mais e mais da história desse triângulo amoroso.
Juliana Dacoregio, “Heresia Loira

Fiquei encantada com o estilo … com a velocidade dos acontecimentos, com a narrativa onisciente … e com todo o desenrolar dos acontecimentos. … O livro acabou e deixou um gosto de que não podia ter acabado. … Não era nem mesmo leitora … mas agora … vou ser, sim. Você também deveria.
Fernanda França, “Fernanda França

“Me identifiquei com a compulsão metafórica do autor. E o fim é perfeito: instiga.”
Alexandre Inagaki, “Pensar Enlouquece, Pense Nisso

Fiquei muito impressionado, literalmente, com tua habilidade na fraseologia ficcional, perfeitamente casada com a mentalidade da Carla; todo o vocabulário feminino, tanto de palavras como de linhas de pensamento, foi uma realização ímpar. … Com essa criação, vc matou a pau.
Doutor Plausível, “Doutor Plausível

Eu tinha esquecido que era tão bom. … Um livro maduro, bem pensado. … É nessa narração que está um dos grandes trunfos do livro. Em Carla, Alex cria uma personagem crível, rica, e explora bem suas possibilidades. É aqui que o Alex demonstra ser um excelente escritor: ele tem perfeito domínio da voz feminina da Carla. É esse o grande segredo do livro.
Rafael Galvão, “Rafael Galvão”

Um livro impressionante, a narrativa sempre inteira, o domínio da língua sempre presente mas nunca intrusivo, uma prosa que flui tão fácil que o leitor nem percebe o labirinto em que está se enredando até ser tarde demais.”
Paulo Cândido, “Todos os Assuntos do Mundo

Um bom livro. … parece ter um cuidado todo especial com a velocidade da narrativa. … O maior trunfo … é a narradora e as ambigüidades por ela evocadas. Ao usar a primeira pessoa onisciente, Alex Castro acaba por fazer com que duvidemos de tudo o que Carla nos conta. Este filtro pouco confiável é que dá profundidade a um romance.
Paulo Polzonoff, “Polzonoff

“… o autor não permite que o texto o domine. … Esse jogo entre o dito, o explicitado e o entendido é rico, é a grande força do livro e o que me faz aguardar ansiosamente o próximo livro do autor.”
Carolina Vigna-Marú, “Aguarrás

 

Trechos

Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela, política e fofocas em geral. Outras vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu mais apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, eu tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então, eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconseqüência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato, e eu quase achava, eu me pegava imaginando que Júlia era minha amiga, uma daquelas amigonas de infância, companheira pro que descesse e subisse, sempre comigo, e assim eu me despejava naquele toque, me sumia naquele carinho, me desenganava naquele afago.

“Desisti. Não tenho essa bondade toda no coração, o órgão que reservei pra Júlia é o intestino grosso. Sou mãe agora: quando quero ouvir histórias de criança, pergunto pra Raquel como foi seu dia no jardim de infância. Júlia me esvazia. Mas eu tentei. Confesso que tentei: nesse fronte, dei meu sangue durante vários anos, construí trincheiras e só atirei quando vi o branco dos olhos do inimigo. Fiz tudo o que pude para ajudá-la e isso era um esforço enorme para mim, porque não sou leviana e levo esses assuntos muito a sério. Eu a ouvia com toda a minha atenção, e ouvir com atenção dá trabalho, cansa, exige amor, concentração, disposição. E eu pensava e refletia, matutava e considerava. Oferecia a Júlia sempre minha melhor seleção de conselhos, conselhos sinceros, brutos, que eu minerava lá de dentro de mim, e eu mesma polia e lapidava, com carinho e dedicação. Era desgastante tamanha sinceridade, tamanha atenção: eu ficava exaurida de ter que descer a espaços tão fundos, onde a luz é tão pouca e o ar, rarefeito, onde cada movimento cansa.”

“Nem todos esses almoços serviam pra suavizar o vício de Murilo que possuía Júlia. Eu, que me achava sua clínica de reabilitação, era na verdade sua fornecedora clandestina: ela vinha me ver e fungava cada carreirinha de Murilo que pudesse encontrar. E eu fazia o mesmo, porque um gambá cheira o outro e eu também não sou lá muito diversa. Ela me sugava o presente, e eu, o passado. Júlia sabia tudo sobre o Murilo, cresceram juntos, nunca não se conheceram. Um era a constante da vida do outro. Júlia era tão constante que me fazia sentir a variável e isso me deixava tonta, imaginava Júlia, amanhã, fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e sugando o futuro. E eu pensava: o juramento foi comigo, a mulher dele sou eu.”

mulher de um homem só

Mulher de Um Homem Só (2009), romance. (4ª ed: 2013) ESGOTADO.