grandezas de candura

29 August, 2011

Era tarde da noite, estavam todos meio bêbados e alguém fez a pergunta a Tarquínio:

— Qual foi a melhor sensação da sua vida?

Depois, um deles riu. Na verdade, riram todos. Como se sabe, não é difícil fazer um bêbado rir.

Mas Tarquínio antecipara a pergunta e, enquanto os outros respondiam, lembrou-se de uma noite no Galeão, alguns anos antes. A tela do computador tinha acabado de avisar que o seu vôo se atrasaria em outra hora, além das duas que estava atrasado.

Na sala de embarque, por falta de cadeiras em número suficiente para as centenas de passageiros, as pessoas se espalhavam pelo chão ou se recostavam nas paredes.

Cachecóis, luvas e sobretudos jaziam largados por sobre as malas, enquanto camisas eram abertas até o umbigo e meias de lã retiradas. Com o calor tropical, as pessoas vestidas a caráter para o país frio para onde o vôo se destinava foram obrigadas a abdicar de sua elegância e admitir que ainda estavam no Brasil. O ar, desligado, fazia com que a sala de embarque cheirasse como uma academia de musculação.

Feliz por ter conseguido uma das últimas cadeiras, Tarquínio mantinha sua mala segura entre as pernas e ouvia rádio em seu walkman. O momento que mudou a sua vida — ele nunca poderia esquecer — foi quando entrou no ar, pela terceira vez em duas horas, a música da moda daquele verão, “O Canto da Cidade”, da Daniela Mercury.

Nesse instante, — nesse exato instante! — Tarquínio, que odiava música baiana, abriu bem as narinas para soltar um longo suspiro de impaciência, e sentiu algo solto lá dentro.

Ele expirou e inspirou pelo nariz e não teve dúvidas. Havia algo em sua narina direita, uma meleca ou casca de ferida, que ia e vinha ao balanço do ar que passava. Era grande e viscosa, e apesar de estar solta o bastante para que Tarquínio a sentisse roçar nas paredes internas de seu nariz, ainda assim parecia presa em algum lugar.

Havia apenas uma solução.

Tarquínio olhou em volta, sondando as redondezas. A sala estava cheia de gente. Para qualquer direção que ele virasse o rosto, uma dúzia de pessoas o encarava. Se ele se levantasse, perderia o lugar e só deus sabe quando o avião chegaria.

Mas agora que sentira aquele roçar em seu nariz, não podia ignorá-lo. Tinha que tomar uma decisão.

Não conhecia ninguém naquela sala. Eles não sabiam o seu nome e ele não teria que conviver com eles. Era apenas uma multidão anônima, encalorada e impaciente, mais preocupada com seus problemas do que com a higiene digital de Tarquínio.

Ele tomou coragem e, com a tranquilidade de quem sabe não ter escolha, fechou os olhos e introduziu o indicador em sua narina direita.

Foi um momento mágico.

Todos os ruídos da sala de embarque cessaram e Daniela Mercury calou-se no rádio em respeito à fúria do embate. O chão e a cadeira sumiram, e era como se ele estivesse flutuando em pleno vácuo do espaço, onde nem gravidade ou oxigênio para propagação do som poderiam distraí-lo da batalha. Tarquínio não sentia mais nada além da emoção daquele combate primordial entre ele e a meleca.

De início, fez um reconhecimento do terreno, em que a ponta de seu dedo percorreu a extensão interior de sua narina. O inimigo, pelo tamanho de sua protuberância, foi fácil de localizar.

Numa manobra arriscada, Tarquínio girou o dedo, tentando desalojar o adversário com a unha. Mas a tática fracassou e tudo o que ele conseguiu foi esparramar a meleca pelas paredes do nariz.

Como a estratégia convencional parecia não funcionar, era hora de se apelar para soluções arrojadas. Retirou o dedo indicador do campo de batalha e decidiu apelar para o mindinho, de mais fácil acesso às regiões profundas de suas narinas.

O êxito foi absoluto: a medida que o novo contendor conseguiu arrastar o inimigo para a borda da narina, um forte sopro nasal encarregou-se de sua eliminação completa.

A meleca, derrotada, caiu nas mãos de Tarquínio.

O prazer do momento era tamanho que ele nem abriu os olhos. Em sua virilha, para atestar a volúpia que se apossara dele, uma ereção tentava lhe furar as calças. Tarquínio ficou ali, curtindo seu êxtase, com a meleca indefesa em suas mãos. Fez uma bolinha com ela e grudou-a embaixo da assento da cadeira.

O efeito da adrenalina foi passando e Tarquínio voltou a ouvir o burburinho da sala e a sentir o chão sob seus pés. No walkman, como se para comprovar que tamanho prazer se passara em tão pouco tempo, Daniela Mercury ainda estava cantando “O Canto da Cidade”.

Um calafrio de prazer o percorreu de alto a baixo e Tarquínio olhou em volta para seus companheiros de espera. Tudo continuava como antes.

Ele vencera, mas seu amigo bêbado, sem saber disso, o sacudiu de novo:

— E então, Tarquínio? Todo mundo falou, só falta você: qual foi a melhor sensação da sua vida?

Tarquínio encarou o grupo em expectativa e disse, sem hesitar:

— Ter comido a Lucília!

Alguém virou para os outros e gritou, às gargalhadas:

— Viu?! Eu não disse? Eu não disse? Quem me dera… Aquilo ali é o melhor cuzão do Brasil! — E de volta para Tarquínio: — Ela é boa mesmo? A melhor?

Tarquínio riu:

— A melhor!

* * *

Direto da pilha dos rejeitados. Contos legais mas que não passaram no último crivo de qualidade para serem publicados. Escrito a bordo de um voo Rio-NY em dois de fevereiro de 1994.

§ 29 comentários para “grandezas de candura”

  • TGS says:

    Alex,
    Tentei, tentei e tentei e não entendi pq entregaste tudo no título… Poderias explicar (rapida ou longamente, como lhe aprouver)?
    Abraços

  • Samuel Santos says:

    Alex, gostei do texto!

    mas pq vc considerou que ele é sobre Perda?

  • Alessandro says:

    Olha, eu não acho que um conto deve passar a mesma coisa para os leitores. Ele tem que ser lido e deslido, estar sujeito à interpretações, mesmo que equivocadas. Dom Casmurro que o diga.

  • Mário Buldrini says:

    Alex,

    excelente conto. Escrita leve e agradável para ler. Não sei o porquê de certa rejeição (tanto sua quanto de outros leitores), pois o tema faz parte do cotidiano de muitos, seja por “limpar o salão” ou mesmo mentir; nesse caso, a mentira masculina sempre vai para o lado da virilidade!

    Sempre leio seus textos! Você é um grande escritor! Abraços!

  • marcos nunes says:

    É interessante; muita gente acha que coisas prosaicas não dão literatura, mesmo sabendo (ou não sabendo) da dedicação de Joyce às dejeções em Ulisses, e que não dá para misturar “transcendências” a sensações físicas gozosas ou de mero alívio refrescante modelo Kolynos, mas dá. O conto me oferece a oportunidade de pensar a experiência da vida entre a verdade e a mentira, a depressão e o êxtase, a convenção e a invenção, na medida das interseções possíveis que terminam por fornecer certa relatividade às nossas pretensões e um leve perdão ás nossas fraquezas – afinal, encarar o mundo inteiro às vezes não é a melhor tarefa para cumprir, ao menos em dado momento – principalmente às voltas com um monte de bêbados num bar com suas canalhas e calhordas investidas eróticas sob os eflúvios fantasiosos do álcool.

  • Durval says:

    Bom, eu gostei porque, antes de interpertar, o texto me fisgou, me conduziu, me fez rir, me teleportou até o aeroporto lotado e calorento, me identifiquei e compartilhei sensações com o Tarquínio, voltei com ele à “realidade”.
    Acho que seu conto fala de tudo isso que as pessoas leram, de nojo, de canalhice masculina, de quebra de tabus (e também de resignação diante deles, uma vez que Tarquínio preferiu dar uma resposta mais “aceitável” para a pergunta).
    E até outras leituras que talvez os outros não compartilhem, por exemplo, acho que a resposta do Tarquínio, mais do que motivada por vergonha, foi por uma espécie de pena complacente dos amigos, tipo “vocês nunca compreenderiam, vou dar-lhes a resposta que esperam, para não perturbar suas ilusões e para não ter que dar explicações”.
    Gostei também das três dimensões em que a história acontece, a primeira sendo o local onde os amigos estão reunidos bebendo, a segunda o aeroporto e a terceira o nirvana proporcionado pela caça à meleca, de como o personagem vai subindo e depois descendo esses degraus de consciência.
    Mas foi só quando você disse que a intenção do texto está no título é que eu tive certeza de que não entendi nada! Não faz mal, foi um prazer ler mesmo assim.

  • Carlos says:

    Fala Alex, gostei bastante! Aquele primeiro momento em que o foda-se oq os outros esperam da gente se torna prioridade na nossa vida, mesmo q por alguns segundos, é incrivel e libertador.
    Quanto ao estilo, acho q essa batalha homem x meleca, me lembrou mt o estilo de thoreau naquela passagem das formigas, do Walden.
    Abraço!

  • Karina says:

    Ah, se vc tivesse perguntado de antemão pra todos o que tinha querido dizer no texto, creio que haveria diversidade maior nas respostas. Eu mesma teria lido com um olhar mais acurado. Agora essa interpretação das travas sociais surge com mais clareza depois de mencionada aqui, por exemplo. Mas, de cara, o que se destaca é mesmo o lance dos pequenos grandes prazeres. Não à toa muita gente parece ter ido por aí tb. E o título n aponta para direção contrária, não rs

    Não há nada de errado com o texto, vc só não conseguiu transmitir nele sua intenção. Não para todos, pelo menos. Mas cada um interpreta/curte à sua maneira, tá bacana.

  • José says:

    Eu acho que a proposta do texto é mostrar que se sabemos (ou achamos que sabemos) que algo é nojento prum grupo, mesmo que esse algo nos dê prazer, negamos esse algo.

  • FlaviaQ says:

    Sobre a sua pergunta:

    Eu achei que o conto era sobre como o cara tem coragem de fazer uma coisa nojenta e reprovavel na frente de desconhecidos, mas nao tem coragem de confessar o ato aos amigos.

    Beijos

    Ps eu gostei do conto.

  • Gustavo S. says:

    Gostei do conto.

    Aliás, me vi bastante nele. As melhores sensações da minha vida foram coisas simples, algumas quase idiotas. Mas nunca costumo dizer em público quais são. Em público costumo relatar grandes façanhas, e tirar meleca não inspira respeito.

    O conto me passou a impressão do quão simples algumas coisas boas na vida são, e a gente mesmo sabe disso, mas acha melhor procurar grandes feitos pra contar.

    Mas é difícil você interpretar um conto pro próprio autor do conto, ainda mais quando o cara diz que tá todo mundo indo na contramão do que ele quis passar. =]

  • Alexandre Lemke says:

    Agora lendo os comentários, vc falou que vc tinha uma proposta, mas o público lia outra. Só por curiosidade, o que eu disse, se encaixou no que vc propunha?

  • Eric Costa says:

    Ia fazer uma elocubração longa sobre o que apreendi do conto, mas prefiro sugerir isso de forma indireta:

    Que tal uma versão feminina, com o momento verdadeiro dela sendo algo igualmente mundano, mas ela falando às amigas que foi o casamento ou o nascimento do filho?

  • Alexandre Lemke says:

    Vim do twitter pra cá, não li os outros comentários.

    Tipo assim, velho, como isso foi rejeitado????????????????

    Eu acho que o conto fala de duas coisas:

    1) A libertação do cara das vergonhas sociais. Da preocupação com o outro em questões que não são, ou não deveriam ser importantes.

    2) De como a gente se reprime pelos outros. O cara teve aquele momento de liberdade. De poder arrancar a meleca do nariz pouco se fodendo pros outros. Mas apesar de ter experimentado, gostado, e ainda ser em público, ele se resigna em relação aos seus amigos.

    Acho que dava pra escrever um artigo sobre esse conto. Mas vou parar aqui. Abraço.

  • alexcastro says:

    durval,

    difícil de dizer. eu gosto mt dele. acho que é sutil e fala de temas que considero importantes. mas era muito deslido e mal lido, não estava tendo o efeito desejado.

    acabava sendo lido como um conto sobre a nojeira. hoje uma leitora leu como sendo um conto sobre a canalhice masculina. etc. e olha que tentei já no título direcionar a leitura.

    mas enfim, quando todos os leitores vão pra um lado quando escrevi o conto para guiá-los para outro, então existe algo seriamente errado.

  • alexcastro says:

    luis,

    pois é. as grandes sensações da vida são sempre por aí mesmo.

  • Luis says:

    Adorei! logo no começo,, qdo a pergunta foi feita, fiquei pensando tb,, a primeira coisa q me veio na cabeça foi uma vez q tinha acordado umas 6h da manha pra ir pro colegio,. com a maior preguiça do mundo, tomei banho, café, me arrumei, aí qdo tava saindo de casa minha mae me perguntou: aula hoje? aí eu disse, é ué, é segunda… aí ela, hoje é domingo! hahhaha

    caralho, so fiz tirar o sapato e desamaiei na cama. foi lindo.

    apesar disso, fiquei tentando ficar pensando em algo mais profundo e com significado hehehehe

  • Durval says:

    Eu gostei bastante. Por que ele não passou no seu crivo de qualidade?

  • Indy says:

    Aí Alex,

    Tentei ler,desisti na metade.Li os comentários,voltei e terminei de ler.Não gostei.

  • Eduardo says:

    kkkk. ri muito do lado de cá.
    Conto ótimo, leve. perfeito

  • Gil says:

    Sorriso garantido na tarde de chuva.
    Grande, Alex.

  • FlaviaQ says:

    Adoro muito tirar meleca! (principalemnte aquelas enormes, que estao metade duras e, de tão profundas, metade macias se desfazendo).

    Mas conto tranquila pra todo mundo, embora nao tenha coragem de tirar em publico…

    Tipo, eu teria trocado o banco por uma ida ao banheiro, num piscar de olhos! MAs não ia ficar pensando nisso por muito tempo.

    A melhor sensação da minha vida, foi no dia do meu casamento: ver todo mundo comemorando a MINHA felicidade.

    Sou egocentrica?

    Beijos

  • Pedro says:

    Muito bom. Delicioso de se ler.

  • Karina says:

    hehehe os grandes prazeres da vida: conseguir um banheiro (ou não, vale é liberar, mas a educação convém, né!) qd se está seguraaaaando, dormir qd se tem sono, molhar a boca qd se tem sede.

  • alexcastro says:

    Felipe, os posts estao todos lá. Vc está buscando no site certo? A maioria está aqui:

    http://liberallibertariolibertino.blogspot.com/

  • Vou guardar! Busquei e não tinha achado. :)

  • Filipe says:

    Alex,

    Falando em LLL, onde estão os textos de lá? Os posts antigos?!? Ora ou outra sinto vontade, quase uma necessidade (rs), de reler alguns, mas sumiram! =/

  • Às vezes me esqueço que cheguei ao LLL há não muito tempo atrás, através de um conto que falava sobre um telefonema, e três da manhã (ou seria três da tarde?) e morte e sei lá mais o quê. Às vezes cato esse conto para fazer propaganda de vc, divulgando por aí.

    Muito bons (este e o outro).

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