“é tudo mentira”, uma entrevista

talvez minha melhor entrevista.

concedida a felipe nascimento, do blog voo subterrâneo.

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como disse krishnamurti, filósofo indiano do século passado, não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade doente. mas, para os deslocados, as pessoas que não encontram eco dentro dos valores estabelecidos nas esferas da família, religião, sexualidade, trabalho e tantas outras, nem sempre é fácil sentir-se saudável tendo ideias e comportamentos respeitados por poucos. entretanto, há quem trabalhe para tentar desconstruir as verdades estabelecidas, questionar os valores sociais cristalizadas, dialogar sobre outras formas de convívio e comportamento. são esses os interlocutores das “ovelhas negras”, e entre eles está alex castro.

escritor, alexandre moraes de castro e silva é carioca, nascido em 1974. em seus textos, é recorrente a abordagem de temas como feminismo, racismo, identidades de gênero, relacionamentos não monogâmicos, ego, narcisismo. ele escreve regularmente em seu blog e no papo de homem, e como literatura publicou o livro de contos “onde perdemos tudo” e o romance “mulher de um homem só”. além de escrever, também trabalha promovendo encontros chamado “as prisões”, no qual se reúne com grupos de pessoas para discutir temas como monogamia, dinheiro, família, regilião, ego, felicidade, etc. ele também foi um dos co-fundadores do tumblr classe média sofre.

procurado pelo voo subterrâneo, que realiza entrevistas gravadas em áudio, alex castro optou por responder as perguntas por e-mail, para  ter “tempo de refletir e pensar em cada resposta, com calma e tranquilidade”. confira, abaixo, a entrevista.

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se tornando escritor

o que fez você decidir, com 12 anos de idade, que iria ser escritor?

até os 12 anos, eu desenhava quadrinhos, que xerocava e vendia entre os amigos de escola. então, passei um mês com um amigo da família que era desenhista profissional, gutemberg monteiro, o goot, que na época desenhava a tirinha do tom & jerry. essa temporada com o goot me fez ver que desenho era muito mais complicado do que eu imaginava. percebi que minha paixão era contar histórias e que o desenho era somente um meio (muito complicado e trabalhoso) de fazer isso. então, aposentei os materiais de desenho e decidi que seria escritor.

coloquei uma mesa e uma máquina de escrever elétrica ibm no meu quarto, daquelas verdes e enormes, com esferas metálicas, e comecei a trabalhar todo dia. nesse ano, meu primeiro exercício foi inventar um detetive e reescrever contos policiais de outros personagens mas agora estrelados pelo meu. sem a pressão de precisar criar um enredo, eu podia treinar desenvolver o meu próprio personagem.

e assim, comecei. esperando não parar até morrer, como disse whitman.

em algum momento essa convicção tua foi abalada?

não sei bem se era uma convicção, nem se era sólida ao ponto de ser abalada. digamos que era gelatinosa. o que é gelatinoso não se abala, pois se tremer já é da sua natureza. mas, certamente, desde então, nunca quis ser nenhuma outra coisa a não ser isso: escritor.

quais foram as pessoas que mais inflenciaram suas ideias e seu jeito de ser?

vou citar só os escritores, pois se falasse das pessoas de carne-e-osso do meu dia-a-doa, não acabaria nunca mais.

ninguém lê do mesmo jeito depois de ler borges. clarice lispector e lobo antunes me ensinaram que eu podia fazer muito mais com a língua portuguesa do que imaginava possível. a bíblia e “declínio e queda do império romano”, de gibbon, me ensinaram tudo o que sei sobre a arte de contar histórias. henry miller, apesar do sexismo galopante, e walt whitman me ensinaram um amor pela vida além de todas as fronteiras e de toda a lógica. thoreau e conrad me ensinaram, pelo contrário, um certo autocontrole e uma sobriedade que são tão importantes quanto. “cecília valdés”, de cirilo villaverde, me mostrou como os horrores da escravidão podem virar grande literatura. “a hora da estrela”, de novo da clarice, “os miseráveis”, de victor hugo, e “memórias de um caçador”, de turgeniev, e tudo de lima barreto, me ensinaram como escrever e como abordar as histórias das pessoas humildes e marginalizadas. machado me ensinou o valor da sutileza, que tudo pode ser dito indiretamente, discretamente, e o texto não é menos contundente por causa disso. por fim, tchecov me ensinou que não se pode escrever ficção sem uma gigantesca empatia por tudo que seja humano.

esses são meus mestres.

relação com as causas sociais

quais as principais dificuldades que você encontrou ao longo de sua vida e como você vem superando elas?

tive uma vida privilegiada. sou homem, branco, hétero, cis, classe média alta. em um país como o nosso, tão cruel com suas mulheres, com suas pessoas negras, com suas pessoas homossexuais, com suas pessoas trans*, chega a ser ofensivo uma pessoa como eu falar em dificuldades. eu só tive facilidades. minha maior dificuldade talvez tenha sido justamente superar os preconceitos de classe oriundos da minha vida ó-tão-fácil, me dar conta de que o mundo não girava em torno do meu umbigo e, finalmente, reconhecer meus muitos privilégios. só então pude virar uma pessoa menos detestável. é um longo processo. falta muito ainda.

quando e como surgiu em você suas preocupações com as causas sociais, femininas, raciais, etc?

morar no exterior e ver o brasil de fora me fez desnaturalizar algumas convicções. ver que havia outras maneiras de resolver os mesmos problemas. que o nosso jeito não era um “destino” ou uma “obrigatoriedade”, mas nossa escolha enquanto sociedade. e o que é escolhido pode ser des-escolhido.

essa escolha que você diz você se refere a escolha de todos ou dos que têm o poder de escolha? é questão de des-escolher ou de mudar quem escolhe?

existem duas esferas aí.

na esfera das pessoas individuais, o mundo hoje é claramente dividido entre as pessoas que têm todas as escolhas e pessoas que têm escolhas bastante limitadas. na verdade, meritocracia e liberdade de escolha são dois dos grandes mitos da nossa direita. para as pessoas privilegiadas, é sempre muito fácil esquecer que nem todas as pessoas tiveram as mesmas possibilidades de escolha que elas, e então, apontar para as pessoas oprimidas e exploradas… e afirmar que elas são oprimidas e exploradas porque escolheram ser assim!

a outra esfera é a social: a nossa sociedade como um todo, de forma coletiva, impulsionada por seus membros, democraticamente, pela ação política, pela opinião pública, pode sim escolher mudar de rumo. como um transatlântico, que muda de rumo bem devagar, mas muda.

as prisões

o que o motivou a escever sua série de textos sobre as prisões?

sempre fui um leitor voraz. tinha curiosidade sobre tudo. absorvia conhecimento febrilmente. então, um dia, comecei a me questionar. e fui percebendo que era tudo mentira. que apesar de suas melhores intenções, meus pais tinham me ensinado várias coisas que simplesmente não eram verdade. e não só eles: meus professores, meus amigos, meus parentes, meus escritores favoritos. e comecei a desconstruir todas essas lições. des-conhecer todo esse conhecimento. des-aprender todo esse aprendizado. em um dado momento, passei a questionar a própria noção de verdade. e daí que não é tudo verdade? hoje, acho que “sabemos” coisas demais. há mais de dez anos que meu foco é saber menos coisas. desaprender. todo dia extirpar mais um conhecimento inútil da minha cabeça, mais uma certeza errada, mais um preconceito adquirido. fora, fora, fora. “as prisões” é como chamo esse processo de des-aprendizado.

como foi esse processo de transformar esses textos em temas da palestras?

não sou filósofo. só o que sei fazer é escrever sobre coisas que nunca aconteceram a pessoas que nunca existiram. criei meu primeiro blog na internet, em 2003, justamente para publicar as primeiras prisões. porque já pressentia que esse era um daqueles poucos projetos literários que não poderia ser escrito em uma cabana isolada. que para conseguir aclarar e desenvolver essas ideias, eu precisaria de um contato, de um confronto, de um debate com um público ansioso, curioso, revoltado, reativo, os encontros que tenho realizado a partir de 2013 são parte desse processo: não dá pra exagerar como o contato com esse público tem ajudado a desenvolver, refinar, jogar fora, recriar minhas ideias. um escritor sem as pessoas que o leem não é ninguém.

quais das prisões são as que mais te aprisionam atualmente?

quase tudo o que faço é por vaidade. quase tudo que não faço é por preguiça. essas são minhas duas maiores prisões. e luto contra elas todo dia. como sou preguiçoso, não luto com tanto afinco assim. como sou vaidoso, criei uma série de textos para me gabar publicamente dessa minha luta. ou seja, de novo, ainda falta um longo caminho pela frente.

escrita e transformação social

meus textos buscam desmontar as verdades compulsórias que nos enfiam goela abaixo.

vivo em um mundo onde as cenas cotidianas que mais me enchem de horror são vistas com normalidade por quase todas as pessoas a minha volta. a exploração, a desigualdade, o racismo, a transfobia. tudo aceitável e dentro dos padrões do bom funcionamento da sociedade.

então, sinto que estou sempre escrevendo textos de horror.

talvez essa seja a melhor definição de arte engajada: tornar contagioso o horror.

li em uma entrevista que o classe média sofre é seu único trabalho que te deixou orgulhoso. por que ele te orgulha e por que você não sente isso em relação a seus outros trabalhos?

orgulho é uma coisa meio babaca, né? afinal, pra que serve o orgulho? em um dado momento, eu me orgulhei do classe média sofre, sim, por causa do pequeno impacto concreto que ele teve: muita gente estava sinceramente auto-censurando algumas das piores barbaridades elitistas que talvez dissessem por medo de aparecer no classe média sofre. mas, no fim das contas, e daí? o mundo mudou? ficou um lugar melhor, mais justo, mais igual por causa disso? não, né? então, me corrijo: não sinto orgulho de nada que fiz.

até que ponto você acredita que seus trabalhos são capazes de transformar a realidade?

não são.

mas você escreve querendo isso, pelo menos é a impressão que dá nos textos que saem no papo de homem…

entre o que as pessoas querem e o que é efetivamente possível existe uma distância infinita.

há quem fale que se o próprio trabalho provocou uma mudança positiva em uma pessoa já valeu a pena. não é esse o caso? existe algo ou alguém que consegue de forma rápida uma mudança social profunda?

só a revolução. encontro vocês lá embaixo com o fuzil.

“é tudo mentira”

há um aviso, no papo de homem e no seu site, que todos os seus textos são ficcionais. o que faz seus textos opinativos/argumentativos serem ficcionais? qualquer texto desse gênero, independente de quem escreva, são ficcionais?

tudo é ficção. a verdade não existe. tem coisa mais ficcional do que o jornal nacional, do que um livro de história do brasil, do que uma biografia de celebridade? as pessoas ainda acreditam no que leem e isso me choca todo dia. por isso, bato sempre nessa mesma tecla: é tudo mentira. tudo. o tempo todo. especialmente as coisas que batem no peito pra se afirmar verdades verdadeiras.

seu único livro de contos até hoje fala sobre perdas. por que seu interesse em escrever e publicar sobre esse tema?

pura curiosidade intelectual. na prática, na verdade verdadeira, nunca perdi nada. todos os meus livros são maneiras de sair de mim mesmo. para falar de mim, tenho meu blog, minha terapia, meu diário. já a ficção é para brincarmos de ser pessoas que não existem, fazendo o que nunca fizemos, sentindo o que nunca sentimos.

li em entrevistas que no livro mulher de um homem só você optou por escolher como narradora a personagem menos parecida contigo, porque achava chato falar de si mesmo na literatura. como leitor seu, creio que seria mais interessante fazer o contrário, por seu estilo de vida e ideias serem mais singulares, enquanto carla é uma personagem mais próxima do senso comum. qual sua opinião sobre isso?

talvez o que me faça uma pessoa de estilo de vida e ideias “singulares”, como você falou, seja o fato de eu achar mais interessante dar vida à carla (a narradora de “mulher de um homem só”) e tentar descobrir o que motiva uma pessoa como ela, e o que a lavagem cerebral do senso-comum faz com a cabeça de alguém, do que falar de mim, da minha individualidade borbulhante e da minha vida pretensamente singular. minha vida não tem nada de especial. nem a da carla, aliás.

“só faz sentido escrever se for para ser do contra.

muitos de seus textos têm uma linguagem que pode soar violenta, autoritária, para quem não concorda com suas ideias. há quem procure escrever de forma a evitar o máximo que quem tenha opiniões contrárias se sintam ofendidas. queria que você contasse sobre o estilo da sua escrita. você escreve esperando um tipo específico de reação? escreve apenas pensando na forma mais exata de se expressar?

tudo o que escrevo é sempre para sacudir. jamais escreveria para afagar o ego e as certezas da pessoa leitora. de que serviria isso?

de vez em quando me perguntam: você é sempre do contra? não, claro que não. a maioria das minhas opiniões é igual à opinião da maioria das pessoas. mas de que serve escrever sobre isso? se saiu o filme x e ele é uma unanimidade de crítica e público, todo mundo adorando o filme, e eu também adorando o filme… de que adianta eu escrever mais um texto dizendo que o filme é lindo e reforçando o que todo mundo já sabe e já acha?

então, não é que sou sempre do contra, mas que acho que só faz sentido escrever se for para ser do contra. se for para mostrar à leitora um novo ângulo. se for para sacudir suas certezas. para questionar suas ideias.

tudo o que escrevo é para desmontar certezas. (às vezes, as minhas.) tudo o que escrevo é para sacudir. tomo o maior cuidado para nunca criticar pessoas vivas, para nunca acusar ninguém de nada, para nunca apontar dedos, mas é natural que algumas pessoas se sintam atacadas.

nesse caso, digo a elas: o texto não era sobre você, mas se você vestiu a carapuça e se sentiu atacada… então, é porque era.

uma frase sua: “não se muda o mundo respeitando a opinião de quem te oprime”. qual sua opinião sobre as ideias religiosas de amor incondicional, o que se aplica ao opressor, seria isso contrário à transformação social?

muitas das ideias religiosas são ótimas. a bíblia é meu livro preferido; jesus, uma pessoa excepcional; e sua mensagem, revolucionária e subversiva. o mais incrível do novo testamento é ver as epístolas paulinas desmentindo todo o evangelho que veio antes, transformando aquela linda mensagem revolucionária na fundação de um império conservador. é como se adam smith tivesse escrito o posfácio ao manifesto comunista afirmando que marx na verdade amava o livre-mercado e a mão invisível. jesus é o chê, paulo é fidel. um fala bonito e morre cedo, o outro administra o dia-a-dia do pós-revolução. enfim, meu problema não são as ideias religiosas, mas sua aplicação.

público que o acompanha

quais os perfis das pessoas que entram em contato contigo, que se correspondem com você e vão nas suas palestras? quais os maiores sofrimentos das pessoas que te procuram?

em geral, eu atraio ovelhas negras. as pessoas que vêm até mim tendem a ser aquelas que se sentem sozinhas, deslocadas. as malucas dos seus grupos. buscando por interlocutores. em um encontro meu, uma moça disse: “acho que é a primeira vez que estou em um grupo de pessoas e ninguém pensa que sou a excêntrica.”

na sua visão, qual é causa para que haja tanto sofrimento humano?

a ignorância e a cegueira. o mal está naquilo que a gente não vê, naquilo que não enxergamos, no fato de que nossos olhos naturalmente não reconhecem alguns locais, algumas pessoas, alguns problemas. o romance que estou escrevendo pelos últimos seis anos, “cria da casa: histórias de empregadas & escravos”, é todo sobre isso: a nossa cegueira constitutiva. os cantos para onde nunca olhamos e o que está acontecendo por lá.

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nessa parte da entrevista, vou falar algumas palavras e gostaria que você desse a concepção, o entendimento que você tem sobre elas. a primeira é literatura:

literatura

linguagem carregada de sentido.

qual tua relação com as outras artes? vi que você gosta muito de teatro…

teatro é sensacional. é literatura em movimento, cinestésica, com cheiro, suor. gostaria muito de trabalhar em teatro, mas não sei se conseguiria funcionar bem em grupo. talvez por isso mesmo devesse tentar. aliás, vou. acabei de escrever meu primeiro texto teatral e tenho outros cinco planejados.

trabalho

escrever.

você diz que as pessoas não precisam necessariamente trabahar com aquilo que amam, que às vezes é melhor que isso nem aconteça. como isso se aplica no seu caso? existe algum tipo de trabalho que você goste mais do que escrever?

essa doutrina de que temos que amar o nosso trabalho, que temos que trabalhar no que amamos, etc, é muito elitista e hipócrita. essa possibilidade está aberta para pouquíssimas pessoas. a enorme maioria da população humana, todas pessoas tão incríveis e complexas como eu e você aí lendo isso, com um cérebro poderoso e subjetividade profunda, estão fadadas a trabalhar em empregos chatos e repetitivos, entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones. a questão não é se amamos ou não essas atividades remuneradas que executamos, mas se o salário que nos pagam em troca das horas de trabalho é maior do que tudo que esse emprego toma de nós em termos de tempo e energia vital. a questão é se temos tempo e energia para viver nossas vidas plenas de pessoas humanas quando não estamos entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones.

quanto a mim, só sei escrever, mas tenho pensado seriamente em abandonar a escrita profissional. o raduan nassar, quando largou a literatura, disse que não havia criação literária que se comparasse a uma criação de galinhas. penso muito nisso. se não é mais digno, mais honesto, mais humano, em vez de receber dinheiro para escrever textos que eu normalmente não escreveria, receber dinheiro para cuidar, passear, dar banho, tosar cachorros, e só escrever aquelas coisas que eu realmente escreveria de graça.

o que o motivou a trabalhar de forma totalmente independente hoje, sem nenhum vínculo com alguma instituição? você considera essa tua forma ideal de trabalhar?

eu trabalho da única maneira que seria possível para mim. sou uma pessoa solitária, como imagino que são a maioria das pessoas que escolhem essa vida. sou temperamentalmente incapaz de fazer parte de grupos, empresas, instituições. em muitas carreiras, como nas ciências, por exemplo, só se consegue produzir tecnologia de ponta trabalhando em grupo. já a grande literatura, muitas vezes, é produzida por misantropos isolados em cabanas distantes. por isso, quase sempre, quem escolhe a literatura é por ter uma certa aversão a trabalhar em grupo. pelo menos eu tenho.

liberdade

uma excelente desculpa. como fim último, é um objetivo vazio. ser livre pra quê?

quando você diz que quer se livrar das mentiras impostas socialmente, isso não se refere a ter uma liberdade mental? nesse caso, a liberdade não seria, além de somente uma postura individual, uma postura coletiva no sentido de querer se livrar dos preconceitos, dos ideais individualistas do capitalismo, etc?

liberdade e felicidade são dois conceitos bem interessantes. assim, por alto, eles parecem lindos, unânimes, desejáveis. entretanto, quando você começa a olhar de perto, eles se desfazem.

existe ou poderia existir felicidade? essa felicidade plena, linda, pura? se você disser que não, que a felicidade são momentos, então, bem, a gente já está limitando mais e mais a definição, não? quais momentos? quantos momentos?

idem com a liberdade. existe isso de liberdade? alguém já teve essa liberdade plena, linda pura? é teoricamente possível? não, né? então, ok, todos temos liberdades bem restritas. podemos votar, mas não podemos deixar de votar. podemos chamar a polícia, mas não podemos passar a mão na bunda do guarda. podemos falar que uma peça é uma merda mas não podemos gritar fogo no teatro lotado.

ou seja, nossa tal liberdade é limitada de mil maneiras diferentes, pela lei, pela sociedade, pelos costumes. mais ainda, essa liberdade também é cerceada pelos limites do nosso corpo, pela química do nosso cérebro. toda nossa evolução nos preparou para encontrarmos, consumirmos, acumularmos gordura e açúcar. então, o quanto somos realmente livres para abdicar dessas substâncias que todo nosso corpo deseja? o alcoolatra é realmente livre para não tomar o copo de vodca que lhe oferecem? somos livres para ir conta a programação do nosso cérebro?

então, se essa tal liberdade, pela qual eu deveria estar disposto a matar e morrer, é cerceada pelas leis, pela família, pela sociedade, por meu cérebro, por meus hormônios, etc etc, o quanto livre eu realmente sou? se não sobrou quase nada, se a minha liberdade acabou se reduzindo somente a esse quadradinho aqui, ainda faz sentido falar em liberdade? mais ainda, ainda faz sentido matar e morrer por essa liberdade? ainda faz sentido colocar essa liberdade como fim último da minha existência?

política

vida.

você acredita na viabilidade do socialismo? quais foram suas impressões sobre cuba, por exemplo?

não vou nunca desistir da ideia de que é possível algum tipo de socialismo verdadeiro e viável, mas com democracia. que não é necessário fechar as fronteiras e a imprensa para termos uma sociedade menos desigual. cuba é um lugar incrível, um celeiro de ideias brilhantes e de exemplos negativos mais brilhantes ainda. resta saber quais vamos adotar para nós.

dinheiro

um mal necessário. sem dinheiro, não há independência. sem dinheiro, seremos sempre escravos, dependentes, submetidos a outras pessoas. aliás, com dinheiro, também.

drogas

a droga de um é a religião do outro.

você escreve muito pouco sobre o tema. você acha que diz respeito a relação pessoal de cada um? acha que ela pode ser encarada como mais uma prisão?

quando me perguntam se o consumo de drogas causa violência, sempre respondo que a proibição das drogas é que causa violência. se algum alucinado inventasse de proibir o chocolate, também teríamos guerras para controlar a boca de diamante negro, também teríamos gente subindo o morro para compar sonho de valsa. as substâncias proibidas que hoje chamamos de drogas deveriam ser liberadas e legalizadas, no mesmo status que álcool e tabaco, pagando impostos e com restrições de venda e publicidade.

quanto a mim, já provei drogas, mas apenas socialmente. entendo seu valor para abrir a consciência e estimular a criatividade. mas eu, pessoalmente, prefiro não alterar minha percepção. tomo café até o meio-dia, chá verde à tarde, e vinho tinto a partir das seis. é o máximo que me permito de alteração química intencional.

deus

adesivo de parachoque: “eu, sem deus, sou eu. deus, sem mim, é só uma manifestação pueril do inconsciente coletivo.”

como foi sua aproximação com o budismo? você já teve contato com outras práticas religiosas?

não acredito em qualquer tipo de deus, espiritualidade, força, energia, tarô, astrologia, homeopatia, etc etc. leio e estudo religiões por toda a vida. fui a todas as cerimonias de todas as religiões que me convidaram. respeito, admiro, e em alguns casos lamento, as convicções religiosas das pessoas, mas não compartilho de nenhuma. eu pratico zen mas é só porque o zen não me pede nenhuma crença, não me oferece nada para acreditar. é uma prática, um caminho, não uma fé.

amor

claudia.

como foi esse processo de questionamento da monogamia?

eu amo muito. me apaixono, me entrego, me junto. adoro o amor, a cumplicidade, o carinho. gosto de ter uma companheira que caminha ao meu lado e ao lado de quem eu caminho. saber ser solteiro é necessário, e é muito bom, mas nada se compara à sensação de estar ao lado da pessoa que é acertada para nós naquele momento. você antes falou de orgulho e, talvez, a coisa que eu mais chegue perto de ter orgulho seja das pessoas incríveis, sensacionais, brilhantes que me deram o privilégio de compartilhar a cama comigo.

faltou você responder a pergunta… como foi o processo de questionamento da monogamia?

nunca precisei ativamente questionar e desmontar a monogamia dentro de mim, pois ela sempre me pareceu auto-evidentemente nociva e impraticável. a monogamia nunca me pareceu uma possibilidade.

morte

a coisa mais importante da vida. eu amo a minha morte. sem ela, eu não sairia da cama, não faria nada, ficando só comendo pizza, bebendo vinho, fumando, me masturbando, vendo filme. só o fato de que vou morrer, inapelavelmente e em breve, me faz sair da cama, aturar as pessoas, ser minimamente produtivo.

felicidade

a felicidade e a liberdade são os maiores engodos, as maiores quimeras da nossa geração. quando tudo na sociedade, as escolas, os anúncios, os pais, as comédias românticas, etc, quer nos convencer a buscar a liberdade e a felicidade, que esses devem ser os dois principais objetivos da vida de alguém, então é hora de parar e repensar tudo. afinal, por que quero tanto ser livre? por que quero tanto ser feliz? o mundo vai ser um lugar melhor se eu for livre e feliz? eu vou ser uma pessoa melhor se eu for livre e feliz?

realizações e decepções

quais as maiores decepções e realizações que você teve em sua vida?

tive várias decepções literárias. quase diariamente, aliás. até perceber que eram todas só o meu ego falando. que todas eram uma variação de “eu mereço x, por que não me deram x? eu sou y, por que ninguém diz que sou y?” etc etc. hoje, quando meu ego tenta dizer alguma dessas coisas, eu enfio a cabeça dele dentro d’água até pedir arrego. das minhas realizações, então, ele nem ousa falar: sabe que eu lhe daria um belo de um chute no saco. atualmente, minha maior decepção é quando me distraio e solto coisas como “minha obra” ou “meu dever de artista”. o ego tem que apanhar todo dia pra saber quem manda.

medo e saudade

quais são seus maiores medos?

tenho medo das grandes ironias da vida. de perder o arquivo do romance que acabei de escrever. de morrer de uma doença um ano antes de descobrirem a cura. desse tipo de coisa que acontece num universo aleatório e sem deus, onde tudo caminha em direção à entropia.

do que você tem saudade?

de nada. saudade é inútil e traiçoeira. faz a gente desprezar o presente, que é a única coisa que existe, concreta e pulsante, em prol de um passado mentiroso e seletivo, sempre muito melhor do que realmente foi.

sociedade ideal

você tem alguma concepção de uma sociedade ideal?

uma sociedade onde as pessoas tivessem nas estantes livros sobre como ser uma pessoa melhor, uma pessoa mais aberta, uma pessoa mais humana, e não livros sobre como ser mais feliz, mais rico, mais bonito.

planos

tem planos para o futuro?

evito fazer planos. um desejo que tenho é, um dia, morar em um barco.

citação e aprendizado

uma frase ou citação que você goste muito:

sim!

um aprendizado que você teve em sua vida e que quer compartilhar para os outros:

aprender a ser menos egocêntrico e egoísta. não existe paz possível para as pessoas egocêntricas e egoístas, sempre tão preocupadas com nossa própria felicidade, com o que as outras pessoas estão falando de nós, em como podemos usar essa ou aquela pessoa para nosso benefício, em como devemos nos afastar dessa ou daquela pessoa porque ela não tem nada a nos oferecer, etc. é minha grande batalha diária. um aprendizado que não tem fim.

entrevistas como essas, aliás, só atrapalham. o fato de alguém ter interesse no que tenho a dizer só confirma algumas das piores pretensões do meu ego.

entretanto, eu sou escritor e vivo disso. se não por entrevistas assim, as pessoas não vão me conhecer, não me ler e não vou ter como ganhar a vida. (o horror, o horror!)

esse é o meu grande dilema pessoal (aliás, bem egocêntrico, como todo “dilema pessoal”): como ser um artista trabalhando em público e evitar ser egocêntrico e egoísta?

claramente, não sei responder essa pergunta.

talvez cuidar de cachorros.

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leia outras entrevistas de felipe nascimento no site voo subterrâneo: monja coen, eduardo marinho, claudio assis, helio leites.

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calendário completo de eventos de alex castro em 2014.

alex castro entrevistado por lázaro ramos

essa semana, serei o entrevistado de lázaro ramos, no programa espelho.

segunda, 5 de maio, às 21:30h, no canal brasil.

reprises: terça, 6 de maio, às 3:30h e, sábado, 10 de maio, ao meio-dia.

O Brasil das Minorias

O Brasil das minorias from Cinese on Vimeo.

Eu, falando sobre racismo e privilégio, no evento “O Brasil das Minorias”, parte da Semana Cinética.

minha maior qualidade

encontrei aqui nas minhas notas. entrevista para jornal universitário. não anotei o nome, não sei se saiu.

mas eis a última pergunta, e a minha resposta:

E, para finalizar, qual característica pessoal sua você destacaria como a que te ajuda a seguir em frente?

Como todo ser humano, eu tenho uma capacidade ilimitada de denegação e auto-ilusão. Então, contra todas as evidências, mesmo sabendo que não consegui nada na vida, mesmo sabendo que o futuro é provavelmente uma morte dolorosa e então o desaparecimento, mesmo viajando pelo universo sem deus a bordo de uma bola de pedra, ainda assim, eu continuo acreditando em mim, continuo achando que vai tudo dar certo. Ser humano é isso.

Entrevista de Alex Castro à Rachel Glickhouse

Entrevista concedida a Rachel Glickhouse, do blog RioGringa, a 21 de fevereiro de 2012.

This week, I had a chance to catch up with Alex Castro, 304688606_815f7c6a4b_oone of my favorite Brazilian bloggers. He has a  keen and critical eye for some of the most sensitive social issues in Brazil, including racism, machismo, and domestic workers. After living abroad, he also writes with an fascinating perspective on social differences between the United States and Brazil. He writes his own blog, Liberal Libertário Libertino, as well as contributing to Papo de Homem. He’s also written several books, including short stories and novels. He also was one of the founders of the hit Tumblr Classe Média Sofre, a crowdsourced blog that pokes fun at Brazil’s middle class. It’s become a cultural phenomenon in Brazil, falling somewhere between Lamebook and White Girl Problems, but providing more insight into social idiosyncracies.

We chatted about his return to Brazil from New Orleans, emblematic of Brazil’s increasing reverse brain drain, his various projects, and his thoughts on Brazil’s changing role in the world.

What were you doing abroad?

I was living in New Orleans. I was a Ph.D. candidate at the department of Spanish & Portuguese at Tulane University. As such, part of my duties included teaching classes on the Spanish and Portuguese languages, plus the odd Brazilian literature and culture classes. My dissertation is about slavery (or the lack thereof) in Brazilian 19th century literature.

Can you tell me about why you decided to move back to Rio from New Orleans?‬

I came back because a man who is a living god to me once said: “I celebrate myself, and sing myself, / And what I assume you shall assume, / For every atom belonging to me as good belongs to you. // I loafe and invite my soul, / I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass. … / I, now thirty-seven years old in perfect health begin, / Hoping to cease not till death.” And even though he has never died, because he cannot die, I know for a fact that he suffered a stroke 18 years after writing those words.

So, when I turned 37, last year, still in perfect health, and hoping not to cease till death, and not knowing how long would I have before my heart attack, I decided to return home and live the life of a writer. Because if even HE died, what hope can I have? On the contrary, I have to RUN and LIVE. I realized that I was and had always been a Brazilian writer. So even though I had lived in New Orleans for 7 years and could write in English, I had never felt the urge to write to New Orleanians about Rio but, on the contrary, I was always coming up with new things about New Orleans and the U.S. to tell Brazilians. I realized that, in my head, I was always talking and writing to Brazilians. They were my core audience, and so it made no sense to stay away.

Throughout the years, there had always been events and stuff that I was invited to and couldn’t attend because I was in New Orleans. None of them by themselves were a major deal, but the career of a minor independent author is made of baby steps, so I felt my incipient (actually, non-existent) career was at a standstill. Now, for example, I’m going to Belo Horizonte in April for a roundtable about e-books. So I came to Rio and I’m now making a living as a writer, writing and editing for Papo de Homem, translating for Editora Record, and trying to finish my dissertation and my novel.

Tell me about your book, Onde Perdemos Tudo.

It’s actually an old book, written in the early 90s. But I think it withstood the test of time, so here I’m publishing it. It is the only one of my books to be actually published by an actual publishing house. All my other books were self-published. It’s composed of five short stories about loss, all kinds of loss, from losing a friend to losing your wife, or your career.

Why’d you go the self-publishing route with the other books and the publishing house route with this one?

It wasn’t a choice. Nobody wanted to publish the other ones. For Onde Perdemos Tudo, I had a publisher interested in my work and an able literary agent who got her interested. Still, unless you’re a best seller, one can make a lot more money self-publishing.

How has the book been received?

It’s very hard to break through. It has been positively reviewed in blogs here and there, but nothing in the mainstream press. It’s as if the book has never existed. But I have a loyal following of readers, and so it keeps selling. It can be frustrating, but it’s the only way. Baby steps, as I always say. But at least now I’m here to network and promote the books.

In Papo de Homem and your blog Liberal Libertário Libertino, you write a lot about racism and machismo with a critical eye. Why are these issues important to you?

That’s a very good question. I really don’t know. I guess I had a very very privileged, sheltered upbringing, something that I only realized very late in my adult life. So I felt the need to…. give back? Finally look at other people other than myself? That sort of thing. Also, the American academic environment was the main catalyst, that’s for sure. If I had stayed, maybe I’d be reading Veja. I remember I rather liked Diogo Mainardi, if you can believe that.

You have a really unique perspective that’s sometimes hard to find in Brazil, particularly with racism. How did your views on that issue evolve?

People say that I’m bringing racial conflct into Brazil and I argue, Yes! We need more racial confrontation! One of the major problems in Brazil is the fact that we never “confront” the issues.

You’ve also written quite a bit about domestic workers, which is also something of a taboo topic in Brazil. What got you interested in this?

Well, actually it was my interest in slavery. I think domestic workers, as the profession has established itself in Brazilian culture, is a direct relic of slavery. Only a former unapologetically slave-owning country such as we are could ever have such a slavery-like institution as our live-in maids. So it is a bit of the past alive in our daily lives up to today.

On the subject of your blogs, given your perspective and knowledge of these issues, why is it more important for Brazilians to be your audience, rather than an international one?

It’s the other way around. It’s not that talking to Brazilians is more important than talking to an international audience, but rather that I feel I have something to tell, teach, show to a Brazilian audience that I don’t have to an international one.

Let’s talk about Classe Média Sofre, but I noticed you don’t seem to have your name on the blog, at least not very visibly. Is there a reason for that?

Well, for starters, it is a collective and collaborative enterprise, so it’s not mine per se but I’m one of the founders and co-creators. Since then, everyone else has left, other people have gotten involved and left again, and now, pretty much, I’m the only one left managing the business. But the site still depends of the anonymous collaboration of hundreds of people every day. I’m more of a curator than anything else. I try to keep it faithful to its original vision, but mostly the only reason I’m the visible face of it is because I’m a writer, so I need the visibility and it does help me to sell some books. Actually, if it weren’t for that, the site would either still be 100% anonymous or, more likely, I’d have gotten bored and left with everyone else. Still, it’s the one thing I’ve done that I’m actually proud of.

Can you tell me about how the blog got started, and why you thought it would be worthwhile?

Its major inspiration was White Whine and Louis C K, when he says something like this. So a friend and I had the idea, and we started looking for examples. They were so numerous that it took us a day to fill several pages, and two days later we were already receiving more contributions than we could handle. On day 4, I kid you not, on day FOUR, we got our first complaint that the tumblr was no longer as good as it once was.

It caught on pretty fast.

Yes, it was amazing. And people were already self-censoring their worst bullshit pretty fast too. It was inspiring.

The blog’s been featured around the web and it’s literally become a cultural reference. Why do you think it hit a nerve?

Well, on one hand, lots of people feel really really defensive about it. They take the site as a personal attack to them. On the other hand, for several other people, the blog gave them their first way to vent their frustration at some of the most whiny, elitist comments their friends make. You can bet people will say that there’s nothing more classe media sofre than giving this interview in English! I especially love it when people accuse us of being “middle class too,” and of course we are. What did they think we were? Millionaires? Favelados?

What’s the absolute worst thing you’ve posted on there?

There can be no worst. You can always sink lower.

Ok, so your favorite?

“Pior dia da minha vida: acabou o chocolate.” [Worst day of my life: the chocolate is gone.] Simple yet perfect.

Can you tell me your thoughts on the complexo de vira-lata and the obsession with everything foreign/in English?

Brazilians are obssessed with Brazil to an extent that only Americans are obssessed with the U.S. We are truly kindred peoples, yours and mine. I’m pretty sure, given the power, Brazilians would have done every single thing Americans have. Brazilians are as proud, egocentric, and naive as Americans. We have our own version of manifest destiny (the Bandeirantes), etc.

I’ve never seen any people as interested about what people are saying about them abroad. In a way, in Classe Média Sofre, we talk about both sides of this coin. So, in a very schizophrenic way, what comes from abroad can seem very important or not at all important. And of course, I’m guilty as charged, because I travelled, and I studied abroad, and I could have studied anything, I could have dedicated myself to ancient Greece or pure mathematics, but here I am thinking about Brazil and writing about Brazil. It’s kind of a curse, but it was also my choice, so I don’t in any way exclude myself from this. I’m part of it.

Brazil is undergoing so many changes in terms of its place in the world. Is there a chance it could become more insular and inward looking like in the U.S., or is this fascination with other countries here to stay?

I think Brazil is in fact getting more powerful as a country, so other countries will tend to seek Brazil’s opinion or support more often, and consequently, Brazilian politicians and statesmen will be forced to be more versed in international affairs than their predecessors, and consequently, the Brazilian voter as well. You can see that starting. These past years, Honduras, Cuba and Iran were more talked about, even during elections, than I had ever seen before. In elections before 2010, foreign affairs had never had any relevance at ALL.

When I started teaching Portuguese in the U.S. in 2005, most of my students were there because they had a Brazilian signficant other, or a Brazilian parent, or liked bossa nova and City of God. Period. When I left, in 2011, most of my students were actually seeking employment, business or research opportunities in Brazil. There were lawyers and business majors; most of them had not watched City of God, but they knew about Petrobras, pre-salt and biofuel. It was a complete revolution in less than 6 years. Several  of my former students are now either working and living in Brazil, or living in the U.S. but working as “Brazilian liasons” with companies that do business in Brazil.

I think it’s exciting and I’m a part of it. I’m part of a large reverse migration of Brazilians coming back from abroad these last few years, exactly because of all these opportunities, but it’s important not to let this go to our heads.

Why’s that?

The United States was once a country that was actually a beacon of democracy and of high ideals, before it stated having imperial dreams and conquering Mexico, the Phillipines, Cuba, etc. Brazil was an actual empire-empire once. People were afraid of us in the 19th century (my main area of knowledge). Brazil used to topple Uruguyan presidents in the 19th century the same way Americans did to Central American ones in the 20th century. Besides, we do tend to be overconfident and overindulgent. Raising people from poverty should continue to be number one priority.

So you don’t want history to repeat itself, in other words.

Actually, that particular history has no chance of repeating itself, I think. But we can be stupid and overconfident in several new ways now.

What are your hopes for the future now that you’re back in Brazil?

My main priority is being a writer. That’s all I know how to do. Write, write, write, until I die. That’s my only ambition. Get some writing done. Publication will take care of itself, or not. But time is running out and I need to get some books out of me. That’s it.

pra quê escrever ficção?

Meu irmão Biajoni fez a pergunta a vários escritores. Minha resposta:

Eu escrevo ficção porque sim. Porque não consigo não escrever. Se conseguisse, não escrevia. Mas sou fraco.

Os Favoritos de Alex Castro

Entrevista concedida a Simone Magno, para o Tempo de Letras, da Rábio CBN, em 28 de junho de 2010.

O quadro desta semana é com o escritor carioca Alex Castro, radicado em Nova Orleans, que no momento percorre Macau e Timor Leste em busca da literatura em língua portuguesa fora de Portugal e Brasil, para uma série de ensaios. Ele é autor de Mulher de um homem só.

TL – Qual o primeiro livro que marcou sua vida?

AC – O pequeno Nicolau, escrito por Goscinny e ilustrado por Sempé, em uma edição da Artenova, capa cinza, grosso. Eu tinha sete anos e era meu primeiro livro de texto corrido, em formato normal, com fonte pequena, parágrafos atrás de parágrafos. O primeiro livro que sabia que eu era criança, que sabia que eu tinha preocupações de criança, mas que, ainda assim, não me tratava como criança. O primeiro livro que me fez sentir… adulto. Toda minha vida literária, toda minha carreira de leitor, começou com O pequeno Nicolau.

TL – Qual o livro que mais mexeu com você?

AC – Gosto muito de escrever em livros, sublinhar, marcar, e tenho a seguinte teoria: o livro que você não marca é porque não te marcou. Então, mudando a metáfora, eu diria que o livro que mais mexeu comigo seria o livro no qual eu mais quis mexer, intervir, interferir. Em 2004, Fernando Braga da Costa, doutor em Psicologia, publicou Homens invisíveis: Retratos de uma humilhação social, sobre seus dias de trabalho voluntário entre os garis da USP. As histórias vividas pelo Fernando e por seus colegas, histórias de vergonha, humilhação, invisibilidade, me marcaram profundamente e foram a inspiração primordial para o romance que estou escrevendo agora, Cria da casa: Histórias de empregadas & escravos. Meu livro nada mais é do que eu mexendo e interferindo nesse livro que tanto mexeu comigo, levando-o para uma plataforma ficcional e tentando descobrir o que vai acontecer.

TL – O que você está lendo agora?

AC – Confesso: amo literatura, mas não tenho nenhum amor pelo suporte livro. Nesse momento, estou viajando pela Ásia e, pela primeira vez, levando meu Kindle, sem precisar carregar uma mala de livros nas costas! Estou adorando a possibilidade de, ao mesmo tempo, dispor de tantos livros e não carregar tanto peso. O Kindle é perfeito tanto para ler livros novíssimos que acabaram de sair como para ler livros de domínio público, que encontro de graça pela internet. Então, acabei de ler o monólogo-desabafo final de Molly Bloom, em Ulisses, de Joyce, para um projeto atual. Também li duas versões diferentes, em prosa e em poesia, do segundo canto da Eneida, de Virgílio, para um futuro romance que estou planejando, comparando a decisão de um carioca de sair do Rio de Janeiro, com Enéias dividido entre fugir de Tróia ou ficar e lutar até a morte. A Eneida é meio tediosa, mas o segundo canto é simplesmente magistral. E, por fim, no campo dos livros recentes, depois desses dois clássicos, comecei a ler 2666, do Roberto Bolaño, meu primeiro livro desse autor, que me chegou altamente recomendado, e simplesmente não consigo parar de ler, é enorme, delicioso, colossal. A primeira parte, sobre os acadêmicos europeus obcecados por um autor alemão, tem muito a ver com minhas experiências estudando literatura latino-americana nos Estados Unidos.

A literatura, a internet e um papo com Alex Castro

Entrevista concedida a Luis Eduardo Matta, no Digestivo Cultural, de 20 de março de 2007.

A internet, queiramos ou não, é uma realidade para a literatura, sobretudo a fértil literatura que vem surgindo da pena (ou seria do teclado?), de jovens escritores, muitos dos quais talentosos e com bom domínio da escrita e que, por razões variadas, não se aventuraram pelo mercado editorial tradicional.

Resistente no começo, o establishment cultural começa a reconhecer o potencial da internet e a levar em conta os trabalhos nela publicados. Recentemente, o prestigiado suplemento literário “Prosa & Verso” do jornal O Globo, começou a dedicar espaço para resenhar livros publicados exclusivamente na Web. Um dos primeiros autores a ser agraciado com essa iniciativa foi Alex Castro, titular do popular blog Liberal ““ Libertário ““ Libertino e escritor carioca atualmente residindo nos Estados Unidos, que teve o seu livro de contos Onde perdemos tudo resenhado pelo renomado crítico e escritor Miguel Sanches Neto, na edição de 11 de novembro passado. Alex Castro é, também, autor do romance Mulher de um homem só, que já foi baixado trinta mil vezes, durante os três anos em que esteve disponível gratuitamente na internet. Uma marca, aliás, que muitos escritores com livros publicados não consegue atingir.

Se a literatura e a internet farão um casamento duradouro ““ ou até mesmo eterno ““ ou se não passa de uma fase, isso ainda é uma incógnita. Eu, pessoalmente, tenho sérias dúvidas sobre se o livro de papel tal qual conhecemos irá desaparecer, como muitos prevêem; o que, naturalmente, não impede que um suporte eletrônico de leitura se consolide e ambos possam conviver sem atritos.

Na entrevista abaixo, Alex Castro nos fala sobre a sua experiência literária na internet, sua obra e sua visão sobre a literatura contemporânea, aproveitando para contar um pouco sobre a sua vida, o que poderá surpreender vários dos leitores do seu blog e, até mesmo, da sua literatura.

1. Alex, você escreveu um romance Mulher de um homem só e, agora, aventurou-se, também, pelos contos, com Onde perdemos tudo. Quais seriam as semelhanças entre esses dois trabalhos? Quais foram as suas intenções ao escrevê-los (se as houve)?

São dois projetos bem distintos. O livro de contos Onde perdemos tudo reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Eu nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta.

O romance, Mulher de um homem só, desenvolve o tema de um dos contos: se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.

2. Você mantém um blog muito popular na internet. A sua experiência na rede inspirou-o ou auxiliou-o na sua atividade literária? Gostaria que falasse um pouco a respeito.

Tanto Onde perdemos tudo quanto Mulher de um homem só foram escritos antes que eu ouvisse falar de blogs, quando eu mal tinha e-mail. Acho engraçado as pessoas que lêem esses livros e fazem análises complexas sobre sua linguagem web! Mas, enfim, cada leitor lê como quer, não há leitura certa.

Meu blog foi criado em função de um outro projeto, ainda em andamento, de um livro de ensaios sobre as prisões que acorrentam o pensamento do homem, como religião, monogamia, heterossexualidade, preconceito, patriotismo, ambição, medo, verdade, etc. Como são ensaios polêmicos, achei que seria interessante testá-los antes na internet para ver que tipo de recepção teriam. E, bem, é isso que ainda estou fazendo. Só mais tarde aproveitei a plataforma web para também divulgar esses outros trabalhos que já estavam prontos.

Aprendi muitíssimo com a experiência. Hoje, já acho imprescindível esse contato de um escritor com seu público que a internet permite. O escritor que não usa desse recurso está se limitando e se isolando, está se comportando como um surdo que não quer ouvir seu público.

Por outro lado, acho importante acabar com essa idéia de “escritor-blogueiro”. Antigamente, os poetas mimeografavam suas poesias e iam de bar em bar distribuindo-as, e ninguém os chamava de “poetas-mimeografeiros”. Eu distribuo meus livros em formato PDF e não sou um “escritor-pedeefeiro”. As pessoas confundem meio com mensagem. A internet é somente mais um meio, uma plataforma, que permite que a literatura seja melhor distribuída, mas ainda é a mesma literatura de sempre.

Mesmo os ensaios das prisões, que foram escritos depois de eu ter experiência com web e blogs, não têm nada a ver com a estética, agilidade, vocabulário ou concisão da internet. São ensaios longos, complexos, refletidos. Não foram escritos para serem lidos em cinco minutos, por alguém desatento, que está batendo papo no MSN e checando e-mail ao mesmo tempo. Exigem um leitor crítico e pensante.

3. Há elementos autobiográficos nos seus livros ou estes são apenas produto de uma mente criadora?

Eu acho que não há nada mais tedioso, lugar-comum e narcisista do que esses escritores cujos protagonistas são sempre o alter ego deles mesmos, esses escritores que escrevem livros para falar de si mesmos ou para exorcizar seus demônios.

Fiz isso só uma vez, no último conto de Onde perdemos tudo, que é um conto humorístico, pra quebrar um pouco o clima deprê do livro. É a história de um escritor chamado Alexandre que está pra lançar seu livro de contos Onde perdemos tudo quando descobre um conto igual em outro livro escrito cinqüenta anos antes. A grande brincadeira é mostrar, entre outras coisas, o ridículo desse negócio de escrever sobre escritores escrevendo sobre escritores. Jurei que nunca mais faço isso, a não ser que tenha um bom motivo.

Olha, meus demônios eu exorcizo na terapia. Eu já me conheço, não preciso usar ficção pra isso. Para mim, literatura é para criar gente, pra eu entrar na cabeça de outras pessoas, pra eu tentar criar empatia com esses personagens tão diferentes de mim, para eu tentar descobrir como essas pessoas reagiriam a determinadas situações. Se for pra falar de mim mesmo, qual é a graça? Eu já sei quem eu sou. Eu já sei o que eu faria. Melhor escrever não-ficção.

Então, não: meu trabalho, além de não ser autobiográfico, é anti-autobiográfico. Às vezes, só o fato de um personagem ser parecido comigo já me corta o tesão. Meu romance, Mulher de um homem só, ficou parado por muito tempo, porque ele deveria logicamente ser escrito do ponto de vista do Murilo ou da Júlia, que são personagens um pouco parecidos comigo. E eu nunca começava o romance porque, bem, eu já conhecia esses personagens, não tinha interesse em mergulhar neles, faltava tesão. Só quando uma amiga me sugeriu que o romance fosse narrado pela esposa é que a coisa deslanchou. Eu não sabia quem era aquela mulher, ela não tinha um grande papel na trama, ela não era nada parecida comigo. Escrevi Mulher de um homem só, então, para conhecer a Carla, para saber que tipo de pessoa ela era, para compreender por que ela fez as coisas que fez e aturou as coisas que aturou.

E, por outro lado, claro, toda literatura é autobiográfica, de certo modo, porque a matéria-prima da literatura é a vida. O escritor rouba pedaços de vida de todo mundo que ele conhece, e mais ainda de si mesmo. Então, todos os personagens de um escritor são repletos de coisinhas dele, de coisas que aconteceram com ele, de manias que ele tem ““ mas também das coisinhas e manias dos seus amigos e parentes. Então, apesar dos meus personagens terem várias experiências em comum comigo ou com pessoas que conheço, eles não são nem eu nem essas pessoas. Se não achasse que são indivíduos independentes, nem teria mostrado o texto pra ninguém, aliás.

4. Como blogueiro consagrado, como você vê o papel da internet no campo da cultura, da informação e do entretenimento hoje em dia? Você acredita que a internet vai substituir a imprensa e o suporte livro tal qual nós conhecemos hoje?

Blogueiro consagrado? Ha ha. Quando me dizem isso eu sempre lembro de uma amiga que definiu com precisão: ser um “blogueiro famoso” é como ser “miss minissaia do festival das flores de Lambari, ou seja, nada.”

Enfim, eu não sou contra ler na tela per se. Eu tenho um laptop e leio muito nele. Tem pessoas que falam que o papel sempre será superior porque podem ler num parque, encostados numa árvore, ao ar-livre, e eu acho uma certa graça porque eu faço tudo isso com meu laptop! Mas, realmente, ler romances ou poesia sempre vai ser melhor no papel.

Por outro lado, jornais, enciclopédias, atlas e dicionários já estão totalmente obsoletos, as pessoas só ainda não sabem disso. Hoje em dia, quem ainda gasta R$2 mil numa Enciclopédia Britânica? Dou aulas pra muitos jovens e nenhum deles lê jornal-papel. A geração que está virando gente hoje lê jornais na Web. Eu mesmo não entendo o que leva alguém a comprar um jornal às onze da manhã, sabendo que ele foi fechado às vezes mais de doze horas antes e está completamente desatualizado. Além de que suja as mãos, é difícil de dobrar e mata arvorezinhas. Sim, muita gente diz que gosta justamente dessa liturgia ritual do dobrar e desdobrar, das pontas dos dedos sujos, mas são porque associam o gestual ao ato de se informar, porque cresceram assim. Enquanto essas pessoas viverem, haverá jornal. O problema é que, como os jornais não estão adquirindo novos leitores, quando morrer essa geração, o jornal acaba. Do meu ponto de vista, aliás, faria mais sentido dar de graça os jornais impressos desatualizados e depois cobrar para o leitor entrar no site e ler as notícias atualizadas. Mas eu sempre vejo tudo ao contrário.

Já a literatura acho que não tem nada a temer da internet.

5. Tanto Mulher de um homem só quanto Onde perdemos tudo foram publicados na internet. Como é essa experiência de publicar unicamente no mundo virtual? Você se sente gratificado? Como é o retorno dos leitores? Como tem sido a receptividade dos livros junto aos internautas?

Lancei Onde perdemos tudo na internet em setembro de 2006, já vendi cerca de 60 cópias (o que parece pouco) mas ganhei líquidos R$700, o que é muito, ainda mais pra um livro de contos de um desconhecido. Se o livro tivesse saído por uma editora tradicional e eu ganhasse os tradicionais 5% do preço de capa, eu teria que vender mais de mil exemplares pra ganhar a mesma coisa.

Mulher de um homem só foi distribuído gratuitamente na rede por 3 anos, sendo baixado mais de 30 mil vezes. Graças ao romance e ao blog, um professor universitário brasileiro nos Estados Unidos me convidou para vir fazer doutorado em Literatura em Nova Orleans, e é onde estou agora, vivendo de bolsa. O blog rende em média R$500 por mês só em comissões do Submarino e do Google. Parece pouco, mas pra um blog que nunca achei que daria nada? O dinheiro fica acumulando na minha conta corrente no Brasil e, quando volto pra casa, vivo por conta dessa grana, o que é uma sensação bem gostosa.

Na verdade, para mim, como escritor de literatura, a internet já me deu BEM mais leitores e BEM mais dinheiro do que eu conseguiria publicando por uma editora tradicional. Só falta mesmo o reconhecimento dos meus pares ““ outros escritores, professores de letras, jornalistas culturais, os literatos em geral. Como ainda não passei por esse ritual de passagem do livro impresso, ainda não sou escritor, sou “blogueiro”. Veja bem: não estou dizendo que as uvas estão verdes. Eu quero passar pelo ritual de passagem, quero sair em livro impresso, quero ser aceito como um igual pelos membros da minha tribo, mas a internet me fez ver o verdadeiro valor disso. Tornou-se apenas um ritual, de valor simbólico. Leitores e dinheiro, que são o que há de mais concreto, eu sei que consigo mais através da internet.

6. Como você enxerga a nova literatura contemporânea brasileira? Você tem contato com escritores da chamada “nova geração” e/ou com seus livros e textos? Você percebe características comuns nos trabalhos destes jovens autores e nas suas propostas literárias? Pode-se distinguir uma voz e uma fisionomia predominantes nesta nova literatura? E como você situaria o seu trabalho dentro dela?

Pode parecer incrível para quem me vê como um blogueiro tecnófilo do século XXI, mas eu sou um homem do século XIX. É lá que eu passo a maior parte do tempo, é lá que eu trabalho, é de lá que são os livros que eu leio. Meu maior interesse intelectual, por dez anos, foram as guerras do Prata, desde a conquista final do Uruguai, em 1816, até o final da Guerra do Paraguai.

Agora, meu tema principal de pesquisa são as representações da escravidão na literatura brasileira do século XIX, com ênfase no processo de canonização literária. Será que escravidão foi abordada de forma diferente nos romances que foram consagrados e nos que foram esquecidos? Será que a abordagem de um tema polêmico e desagradável desses não influiu no processo de canonização? Ou seja, não é nem que a escravidão foi ignorada, mas que o establishment ignorou os livros que falaram dela. E qual a relação disso com o processo de formação de uma identidade nacional através da literatura? Será que, nesse momento de decidir quem éramos, queríamos ser um país caracterizado pela escravidão? A coisa também passa por questões de teoria e estética da recepção. Afinal, como esses livros, tanto canônicos quanto não-canônicos, eram lidos? Quem os lia?

Além disso, para fins de comparação, estou mergulhando fundo na literatura abolicionista cubana, um país bem parecido com o Brasil em muitas coisas mas com uma literatura completamente diferente, com romances abordando de frente os dilemas mais duros da escravidão, problematizando questões que nenhum escritor brasileiro ousou nem levantar. Por quê? Por que tamanha diferença? Por que os escritores cubanos ousaram atacar literariamente a escravidão enquanto os brasileiros fugiram da raia e fingiram que não viram o problema?

Em suma, sei que fugi da pergunta mas já volto. Eu queria dizer que meus interesses intelectuais e literários me prendem tanto ao século XIX que, sinceramente, não tenho tempo nem saco pro XX nem pro XXI. O século XX foi um século chato e sangrento. Não me atrai.

Li pouquíssimos autores contemporâneos e gosto de menos ainda. Tenho todos os Livros do Mal e acho que os Daniéis, Galera e Pellizzari, ainda vão muito longe, mas que nem começaram a dar tudo o que podem dar. O Biajoni, que escreveu o ainda não publicado Sexo Anal, um dia vai ser visto como o gênio da nossa geração. Dos meus contemporâneos, acho que os melhores são o Alexandre Soares Silva e a Daniela Abade. A Coisa Não-Deus e Crônicos são romances simplesmente sensacionais, criativos, poderosos, que fogem à estética vigente, que ousam, arriscam. Me entristece ver que ambos não são nem um pouco badalados e que estão sempre parecendo que vão parar, enquanto que semi-analfabetos vivem saindo nas primeiras páginas de cadernos literários. Outro grande livro contemporâneo foi Aqueles Cães Malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, que ganhou o Jabuti em 1995, publicou outros dois livros praticamente iguais ao primeiro e depois sumiu. Por fim, o grande lançamento do ano passado foi o tour-de-force da Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor, um tijolão maravilhoso de mil páginas, no melhor estilo dos romances do século XIX que eu amo, contando 80 anos de vida de uma escrava africana no Brasil. Ainda vai ser um clássico. De resto, ou não li ou não gostei.

A nossa literatura contemporânea tem uma série de cacoetes que me incomodam. Um deles é essa mania de escritor escrever livros sobre escritores malditos, bebendo, fumando e falando palavrão, andando por uma cidade suja e sem nome, mostrando como a vida é tediosa e sem sentido, como não significa nada, blá blá blá. Bukowski já fez isso. Rubem Fonseca já fez isso. Até Camus já fez isso. Essa estética do maldito é muito chata. Não que eu seja contra per se, mas que é algo que já foi feito à exaustão. Estorvo, do Chico, pra mim é emblemático desse processo, um livro que reúne todas as piores características desse “gênero”.

E o pior é que esses escritores se chamam, na maior cara dura, de malditos, rebeldes e ousados. Ora, gostando-se ou não, “maldito, rebelde e ousado” (ele iria odiar a classificação) é A Coisa Não-Deus, do Alexandre Soares Silva, um livro que é diferente de tudo o que é publicado por aí, ambientado em um céu povoado pelos grandes gênios da humanidade! Veja bem, não estou nem falando de qualidade, muita gente pra quem emprestei A Coisa Não-Deus odiou, o que só prova que meu gosto é o inverso do senso comum. Mas, independente da qualidade do produto final, não há ousadia ou rebeldia alguma em se publicar mais um romance sobre sexo, drogas e rock’n’roll, sobre narradores apáticos em uma cidade violenta, sobre narradores que são um pastiche, voluntário ou não, dos piores livros de Rubem Fonseca e João Gilberto Noll. Alguns desses romances são melhores, outros são piores, mas há pencas deles nas livrarias. Qual é a ousadia nisso? Ousadia é escrever um livro debochado ambientado no céu. Você pode até gostar do livro ou não, mas tem que reconhecer que é ousado.

Assim como ousado é o Bia, que escreveu um livro chamado Sexo Anal, sobre uma moça que adora, bem, sexo anal, e é um livro engraçado, sensível, feminino, lindo. Esse é tão ousado que já passou por tudo quanto é editora e nenhuma teve culhão de publicar. Ousado também é você, Luis, com o seu projeto maravilhoso e quixotesco de criar uma literatura de entretenimento no Brasil, porque nem sempre a gente quer um romance transcendental, às vezes a gente quer só umas perseguições e explosões, e sem um mercado editorial saudável mantido por livros de entretenimento que vendam bem, também não se tem uma boa literatura.

Então, eu acho que a fisionomia, a voz dessa nossa nova literatura é a voz dos narradores apáticos, beberrões, drogados, insensíveis, violentos, em suma, chatos, chatos de doer. Eu tento ao máximo me situar fora disso.

Mas, como eu disse, sou mesmo um filho do século XIX.

Quanto vale ou é por quilo?

Entrevista concedida a Tulio Moreira Rocha, para a Revista Bula e para o jornal Opção, de Goiânia, em agosto de 2009.

Liberal, libertário e libertino. O escritor carioca Alex Castro fala sobre mercado editorial, literatura e internet. Nem José Saramago escapa.

O escritor Alex Castro bolou um esquema incomum para o lançamento da edição impressa de seu primeiro romance, “Mulher de Um Homem Só”. Carioca, residindo atualmente em Nova Orleans, Estados Unidos, Alex fez uma campanha na internet para convencer leitores a comprar exemplares do livro, ao preço mínimo de R$ 24,40. A maioria dos investidores deu lances acima do valor inicial, garantindo a publicação. Em três semanas de pré-venda, o escritor conseguiu vender 117 exemplares, ao preço médio de R$ 33,90. O romance de Alex já havia causado boa recepção quando publicado na internet. Aliás, o autor tem uma relação de sucesso com o mundo virtual. O blog “Liberal Libertário Libertino“Â conquistou seguidores fiéis. O espaço, “anárquico” na definição do blogueiro, revela um criador ágil e multifacetado, atento e ousado. Para quem se interessou, é possível adquirir um exemplar do novo livro de Alex por meio do blog. Em entrevista a Revista Bula, Alex Castro afirma que a mágica de escrever um romance é poder sair um pouco de si e entrar no corpo de outra pessoa. O escritor também endossa o coro dos que acham José Saramago um chato e comenta sobre um de seus projetos vindouros, uma obra sobre sua intensa relação com a cidade do Rio de Janeiro. Confira.

Quais foram os desafios de publicar a versão “física” de “Mulher de Um Homem Só”, pela editora Os Viralata?

Alex Castro – Desafio nenhum, na verdade. Desafio foi tentar publicar o livro pelas ditas editoras tradicionais. Lançar o livro como lancei foi fácil. Anunciei no blog que faria uma edição física de “Mulher de Um Homem Só”, que a pré-venda já estava aberta. Dei os detalhes sobre a data que o livro iria para a gráfica e que o lançamento seria feito. Falei que dependendo do dinheiro que conseguisse levantar, decidia a tiragem do livro, ou então, desistia e devolvia o dinheiro de todo mundo. Enquanto isso, minha amiga, a artista plástica Isabel Löfgren, criou várias capas lindas, e os leitores também ajudaram a escolher a melhor. O Albano Martins, editor da Os Viralata, editou e formatou o texto do livro. Os resultados foram além de qualquer expectativa. Cento e cinquenta pessoas compraram o livro na pré-venda. Várias pagaram muito mais do que o preço mínimo, viabilizando com folga a edição.

Apesar da propagação dos chamados e-books na internet, viabilizados pela facilidade de distribuição e baixos custos, você ainda acha importante publicar “à moda antiga”, no papel?

AC – Não acho, não. Não vejo a menor graça no objeto livro. É uma coisa pesada, difícil de carregar, difícil de manter, que junta bicho, fede, dá mofo, essas coisas. Eu adoro literatura e adoro o conteúdo dos meus livros, mas não papel em si. O problema é que ainda estamos na Era do Papel. No final dela, mas ainda nela. As pessoas tendem a confundir papel com literatura, o que é meio ridículo. Papel é apenas o suporte. Uma poesia de Whitman é tão literatura se estiver no papel, numa tela de computador, escrita num guardanapo, num livro em áudio, grafitada numa parede, etc. Quando inventarem um outro suporte, mais barato, mais leve, que dê pra ler num parque num dia de sol, que dê pra marcar e sublinhar, e estamos quase lá, então os livros vão se tornar como os cavalos hoje: não vão sumir, mas também não vão ser uma opção de massa. Serão lidos e cavalgados somente pelos mais entusiastas.

Você se vê inserido no cenário da “literatura independente” brasileira? Quais são as barreiras e dificuldades para os autores que se propõem a escrever assim?

AC -Eu nunca me propus a escrever literatura independente. Eu me propus só a escrever literatura. Também não tenho fetiche por literatura independente. Se o Schwarcz (Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras) me ligar amanhã dizendo que me quer na editora dele, a única questão vai ser negociar o preço. O problema é o tal mercado editorial intransponível. A própria Companhia das Letras, li em algum lugar, afirmou que mantém um time de leitores pra ler os manuscritos submetidos, mas que nunca, nem uma única vez, publicou um livro que foi mandado assim na cara dura. Todos os livros que publicou vieram recomendados ou encomendados. Aí você vê que, verdadeira ou não, a história é emblemática. Se os caras nunca publicaram nenhum, o problema é provavelmente mais deles que dos autores, por um motivo simples. A Companhia é uma das maiores e mais prestigiadas editoras do Brasil. Provavelmente, muita gente que acabou saindo por outras editoras (e fazendo sucesso) também mandou seu livrinho na cara e na coragem para a Cia. das Letras, e nada. Será que eram mesmo livros tão ruins assim? Todos?

Para lançar “Mulher de Um Homem Só”, você recorreu às pessoas que gostam de investir em cultura. Apesar do velho senso comum de que a maioria da população brasileira é avessa às coisas do ramo, como você avalia o resultado do apelo, no caso do seu livro?

AC – No meu caso, foi tranquilo, pois tenho um blog há muito tempo, com leitores já cativos, que gostam de mim e me lêem diariamente. Muitos deles ficaram felizes de pagar para ler um livro inédito e também de retribuir as boas horas de leitura gratuita que tiveram. Quase todos os leitores pagaram mais do que o preço mínimo de R$ 24,40.

Você acredita que “livro é pra circular”. Qual é o tipo de leitor ideal para você? Como o leitor deve exercer o papel de propagador da obra literária?

AC – O meu leitor ideal não mantém uma estante cheia de livros que ele nunca mais vai abrir, como se fosse um caçador mostrando seus troféus: “Olha o antílope que eu cacei! Olha o Kuarup que eu li!” Acho muito esnobismo. Se já leu o livro e não vai ler de novo, passe adiante. Venda para um sebo. Doe para a biblioteca. Passe na universidade federal mais próxima e distribua entre os estudantes mortos de fome. Não deixe eles mofando entre os seus “troféus”.

O meu leitor ideal sabe também que sua relação com um autor vivo pode e deve ser interativa: ele pode interpelar o autor, interferir na obra, fazer ou destruir sua reputação. Não é a mesma relação que teria, digamos, com “Dom Casmurro” ou “Moby Dick”. Quando gosto do livro novo de alguém assim, eu faço post, escrevo no blog, conto pra todo mundo, dou o livro de presente, empresto, faço um escarcéu e uma divulgação muito maior do que faria se descobrisse um escritor morto e enterrado, porque sei que o autor precisa desse boca-a-boca pra existir. Ao mesmo tempo, quando odeio o livro de um autor vivo, eu fico calado e me auto-censuro muito mais do que no caso de um autor morto, que não está aí pra chorar de tristeza ou, pior, vir na minha porta me bater. Para que vou falar algo pra magoar um menino que está começando e cujo único pecado é ser incompetente e inábil? Eu sei que tenho liberdade de expressão. Eu sei que quem sai na chuva é pra se molhar. Sei que posso, mas, mesmo assim, não me sinto bem escrevendo algo que sei que vai fazer mal a alguém.

Um leitor comprou sete exemplares do meu livro, porque disse que adorou, queria conversar sobre o livro com os amigos, eles não conheciam, e achou que presenteá-los era um bom jeito de ajudar tanto a eles quanto a mim. Claro que esse homem é o meu leitor ideal, mas não precisaria ir tão longe. Basta colocar o livro de novo em circulação. Livro é pra ser lido. Se você já leu (e não vai usar ou precisar dele de novo), repasse para outra pessoa que vai lê-lo também.

Seu livro esteve disponível na internet para baixar até 2006, fazendo sucesso entre os internautas. Com o lançamento da versão “física”, você acha que a recepção de público e crítica pode ser diferente, comparada à versão digital?

AC – O livro teve uma recepção muito boa na internet, foi resenhado dezenas de vezes e obteve muito feedback. Via de regra, as leitoras se empolgaram mais do que os homens, a maioria se viu muito na personagem da narradora, a Carla. Não vejo porque a reação off line seria diferente. Minha grande esperança é poder atingir um público que não está na internet, que não teria acesso ao livro de outro jeito.

Fale um pouco sobre a sua formação cultural. Quais autores fizeram sua cabeça? Em que contexto você se interessou pela literatura?

AC – Sempre me interessei por literatura, mas nasci numa casa anti-literata, com poucos livros, e os poucos eram best-sellers, policiais, essas coisas. Tínhamos uma coleção da Britannica Great Books, o cânone do cânone, e me formei lendo esses livros, os grandes clássicos universais. Não tenho muitos autores que me formaram, não, porque sempre li muito, e desordenadamente, então, a graça é justamente ler muito, demais, sacudir aquilo tudo na cabeça e ver o que sai. Um escritor precisa ler muito por um único motivo: para saber o que já foi feito. Para não repetir livros velhos. Para ser capaz de detectar quando está inconscientemente roubando a voz de alguém. Essas coisas. Uma influência mais negativa do que positiva mesmo. Por exemplo, essa nova geração só repete Rubem Fonseca até hoje porque não leu o suficiente para saber como seus livros são repetitivos e velhos.

O que você aprecia na literatura atual, brasileira e internacional? E o que você preferia não ter lido nunca?

AC – Os dois melhores autores vivos na língua portuguesa são, sem dúvida alguma, Mia Couto e António Lobo Antunes. Ambos sempre me ensinam muito e fazem coisas com a língua portuguesa que eu achava que não poderiam ser feitas. Dos brasileiros vivos, tem pouca gente que eu gosto de verdade. Ariano Suassuna é provavelmente o melhor autor brasileiro vivo, só pelo “Romance d’A Pedra do Reino” e pelo “Auto da Compadecida”, mas ele não escreve faz tempo. Como todo mundo, gostei muito de “O Filho Eterno”, do Cristóvão Tezza . E meu irmão-marginal-escritor-independente Luiz Biajoni está escrevendo alguns dos livros mais originais, inovadores e empolgantes que já li em muito tempo, apesar de ninguém estar vendo ““ por enquanto. Fora da língua portuguesa, eu conheço muito pouco da produção contemporânea, mas o último livro sensacional que li, de me deixar boquiaberto e estupefato, foi “As Partículas Elementares”, do francês Michel Houellebecq, um autor completamente ensandecido e iconoclasta.

Não há nada que eu tenha lido que eu gostaria de não ter lido. Os livros ruins são muito importantes, pois servem de exemplo negativo, mostram o que já foi dito, o que já virou clichê, por onde não ir, o que não fazer.

Sobre “Mulher de Um Homem Só”, o que esse livro representa na sua obra? Como e onde ele está inserido no conjunto de seus trabalhos?

AC – Representa o fato de que ela existe. Minha obra, se é que podemos chamá-la assim, é composta de quatro livros. “Liberal Libertário Libertino” é uma coletânea das melhores crônicas que publiquei no blog de mesmo nome e na minha coluna na finada Tribuna da Imprensa, entre 2003 e 2007. “Radical Rebelde Revolucionário ““ Crônicas Cubanas” é um livro de crônicas de viagem sobre Cuba, um país que amo e adoro. Ao contrário do outro, não são crônicas coletadas, nem tiradas da internet, mas inéditas e escritas especificamente para formar esse livro. Devo ter feito algo de muito certo, porque os fidelistas me acusam de agente da CIA e os reacionários me acusam de lambe-botas do Fidel. O livro de contos “Onde Perdemos Tudo” reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta. A ordem dos contos também é importante: um livro de contos tem que ter uma sequência, algum tipo de narrativa. Nesse caso, começo com um conto sobre o processo de perda, sigo com um conto sobre o momento da perda em si, depois um conto sobre a perda relembrada e, por fim, um conto mais otimista, para não fechar o livro em uma nota desesperadora.

O romance “Mulher de Um Homem Só” desenvolve o tema de um dos contos: questiona se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.

Conte sobre o futuro. O que você está arquitetando?

AC – Atualmente, estou trabalhando em um romance chamado “Empregadas & Escravos”, tentando falar, de forma ficcional e não-esquemática, sobre essas nossas relações de poder tão ingratas. Já estou bem avançado nele. Além disso, como carioca expatriado, também tenho um projeto bem desenvolvido na minha cabeça de escrever um romance sobre toda essa questão de “sair do Rio”. O título de trabalho é “Rio Cidade Aberta” e a narrativa faria um paralelo com a Eneida, com aquele momento terrível em que Tróia está desmoronando, Enéias não quer sair mas acaba sendo obrigado a abandonar a cidade. A história se passaria em três momentos: 1711, quando a cidade foi tomada pelos franceses e a população, mesmo querendo lutar, foi obrigada a evacuar a cidade sob uma chuva torrencial; 1893, quando a nossa própria Armada começou a bombardear nossa própria capital, muitos moradores abandonaram a cidade em pânico e a situação só se resolveu quando o Rio foi declarado “cidade aberta”; e 2002/2003, quando por duas vezes Fernandinho Beira-Mar fechou o comércio e as escolas do Rio, a primeira vez que uma ação criminosa afetou a cidade como um todo.

Ao longo de todas essas épocas e situações, as questões serão basicamente as mesmas: vale a pena ficar no Rio e lutar pela cidade? Quando é a hora certa de sair? Existe isso de hora certa de sair? Eu amo o Rio obsessivamente, mas saí da cidade faz quatro anos. Ainda assim mantenho um apartamento lá e passo cerca de cinco meses por ano no Rio, então eu moro e não moro, saí e não saí. É uma posição que me permite, ao mesmo tempo, ver a cidade de fora e de dentro.

Como você utiliza seu blog para apresentar suas ideias e criações?

AC – O blog acaba se tornando o espaço do Alex-pessoa-física, em oposição ao Alex-escritor-de-ficção. No blog, exponho minha vida real, minhas opiniões, quem eu sou. Já a ficção é o mundo de ser outras pessoas, viver outras vidas. Nesse ponto, a grande função do blog, em relação aos meus livros, acaba sendo criar um grupo cativo de leitores que gosta do que eu escrevo e que se interesse em conhecer a ficção também. O único problema é que chegam na ficção procurando o Alex do blog, que é uma persona exuberante e polêmica, e ele está lá muito escondidinho, caladinho, deixando dar espaço para os personagens crescerem e encontrarem suas próprias vozes.

Não entendo esses autores que sempre escrevem sobre si mesmos, cujos protagonistas sempre são alter-egos disfarçados, cujos enredos são sempre baseados em coisas que lhes aconteceram. A mágica da ficção é justamente poder ser outra pessoa. Que graça teria escrever um romance sobre mim mesmo e sobre minha própria vida? Eu já me conheço, ora bolas. Já vivo comigo o tempo todo. Já vivo a minha vida o dia inteiro. Em “Mulher de um Homem Só”, eu, homem, ateu, libertário, artista, solteiro, sem filhos, poliamoroso, quis me metamorfosear em uma mulher, conservadora, casada, dentista, mãe, católica, ciumenta. Quem é essa pessoa? Como ela pensa? De que maneira reage às situações? Para mim, a mágica do romance é justamente esse processo de descoberta do outro. De sair um pouco de mim mesmo e de entrar no corpo de uma nova pessoa.

Recentemente, o jornalista Luís Antônio Giron, da revista “Época”, afirmou que a blogosfera se tornou o “paraíso dos chatos”, à exceção de blogueiros como José Saramago, citado pelo jornalista. Seu blog tem como lema “Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.” Como conquistar espaço num lugar tão “anarquizado” como a blogosfera?

AC – Nunca imaginei que iria ver as palavras “Saramago” e “chato” na mesma frase sem ser para dizer que ele é o rei absoluto dos chatos. Sensacional. Tem mesmo gosto pra tudo. O Saramago é bom ficcionista, mas seu blog é chato, suas opiniões são chatas, ele é uma pessoa chata. Saramago se tornou aquele típico ancião ranzinza que reclama de tudo que é novo e que ele não compreende direito. Apesar de tudo, existe um mérito de ele fazer essas reclamações em um blog (ou seja, ele entrou para ver como é), ao contrário de tantos outros velhos ilustres que reclamam de tudo sem nem saber sobre o que estão falando.

O blog tem sido um sucesso, ainda mais que ele é de fato totalmente anárquico. Não tem pauta, não tem tema, segue a esmo minhas obsessões. Via de regra, o blog fica travado em um assunto enquanto eu estou mentalmente travado nele, e quando mudo de interesse, o blog muda de tema, e assim vai indo. Invariavelmente, os leitores reclamam: “se ficar falando só de casamento aberto/racismo/teatro/etc, você vai espantar todo mundo, daqui a pouco ninguém mais te lê!”, mas não percebem que a graça de um blog é justamente não ter pauta, é justamente eu poder falar do que quiser, sem rédeas, sem editor, sem manual de redação.

Então, enfim, para um blog tão caprichoso e nada focado, é impressionante o seu sucesso, ainda que bastante limitado. Hoje, o blog paga o aluguel do apartamento que mantenho no Rio, ou seja, me permite manter uma presença na cidade que amo tanto, e só por isso eu já seria grato a ele. Na prática, o blog me permitiu realizar algo que sempre sonhei: viver de escrever. Em 2005, quando saí do Rio, eu dava aulas o mês todo em uma escola e ganhava mais ou menos o que o blog me rende hoje. Isso é muito gratificante. Não me vejo como blogueiro profissional, mas como escritor. Esse é um dinheiro que ganho dos meus leitores, em função dos textos que escrevo. Ser escritor é isso.

Afinal, quem vai levar o exemplar número 0001?

AC – Foi para uma leitora da Turquia que pagou R$ 200.

Alex Castro: Um blogueiro liberal, libertário e libertino

Entrevista concedida a Paula Góes, no Global Voices Online em Português, em 7 de agosto de 2009:

1041855_6e71e07381Por trás de um dos blogs mas populares do Brasil, o Liberal Libertário Libertino, há um romancista independente, um acadêmico apaixonado e um livre pensador. Nesse papo às vésperas do lançamento da primeira edição não virtual de seu primeiro romance, projeto que só pôde ser lançado com o patrocínio de um exército de leitores de seu blog, “os mecenas da blogosfera”, Alex Castro fala de blogs, das prisões que acorrentam o ser humano de como se livrou delas para abraçar a sua vida libertária, e, claro, de seu primeiro romance, agora lançado fora da rede, Mulher de Um Homem só já muito bem conhecido por seus leitores que o baixaram mais de 30 mil vezes durante o período que esteve disponível para download gratuito.

Quem é Alex Castro?

Alex Castro é um grandecíssimo mentiroso, como todos os autores de ficção. Não confie em nada do que ele diz.

Alex Castro, em foto de Roberto Rivera: robertorivera.com/portfolio.htm

Em auto-definção no flickr, Alex Castro se diz (originalmente em inglês): Hedonista, novelista, ateísta, pedólatra. Destro, divorciado, maduro, viajado. Livre pensador, escritor, professor, pro-ativo. Foto: Roberto Rivera

O Liberal, Libertáro, Libertino está online desde 2003 e é hoje um dos mais populares blogs do Brasil. Como você entrou na blogosfera?

Vários e vários motivos. O mais engraçado é que, quando abri o LLL, eu nunca tinha lido um blog, nem sabia o que era. Minha amiga Isabel (a quem Mulher de um Homem Só está dedicado) é que ficou me pentelhando, dizendo que era a melhor ferramenta possível para um artista expor seu trabalho – e estava certa. Mais ainda, eu estava escrevendo uma série de textos chamados As Prisões, sobre as diversas prisões que acorrentam o homem, como heterossexualidade, monogamia, verdade, religião, vergonha, ambição, obediência, etc, e achei que seria legal ver quais seriam as relações das pessoas a eles. E, realmente, As Prisões tiveram, e ainda têm, uma repercussão muito legal. Além disso, eu tinha acabado de reencontrar uma antiga amiga de escola, Andreia, que tinha se tornado dominadora profissional na Austrália e vivia um casamento aberto, e levava uma vida parecida com a minha, mais libertária e mais libertina, e eu achei que alguns daqueles valores que eu e a Andreia tínhamos descoberto e praticávamos mereciam ser articulados, tinham que ser vividos em público. Na verdade, ela me fez sentir envergonhado por meu pudor público perante a vida. Então, o blog também foi um meio de discutir publicamente questões muito importantes e vitais pra mim até hoje, como amor livre, poliamor, ciúmes, monogamia, relacionamentos abertos, etc. E assim entrei na blogosfera.

O LLL gira em torno dessas prisões que acorrentam a humanidade, medo, vergonha, religião, patriotismo, felicidade, monogamia, heterossexualidade, dentre outras. Como você conseguiu se livrar delas?

Basta querer. Controle de si é tudo na vida. Quase nada na vida a gente controla mas eu mesmo, como eu reajo aos estímulos do mundo, como me coloco diante deles, isso depende de mim, sim. E, assim, aos poucos, um dia de cada vez, eu fui me tornando menos tímido, menos travado, menos humilde, menos envergonhado, menos bundão, menos preocupado com a opinião dos outros, menos medroso, menos consumista, menos careta, essas coisas. Mas é um processo consciente. Todas as forças do mundo nos empurram pra conformar com o rebanho. Então, “ser você mesmo” não é algo que venha naturalmente a ninguém, é uma luta diária. Você tem que se perguntar: “hoje, eu fui a pessoa que eu quero ser?”

Fumando, em companhia do cachorro Oliver

Fumando, companhia do cachorro Oliver.

Mas você disse para não acreditar em nada do que você diz então fica a dúvida: o Alex Castro hedonista, na prática, é um personagem?

Tenho uma pergunta melhor: e daí? Metade das coisas que eu disse nessa entrevista é mentira. Mas qual metade? Ou talvez isso que eu disse agora seja mentira e só falei sempre a verdade. Mas e daí? A verdade é que existe um livro chamado Mulher de Um Homem Só e ele é bom ou ruim independente de ter sido escrito por um homem ou por uma mulher, por um carioca ou um goiano, por um branco ou por um negro, por um adolescente ou por um velho. A mensagem das Prisões é válida ou não independente de eu ter esses valores ou não, de eu acreditar neles ou não. Vai ver eu escrevi tudo ironicamente, mas isso não impede alguém de levar o texto ao pé da letra e mudar sua vida. O texto é real, entende? Só isso importa. Eu, minhas mentiras, minhas verdades, minhas intenções, somos todos irrelevantes. Talvez a Prisão mais importante a ser vencida seja a Prisão Verdade, essa nossa necessidade quase infantil de questionar a veracidade de tudo o tempo todo. Eu sou um escritor de ficção: meu trabalho é justamente implodir a verdade. A ficção é uma mentira que, se bem dita, nos leva a verdades maiores do que a maioria das verdades que andam por aí bradando sua veracidade aos quatro ventos.

E qual a reação de seus leitores a essa vida “mais libertária e mais libertina”, considerando que foge completamente dos padrões aceitáveis no Brasil, um país ainda tão sexista? Há até uma campanha, “Eu Odeio o LLL”, com o seu aval.

odeio-1A campanha “Eu Odeio o LLL” não tem apenas o meu aval. Eu a criei e a promovi. Oras, não há porque só as pessoas que gostam de mim terem banner me linkando. Quem me odeia também tem direito de me promover! Mas, obviamente, foi uma campanha humorística, pra brincar com aquele tipo de leitor que, justamente, diz que me odeia e discorda de tudo, mas lê e comenta obsessivamente todo dia. Esses leitores me divertem muito, mas são uma minoria, ainda bem. Logo enchem o saco e vão embora, porque eu não dou corda.

Via de regra, a mensagem das Prisões acaba tocando mais dois grupos de pessoas: em primeiro lugar, adolescentes ou pós-adolescentes de ambos os sexos que estão em processo de tentar se tornar adultos, livres e independentes. Uma amiga brinca que passo boa parte do meu tempo no MSN, como Sócrates na ágora, tentando corromper “meus jovens”. E, em segundo lugar, mulheres que estão naquela famosa crise dos sete anos, que subitamente se descobrem em casamentos mornos e insatisfatórios, e que de repente querem ser livres e realizar seu potencial. Esses dois grupos representam uma parcela desproporcionalmente enorme dos leitores que me procuram, então imagino que a mensagem das Prisões é relevante para quem está nessas situações.

Alex Castro, em foto de Roberto Rivera: robertorivera.com/portfolio.htm

Alex Castro, em foto de Roberto Rivera.

Mudando para a literatura na rede, há bons blogs literários no Brasil? O que passa pelo seu seu blogroll?

Olha, eu confesso que nunca fui fã de blogs e, faz muito tempo, desencanei totalmente deles. Hoje, leio pouquíssimos blogs, e quase que só os de amigos próximos, pra saber como eles estão. Alguns bons escritores contemporâneos têm blogs, mas o blog é sempre uma coisa diferente da ficção. Até porque é difícil colocar ficção em blog. Então o blog acaba funcionando como uma ferramenta para o autor polir seu texto e construir um círculo de leitores para quem possa, depois, vender ou dar seu livro. Sinceramente, eu acho bem possível que existam bons blogs literários no Brasil. Mas eu, por deficiência minha, não conheço.

Você foi um dos pioneiros em experiência de e-books pagos no Brasil. Em que grau, na sua opinião, a internet ajuda autores e artistas independentes em geral?

A internet é fundamental, por permitir ao artista um contato direto com seu público, um contato que antes dependia de diversos mediadores: gravadoras, editoras, jornais, etc. Está surgindo um novo paradigma na arte que funciona mais ou menos assim: você distribui a sua arte de graça, para construir um público, e depois vende pra eles produtos diferenciados, raros, assinados, exclusivos, etc, do seu trabalho. De certo modo, estou fazendo isso com Mulher de Um Homem Só, que foi baixado gratuitamente mais de 30 mil vezes e foi vendido em edição limitada, numerada, na qual os leitores que pagaram mais ganharam os menores números. O exemplar número 001 foi para uma leitora da Turquia que pagou R$200 por ele.

Marcador de livro para os mecenas da blogosferaMarcador de livro exclusivo para os mecenas da blogosfera que compraram o livro antes do lançamento.

Como surgiu essa idéia dos mecenas da blogosfera para transformar o Mulher de um Homem Só virtual em edição em papel?

Mulher de Um Homem Só ficou disponível para download gratuito por 4 anos, entre 2002 e 2006, quando foi baixado 30 mil vezes. Depois disso, contratei uma agente literária para tentar vender o livro para editoras, mas ela não conseguiu nada. Nesse meio tempo, lancei vários ebooks – sabe como é, tem custo zero – e fui vendendo, mas todo mundo vinha perguntar: “ah, nao tem de papel? odeio ler na tela!” etc. O problema é que, sem uma editora, imprimir em papel custa caro, tenho que pagar a edição do meu próprio bolso e fazer tudo sozinho. E pensei, hmm, se os leitores querem tanto livros de papel, por que então não pagam por eles? Vou colocar o livro em pré-venda, quando arrecadar o suficiente pra impressão, imprimo; senão, devolvo o dinheiro de todo mundo. E foi um sucesso. Mulher de Um Homem Só vendeu 150 exemplares na pré-venda e o valor arrecadado daria para custear uma edição de 700 exemplares.

Quais as vantagens e desvantagens de publicar na internet, em vez de seguir os caminhos tradicionais?

Para mim, as vantagens foram ganhar mais dinheiro do que ganharia publicando livro como o novato patinho feio de uma editora tradicional e também um maior contato com o meu público. A grande desvantagem de não estar no caminho tradicional é a falta de visibilidade e prestígio. Eu escrevo literatura e tenho um blog, mas sou chamado de “blogueiro”. O cara que tem um livro publicado pela Rocco (mesmo que ninguém tenha lido) e tem um blog, é um escritor – que, por um acaso, tem um blog. Mas isso já está mudando.

Esse contato maior com os leitores muda de alguma forma a forma como você escreve, ou até o enredo de suas histórias, uma vez que você passa também a conhecer mais o público e a saber o que ele quer, ou você mantêm, nesse caso, uma distância para produzir exatamente o que acha que deve, sem influências do consumidor de sua obra?

Muda. Mas não do jeito que você perguntou. Não existe muito isso de dar o que o povo quer. Não sou balconista, que pergunta ao cliente o que ele quer, vai e entrega. Na literatura, o cliente quase nunca tem razão. O espírito da literatura é o da complexidade. Um bom livro te leva a lugares que você não queria ir, te ensina coisas que você não queria saber, mostra que o mundo, as pessoas, as coisas, são mais complexos do que você imaginava. No momento em que um autor de ficção se propõe a dar os que os leitores querem, ele abdicou de uma das prerrogativas básicas da arte.

Aliás, talvez seja esse um dos tão buscados limites entre literatura-dita-arte e a chamada literatura de entretenimento: na segunda, você busca entreter e dar ao leitor o que ele quer. Na primeira, não. Obviamente, na literatura, você pode perfeitamente dar ao leitor o que ele quer, mas esse não pode ser um dos critérios fundamentais da criação da arte. Em tempo: não estou estabelecendo nenhuma relação de hierarquia entre ambas. Qualquer livro policial de Nero Wolfe é melhor do que 90% da literatura-dita-arte. Resta o fato de que ambos tipos de literatura tem um objetivo e uma relação com seu leitor bem diferentes.

E, respondendo a pergunta, sim, o contato com os leitores muda tudo, mas por outro motivo. Porque o autor escreve sempre com um leitor ideal em mente, e buscando criar um efeito nele. O contato com o leitor permite medir se você está atingindo seus objetivos e ajustá-los de acordo. Os exemplos são inúmeros. Uma vez, uma leitora me disse que uma cena de um conto fazia com que ela voltasse a uma época mais simples, mais idílica, que se sentisse como se estivesse dentro do Almoço da Relva, de Manet, fazendo um bucólico piquenique num bosque à beira no Sena em pleno século XIX”. E eu agradeci a opinião, e naturalmente a leitora não estava nem um pouco errada, cada leitura é válida, mas reescrevi a cena, coloquei um celular desligado em sua bolsa e uma asa delta passando no céu, justamente para cortar esse efeito, que não era o que eu buscava. Mas, veja, a internet não tem nada a ver com isso. Esse tipo de coisa acontece desde que existe literatura.

Como você tem base nos Estados Unidos no momento, enquanto , qual é a sua visão sobre as diferenças entre os mercados editoriais brasileiros e estadunidenses? (pergunta de @emanuelcampos, via twitter)

Nem sei. Eu vivo nos Estados Unidos de maneira muito estranha. Estou lá fisicamente, mas dentro da bolha universitária, que é como se fosse outro mundo. Estudo e dou aulas no Departamento de Espanhol e Português. Boa parte dos meus colegas, todos os meus alunos, quase todos do meu círculo social não apenas falam português fluentemente como têm um forte interesse pelo Brasil. Minha pesquisa é sobre Brasil. Minhas leituras, minha ficção, meu blog, minha producão acadêmica eu escrevo em português. Minha namorada, minha família, meus leitores, estão no Brasil. Eu publico no Brasil. Ou seja, todo meu olhar é voltado pro Brasil. Não acompanho, estudo, observo o mercado americano.

Há planos de tradução para esse, ou outros de seus livros?

Um casal de tradutores, ele brasileiro e ela argentina, se ofereceu para traduzir Mulher de Um Homem Só ao espanhol. Pretendo pegar essa versão e bater perna um pouco com ela. Tenho alguns contatos nos meios editorais cubanos e adoraria ser lido por lá. E também já existe todo um mercado literário em língua espanhola nos Estados Unidos que posso procurar – e que eu não conheço! Uma versão em espanhol, a segunda língua ocidental mais falada, já abriria inúmeras possibilidades. Aliás, o brasileiro do casal é justamente o Emanuel que sugeriu a pergunta acima.

E qual o trecho que mais gosta de Mulher de um Homem Só?

Não sei se é o que eu mais gosto, mas acho que é um trecho bem representativo.

“Eu não desconfiei porque nem todos esses almoços serviam pra despontar o vício de Murilo que Júlia tinha. Eu, que me achava sua clínica de reabilitação, era na verdade sua fornecedora clandestina: ela vinha me ver e fungava cada carreirinha de Murilo que pudesse encontrar. E eu fazia o mesmo, porque um gambá cheira o outro e eu também não sou lá muito diversa. Ela me sugava o presente, e eu, o passado. Júlia sabia tudo sobre o Murilo, cresceram juntos, nunca não se conheceram. Um era a constante da vida do outro. Júlia era tão constante que me fazia sentir a variável e isso me deixava tonta, eu precisava ir ao banheiro depois: eu imaginava Júlia, amanhã, fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e sugando o futuro. E eu pensava: o juramento foi comigo, a mulher dele sou eu.”

Lançamento em SP

Amigos, no lançamento de São Paulo, alguns dos quais mecenas: Camila, Doni, Olivia.

Alex Castro: Escritor e Mindfucker

Entrevista concedida a Ismar Tirelli Neto, do Portal Literal.

Há pouco mais de um mês, o escritor Alex Castro lançou o agilíssimo romance Mulher de um homem só (Os Viralata, 2009), cuja impressão foi inteiramente custeada por leitores já familiarizados com seu trabalho. “Cidadão virtual” dos mais atuantes, Alex arrebanhou um público considerável através de seu blog e de seus e-books, e foi o esquema de “compras por antecedência” por ele bolado que acabou viabilizando o salto ao impresso.

Quanto à entrevista: os trabalhos começam comigo não pescando muito bem os dados biográficos ao fim do romance. Na edição que me foi entregue, consta que o autor é um médico vegano residente no interior de São Paulo; todas as informações googladas contradizem essa bio crassamente. Alex ““ neste momento já estamos sentados num Hiper Matte desses de Botafogo ““ me mostra, então, a edição vindoura de “Mulher…”, que termina com uma minibio completamente outra, situando o autor em Santarém, onde estaria morando com o marido. Bastante alheio à etiqueta da reportagem, exclamo nosso convidado de “mindfucker”, que é a expressão em inglês para “alguém que se compraz em zoar com a tua cabeça”. É nesse momento que começamos a entrevista propriamente dita, e mais uma vez não consigo fazer com que o gravador engate de primeira (ao que Alex comenta, pacificador: “Todo gravador é ruim, só que de maneiras diferentes. Que nem o fax. Uma tecnologia que nunca ficou boa de verdade”)

Alex Castro: … esse negócio de mindfucker tem tudo a ver com pedagogia. Eu não consigo não ser professor, estou sempre tentando ensinar alguma coisa. Principalmente quando estou te sacaneando, quando estou mexendo com a sua cabeça. É sempre pra ensinar alguma coisa; nem que seja a não confiar num idiota como eu. Também tem a ver com filosofia Zen, coisa que eu gosto muito. A filosofia Zen é mestre sacaneando discípulo até o discípulo aprender a sacanear de volta. Só depois disso que o discípulo muda de fase. A grande função da literatura é mostrar que as coisas são mais complicadas do que parecem. A gente vive num mundo muito simples, só conversamos com gente de opinião parecida com a nossa ““ basicamente, todo o mundo vive uma vida em que todos os seus inputs confirmam aquilo que você já achava. A novela confirma seus valores, a namorada pensa como você: essa é a vida normal das pessoas. A gente busca quem pensa como a gente ““ o que, aliás, é um problema quando você fica meio conhecido. Você acaba convivendo muito mais com pessoas que gostam de você do que o contrário. Se eu tenho um leitor que gosta do que escrevo e quer me pagar um jantar, é muito mais provável que eu jante com ele do que com meu primo que me enche o saco. Óbvio. Mesmo eu que não sou ninguém, às vezes chego nisso: começo a conviver com tanta gente que acha que eu mando bem que passo a acreditar. Vira um círculo vicioso, onde as pessoas com quem você anda só fazem confirmar o que você já pensava. É foda, isso. Todo o mundo, de um modo ou de outro, está preso nesse esquema. E a arte serve pra quebrar isso. Qualquer arte boa serve pra mostrar que aquilo que você achava certo talvez não seja, que aquele cara que você achava equivocado talvez tenha razão ““ basicamente, que talvez as coisas não sejam assim. E talvez seja essa a grande diferença entre a “boa literatura” e a literatura thriller, policial, entretenimento, auto-ajuda. Martela-se muito nisso, mas na verdade é uma questão muito simples: um livro de literatura não é intrinsecamente melhor do que um livro policial. Eu adoro policiais, até auto-ajuda eu leio. Mas tudo tem o seu momento: é que nem comparar um tartelette com uma picanha. Mas a grande diferença da literatura que se pretende arte é o desejo de te questionar. A literatura thriller, a literatura policial, os livros de espionagem, os livros de auto-ajuda, são cheios de peripécias ““ mas essas peripécias não questionam sua visão de mundo. Pelo contrário, são formulaicas. Não é dizer que sejam ruins, mas ler Agatha Christie não muda a vida de ninguém. Você lê Christie e tem uma fórmula lá, que você conhece e gosta, e você quer voltar para aquele mundo familiar. Você quer passar mais algum tempo com o Poirot, com o Hastings, você sabe que no último capítulo vai aparecer o primo do mordomo e que ele é o bandido, e é divertido pra caralho, mas não muda sua visão de mundo. Outra coisa que eu também falo às vezes sobre literatura é que nós estamos no business de mudar a vida das pessoas. Não no sentido auto-ajudesco, porque, como já disse, auto-ajuda não muda nada. Você pega um Paulo Coelho, por exemplo, e são livros legaizinhos de ler…

(eu faço uma cara esquisita)

Alex (prosseguindo): Não são livros horríveis, tem historinha e tal; só não é Kafka. Você lê e aquilo confirma tuas idéias, teus valores, a noção que você tem do que era pra ser. A literatura que se pretende arte visa te mostrar que as coisas não são assim, que o mundo não é como parece, visa questionar um pouco teus valores e mudar, de fato, a tua vida. A questão da linguagem também tem parte nisso (de nada ser tão simples quanto parece). Por exemplo, o Biajoni, que escreveu Sexo anal (Os Viralata, 2007) e é um grande amigo meu, escreve uns livros meio pulp, com uma linguagem bem do dia-a-dia. São livros incríveis, mas eu acho que tem muito lugar-comum. E ele fala exatamente o contrário do meu livro: adora, mas acha que a Carla ““ a narradora/protagonista ““ não fala como uma “dentista”, ela usa uma linguagem diferente. E isso é parte integrante do meu projeto estético. O livro não é para ser realista. Ela já está falando mil lugares-comuns; que a linguagem não o seja também. Que a linguagem lembre a você o tempo inteiro que você está num livro. Houve um esforço de depurar da Carla tudo o que ela não falaria; todos os intelectualismos. A maioria dos neologismos, por exemplo, nasceram lugares-comuns. Eu sublinhava cada lugar-comum que ela falava e ia mudando. Por exemplo, em dado momento ela fala que “família é tudo farinha do mesmo saco”, e eu troquei por “família é esgoto do mesmo cano”. Eu fiquei um ano retorcendo a linguagem, tirando tudo o que me soava como expressão feita. É a diferença da pintura para uma foto: quando você vê um quadro pintado de uma maçã, tudo ali é encarado como escolha. Mas quando você vê uma foto de uma maçã, é muito mais fácil se distrair e atravessar a foto, vendo só o objeto. Você esquece que a maçã não está ali por ato divino; ela foi escolhida, assim como o ângulo. O fotógrafo fez praticamente todas as escolhas do pintor, só que elas não estão evidentes. A foto é documentário, e documentário é a coisa mais traiçoeira do mundo. Você esquece que a foto é uma construção humana e artística. Uma pessoa distraída pode tomar aquilo como verdade, como acontecido. O quadro não permite isso, porque ele se força como quadro, como construção. A mesma coisa vale para a linguagem literária, e é essa a discussão que eu tenho com o Biajoni. A linguagem literária, quando é muito natural, torna o livro transparente: você vê os personagens como se estivessem vivos. Eu não quero isso; eles não existem, nunca existiram, nunca vão existir. Existe o livro; uma coisa una, fechada. E cada notinha, cada biografia, tudo faz parte do livro. E se você se vê forçado a questionar até a biografia do autor, ou até o aviso de que o livro foi baseado em fatos reais, então aumentam as chances de você questionar a Carla, e de questionar a sua vida. A obra de arte exige ser vista como uma coisa só. Ela não deixa você passar batido por ela. Isso só para falar do objeto-romance, sem nem entrar na intriga. Uma coisa que eu acho sensacional é que, grande parte dos elogios que me fazem são calcados no realismo: que Carla é muito real. E eu sempre pergunto: “mas isso é bom?”. Usar isso como elogio presume que a função da literatura é ser real, e quanto melhor você recria a realidade, melhor é o livro. Mas não é isso.

I: Não faz sentido, historicamente, um livro que faz-de-conta que não é livro.

Alex: Mas a maioria dos livros é assim, hoje em dia. As pessoas ainda estão numa mentalidade século XIX, em termos de narrativa, porque a maior parte dos livros consumidos são isso: historinhas. É Harry Potter. E eu acho o máximo, li os sete livros empolgado. Mas é uma narrativazinha linear século XIX ““ Dickens poderia ter escrito Harry Potter. Então, para a maioria das pessoas que não tem muita sofisticação literária ““ e falo disso não como um problema; a literatura é linda porque cada um lê o que pode, como quer e do jeito que quer ““ mas pra quem ainda está preso num modelo século XIX de literatura, só vai existir a historinha. Outros leitores mais “pós-modernos” conseguem ir um pouco mais fundo, desconstruir mais um pouco. O que eu acho importante, do ponto de vista literário e pedagógico, é o livro se permitir ser lido de maneiras diferentes. Ulisses [de James Joyce] é legal, mas é ilegível como historinha. Se você só quiser saber como foi o dia do Bloom, não vai encontrar isso lá. Para um livro ser mais acessível, e atingir mais pessoas, ele deve permitir uma leitura sem sofisticação. Um leitor que quer uma historinha com começo, meio e fim, ele vai passar pelo livro sem nem perceber que não viu alguma coisa; ele não vai se achar burro. É chato ler um livro mais esperto que você. Eu não quero que meu livro seja mais esperto que ninguém. Se você quiser uma historinha de triângulo amoroso, ela está lá no meu livro, e quase todo mundo vai ler assim mesmo. É imprescindível para mim que não seja só isso. Assim, o livro oferece mais a quem quer mais, a quem consegue ver mais. Nesse ponto, uma amiga minha falou que o Mulher… é um romance do não-dito, a história de verdade deve ser colhida pelas bordas. Mas voltando: a literatura de entretenimento visa a entreter, sem necessariamente mudar os teus valores. Mas num livro como o meu ““ que se pretende arte ““ a primeira coisa que se deve entender é que a ficção é mentira. É mentira o tempo todo. Mentira, mentira, mentira. E eu sou um mentiroso profissional. Não vou ser pego falando a verdade, e por questão de método, de princípio. Eu quero que o leitor veja que não se pode confiar na ficção. A ficção te livra da barreira do real, então você pode se concentrar na mensagem de modo mais puro ““ você não precisa ficar se perguntando se aquilo aconteceu de fato, nem como. Você pode se dar ao luxo de não questionar os fatos porque sabe que os fatos são mentirosos ““ você pode se concentrar na mensagem. Aquele negócio, cara: a Bíblia é meu livro preferido, mas pra mim é pura ficção. E não interessa. Aquela ficção da Bíblia passa mil mensagens geniais, mesmo pra quem é ateu como eu. Jesus é um puta personagem; Paulo é quem fode com Jesus. Aliás, o Novo Testamento é ridículo. Metade é Jesus sendo incrível e a outra é Paulo desmentindo tudo o que você acabou de ler, cara! O Paulo reinterpreta tudo!

I: Mas taí, a questão da ficção como algo muito pouco confiável por natureza. Entra o Paulo, e você tem toda uma outra versão dos fatos.

Alex: Bom, o Novo Testamento é o quê? Você tem os quatro evangelhos e os Atos dos Apóstolos. Esquece “verdade”. Esses 5 livros… como literatura, são sensacionais. Tem sangue, morte, sexo, é muito legal. Mas aí depois, entra o Paulo reinterpretando tudo aquilo com as cartas. O Paulo falava de casamento e família, mas Jesus mandava todo mundo largar tudo, não casar, mandar a mãe à merda (Jesus era super cavalo com Maria). É incrível. É uma aula de crítica literária. Você tem um livro foda, e depois do livro, você tem 20 apêndices em que um crítico literário de MÁ-FE reinterpreta aquilo tudo do avesso. Aí, no final, chega o Apocalipse e fica genial de novo. Mas voltando ao Mulher de um homem só, esses avisos estão presentes no livro, em parte, para fazer com que o leitor comece a questionar sua própria expectativa desde o início: inclusive, a expectativa de veracidade no que tange à biografia do autor. A biografia do autor é irrelevante. Cada edição do meu livro leva uma biografia diferente, e o livro é o mesmo. A mensagem do livro ““ se existe alguma ““ é a mesma; a qualidade do livro ““ se ela existe ““ é a mesma; então, foda-se se o autor é gay, de Santarém, negro, branco, casado. Eu tenho até feito dedicatórias apócrifas, inventando histórias para cada leitor. Por exemplo, “Ao Ismar, meu querido amigo, nunca esqueço aquela nossa virada no vôlei contra seus primos em Maricá. Foi sensacional! Abraço, Alex”. Não só é engraçado ““ e me manteve são durante a noite de autógrafos, porque foram umas duzentas dedicatórias ““ como mostra que é um livro de ficção. Nada é pra ser de verdade. E daí que não é verdade? Até a dedicatória é falsa. Tudo é falso.

I: Você fala em “História do livro” [pósfacio de Mulher de um homem só] que brincou alguns anos com a idéia de narrar a história ou pelo Murilo, personagem inspirado em você mesmo, ou pela Júlia, personagem inspirada por uma amiga sua muito próxima; mas acabou optando pela Carla como narradora porque os outros dois personagens já lhe eram bem próximos. A ficção é, de fato, “pra gente ser outras pessoas”?

Alex: Bom, essa é a graça. Eu sou psicanalisado…

I: Quanto tempo?

Alex: Nove anos.

I: Que delícia.

Alex: Recebi alta do Collor, em 90, desde então não voltei mais. Mas como eu dizia, eu sou bem tranqüilo com o que eu sou. Eu sou bem resolvido, sei o que eu quero. Eu atormento os outros. Mas não sinto necessidade de me retrabalhar na ficção. O blog é o espaço do Alex cidadão ““ mesmo sendo um pouco ficcional. Mas é lá que eu trato de mim mesmo. É uma escrita fácil, simples, rápida: uma escrita de momento. Em ficção, a graça ““ pra mim ““ é ser outra pessoa, senão não faz muito sentido. Via de regra, muita gente anda fazendo livro sobre si mesmo. Eu até acho possível que o leitor tenha interesse na minha vida ““ aliás, no blog, eu fico chocado com o quanto as pessoas querem saber da minha vida ““ mas eu não tenho. Se eu fosse escrever um livro sobre mim, eu certamente perderia o tesão no meio do caminho. Eu me conheço. Eu já estou razoavelmente tranqüilo com o que eu sou.

I: Isso deve irritar as pessoas um bocado.

Alex: Bastante, é insuportável. Mas é divertido, também. As pessoas levam a minha vida no pessoal. Mas voltando à ficção, ao passo que eu conhecia mais ou menos o Murilo e a Júlia, havia lá uma mulher que eu não conhecia. A Carla não é como ninguém que eu conheço. Ela foi criada. E esse processo é o mais legal: ir conhecendo a personagem aos poucos, compor uma voz, descobrir o tipo de reação que ela teria. Todo autor é narcisista, mas o meu narcisismo é um pouco diferente ““ eu estou no romance, um pouco no Murilo e um pouco na Júlia, mas esse olhar sobre mim é externo; é a Carla, que sacaneia mil coisas minhas que estão no Murilo e na Júlia. Então, é também um exercício em tentar imaginar como as pessoas me vêem. Ser outra pessoa, e ao mesmo tempo, entender como me vêem. O narcisismo autoral entra nesse momento. Mas o livro não é sobre mim; é sobre ela. Só que em algum momento ela olha pra mim e me dá umas cutucadas.

I: O que acho incrível é que o discurso da Carla é violento, mas, ao mesmo tempo, totalmente senso comum. É um discurso de quem está completamente envolvido com as prisões que você ataca no seu blog: a heterossexualidade, a monogamia, a religião.

Alex: Sim, mas só me interessa porque não é meu. As pessoas que se conformam me fascinam; eu nunca consegui ser assim. Então, me interessa saber quem é essa pessoa, como é que alguém se torna isso. Se eu fosse escrever a história da minha vida, ia ficar mais ou menos como Trópico de Capricórnio [romance autobiográfico de Henry Miller, seqüência de Trópico de Câncer. Publicado em 1939, há uma edição recente no Brasil da José Olympio, de 2008], só que não tão bom. Quem quer ouvir mais um autor pseudomarginal, pobre, que fuma, que bebe, que transa… entendeu? É minha vida, mas não acho que seja boa literatura.

I: Você nota uma progressão na sua literatura, então, no sentido de estar cada vez mais externado de si mesmo, cada vez menos autobiográfico?

Alex: O blog me permitiu um espaço para falar da minha vida, e por causa disso, agora posso explorar coisas muito mais legais na minha ficção. Voltando ao senso comum da Carla ““ eu estou fazendo uma outra história agora protagonizada por uma mulher bem senso comum, e todas as pessoas para as quais mostrei o conto a odiaram. Mas a Carla, não. Há um grupo de leitores que incorpora totalmente o discurso da narradora.

I: “Compram sem nenhum questionamento”.

Alex: Sim, e acham que o romance é isso. Mas o romance foi feito para poder ser lido em camadas. O leitor tira o que quer, e isso é marca de uma literatura que se pretende arte. Um livro da Christie só pode ser lido de um jeito; não há três leituras possíveis de O assassinato no Expresso Oriente [de Agatha Christie, lançado em 1934]. O meu livro pode ser lido em vários níveis, dependendo do grau de sofisticação, de saco, de tempo. Uma leitura possível é essa: uma mulher fala a respeito duma cretina que invade seu casamento. Mas muita gente vai pro lado oposto, e pensa que Carla é uma mulher louca, obsessiva, doentiamente ciumenta. São pessoas que gostam de desconstruir a linguagem, e vão buscando os buracos no discurso. Pra mim, é muito interessante lidar com o discurso do senso comum, pelo fato de que a Carla nunca tem nada de muito concreto a dizer contra a personagem da Júlia: ela é só uma artistinha maluquete, como todo artista. Quando você pára e pensa, as críticas de Carla em relação à Júlia são todas muito vazias, não são nada de sério. O que eu tentei fazer foi um romance aberto para todas essas possibilidades de leitura.

I: Eu estou me reportando muito ao “História do livro”, porque eu achei muito interessante, além dum puta golpe de teatro, isso de terminar um livro com um histórico extremamente minucioso da feitura do mesmo. O que você pretende com essa abertura toda, e com essa tentativa tão sôfrega de diálogo com o leitor, se você trata toda a ficção como mentira… ? Não como mentira, bom…

Alex: Como ficção mesmo. Que é o nome chique pra mentira.

I: Eh, bom.

Alex: Sempre me chamam de fofoqueiro, e eu respondo: “eu prefiro o termo técnico: jornalista”.

(risos)

Alex: Bom, pra começar, tem dois escritores ““ o Stephen King e o Isaac Asimov ““ que eu amo e que faziam isso. Foi algo importante na minha formação porque permitia uma visão por dentro do método. Nos livros desses autores, quase sempre você encontra um prefácio, ou posfácio, ou apêndice, alguma coisa em que eles falam sobre como fizeram o livro, contando mil histórias ótimas ““ não só sobre a criação da história, mas sobre como a história se inseria em sua vida pessoal. Pra mim, como adolescente que queria escrever, isso era muito importante; porque me dava um insight na vida “real” das pessoas. Ou pelo menos na vida que elas queriam passar para os leitores; eu não acredito em nada, mas também não desacredito. Acho isso importante. Você nunca vai me ouvir dizendo “isso é mentira”, mas isso não significa que eu esteja comprando. Eu escuto, pronto. Acho que a língua perde por não ter um verbo que signifique “nem acreditar, nem duvidar”. Eu ouço, eu registro, tá bom. A outra coisa que aconteceu ““ um efeito bem legal, causado pelo blog ““ foi uma certa proximidade. Eu me senti próximo dos leitores. A conversa no final do livro é quase como um segredo entre o autor e o leitor. O Asimov ““ bom, eu sou um cara frio, acho meio ridículo quando as pessoas se comovem quando morre uma celebridade que elas nem conheciam ““, mas até hoje, a morte que eu mais senti de alguém que eu não conhecia foi a do Asimov. Porque eu achava que o conhecia. Só quando ele morreu que eu percebi a enormidade da minha relação pessoal com o Asimov, construída ao longo de 10 anos lendo uma obra repleta de avisos autobiográficos. Isso foi importante, acho legal passar adiante. E o blog reforça isso. Mas é algo mais meu; tenho vários amigos que têm blogs muito famosos mas que não têm isso. Eu sofro isso porque meu blog é confessional. Então as pessoas acham que me conhecem. No blog, a verdade é editada, para não causar mortes, suicídios e assassinatos (o meu, principalmente). E as pessoas acham que me conhecem muito bem, que têm uma relação íntima e profunda comigo. E isso é ótimo. Não fosse por isso, meu livro não teria tido o sucesso que teve. Mas tem a contraparte, eu tenho que lidar com muito maluco. Sabe, eu me achava próximo do Asimov, mas se eu encontrasse com ele na rua, não me comportaria como se fôssemos amigos de infância. Algumas pessoas, só pela leitura do blog, passam a esperar que eu me comporte como amigo delas também, e começam a fazer cobranças do tipo “você nunca mais falou comigo”. Não é que eu não goste dessa pessoa, mas eu não a conheço, não tenho assunto. Se a pessoa quiser falar comigo, não tem problema. Meu telefone está no blog. Anteontem me ligou uma leitora de Salvador…

I: Meu Deus…

Alex: Mas é maravilhoso, isso! Ligou onze da noite, pra dizer que o livro chegou e ela leu correndo. Falou do envelope acolchoado, do marcador de página exclusivo. Ela se sentiu muito próxima, muito incluída. Mas essa coisa de fazer exigências que eu não posso cumprir, isso acontece com gente perturbada, que não consegue fazer esse jump; pessoas que não percebem que me conhecem mas eu não as conheço. Em suma, o objetivo desse posfácio é não só iluminar o método (isso eu falo como estudante de literatura), mas também porque o livro é um case de marketing interessante. Pode ser que outras pessoas queiram fazer igual, por isso é interessante explanar. Mas o que mais me interessa é abrir o diálogo, para que o leitor se sinta próximo a mim. Mostrar o método e criar uma ponte de diálogo com o leitor, para ele entender como funciona a fábrica de salsicha; e, de certo modo, para o leitor se achar mais íntimo, se lembrar mais de mim, e amanhã comprar outro livro. É todo um processo de criação de nome, criação de marca. Mesmo que o cara escute falar de você hoje e não compre, amanhã vai que ele se lembra? A prima leu, recomendou, por aí vai. É um processo lento, dura a vida inteira. Mas o que os leitores me falam um bocado, e que eu acho fascinante, é que eles me acham especial. Ora, ninguém se acha especial. Tem momentos que eu me acho foda, outros que eu me acho um merda ““ mas eu nunca me achei especial. Elas falam que eu me tornei especial para elas, e o livro também, porque elas já me acompanham, já me conheciam do blog. E todo esse método ““ de vender “ações” do livro pela internet, num esquema de mecenato ““ é uma coisa única, e elas queriam fazer parte desse único, queriam poder dizer “eu ajudei, eu comprei antes”. Eu fiquei muito fascinado, porque eu achava que as pessoas iriam me ajudar, pensando “bom, eu leio o Alex de graça todo dia, ele está lançando livro, posso descer dez reais e cooperar”. E outra coisa: se a pessoa vai comprar o livro de qualquer jeito, compra logo antes, para que eu não precise tirar do bolso um dinheiro que não tenho, senão eu fico com um problema de liquidez sério. Sabe como é a nossa vida, nunca tem dinheiro. Nunca tem mil reais dando sopa no banco.

I: Nunca tem 10 reais.

(risos)

Alex: Então, tem isso. O apelo da conveniência, e a ajuda dos amigos. Não achei que fosse ter esse efeito. Eu não previ essa vontade que as pessoas tiveram de “fazer parte”. Como disse, nunca me imaginei um sujeito especial, não pensava que as pessoas achassem minha vida tão legal a ponto de querer fazer parte dela, pagar por uma ação desse empreendimento. Foi muito legal, talvez a coisa que mais me surpreendeu. As pessoas queriam se sentir incluídas no processo.

I: Bom, todo o mundo que te entrevista fala muito sobre sua relação com a internet. Eu não quero falar sobre isso.

Alex: Graças a Deus.

I (falando sobre isso): Mas no seu blog você parece exercitar uma verve mais polêmica, e tal.

Alex: Cara, pelo contrário. Eu nunca entro em polêmica. As pessoas falam besteira no blog e eu ignoro. Acho muito chato esse negócio de debater, nunca leva a lugar nenhum. Eu dou a minha opinião e pronto. Aí os leitores ficam se pegando, falando mil bobagens. O máximo que eu faço é voltar para fazer um esclarecimento. Mas eu nunca respondo, nunca contra-argumento, não leva a lugar nenhum.

I: E a sua atuação no meio acadêmico?

Alex: Acho o meio acadêmico muito chato. Não falo pra ninguém que faço doutorado.

I: Eu não vou editar isso. Compõe o personagem.

Alex: Pqp. Todo doutorando que eu conheço, via de regra, é mala. Eu só sou doutorando porque foi a única maneira que consegui de ganhar dinheiro com literatura. Ser pago para ler e escrever sobre literatura. Mas não acho que seja isso tudo. E como autor, é complicado você passar a vida escrevendo sobre o livro dos outros. Cada vez que escrevo sobre o livro de alguém, eu me sinto meio loser de não estar usando esse tempo para escrever o meu. Então, por um lado, é muito bom viver de literatura ““ olha que lindo, eu sou pago para ler romances, mandar voluntários ler romances, chegar de manhã cedo e discutir com esses voluntários, e se me der na telha, escrever alguma coisa sobre o romance. É bem gostoso pra mim, apesar de mil coisas pentelhas, como em qualquer trabalho. Agora o doutorado está acabando e eu não sei bem o que fazer. Não sei se sigo carreira acadêmica, se fico lá nos EUA, se volto para o Brasil definitivamente.

I: Mas a gente pode esperar novos livros, não?

Alex: Então, eu estou escrevendo um livro chamado Empregadas e escravos, fruto direto dessa minha ida para os EUA: vários episódios coordenados lidando com as nossas relações sociais escrotas. Outro que quero fazer se chama Rio: Cidade aberta. Que é sobre o estado do Rio ““ se tem salvação, se é melhor sair, se é melhor ficar. É uma coisa que todo carioca pensa muito. Quem vai, quem foi. Minha namorada tem um ditado ótimo, por exemplo: “São Paulo é como a morte. Um dia chega”. Todo carioca, em algum momento, arranja emprego em São Paulo.