sangue e morte na noite de natal – um conto de terror

6 setembro, 2011 § 2

I

A Fantasia

SEU NICANOR APERTOU O máximo que pôde a barriga.

— Força, Nicanor! — Disse dona Gracila — Está quase entrando!  Só mais um pouquinho!

— Se eu respirar, essa calça arrebenta!

— Sshh!  Pronto, entrou!

— Tudo pelos netos! — Ele disse, suspirando.

— Agora falta a barba.

— Por que você não me arranjou uma fantasia maior, hein Gracila?

— Foi só o que eu consegui, assim de última hora.   Fica quieto, senão a barba não pára no lugar.

— Tá pinicando. — Ele reclamou.

— Tudo pelos netos, você mesmo quem disse.

— Tudo pelos netos! — Ele repetiu.

— Os meninos vão adorar, Nicanor!

— Grande consolo…

— Está perfeito.  Não falta nada.  Você se lembra de tudo?

— Claro.  Não posso respirar fundo, senão a calça rasga.

— Não é isso!  Assim que eu bater na porta, você sai pelo quintal, sobe até o telhado, bota a escada dentro da chaminé e desce.  Entendeu?

— Perfeitamente.

— Então tchau.

Saiu e foi pra sala com o resto da família.

Seu Nicanor, cansado da batalha contra a roupa, pegou a Manchete da semana que estava jogada em um canto e começou a folhear a revista.  Passou direto pela reportagem de capa, sobre os crimes do natal.

O artigo listava vários casos acontecidos no natal passado e, como estes permaneciam insolúveis, se perguntava se eles voltariam a acontecer este ano.  Dentre eles, o mais pacífico era o do assaltante que se fantasiava de Papai Noel para invadir casas e roubá-las, e o pior, o do louco não identificado que chacinava qualquer um fantasiado de Papai Noel.  Nos últimos anos, dezoito Papais Noéis haviam sido mortos.

Mas para seu Nicanor, o natal não é época de se pensar em crimes.  Pulou a tal reportagem e começou a ler outra, ilustrada com fotos coloridas, sobre o natal em Copenhague.

Suspirou.

 

 

II

A Chaminé

Sobre a mesa, as rabanadas estavam no fim, devoradas pelas crianças.  Os adultos, em sua maior parte, se concentravam nos bolinhos de bacalhau e nas frutas gordurosas.  O peru, o pernil e o presunto, segundo ordem inabalável de dona Póvoa, eram proibidos até a meia-noite.

Seu Heliberto, o dono da casa, perguntou para a esposa se o Papai Noel ainda demoraria muito.

— Não sei de nada. — Respondeu dona Póvoa — Mamãe é que está cuidando disso.

Dona Gracila, vinda dos quartos, foi capturada por seu Heliberto:

— Tudo bem com seu Nicanor? — Ele perguntou.

— Tudo.

— Como é que ele vai descer pela chaminé?

— Usando a escada.

— As crianças não vão ver a escada?!

— Não se a gente ficar em frente à lareira.

— Ah, entendi… — Consultou o relógio — São onze e quarenta.  Está ficando tarde…

— O Nicanor vai descer às dez pra meia-noite.  Ele só está preocupado se a lareira não está suja por dentro.

Seu Heliberto riu.

— Não tem problema nenhum.  O Ladislau limpou ela anteontem.  Eu verifiquei!

— Maravilha então!  Vai dar tudo certo, com certeza.

 

 

III

O Retrato

— Pára de enfiar essa mão cheia de dedo por debaixo da minha saia, por favor!

— Ah…

— Eu grito.

— Tá bom!  Tá bom!  É que eu não aguento te ver assim!

— Se não aguenta, avisa que eu vou embora.

— Fica.  A festa está boa.

— É que eu não conheço ninguém, Beraldo.

— Eu  não sirvo?  E é melhor que passar o natal na sua casa.

Fréia parou um pouco para pensar em seus pais, mas não muito, para não estragar a noite.

— Tem razão. — Concordou, de cabeça arriada.  Depois, mudou de assunto: — De quem é aquele quadro ali na parede?

Beraldo estava esperando a pergunta.  O quadro brilhava sob o luar, que o atingia em cheio, ficando ainda mais imponente.

— É o meu bisavô, Pompílio.  Foi ele que construiu essa casa aqui em Capivara, muitos anos atrás.  Depois ela passou pros meus avós, e quando morreram, ficou com meus tios.

— Ele tem uma cara estranha, não é?  Parece meio mau… — Na verdade, o que Fréia queria dizer é que era um dos quadros mais assustadores que ela já vira.

— Deve ser por causa da maldição… — Deixou escapar Beraldo, assim como quem não quer nada.

— Maldição?! — Exclamou Fréia, bem feminina.  Ele teve vontade de agarrá-la ali mesmo, mas era melhor acabar a história primeiro.

— Ele não gosta de gente demais na casa dele.

Fréia olhou em volta.

— Como hoje?

— Como hoje.

— Mas aí o que acontece? — Fréia, em um gesto inocente, colocou a mão na coxa dele.

Beraldo sorriu.

— Ele sai do quadro e alguém morre.

— Isso já aconteceu antes?

— Não sei, talvez sim, mas há muito tempo. — Disse ele, puxando no suspense — Meus avós estavam dando uma festa barulhenta, gente falando alto, tumulto etc.  O bisavô se irritou, saiu do quadro e um dos convidados, quando viu o retrato vazio, teve um ataque cardíaco e morreu — o que acaba com qualquer festa.  Missão cumprida, o bisavô voltou para o quadro e há quem diga que ele estava sorrindo e com os olhos brilhando…

— Ainda bem que ninguém está fazendo barulho.

— É.

— Dá pra tirar essa mão da minha coxa, por favor?!

 

 

IV

O Marambaia

— Ai, — Disse dona Póvoa, calçando as luvas — estou preocupadíssima com o Heliberto.  Não consigo nem dormir direito!

— Como assim? — Perguntou dona Sena.

— É esse trabalho de maluco dele! — Desligou o forno — Acho que ele se dedica demais, e acaba se metendo em confusão…  Estou morta de medo!

— O Heliberto sabe se cuidar, Póvoa.  Ele é muito responsável.

— Não é isso, Sena! — Tirou o arroz à grega do forno e passou-o à cunhada — É esse Marambaia que me apavora!

— Marambaia?

— Você não lembra, menina?!  Aquele psicopata horroroso que matou a família toda a golpes de pá, e que o Heliberto condenou!

— Ah!

— Pois você acredita que o homem fugiu da prisão?!

Dona Sena estremeceu e quase deixou cair a jarra de sangria que estava segurando.

— Eu não li nada—

— A polícia quis manter o assunto fora dos jornais pra não apavorar a população, mas o Heliberto foi informado através da promotoria.  E ainda recusou a proteção policial!

— O Marambaia não tinha jurado se vingar do Heliberto?

— Sena, você acha que eu estou preocupadíssima por quê?  Ele disse que ia pegar o Heliberto e arrancar todos os seus dedos das mãos e dos pés a dentadas.  E nós temos crianças aqui e tudo!  Como é que ele me recusa a proteção policial?!

Dona Sena se recostou na pia da cozinha.

— Agora quem está nervosa sou eu!

 

 

V

O Caxambu

Tacinho veio pulando para cima de seu tio.

— Tio Beto, cadê o Caxambu?

Ele sabia que a pergunta era inevitável.  O sobrinho sempre fora afeiçoado ao cachorro e não iria deixar de notar sua ausência.  Tentou explicar:

— O Caxambu foi embora, Tacinho.  Pro céu dos cachorros.

— Embora?

— É.  Ele estava cansado e precisava descansar um pouco.  Papai do céu chamou ele.

— Mas eu queria tanto ver o Caxambu!

— Não fica triste não, Tacinho.  A gente compra outro cachorro igualzinho ao Caxambu.

— Eu não quero outro cachorro.  Eu quero o Caxambu.  Ele é meu amigo.

Antes que Heliberto soltasse mais uma pérola da psicologia infantil, Beraldo se interpôs entre o tio e o irmão:

— Mamãe tá te chamando lá na cozinha, Tacinho.

Feliz em se esquecer do cachorro fora de seu alcance, Tacinho trotou até a cozinha.

— É verdade que o Caxambu morreu? — Perguntou Beraldo, quando seu irmãozinho estava longe.

— Encontramos ele no quintal ontem de manhã.

— Poxa, que chato.  O que foi que houve?

— A gente acha que uma onça pegou ele.  Sabe como é, os fundos da casa dão pra floresta e às vezes aparece uma.  O Caxambu estava todo estraçalhado no quintal, meio comido até.

— Que horrível!

— Tinha umas pegadas em volta, marcas de garra, mas os fiscais do Ibama disseram que era grande demais pra ser de onça.  Havia tufos de pêlo preto por todo lado também, só que como o Caxambu era bem branquinho, isso complicou ainda mais a situação.  O pior é que outros bichos foram atacados pela redondeza nos últimos dias e ninguém sabe o que pode ser…

Beraldo, entristecido pela perda do cachorro de que também gostava, foi se debruçar na janela da casa e ficou ali, admirando a lua cheia que brilhava no céu.

 

 

VI

O Homem no Quintal

Seu Nicanor, ainda lendo a Manchete e suando dentro da sua nada tropical fantasia, ouviu as batidinhas na porta do quarto.  Era a sua deixa.  Saiu correndo pelos fundos da casa.

O homem que estava no jardim, surpreso pela súbita aparição do Papai Noel, se escondeu atrás de uma árvore.  Observou seu Nicanor com atenção enquanto este arrumava o saco de presentes em suas costas e começava a subir a escada em direção ao telhado.

Com cuidado para não ser visto pelo velho, o homem se aproximou cauteloso da escada e quando Papai Noel estava quase lá em cima, o homem segurou-a com firmeza e começou a balançá-la.

 

 

VII

Os Brincos

— Quer parar, por favor, Beraldo?!

— É que você tem uns pezinhos tão bonitinhos…

— Faz cócegas e eu não gosto.  Que mania!

— Bem, — Disse ele — você acabou encontrando com o seu pai hoje?

— Eu não queria não, mas é véspera de natal e não teve jeito de fugir.

— Quando é que vocês vão resolver esse problema?

— Pelo visto, nunca.  Agora, depois que tudo mais falhou, ele está tentando me comprar.

— Como assim?

— Precisa ver o presente que ele me deu hoje. — Afastou os cabelos para que Beraldo pudesse observar o lóbulo de sua orelha.

— São brincos lindos!  Devem ter custado uma nota!

Ela fez cara de desprezo.

— Vê-se logo que você não conhece meu pai.  Eu sei bem a história desses brincos.  Li sobre eles na Marie Claire.

— História?

Levantou de novo os cabelos:

— Apresento-lhe os famosos Brincos Dourados da Morte, como foram apelidados pela imprensa marrom brasileira.

— Acho que eu ouvi falar.  Não é aquele que todos os donos— Se calou de súbito.

— Pode dizer, eu não tenho medo.  Todos os donos morrem violentamente.  E agora… são meus!

— Tira isso, Fré!

— E você ainda fala que custou uma nota!  Será que meu pai acha que não leio jornal?!  Ontem foi o leilão do espólio da última dona desses brincos, que teve a cabeça esmigalhada em um acidente de bicicleta.  Ninguém quer essas porcarias, vai ver pagaram pro meu pai levar eles embora!

— Tá bom, tá bom, agora tira esse troço!

Fréia riu para ele:

— Ora, ora, se não é o mesmo Beraldo que quinze minutos atrás estava tentando me assustar com uma história ridícula sobre um homem que sai de um quadro…

— É verdade! — Insistiu ele.

— Pois eu vou provar que a maldição do brinco não é!  Só de pirraça!  E também, — Acrescentou em um tom de voz meigo, mas cheio de amargura — não seria certo deixar de usar o presente de meu querido “papai”…

 

 

VIII

O Jardineiro

— Quem está aí?! — Perguntou seu Nicanor, assustado com os sacolejos — Não tem graça nenhuma!

— Ô seu Nicanor, sou eu, Ladislau, o jardineiro.  Tava vindo do Bar Bitúrcio pra desejar feliz natal, vi o senhor aí, nessa fantasia, e quis pregar um susto.  Desculpa.

— Tudo bem, Ladislau.  Natal é natal, tem que perdoar.  Feliz natal pra você e pra sua família.

— Pra sua também, seu Nicanor.  Os netos é que vão gostar da fantasia, hein?  Mas não está muito quente pra esse tipo de roupa, não?

Papai Noel balançou a cabeça em afirmação e exclamou, mais uma vez:

— Tudo pelos netos!

 

 

IX

O Papai Noel

A escada desceu pela chaminé com o maior cuidado para não fazer barulho.  Em frente à lareira, seu Heliberto, dona Póvoa e dona Gracila conversavam sobre política, enquanto dona Sena, Beraldo e Fréia, do extremidade oposta da sala, tentavam distrair as crianças e fazê-las olhar para o outro lado.

Então, com um ruído seco, Papai Noel chegou.

Por um segundo ele ficou ali, imóvel, sem dizer uma palavra, e dona Gracila, tensa por causa de certos artigos no jornal, também se calou, fazendo o silêncio reinar na sala.

Meu deus!, ela pensou, não é o Nicanor!  Esse Papai Noel não é o meu marido!

Dona Gracila estava prestes a gritar para todos a apavorante verdade quando o bom velhinho piscou para ela, soltando sua inconfundível pigarreada.

Era mesmo seu Nicanor, pensou, aliviada, enquanto as crianças avançavam ferozes em direção a ele.  Chegaram perto, o abraçaram, puxaram sua barba e sentaram em seu colo, maravilhadas.

Lelinho, o mais velho, chegou a comentar, de maneira meio suspeita:

— Pena que o vovô não está aqui, não é?

 

 

X

A Metralhadora Laser

Era a hora dos presentes.  Dezinha, de três anos, ganhou um cone de pano que quando apertava, fazia desabrochar um palhaço.  Tacinho, de sete, ganhou uma metralhadora laser, que ficava vermelha, soltava faíscas e fazia um barulho infernal.  E Lelinho, de oito, ganhou um boneco de algum super-herói japonês para a sua enorme coleção.

Depois das crianças, foi a vez de Papai Noel entregar os presentes dos adultos.  Beraldo recebeu dois CDs e Fréia, uma agenda.  Dona Póvoa ganhou um novo liquidificador e seu Heliberto, uma gravata de seda.  Dona Gracila recebeu um belíssimo livro de arte sobre os impressionistas e seu Nicanor, um par de meias de lã in absentia.

— Tudo bem, Beraldo? — Perguntou Fréia.

— Claro, claro. — Ele estava com os olhos fixos no retrato do bisavô, enquanto Tacinho fazia a maior barulheira possível com sua metralhadora laser.

Será que de tanto contar essa história, ele acabou acreditando?, pensou Fréia.  Então, percebeu que os olhos do bisavô tinham começado a brilhar.

Sufocou um grito e agarrou o braço de Beraldo, que também estava hipnotizado pela cena.  No quadro, a figura do bisavô ficava cada vez mais fraca, quase sumindo.

— Pára com essa barulheira, Tacinho! — Interpelou seu Heliberto — Está tarde!  Amanhã de manhã você brinca no jardim!

Contrariado, o menino jogou a metralhadora no chão e saiu da sala.

Beraldo e Fréia despencaram no sofá.  O retrato do bisavô continuava como antes.

 

 

XI

O Estrondo

A mesa estava liberada.  Papai Noel havia desaparecido e seu Nicanor se juntara à família, sob os olhares suspeitos de Lelinho.  Comiam, entre conversas e felicitações.

Foi necessário um estrondo, como de algo grande e peludo se chocando contra a porta, para mais uma vez interromper a festa.

— Meu deus, o que foi isso? — Perguntou dona Sena.

Seu Heliberto riu.

— Nada não, Sena.  Aqui em Capivara venta muito e a porta está meio solta.  De vez em quando ela bate.  É assim  mesmo.

— Mas tão forte?  Parecia alguém tentando arrombar…

— Deixa que eu te mostro.

Andou em direção à porta e dona Póvoa gritou:

— Heliberto, não abre essa porta!

Ele fez pouco:

— Besteira!

E abriu a porta.  Não havia nada lá fora.

 

 

XII

O Fim

Depois de saciada a fome, foram todos sentar na sala pra jogar conversa fora.  Papearam sossegados até o sono chegar.  As crianças, em seus quartos, ficaram acordadas um bom tempo, fascinadas com seus novos brinquedos.

Nossa história termina aqui.  Sem horrores, mortes ou sangue.  Tudo isso pode ficar para outro dia, para outro conto.

Afinal, hoje é noite de natal.

 

 

XIII

— Quer tirar a mão do meu peito, por favor?!  Olha que eu grito, hein?!

* * *

Direto da pilha dos rejeitados. Contos legais mas que não passaram no último crivo de qualidade para serem publicados.

Escrito na véspera de natal de 1987, quando eu tinha treze anos e estava empenhado em ler e devorar e deglutir e imitar e reproduzir os contos de terror de H. P. Lovecraft e Stephen King. Quase tudo o que escrevi na época é lixo e vale apenas como exercício (<em>treze anos, gente!</em>), mas esse aqui, em alguma medida, se mantém.

Possui uma voz própria que já dá pra reconhecer como minha. Não é bom, não é publicável, mas já é meu. Não é pastiche de ninguém.

Naturalmente, a mão narrativa é bem pesada e o desfecho me parece bem óbvio (<em>treze anos, gente!</em>) mas fico feliz de ver que sempre tive um bom ouvido pra clichês e lugares comuns.

grandezas de candura

29 agosto, 2011 § 29

Era tarde da noite, estavam todos meio bêbados e alguém fez a pergunta a Tarquínio:

— Qual foi a melhor sensação da sua vida?

Depois, um deles riu. Na verdade, riram todos. Como se sabe, não é difícil fazer um bêbado rir.

Mas Tarquínio antecipara a pergunta e, enquanto os outros respondiam, lembrou-se de uma noite no Galeão, alguns anos antes. A tela do computador tinha acabado de avisar que o seu vôo se atrasaria em outra hora, além das duas que estava atrasado.

Na sala de embarque, por falta de cadeiras em número suficiente para as centenas de passageiros, as pessoas se espalhavam pelo chão ou se recostavam nas paredes.

Cachecóis, luvas e sobretudos jaziam largados por sobre as malas, enquanto camisas eram abertas até o umbigo e meias de lã retiradas. Com o calor tropical, as pessoas vestidas a caráter para o país frio para onde o vôo se destinava foram obrigadas a abdicar de sua elegância e admitir que ainda estavam no Brasil. O ar, desligado, fazia com que a sala de embarque cheirasse como uma academia de musculação.

Feliz por ter conseguido uma das últimas cadeiras, Tarquínio mantinha sua mala segura entre as pernas e ouvia rádio em seu walkman. O momento que mudou a sua vida — ele nunca poderia esquecer — foi quando entrou no ar, pela terceira vez em duas horas, a música da moda daquele verão, “O Canto da Cidade”, da Daniela Mercury.

Nesse instante, — nesse exato instante! — Tarquínio, que odiava música baiana, abriu bem as narinas para soltar um longo suspiro de impaciência, e sentiu algo solto lá dentro.

Ele expirou e inspirou pelo nariz e não teve dúvidas. Havia algo em sua narina direita, uma meleca ou casca de ferida, que ia e vinha ao balanço do ar que passava. Era grande e viscosa, e apesar de estar solta o bastante para que Tarquínio a sentisse roçar nas paredes internas de seu nariz, ainda assim parecia presa em algum lugar.

Havia apenas uma solução.

Tarquínio olhou em volta, sondando as redondezas. A sala estava cheia de gente. Para qualquer direção que ele virasse o rosto, uma dúzia de pessoas o encarava. Se ele se levantasse, perderia o lugar e só deus sabe quando o avião chegaria.

Mas agora que sentira aquele roçar em seu nariz, não podia ignorá-lo. Tinha que tomar uma decisão.

Não conhecia ninguém naquela sala. Eles não sabiam o seu nome e ele não teria que conviver com eles. Era apenas uma multidão anônima, encalorada e impaciente, mais preocupada com seus problemas do que com a higiene digital de Tarquínio.

Ele tomou coragem e, com a tranquilidade de quem sabe não ter escolha, fechou os olhos e introduziu o indicador em sua narina direita.

Foi um momento mágico.

Todos os ruídos da sala de embarque cessaram e Daniela Mercury calou-se no rádio em respeito à fúria do embate. O chão e a cadeira sumiram, e era como se ele estivesse flutuando em pleno vácuo do espaço, onde nem gravidade ou oxigênio para propagação do som poderiam distraí-lo da batalha. Tarquínio não sentia mais nada além da emoção daquele combate primordial entre ele e a meleca.

De início, fez um reconhecimento do terreno, em que a ponta de seu dedo percorreu a extensão interior de sua narina. O inimigo, pelo tamanho de sua protuberância, foi fácil de localizar.

Numa manobra arriscada, Tarquínio girou o dedo, tentando desalojar o adversário com a unha. Mas a tática fracassou e tudo o que ele conseguiu foi esparramar a meleca pelas paredes do nariz.

Como a estratégia convencional parecia não funcionar, era hora de se apelar para soluções arrojadas. Retirou o dedo indicador do campo de batalha e decidiu apelar para o mindinho, de mais fácil acesso às regiões profundas de suas narinas.

O êxito foi absoluto: a medida que o novo contendor conseguiu arrastar o inimigo para a borda da narina, um forte sopro nasal encarregou-se de sua eliminação completa.

A meleca, derrotada, caiu nas mãos de Tarquínio.

O prazer do momento era tamanho que ele nem abriu os olhos. Em sua virilha, para atestar a volúpia que se apossara dele, uma ereção tentava lhe furar as calças. Tarquínio ficou ali, curtindo seu êxtase, com a meleca indefesa em suas mãos. Fez uma bolinha com ela e grudou-a embaixo da assento da cadeira.

O efeito da adrenalina foi passando e Tarquínio voltou a ouvir o burburinho da sala e a sentir o chão sob seus pés. No walkman, como se para comprovar que tamanho prazer se passara em tão pouco tempo, Daniela Mercury ainda estava cantando “O Canto da Cidade”.

Um calafrio de prazer o percorreu de alto a baixo e Tarquínio olhou em volta para seus companheiros de espera. Tudo continuava como antes.

Ele vencera, mas seu amigo bêbado, sem saber disso, o sacudiu de novo:

— E então, Tarquínio? Todo mundo falou, só falta você: qual foi a melhor sensação da sua vida?

Tarquínio encarou o grupo em expectativa e disse, sem hesitar:

— Ter comido a Lucília!

Alguém virou para os outros e gritou, às gargalhadas:

— Viu?! Eu não disse? Eu não disse? Quem me dera… Aquilo ali é o melhor cuzão do Brasil! — E de volta para Tarquínio: — Ela é boa mesmo? A melhor?

Tarquínio riu:

— A melhor!

* * *

Direto da pilha dos rejeitados. Contos legais mas que não passaram no último crivo de qualidade para serem publicados. Escrito a bordo de um voo Rio-NY em dois de fevereiro de 1994.

4 junho, 2011 § 8

Sempre que começo a chorar por um motivo, termino chorando por outro.

A História de Libeca

25 fevereiro, 2010 § 0

Para muitas leitoras, a história de Libeca – que pode ser lida como um conto independente – é a melhor parte de Mulher de Um Homem Só. Para convencer quem ainda estava em dúvida, o trecho completo:

* * *

Mas às vezes ele me choca, me choca de verdade. Algumas histórias não sei se teria casado se soubesse. A primeira vez que esses ideais inconstantes do Murilo foram postos à prova foi com o caso da Libeca e, nessa prova, o Murilo não passou não, não passou mesmo, teria ido direto pra recuperação e ia ficar dezembro todo na sala de aula. Mas acho que sou eu. Religiosa ou não, não interessa, sou muito passional, muito apegada à vida: uma vida, um minuto a mais de vida que seja, não vale todas as teorias e argumentações e racionalizações do Murilo, e não entendo como ele pode ser tão frio, como pode colocar idéias antes de gente, e isso me assusta, porque decidi passar a vida com esse homem, e ele é o pai da minha filha, e não sei se posso confiar nas decisões dele, se o seu bom senso errático não poderia preferir lealdade a algum ideal abstrato do que à vida de Raquel. E essa história me bota medo, mas vou contar mesmo assim, vou contar o que Murilo fez com a Libeca porque isso tem tudo a ver com o que houve depois.

Júlia, como sempre, estava lá. Os dois estudaram juntos em um colégio católico (até o Murilo se revoltar e pedir pra sair, vocês lembram), os dois cresceram juntos, porra. Faziam tudo juntos. Se não fosse por mim, ainda estariam fazendo, mas esquece. Apesar do companheirismo todo, apesar de tanto amor entre eles, não andavam no mesmo grupo: eram a única interseção de dois círculos diferentes. Os amigos de Júlia não entendiam o que via em Murilo, como agüentava andar com um chato daqueles, caretão e pentelho, de óculos fundo de garrafa e vocabulário difícil, e também tinham ciúmes dele, porque apesar do grupo e da galera, daquela turma toda de gente tão interessante e avançadinha (ou assim eles se consideravam), Murilo era a prioridade de Júlia e ela largava tudo para estar com ele. O vice-versa, naturalmente, era verdadeiro, como não?

E chegamos a Libeca, que andava com Júlia e seus amigos, fumava maconha e ouvia rock progressivo, pichava banheiros e matava aula de ginástica. Estavam todos no começo do segundo grau, ou ensino médio, é isso que estão chamando agora?, e finalmente podiam se vestir como quisessem: a obrigatoriedade do uniforme só ia até a oitava série. E Libeca era daquelas alunas citadas pelos freis mais conservadores para justificar a insensatez de tal medida: só se vestia de preto, jeans rasgados, coturnos fedorentos, essas coisas. Os jeans rasgados foram proibidos, sob o argumento de que as roupas dos alunos precisavam, pelo menos, estar inteiras, mas o resto era ou deixar ou voltar aos uniformes. Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo, carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado, e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. E era, ou se dizia, ou se pensava, uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados no melhor bairro da cidade e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso. Por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as meninas de sua idade lavassem as próprias calcinhas. Falando em calcinhas, Libeca e suas amigas também gostavam de defender o amor livre, que sexo não significava nada, que essas coisas não tinham importância alguma, e faziam pouco de meninas como eu, que éramos direitas e vaidosas, não fumávamos e tínhamos o mínimo de decoro. Mas muitas dessas minhas amigas tão decorosas já namoravam firme, aqueles calouros universitários que na época nos pareciam uns homenzarrões, e, com eles, perdíamos a inibição, ficávamos mais seguras de nossos corpos e brincávamos de colocar coisas deliciosas na boca, essas travessuras que só se faz com quem se confia, com quem se é íntimo, com quem se ama, mesmo sendo aqueles amores fugazes mas faiscantes da adolescência. Enquanto isso, Libeca sentava no colo dos garotos, se dava a intimidades físicas com todos, porque essas coisas não importavam, eles botavam a mão aqui e ali e, quem visse, diria que era mulher liberada e experiente, mas quando estava a sós com eles, toda a força dos valores culturais decadentes da nossa sociedade se fazia sentir e Libeca defendia com fúria aquele ultrapassado e cabeludo conceito de honra que residia ali no meio das suas pernas, e nunca fez nada com nenhum dos garotos em cujo colo sentou. E, às terças-feiras, Libeca se desvencilhava dos amigos em segredo e ia visitar sua bisavó, que era uma velha muito sozinha que morava em um asilo no subúrbio, seus pais e seus avós nunca iam, mas Libeca se sentia mal com isso, e ficava mais de duas horas em três ônibus pra chegar no asilo e nunca faltava, e levava escondido um saquinho de pão de mel pra bisavó, que não podia comer doce por causa do seu diabetes, mas que dizia pra Libeca que vida sem pão de mel não valia a pena, e Libeca levava, e ficava lá vendo a bisavó quebrar o pão de mel com os lábios porque não tinha mais dentes e deixava a massa derreter na boca, e as duas conversavam, a bisavó ouvia a Voz do Brasil todo dia e sempre perguntava pra Libeca suas opiniões, o que pensava desse novo Plano Cruzado, se era fiscal do Sarney, se a seleção tinha chances de levar o tetra no México ou até se a Viúva Porcina devia mesmo era ficar com o Roque, e era bom porque isso forçava Libeca a se informar e, além de ler Dostoievski e não entender, também enfrentava a Veja todo domingo. Enfim, quinze anos.

Desculpem o desvio mas é que, assim como a Libeca se sentia mal com o abandono da bisavó, também me sinto mal que Murilo e Júlia, apesar de tudo e depois de tudo, nunca tenham sabido quem era essa moça que queria se matar. Gosto de me enganar achando que saber do pão de mel teria feito alguma diferença para o Murilo mas não: ele agiria como agiu de qualquer jeito – Júlia talvez levasse o pão de mel em consideração.

E, nesse dia, estavam os dois, Murilo e Júlia, em um dos seus cantos preferidos do colégio, aproveitando sua meia hora de recreio debaixo da sombra de uma amendoeira: ela fumando e desenhando em um caderninho e ele lendo algum livro da coleção Vagalume, acho que o Escaravelho do Diabo. Então, apareceu a Libeca e, ao contrário de quase todos os outros colegas da Júlia, a Libeca tolerava o Murilo, até gostava dele um pouquinho. Tinha um assunto pessoal pra falar com a amiga, mas Murilo estava lá e a Libeca não se importou, contou pra ele também. Não era segredo.

Libeca queria morrer. A vida não fazia sentido, nossos valores morais eram falsos ícones impostos por uma mídia corrupta e globalizada, as relações humanas eram regidas por um deus artificial criado para facilitar a dominação dos mais fracos pelos grandes cartéis internacionais… Ah, chega! Quem é que já não ouviu esse tipo de conversa? Não tenho estômago de repetir essas besteiras todas, acho muito triste uma menininha assim já com tanto amargor na boca, e sem razão alguma, e não gosto de falar muito porque nessas horas penso na minha filha, se também não poderia estar falando pra outros jovens da idade dela que a vida não presta.

Mas tenho que continuar porque Libeca continuou, não parou; não parou mas falava com muita calma, aquela calma que assustava, e dizia que não queria mais, já tinha inclusive tentado o suicídio antes, ao treze anos, mas agora era pra valer. De que adiantava ficar no mundo quando não se gosta de nada? Não tinha vaidade, não gostava do seu corpo, não gostava da sua família, não gostava da sua vida, a vida não lhe dava prazer. E acrescentou, pra surpresa boba do Murilo, pois Júlia já sabia, não porque Libeca tinha contado, mas porque não comprava aquele mise-en-scene todo, que era virgem – virgem!, e Murilo corou, como se essa idéia atentasse contra algum senso de pudor seu, logo ele que só iria perder a virgindade dali a dois anos, em um puteiro de segunda – que não conhecia o prazer sexual e que nem queria conhecer, tudo era tão falso nesse mundo!, nem se masturbava, sentia nojo do menor prazer físico, e lá se foi Murilo corar de novo enquanto Júlia nem piscou.

E, no fundo, coitados deles dois, que se achavam tão adultos e inteligentes e sofisticados, mas só tinham quinze anos mesmo, e nem desconfiaram que Libeca nunca tinha tentado o suicídio coisa nenhuma e que se masturbava toda noite sim, muitas vezes passava a noite inteira se masturbando, como se aquele ato individual, aquele único ato não influenciado pelas forças imperialistas que dominavam todos os aspectos de nossas vidas, fosse, por isso mesmo, a única coisa que valesse a pena ser feita, e que tinha muito prazer sim cada vez que chegava no asilo e sua bisavó ainda estava viva, tinha medo profundo do dia em que chegaria lá e não houvesse a quem dar o pão de mel.

Mas Murilo e Júlia levaram aquilo a sério. Murilo e Júlia, aliás, levavam tudo muito a sério naquela época, eram jovens seríssimos, convencidos de uma suposta situação de maturidade precoce e que, portanto, deveriam se comportar de acordo. E tinham razão de levar Libeca a sério porque dessa vez era sério mesmo. Libeca queria morrer: o prazer de encontrar a bisavó era um prazer amargo, misturado com medo, e ela, quando se masturbava, não sentia realmente prazer físico algum, não pensava em ninguém, não visualizava nada, se masturbava a seco, se masturbava de ódio, ficava vermelha, inchada, depois ardia pra urinar, até o chuveirinho do bidê doía. Menos uma ou outra pequena mentira, Libeca queria mesmo morrer e, por isso, estava ali pedindo ajuda daquela maneira tão óbvia, tão ridícula, coitada. E também não tinha sido à toa que Libeca discutira o assunto na frente do Murilo, embora ela mesma nunca tenha se dado conta disso, porque, em sua cabeça, Murilo era mais centrado, mais adulto que Júlia. E Libeca esperava que fosse justamente ele quem a cortasse e dissesse o que é isso?, você é tão jovem!, que absurdo!, você tem a vida toda pela frente!, e esses clichês que, salpicados na hora certa, podem salvar uma vida, porque ninguém realmente deseja morrer – muito menos uma adolescente sadia, de dentes perfeitos e no peso certo.

Murilo, entretanto, que corava com masturbações e virgindades, permanecia impassível ao suicídio. E foi Júlia a primeira a falar, mas ainda demorou um tempo, porque estava chacoalhada por dentro, e precisou esfriar seu temperamento quente antes de abrir a boca, e se lembrou de o quanto realmente gostava de Libeca, e pensou em alguns bons momentos das duas, e enquanto isso o tempo ia passando, um silêncio desagradável debaixo da árvore, mas o engraçado é que não era, quero deixar bem claro, silêncio de hesitação. A resposta que Júlia deu ela teria dado imediatamente: o tempo de espera foi porque queria se controlar por dentro, queria ter certeza de que, quando falasse, seria de voz firme, queria fechar os olhos às lágrimas para que não escapulisse nenhuma. E se esfriou e olhou para Libeca e, com a seriedade que só uma adolescente extremamente convencida de sua própria importância pode ter, afirmou:

- Vou sentir muito a sua falta.

E Libeca emudeceu. Emudeceu mesmo. Não só naquela conversa não: ficou calada pelo resto do dia. Mas ah!, nem precisava falar: estava na presença de dois loquazes filósofos, bastava que ouvisse, que se regalasse com aqueles grãos-de-bico de sabedoria, maduras (quase podres) lições de vida. Estava muda mas ainda participava da conversa: virou-se para Murilo, a pessoa de quem mais esperava ajuda, o “homem” mais responsável do grupo, e ele apenas sacudiu a cabeça, concordando com Júlia. Sei o que Libeca pensou e não foi não, Libeca, isso é que é o pior. Os dois cretinos nunca tinham conversado sobre isso, nunca haviam debatido suicídio, nunca haviam decidido o que fazer se uma situação como aquela se apresentasse. Nada disso. Ambos chegaram àquela mesma posição ridícula espontaneamente. E nem mesmo foi um quem influenciou o outro. Murilo só não disse as mesmas palavras que Júlia porque mal conhecia Libeca, seria hipócrita dizer que sentiria a falta dela. Pensou um pouco no que falar e acrescentou, sem o menor constrangimento de usar a palavra sagrado:

- É seu direito. Nosso direito sagrado.

Libeca continuou muda e ele desenvolveu:

- Na nossa existência, só temos dois momentos realmente íntimos. Dois únicos momentos nos quais uma pessoa fica sozinha consigo mesma e ninguém tem nada a ver com isso.

E Murilo fez uma pausa, não uma pausa dramática, mas uma pausa cumplicitória, esperando que sua amiguelhazinha adivinhasse seu pensamento e completasse seu raciocínio. Júlia entendeu. A primeira era fácil:

- O suicídio e… Ela hesitou um pouco, formulou uma resposta, questionou, confirmou, verbalizou: …a masturbação.

Pronto. Feliz com sua comparsa, Murilo continuou o discurso, fruto de seus dezesseis anos incompletos de sabença, a cara cheia de cravos e erupções, o cabelo penteado em uma franja pra esconder as espinhas da testa:

- Nada é realmente nosso. Tudo pode ser tirado, recolhido, leiloado. Mas nossa vida é só nossa, só diz respeito a nós. Seria uma grande arrogância e uma enorme falta de respeito da nossa parte ter a ousadia de lhe dizer o que fazer com sua vida.

E Júlia, não encontrando mais nada eticamente aceitável para falar, repetiu:

- Vou sentir sua falta.

Libeca entendeu. Demorou um pouco, mas entendeu. Era sério mesmo. Os dois não estavam brincando. Não seria ali que Libeca ouviria os clichês de consolo de que precisava. Por fim, Júlia decidiu elaborar:

- Acho até filosoficamente errado (filosoficamente é o caralho!, pensou Libeca, mas continuou calada para ouvir até o fim) eu falar isso, não tenho nada a ver com sua vida, mas vou dizer de qualquer jeito: gosto muito de você, Libeca, muito mesmo!, e pegou a mão de Libeca, e Libeca estava tão anestesiada por aquela palhaçada que nem puxou a mão de volta como queria, e caso essa seja a sua decisão, quero que saiba que vou sentir muito sua falta e vou ficar muito triste.

E acabou. Murilo havia feito seu discurso. Júlia, já tendo falado mais do seria filosoficamente correto, também se absteve da conversa. E Libeca, Libeca concluiu que realmente não havia mais nada a ser dito, não tinha mais o que fazer ali, nunca teve. Foi embora.

E eu, o que posso dizer mais? Os dois sábios nem mesmo discutiram entre si o assunto depois. Não havia o que discutir. Concordavam de tal maneira que a única coisa que poderiam acrescentar eram parabéns mútuos por sua atitude lógica e coerente. Mas não havia por que parabenizar o outro por não ter feito mais do que sua obrigação de ser humano pensante. E é esse, minha amigas, o pai da minha filha. E, ainda mais assustador, Júlia é a madrinha.

(Quanto a Libeca, ela morreu, naturalmente. Teve um câncer maligno repentino nos ossos e se desmilingüiu em poucos meses. Deixou um viúvo, um ex-marido, três filhos e uma netinha que mal conheceu. Como quase todas nós, conseguiu sobreviver aos seus quinze anos. O mais irônico é que, talvez, com a ajuda de Murilo e Júlia. Dado seu rancor contra o mundo naquela época, não sei se clichês de CVV teriam salvo sua vida. Mas aquele choque com certeza a balançou. Libeca passou os dias seguintes odiando aqueles dois putos, nem se lembrou de o quanto odiava a si mesma. Quando passou o ódio, também havia passado o impulso. E não voltou mais. Entrou em outra fase, parou de ler e nunca nem abriu a coletânea de Nietzsche que comprara algumas semanas antes. Foi passar o verão no nordeste, se apaixonou por um surfista e deixou o cabelo crescer, trocou piercings por tatuagens e continuou sendo adolescente, e dali a pouco mudou tudo de novo, e assim foi indo. Só soube mesmo o que era orgasmo, entretanto, com o segundo marido, mas nem isso foi lá grande perda, porque passou todo o primeiro casamento achando que estava tendo orgasmos e gostando muito, e isso é o que conta. Enfim, Libeca sobreviveu e nunca mais dirigiu palavra a Murilo e, portanto, saiu da minha história.)

Ai, quem me dera ter contado esse caso apenas para exemplificar as esquisitices de Murilo e Júlia. Dizer: eles são assim, ó. Por exemplo, olha só o que eles fizeram quando tinham quinze anos. Mas não. A historinha é importante, pois não é a criança o pai do homem? Não estão esse Murilo e essa Júlia, que tão eticamente aconselharam a Libeca, dentro do pai e da madrinha da minha filha?

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Convencida, finalmente? Então, compre o livro.

Mulher de Um Homem Só