Vocês podem até não acreditar mas houve época, lá entre a Idade da Pedra Lascada e da Pedra Polida, antes do celular, da internet e da água encanada, que o Brasil era um país completamente fechado às importações. Só circulavam produtos made in Brasil, desde carros até computadores.
Eu ainda me lembro, logo depois da abertura da economia pelo Collor, em 1990, os primeiros carros a serem importados. Foram Nivas, da Lada, uma fábrica soviética – sim, amiguinhos, naquela época ainda havia União Soviética, estamos falando da pré-história, eu avisei. Bem típico do Brasil que os primeiros carros a serem importados eram ainda piores do que os nossos.
Enfim, antes disso, só circulavam carros made in Brazil, todos muito parecidinhos e homogêneos.
Lá pelo final da década de 70, meu pai começou a fazer dinheiro na bolsa e decidiu gastar parte dele na sua grande paixão: carros. Mas qual a graça de comprar Fuscas, Passats e Variants? Na época, o topo de linha nacional era o Alfa-Romeo, grandalhão e feioso.
Havia uma brecha na lei de importações, porém. Diplomatas podiam importar carros. O privilégio era pouco usado, não se via nenhum carro importado nas ruas, mas era a saída pro meu pai. Não sei exatamente qual era a treta, e devia custar caro, mas ele conseguia comprar carros importados legalmente por diplomatas. Tivemos muitas BMWs, Mercedes e Porsches. O auge, se não me engano, foi uma Porsche 928, em 1983, que por pouco não matou meus dois pais em um cavalo-de-pau quase marítimo em plena Avenida Niemeyer.
(Hmm, se tivessem morrido naquela época, e se eu e minha irmã tivéssemos tido um bom tutor, eu poderia ser rico até hoje… Ah, deixa pra lá, prefiro meus pais vivos e pobres.)
Acho difícil de um jovem hoje conceber o quanto uma Porsche 928 chamava a atenção no Rio de 1983. Hoje, ainda chamaria atenção, e olha que temos trocentos carros importados em circulação, de todos os tipos e modelos.
Na época, uma Porsche, um BMW ou uma Mercedes seria praticamente o único carro importado entre Gols, Corcéis, Belinas, Brasílias, Paratis. Não havia nada que chegasse nem perto. Chegava a ser um carro inroubável, pois era único ao ponto de não ter valor de mercado. O que um bandido iria fazer com ele?
Todo mundo olhava. Todo mundo apontava. Todo mundo comentava. Circular ao lado do Presidente Figueiredo em um carro aberto chamaria menos atenção. Bem menos. O pobre do homem andava todo dia no Pepino e ninguém nem olhava.
Uma cena era típica. Estacionávamos na rua, íamos pra algum lugar e, na volta, sempre havia alguém babando no Mercedes, adolescentes empolgados sonhando com o carro que nunca teriam.
Meu favorito era o cara com a namorada, mãos ao redor de sua cintura, explicando detalhadamente que aquele era um BMW 973i, da série 28, que tinha duzentos e quarenta e oito e dois terços pistões de potência, e cinco rebimbocas da parafuseta, cinco!, enquanto o melhor carro nacional tinha no máximo três rebimbocas, e, por isso, ele fazia curvas com muito mais estabilidade, blá blá blá, e enquanto a pobre moça fazia de tudo pra parecer interessada, lá vinha o macho alfa, com sua esposa e sua prole, pavoneando-se, peito estufado, cauda colorida toda aberta, chave na mão, pra tomar posse do seu brinquedo.
O diálogo seguinte era inevitável e irresistível:
Puxa, você tem um Mercedes 283¼ M! É verdade mesmo que ele tem um carburador duplo com ventoinha acoplada turbo?
E meu pai, que adorava falar do seu brinquedo, explicava cada detalhe:
Na verdade, é a 845¾ T, série beta, que tem a ventoinha acoplada turbo, a 283¼ M tem ventoinha interna oblíqua, que permite maior blablalização do combustível.
Caramba, que máximo, hein?!
Pois é.
E minha mãe, a namorada e eu trocávamos olhares entediados de que coisa, hein, meninos e seus brinquedos, vai se fazer o quê?
Antes que comecem a malhar meu pai, deixa eu afirmar aqui que tive o melhor pai do mundo. Ele era presente, dedicado e companheiro. Como a bolsa só opera mesmo de manhã, ele saía de casa antes do nascer do sol e, se não tivesse almoço com cliente, já estava de volta bem cedo, para ficar com os filhos, brincar, passear ou, pior, muito pior, nos pegar no colégio.
Meu pai adorava nos pegar no colégio. E podem ficar certos que ele não ia de táxi.
Eu nunca fui dessas crianças bobas que tem vergonha dos pais. Eu tinha e tenho muito orgulho dos meus. Tinha vergonha era do carro.
Meu colégio funcionava em um condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Nenhum dos meus colegas era pobrinho. Mas, mesmo assim, um BMW era demais. Teoricamente, era algo que não poderiam ter nem se pagassem.
E lá vinha o macho-alfa, na fila dos carros, dirigindo seu brinquedão.
Pra mim, não havia saída. Das duas, uma.
Os meninos que não gostavam de mim caçoavam com fúria, me chamavam de filho de bicheiro, que meu pai tinha que ser ladrão, só pode!, senão como teria um carro daqueles?!, bandido, bandido!
Na verdade, eu nunca liguei pra esses. Pior eram os meus amigos.
Eles vinham falar comigo com uma empolgação quase contagiante. Quase. Pena que nasci imune:
Caralho, que máximo, você tem uma BMW 1985, série JG8½c! Não acredito! É essa que tem a injeção eletrotástica barométrica?
Não sei.
Como assim não sabe? Você tem uma BMW 1985, série JG8½c na garagem e não sabe se ela tem injeção eletrotástica barométrica?!
Não. Não sei nem o que é isso.
E válvula de escape ontológica ígnea?
Também não sei.
Porra, mas você não sabe nada.
E eu respondia: por que você não pergunta pro meu pai?
E adivinham o que acontecia? Exatamente isso, claro.
Meus amigos iam pra minha casa, cercavam meu pai como se ele fosse Sócrates na ágora, sorriso de orelha a orelha, mais feliz do que nunca, e ficavam horas conversando sobre todas as especificações técnicas do carro.
Depois, vinha o inevitável passeio.
Para quem não conheceu a Barra na década de 80, era o verdadeiro oeste selvagem. Não havia sinais de trânsito, pardais, faixas de pedestres, acostamento, faixas, nada. A lei e a ordem só iam até a Gávea. Os retornos e sinais de trânsito na Avenidas das Américas são de 1994. Quando eu aprendi a dirigir, em 1991, todo inseguro e morrendo de medo, uma das coisas que mais me confundia era que as auto-pistas simplesmente não tinham as faixas pintadas e eu dirigia que nem um bêbado indeciso.
Enfim, nada me tira da cabeça que meu pai foi morar pra Barra justamente porque era o único lugar da cidade onde ele podia levar seus carros pra passear como se estivesse em uma autobahn prussiana. E ele passeava, meus amigos. Os carros não podiam reclamar de saudades da Europa.
Pior era chegar na casa dos meus amiguinhos, meses depois, e ouvir até os pais comentando o passeio. Claramente, para meus amigos, não tinha sido só um passeio de carro, mas uma aventura memorável e única, uma história que se conta pra família assim que se chega em casa e passa a pertencer ao imaginário coletivo. E me cobriam de perguntas que eu não sabia responder.
Só uma única vez eu dirigi um dos carros importados do meu pai. Eu tinha 19 anos e iria passar o fim de semana no sítio de uma amiga, na serra, e na hora H, meu carro, um Suzuki Swift hatch 1.0, morreu. Meu pai estava fora da cidade e fora de alcance – antes de emails e celulares, lembram? – e eu, muito a contragosto, sem outra opção e me cagando de medo, deixei um recado pra ele na geladeira e subi a serra no seu BMW.
Pois bem. Eu estava dirigindo um BMW caríssimo e super potente, qualquer toquezinho no acelerador e ele já vai a 200km/h, qualquer movimento brusco no volante e a porra já dá um cavalo-de-pau. Cheguei no sítio dela completamente estressado. Além disso, éramos adolescentes e tínhamos coisas mais interessantes pra fazer, como jogar sueca e conferir nossas coleções de selos búlgaros. Esqueci completamente de ligar pra casa pra dizer que tinha chegado bem.
Resultado: meu pai, que perdeu a irmã em um acidente de carro, surtou. Pegou meu Suzuki, que ele conseguiu botar pra funcionar, e subiu a serra já esperando ver os destroços fumegantes pelo acostamento. Não sabia o endereço do sítio de Clarice e ficou perambulando pela cidadezinha, no meu carrinho hipercompacto, perguntando pra todo mundo se alguém tinha visto um adolescente gordinho passar num enorme BMW esportivo. Uma cena bizarra.
Não sei não, mas como ele nunca fez nada parecido, nem antes nem depois, acho que estava preocupado era com o carro.
A única vez que chorei de medo na vida foi descendo a serra, no meio de uma tempestade, e meu pai no volante. Na época em que tínhamos casa em Itaipava, o carro muitas vezes ia e vinha cheio de crianças e adolescentes. Anos depois, todos trintões, barbados e com filhos, fui descobrir que muitos dos meus amigos de infância são tão traumatizados quanto eu pela experiência de descer a serra com meu pai. Meus primos começavam a vomitar já dentro da cidade.
Mas coitadinhos dos carros. Assim como um pastor alemão, um BMW também precisa de exercício.
E dá-lhe acelerador.
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, que é um livrinho de papel mesmo, bonitinho, vermelhinho, com minhas melhores crônicas, incluindo alguns como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e revisada, conta com dois novos textos – inclusive um novo epílogo à narrativa do Katrina.

Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010) Livro.
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Ocasionalmente, eu converso com pessoas-que-acreditam-em-coisas. Quase sempre, são pessoas que gostam muito de mim, me elogiam efusivamente, dizem que sou um espírito avançado, um homem libertário, uma mente aberta, e que por isso sabem que vou receber com carinho e respeito sua mensagem.
Entretanto, quando a conversa acaba, elas estão invariavelmente irritadas, frustradas e ofendidas. Um dedo sempre acaba sendo brandido na minha cara, em meio a palavras como: “você se acha muito mente aberta, mas sua cabecinha é totalmente fechada e impermeável à verdade!”
Eu, que tentei sinceramente ser carinhoso e respeitoso, fico sem saber o que aconteceu.
Na verdade, todo esse longo artigo é somente para fazer uma pergunta que eu sempre quis fazer sobre as pessoas-que-acreditam-em-coisas, mas tem que ficar pro final.
Auto-Definição de um Liberal Libertário Libertino
Como esse texto pode gerar respostas irritadas, acho melhor começar pelo consagrado hábito de definir as palavras. Primeiro, eu mesmo.
Sou um cético libertário e me acho de mente aberta, sim senhor. Tenho certeza de que o universo, a natureza, o corpo humano, a asa de um besouro, tudo, enfim, são muito mais complexos do que podem imaginar nossas vãs ciências. Imagino que muitos dos fenômenos hoje incompreensíveis, inexplicáveis e sobrenaturais são regidos por leis tão naturais, explicáveis e compreensíveis como a lei da gravidade.
Por isso, e por ser inatamente curioso, eu me deixo aberto a tudo. Visito as igrejas de quem me convida. Escuto as teorias de quem quiser contá-las. Leio sobre astrologia, catolicismo, medicina holística.
Cresci em casa de espíritas e umbandistas e já vi e ouvi coisas que a vã ciência realmente não explica. Muito dessa minha experiência está descrita no conto A Falta que nos Fazem os Figos, um dos meus melhores trabalhos, em meu livro Onde Perdemos Tudo, à venda por módicos dez reais, em formato ebook.
Por outro lado, um amigo meu chamado Guilherme me ensinou uma lição que nunca esqueci: a explicação mais simples em geral é a verdadeira.
Então, diante de uma pessoa que recebe um preto véio, qual é a explicação mais simples e mais provável?
a) que existe um outro mundo invisível, povoado por bilhões de espíritos desencarnados, que eles entram em contato com o nosso mundo, andam entre nós sem ser vistos exceto por alguns poucos, etc etc etc
b) esquizofrenia
Definição de Pessoas-Que-Acreditam-em-Coisas
Será que eu preciso mesmo explicar o que são pessoas-que-acreditam-em-coisas?
Grande parte dos fãs desse artigo são praticantes de religiões estabelecidas que acham que estou falando de místicos e ocultistas. Já soube até de um pastor evangélico que usou o texto para atacar espíritas e umbandistas. Alteridade zero, não entenderam que o artigo é sobre eles também.
Do ponto de vista externo, não há diferença alguma entre alguém que acredita em um negrinho de uma perna só que mora no redemoinho, em um biscoito de farinha que vira o corpo de alguém que morreu há dois mil anos, ou que a posição do planeta Netuno influencia nossas vidas. Um judeu ortodoxo não poderia se imaginar mais diferente do que um matuto que acredita no curupira mas católicos e wiccans, holísticos e macumbeiros, astrólogos e cientólogos, são todos igualmente pessoas-que-acreditam-em-coisas.
Alguém que só bebe cerveja não poderia ser mais diferente do que alguém que só bebe absinto, mas, do ponto de vista de um abstêmio, sinceramente, é tudo a mesma coisa.
Na prática, aliás, a diferença entre uma pessoa-que-acredita-em-coisas e um ateu é mínima: a pessoa-que-acredita-em-coisas acha que todas as crenças estão erradas, menos uma, e o ateu acha que essa também.
Se Você Diz, Eu Acredito
Vamos então ao diálogo. O diálogo abaixo já se repetiu dezenas de vezes na minha vida, com pequenas variações.
A pessoa-que-acredita-em-coisas me chama pra conversar. Sabe que sou uma mente aberta e libertária, blá blá, e quer me expor suas crenças. E eu, tolinho, aceito. A curiosidade sempre vence a experiência. Se não fosse isso, ninguém casava pela segunda vez.
Primeiro, ela me conta qual sua verdade. Essa é a parte fácil.
“Alex”, ela diz, pegando em minha mão, muito séria, “existem elefantes roxos que flutuam.”
Eu não duvido nem desduvido. Emito um grunhido descompromissado e peço pra pessoa-que-acredita-em-coisas continuar.
Nessa hora, a pessoa-que-acredita-em-coisas pega de novo em minha mão, me olha fundo nos olhos e praticamente implora: “Você acredita em mim, Alex?”
Eu digo que não acredito nem desacredito, mas que acredito que ela acredita e quer o meu bem, então, por mim já está mais que bom.
Algumas pessoas-que-acreditam-em-coisas nunca viram o seu elefante roxo flutuante. Outras afirmam conhecimento pessoal e direto:
“Eu vi. Eu conheço os elefantes. Já flutuei com eles. Agora, você acredita em mim?”
Respondo, pra não condenar prematuramente a conversa, que sim. Afinal, por muito menos testemunho que isso, os americanos proclamaram os irmãos Wright os pais da aviação:
“Se você diz que existem elefantes roxos que flutuam e que você viu, eu acredito.”
Se fosse só assim, seria ótimo. Mas nunca é assim.
Mas Como É Que Funciona?
Quase sempre, eu estrago tudo fazendo uma pergunta. Nunca é uma pergunta-desafio. Não nessa etapa. É uma pergunta-curiosidade mesmo. Se eu estou sentado com uma pessoa-que-acredita-em-coisas, é porque quero entender sua visão de mundo.
Então, eu pergunto:
“Mas como o elefante flutua? Quer dizer, se você dissesse que ele voa, eu iria presumir que ele fica batendo suas asinhas freneticamente no ar como um beija-flor. Mas se ele flutua, como ele flutua? Será alguma coisa relacionada aos campos magnéticos?”
Aí começam os gritos:
“Eu sabia! Você se diz mente aberta mas não tem fé nos elefantes roxos que flutuam, fica aí questionando tudo com sua mente tacanha infectada por essa pseudo-ciência que nos enfiam goela abaixo na escola. Onde estava esse seu espírito crítico todo quando lhe ensinaram que as doenças são causadas por micróbios que ninguém vê?”
“Não tenho nenhum amor pela ciência tacanha que nos enfiaram goela abaixo na escola. E não estou duvidando da existência dos elefantes roxos que flutuam. Se você me diz que viu, eu acredito. Mas só estava curioso pra saber o mecanismo através do qual eles flutuam.”
“Herege! Infiel! Descrente!”
Eu não me conformo:
“Mas você não teve nem um pouco de curiosidade? Você viu o elefante roxo flutuando e não parou pra se perguntar nem por um segundo como ele faz pra flutuar?”
“Claro que não. Eu não sou um espírito pequeno como você, amarrado a essa pseudociência dos homens. O elefante roxo que flutua é sagrado. Ele só pode ser visto por pessoas que estão em sintonia com as forças elementais do universo. Ele flutua porque não saberia não-flutuar. Na verdade, não é ele que flutua, é o chão que não-flutua aos seus pés.”
Esse primeiro atrito ainda dá pra superar. Eu paro de fazer perguntas que a pessoa-que-acredita-em-coisas não sabe mesmo responder e ela se acalma.
A próxima fase é que apresenta o conflito insuperável.
Preciso Que Prometa Mudar sua Vida
Finalmente, eu consigo convencer a pessoa-que-acredita-em-coisas de que sua palavra é suficiente para mim. Se ela diz que existem elefantes roxos que flutuam, então existem elefantes roxos que flutuam. Mas e daí?
Pois é no “e daí” que a coisa se complica. Os elefantes roxos que flutuam não se limitam a existir. Eles sempre querem alguma coisa de nós.
(Eu, por exemplo, bem acho que deus pode existir. Não vejo irracionalidade ou improbabilidade alguma em o big bang ter sido acionado por uma mão divina ou que uma mão divina tenha criado as espécies animais e os planetas, etc. A grande questão é outra: por que deveria eu viver de forma diferente só porque o universo foi criado por um ser divino e não por forças cósmicas aleatórias?)
Então, meu interlocutor coloca de novo a mão sobre a minha (pessoas-que-acreditam-em-coisas também acreditam firmemente em contato físico) e diz:
“Pois bem, Alex, já que você é uma mente cheia de luz que aceita a verdade cósmica dos elefantes roxos que flutuam, eu preciso te dizer que os elefantes roxos que flutuam revelaram para nós, os espíritos iluminados capazes de ver os elefantes roxos que flutuam, que a fonte de todo o mal na humanidade é usar camisetas brancas, aquelas básicas, de malha.”
“Hã, tipo Hering?”
“Nem fale esse nome que você atrai más vibrações. Essa empresa é a maior incentivadora do mal no mundo.”
(Por algum motivo que me escapa, as pessoas-que-acreditam-em-coisas geralmente implicam com as palavras, dando a elas um poder que não têm. Como nos livros de Harry Potter, onde ninguém, a não ser o Harry, tem coragem de pronunciar o nome do vilão Voldemort. Naturalmente, essa cegueira só faz facilitar o renascimento do feiticeiro. Mais naturalmente ainda, os livros de Harry Potter são quase que unanimimente considerados pelas pessoas-que-acreditam-em-coisas como fortes incentivadores das forças diabólicas blá blá)
Estamos chegando na parte complicada. A pessoa-que-acredita-em-coisas coloca a mão em cima da minha e diz:
“Você acredita em mim?”
“Sim”, eu digo, como o rapaz bonzinho que sou.
“Você acredita que eu só quero o seu bem, que só estou aqui com você (isto é, perdendo meu tempo falando com um descrente) porque acredito que você vale a pena, que você não veio a esse mundo por acaso, que você está pronto para receber a verdade que eles não querem que você saiba?”
“Sim”, eu respondo.
(Quase sempre, é verdade. Eu tenho um canto especial no meu coração para as pessoas que acreditam sinceramente que eu vou pro inferno por toda a eternidade e fazem tudo o que podem pra evitar essa tragédia.)
“Então, prometa que nunca mais irá usar camisetas brancas. Jamais. Para o seu próprio bem. Para o bem da sua alma.”
Pronto. Não há conversa com pessoa-que-acredita-em-coisas que não chegue inevitavelmente nessa fase.
As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas com o respeito que você tem pela crença delas. As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas de você garantir que confia em suas palavras e que, bem, se dizem que viram elefantes roxos flutuantes, então é porque existem mesmo.
Não, meus amigos. As pessoas-que-acreditam-em-coisas querem mudar a sua vida. E não se satisfazem com menos.
E a MINHA vida seria muito mais simples se eu fosse capaz de colocar minha mão em cima da mão deles que está em cima da minha outra mão e dizer:
“Sim!, claro!, claro que sim! Claro que vou mudar um hábito de toda uma vida só por causa de uma afirmação completamente não-fundamentada feita por um quase completo desconhecido. Como não?”
Mas, raios, eu não consigo.
Então, suavemente, respeitosamente, tomando o máximo de cuidado para enfatizar minha tolerância, eu digo:
“Olha, eu não posso prometer isso, não.”
O pior é a surpresa sincera de sua indignação:
“Mas como não? Você não ouviu tudo o que acabei de falar?!”
“Ouvi, claro, mas-”
“E, mesmo depois de ouvir tudo isso, como pode ainda assim dizer que continuará usando essas camisetas brancas de malha?”
Sei que estou em território minado e que todas essas palavras serão jogadas na minha cara com ódio de qualquer jeito mas, para satisfazer minha consciência, tomo todo cuidado possível para ser extra-delicado e respeitoso:
“Bem, acredito em você quando diz que viu os elefantes roxos flutuando, mas isso não significa que estou disposto a mudar minha vida por causa desse fato.”
E, com mais cuidado, eu acrescento:
“Além disso, você não me deu nenhum motivo concreto para parar de usar camisetas brancas.”
(Reparem que eu não disse “motivo lógico”. Para as pessoas-que-acreditam-em-coisas, a palavra “lógica” tem o mesmo efeito do que alho para vampiros. Confesso que também não gosto muito de lógica. As pessoas que invocam muito a lógica em geral estão querendo te engrupir. Hoje em dia, a lógica é muito mais usada para enganar e confundir do que para explicar, mas pelo menos não tenho medo da palavra.)
E continuo:
“Você nem mesmo me explicou a relação entre os elefantes roxos que flutuam e as camisetas brancas. De que modo as camisetas brancas nos afetam negativamente? O que exatamente elas fazem? Afetam nossas vibrações? Roubam nossa energia? Atraem maus espíritos?”
(Espero que a essa altura do campeonato vocês já tenham percebido que nada desse artigo é ficção. Todas as frases que estão aqui eu já ouvi trocentas vezes, de tudo quanto é pessoa-que-acredita-em-coisas, de evangélicos a wiccans. Essa próxima então é a minha preferida.)
“Alex”, diz o outro, com ar superior, “eu realmente não me rebaixaria a explicar, pra um homem da sua inteligência e da sua capacidade, o enorme poder nocivo das camisetas brancas.”
Eu coço a cabeça:
“Recusa?”
“Claro que recuso. É óbvio. Patentemente óbvio. Você só não vê porque não quer. Porque está com o coração endurecido. Porque, ao contrário do que pensa em sua imensa vaidade, sua mente está fechada a tudo que não se conforme à sua visão estreita de mundo. Porque está comprometido com a verdade DELES.”
É nesse ponto que fica patente a total inutilidade de conversar com pessoas-que-acreditam-em-coisas. Elas não querem que você escute suas crenças, ou que as respeite, ou mesmo que as aceite. Elas querem, sinceramente, a sua alma, e não se contentam com nada menos do que isso.
Na verdade, como nunca passei desse estágio, nem sei se é apenas isso que querem. Pode ser que quando você lhes hipoteque sua alma, eles queiram ainda mais. Pode ser que quando você diga “sim, claro, nunca mais usarei camisetas brancas”, eles já tenham outro pedido ainda mais despropositado pra fazer. Jamais saberei.
Finalmente, abandono um pouco a diplomacia e tolerância que mantive até ali e tento esclarecer:
“Desculpa, deixa eu ver se eu entendi direito. Você me vem com uma crença totalmente insensata de elefantes roxos que flutuam e espera que eu acredite nisso baseado somente na sua palavra. Ou seja, eu tenho que pesar, de um lado, toda a minha experiência de vida, tudo o que eu já observei e estudei e, do outro, somente você. Mesmo assim, contra qualquer lógica, eu escolho a sua palavra, apesar de você nunca se dar ao trabalho de nem mesmo tentar explicar como os elefantes ficaram roxos ou como flutuam.
Então, você afirma que a existência de elefantes roxos flutuantes significa que camisetas brancas são malignas, mas em momento algum você nem tenta clarificar qual é a conexão lógica entre esses dois fatos aparentemente desconexos. Também não explica de que modo ou porque as camisetas brancas são malignas, por isso ser tão patentemente óbvio para qualquer ser pensante. Por fim, com base nessa cadeia de afirmações mais frágil do que um prédio do Sergio Naya, você pretende que eu abandone um hábito de uma vida inteira. É isso?”
“Sim. Exatamente. Então, você promete?”
Você Precisa Sentir Que Estou Falando a Verdade
Estamos chegando finalmente à minha grande dúvida sobre as pessoas-que-acreditam-em-coisas, a dúvida que motivou todo esse artigo.
Quando digo que não vou mudar meus hábitos em função de suas crenças, as pessoas-que-acreditam-em-coisas ficam tão surpresas e indignadas que eu me pergunto: como reagem normalmente seus outros interlocutores? Será que sou o único que se recusa?
A maioria das pessoas-que-acreditam-em-coisas (exceto as que estão em maioria, como cristãos no ocidente, etc) vive em um mundo repleto de pessoas-que-não-acreditam-nas-coisas-em-que-acreditam. E suponho que devem rotineiramente expor suas crenças para os descrentes, especialmente para os descrentes que amam, para aqueles que querem sinceramente salvar dos efeitos malignos das camisetas brancas e afins.
E volto à dúvida: como é então que funciona isso? Será que sou o único que se recusa a mudar de hábitos?
E as pessoas-que-acreditam-em-coisas respondem, tentando fazer eu me sentir culpado:
“Você não entende, não é, Alex? Acha mesmo que eu me dou a tanto trabalho, que perco tanto tempo, com qualquer um? Estou aqui transmitindo essas verdades vitais pra você porque acho que você vale a pena, porque sei que você é um ser especial que foi colocado nesse planeta para cumprir uma missão única. Porque acreditei que entenderia.” (Quase dá pra ouvir seu coração lentamente se despedaçando.)
“Realmente não entendo.” Eu respondo: “Você esperava sinceramente que eu largasse hábitos de toda uma vida… só porque você disse pra eu fazer isso? Baseado em quê? Você nem ao menos me deu qualquer tipo de razão.”
E a pessoa-que-acredita-em-coisas mais uma vez coloca sua mão sobre minha mão e afirma:
“Baseado na sua intuição, na sua fé. Você tem que *sentir*, no seu âmago, que eu estou falando a verdade.”
“Pôxa”, eu respondo, “a única coisa que estou sentindo é vontade de ir embora.”
Nunca li Dawkins, que sempre me pareceu um ateu militante, algo que desprezo um pouco, mas Freud em O Futuro de uma Ilusão já falou tudo o que eu sempre quis dizer sobre religião.
Você Não Pode Estar Sinceramente nos Comparando a Eles!
Estamos chegando no fim da conversa.
A pessoa-que-acredita-em-coisas finalmente percebe que não vai conseguir mudar toda minha filosofia de vida ao longo de um único almoço. Então, fica puta, defensiva, ofendida.
“Você é o pior tipo de cético, Alex. Você é o cínico que vaidosamente se considera cabeça aberta. Mas você nunca deu uma chance à verdade que tentei lhe transmitir. Já chegou com ouvidos moucos e coração endurecido.”
“Não é verdade. Eu te ouvi com o mesmo respeito e atenção que ouço as pessoas que acreditam em rinocerontes verdes subterrâneos ou trutas vermelhas intergalácticas. Sei que são pessoas que acreditam sinceramente em suas crenças e que sinceramente querem o meu bem, então escuto com resp-
Pronto. É exatamente nesse momento que eu alieno, irremediavel e inapelavelmente, todas as pessoas-que-acreditam-em-coisas:
“Peraí, Alex, agora você está me agredindo. Você não pode sinceramente querer comparar a minha fé com a dessas pessoas que acreditam em rinocerontes verdes subterrâneos. Só fanáticos idiotas de uma seita xexelenta poderiam acreditam em uma superstição medieval sem nenhum embasamento como essa! Sobre os elefantes roxos flutuantes, por outro lado, já existe toda uma sabedoria acumulada, um cânone consagrado, milênios de estudos, um corpus de compêndios sapienciais, grandes exegetas e estudiosos, uma disciplina rigorosa de corpo e mente!”
Eu suspiro:
“O pessoal dos rinocerontes verdes subterrâneos fala a mesma coisa.”
“Sim, mas porque são uns fanáticos intolerantes que só enxergam sua própria superstição. Eu vou ficar ofendido se você der a entender, mais uma vez, que nós temos algo a ver com esses hereges dos rinocerontes verdes subterrâneos.”
“Bem, o pessoal dos rinocerontes verdes subterrâneos também chegou pra mim com a melhor das boas intenções, também me juraram que existem rinocerontes verdes subterrâneos, mas não explicaram como eles fazem pra viver debaixo do solo, e me alertaram para não usar camisas pólo azuis, mas não me explicaram nem porque elas fazem mal nem qual a relação delas com os rinocerontes verdes subterrâneos. Então, o que eu faço? Quem está com a razão?”
“Olha só, Alex, se não vai falar sério, não dá pra conversar. Eu perdi uma tarde inteira pra te ajudar e você me vem com deboche. Você não pode estar sinceramente considerando que esses caras são sérios. Eles acreditam em rinocerontes verdes subterrâneos, pelo amor de deus. Uma coisa que não faz o menor sentido. Totalmente ridícula!”
E ainda riem:
“Onde já viu! Rinocerontes verdes subterrâneos!”
* * *
Esse talvez seja o meu texto mais famoso, mais citado, mais republicado por aí. Ele está no meu livro Liberal Libertário Libertino, que é um livrinho de papel mesmo, bonitinho, vermelhinho, com minhas melhores crônicas, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e revisada, conta com dois novos textos – inclusive um novo epílogo à narrativa do Katrina.

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As melhores crônicas de Alex Castro, originalmente publicadas no jornal Tribuna da Imprensa e no blog Libertal Libertário Libertino, entre 2003 e 2007: “Fantasmas de Felicidades Passadas”, “Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas” e “Manifesto Libertário”, entre outras, além das aventuras do Oliver durante o Katrina. Agora (2010) em 2ª edição, revisada, com dois textos novos – incluindo um epílogo atualizado à narrativa do Katrina.

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Trechos
Fantasmas de Felicidades Passadas
Tanta felicidade morta tem um peso opressivo. Quanto maior a felicidade, mais fedorenta a massa putrefata. Um triplo assassinato não teria deixado a atmosfera tão pesada quanto aqueles longos beijos ao pôr-do-sol. Passo por lá e posso sentir o velho ponto de ônibus me atormentando, esfregando minha felicidade passada em minha própria cara, me acusando de não ser tão feliz quanto era, de não ser tão feliz quanto poderia ser. … Um momento realmente feliz nunca deixa de existir. Ele continua reverberando para sempre. Sua existência é tão concreta que ele quase pode ser visitado, como se visita a casa de um velho amigo.
Pessoas-Que-Acreditam-em-Coisas
As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas com o respeito que você tem pela crença delas. As pessoas-que-acreditam-em-coisas não estão satisfeitas de você garantir que confia em suas palavras e que, bem, se dizem que viram elefantes roxos flutuantes, então é porque existem mesmo. Não, meus amigos. As pessoas-que-acreditam-em-coisas querem mudar a sua vida. E não se satisfazem com menos.
A Tirania das Bananas
A banana é uma tirana caprichosa. Ontem, eu te desprezei, não queria nada com você, tinha outras prioridades. Hoje sou sua, inteira, doce, fálica. Amanhã já não estarei mais aqui, serei casca virada no seu folhetim.
A Auto-Confiança dos Ricos
Eu tinha um vizinho milionário. Ele detestava dirigir e não queria se estressar com documentação, impostos, seguro, consertos. Então, contratou uma empresa de rádio-táxi para que mantivesse um carro, a sua disposição, 24 horas por dia, na portaria do prédio. Pronto. Se um quebrasse, que mandassem outro. O homem só sabia uma coisa: tinha dinheiro que não acabava mais e não queria se aporrinhar. A pergunta: esse homem vivia fora da realidade?
Pra começar, que realidade, cara-pálida? Existe só uma realidade? Ou será que existe uma realidade certa e outras tantas realidades erradas? Se sim, quem decide qual é a certa e qual são as erradas?
Eu, Oliver e Katrina
Em agosto de 2005, eu e meu poodle Oliver (um cachorro de rua que encontrei na favela de Rio das Pedras), nos mudamos para Nova Orleans, onde eu começaria um doutorado em Português. Menos de duas semanas depois, a cidade teve que ser evacuada por causa do furacão Katrina. Sem carro, sem dinheiro e sem conhecer ninguém, eu acabei sendo obrigado a deixar o Oliver em casa, com comida para muitos dias, e fui evacuado junto com o pessoal da universidade para um abrigo em Jackson, Mississippi.
Dormi apenas uma noite no abrigo. No dia seguinte, ficou claro que a situação era muito mais séria do que imaginávamos. Abandonei o abrigo e consegui pegar um dos últimos vôos saindo de Jackson antes do aeroporto ser fechado. Viajei em uma daquelas cadeiras retráteis da tripulação. A noite que passei sozinho no aeroporto de Detroit, véspera do furação, assistindo a CNN prever a hecatombe do dia seguinte, pensando obsessivamente no cãozinho que dependia de mim e não consegui proteger, foi a pior da minha vida.
O Que Você Gosta de Ouvir?, Me Perguntou Um Amigo
Eu: Mulher rindo. Alho refogando. Zíper abrindo. Ondas quebrando. Gemidos de gozo. Criança brincando. Dois sapatos caindo no chão, um depois do outro. O apito do sorveteiro que passava pela minha casa. Passos descalços no chão frio. “Eu te amo, Alexandre.” O Oliver latindo quando chego em casa. Saltos altos no mármore. Máquina de escrever elétrica. Pisada forte de mulher decidida. Apito do recreio. Pernas femininas, vestidas de couro ou latex, roçando uma contra a outra enquanto andam. Suspiro saciado de prazer. O telefone me acordando de manhã.
Ele: Não. Eu quis dizer de música.
Eu: Ah.
Saindo do Armário
É ao me revelar que descubro que vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede. É ao me mostrar que descubro quem vai me dar as mãos nessa viagem e quem vai estancar na encruzilhada. Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas. Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.
Manifesto Libertário: Sejam Grandes
Tudo o que eu quero é abrir os seus olhos, nem que apenas por um segundo, nem que você discorde de mim, para o fato de que o mundo, como ele é hoje, não é uma construção unânime. O próprio processo histórico se encarrega de eliminar todas as possibilidades alternativas, todos os caminhos que poderiam ter sido percorridos e que não foram, até gerar a ilusão de que o modo como as coisas são é o único modo como poderiam ter sido. Mas não é verdade. Existem vozes dissidentes, existem pessoas que pensam diferente, existe a possibilidade de viver uma outra vida, sem mesquinharias, tribalismos, religiões, maniqueísmos, preconceitos, prisões. Mais ainda, sem esqueminhas mentais dogmáticos e pré-fabricados, que almejam explicar tudo com suas formulinhas, mas que só conseguem embotar o pensamento humano, como o marxismo e o cristianismo.
Ser pequeno, mesquinho, preconceituoso, ressentido, invejoso, tudo isso é muito fácil. E muito tentador. O desafio que lanço aos meus leitores é outro: sejam grandes!
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Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed: 2010) Livro.
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Ontem, na Tribuna da Imprensa, uma matéria muito elogiativa de Marcelo Copelli sobre os lançamentos dessa semana:

O carioca Alex Castro é escritor, cronista e dono do blog Liberal, Libertário, Libertino, um dos mais lidos da internet brasileira. Dentre seus romances está “Mulher de um homem só”, baixado mais de 30 mil vezes durante o período em que esteve disponível gratuitamente. Uma marca, aliás, muitas vezes não atingida por escritores com livros publicados.
Na seqüência, foi um dos pioneiros em experiência de e-book (livro eletrônico) pago do Brasil, com “Onde perdemos tudo”. Começou a escrever antes mesmo de se ouvir falar em blogs, “quando eu mal tinha e-mail”, lembra Alex, que é cronista da Tribuna BIS. Resolveu, posteriormente, colocar seus textos na internet para testar a receptividade das pessoas.
E fez sucesso. Escreve, antes de tudo, por prazer (“É o que eu sei e quero fazer, desde que me entendo por gente”). e, neste ato, ousa, mescla nuances, porém reluta em atrelar as possíveis armadilhas e devaneios do seu ego ao trabalho, “Eu não sou o que eu faço, eu sou o que sou”, diz.
Ainda assim, é quase inevitável não associar o espírito contemplativo e satírico do autor aos seus textos, muitas vezes apimentados por uma intrínseca e inteligente irreverência, diga-se de passagem. Já Luiz Biajoni, jornalista paulista, igualmente blogueiro, é autor do e-book mais resenhado da rede “Sexo anal – Uma novela marrom”, romance que dá idéia de “jornalismo marrom”, explorando violência e o sexo, além de mais de 50 textos virtuais. 
Segundo Castro, “Biajoni é dotado de uma imensa genialidade e demonstra, em suas obras, uma força vital incontrolável”, comenta. Ambos, sucesso de visitas nos blogs, reconhecidos e agraciados pela crítica literária, conheceram-se pela internet. Tanto um quanto o outro usaram a experiência virtual como aprendizado, e não tiveram o uso do recurso como forma de limitação ou isolamento.
Ao contrário, fizeram da ferramenta um meio de interação com os leitores, que passam de 5 mil por dia. Os dois, então, desenvolveram conjuntamente um projeto e decidiram agora sair dos campos virtuais para o papel, lançando os livros “Liberal Libertário Libertino – Crônicas” e “Virgínia Berlim – Uma experiência”. Alex Castro, autor do primeiro, lança também em formato e-book “Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas cubanas”.
Casos inusitados
Em “Liberal Libertário Libertino – Crônicas”, Alex Castro escreve com envolvente habilidade sobre temas banais, descreve experiências e conta casos inusitados, como a história de sua fuga do furacão Katrina, em New Orleans, e a posterior busca por seu cão, Oliver, nos escombros da cidade.
Neste período, lembra Alex, “os leitores do blog acompanhavam diariamente meus passos. Preocupavam-se com o Oliver (o cachorro) e aguardavam notícias minhas. Parecia uma novela”, lembra o escritor. Em “Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas cubanas”, Alex nos mostra um novo olhar sobre Cuba, através de textos e imagens que oscilam entre a simpatia e a crítica, o amor e a repressão, revelando aspectos insólitos da cultura cubana.
Muitas das crônicas de ambos os livros foram publicadas originalmente, em sua coluna de sexta-feira, na TRIBUNA DA IMPRENSA. Luiz Biajoni, por sua vez, nos traz em “Virgínia Berlim – Uma experiência” um exercício de estilo para contar uma história de conquista e perda entre duas pessoas, colegas de trabalho que se apaixonam.
Uma obra intimista, que inova ao trazer, como brinde, um CD com canções que têm as letras traduzidas em anexo. O design e a edição dos três livros são de Albano Martins Ribeiro, do selo OsViraLata, um projeto inovador com foco na divulgação de trabalhos de escritores independentes e a promoção do contato entre autores e leitores. Através do site do selo (www.osviralata.com.br), o leitor poderá adquirir as obras, tanto as impressas quanto o e-book.
LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO – CRÔNICAS – Crônicas de Alex Castro. Edição OsViraLata. 136 págs. R$ 28,50
RADICAL REBELDE REVOLUCIONÁRIO – CRÔNICAS CUBANAS – Crônicas de Alex Castro. Ed. OsViraLata (e-book). 155 págs. R$ 20.
VIRGÍNIA BERLIM – UMA EXPERIÊNCIA. Romance de Luiz Biajoni. Ed. OsViraLata. 68 págs (inclui CD). R$ 28,50
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