do balé ao funk, entre nazistas e aiatolás

faz cem anos da primeira apresentação do balé sagração da primavera em paris. com música de stravinski e coreografia de nijinski. um dos eventos que inauguram o século vinte nas artes. houve brigas na platéia. testemunhas dizem que nem se conseguia ouvir a música. talvez o ponto alto da história do balé, em uma época na qual balé ainda conseguia causar escândalo.

nos nossos dias, balé virou sinônimo de balé clássico. palavra odiosa essa. clássico. clássico nada mais é que um outro nome para algo morto e estático, que não cresce e que não muda, que imita um passado longínquo sem conseguir nem alcançá-lo, nem criar algo diferente. uma diversão segura e refinada para burgueses bem-alimentados aumentarem seu capital cultural — ao mesmo tempo em que apoiam a decisão da polícia militar de proibir os bailes funk nas comunidades pacificadas.

no ocidente de hoje, beethoven pode até ter virado música de elevador, mas suas obras ainda são proibidas no irã. claramente, os aiatolás vêem uma força transgressora em beethoven que já não enxergamos.

talvez apenas entendam mais de arte do que nós.

nijinski

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essa noite, vou assistir sagração da primavera no teatro municipal. tentando ter em mente todo o seu potencial escandaloso. tentando vê-lo pelos olhos de quem formou sua consciência artística no século xix. tentando vê-lo como meus amigos hoje veem o funk.

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um dos mais brilhantes livros de história que já li: “a sagração da primavera: a grande guerra e o nascimento da era moderna“, do historiador canadense modris eksteins.

começando com a primeira apresentação de sagração da primavera em 1913, passando pelo trauma da primeira guerra mundial, e culminando na ascensão do nazismo, eksteins traça a criação da nossa consciência artística moderna.

para eksteins, o nazismo é antes de mais nada um movimento artístico. e tudo começa com a sagração da primavera e nijinski dançando ao som de stravinski.

a genialidade da obra está na maneira como eksteins faz essa ponte.

recomendo.

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