Por Alexandre Rodrigues. Valor Econômico, de São Paulo. 22 de março de 2013.
Criado em um apartamento de 600 metros quadrados na Barra da Tijuca, no Rio, o escritor carioca Alex Castro cresceu tendo para si um quarto com mais de 20 metros quadrados. Hoje vive em um apartamento pouco maior do que isso. Nos 22 metros que ocupa, em Copacabana, são poucos os móveis e objetos e, se há um sofá e uma rede, não há espaço para uma cama. Nem gavetas nem armários, exceto um pequeno, de limpeza. Além de três pares de sapatos, seus pertences são outros três de Havaianas, três calças, uma camisa, 12 camisetas (número aproximado), dois casacos, um blazer, dois jogos de toalhas, dois de cama, alguns utensílios de cozinha, um notebook, um Kindle, um celular e uma câmera digital. Poderia ser uma história de ruína financeira, mas se trata de um fenômeno cada vez mais observável. Castro aderiu a um estilo de vida minimalista.
Como os movimentos artísticos do século passado que lhe emprestam o nome, o minimalismo do século XXI prega a redução do estilo de vida ao essencial. O fenômeno ganhou uma vertente importante a partir da digitalização da cultura e da internet. As músicas se tornaram MP3, descartando os CDs. Serviços como o Netflix, que passam filmes em “streaming”, e “torrents” feriram de morte os DVDs. Os livros ainda resistem, mas para muitos é questão de tempo – a Amazon já vende mais livros eletrônicos do que físicos e hoje uma biblioteca inteira pode ser guardada e lida em um “tablet” ou Kindle. Veio a crise na economia mundial e a ideia de consumir menos ganhou novos adeptos.
“Não tenho um simples CD ou DVD e tenho só 10% dos livros que já tive”, escreveu Graham Hill, milionário da bolha da internet, na semana passada, no jornal “The New York Times”. Após enriquecer vendendo sua primeira empresa, Sitewerks, por mais de US$ 300 milhões em 1998, ele se viu de uma hora para outra comprando óculos de US$ 300, “gadgets” de todo tipo e com um Volvo turbo na garagem. A certa altura, sem tempo, tinha um “personal shopper”, treinado em seus gostos pessoais, para não precisar ir às compras pessoalmente.
Com o tempo, sua vida se complicou. Decidiu mudar-se para um apartamento de quatro andares em Nova York, que precisava de novos móveis e acessórios. O momento em que decidiu abandonar tudo veio quando conheceu Olga, nascida em Andorra, que o fez deixar os Estados Unidos e ir morar em um pequeno apartamento em Barcelona. Depois, nem isso.
O casal viveu como nômade entre Buenos Aires, Bangcoc, na Tailândia, e Toronto, no Canadá. Mesmo o romance tendo acabado, Hill não voltou à antiga vida: “Eu gosto de coisas materiais tanto quanto qualquer um. Estudei design de produtos no colégio. Apoio ‘gadgets’, roupas e todos os tipos de coisas. Mas minhas experiências mostram que depois de certo ponto os objetos materiais têm uma tendência a piorar as necessidades emocionais que deveriam apoiar”.
Histórias como a dele se contrapõem a um fenômeno: somos acumuladores. Não é preciso recorrer a casos extremos de pessoas que vivem cercadas pelo próprio lixo. Em um estudo da Universidade da Califórnia, antropólogos submergiram por nove anos na vida de 32 famílias de classe média americanas. Fotografaram cada objeto que entrava nas casas, registrando o atulhamento. Constataram que gerenciar a quantidade de tralhas acumuladas é uma das prioridades de qualquer morador adulto e que há uma curiosa correlação entre a bagunça de ímãs e bilhetes na porta da geladeira e do resto da casa. E a melhor de todas: 75% das garagens estavam tão lotadas de quinquilharias que já não permitiam a entrada dos carros.
Nas últimas décadas, estudos de psicologia revelaram os efeitos negativos desse hábito. Pessoas consumistas são mais ansiosas, infelizes e antissociais, concluíram, em uma série de estudos, dois pesquisadores americanos, Tim Kasser e Aaron Ahuvia. No ano passado, um trabalho conduzido por Galen V. Bodenhausen, da Universidade Northwestern, também nos Estados Unidos, chegou às mesmas conclusões, acrescentando que entre os consumistas desenfreados as taxas de bem-estar eram mais baixas do que em outros grupos.
O culto do “viver com menos” propõe uma ida ao extremo oposto. Não é um movimento, mas um fenômeno de muitas facetas, sem causa única e nenhuma regra. Mesmo assim, a ideologia minimalista se espalha na internet, com centenas de sites, blogs e perfis em redes sociais contando experiências e dando sugestões. “Não sei bem se há um movimento. Mas existem cada vez mais pessoas pensando que é simplesmente insustentável a quantidade de objetos que carregamos pela vida”, diz Alex Castro, que discute o minimalismo em seu site pessoal (alexcastro.com.br).
Ler a respeito fez Andrew Hyde, escritor e consultor de “startups”, desistir do apartamento onde acumulava coisas de uma vida toda. Primeiro, reduziu todos os pertences a cem itens. Concluiu: ainda era demais. Em agosto de 2010, pôs à venda quase tudo e ficou com apenas 15 coisas. Desde então, é o máximo de objetos que se permite ter. Descoberto por um radialista, ficou famoso. Aproveitou a notoriedade e, com itens como uma mochila, um par de camisas (veste uma a cada dois dias), um iPhone e uma toalha, viajou por 15 países, inclusive o Brasil no segundo semestre de 2012, reunindo histórias para o livro “A Modern Manual – 15 Countries with 15 Things” (Um manual moderno – 15 países com 15 coisas”).
“Quando algo estraga, tento consertar. Se não consigo, compro algo parecido na loja”, conta. E não foi só. Além de ter só 15 coisas, decidiu, como Hill, não ter mais moradia fixa. Continua viajando e cumprindo, em paralelo ao projeto minimalista, uma lista de desafios pessoais, como correr uma maratona (cumpriu), cair na festa em Barcelona (cumpriu) e escalar grandes montanhas (a cumprir).
“É um processo de anos. Você vai percebendo que precisa de menos coisas. Que não precisa de dez calças, de dez pares de sapatos. Que não precisa ter na estante todos os livros que leu”, diz Alex Castro. Ele se preocupa agora em manter o estilo de vida espartano também no mundo digital. “Não guardo filme algum. Sempre que assisto, apago.”
O conceito não é novo. Sem contar o exemplo do filósofo Diógenes, que na Grécia Antiga condenava os luxos da civilização e viveu em um barril, e uma penca de santos, Steve Jobs foi um minimalista. Uma ironia, já que parte importante de seus negócios era convencer pessoas a abandonar seus antigos MacBooks, iPhones, iPods e iPads por novos modelos. Mesmo rico, quando solteiro ele vivia praticamente sem nada: uma foto de Einstein em um porta-retratos, uma luminária, uma cadeira e uma cama. O humorista Ronald Golias (morto em 2005), outro adepto das poucas posses, dizia que cada uma significava uma nova responsabilidade e com um número pequeno podia usufruir melhor de todas.
A ideia de que podemos viver com bem menos – no caso, espaço – também está por trás de alguns empreendimentos imobiliários recentes em São Paulo. Apartamentos de pouco mais de 20 metros quadrados já são comuns nos lançamentos em bairros como Campo Limpo, Brooklin e Bela Vista. Repete-se aqui a tendência já verificada em metrópoles como Montreal, Hong Kong e Tóquio, onde a falta de espaço fez dos “miniflats” o padrão nas construções.
Pouco espaço significa poucos pertences. O impacto afeta a maneira como cada um se relaciona com o lugar onde vive. “Essa noção de lar restrito ao espaço físico se expandiu. Posso estar em outra cidade, mas, ao me conectar à internet, converso com meus amigos e minha família como se estivesse em casa”, diz o arquiteto Guto Requena, um dos responsáveis pelo projeto do escritório do Google em São Paulo. “Imagino para o futuro uma tribo de nômades capazes de, com poucos pertences e constantemente conectados, fazer de qualquer lugar o próprio lar.”
Não precisa imaginar. É a vida do americano Chris Yurista, agente de viagens e DJ, morador de Washington, que, vendo os pertences aos quais dava valor transformados em mídia digital – chegou a ter dois mil discos de vinil -, em 2009 decidiu abandonar o apartamento no porão onde morava e, guardando suas melhores roupas, um Macbook, um HD externo com 13 mil MP3s, um miniteclado musical e uma bicicleta, nunca mais teve um lar. “Não me sinto vazio vivendo como vivo porque descobri uma maneira de usar a tecnologia digital para minha vantagem”, diz. Noite após noite, dorme nos sofás de amigos ou quartos de hotel.
Mas, se reduz pertences ao menos possíveis, o estilo de vida minimalista não rompe com a sociedade de consumo. É sintomático que várias vezes, entre os objetos restantes, sejam listados aparelhos da Apple, a mais fetichista das marcas. Além do mais, um Kindle, um videogame, um bom computador e um smartphone como o iPhone ou o Samsung Galaxy custam, somados, mais do que uma estante cheia de livros, fora valer mais do que a renda anual da população de muitos países. Com a evolução da tecnologia, também acabam trocados de tempos em tempos, aumentando a pilha de lixo tecnológico.
A reação do inglês Mark Boyle a essas contradições foi a experiência minimalista mais radical. Ex-dono de duas empresas de comida orgânica, formado em economia, em 2008 ele decidiu renunciar ao dinheiro. “Na manhã em que finalmente desisti de usar dinheiro, o mundo inteiro mudou. Foi no mesmo dia das notícias sobre a quebra dos bancos envolvidos em negócios no mercado de hipotecas subprime. Então, quando comecei a contar às pessoas os meus planos, concluíram que estava me preparando para algum tipo de colapso financeiro apocalíptico”, relata.
Em diversas formas – cacau, gado, sal, ouro etc. -, o dinheiro acompanha a civilização humana desde o início. Mesmo as trocas simples, por meio do escambo, davam valores diferentes às mercadorias. “O dinheiro como meio de troca é antigo, mas como mediador universal de quase todas as relações humanas é moderno”, afirma Lincoln Ferreira Secco, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). As moedas de metal foram uma invenção dos gregos, no século VII a.C. Desde então, o sistema financeiro só fez evoluir.
Boyle resolveu que dava para viver sem dinheiro. Na Inglaterra, uma série de artigos para o jornal “The Guardian”, que o batizou de “o homem sem dinheiro”, fez dele uma celebridade. Vive em um trailer velho, que ia ser jogado fora, no Sudoeste da Inglaterra, plantando a própria comida e usando baterias solares para recarregar o celular e o notebook. Cozinha em um forno a lenha com a madeira que colhe na floresta. Depois de um ano da experiência, escreveu um livro, “The Moneyless Man: a Year of Freeconomic Living” (O homem sem dinheiro: um ano vivendo na economia livre), em que conta como foi a experiência. “Foi difícil nos primeiros dois ou três meses. Tudo era novo para mim, mas, desde então, ficou mais fácil e é o período da vida em que mais me senti livre”, diz.
Mesmo admitindo que dificilmente terá muitos seguidores, Boyle tenta dar um alcance maior a seu esforço. É o autor do “Manifesto sem Dinheiro”, mantém um site pessoal, colabora regularmente com o “Guardian” e dá palestras conclamando as pessoas a renunciar a um dos maiores pilares da civilização humana. Caso parecido com a da alemã Heidemarie Schwermer, que viveu sem dinheiro por 15 anos até ser descoberta por uma equipe da BBC e virar tema do documentário “Living without Money” (Vivendo sem dinheiro), que relata sua história: é aposentada, ganha bem, mas doa todo o dinheiro para a caridade, mesmo destino da renda dos três livros que escreveu. Tem três filhos e duas netas, que visita com alguma frequência. No restante do tempo, vaga sem rumo.
Seus pertences cabem numa mala com rodinhas, que leva em viagens pela Europa, convidada por anfitriões que pagam a passagem para que os visite. Quando jovem, ela visitou o Brasil. Chocada com a pobreza que viu nas favelas, mesmo seguindo carreira como professora e depois psicoterapeuta, passou a achar que havia algo errado com o dinheiro. Fez quatro experiências de abandoná-lo, aumentando a duração a cada vez, até que em 1995 doou a casa, as roupas e outros bens, passando a trocar pequenos serviços por comida e roupas. “Ainda usei algum dinheiro nos três primeiros meses, mas então aprendi a viver sem nada”, afirma. Hoje, os convites já não incluem trabalho, apenas sua presença.
Tanto Heidemarie como Boyle e outro famoso sem dinheiro, o americano Daniel Suelo, que vive numa caverna no Utah e é tema da biografia “The Man Who Quit Money” (O homem que deixou o dinheiro), escrita por Mark Sundeen, dizem que é possível para uma sociedade abandonar o dinheiro sem entrar em colapso. Algo que para Lincoln Secco é impossível: “Os socialistas utópicos, como Proudhon [socialista francês do século XIX] até criaram substitutos do dinheiro, como a troca de produtos de acordo com o tempo de trabalho. Mas isso sempre foi marginal. Nenhuma economia socialista tentou chegar perto da abolição do dinheiro”, observa o professor da USP.
Movimentos de contestação, nos quais o minimalismo e a renúncia ao dinheiro se encaixam, são, segundo Secco, cíclicos e comuns à história do capitalismo. “Desde o século XIX, avançam com a exibição de novas facetas maléficas do capitalismo, como a destruição ambiental, a monopolização, a manipulação genética de produtos agrícolas apenas subordinada ao lucro etc.”.
Apesar de se dizer simpático aos minimalistas, Guto Requena também não imagina a maioria da humanidade, mesmo vivendo em espaços pequenos, reduzida ao essencial. Afinal, somos fetichistas. “A casa do futuro não vai ser a casa dos Jetsons. Ainda vai ser cheia de lembranças. Carregamos conosco aquilo que nos traz algum tipo de sentimento, seja um urso de pelúcia ou a cadeira que pertenceu à avó.”
Mas no fim das contas é impossível entender o que atrai no estilo de vida minimalista sem levar em conta um aspecto: a sensação de liberdade por não ter tantos pertences é algo repetido em todas as entrevistas. O ato de abandonar objetos é descrito quase sempre como uma experiência libertadora, quase religiosa. “Me sinto bem livre, sempre”, diz Alex Castro. “Minha liberdade não tem nada a ver com o número de meus pertences.” E Graham Hill: “Não há nenhuma indicação de que essas coisas [os objetos] fazem alguém feliz; de fato, parece o contrário”.
Por Felipe Sil. Jornal O Globo, Caderno Amanhã, 21 de maio de 2013.
A fotógrafa catarinense Claudia Regina, de 24 anos, vive num apartamento de 40 metros quadrados em Copacabana, na Zona Sul do Rio, sem liquidificador, micro-ondas e torradeira. Simples até na dispensa do sobrenome, ela também não tem carro. Dentro de casa, apenas uma cama, poucos armários e um frigobar. Os cabelos são mantidos praticamente raspados, o que elimina a necessidade do uso regular de shampoo e condicionador, assim como o de pente ou escova. O publicitário paulista Michell Zappa, de 28 anos, mora nos Jardins, bairro de classe alta em São Paulo, num apartamento do mesmo tamanho do de Claudia, mas sem TV a cabo, DVD ou Blu-Ray. Até virtualmente ele cortou supérfluos. Tudo que ouve é em serviço de streaming o que significa que não precisa baixar músicas, e os livros estão armazenados num Kindle.
Não foi a ruína financeira que levou Claudia e Zappa a aderir à redução do estilo de vida ao essencial. Eles não se conhecem, mas comungam dos mesmos ideais quando o assunto é a maneira de consumir. Mais do que isso, fazem parte de um fenômeno social que já começa a ser debatido. É o que faz o pesquisador da PUC do Paraná Jelson Oliveira. Ele está concluindo o livro Simplicidade, que será lançado até o final do ano. Entre os temas abordados está um dos aspectos da questão que Oliveira mais gosta de ressaltar: o culto de viver com menos não tem nada a ver com pobreza:
Adotar a ideia da simplicidade é estar disposto a abrir mão do excesso de bens de consumo. O aumento da procura por outra forma de viver é um sintoma de cansaço com a uma sociedade altamente consumista.
Criados na cultura digital, os adeptos da simplicidade voluntária subtraem móveis, roupas, sapatos, livros, qualquer bem de consumo considerado supérfluo de suas vidas. Ainda que seja um fenômeno social contemporâneo sem líderes nem regras, alguns usam o espaço virtual para divulgar suas ideias.
O escritor carioca Alex Castro, de 39 anos, que cresceu num apartamento de 600 metros quadrados na Barra da Tijuca, aderiu ao movimento e usa seu site pessoal para propagar suas ideias sobre a redução do estilo de vida ao essencial. A base de tudo é o minimalismo movimento cultural do século passado que faz uso de poucos elementos fundamentais como base de expressão.
“Antes eu atrelava os momentos felizes a objetos inanimados. Um dia, fiquei irritado porque um amigo usou minha caneca. Decidi que não queria ser essa pessoa. Descobri que jogar fora os objetos não significa jogar fora as emoções. Passei a viver uma vida sem rastro, aumentando a prática do desapego” .
Castro reduziu seus pertences de tal forma que garante caberem numa caixa. Poucas roupas e sapatos, assim como utensílios domésticos. Ele só não abre mão de investir num bom laptop, Kindle, celular, câmara digital e cachimbos. Todo o resto, teoriza, é supérfluo. Deixar tudo para trás, diz ele, é um exercício constante, que incluiu até livros caçados em sebos durante anos:
“Tenho menos objetos e mais tempo livre para mim. Não posso imaginar troca mais sensata”.
A sensação de liberdade por se livrar da necessidade de ter dinheiro para consumir cada vez mais é repetida por todos os seguidores de uma rotina mais simples. O relatório Estado do Mundo 2010″, da ONG ambientalista WorldWatch Institute, mostrou que apenas um terço da população mundial consome mais do que a Terra é capaz de repor. Os outros dois terços da população do mundo sequer conseguem ir às compras, já que apenas garantem sua própria sobrevivência.
Filósofos e escritores
A vida de pesquisador de tendências levou Michell Zappa a descobrir os benefícios do desapego. Hoje, é praticamente um nômade. Desde os 15 anos, quando saiu de São Paulo para morar em Estocolmo, na Suécia, troca de endereço periodicamente. Nos últimos sete anos morou em Amsterdã, Nova York e São Paulo. Cada mudança, lembra, exigia o exercício do desapego. Até que decidiu focar apenas em alguns móveis e objetos de arte, que ficam espalhados nas casas de familiares e amigos. O resto é descartável.
Hoje tenho um apartamento pequeno, que comporta apenas um sofá, uma estante, um baú e uma mesa com duas cadeiras.
A simplicidade ultrapassa a adoção de uma atitude menos consumista, mas não significa um rompimento total com a sociedade de consumo. Implica fundamentalmente em trocar o supérfluo pelo essencial.
O desejo de ser feliz com menos é mais antigo do que se imagina. Na antiga Grécia, o filósofo Diógenes de Sínope condenava os luxos da civilização. Diógenes, o Cínico, como era conhecido, teria vivido pelas ruas de Atenas e sua única posse era uma cuia. E até dessa se livrou ao ver um menino usando as mãos em forma de concha para beber água. Mas Diógenes, vale esclarecer, achava que pobreza era virtude. Seus discípulos e o também filósofo Antístenes são considerados os primeiros a defender a ideia de que bens e glórias podem se tornar fontes de infelicidade e prisões do espírito.
No século XVIII, o pensador Jean-Jacques Rousseau pregava uma vida bucólica, em contato com a natureza, enquanto o francês Pierre-Joseph Proudhon, no século seguinte, chegou a criar substitutos do dinheiro, como a troca de produtos de acordo com o tempo de trabalho. Escritores como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau também seguiram por caminhos semelhantes. No mundo contemporâneo, paradoxalmente, um dos exemplos de gente que adotou estilo de vida minimalista foi também um dos maiores criadores de símbolos de consumo. Steve Jobs, criador da Apple, marca-fetiche entre os adeptos do menos é mais, era minimalista em sua vida pessoal. Quando solteiro, vivia num ambiente decorado apenas com uma foto do físico Albert Einstein, uma luminária, uma cadeira e uma cama.
A ideia de simplicidade volta aos debates com frequência. Nos anos 1960, por exemplo, surgiram numerosos movimentos que defendiam uma vida mais comunitária e menos individualista. O que há hoje é uma mercantilização do mundo. Isso estressa as pessoas, e a situação que leva a isso não mudou com o passar das décadas. Uma sociedade extremamente voltada para o consumo apenas complica. Não simplifica. E ainda causa impactos enormes no meio ambiente argumenta Dulce Critelli, terapeuta e professora de filosofia da PUC de São Paulo.
Para ela, três fatores levam ao crescimento da tendência minimalista pelo mundo. Uma delas é o conceito de slow food que, ao criticar os efeitos padronizantes da fast food, reforçou a crítica ao ritmo da vida atual. O segundo é a crise econômica, que diminuiu o poder aquisitivo das pessoas e as fez repensar seus gastos. E, por fim, os movimentos de preservação ambiental, que não cansam de chamar a atenção, por meio de relatórios e documentos, para o excesso de consumo.
Consumo consciente
Pesquisa do Instituto Akatu, ONG que se dedica à conscientização da sociedade para o consumo consciente, mostra que o brasileiro não associa o sentimento de felicidade e de bem-estar à posse de bens. Das 800 pessoas entrevistadas, 66% apontaram a saúde, tanto a própria como a de parentes e de amigos, como um dos fatores para se sentirem satisfeitas. Apenas 33% indicaram aspectos relacionados ao consumo como condição primordial para o bem-estar. No quesito afetividade, a opção passar tempo com as pessoas levou nota 8,3; e comprar presentes conquistou 2,6 pontos.
Para Hélio Mattar, diretor-presidente do Akatu, existe uma tensão na sociedade de consumo que leva as pessoas a viverem um verdadeiro estresse cotidiano. Trabalha-se mais para se consumir mais. Um dos maiores dramas, para ele, é na economia. O excesso de desejo gera dívidas. Só que a vontade de comprar ainda mais não cessa, o que acaba alimentando um círculo vicioso que deixa a população numa situação vulnerável.
Segundo o Banco Central, cerca de 45% da renda anual da população estão comprometidos com dívidas. Por mês, o brasileiro gasta, em média, um quarto do salário para pagar o que deve. Os americanos, tradicionais consumistas, comprometem 16%. A consequência do aperto no orçamento é a dificuldade de manter em dia os compromissos financeiros.
Mattar lança mão de um estudo do WorldWatch Institute para discutir o tema:
Aproximadamente 16% dos países mais ricos do mundo são responsáveis por 78% do consumo total. Isso já ultrapassa o que o planeta é capaz de repor. Agora pensemos na certeza de que o número de pessoas que compram em alta intensidade irá aumentar nas próximas décadas. O planeta aguenta?
Uma solução é o desapego a pertences físicos. Solução essa que ganhou um aliado no mundo virtual. Acervos de fotos, livros, revistas, papéis, DVDs e documentos, que costumam encher armários e gavetas, podem ser guardados virtualmente. Nos Estados Unidos, a venda de livros tradicionais tem caído todos os anos, em contraste com o crescimento do comércio de e-books.
O analista de mídias sociais Ian Black, de 32 anos, não tem tocador de DVD e diz não frequentar locadoras de vídeo há quatro anos. Nos últimos dez anos acumulou um acervo considerável de música e entretenimento digital. Tem mais de 20 mil faixas armazenadas. Possui também aproximadamente 400 filmes baixados. Para ele, um jeito torto de ser ecologicamente correto.
“Consumir menos também significa gastar menos recursos naturais. Mas há um lado de conveniência mesmo. Ter uma estante com centenas de CDs significa que você precisa investir um bom tempo organizando, limpando e ainda tirando da embalagem para colocar em um aparelho específico. Também vou, aos poucos, me livrando dos livros. É o que considero mais absurdo. Dificilmente são relidos e depois só servem como decoração e como peso desconfortável na mudança”.
Black, que mora em São Paulo, diz que tenta aplicar o mesmo conceito para roupas. Cada vez mais se apega a peças lisas e fáceis de combinar, de maneira que não tomem tempo e espaço maiores do que o necessário:
“Não quero mais gastar tempo com detalhes supérfluos no meu dia a dia. Também não quero me matar de trabalhar para manter um estilo de vida mais extravagante. Recentemente, também mudei de escritório. Eu e minha equipe abandonamos uma casa alugada de 200 metros quadrados, na qual tínhamos que ter uma pessoa contratada exclusivamente para mantê-la funcionando. Optamos por um espaço mais central e menor que nos permita um contato maior com outros empreendedores. Nosso custo mensal passou de R$ 15 mil para R$ 3 mil”.
A vida editada pode fazer diferença para casais como o ilustrador Bruno Algarve, de 30 anos, e a designer Daisy Biagini, de 29 anos. Ambos são paulistas. O estalo começou da parte de Algarve, quando, em 2005, percebeu que não conhecia mais a voz dos clientes. Todo o trabalho era desenvolvido através de e-mails. Viu, então, que não precisaria se prender a São Paulo para trabalhar.
Algarve convenceu Daisy a venderem tudo que tinham e viajar. O que sobrou foi colocado em dez caixas de papelão e armazenado em um quartinho na casa dos pais dela. Agora são apenas duas mochilas para cada um. Uma para roupas e outra para o escritório. Na do trabalho de Algarve ficam laptop, câmera fotográfica e pen tablet, espécie de prancheta digital muito usada por ilustradores. O valor dos três itens não ultrapassa R$ 3 mil.
“E dessa maneira já viajamos para Uruguai, Chile, Peru e Bolívia. Em cada lugar, ficamos em apartamentos ou pousadas. Trabalhávamos onde estivéssemos. De vez em quando, ficamos em São Paulo, mas em casas de amigos ou da família. Até adquirimos um carro para ter mais mobilidade. Mas lá vão apenas as quatro mochilas. A prioridade, na verdade, é viajar. O minimalismo acabou sendo uma consequência que nos ensinou a nos livrar de objetos e praticar o desapego conta Bruno”.
Radicalismo
Poucos pessoas, no entanto, conseguem ser tão radicais quanto o economista britânico Mark Boyle. Em 2008, exatamente no mesmo dia das notícias sobre a quebra dos bancos envolvidos em negócios no mercado de hipotecas, ele resolveu renunciar ao dinheiro. Era dono de duas empresas de comida orgânica, em Londres. Boyle vendeu tudo que tinha e hoje, cinco anos depois, vive em um velho trailer no Sudoeste da Inglaterra.
Hoje, escreve artigos para o jornal The Guardian sobre sua atual rotina. Foi logo batizado pelo veículo como o homem sem dinheiro. Virou celebridade e chegou a publicar um livro, chamado O homem sem grana (Ed. Best-Seller), já lançado no Brasil. Também possui um site pessoal na internet e dá palestras em que conclama as pessoas a renunciar ao dinheiro.
“Todos nós conhecemos os benefícios do dinheiro. Somos informados disso constantemente desde o momento em que nascemos. Na realidade, porém, a experiência de 99% da população me diz que nada disso está perto de ser verdade. O pior de tudo é que, quando olhamos para os problemas do mundo, todos sabemos que esse tipo de cultura em que estamos envolvidos é o principal responsável por grandes problemas ecológicos, sociais e pessoais”, argumenta.
A fotógrafa Claudia não chegou ao extremo de Boyle, embora admita que raspar os cabelos foi uma forma de radicalização. Desde que trocou Curitiba pelo Rio depois de largar a vida de empresária, ela tinha um escritório de webdesign na capital paranaense, e o marido , ela passou a dar palestras sobre a vida minimalista:
“Minhas escolhas têm a ver com sustentabilidade e economia. Mas é também um ato político. Eu economizo, gasto menos recursos do planeta e me posiciono contra uma sociedade consumista”.
Um dos primeiros ativistas desse estilo de vida, o americano Duane Elgin, autor do livro Simplicidade voluntária, previa na sua obra, de 1981, a necessidade de mudança. Ele deixava claro que descomplicar não significava fazer voto de pobreza. Mas reduzir a demanda por elementos externos que proporcionam uma dose limitada de satisfação e sensação de bem-estar.
“Desde então, muita coisa mudou. Lembro que nos anos 1970, nas minhas primeiras palestras, eu era visto como um cara excêntrico. Agora sou apresentado como um exemplo positivo de que é possível mudar. O tema passou a ser visto com menos complacência e mais urgência. Naquela época, havia poucos debates sobre mudanças climáticas, problemas de energia e água… Agora, quanto mais perto observamos o planeta, mais vemos que ultrapassamos a capacidade do mundo em assegurar nosso nível extremado de consumo”, defende Elgin, em entrevista por email.
encontrei aqui nas minhas notas. entrevista para jornal universitário. não anotei o nome, não sei se saiu.
mas eis a última pergunta, e a minha resposta:
E, para finalizar, qual característica pessoal sua você destacaria como a que te ajuda a seguir em frente?
Como todo ser humano, eu tenho uma capacidade ilimitada de denegação e auto-ilusão. Então, contra todas as evidências, mesmo sabendo que não consegui nada na vida, mesmo sabendo que o futuro é provavelmente uma morte dolorosa e então o desaparecimento, mesmo viajando pelo universo sem deus a bordo de uma bola de pedra, ainda assim, eu continuo acreditando em mim, continuo achando que vai tudo dar certo. Ser humano é isso.
Entrevista concedida a Rachel Glickhouse, do blog RioGringa, a 21 de fevereiro de 2012.
This week, I had a chance to catch up with Alex Castro, one of my favorite Brazilian bloggers. He has a keen and critical eye for some of the most sensitive social issues in Brazil, including racism, machismo, and domestic workers. After living abroad, he also writes with an fascinating perspective on social differences between the United States and Brazil. He writes his own blog, Liberal Libertário Libertino, as well as contributing to Papo de Homem. He’s also written several books, including short stories and novels. He also was one of the founders of the hit Tumblr Classe Média Sofre, a crowdsourced blog that pokes fun at Brazil’s middle class. It’s become a cultural phenomenon in Brazil, falling somewhere between Lamebook and White Girl Problems, but providing more insight into social idiosyncracies.
We chatted about his return to Brazil from New Orleans, emblematic of Brazil’s increasing reverse brain drain, his various projects, and his thoughts on Brazil’s changing role in the world.
What were you doing abroad?
I was living in New Orleans. I was a Ph.D. candidate at the department of Spanish & Portuguese at Tulane University. As such, part of my duties included teaching classes on the Spanish and Portuguese languages, plus the odd Brazilian literature and culture classes. My dissertation is about slavery (or the lack thereof) in Brazilian 19th century literature.
Can you tell me about why you decided to move back to Rio from New Orleans?
I came back because a man who is a living god to me once said: “I celebrate myself, and sing myself, / And what I assume you shall assume, / For every atom belonging to me as good belongs to you. // I loafe and invite my soul, / I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass. … / I, now thirty-seven years old in perfect health begin, / Hoping to cease not till death.” And even though he has never died, because he cannot die, I know for a fact that he suffered a stroke 18 years after writing those words.
So, when I turned 37, last year, still in perfect health, and hoping not to cease till death, and not knowing how long would I have before my heart attack, I decided to return home and live the life of a writer. Because if even HE died, what hope can I have? On the contrary, I have to RUN and LIVE. I realized that I was and had always been a Brazilian writer. So even though I had lived in New Orleans for 7 years and could write in English, I had never felt the urge to write to New Orleanians about Rio but, on the contrary, I was always coming up with new things about New Orleans and the U.S. to tell Brazilians. I realized that, in my head, I was always talking and writing to Brazilians. They were my core audience, and so it made no sense to stay away.
Throughout the years, there had always been events and stuff that I was invited to and couldn’t attend because I was in New Orleans. None of them by themselves were a major deal, but the career of a minor independent author is made of baby steps, so I felt my incipient (actually, non-existent) career was at a standstill. Now, for example, I’m going to Belo Horizonte in April for a roundtable about e-books. So I came to Rio and I’m now making a living as a writer, writing and editing for Papo de Homem, translating for Editora Record, and trying to finish my dissertation and my novel.
It’s actually an old book, written in the early 90s. But I think it withstood the test of time, so here I’m publishing it. It is the only one of my books to be actually published by an actual publishing house. All my other books were self-published. It’s composed of five short stories about loss, all kinds of loss, from losing a friend to losing your wife, or your career.
Why’d you go the self-publishing route with the other books and the publishing house route with this one?
It wasn’t a choice. Nobody wanted to publish the other ones. For Onde Perdemos Tudo, I had a publisher interested in my work and an able literary agent who got her interested. Still, unless you’re a best seller, one can make a lot more money self-publishing.
How has the book been received?
It’s very hard to break through. It has been positively reviewed in blogs here and there, but nothing in the mainstream press. It’s as if the book has never existed. But I have a loyal following of readers, and so it keeps selling. It can be frustrating, but it’s the only way. Baby steps, as I always say. But at least now I’m here to network and promote the books.
In Papo de Homem and your blog Liberal Libertário Libertino, you write a lot about racism and machismo with a critical eye. Why are these issues important to you?
That’s a very good question. I really don’t know. I guess I had a very very privileged, sheltered upbringing, something that I only realized very late in my adult life. So I felt the need to…. give back? Finally look at other people other than myself? That sort of thing. Also, the American academic environment was the main catalyst, that’s for sure. If I had stayed, maybe I’d be reading Veja. I remember I rather liked Diogo Mainardi, if you can believe that.
You have a really unique perspective that’s sometimes hard to find in Brazil, particularly with racism. How did your views on that issue evolve?
People say that I’m bringing racial conflct into Brazil and I argue, Yes! We need more racial confrontation! One of the major problems in Brazil is the fact that we never “confront” the issues.
You’ve also written quite a bit about domestic workers, which is also something of a taboo topic in Brazil. What got you interested in this?
Well, actually it was my interest in slavery. I think domestic workers, as the profession has established itself in Brazilian culture, is a direct relic of slavery. Only a former unapologetically slave-owning country such as we are could ever have such a slavery-like institution as our live-in maids. So it is a bit of the past alive in our daily lives up to today.
On the subject of your blogs, given your perspective and knowledge of these issues, why is it more important for Brazilians to be your audience, rather than an international one?
It’s the other way around. It’s not that talking to Brazilians is more important than talking to an international audience, but rather that I feel I have something to tell, teach, show to a Brazilian audience that I don’t have to an international one.
Let’s talk about Classe Média Sofre, but I noticed you don’t seem to have your name on the blog, at least not very visibly. Is there a reason for that?
Well, for starters, it is a collective and collaborative enterprise, so it’s not mine per se but I’m one of the founders and co-creators. Since then, everyone else has left, other people have gotten involved and left again, and now, pretty much, I’m the only one left managing the business. But the site still depends of the anonymous collaboration of hundreds of people every day. I’m more of a curator than anything else. I try to keep it faithful to its original vision, but mostly the only reason I’m the visible face of it is because I’m a writer, so I need the visibility and it does help me to sell some books. Actually, if it weren’t for that, the site would either still be 100% anonymous or, more likely, I’d have gotten bored and left with everyone else. Still, it’s the one thing I’ve done that I’m actually proud of.
Can you tell me about how the blog got started, and why you thought it would be worthwhile?
Its major inspiration was White Whine and Louis C K, when he says something like this. So a friend and I had the idea, and we started looking for examples. They were so numerous that it took us a day to fill several pages, and two days later we were already receiving more contributions than we could handle. On day 4, I kid you not, on day FOUR, we got our first complaint that the tumblr was no longer as good as it once was.
It caught on pretty fast.
Yes, it was amazing. And people were already self-censoring their worst bullshit pretty fast too. It was inspiring.
The blog’s been featured around the web and it’s literally become a cultural reference. Why do you think it hit a nerve?
Well, on one hand, lots of people feel really really defensive about it. They take the site as a personal attack to them. On the other hand, for several other people, the blog gave them their first way to vent their frustration at some of the most whiny, elitist comments their friends make. You can bet people will say that there’s nothing more classe media sofre than giving this interview in English! I especially love it when people accuse us of being “middle class too,” and of course we are. What did they think we were? Millionaires? Favelados?
What’s the absolute worst thing you’ve posted on there?
There can be no worst. You can always sink lower.
Ok, so your favorite?
“Pior dia da minha vida: acabou o chocolate.” [Worst day of my life: the chocolate is gone.] Simple yet perfect.
Can you tell me your thoughts on the complexo de vira-lata and the obsession with everything foreign/in English?
Brazilians are obssessed with Brazil to an extent that only Americans are obssessed with the U.S. We are truly kindred peoples, yours and mine. I’m pretty sure, given the power, Brazilians would have done every single thing Americans have. Brazilians are as proud, egocentric, and naive as Americans. We have our own version of manifest destiny (the Bandeirantes), etc.
I’ve never seen any people as interested about what people are saying about them abroad. In a way, in Classe Média Sofre, we talk about both sides of this coin. So, in a very schizophrenic way, what comes from abroad can seem very important or not at all important. And of course, I’m guilty as charged, because I travelled, and I studied abroad, and I could have studied anything, I could have dedicated myself to ancient Greece or pure mathematics, but here I am thinking about Brazil and writing about Brazil. It’s kind of a curse, but it was also my choice, so I don’t in any way exclude myself from this. I’m part of it.
Brazil is undergoing so many changes in terms of its place in the world. Is there a chance it could become more insular and inward looking like in the U.S., or is this fascination with other countries here to stay?
I think Brazil is in fact getting more powerful as a country, so other countries will tend to seek Brazil’s opinion or support more often, and consequently, Brazilian politicians and statesmen will be forced to be more versed in international affairs than their predecessors, and consequently, the Brazilian voter as well. You can see that starting. These past years, Honduras, Cuba and Iran were more talked about, even during elections, than I had ever seen before. In elections before 2010, foreign affairs had never had any relevance at ALL.
When I started teaching Portuguese in the U.S. in 2005, most of my students were there because they had a Brazilian signficant other, or a Brazilian parent, or liked bossa nova and City of God. Period. When I left, in 2011, most of my students were actually seeking employment, business or research opportunities in Brazil. There were lawyers and business majors; most of them had not watched City of God, but they knew about Petrobras, pre-salt and biofuel. It was a complete revolution in less than 6 years. Several of my former students are now either working and living in Brazil, or living in the U.S. but working as “Brazilian liasons” with companies that do business in Brazil.
I think it’s exciting and I’m a part of it. I’m part of a large reverse migration of Brazilians coming back from abroad these last few years, exactly because of all these opportunities, but it’s important not to let this go to our heads.
Why’s that?
The United States was once a country that was actually a beacon of democracy and of high ideals, before it stated having imperial dreams and conquering Mexico, the Phillipines, Cuba, etc. Brazil was an actual empire-empire once. People were afraid of us in the 19th century (my main area of knowledge). Brazil used to topple Uruguyan presidents in the 19th century the same way Americans did to Central American ones in the 20th century. Besides, we do tend to be overconfident and overindulgent. Raising people from poverty should continue to be number one priority.
So you don’t want history to repeat itself, in other words.
Actually, that particular history has no chance of repeating itself, I think. But we can be stupid and overconfident in several new ways now.
What are your hopes for the future now that you’re back in Brazil?
My main priority is being a writer. That’s all I know how to do. Write, write, write, until I die. That’s my only ambition. Get some writing done. Publication will take care of itself, or not. But time is running out and I need to get some books out of me. That’s it.
Entrevista concedida a Simone Magno, para o Tempo de Letras, da Rábio CBN, em 28 de junho de 2010.
O quadro desta semana é com o escritor carioca Alex Castro, radicado em Nova Orleans, que no momento percorre Macau e Timor Leste em busca da literatura em língua portuguesa fora de Portugal e Brasil, para uma série de ensaios. Ele é autor de Mulher de um homem só.
TL – Qual o primeiro livro que marcou sua vida?
AC – O pequeno Nicolau, escrito por Goscinny e ilustrado por Sempé, em uma edição da Artenova, capa cinza, grosso. Eu tinha sete anos e era meu primeiro livro de texto corrido, em formato normal, com fonte pequena, parágrafos atrás de parágrafos. O primeiro livro que sabia que eu era criança, que sabia que eu tinha preocupações de criança, mas que, ainda assim, não me tratava como criança. O primeiro livro que me fez sentir… adulto. Toda minha vida literária, toda minha carreira de leitor, começou com O pequeno Nicolau.
TL – Qual o livro que mais mexeu com você?
AC – Gosto muito de escrever em livros, sublinhar, marcar, e tenho a seguinte teoria: o livro que você não marca é porque não te marcou. Então, mudando a metáfora, eu diria que o livro que mais mexeu comigo seria o livro no qual eu mais quis mexer, intervir, interferir. Em 2004, Fernando Braga da Costa, doutor em Psicologia, publicou Homens invisíveis: Retratos de uma humilhação social, sobre seus dias de trabalho voluntário entre os garis da USP. As histórias vividas pelo Fernando e por seus colegas, histórias de vergonha, humilhação, invisibilidade, me marcaram profundamente e foram a inspiração primordial para o romance que estou escrevendo agora, Cria da casa: Histórias de empregadas & escravos. Meu livro nada mais é do que eu mexendo e interferindo nesse livro que tanto mexeu comigo, levando-o para uma plataforma ficcional e tentando descobrir o que vai acontecer.
TL – O que você está lendo agora?
AC – Confesso: amo literatura, mas não tenho nenhum amor pelo suporte livro. Nesse momento, estou viajando pela Ásia e, pela primeira vez, levando meu Kindle, sem precisar carregar uma mala de livros nas costas! Estou adorando a possibilidade de, ao mesmo tempo, dispor de tantos livros e não carregar tanto peso. O Kindle é perfeito tanto para ler livros novíssimos que acabaram de sair como para ler livros de domínio público, que encontro de graça pela internet. Então, acabei de ler o monólogo-desabafo final de Molly Bloom, em Ulisses, de Joyce, para um projeto atual. Também li duas versões diferentes, em prosa e em poesia, do segundo canto da Eneida, de Virgílio, para um futuro romance que estou planejando, comparando a decisão de um carioca de sair do Rio de Janeiro, com Enéias dividido entre fugir de Tróia ou ficar e lutar até a morte. A Eneida é meio tediosa, mas o segundo canto é simplesmente magistral. E, por fim, no campo dos livros recentes, depois desses dois clássicos, comecei a ler 2666, do Roberto Bolaño, meu primeiro livro desse autor, que me chegou altamente recomendado, e simplesmente não consigo parar de ler, é enorme, delicioso, colossal. A primeira parte, sobre os acadêmicos europeus obcecados por um autor alemão, tem muito a ver com minhas experiências estudando literatura latino-americana nos Estados Unidos.
Entrevista concedida a Luis Eduardo Matta, no Digestivo Cultural, de 20 de março de 2007.
A internet, queiramos ou não, é uma realidade para a literatura, sobretudo a fértil literatura que vem surgindo da pena (ou seria do teclado?), de jovens escritores, muitos dos quais talentosos e com bom domínio da escrita e que, por razões variadas, não se aventuraram pelo mercado editorial tradicional.
Resistente no começo, o establishment cultural começa a reconhecer o potencial da internet e a levar em conta os trabalhos nela publicados. Recentemente, o prestigiado suplemento literário “Prosa & Verso” do jornal O Globo, começou a dedicar espaço para resenhar livros publicados exclusivamente na Web. Um dos primeiros autores a ser agraciado com essa iniciativa foi Alex Castro, titular do popular blog Liberal ““ Libertário ““ Libertino e escritor carioca atualmente residindo nos Estados Unidos, que teve o seu livro de contos Onde perdemos tudo resenhado pelo renomado crítico e escritor Miguel Sanches Neto, na edição de 11 de novembro passado. Alex Castro é, também, autor do romance Mulher de um homem só, que já foi baixado trinta mil vezes, durante os três anos em que esteve disponível gratuitamente na internet. Uma marca, aliás, que muitos escritores com livros publicados não consegue atingir.
Se a literatura e a internet farão um casamento duradouro ““ ou até mesmo eterno ““ ou se não passa de uma fase, isso ainda é uma incógnita. Eu, pessoalmente, tenho sérias dúvidas sobre se o livro de papel tal qual conhecemos irá desaparecer, como muitos prevêem; o que, naturalmente, não impede que um suporte eletrônico de leitura se consolide e ambos possam conviver sem atritos.
Na entrevista abaixo, Alex Castro nos fala sobre a sua experiência literária na internet, sua obra e sua visão sobre a literatura contemporânea, aproveitando para contar um pouco sobre a sua vida, o que poderá surpreender vários dos leitores do seu blog e, até mesmo, da sua literatura.
1. Alex, você escreveu um romance Mulher de um homem só e, agora, aventurou-se, também, pelos contos, com Onde perdemos tudo. Quais seriam as semelhanças entre esses dois trabalhos? Quais foram as suas intenções ao escrevê-los (se as houve)?
São dois projetos bem distintos. O livro de contos Onde perdemos tudo reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Eu nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta.
O romance, Mulher de um homem só, desenvolve o tema de um dos contos: se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.
2. Você mantém um blog muito popular na internet. A sua experiência na rede inspirou-o ou auxiliou-o na sua atividade literária? Gostaria que falasse um pouco a respeito.
Tanto Onde perdemos tudo quanto Mulher de um homem só foram escritos antes que eu ouvisse falar de blogs, quando eu mal tinha e-mail. Acho engraçado as pessoas que lêem esses livros e fazem análises complexas sobre sua linguagem web! Mas, enfim, cada leitor lê como quer, não há leitura certa.
Meu blog foi criado em função de um outro projeto, ainda em andamento, de um livro de ensaios sobre as prisões que acorrentam o pensamento do homem, como religião, monogamia, heterossexualidade, preconceito, patriotismo, ambição, medo, verdade, etc. Como são ensaios polêmicos, achei que seria interessante testá-los antes na internet para ver que tipo de recepção teriam. E, bem, é isso que ainda estou fazendo. Só mais tarde aproveitei a plataforma web para também divulgar esses outros trabalhos que já estavam prontos.
Aprendi muitíssimo com a experiência. Hoje, já acho imprescindível esse contato de um escritor com seu público que a internet permite. O escritor que não usa desse recurso está se limitando e se isolando, está se comportando como um surdo que não quer ouvir seu público.
Por outro lado, acho importante acabar com essa idéia de “escritor-blogueiro”. Antigamente, os poetas mimeografavam suas poesias e iam de bar em bar distribuindo-as, e ninguém os chamava de “poetas-mimeografeiros”. Eu distribuo meus livros em formato PDF e não sou um “escritor-pedeefeiro”. As pessoas confundem meio com mensagem. A internet é somente mais um meio, uma plataforma, que permite que a literatura seja melhor distribuída, mas ainda é a mesma literatura de sempre.
Mesmo os ensaios das prisões, que foram escritos depois de eu ter experiência com web e blogs, não têm nada a ver com a estética, agilidade, vocabulário ou concisão da internet. São ensaios longos, complexos, refletidos. Não foram escritos para serem lidos em cinco minutos, por alguém desatento, que está batendo papo no MSN e checando e-mail ao mesmo tempo. Exigem um leitor crítico e pensante.
3. Há elementos autobiográficos nos seus livros ou estes são apenas produto de uma mente criadora?
Eu acho que não há nada mais tedioso, lugar-comum e narcisista do que esses escritores cujos protagonistas são sempre o alter ego deles mesmos, esses escritores que escrevem livros para falar de si mesmos ou para exorcizar seus demônios.
Fiz isso só uma vez, no último conto de Onde perdemos tudo, que é um conto humorístico, pra quebrar um pouco o clima deprê do livro. É a história de um escritor chamado Alexandre que está pra lançar seu livro de contos Onde perdemos tudo quando descobre um conto igual em outro livro escrito cinqüenta anos antes. A grande brincadeira é mostrar, entre outras coisas, o ridículo desse negócio de escrever sobre escritores escrevendo sobre escritores. Jurei que nunca mais faço isso, a não ser que tenha um bom motivo.
Olha, meus demônios eu exorcizo na terapia. Eu já me conheço, não preciso usar ficção pra isso. Para mim, literatura é para criar gente, pra eu entrar na cabeça de outras pessoas, pra eu tentar criar empatia com esses personagens tão diferentes de mim, para eu tentar descobrir como essas pessoas reagiriam a determinadas situações. Se for pra falar de mim mesmo, qual é a graça? Eu já sei quem eu sou. Eu já sei o que eu faria. Melhor escrever não-ficção.
Então, não: meu trabalho, além de não ser autobiográfico, é anti-autobiográfico. Às vezes, só o fato de um personagem ser parecido comigo já me corta o tesão. Meu romance, Mulher de um homem só, ficou parado por muito tempo, porque ele deveria logicamente ser escrito do ponto de vista do Murilo ou da Júlia, que são personagens um pouco parecidos comigo. E eu nunca começava o romance porque, bem, eu já conhecia esses personagens, não tinha interesse em mergulhar neles, faltava tesão. Só quando uma amiga me sugeriu que o romance fosse narrado pela esposa é que a coisa deslanchou. Eu não sabia quem era aquela mulher, ela não tinha um grande papel na trama, ela não era nada parecida comigo. Escrevi Mulher de um homem só, então, para conhecer a Carla, para saber que tipo de pessoa ela era, para compreender por que ela fez as coisas que fez e aturou as coisas que aturou.
E, por outro lado, claro, toda literatura é autobiográfica, de certo modo, porque a matéria-prima da literatura é a vida. O escritor rouba pedaços de vida de todo mundo que ele conhece, e mais ainda de si mesmo. Então, todos os personagens de um escritor são repletos de coisinhas dele, de coisas que aconteceram com ele, de manias que ele tem ““ mas também das coisinhas e manias dos seus amigos e parentes. Então, apesar dos meus personagens terem várias experiências em comum comigo ou com pessoas que conheço, eles não são nem eu nem essas pessoas. Se não achasse que são indivíduos independentes, nem teria mostrado o texto pra ninguém, aliás.
4. Como blogueiro consagrado, como você vê o papel da internet no campo da cultura, da informação e do entretenimento hoje em dia? Você acredita que a internet vai substituir a imprensa e o suporte livro tal qual nós conhecemos hoje?
Blogueiro consagrado? Ha ha. Quando me dizem isso eu sempre lembro de uma amiga que definiu com precisão: ser um “blogueiro famoso” é como ser “miss minissaia do festival das flores de Lambari, ou seja, nada.”
Enfim, eu não sou contra ler na tela per se. Eu tenho um laptop e leio muito nele. Tem pessoas que falam que o papel sempre será superior porque podem ler num parque, encostados numa árvore, ao ar-livre, e eu acho uma certa graça porque eu faço tudo isso com meu laptop! Mas, realmente, ler romances ou poesia sempre vai ser melhor no papel.
Por outro lado, jornais, enciclopédias, atlas e dicionários já estão totalmente obsoletos, as pessoas só ainda não sabem disso. Hoje em dia, quem ainda gasta R$2 mil numa Enciclopédia Britânica? Dou aulas pra muitos jovens e nenhum deles lê jornal-papel. A geração que está virando gente hoje lê jornais na Web. Eu mesmo não entendo o que leva alguém a comprar um jornal às onze da manhã, sabendo que ele foi fechado às vezes mais de doze horas antes e está completamente desatualizado. Além de que suja as mãos, é difícil de dobrar e mata arvorezinhas. Sim, muita gente diz que gosta justamente dessa liturgia ritual do dobrar e desdobrar, das pontas dos dedos sujos, mas são porque associam o gestual ao ato de se informar, porque cresceram assim. Enquanto essas pessoas viverem, haverá jornal. O problema é que, como os jornais não estão adquirindo novos leitores, quando morrer essa geração, o jornal acaba. Do meu ponto de vista, aliás, faria mais sentido dar de graça os jornais impressos desatualizados e depois cobrar para o leitor entrar no site e ler as notícias atualizadas. Mas eu sempre vejo tudo ao contrário.
Já a literatura acho que não tem nada a temer da internet.
5. Tanto Mulher de um homem só quanto Onde perdemos tudo foram publicados na internet. Como é essa experiência de publicar unicamente no mundo virtual? Você se sente gratificado? Como é o retorno dos leitores? Como tem sido a receptividade dos livros junto aos internautas?
Lancei Onde perdemos tudo na internet em setembro de 2006, já vendi cerca de 60 cópias (o que parece pouco) mas ganhei líquidos R$700, o que é muito, ainda mais pra um livro de contos de um desconhecido. Se o livro tivesse saído por uma editora tradicional e eu ganhasse os tradicionais 5% do preço de capa, eu teria que vender mais de mil exemplares pra ganhar a mesma coisa.
Mulher de um homem só foi distribuído gratuitamente na rede por 3 anos, sendo baixado mais de 30 mil vezes. Graças ao romance e ao blog, um professor universitário brasileiro nos Estados Unidos me convidou para vir fazer doutorado em Literatura em Nova Orleans, e é onde estou agora, vivendo de bolsa. O blog rende em média R$500 por mês só em comissões do Submarino e do Google. Parece pouco, mas pra um blog que nunca achei que daria nada? O dinheiro fica acumulando na minha conta corrente no Brasil e, quando volto pra casa, vivo por conta dessa grana, o que é uma sensação bem gostosa.
Na verdade, para mim, como escritor de literatura, a internet já me deu BEM mais leitores e BEM mais dinheiro do que eu conseguiria publicando por uma editora tradicional. Só falta mesmo o reconhecimento dos meus pares ““ outros escritores, professores de letras, jornalistas culturais, os literatos em geral. Como ainda não passei por esse ritual de passagem do livro impresso, ainda não sou escritor, sou “blogueiro”. Veja bem: não estou dizendo que as uvas estão verdes. Eu quero passar pelo ritual de passagem, quero sair em livro impresso, quero ser aceito como um igual pelos membros da minha tribo, mas a internet me fez ver o verdadeiro valor disso. Tornou-se apenas um ritual, de valor simbólico. Leitores e dinheiro, que são o que há de mais concreto, eu sei que consigo mais através da internet.
6. Como você enxerga a nova literatura contemporânea brasileira? Você tem contato com escritores da chamada “nova geração” e/ou com seus livros e textos? Você percebe características comuns nos trabalhos destes jovens autores e nas suas propostas literárias? Pode-se distinguir uma voz e uma fisionomia predominantes nesta nova literatura? E como você situaria o seu trabalho dentro dela?
Pode parecer incrível para quem me vê como um blogueiro tecnófilo do século XXI, mas eu sou um homem do século XIX. É lá que eu passo a maior parte do tempo, é lá que eu trabalho, é de lá que são os livros que eu leio. Meu maior interesse intelectual, por dez anos, foram as guerras do Prata, desde a conquista final do Uruguai, em 1816, até o final da Guerra do Paraguai.
Agora, meu tema principal de pesquisa são as representações da escravidão na literatura brasileira do século XIX, com ênfase no processo de canonização literária. Será que escravidão foi abordada de forma diferente nos romances que foram consagrados e nos que foram esquecidos? Será que a abordagem de um tema polêmico e desagradável desses não influiu no processo de canonização? Ou seja, não é nem que a escravidão foi ignorada, mas que o establishment ignorou os livros que falaram dela. E qual a relação disso com o processo de formação de uma identidade nacional através da literatura? Será que, nesse momento de decidir quem éramos, queríamos ser um país caracterizado pela escravidão? A coisa também passa por questões de teoria e estética da recepção. Afinal, como esses livros, tanto canônicos quanto não-canônicos, eram lidos? Quem os lia?
Além disso, para fins de comparação, estou mergulhando fundo na literatura abolicionista cubana, um país bem parecido com o Brasil em muitas coisas mas com uma literatura completamente diferente, com romances abordando de frente os dilemas mais duros da escravidão, problematizando questões que nenhum escritor brasileiro ousou nem levantar. Por quê? Por que tamanha diferença? Por que os escritores cubanos ousaram atacar literariamente a escravidão enquanto os brasileiros fugiram da raia e fingiram que não viram o problema?
Em suma, sei que fugi da pergunta mas já volto. Eu queria dizer que meus interesses intelectuais e literários me prendem tanto ao século XIX que, sinceramente, não tenho tempo nem saco pro XX nem pro XXI. O século XX foi um século chato e sangrento. Não me atrai.
Li pouquíssimos autores contemporâneos e gosto de menos ainda. Tenho todos os Livros do Mal e acho que os Daniéis, Galera e Pellizzari, ainda vão muito longe, mas que nem começaram a dar tudo o que podem dar. O Biajoni, que escreveu o ainda não publicado Sexo Anal, um dia vai ser visto como o gênio da nossa geração. Dos meus contemporâneos, acho que os melhores são o Alexandre Soares Silva e a Daniela Abade. A Coisa Não-Deus e Crônicos são romances simplesmente sensacionais, criativos, poderosos, que fogem à estética vigente, que ousam, arriscam. Me entristece ver que ambos não são nem um pouco badalados e que estão sempre parecendo que vão parar, enquanto que semi-analfabetos vivem saindo nas primeiras páginas de cadernos literários. Outro grande livro contemporâneo foi Aqueles Cães Malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, que ganhou o Jabuti em 1995, publicou outros dois livros praticamente iguais ao primeiro e depois sumiu. Por fim, o grande lançamento do ano passado foi o tour-de-force da Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor, um tijolão maravilhoso de mil páginas, no melhor estilo dos romances do século XIX que eu amo, contando 80 anos de vida de uma escrava africana no Brasil. Ainda vai ser um clássico. De resto, ou não li ou não gostei.
A nossa literatura contemporânea tem uma série de cacoetes que me incomodam. Um deles é essa mania de escritor escrever livros sobre escritores malditos, bebendo, fumando e falando palavrão, andando por uma cidade suja e sem nome, mostrando como a vida é tediosa e sem sentido, como não significa nada, blá blá blá. Bukowski já fez isso. Rubem Fonseca já fez isso. Até Camus já fez isso. Essa estética do maldito é muito chata. Não que eu seja contra per se, mas que é algo que já foi feito à exaustão. Estorvo, do Chico, pra mim é emblemático desse processo, um livro que reúne todas as piores características desse “gênero”.
E o pior é que esses escritores se chamam, na maior cara dura, de malditos, rebeldes e ousados. Ora, gostando-se ou não, “maldito, rebelde e ousado” (ele iria odiar a classificação) é A Coisa Não-Deus, do Alexandre Soares Silva, um livro que é diferente de tudo o que é publicado por aí, ambientado em um céu povoado pelos grandes gênios da humanidade! Veja bem, não estou nem falando de qualidade, muita gente pra quem emprestei A Coisa Não-Deus odiou, o que só prova que meu gosto é o inverso do senso comum. Mas, independente da qualidade do produto final, não há ousadia ou rebeldia alguma em se publicar mais um romance sobre sexo, drogas e rock’n'roll, sobre narradores apáticos em uma cidade violenta, sobre narradores que são um pastiche, voluntário ou não, dos piores livros de Rubem Fonseca e João Gilberto Noll. Alguns desses romances são melhores, outros são piores, mas há pencas deles nas livrarias. Qual é a ousadia nisso? Ousadia é escrever um livro debochado ambientado no céu. Você pode até gostar do livro ou não, mas tem que reconhecer que é ousado.
Assim como ousado é o Bia, que escreveu um livro chamado Sexo Anal, sobre uma moça que adora, bem, sexo anal, e é um livro engraçado, sensível, feminino, lindo. Esse é tão ousado que já passou por tudo quanto é editora e nenhuma teve culhão de publicar. Ousado também é você, Luis, com o seu projeto maravilhoso e quixotesco de criar uma literatura de entretenimento no Brasil, porque nem sempre a gente quer um romance transcendental, às vezes a gente quer só umas perseguições e explosões, e sem um mercado editorial saudável mantido por livros de entretenimento que vendam bem, também não se tem uma boa literatura.
Então, eu acho que a fisionomia, a voz dessa nossa nova literatura é a voz dos narradores apáticos, beberrões, drogados, insensíveis, violentos, em suma, chatos, chatos de doer. Eu tento ao máximo me situar fora disso.
Mas, como eu disse, sou mesmo um filho do século XIX.
Entrevista concedida a Tulio Moreira Rocha, para a Revista Bula e para o jornal Opção, de Goiânia, em agosto de 2009.
Liberal, libertário e libertino. O escritor carioca Alex Castro fala sobre mercado editorial, literatura e internet. Nem José Saramago escapa
O escritor Alex Castro bolou um esquema incomum para o lançamento da edição impressa de seu primeiro romance, “Mulher de Um Homem Só”. Carioca, residindo atualmente em Nova Orleans, Estados Unidos, Alex fez uma campanha na internet para convencer leitores a comprar exemplares do livro, ao preço mínimo de R$ 24,40. A maioria dos investidores deu lances acima do valor inicial, garantindo a publicação. Em três semanas de pré-venda, o escritor conseguiu vender 117 exemplares, ao preço médio de R$ 33,90. O romance de Alex já havia causado boa recepção quando publicado na internet. Aliás, o autor tem uma relação de sucesso com o mundo virtual. O blog “Liberal Libertário Libertino“Â conquistou seguidores fiéis. O espaço, “anárquico” na definição do blogueiro, revela um criador ágil e multifacetado, atento e ousado. Para quem se interessou, é possível adquirir um exemplar do novo livro de Alex por meio do blog. Em entrevista a Revista Bula, Alex Castro afirma que a mágica de escrever um romance é poder sair um pouco de si e entrar no corpo de outra pessoa. O escritor também endossa o coro dos que acham José Saramago um chato e comenta sobre um de seus projetos vindouros, uma obra sobre sua intensa relação com a cidade do Rio de Janeiro. Confira.
Quais foram os desafios de publicar a versão “física” de “Mulher de Um Homem Só”, pela editora Os Viralata?
Alex Castro – Desafio nenhum, na verdade. Desafio foi tentar publicar o livro pelas ditas editoras tradicionais. Lançar o livro como lancei foi fácil. Anunciei no blog que faria uma edição física de “Mulher de Um Homem Só”, que a pré-venda já estava aberta. Dei os detalhes sobre a data que o livro iria para a gráfica e que o lançamento seria feito. Falei que dependendo do dinheiro que conseguisse levantar, decidia a tiragem do livro, ou então, desistia e devolvia o dinheiro de todo mundo. Enquanto isso, minha amiga, a artista plástica Isabel Löfgren, criou várias capas lindas, e os leitores também ajudaram a escolher a melhor. O Albano Martins, editor da Os Viralata, editou e formatou o texto do livro. Os resultados foram além de qualquer expectativa. Cento e cinquenta pessoas compraram o livro na pré-venda. Várias pagaram muito mais do que o preço mínimo, viabilizando com folga a edição.
Apesar da propagação dos chamados e-books na internet, viabilizados pela facilidade de distribuição e baixos custos, você ainda acha importante publicar “à moda antiga”, no papel?
AC – Não acho, não. Não vejo a menor graça no objeto livro. É uma coisa pesada, difícil de carregar, difícil de manter, que junta bicho, fede, dá mofo, essas coisas. Eu adoro literatura e adoro o conteúdo dos meus livros, mas não papel em si. O problema é que ainda estamos na Era do Papel. No final dela, mas ainda nela. As pessoas tendem a confundir papel com literatura, o que é meio ridículo. Papel é apenas o suporte. Uma poesia de Whitman é tão literatura se estiver no papel, numa tela de computador, escrita num guardanapo, num livro em áudio, grafitada numa parede, etc. Quando inventarem um outro suporte, mais barato, mais leve, que dê pra ler num parque num dia de sol, que dê pra marcar e sublinhar, e estamos quase lá, então os livros vão se tornar como os cavalos hoje: não vão sumir, mas também não vão ser uma opção de massa. Serão lidos e cavalgados somente pelos mais entusiastas.
Você se vê inserido no cenário da “literatura independente” brasileira? Quais são as barreiras e dificuldades para os autores que se propõem a escrever assim?
AC -Eu nunca me propus a escrever literatura independente. Eu me propus só a escrever literatura. Também não tenho fetiche por literatura independente. Se o Schwarcz (Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras) me ligar amanhã dizendo que me quer na editora dele, a única questão vai ser negociar o preço. O problema é o tal mercado editorial intransponível. A própria Companhia das Letras, li em algum lugar, afirmou que mantém um time de leitores pra ler os manuscritos submetidos, mas que nunca, nem uma única vez, publicou um livro que foi mandado assim na cara dura. Todos os livros que publicou vieram recomendados ou encomendados. Aí você vê que, verdadeira ou não, a história é emblemática. Se os caras nunca publicaram nenhum, o problema é provavelmente mais deles que dos autores, por um motivo simples. A Companhia é uma das maiores e mais prestigiadas editoras do Brasil. Provavelmente, muita gente que acabou saindo por outras editoras (e fazendo sucesso) também mandou seu livrinho na cara e na coragem para a Cia. das Letras, e nada. Será que eram mesmo livros tão ruins assim? Todos?
Para lançar “Mulher de Um Homem Só”, você recorreu às pessoas que gostam de investir em cultura. Apesar do velho senso comum de que a maioria da população brasileira é avessa às coisas do ramo, como você avalia o resultado do apelo, no caso do seu livro?
AC – No meu caso, foi tranquilo, pois tenho um blog há muito tempo, com leitores já cativos, que gostam de mim e me lêem diariamente. Muitos deles ficaram felizes de pagar para ler um livro inédito e também de retribuir as boas horas de leitura gratuita que tiveram. Quase todos os leitores pagaram mais do que o preço mínimo de R$ 24,40.
Você acredita que “livro é pra circular”. Qual é o tipo de leitor ideal para você? Como o leitor deve exercer o papel de propagador da obra literária?
AC – O meu leitor ideal não mantém uma estante cheia de livros que ele nunca mais vai abrir, como se fosse um caçador mostrando seus troféus:Â “Olha o antílope que eu cacei! Olha o Kuarup que eu li!” Acho muito esnobismo. Se já leu o livro e não vai ler de novo, passe adiante. Venda para um sebo. Doe para a biblioteca. Passe na universidade federal mais próxima e distribua entre os estudantes mortos de fome. Não deixe eles mofando entre os seus “troféus”.
O meu leitor ideal sabe também que sua relação com um autor vivo pode e deve ser interativa: ele pode interpelar o autor, interferir na obra, fazer ou destruir sua reputação. Não é a mesma relação que teria, digamos, com “Dom Casmurro” ou “Moby Dick”. Quando gosto do livro novo de alguém assim, eu faço post, escrevo no blog, conto pra todo mundo, dou o livro de presente, empresto, faço um escarcéu e uma divulgação muito maior do que faria se descobrisse um escritor morto e enterrado, porque sei que o autor precisa desse boca-a-boca pra existir. Ao mesmo tempo, quando odeio o livro de um autor vivo, eu fico calado e me auto-censuro muito mais do que no caso de um autor morto, que não está aí pra chorar de tristeza ou, pior, vir na minha porta me bater. Para que vou falar algo pra magoar um menino que está começando e cujo único pecado é ser incompetente e inábil? Eu sei que tenho liberdade de expressão. Eu sei que quem sai na chuva é pra se molhar. Sei que posso, mas, mesmo assim, não me sinto bem escrevendo algo que sei que vai fazer mal a alguém.
Um leitor comprou sete exemplares do meu livro, porque disse que adorou, queria conversar sobre o livro com os amigos, eles não conheciam, e achou que presenteá-los era um bom jeito de ajudar tanto a eles quanto a mim. Claro que esse homem é o meu leitor ideal, mas não precisaria ir tão longe. Basta colocar o livro de novo em circulação. Livro é pra ser lido. Se você já leu (e não vai usar ou precisar dele de novo), repasse para outra pessoa que vai lê-lo também.
Seu livro esteve disponível na internet para baixar até 2006, fazendo sucesso entre os internautas. Com o lançamento da versão “física”, você acha que a recepção de público e crítica pode ser diferente, comparada à versão digital?
AC – O livro teve uma recepção muito boa na internet, foi resenhado dezenas de vezes e obteve muito feedback. Via de regra, as leitoras se empolgaram mais do que os homens, a maioria se viu muito na personagem da narradora, a Carla. Não vejo porque a reação off line seria diferente. Minha grande esperança é poder atingir um público que não está na internet, que não teria acesso ao livro de outro jeito.
Fale um pouco sobre a sua formação cultural. Quais autores fizeram sua cabeça? Em que contexto você se interessou pela literatura?
AC – Sempre me interessei por literatura, mas nasci numa casa anti-literata, com poucos livros, e os poucos eram best-sellers, policiais, essas coisas. Tínhamos uma coleção da Britannica Great Books, o cânone do cânone, e me formei lendo esses livros, os grandes clássicos universais. Não tenho muitos autores que me formaram, não, porque sempre li muito, e desordenadamente, então, a graça é justamente ler muito, demais, sacudir aquilo tudo na cabeça e ver o que sai. Um escritor precisa ler muito por um único motivo: para saber o que já foi feito. Para não repetir livros velhos. Para ser capaz de detectar quando está inconscientemente roubando a voz de alguém. Essas coisas. Uma influência mais negativa do que positiva mesmo. Por exemplo, essa nova geração só repete Rubem Fonseca até hoje porque não leu o suficiente para saber como seus livros são repetitivos e velhos.
O que você aprecia na literatura atual, brasileira e internacional? E o que você preferia não ter lido nunca?
AC – Os dois melhores autores vivos na língua portuguesa são, sem dúvida alguma, Mia Couto e António Lobo Antunes. Ambos sempre me ensinam muito e fazem coisas com a língua portuguesa que eu achava que não poderiam ser feitas. Dos brasileiros vivos, tem pouca gente que eu gosto de verdade. Ariano Suassuna é provavelmente o melhor autor brasileiro vivo, só pelo “Romance d’A Pedra do Reino” e pelo “Auto da Compadecida”, mas ele não escreve faz tempo. Como todo mundo, gostei muito de “O Filho Eterno”, do Cristóvão Tezza . E meu irmão-marginal-escritor-independente Luiz Biajoni está escrevendo alguns dos livros mais originais, inovadores e empolgantes que já li em muito tempo, apesar de ninguém estar vendo ““ por enquanto. Fora da língua portuguesa, eu conheço muito pouco da produção contemporânea, mas o último livro sensacional que li, de me deixar boquiaberto e estupefato, foi “As Partículas Elementares”, do francês Michel Houellebecq, um autor completamente ensandecido e iconoclasta.
Não há nada que eu tenha lido que eu gostaria de não ter lido. Os livros ruins são muito importantes, pois servem de exemplo negativo, mostram o que já foi dito, o que já virou clichê, por onde não ir, o que não fazer.
Sobre “Mulher de Um Homem Só”, o que esse livro representa na sua obra? Como e onde ele está inserido no conjunto de seus trabalhos?
AC – Representa o fato de que ela existe. Minha obra, se é que podemos chamá-la assim, é composta de quatro livros. “Liberal Libertário Libertino” é uma coletânea das melhores crônicas que publiquei no blog de mesmo nome e na minha coluna na finada Tribuna da Imprensa, entre 2003 e 2007. “Radical Rebelde Revolucionário ““ Crônicas Cubanas” é um livro de crônicas de viagem sobre Cuba, um país que amo e adoro. Ao contrário do outro, não são crônicas coletadas, nem tiradas da internet, mas inéditas e escritas especificamente para formar esse livro. Devo ter feito algo de muito certo, porque os fidelistas me acusam de agente da CIA e os reacionários me acusam de lambe-botas do Fidel. O livro de contos “Onde Perdemos Tudo” reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta. A ordem dos contos também é importante: um livro de contos tem que ter uma sequência, algum tipo de narrativa. Nesse caso, começo com um conto sobre o processo de perda, sigo com um conto sobre o momento da perda em si, depois um conto sobre a perda relembrada e, por fim, um conto mais otimista, para não fechar o livro em uma nota desesperadora.
O romance “Mulher de Um Homem Só” desenvolve o tema de um dos contos: questiona se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.
Conte sobre o futuro. O que você está arquitetando?
AC – Atualmente, estou trabalhando em um romance chamado “Empregadas & Escravos”, tentando falar, de forma ficcional e não-esquemática, sobre essas nossas relações de poder tão ingratas. Já estou bem avançado nele. Além disso, como carioca expatriado, também tenho um projeto bem desenvolvido na minha cabeça de escrever um romance sobre toda essa questão de “sair do Rio”. O título de trabalho é “Rio Cidade Aberta” e a narrativa faria um paralelo com a Eneida, com aquele momento terrível em que Tróia está desmoronando, Enéias não quer sair mas acaba sendo obrigado a abandonar a cidade. A história se passaria em três momentos: 1711, quando a cidade foi tomada pelos franceses e a população, mesmo querendo lutar, foi obrigada a evacuar a cidade sob uma chuva torrencial; 1893, quando a nossa própria Armada começou a bombardear nossa própria capital, muitos moradores abandonaram a cidade em pânico e a situação só se resolveu quando o Rio foi declarado “cidade aberta”; e 2002/2003, quando por duas vezes Fernandinho Beira-Mar fechou o comércio e as escolas do Rio, a primeira vez que uma ação criminosa afetou a cidade como um todo.
Ao longo de todas essas épocas e situações, as questões serão basicamente as mesmas: vale a pena ficar no Rio e lutar pela cidade? Quando é a hora certa de sair? Existe isso de hora certa de sair? Eu amo o Rio obsessivamente, mas saí da cidade faz quatro anos. Ainda assim mantenho um apartamento lá e passo cerca de cinco meses por ano no Rio, então eu moro e não moro, saí e não saí. É uma posição que me permite, ao mesmo tempo, ver a cidade de fora e de dentro.
Como você utiliza seu blog para apresentar suas ideias e criações?
AC – O blog acaba se tornando o espaço do Alex-pessoa-física, em oposição ao Alex-escritor-de-ficção. No blog, exponho minha vida real, minhas opiniões, quem eu sou. Já a ficção é o mundo de ser outras pessoas, viver outras vidas. Nesse ponto, a grande função do blog, em relação aos meus livros, acaba sendo criar um grupo cativo de leitores que gosta do que eu escrevo e que se interesse em conhecer a ficção também. O único problema é que chegam na ficção procurando o Alex do blog, que é uma persona exuberante e polêmica, e ele está lá muito escondidinho, caladinho, deixando dar espaço para os personagens crescerem e encontrarem suas próprias vozes.
Não entendo esses autores que sempre escrevem sobre si mesmos, cujos protagonistas sempre são alter-egos disfarçados, cujos enredos são sempre baseados em coisas que lhes aconteceram. A mágica da ficção é justamente poder ser outra pessoa. Que graça teria escrever um romance sobre mim mesmo e sobre minha própria vida? Eu já me conheço, ora bolas. Já vivo comigo o tempo todo. Já vivo a minha vida o dia inteiro. Em “Mulher de um Homem Só”, eu, homem, ateu, libertário, artista, solteiro, sem filhos, poliamoroso, quis me metamorfosear em uma mulher, conservadora, casada, dentista, mãe, católica, ciumenta. Quem é essa pessoa? Como ela pensa? De que maneira reage às situações? Para mim, a mágica do romance é justamente esse processo de descoberta do outro. De sair um pouco de mim mesmo e de entrar no corpo de uma nova pessoa.
Recentemente, o jornalista Luís Antônio Giron, da revista “Época”, afirmou que a blogosfera se tornou o “paraíso dos chatos”, à exceção de blogueiros como José Saramago, citado pelo jornalista. Seu blog tem como lema “Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.” Como conquistar espaço num lugar tão “anarquizado” como a blogosfera?
AC – Nunca imaginei que iria ver as palavras “Saramago” e “chato” na mesma frase sem ser para dizer que ele é o rei absoluto dos chatos. Sensacional. Tem mesmo gosto pra tudo. O Saramago é bom ficcionista, mas seu blog é chato, suas opiniões são chatas, ele é uma pessoa chata. Saramago se tornou aquele típico ancião ranzinza que reclama de tudo que é novo e que ele não compreende direito. Apesar de tudo, existe um mérito de ele fazer essas reclamações em um blog (ou seja, ele entrou para ver como é), ao contrário de tantos outros velhos ilustres que reclamam de tudo sem nem saber sobre o que estão falando.
O blog tem sido um sucesso, ainda mais que ele é de fato totalmente anárquico. Não tem pauta, não tem tema, segue a esmo minhas obsessões. Via de regra, o blog fica travado em um assunto enquanto eu estou mentalmente travado nele, e quando mudo de interesse, o blog muda de tema, e assim vai indo. Invariavelmente, os leitores reclamam: “se ficar falando só de casamento aberto/racismo/teatro/etc, você vai espantar todo mundo, daqui a pouco ninguém mais te lê!”, mas não percebem que a graça de um blog é justamente não ter pauta, é justamente eu poder falar do que quiser, sem rédeas, sem editor, sem manual de redação.
Então, enfim, para um blog tão caprichoso e nada focado, é impressionante o seu sucesso, ainda que bastante limitado. Hoje, o blog paga o aluguel do apartamento que mantenho no Rio, ou seja, me permite manter uma presença na cidade que amo tanto, e só por isso eu já seria grato a ele. Na prática, o blog me permitiu realizar algo que sempre sonhei: viver de escrever. Em 2005, quando saí do Rio, eu dava aulas o mês todo em uma escola e ganhava mais ou menos o que o blog me rende hoje. Isso é muito gratificante. Não me vejo como blogueiro profissional, mas como escritor. Esse é um dinheiro que ganho dos meus leitores, em função dos textos que escrevo. Ser escritor é isso.
Afinal, quem vai levar o exemplar número 0001?
AC – Foi para uma leitora da Turquia que pagou R$ 200.
Por trás de um dos blogs mas populares do Brasil, o Liberal Libertário Libertino, há um romancista independente, um acadêmico apaixonado e um livre pensador. Nesse papo às vésperas do lançamento da primeira edição não virtual de seu primeiro romance, projeto que só pôde ser lançado com o patrocínio de um exército de leitores de seu blog, “os mecenas da blogosfera”, Alex Castro fala de blogs, das prisões que acorrentam o ser humano de como se livrou delas para abraçar a sua vida libertária, e, claro, de seu primeiro romance, agora lançado fora da rede, Mulher de Um Homem só já muito bem conhecido por seus leitores que o baixaram mais de 30 mil vezes durante o período que esteve disponível para download gratuito.
Quem é Alex Castro?
Alex Castro é um grandecíssimo mentiroso, como todos os autores de ficção. Não confie em nada do que ele diz.
Em auto-definção no flickr, Alex Castro se diz (originalmente em inglês): Hedonista, novelista, ateísta, pedólatra. Destro, divorciado, maduro, viajado. Livre pensador, escritor, professor, pro-ativo. Foto: Roberto Rivera
O Liberal, Libertáro, Libertino está online desde 2003 e é hoje um dos mais populares blogs do Brasil. Como você entrou na blogosfera?
Vários e vários motivos. O mais engraçado é que, quando abri o LLL, eu nunca tinha lido um blog, nem sabia o que era. Minha amiga Isabel (a quem Mulher de um Homem Só está dedicado) é que ficou me pentelhando, dizendo que era a melhor ferramenta possível para um artista expor seu trabalho – e estava certa. Mais ainda, eu estava escrevendo uma série de textos chamados As Prisões, sobre as diversas prisões que acorrentam o homem, como heterossexualidade, monogamia, verdade, religião, vergonha, ambição, obediência, etc, e achei que seria legal ver quais seriam as relações das pessoas a eles. E, realmente, As Prisões tiveram, e ainda têm, uma repercussão muito legal. Além disso, eu tinha acabado de reencontrar uma antiga amiga de escola, Andreia, que tinha se tornado dominadora profissional na Austrália e vivia um casamento aberto, e levava uma vida parecida com a minha, mais libertária e mais libertina, e eu achei que alguns daqueles valores que eu e a Andreia tínhamos descoberto e praticávamos mereciam ser articulados, tinham que ser vividos em público. Na verdade, ela me fez sentir envergonhado por meu pudor público perante a vida. Então, o blog também foi um meio de discutir publicamente questões muito importantes e vitais pra mim até hoje, como amor livre, poliamor, ciúmes, monogamia, relacionamentos abertos, etc. E assim entrei na blogosfera.
O LLL gira em torno dessas prisões que acorrentam a humanidade, medo, vergonha, religião, patriotismo, felicidade, monogamia, heterossexualidade, dentre outras. Como você conseguiu se livrar delas?
Basta querer. Controle de si é tudo na vida. Quase nada na vida a gente controla mas eu mesmo, como eu reajo aos estímulos do mundo, como me coloco diante deles, isso depende de mim, sim. E, assim, aos poucos, um dia de cada vez, eu fui me tornando menos tímido, menos travado, menos humilde, menos envergonhado, menos bundão, menos preocupado com a opinião dos outros, menos medroso, menos consumista, menos careta, essas coisas. Mas é um processo consciente. Todas as forças do mundo nos empurram pra conformar com o rebanho. Então, “ser você mesmo” não é algo que venha naturalmente a ninguém, é uma luta diária. Você tem que se perguntar: “hoje, eu fui a pessoa que eu quero ser?”
Fumando, companhia do cachorro Oliver.
Mas você disse para não acreditar em nada do que você diz então fica a dúvida: o Alex Castro hedonista, na prática, é um personagem?
Tenho uma pergunta melhor: e daí? Metade das coisas que eu disse nessa entrevista é mentira. Mas qual metade? Ou talvez isso que eu disse agora seja mentira e só falei sempre a verdade. Mas e daí? A verdade é que existe um livro chamado Mulher de Um Homem Só e ele é bom ou ruim independente de ter sido escrito por um homem ou por uma mulher, por um carioca ou um goiano, por um branco ou por um negro, por um adolescente ou por um velho. A mensagem das Prisões é válida ou não independente de eu ter esses valores ou não, de eu acreditar neles ou não. Vai ver eu escrevi tudo ironicamente, mas isso não impede alguém de levar o texto ao pé da letra e mudar sua vida. O texto é real, entende? Só isso importa. Eu, minhas mentiras, minhas verdades, minhas intenções, somos todos irrelevantes. Talvez a Prisão mais importante a ser vencida seja a Prisão Verdade, essa nossa necessidade quase infantil de questionar a veracidade de tudo o tempo todo. Eu sou um escritor de ficção: meu trabalho é justamente implodir a verdade. A ficção é uma mentira que, se bem dita, nos leva a verdades maiores do que a maioria das verdades que andam por aí bradando sua veracidade aos quatro ventos.
E qual a reação de seus leitores a essa vida “mais libertária e mais libertina”, considerando que foge completamente dos padrões aceitáveis no Brasil, um país ainda tão sexista? Há até uma campanha, “Eu Odeio o LLL”, com o seu aval.
A campanha “Eu Odeio o LLL” não tem apenas o meu aval. Eu a criei e a promovi. Oras, não há porque só as pessoas que gostam de mim terem banner me linkando. Quem me odeia também tem direito de me promover! Mas, obviamente, foi uma campanha humorística, pra brincar com aquele tipo de leitor que, justamente, diz que me odeia e discorda de tudo, mas lê e comenta obsessivamente todo dia. Esses leitores me divertem muito, mas são uma minoria, ainda bem. Logo enchem o saco e vão embora, porque eu não dou corda.
Via de regra, a mensagem das Prisões acaba tocando mais dois grupos de pessoas: em primeiro lugar, adolescentes ou pós-adolescentes de ambos os sexos que estão em processo de tentar se tornar adultos, livres e independentes. Uma amiga brinca que passo boa parte do meu tempo no MSN, como Sócrates na ágora, tentando corromper “meus jovens”. E, em segundo lugar, mulheres que estão naquela famosa crise dos sete anos, que subitamente se descobrem em casamentos mornos e insatisfatórios, e que de repente querem ser livres e realizar seu potencial. Esses dois grupos representam uma parcela desproporcionalmente enorme dos leitores que me procuram, então imagino que a mensagem das Prisões é relevante para quem está nessas situações.
Alex Castro, em foto de Roberto Rivera.
Mudando para a literatura na rede, há bons blogs literários no Brasil? O que passa pelo seu seu blogroll?
Olha, eu confesso que nunca fui fã de blogs e, faz muito tempo, desencanei totalmente deles. Hoje, leio pouquíssimos blogs, e quase que só os de amigos próximos, pra saber como eles estão. Alguns bons escritores contemporâneos têm blogs, mas o blog é sempre uma coisa diferente da ficção. Até porque é difícil colocar ficção em blog. Então o blog acaba funcionando como uma ferramenta para o autor polir seu texto e construir um círculo de leitores para quem possa, depois, vender ou dar seu livro. Sinceramente, eu acho bem possível que existam bons blogs literários no Brasil. Mas eu, por deficiência minha, não conheço.
Você foi um dos pioneiros em experiência de e-books pagos no Brasil. Em que grau, na sua opinião, a internet ajuda autores e artistas independentes em geral?
A internet é fundamental, por permitir ao artista um contato direto com seu público, um contato que antes dependia de diversos mediadores: gravadoras, editoras, jornais, etc. Está surgindo um novo paradigma na arte que funciona mais ou menos assim: você distribui a sua arte de graça, para construir um público, e depois vende pra eles produtos diferenciados, raros, assinados, exclusivos, etc, do seu trabalho. De certo modo, estou fazendo isso com Mulher de Um Homem Só, que foi baixado gratuitamente mais de 30 mil vezes e foi vendido em edição limitada, numerada, na qual os leitores que pagaram mais ganharam os menores números. O exemplar número 001 foi para uma leitora da Turquia que pagou R$200 por ele.
Marcador de livro exclusivo para os mecenas da blogosfera que compraram o livro antes do lançamento.
Como surgiu essa idéia dos mecenas da blogosfera para transformar o Mulher de um Homem Só virtual em edição em papel?
Mulher de Um Homem Só ficou disponível para download gratuito por 4 anos, entre 2002 e 2006, quando foi baixado 30 mil vezes. Depois disso, contratei uma agente literária para tentar vender o livro para editoras, mas ela não conseguiu nada. Nesse meio tempo, lancei vários ebooks – sabe como é, tem custo zero – e fui vendendo, mas todo mundo vinha perguntar: “ah, nao tem de papel? odeio ler na tela!” etc. O problema é que, sem uma editora, imprimir em papel custa caro, tenho que pagar a edição do meu próprio bolso e fazer tudo sozinho. E pensei, hmm, se os leitores querem tanto livros de papel, por que então não pagam por eles? Vou colocar o livro em pré-venda, quando arrecadar o suficiente pra impressão, imprimo; senão, devolvo o dinheiro de todo mundo. E foi um sucesso. Mulher de Um Homem Só vendeu 150 exemplares na pré-venda e o valor arrecadado daria para custear uma edição de 700 exemplares.
Quais as vantagens e desvantagens de publicar na internet, em vez de seguir os caminhos tradicionais?
Para mim, as vantagens foram ganhar mais dinheiro do que ganharia publicando livro como o novato patinho feio de uma editora tradicional e também um maior contato com o meu público. A grande desvantagem de não estar no caminho tradicional é a falta de visibilidade e prestígio. Eu escrevo literatura e tenho um blog, mas sou chamado de “blogueiro”. O cara que tem um livro publicado pela Rocco (mesmo que ninguém tenha lido) e tem um blog, é um escritor – que, por um acaso, tem um blog. Mas isso já está mudando.
Esse contato maior com os leitores muda de alguma forma a forma como você escreve, ou até o enredo de suas histórias, uma vez que você passa também a conhecer mais o público e a saber o que ele quer, ou você mantêm, nesse caso, uma distância para produzir exatamente o que acha que deve, sem influências do consumidor de sua obra?
Muda. Mas não do jeito que você perguntou. Não existe muito isso de dar o que o povo quer. Não sou balconista, que pergunta ao cliente o que ele quer, vai e entrega. Na literatura, o cliente quase nunca tem razão. O espírito da literatura é o da complexidade. Um bom livro te leva a lugares que você não queria ir, te ensina coisas que você não queria saber, mostra que o mundo, as pessoas, as coisas, são mais complexos do que você imaginava. No momento em que um autor de ficção se propõe a dar os que os leitores querem, ele abdicou de uma das prerrogativas básicas da arte.
Aliás, talvez seja esse um dos tão buscados limites entre literatura-dita-arte e a chamada literatura de entretenimento: na segunda, você busca entreter e dar ao leitor o que ele quer. Na primeira, não. Obviamente, na literatura, você pode perfeitamente dar ao leitor o que ele quer, mas esse não pode ser um dos critérios fundamentais da criação da arte. Em tempo: não estou estabelecendo nenhuma relação de hierarquia entre ambas. Qualquer livro policial de Nero Wolfe é melhor do que 90% da literatura-dita-arte. Resta o fato de que ambos tipos de literatura tem um objetivo e uma relação com seu leitor bem diferentes.
E, respondendo a pergunta, sim, o contato com os leitores muda tudo, mas por outro motivo. Porque o autor escreve sempre com um leitor ideal em mente, e buscando criar um efeito nele. O contato com o leitor permite medir se você está atingindo seus objetivos e ajustá-los de acordo. Os exemplos são inúmeros. Uma vez, uma leitora me disse que uma cena de um conto fazia com que ela voltasse a uma época mais simples, mais idílica, que se sentisse como se estivesse dentro do Almoço da Relva, de Manet, fazendo um bucólico piquenique num bosque à beira no Sena em pleno século XIX”. E eu agradeci a opinião, e naturalmente a leitora não estava nem um pouco errada, cada leitura é válida, mas reescrevi a cena, coloquei um celular desligado em sua bolsa e uma asa delta passando no céu, justamente para cortar esse efeito, que não era o que eu buscava. Mas, veja, a internet não tem nada a ver com isso. Esse tipo de coisa acontece desde que existe literatura.
Como você tem base nos Estados Unidos no momento, enquanto , qual é a sua visão sobre as diferenças entre os mercados editoriais brasileiros e estadunidenses? (pergunta de @emanuelcampos, via twitter)
Nem sei. Eu vivo nos Estados Unidos de maneira muito estranha. Estou lá fisicamente, mas dentro da bolha universitária, que é como se fosse outro mundo. Estudo e dou aulas no Departamento de Espanhol e Português. Boa parte dos meus colegas, todos os meus alunos, quase todos do meu círculo social não apenas falam português fluentemente como têm um forte interesse pelo Brasil. Minha pesquisa é sobre Brasil. Minhas leituras, minha ficção, meu blog, minha producão acadêmica eu escrevo em português. Minha namorada, minha família, meus leitores, estão no Brasil. Eu publico no Brasil. Ou seja, todo meu olhar é voltado pro Brasil. Não acompanho, estudo, observo o mercado americano.
Há planos de tradução para esse, ou outros de seus livros?
Um casal de tradutores, ele brasileiro e ela argentina, se ofereceu para traduzir Mulher de Um Homem Só ao espanhol. Pretendo pegar essa versão e bater perna um pouco com ela. Tenho alguns contatos nos meios editorais cubanos e adoraria ser lido por lá. E também já existe todo um mercado literário em língua espanhola nos Estados Unidos que posso procurar – e que eu não conheço! Uma versão em espanhol, a segunda língua ocidental mais falada, já abriria inúmeras possibilidades. Aliás, o brasileiro do casal é justamente o Emanuel que sugeriu a pergunta acima.
E qual o trecho que mais gosta de Mulher de um Homem Só?
Não sei se é o que eu mais gosto, mas acho que é um trecho bem representativo.
“Eu não desconfiei porque nem todos esses almoços serviam pra despontar o vício de Murilo que Júlia tinha. Eu, que me achava sua clínica de reabilitação, era na verdade sua fornecedora clandestina: ela vinha me ver e fungava cada carreirinha de Murilo que pudesse encontrar. E eu fazia o mesmo, porque um gambá cheira o outro e eu também não sou lá muito diversa. Ela me sugava o presente, e eu, o passado. Júlia sabia tudo sobre o Murilo, cresceram juntos, nunca não se conheceram. Um era a constante da vida do outro. Júlia era tão constante que me fazia sentir a variável e isso me deixava tonta, eu precisava ir ao banheiro depois: eu imaginava Júlia, amanhã, fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e sugando o futuro. E eu pensava: o juramento foi comigo, a mulher dele sou eu.”
Amigos, no lançamento de São Paulo, alguns dos quais mecenas: Camila, Doni, Olivia.
Há pouco mais de um mês, o escritor Alex Castro lançou o agilíssimo romance Mulher de um homem só (Os Viralata, 2009), cuja impressão foi inteiramente custeada por leitores já familiarizados com seu trabalho. “Cidadão virtual” dos mais atuantes, Alex arrebanhou um público considerável através de seu blog e de seus e-books, e foi o esquema de “compras por antecedência” por ele bolado que acabou viabilizando o salto ao impresso.
Quanto à entrevista: os trabalhos começam comigo não pescando muito bem os dados biográficos ao fim do romance. Na edição que me foi entregue, consta que o autor é um médico vegano residente no interior de São Paulo; todas as informações googladas contradizem essa bio crassamente. Alex ““ neste momento já estamos sentados num Hiper Matte desses de Botafogo ““ me mostra, então, a edição vindoura de “Mulher…”, que termina com uma minibio completamente outra, situando o autor em Santarém, onde estaria morando com o marido. Bastante alheio à etiqueta da reportagem, exclamo nosso convidado de “mindfucker”, que é a expressão em inglês para “alguém que se compraz em zoar com a tua cabeça”. É nesse momento que começamos a entrevista propriamente dita, e mais uma vez não consigo fazer com que o gravador engate de primeira (ao que Alex comenta, pacificador: “Todo gravador é ruim, só que de maneiras diferentes. Que nem o fax. Uma tecnologia que nunca ficou boa de verdade”)
Alex Castro: … esse negócio de mindfucker tem tudo a ver com pedagogia. Eu não consigo não ser professor, estou sempre tentando ensinar alguma coisa. Principalmente quando estou te sacaneando, quando estou mexendo com a sua cabeça. É sempre pra ensinar alguma coisa; nem que seja a não confiar num idiota como eu. Também tem a ver com filosofia Zen, coisa que eu gosto muito. A filosofia Zen é mestre sacaneando discípulo até o discípulo aprender a sacanear de volta. Só depois disso que o discípulo muda de fase. A grande função da literatura é mostrar que as coisas são mais complicadas do que parecem. A gente vive num mundo muito simples, só conversamos com gente de opinião parecida com a nossa ““ basicamente, todo o mundo vive uma vida em que todos os seus inputs confirmam aquilo que você já achava. A novela confirma seus valores, a namorada pensa como você: essa é a vida normal das pessoas. A gente busca quem pensa como a gente ““ o que, aliás, é um problema quando você fica meio conhecido. Você acaba convivendo muito mais com pessoas que gostam de você do que o contrário. Se eu tenho um leitor que gosta do que escrevo e quer me pagar um jantar, é muito mais provável que eu jante com ele do que com meu primo que me enche o saco. Óbvio. Mesmo eu que não sou ninguém, às vezes chego nisso: começo a conviver com tanta gente que acha que eu mando bem que passo a acreditar. Vira um círculo vicioso, onde as pessoas com quem você anda só fazem confirmar o que você já pensava. É foda, isso. Todo o mundo, de um modo ou de outro, está preso nesse esquema. E a arte serve pra quebrar isso. Qualquer arte boa serve pra mostrar que aquilo que você achava certo talvez não seja, que aquele cara que você achava equivocado talvez tenha razão ““ basicamente, que talvez as coisas não sejam assim. E talvez seja essa a grande diferença entre a “boa literatura” e a literatura thriller, policial, entretenimento, auto-ajuda. Martela-se muito nisso, mas na verdade é uma questão muito simples: um livro de literatura não é intrinsecamente melhor do que um livro policial. Eu adoro policiais, até auto-ajuda eu leio. Mas tudo tem o seu momento: é que nem comparar um tartelette com uma picanha. Mas a grande diferença da literatura que se pretende arte é o desejo de te questionar. A literatura thriller, a literatura policial, os livros de espionagem, os livros de auto-ajuda, são cheios de peripécias ““ mas essas peripécias não questionam sua visão de mundo. Pelo contrário, são formulaicas. Não é dizer que sejam ruins, mas ler Agatha Christie não muda a vida de ninguém. Você lê Christie e tem uma fórmula lá, que você conhece e gosta, e você quer voltar para aquele mundo familiar. Você quer passar mais algum tempo com o Poirot, com o Hastings, você sabe que no último capítulo vai aparecer o primo do mordomo e que ele é o bandido, e é divertido pra caralho, mas não muda sua visão de mundo. Outra coisa que eu também falo às vezes sobre literatura é que nós estamos no business de mudar a vida das pessoas. Não no sentido auto-ajudesco, porque, como já disse, auto-ajuda não muda nada. Você pega um Paulo Coelho, por exemplo, e são livros legaizinhos de ler…
(eu faço uma cara esquisita)
Alex (prosseguindo): Não são livros horríveis, tem historinha e tal; só não é Kafka. Você lê e aquilo confirma tuas idéias, teus valores, a noção que você tem do que era pra ser. A literatura que se pretende arte visa te mostrar que as coisas não são assim, que o mundo não é como parece, visa questionar um pouco teus valores e mudar, de fato, a tua vida. A questão da linguagem também tem parte nisso (de nada ser tão simples quanto parece). Por exemplo, o Biajoni, que escreveu Sexo anal (Os Viralata, 2007) e é um grande amigo meu, escreve uns livros meio pulp, com uma linguagem bem do dia-a-dia. São livros incríveis, mas eu acho que tem muito lugar-comum. E ele fala exatamente o contrário do meu livro: adora, mas acha que a Carla ““ a narradora/protagonista ““ não fala como uma “dentista”, ela usa uma linguagem diferente. E isso é parte integrante do meu projeto estético. O livro não é para ser realista. Ela já está falando mil lugares-comuns; que a linguagem não o seja também. Que a linguagem lembre a você o tempo inteiro que você está num livro. Houve um esforço de depurar da Carla tudo o que ela não falaria; todos os intelectualismos. A maioria dos neologismos, por exemplo, nasceram lugares-comuns. Eu sublinhava cada lugar-comum que ela falava e ia mudando. Por exemplo, em dado momento ela fala que “família é tudo farinha do mesmo saco”, e eu troquei por “família é esgoto do mesmo cano”. Eu fiquei um ano retorcendo a linguagem, tirando tudo o que me soava como expressão feita. É a diferença da pintura para uma foto: quando você vê um quadro pintado de uma maçã, tudo ali é encarado como escolha. Mas quando você vê uma foto de uma maçã, é muito mais fácil se distrair e atravessar a foto, vendo só o objeto. Você esquece que a maçã não está ali por ato divino; ela foi escolhida, assim como o ângulo. O fotógrafo fez praticamente todas as escolhas do pintor, só que elas não estão evidentes. A foto é documentário, e documentário é a coisa mais traiçoeira do mundo. Você esquece que a foto é uma construção humana e artística. Uma pessoa distraída pode tomar aquilo como verdade, como acontecido. O quadro não permite isso, porque ele se força como quadro, como construção. A mesma coisa vale para a linguagem literária, e é essa a discussão que eu tenho com o Biajoni. A linguagem literária, quando é muito natural, torna o livro transparente: você vê os personagens como se estivessem vivos. Eu não quero isso; eles não existem, nunca existiram, nunca vão existir. Existe o livro; uma coisa una, fechada. E cada notinha, cada biografia, tudo faz parte do livro. E se você se vê forçado a questionar até a biografia do autor, ou até o aviso de que o livro foi baseado em fatos reais, então aumentam as chances de você questionar a Carla, e de questionar a sua vida. A obra de arte exige ser vista como uma coisa só. Ela não deixa você passar batido por ela. Isso só para falar do objeto-romance, sem nem entrar na intriga. Uma coisa que eu acho sensacional é que, grande parte dos elogios que me fazem são calcados no realismo: que Carla é muito real. E eu sempre pergunto: “mas isso é bom?”. Usar isso como elogio presume que a função da literatura é ser real, e quanto melhor você recria a realidade, melhor é o livro. Mas não é isso.
I: Não faz sentido, historicamente, um livro que faz-de-conta que não é livro.
Alex: Mas a maioria dos livros é assim, hoje em dia. As pessoas ainda estão numa mentalidade século XIX, em termos de narrativa, porque a maior parte dos livros consumidos são isso: historinhas. É Harry Potter. E eu acho o máximo, li os sete livros empolgado. Mas é uma narrativazinha linear século XIX ““ Dickens poderia ter escrito Harry Potter. Então, para a maioria das pessoas que não tem muita sofisticação literária ““ e falo disso não como um problema; a literatura é linda porque cada um lê o que pode, como quer e do jeito que quer ““ mas pra quem ainda está preso num modelo século XIX de literatura, só vai existir a historinha. Outros leitores mais “pós-modernos” conseguem ir um pouco mais fundo, desconstruir mais um pouco. O que eu acho importante, do ponto de vista literário e pedagógico, é o livro se permitir ser lido de maneiras diferentes. Ulisses [de James Joyce] é legal, mas é ilegível como historinha. Se você só quiser saber como foi o dia do Bloom, não vai encontrar isso lá. Para um livro ser mais acessível, e atingir mais pessoas, ele deve permitir uma leitura sem sofisticação. Um leitor que quer uma historinha com começo, meio e fim, ele vai passar pelo livro sem nem perceber que não viu alguma coisa; ele não vai se achar burro. É chato ler um livro mais esperto que você. Eu não quero que meu livro seja mais esperto que ninguém. Se você quiser uma historinha de triângulo amoroso, ela está lá no meu livro, e quase todo mundo vai ler assim mesmo. É imprescindível para mim que não seja só isso. Assim, o livro oferece mais a quem quer mais, a quem consegue ver mais. Nesse ponto, uma amiga minha falou que o Mulher… é um romance do não-dito, a história de verdade deve ser colhida pelas bordas. Mas voltando: a literatura de entretenimento visa a entreter, sem necessariamente mudar os teus valores. Mas num livro como o meu ““ que se pretende arte ““ a primeira coisa que se deve entender é que a ficção é mentira. É mentira o tempo todo. Mentira, mentira, mentira. E eu sou um mentiroso profissional. Não vou ser pego falando a verdade, e por questão de método, de princípio. Eu quero que o leitor veja que não se pode confiar na ficção. A ficção te livra da barreira do real, então você pode se concentrar na mensagem de modo mais puro ““ você não precisa ficar se perguntando se aquilo aconteceu de fato, nem como. Você pode se dar ao luxo de não questionar os fatos porque sabe que os fatos são mentirosos ““ você pode se concentrar na mensagem. Aquele negócio, cara: a Bíblia é meu livro preferido, mas pra mim é pura ficção. E não interessa. Aquela ficção da Bíblia passa mil mensagens geniais, mesmo pra quem é ateu como eu. Jesus é um puta personagem; Paulo é quem fode com Jesus. Aliás, o Novo Testamento é ridículo. Metade é Jesus sendo incrível e a outra é Paulo desmentindo tudo o que você acabou de ler, cara! O Paulo reinterpreta tudo!
I: Mas taí, a questão da ficção como algo muito pouco confiável por natureza. Entra o Paulo, e você tem toda uma outra versão dos fatos.
Alex: Bom, o Novo Testamento é o quê? Você tem os quatro evangelhos e os Atos dos Apóstolos. Esquece “verdade”. Esses 5 livros… como literatura, são sensacionais. Tem sangue, morte, sexo, é muito legal. Mas aí depois, entra o Paulo reinterpretando tudo aquilo com as cartas. O Paulo falava de casamento e família, mas Jesus mandava todo mundo largar tudo, não casar, mandar a mãe à merda (Jesus era super cavalo com Maria). É incrível. É uma aula de crítica literária. Você tem um livro foda, e depois do livro, você tem 20 apêndices em que um crítico literário de MÃ-FE reinterpreta aquilo tudo do avesso. Aí, no final, chega o Apocalipse e fica genial de novo. Mas voltando ao Mulher de um homem só, esses avisos estão presentes no livro, em parte, para fazer com que o leitor comece a questionar sua própria expectativa desde o início: inclusive, a expectativa de veracidade no que tange à biografia do autor. A biografia do autor é irrelevante. Cada edição do meu livro leva uma biografia diferente, e o livro é o mesmo. A mensagem do livro ““ se existe alguma ““ é a mesma; a qualidade do livro ““ se ela existe ““ é a mesma; então, foda-se se o autor é gay, de Santarém, negro, branco, casado. Eu tenho até feito dedicatórias apócrifas, inventando histórias para cada leitor. Por exemplo, “Ao Ismar, meu querido amigo, nunca esqueço aquela nossa virada no vôlei contra seus primos em Maricá. Foi sensacional! Abraço, Alex”. Não só é engraçado ““ e me manteve são durante a noite de autógrafos, porque foram umas duzentas dedicatórias ““ como mostra que é um livro de ficção. Nada é pra ser de verdade. E daí que não é verdade? Até a dedicatória é falsa. Tudo é falso.
I: Você fala em “História do livro” [pósfacio de Mulher de um homem só] que brincou alguns anos com a idéia de narrar a história ou pelo Murilo, personagem inspirado em você mesmo, ou pela Júlia, personagem inspirada por uma amiga sua muito próxima; mas acabou optando pela Carla como narradora porque os outros dois personagens já lhe eram bem próximos. A ficção é, de fato, “pra gente ser outras pessoas”?
Alex: Bom, essa é a graça. Eu sou psicanalisado…
I: Quanto tempo?
Alex: Nove anos.
I: Que delícia.
Alex: Recebi alta do Collor, em 90, desde então não voltei mais. Mas como eu dizia, eu sou bem tranqüilo com o que eu sou. Eu sou bem resolvido, sei o que eu quero. Eu atormento os outros. Mas não sinto necessidade de me retrabalhar na ficção. O blog é o espaço do Alex cidadão ““ mesmo sendo um pouco ficcional. Mas é lá que eu trato de mim mesmo. É uma escrita fácil, simples, rápida: uma escrita de momento. Em ficção, a graça ““ pra mim ““ é ser outra pessoa, senão não faz muito sentido. Via de regra, muita gente anda fazendo livro sobre si mesmo. Eu até acho possível que o leitor tenha interesse na minha vida ““ aliás, no blog, eu fico chocado com o quanto as pessoas querem saber da minha vida ““ mas eu não tenho. Se eu fosse escrever um livro sobre mim, eu certamente perderia o tesão no meio do caminho. Eu me conheço. Eu já estou razoavelmente tranqüilo com o que eu sou.
I: Isso deve irritar as pessoas um bocado.
Alex: Bastante, é insuportável. Mas é divertido, também. As pessoas levam a minha vida no pessoal. Mas voltando à ficção, ao passo que eu conhecia mais ou menos o Murilo e a Júlia, havia lá uma mulher que eu não conhecia. A Carla não é como ninguém que eu conheço. Ela foi criada. E esse processo é o mais legal: ir conhecendo a personagem aos poucos, compor uma voz, descobrir o tipo de reação que ela teria. Todo autor é narcisista, mas o meu narcisismo é um pouco diferente ““ eu estou no romance, um pouco no Murilo e um pouco na Júlia, mas esse olhar sobre mim é externo; é a Carla, que sacaneia mil coisas minhas que estão no Murilo e na Júlia. Então, é também um exercício em tentar imaginar como as pessoas me vêem. Ser outra pessoa, e ao mesmo tempo, entender como me vêem. O narcisismo autoral entra nesse momento. Mas o livro não é sobre mim; é sobre ela. Só que em algum momento ela olha pra mim e me dá umas cutucadas.
I: O que acho incrível é que o discurso da Carla é violento, mas, ao mesmo tempo, totalmente senso comum. É um discurso de quem está completamente envolvido com as prisões que você ataca no seu blog: a heterossexualidade, a monogamia, a religião.
Alex: Sim, mas só me interessa porque não é meu. As pessoas que se conformam me fascinam; eu nunca consegui ser assim. Então, me interessa saber quem é essa pessoa, como é que alguém se torna isso. Se eu fosse escrever a história da minha vida, ia ficar mais ou menos como Trópico de Capricórnio [romance autobiográfico de Henry Miller, seqüência de Trópico de Câncer. Publicado em 1939, há uma edição recente no Brasil da José Olympio, de 2008], só que não tão bom. Quem quer ouvir mais um autor pseudomarginal, pobre, que fuma, que bebe, que transa… entendeu? É minha vida, mas não acho que seja boa literatura.
I: Você nota uma progressão na sua literatura, então, no sentido de estar cada vez mais externado de si mesmo, cada vez menos autobiográfico?
Alex: O blog me permitiu um espaço para falar da minha vida, e por causa disso, agora posso explorar coisas muito mais legais na minha ficção. Voltando ao senso comum da Carla ““ eu estou fazendo uma outra história agora protagonizada por uma mulher bem senso comum, e todas as pessoas para as quais mostrei o conto a odiaram. Mas a Carla, não. Há um grupo de leitores que incorpora totalmente o discurso da narradora.
I: “Compram sem nenhum questionamento”.
Alex: Sim, e acham que o romance é isso. Mas o romance foi feito para poder ser lido em camadas. O leitor tira o que quer, e isso é marca de uma literatura que se pretende arte. Um livro da Christie só pode ser lido de um jeito; não há três leituras possíveis de O assassinato no Expresso Oriente [de Agatha Christie, lançado em 1934]. O meu livro pode ser lido em vários níveis, dependendo do grau de sofisticação, de saco, de tempo. Uma leitura possível é essa: uma mulher fala a respeito duma cretina que invade seu casamento. Mas muita gente vai pro lado oposto, e pensa que Carla é uma mulher louca, obsessiva, doentiamente ciumenta. São pessoas que gostam de desconstruir a linguagem, e vão buscando os buracos no discurso. Pra mim, é muito interessante lidar com o discurso do senso comum, pelo fato de que a Carla nunca tem nada de muito concreto a dizer contra a personagem da Júlia: ela é só uma artistinha maluquete, como todo artista. Quando você pára e pensa, as críticas de Carla em relação à Júlia são todas muito vazias, não são nada de sério. O que eu tentei fazer foi um romance aberto para todas essas possibilidades de leitura.
I: Eu estou me reportando muito ao “História do livro”, porque eu achei muito interessante, além dum puta golpe de teatro, isso de terminar um livro com um histórico extremamente minucioso da feitura do mesmo. O que você pretende com essa abertura toda, e com essa tentativa tão sôfrega de diálogo com o leitor, se você trata toda a ficção como mentira… ? Não como mentira, bom…
Alex: Como ficção mesmo. Que é o nome chique pra mentira.
I: Eh, bom.
Alex: Sempre me chamam de fofoqueiro, e eu respondo: “eu prefiro o termo técnico: jornalista”.
(risos)
Alex: Bom, pra começar, tem dois escritores ““ o Stephen King e o Isaac Asimov ““ que eu amo e que faziam isso. Foi algo importante na minha formação porque permitia uma visão por dentro do método. Nos livros desses autores, quase sempre você encontra um prefácio, ou posfácio, ou apêndice, alguma coisa em que eles falam sobre como fizeram o livro, contando mil histórias ótimas ““ não só sobre a criação da história, mas sobre como a história se inseria em sua vida pessoal. Pra mim, como adolescente que queria escrever, isso era muito importante; porque me dava um insight na vida “real” das pessoas. Ou pelo menos na vida que elas queriam passar para os leitores; eu não acredito em nada, mas também não desacredito. Acho isso importante. Você nunca vai me ouvir dizendo “isso é mentira”, mas isso não significa que eu esteja comprando. Eu escuto, pronto. Acho que a língua perde por não ter um verbo que signifique “nem acreditar, nem duvidar”. Eu ouço, eu registro, tá bom. A outra coisa que aconteceu ““ um efeito bem legal, causado pelo blog ““ foi uma certa proximidade. Eu me senti próximo dos leitores. A conversa no final do livro é quase como um segredo entre o autor e o leitor. O Asimov ““ bom, eu sou um cara frio, acho meio ridículo quando as pessoas se comovem quando morre uma celebridade que elas nem conheciam ““, mas até hoje, a morte que eu mais senti de alguém que eu não conhecia foi a do Asimov. Porque eu achava que o conhecia. Só quando ele morreu que eu percebi a enormidade da minha relação pessoal com o Asimov, construída ao longo de 10 anos lendo uma obra repleta de avisos autobiográficos. Isso foi importante, acho legal passar adiante. E o blog reforça isso. Mas é algo mais meu; tenho vários amigos que têm blogs muito famosos mas que não têm isso. Eu sofro isso porque meu blog é confessional. Então as pessoas acham que me conhecem. No blog, a verdade é editada, para não causar mortes, suicídios e assassinatos (o meu, principalmente). E as pessoas acham que me conhecem muito bem, que têm uma relação íntima e profunda comigo. E isso é ótimo. Não fosse por isso, meu livro não teria tido o sucesso que teve. Mas tem a contraparte, eu tenho que lidar com muito maluco. Sabe, eu me achava próximo do Asimov, mas se eu encontrasse com ele na rua, não me comportaria como se fôssemos amigos de infância. Algumas pessoas, só pela leitura do blog, passam a esperar que eu me comporte como amigo delas também, e começam a fazer cobranças do tipo “você nunca mais falou comigo”. Não é que eu não goste dessa pessoa, mas eu não a conheço, não tenho assunto. Se a pessoa quiser falar comigo, não tem problema. Meu telefone está no blog. Anteontem me ligou uma leitora de Salvador…
I: Meu Deus…
Alex: Mas é maravilhoso, isso! Ligou onze da noite, pra dizer que o livro chegou e ela leu correndo. Falou do envelope acolchoado, do marcador de página exclusivo. Ela se sentiu muito próxima, muito incluída. Mas essa coisa de fazer exigências que eu não posso cumprir, isso acontece com gente perturbada, que não consegue fazer esse jump; pessoas que não percebem que me conhecem mas eu não as conheço. Em suma, o objetivo desse posfácio é não só iluminar o método (isso eu falo como estudante de literatura), mas também porque o livro é um case de marketing interessante. Pode ser que outras pessoas queiram fazer igual, por isso é interessante explanar. Mas o que mais me interessa é abrir o diálogo, para que o leitor se sinta próximo a mim. Mostrar o método e criar uma ponte de diálogo com o leitor, para ele entender como funciona a fábrica de salsicha; e, de certo modo, para o leitor se achar mais íntimo, se lembrar mais de mim, e amanhã comprar outro livro. É todo um processo de criação de nome, criação de marca. Mesmo que o cara escute falar de você hoje e não compre, amanhã vai que ele se lembra? A prima leu, recomendou, por aí vai. É um processo lento, dura a vida inteira. Mas o que os leitores me falam um bocado, e que eu acho fascinante, é que eles me acham especial. Ora, ninguém se acha especial. Tem momentos que eu me acho foda, outros que eu me acho um merda ““ mas eu nunca me achei especial. Elas falam que eu me tornei especial para elas, e o livro também, porque elas já me acompanham, já me conheciam do blog. E todo esse método ““ de vender “ações” do livro pela internet, num esquema de mecenato ““ é uma coisa única, e elas queriam fazer parte desse único, queriam poder dizer “eu ajudei, eu comprei antes”. Eu fiquei muito fascinado, porque eu achava que as pessoas iriam me ajudar, pensando “bom, eu leio o Alex de graça todo dia, ele está lançando livro, posso descer dez reais e cooperar”. E outra coisa: se a pessoa vai comprar o livro de qualquer jeito, compra logo antes, para que eu não precise tirar do bolso um dinheiro que não tenho, senão eu fico com um problema de liquidez sério. Sabe como é a nossa vida, nunca tem dinheiro. Nunca tem mil reais dando sopa no banco.
I: Nunca tem 10 reais.
(risos)
Alex: Então, tem isso. O apelo da conveniência, e a ajuda dos amigos. Não achei que fosse ter esse efeito. Eu não previ essa vontade que as pessoas tiveram de “fazer parte”. Como disse, nunca me imaginei um sujeito especial, não pensava que as pessoas achassem minha vida tão legal a ponto de querer fazer parte dela, pagar por uma ação desse empreendimento. Foi muito legal, talvez a coisa que mais me surpreendeu. As pessoas queriam se sentir incluídas no processo.
I: Bom, todo o mundo que te entrevista fala muito sobre sua relação com a internet. Eu não quero falar sobre isso.
Alex: Graças a Deus.
I (falando sobre isso): Mas no seu blog você parece exercitar uma verve mais polêmica, e tal.
Alex: Cara, pelo contrário. Eu nunca entro em polêmica. As pessoas falam besteira no blog e eu ignoro. Acho muito chato esse negócio de debater, nunca leva a lugar nenhum. Eu dou a minha opinião e pronto. Aí os leitores ficam se pegando, falando mil bobagens. O máximo que eu faço é voltar para fazer um esclarecimento. Mas eu nunca respondo, nunca contra-argumento, não leva a lugar nenhum.
I: E a sua atuação no meio acadêmico?
Alex: Acho o meio acadêmico muito chato. Não falo pra ninguém que faço doutorado.
I: Eu não vou editar isso. Compõe o personagem.
Alex: Pqp. Todo doutorando que eu conheço, via de regra, é mala. Eu só sou doutorando porque foi a única maneira que consegui de ganhar dinheiro com literatura. Ser pago para ler e escrever sobre literatura. Mas não acho que seja isso tudo. E como autor, é complicado você passar a vida escrevendo sobre o livro dos outros. Cada vez que escrevo sobre o livro de alguém, eu me sinto meio loser de não estar usando esse tempo para escrever o meu. Então, por um lado, é muito bom viver de literatura ““ olha que lindo, eu sou pago para ler romances, mandar voluntários ler romances, chegar de manhã cedo e discutir com esses voluntários, e se me der na telha, escrever alguma coisa sobre o romance. É bem gostoso pra mim, apesar de mil coisas pentelhas, como em qualquer trabalho. Agora o doutorado está acabando e eu não sei bem o que fazer. Não sei se sigo carreira acadêmica, se fico lá nos EUA, se volto para o Brasil definitivamente.
I: Mas a gente pode esperar novos livros, não?
Alex: Então, eu estou escrevendo um livro chamado Empregadas e escravos, fruto direto dessa minha ida para os EUA: vários episódios coordenados lidando com as nossas relações sociais escrotas. Outro que quero fazer se chama Rio: Cidade aberta. Que é sobre o estado do Rio ““ se tem salvação, se é melhor sair, se é melhor ficar. É uma coisa que todo carioca pensa muito. Quem vai, quem foi. Minha namorada tem um ditado ótimo, por exemplo: “São Paulo é como a morte. Um dia chega”. Todo carioca, em algum momento, arranja emprego em São Paulo.
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alex castro.