contos de alex castro

sou escritor profissional. para pagar as contas, preciso escrever muito. nem só ficção, como gostaria. muita polêmica, muita política. nem tudo presta.

não existe nenhum escritor que só tenha escrito o que prestava. como disse maugham, “só os medíocres estão sempre no seu melhor momento”. (má tradução para “only mediocre people are always at their best“, me perdoem, estou num dia ruim.)

o problema é antigo. machado, nelson, clarice, todos ganharam a vida escrevendo pra imprensa, textos diários e interessantes, textos que pagavam as contas, mas não necessariamente que gostariam de eternizar em livro.

(não, não estou me comparando a eles nem em qualidade de produção nem em talento, baco me livre. são infinitamente melhores. mas viveram a mesma vida e encararam os mesmos problemas. tudo o que machado escreveu é incrível: a grande diversão de ler os seus contos é se perguntar qual foi seu critério para querer eternizar uns nos livros e deixar outros esquecidos nos jornais. clarice era ótima nas suas crônicas do jb: quando acertou, foi nossa maior escritora, maior que machado, mas, para poder acertar esses acertos, teve que cometer erros ilegíveis — que lhe adicionam alguma grandeza trágica. já nelson, bem, quanto mais rápido escrevia, melhor era: transformou fofoca tijucana em literatura.)

gostaria de só escrever ficção, mas as contas precisam ser pagas.

separei para vocês os meus melhores textos de ficção que estão circulando por aí:

recentes

escritos em 2012. ainda inéditos em papel. gosto deles. um dia, saem publicados. talvez em versões ligeiramente diferentes.

duas profissões esquecidas do rio antigo

Catava esterco

Ao contrário de tantos pretos, não andava cantando sua ocupação. Puxava a carroça em silêncio, repicando um pequeno sino de cobre. Tinha pudor.

uma cigarrilha apagada

Vou contar pro seu marido.

Ela acorda antes dele. Na mesinha, uma cigarrilha em um cinzeiro de mármore. Pega a cigarrilha, põe nos lábios. Fica olhando pra ele. Dormia de boca aberta. Roncava de leve. Manchinha de baba no travesseiro. Cabelo rareando.

Você tem que contar a verdade.

publicados

ambos estão no meu livro de contos onde perdemos tudo, à venda:

quando morrem os pêssegos (1996)

Ele saíra de casa fazia dois meses, se declarando sem intenções de voltar. Levara só uma valise. Como estava se virando com tão pouca roupa? Belito sempre usou, no mínimo, duas cuecas por dia.

Sobre o aparador, permanecia a marca redonda na poeira. O abajur tinha se quebrado em tantos pedaços que Laís nem tentou colar. Havia sido ela a primeira a falar em separação, é verdade, mas a iniciativa de sair fora de Belito.

de portas abertas (2004)

Acariciei a maçaneta, que soluçou mecanicamente ao meu toque. Amanda eriçou as orelhas e ganiu: por favor, eu não quero ir embora, você prometeu que iríamos ficar juntos pra sempre, que me protegeria e me acompanharia, não pode me largar aqui fora, eu te peço.

rejeitados

escritos há muito tempo. não passaram no meu crivo para saírem em papel. têm o seu valor mas vão continuar só na internet:

a surdez do meu avô (1994)

Eu, na verdade, sei apenas o fim da história e não o começo. Teria ele pensado nisso assim que a viu? Talvez. Pode ser também que sua surdez tenha se desenvolvido somente após alguns anos de tentativas de convivência. Quem sabe?

duas manchas roxas (1996)

Eu tinha que me defender, ou a humanidade não me perdoaria. No quadro geral da vida, quem é a minha esposa? Um nada, um ponto, um ser insignificante. Minha obra, ao contrário, é um legado da coletividade e deve ser preservada a todo custo!

uma questão de fé (1996)

Ao narrar esse conto, não tenho intenção alguma de fazer suspense ou surpreender o leitor, mas apenas de iluminá-lo quanto às circunstâncias que me fizeram sair das trevas do ateísmo e abraçar a fé em Deus.

Coerente a esse princípio, faço questão de adiantar que Anália morre.

grandezas de candura (1994)

Era tarde da noite, estavam todos meio bêbados e alguém fez a pergunta a Tarquínio:

— Qual foi a melhor sensação da sua vida?

sangue e morte na noite de natal (1987)

Por um segundo ele ficou ali, imóvel, sem dizer uma palavra, e dona Gracila, tensa por causa de certos artigos no jornal, também se calou, fazendo o silêncio reinar na sala.

Meu deus!, ela pensou, não é o Nicanor! Esse Papai Noel não é o meu marido!

* * *

muito obrigado à revista fapesp, que comprou e publicou o conto duas profissões esquecidas; ao papodehomem, para quem trabalho como escritor contratado desde 2011 e onde saíram a maioria desses contos; a todos que compraram meus livros e ebooks, e, especialmente, aos mecenas, que doaram e contribuiram diretamente: sem vocês, não dá pra criar literatura.

* * *

gostou? então, compra um dos meus livros. tem o romance mulher de um homem só e a coleção de contos onde perdemos tudo. e que machado te abençoe.

Mulher de Um Homem Só, romance de Alex Castro Onde Perdemos Tudo

Duas profissões esquecidas do Rio antigo

Revista Pesquisa FAPESP edição 205 de março de 2013Catava esterco

Ao contrário de tantos pretos, não andava cantando sua ocupação. Puxava a carroça em silêncio, repicando um pequeno sino de cobre. Tinha pudor.

Caminhava sempre pelas mesmas ruas, no mesmo horário, todos os dias. As mucamas já o conheciam: esperavam sua passagem e ficavam no aguardo do sino.

Ninguém queria contato. Tudo era muito rápido. A mucama saía porta afora com o balde de esterco quente nas mãos, ele abria o tampão da carroça, ela despejava ali a carga e voltava correndo para dentro. Não falavam com ele.

Havia sempre respingos. Ao final da tarde, estava salpicado pela própria mercadoria.

Os tigres eram mais dignos. Temidos, até. O próprio nome impunha respeito. Eram escravos fortes, que carregavam nos ombros os dejetos de suas casas. Não passavam o dia lidando com os excrementos dos outros. Despejavam tudo na lagoa mais próxima e já voltavam para cuidar de outras atividades.

Pensava muito nisso. Que ali, no barril do tigre, misturados aos dejetos dos sinhôs e das sinhás, das mucamas e dos moleques, estavam também os seus. O tigre carregava o próprio excremento. De algum modo, aos seus olhos, isso lhes conferia dignidade.

Mas nem toda casa tinha escravos. Então, ele ainda era útil.

Gostava mesmo era de uma mulatinha da rua da Ajuda. Era sempre ela que trazia o balde. Mas nunca teve coragem de lhe falar. O esterco os separava. Um dia, não apareceu mais e ele não teve coragem de perguntar por ela. Ficou a lembrança daqueles dentes brancos. Tinha todos. Era lindo.

Ao final do trajeto, ele percorria a rua do Aljube até a Prainha. As barcaças recolhiam os dejetos da Corte e os levavam para os engenhos do outro lado da baía, onde não havia gente para produzir tanto estrume.

Os galegos pagavam quase nada pelo esterco. Só valia a pena se enchesse a carroça até a borda. Afinal, era recolhido de graça. Conseguiria mais mendigando, era o conselho que recebia.

Mas gostava de saber que deixava a Corte mais limpa. Que o esterco que recolhia se transformava em açúcar. Que tudo se transformava em outra coisa. Que ele, que era tão baixo, tão preto, tão feio quanto seu esterco, um dia também talvez virasse açúcar.

 * * *

 Soltava passarinhos

Frequentava as quermesses e procissões. Sempre em feriados religiosos.

Carregava uma gaiola quase maior que ela. Tinha seis compartimentos independentes, cada um com sua portinha. Nunca mais perderia a viagem soltando todos os bem-te-vis ao mesmo tempo.

Era conhecida dos penitentes. Só não abordava os brancos ricos. Quem já vivia cheio de graça não precisava da graça adicional de soltar uns passarinhos.

Preferia os desgraçados e os desafortunados, os moleques e as mucamas, os mutilados e os coxos, os culpados e os esperançosos, os tísicos e os leprosos, os pretos e os pardos. Os seus.

Muitos não entendiam. Quando a menina levantava a gaiola, já gesticulavam seu desinteresse. E ela esclarecia, não vendo passarinho, não, moço. Eu solto.

Alguns continuavam sem entender: vou lá pagar para soltar passarinho, menina?

E ela dizia, Deus ajuda quem liberta suas criaturinhas. É graça para o ano inteiro. O senhor reza comigo a prece de São Francisco de Assis, escolhe um bem-te-vi e deixa voar. Deus proverá.

Escolhiam quase sempre os passarinhos mais vistosos. Será que Deus prefere que os belos sejam livres?, se perguntava a menina.

A velha lavadeira foi o oposto. Demorou longos minutos. Estudou bichinho por bichinho. Quis a certeza de soltar o mais velho e mais fraco, o mais feio e mais cansado.

Seus dedos mal funcionavam. Mãos escurecidas e descoloradas de bater roupa em pedra. Mas fez questão de ela mesma destravar o ferrolho. Não era fácil. O preto Sebastião construíra a gaiola especialmente para a menina, levando em conta seus dedos ainda finos e ágeis.

Finalmente, o bem-te-vi saiu cambaleando pelo ar.

Ao cair da tarde, a menina foi até um matinho próximo, abriu as portinhas da gaiola e assoviou. Um por um, todos voltaram. Menos o velho passarinho. No feriado seguinte, a lavadeira também não apareceu. A menina gostava de pensar que estavam juntos.

Em casa, braços cansados de carregar a gaiola, acomodou seus tostões e vinténs (nem uma pataca hoje) em um latão na despensa. A sinhá era generosa: lhe dava todos os dias santos e ainda lhe permitia guardar tudo o que ganhasse.

Deu boa-noite para a sinhá e se dispôs na esteira aos pés da cama. Sonhou que voava.

 * * *

 A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto menciona barcos chineses onde passarinhos e peixes eram soltos no ar e na água, em troca de esmola, para “serviço de Deus” (capítulo 98). Um texto chinês do século XVI, mesmo século no qual Mendes Pinto esteve na China, detalha um dos muitos rituais budistas que devem acompanhar o ato de libertação (“Freeing Animals from Bondage” em Buddhist scriptures, Penguin, 2004). No Brasil, a única menção que encontrei, que pode ou não ter relação com o budismo, está em uma crônica da juventude de Machado de Assis, que teria testemunhado essa prática durante a procissão dos ossos da Misericórdia (O Futuro, 15 de dezembro de 1863). Entretanto, em diversas ocasiões (o conto “O segredo do bonzo”, de 1882, ou o ensaio “Instinto de nacionalidade”, de 1873), Machado demonstrou ser leitor atento da Peregrinação. Terá o episódio sido apenas uma glosa de Mendes Pinto? Mera invenção do Bruxo? De Machado, pode-se esperar tudo.

Por coincidência, no mesmo capítulo 98, a Peregrinação também menciona os “mercadores de esterco” da China. Existe ampla documentação sobre os catadores de esterco do Rio antigo, como La Blanchardière, em 1748 (em Visões do Rio de Janeiro colonial, 1531-1800), e Schlichthorst, em 1824 (em O Rio de Janeiro como é – Uma vez e nunca mais, cap. IX). No Segundo Reinado, com o avanço das regulações sanitárias, a prática deve ter desaparecido. A última menção que encontrei foi no capítulo 4 de Mulheres e costumes do Brasil (1863), mas o sempre tão crítico Expilly menciona a atividade sem deixar claro se a testemunhou ou apenas ouviu falar. Finalmente, em 1864, foi inaugurado o serviço de esgoto da Corte.

Desnecessário acrescentar que esse é um conto de ficção.

Alex Castro, 39, é autor de Mulher de um homem só (2009, romance) e Onde perdemos tudo (2011, contos).

* * *

Originalmente publicado na Revista Pesquisa FAPESP, edição 205, de março de 2013. (link)

microconto (XXXIX)

levanta-te e fode, disse o messias. mas lázaro broxou mesmo assim.

microconto (XXI)

resposta ao delegado: “meu nome é arrastão, porque somos muitos.”

microconto (XL)

não há vagas. há vidas.

microconto (LVIII)

abriu a janela, teve um pensamento feliz e pulou. quase voou.

microconto (CVII)

maria disse não. joão disse sim. maria disse sim. amor.

microconto (IXL)

com os olhos cheios d’água, ana agradeceu ao rinoceronte.

microconto (XCVI)

adolfo teve que se apressar: com o rigor mortis, o cu fecha.

microconto (CXXXI)

a filha: “pai, hoje no cu não. é meu aniversário.” parabéns.

microconto (CIII)

após o beijo, o cavalo nunca mais retornou as ligações de nietszche.

sangue e morte na noite de natal – um conto de terror

I

A Fantasia

SEU NICANOR APERTOU O máximo que pôde a barriga.

— Força, Nicanor! — Disse dona Gracila — Está quase entrando!  Só mais um pouquinho!

— Se eu respirar, essa calça arrebenta!

— Sshh!  Pronto, entrou!

— Tudo pelos netos! — Ele disse, suspirando.

— Agora falta a barba.

— Por que você não me arranjou uma fantasia maior, hein Gracila?

— Foi só o que eu consegui, assim de última hora.   Fica quieto, senão a barba não pára no lugar.

— Tá pinicando. — Ele reclamou.

— Tudo pelos netos, você mesmo quem disse.

— Tudo pelos netos! — Ele repetiu.

— Os meninos vão adorar, Nicanor!

— Grande consolo…

— Está perfeito.  Não falta nada.  Você se lembra de tudo?

— Claro.  Não posso respirar fundo, senão a calça rasga.

— Não é isso!  Assim que eu bater na porta, você sai pelo quintal, sobe até o telhado, bota a escada dentro da chaminé e desce.  Entendeu?

— Perfeitamente.

— Então tchau.

Saiu e foi pra sala com o resto da família.

Seu Nicanor, cansado da batalha contra a roupa, pegou a Manchete da semana que estava jogada em um canto e começou a folhear a revista.  Passou direto pela reportagem de capa, sobre os crimes do natal.

O artigo listava vários casos acontecidos no natal passado e, como estes permaneciam insolúveis, se perguntava se eles voltariam a acontecer este ano.  Dentre eles, o mais pacífico era o do assaltante que se fantasiava de Papai Noel para invadir casas e roubá-las, e o pior, o do louco não identificado que chacinava qualquer um fantasiado de Papai Noel.  Nos últimos anos, dezoito Papais Noéis haviam sido mortos.

Mas para seu Nicanor, o natal não é época de se pensar em crimes.  Pulou a tal reportagem e começou a ler outra, ilustrada com fotos coloridas, sobre o natal em Copenhague.

Suspirou.

 

 

II

A Chaminé

Sobre a mesa, as rabanadas estavam no fim, devoradas pelas crianças.  Os adultos, em sua maior parte, se concentravam nos bolinhos de bacalhau e nas frutas gordurosas.  O peru, o pernil e o presunto, segundo ordem inabalável de dona Póvoa, eram proibidos até a meia-noite.

Seu Heliberto, o dono da casa, perguntou para a esposa se o Papai Noel ainda demoraria muito.

— Não sei de nada. — Respondeu dona Póvoa — Mamãe é que está cuidando disso.

Dona Gracila, vinda dos quartos, foi capturada por seu Heliberto:

— Tudo bem com seu Nicanor? — Ele perguntou.

— Tudo.

— Como é que ele vai descer pela chaminé?

— Usando a escada.

— As crianças não vão ver a escada?!

— Não se a gente ficar em frente à lareira.

— Ah, entendi… — Consultou o relógio — São onze e quarenta.  Está ficando tarde…

— O Nicanor vai descer às dez pra meia-noite.  Ele só está preocupado se a lareira não está suja por dentro.

Seu Heliberto riu.

— Não tem problema nenhum.  O Ladislau limpou ela anteontem.  Eu verifiquei!

— Maravilha então!  Vai dar tudo certo, com certeza.

 

 

III

O Retrato

— Pára de enfiar essa mão cheia de dedo por debaixo da minha saia, por favor!

— Ah…

— Eu grito.

— Tá bom!  Tá bom!  É que eu não aguento te ver assim!

— Se não aguenta, avisa que eu vou embora.

— Fica.  A festa está boa.

— É que eu não conheço ninguém, Beraldo.

— Eu  não sirvo?  E é melhor que passar o natal na sua casa.

Fréia parou um pouco para pensar em seus pais, mas não muito, para não estragar a noite.

— Tem razão. — Concordou, de cabeça arriada.  Depois, mudou de assunto: — De quem é aquele quadro ali na parede?

Beraldo estava esperando a pergunta.  O quadro brilhava sob o luar, que o atingia em cheio, ficando ainda mais imponente.

— É o meu bisavô, Pompílio.  Foi ele que construiu essa casa aqui em Capivara, muitos anos atrás.  Depois ela passou pros meus avós, e quando morreram, ficou com meus tios.

— Ele tem uma cara estranha, não é?  Parece meio mau… — Na verdade, o que Fréia queria dizer é que era um dos quadros mais assustadores que ela já vira.

— Deve ser por causa da maldição… — Deixou escapar Beraldo, assim como quem não quer nada.

— Maldição?! — Exclamou Fréia, bem feminina.  Ele teve vontade de agarrá-la ali mesmo, mas era melhor acabar a história primeiro.

— Ele não gosta de gente demais na casa dele.

Fréia olhou em volta.

— Como hoje?

— Como hoje.

— Mas aí o que acontece? — Fréia, em um gesto inocente, colocou a mão na coxa dele.

Beraldo sorriu.

— Ele sai do quadro e alguém morre.

— Isso já aconteceu antes?

— Não sei, talvez sim, mas há muito tempo. — Disse ele, puxando no suspense — Meus avós estavam dando uma festa barulhenta, gente falando alto, tumulto etc.  O bisavô se irritou, saiu do quadro e um dos convidados, quando viu o retrato vazio, teve um ataque cardíaco e morreu — o que acaba com qualquer festa.  Missão cumprida, o bisavô voltou para o quadro e há quem diga que ele estava sorrindo e com os olhos brilhando…

— Ainda bem que ninguém está fazendo barulho.

— É.

— Dá pra tirar essa mão da minha coxa, por favor?!

 

 

IV

O Marambaia

— Ai, — Disse dona Póvoa, calçando as luvas — estou preocupadíssima com o Heliberto.  Não consigo nem dormir direito!

— Como assim? — Perguntou dona Sena.

— É esse trabalho de maluco dele! — Desligou o forno — Acho que ele se dedica demais, e acaba se metendo em confusão…  Estou morta de medo!

— O Heliberto sabe se cuidar, Póvoa.  Ele é muito responsável.

— Não é isso, Sena! — Tirou o arroz à grega do forno e passou-o à cunhada — É esse Marambaia que me apavora!

— Marambaia?

— Você não lembra, menina?!  Aquele psicopata horroroso que matou a família toda a golpes de pá, e que o Heliberto condenou!

— Ah!

— Pois você acredita que o homem fugiu da prisão?!

Dona Sena estremeceu e quase deixou cair a jarra de sangria que estava segurando.

— Eu não li nada—

— A polícia quis manter o assunto fora dos jornais pra não apavorar a população, mas o Heliberto foi informado através da promotoria.  E ainda recusou a proteção policial!

— O Marambaia não tinha jurado se vingar do Heliberto?

— Sena, você acha que eu estou preocupadíssima por quê?  Ele disse que ia pegar o Heliberto e arrancar todos os seus dedos das mãos e dos pés a dentadas.  E nós temos crianças aqui e tudo!  Como é que ele me recusa a proteção policial?!

Dona Sena se recostou na pia da cozinha.

— Agora quem está nervosa sou eu!

 

 

V

O Caxambu

Tacinho veio pulando para cima de seu tio.

— Tio Beto, cadê o Caxambu?

Ele sabia que a pergunta era inevitável.  O sobrinho sempre fora afeiçoado ao cachorro e não iria deixar de notar sua ausência.  Tentou explicar:

— O Caxambu foi embora, Tacinho.  Pro céu dos cachorros.

— Embora?

— É.  Ele estava cansado e precisava descansar um pouco.  Papai do céu chamou ele.

— Mas eu queria tanto ver o Caxambu!

— Não fica triste não, Tacinho.  A gente compra outro cachorro igualzinho ao Caxambu.

— Eu não quero outro cachorro.  Eu quero o Caxambu.  Ele é meu amigo.

Antes que Heliberto soltasse mais uma pérola da psicologia infantil, Beraldo se interpôs entre o tio e o irmão:

— Mamãe tá te chamando lá na cozinha, Tacinho.

Feliz em se esquecer do cachorro fora de seu alcance, Tacinho trotou até a cozinha.

— É verdade que o Caxambu morreu? — Perguntou Beraldo, quando seu irmãozinho estava longe.

— Encontramos ele no quintal ontem de manhã.

— Poxa, que chato.  O que foi que houve?

— A gente acha que uma onça pegou ele.  Sabe como é, os fundos da casa dão pra floresta e às vezes aparece uma.  O Caxambu estava todo estraçalhado no quintal, meio comido até.

— Que horrível!

— Tinha umas pegadas em volta, marcas de garra, mas os fiscais do Ibama disseram que era grande demais pra ser de onça.  Havia tufos de pêlo preto por todo lado também, só que como o Caxambu era bem branquinho, isso complicou ainda mais a situação.  O pior é que outros bichos foram atacados pela redondeza nos últimos dias e ninguém sabe o que pode ser…

Beraldo, entristecido pela perda do cachorro de que também gostava, foi se debruçar na janela da casa e ficou ali, admirando a lua cheia que brilhava no céu.

 

 

VI

O Homem no Quintal

Seu Nicanor, ainda lendo a Manchete e suando dentro da sua nada tropical fantasia, ouviu as batidinhas na porta do quarto.  Era a sua deixa.  Saiu correndo pelos fundos da casa.

O homem que estava no jardim, surpreso pela súbita aparição do Papai Noel, se escondeu atrás de uma árvore.  Observou seu Nicanor com atenção enquanto este arrumava o saco de presentes em suas costas e começava a subir a escada em direção ao telhado.

Com cuidado para não ser visto pelo velho, o homem se aproximou cauteloso da escada e quando Papai Noel estava quase lá em cima, o homem segurou-a com firmeza e começou a balançá-la.

 

 

VII

Os Brincos

— Quer parar, por favor, Beraldo?!

— É que você tem uns pezinhos tão bonitinhos…

— Faz cócegas e eu não gosto.  Que mania!

— Bem, — Disse ele — você acabou encontrando com o seu pai hoje?

— Eu não queria não, mas é véspera de natal e não teve jeito de fugir.

— Quando é que vocês vão resolver esse problema?

— Pelo visto, nunca.  Agora, depois que tudo mais falhou, ele está tentando me comprar.

— Como assim?

— Precisa ver o presente que ele me deu hoje. — Afastou os cabelos para que Beraldo pudesse observar o lóbulo de sua orelha.

— São brincos lindos!  Devem ter custado uma nota!

Ela fez cara de desprezo.

— Vê-se logo que você não conhece meu pai.  Eu sei bem a história desses brincos.  Li sobre eles na Marie Claire.

— História?

Levantou de novo os cabelos:

— Apresento-lhe os famosos Brincos Dourados da Morte, como foram apelidados pela imprensa marrom brasileira.

— Acho que eu ouvi falar.  Não é aquele que todos os donos— Se calou de súbito.

— Pode dizer, eu não tenho medo.  Todos os donos morrem violentamente.  E agora… são meus!

— Tira isso, Fré!

— E você ainda fala que custou uma nota!  Será que meu pai acha que não leio jornal?!  Ontem foi o leilão do espólio da última dona desses brincos, que teve a cabeça esmigalhada em um acidente de bicicleta.  Ninguém quer essas porcarias, vai ver pagaram pro meu pai levar eles embora!

— Tá bom, tá bom, agora tira esse troço!

Fréia riu para ele:

— Ora, ora, se não é o mesmo Beraldo que quinze minutos atrás estava tentando me assustar com uma história ridícula sobre um homem que sai de um quadro…

— É verdade! — Insistiu ele.

— Pois eu vou provar que a maldição do brinco não é!  Só de pirraça!  E também, — Acrescentou em um tom de voz meigo, mas cheio de amargura — não seria certo deixar de usar o presente de meu querido “papai”…

 

 

VIII

O Jardineiro

— Quem está aí?! — Perguntou seu Nicanor, assustado com os sacolejos — Não tem graça nenhuma!

— Ô seu Nicanor, sou eu, Ladislau, o jardineiro.  Tava vindo do Bar Bitúrcio pra desejar feliz natal, vi o senhor aí, nessa fantasia, e quis pregar um susto.  Desculpa.

— Tudo bem, Ladislau.  Natal é natal, tem que perdoar.  Feliz natal pra você e pra sua família.

— Pra sua também, seu Nicanor.  Os netos é que vão gostar da fantasia, hein?  Mas não está muito quente pra esse tipo de roupa, não?

Papai Noel balançou a cabeça em afirmação e exclamou, mais uma vez:

— Tudo pelos netos!

 

 

IX

O Papai Noel

A escada desceu pela chaminé com o maior cuidado para não fazer barulho.  Em frente à lareira, seu Heliberto, dona Póvoa e dona Gracila conversavam sobre política, enquanto dona Sena, Beraldo e Fréia, do extremidade oposta da sala, tentavam distrair as crianças e fazê-las olhar para o outro lado.

Então, com um ruído seco, Papai Noel chegou.

Por um segundo ele ficou ali, imóvel, sem dizer uma palavra, e dona Gracila, tensa por causa de certos artigos no jornal, também se calou, fazendo o silêncio reinar na sala.

Meu deus!, ela pensou, não é o Nicanor!  Esse Papai Noel não é o meu marido!

Dona Gracila estava prestes a gritar para todos a apavorante verdade quando o bom velhinho piscou para ela, soltando sua inconfundível pigarreada.

Era mesmo seu Nicanor, pensou, aliviada, enquanto as crianças avançavam ferozes em direção a ele.  Chegaram perto, o abraçaram, puxaram sua barba e sentaram em seu colo, maravilhadas.

Lelinho, o mais velho, chegou a comentar, de maneira meio suspeita:

— Pena que o vovô não está aqui, não é?

 

 

X

A Metralhadora Laser

Era a hora dos presentes.  Dezinha, de três anos, ganhou um cone de pano que quando apertava, fazia desabrochar um palhaço.  Tacinho, de sete, ganhou uma metralhadora laser, que ficava vermelha, soltava faíscas e fazia um barulho infernal.  E Lelinho, de oito, ganhou um boneco de algum super-herói japonês para a sua enorme coleção.

Depois das crianças, foi a vez de Papai Noel entregar os presentes dos adultos.  Beraldo recebeu dois CDs e Fréia, uma agenda.  Dona Póvoa ganhou um novo liquidificador e seu Heliberto, uma gravata de seda.  Dona Gracila recebeu um belíssimo livro de arte sobre os impressionistas e seu Nicanor, um par de meias de lã in absentia.

— Tudo bem, Beraldo? — Perguntou Fréia.

— Claro, claro. — Ele estava com os olhos fixos no retrato do bisavô, enquanto Tacinho fazia a maior barulheira possível com sua metralhadora laser.

Será que de tanto contar essa história, ele acabou acreditando?, pensou Fréia.  Então, percebeu que os olhos do bisavô tinham começado a brilhar.

Sufocou um grito e agarrou o braço de Beraldo, que também estava hipnotizado pela cena.  No quadro, a figura do bisavô ficava cada vez mais fraca, quase sumindo.

— Pára com essa barulheira, Tacinho! — Interpelou seu Heliberto — Está tarde!  Amanhã de manhã você brinca no jardim!

Contrariado, o menino jogou a metralhadora no chão e saiu da sala.

Beraldo e Fréia despencaram no sofá.  O retrato do bisavô continuava como antes.

 

 

XI

O Estrondo

A mesa estava liberada.  Papai Noel havia desaparecido e seu Nicanor se juntara à família, sob os olhares suspeitos de Lelinho.  Comiam, entre conversas e felicitações.

Foi necessário um estrondo, como de algo grande e peludo se chocando contra a porta, para mais uma vez interromper a festa.

— Meu deus, o que foi isso? — Perguntou dona Sena.

Seu Heliberto riu.

— Nada não, Sena.  Aqui em Capivara venta muito e a porta está meio solta.  De vez em quando ela bate.  É assim  mesmo.

— Mas tão forte?  Parecia alguém tentando arrombar…

— Deixa que eu te mostro.

Andou em direção à porta e dona Póvoa gritou:

— Heliberto, não abre essa porta!

Ele fez pouco:

— Besteira!

E abriu a porta.  Não havia nada lá fora.

 

 

XII

O Fim

Depois de saciada a fome, foram todos sentar na sala pra jogar conversa fora.  Papearam sossegados até o sono chegar.  As crianças, em seus quartos, ficaram acordadas um bom tempo, fascinadas com seus novos brinquedos.

Nossa história termina aqui.  Sem horrores, mortes ou sangue.  Tudo isso pode ficar para outro dia, para outro conto.

Afinal, hoje é noite de natal.

 

 

XIII

— Quer tirar a mão do meu peito, por favor?!  Olha que eu grito, hein?!

* * *

Direto da pilha dos rejeitados. Contos legais mas que não passaram no último crivo de qualidade para serem publicados.

Escrito na véspera de natal de 1987, quando eu tinha treze anos e estava empenhado em ler e devorar e deglutir e imitar e reproduzir os contos de terror de H. P. Lovecraft e Stephen King. Quase tudo o que escrevi na época é lixo e vale apenas como exercício (<em>treze anos, gente!</em>), mas esse aqui, em alguma medida, se mantém.

Possui uma voz própria que já dá pra reconhecer como minha. Não é bom, não é publicável, mas já é meu. Não é pastiche de ninguém.

Naturalmente, a mão narrativa é bem pesada e o desfecho me parece bem óbvio (<em>treze anos, gente!</em>) mas fico feliz de ver que sempre tive um bom ouvido pra clichês e lugares comuns.

grandezas de candura

Era tarde da noite, estavam todos meio bêbados e alguém fez a pergunta a Tarquínio:

— Qual foi a melhor sensação da sua vida?

Depois, um deles riu. Na verdade, riram todos. Como se sabe, não é difícil fazer um bêbado rir.

Mas Tarquínio antecipara a pergunta e, enquanto os outros respondiam, lembrou-se de uma noite no Galeão, alguns anos antes. A tela do computador tinha acabado de avisar que o seu vôo se atrasaria em outra hora, além das duas que estava atrasado.

Na sala de embarque, por falta de cadeiras em número suficiente para as centenas de passageiros, as pessoas se espalhavam pelo chão ou se recostavam nas paredes.

Cachecóis, luvas e sobretudos jaziam largados por sobre as malas, enquanto camisas eram abertas até o umbigo e meias de lã retiradas. Com o calor tropical, as pessoas vestidas a caráter para o país frio para onde o vôo se destinava foram obrigadas a abdicar de sua elegância e admitir que ainda estavam no Brasil. O ar, desligado, fazia com que a sala de embarque cheirasse como uma academia de musculação.

Feliz por ter conseguido uma das últimas cadeiras, Tarquínio mantinha sua mala segura entre as pernas e ouvia rádio em seu walkman. O momento que mudou a sua vida — ele nunca poderia esquecer — foi quando entrou no ar, pela terceira vez em duas horas, a música da moda daquele verão, “O Canto da Cidade”, da Daniela Mercury.

Nesse instante, — nesse exato instante! — Tarquínio, que odiava música baiana, abriu bem as narinas para soltar um longo suspiro de impaciência, e sentiu algo solto lá dentro.

Ele expirou e inspirou pelo nariz e não teve dúvidas. Havia algo em sua narina direita, uma meleca ou casca de ferida, que ia e vinha ao balanço do ar que passava. Era grande e viscosa, e apesar de estar solta o bastante para que Tarquínio a sentisse roçar nas paredes internas de seu nariz, ainda assim parecia presa em algum lugar.

Havia apenas uma solução.

Tarquínio olhou em volta, sondando as redondezas. A sala estava cheia de gente. Para qualquer direção que ele virasse o rosto, uma dúzia de pessoas o encarava. Se ele se levantasse, perderia o lugar e só deus sabe quando o avião chegaria.

Mas agora que sentira aquele roçar em seu nariz, não podia ignorá-lo. Tinha que tomar uma decisão.

Não conhecia ninguém naquela sala. Eles não sabiam o seu nome e ele não teria que conviver com eles. Era apenas uma multidão anônima, encalorada e impaciente, mais preocupada com seus problemas do que com a higiene digital de Tarquínio.

Ele tomou coragem e, com a tranquilidade de quem sabe não ter escolha, fechou os olhos e introduziu o indicador em sua narina direita.

Foi um momento mágico.

Todos os ruídos da sala de embarque cessaram e Daniela Mercury calou-se no rádio em respeito à fúria do embate. O chão e a cadeira sumiram, e era como se ele estivesse flutuando em pleno vácuo do espaço, onde nem gravidade ou oxigênio para propagação do som poderiam distraí-lo da batalha. Tarquínio não sentia mais nada além da emoção daquele combate primordial entre ele e a meleca.

De início, fez um reconhecimento do terreno, em que a ponta de seu dedo percorreu a extensão interior de sua narina. O inimigo, pelo tamanho de sua protuberância, foi fácil de localizar.

Numa manobra arriscada, Tarquínio girou o dedo, tentando desalojar o adversário com a unha. Mas a tática fracassou e tudo o que ele conseguiu foi esparramar a meleca pelas paredes do nariz.

Como a estratégia convencional parecia não funcionar, era hora de se apelar para soluções arrojadas. Retirou o dedo indicador do campo de batalha e decidiu apelar para o mindinho, de mais fácil acesso às regiões profundas de suas narinas.

O êxito foi absoluto: a medida que o novo contendor conseguiu arrastar o inimigo para a borda da narina, um forte sopro nasal encarregou-se de sua eliminação completa.

A meleca, derrotada, caiu nas mãos de Tarquínio.

O prazer do momento era tamanho que ele nem abriu os olhos. Em sua virilha, para atestar a volúpia que se apossara dele, uma ereção tentava lhe furar as calças. Tarquínio ficou ali, curtindo seu êxtase, com a meleca indefesa em suas mãos. Fez uma bolinha com ela e grudou-a embaixo da assento da cadeira.

O efeito da adrenalina foi passando e Tarquínio voltou a ouvir o burburinho da sala e a sentir o chão sob seus pés. No walkman, como se para comprovar que tamanho prazer se passara em tão pouco tempo, Daniela Mercury ainda estava cantando “O Canto da Cidade”.

Um calafrio de prazer o percorreu de alto a baixo e Tarquínio olhou em volta para seus companheiros de espera. Tudo continuava como antes.

Ele vencera, mas seu amigo bêbado, sem saber disso, o sacudiu de novo:

— E então, Tarquínio? Todo mundo falou, só falta você: qual foi a melhor sensação da sua vida?

Tarquínio encarou o grupo em expectativa e disse, sem hesitar:

— Ter comido a Lucília!

Alguém virou para os outros e gritou, às gargalhadas:

— Viu?! Eu não disse? Eu não disse? Quem me dera… Aquilo ali é o melhor cuzão do Brasil! — E de volta para Tarquínio: — Ela é boa mesmo? A melhor?

Tarquínio riu:

— A melhor!

* * *

Direto da pilha dos rejeitados. Contos legais mas que não passaram no último crivo de qualidade para serem publicados. Escrito a bordo de um voo Rio-NY em dois de fevereiro de 1994.

Sempre que começo a chorar por um motivo, termino chorando por outro.