Confesso: eu acredito viver no melhor universo possível.
Não suportaria existir em um universo regido por uma força divina misteriosa e caprichosa.
Não suportaria saber que minha alma viverá eternamente, em eterno prazer ou sofrimento, baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses poucos anos terrenos, e com base em critérios inescrutáveis.
Não suportaria saber que vou seguir nascendo e renascendo, quase que infinitamente, mas sem lembrar de nada!
Se existe deus, então a vida não tem nenhum sentido. Quem tem sentido é deus e o nosso sentido provém dele. Não somos mais do que suas cobaias, manipulados daqui pra lá, correndo como hamsters naquelas rodinhas, ignorantes de seus verdadeiros propósitos. Ao seu bel-prazer, somos mortos, escravizados, santificados, até mesmo afogados em massa, quando falha o experimento.
Se existe deus, então todos os esforços da humanidade para se entender e se auto-gerir, toda a ciência e toda a filosofia, de nada valem. Se existe deus, então não existe ética ou moralidade: somente adequção ou não às regras impostas pela divindade.
Se existe deus e temos o livre-arbítrio, então o arbítrio de livre não tem nada, é uma dádiva da qual só desfrutamos porque nos foi concedida e pode ser tirada tão facilmente quanto.
Já disseram que, se deus não existe, então tudo é permitido. Mas se deus existe, por outro lado, então não vale a pena fazer nada, pois nada faz sentido.
Um leitor questiona:
“Para mim, a grande questão não é se deus existe ou não, mas se nós vamos de alguma maneira continuar existindo depois da morte. Eu acredito que vamos continuar, de alguma maneira. Tenho que acreditar. Porque se não vamos, o que é essa vida senão um sonho? Aí é que ela vida não tem mesmo sentido, propósito nenhum. Se não há sentido para quê continuar? Por que não dar um tiro na cabeça daqui a cinco minutos(quando terminar o café)?”
Eu não dou um tiro na cabeça agora porque (além de não ter uma arma) quero saber o fim da novela, porque ainda há uns dois mil livros que eu quero ler e umas cem mulheres que quero comer, porque eu quero assistir os próximos filmes do Almodóvar pra saber o que esse louco vai aprontar, porque ainda falta eu escrever no mínimo uma dúzia de livros que tenho dentro de mim, e etc etc. Será que tudo isso não é motivo suficiente pra não se enfiar uma bala na cabeça?
Talvez deus realmente exista. Sinto calafrios com essa possibilidade mas, sim, talvez sejamos todos somente marionetes em seu projeto cósmico.
Mas, se não podemos ter liberdade, melhor a ilusão da liberdade do que nada.
Sou ateu não por ter concluído, após cuidadosa análise das evidências empíricas, que não existe base factual para sustentar a existência de deus.
Sou ateu porque eu só poderia existir e funcionar como ser humano em um universo sem deus.
Sou ateu porque preciso.
* * *
O texto acima foi originalmente publicado em janeiro de 2005, como parte da Prisão Religião, e foi posteriormente tirado do ar. Hoje, descobri, para minha surpresa, que ele é muito popular e já foi republicado por dezenas de blogs. Então, coloco no ar de novo, para que exista uma versão, digamos, “original”.
Acho engraçado quando as pessoas dizem que “se não há nada depois da morte, então a vida não tem sentido”.
Por que o sentido não pode estar na própria vida?? Por que tem que ser em algo que acontece depois que vc morre??
Quer dizer que viver esperando por algo que supostamente acontece depois da morte é que faz sentido? Sério mesmo?
Me parece que, de acordo com os argumentos do texto, o que vc precisa não é ‘ser ateu’, vc precisa ‘não pertencer a religiões com conceitos limitados e congelados’. Pq os conceitos de existência de um além após a morte são muito mais amplos do que os apresentados aqui, tão amplos quanto a quantidade de pessoas existentes na Terra, e se fosse para escolher entre ser ateu ou as alternativas do seu texto, eu tbm escolheria ser ateu. Nasci e cresci católico, e entendo as frases que começam com “não suportaria” pq um dia eu percebi que viver num mundo à lá catolicismo estava ficando cada vez mais insuportável. Mas penso que para essas crenças, sejam quais forem, vale o ditado: a diferença entre antídoto e veneno é a dose.
Engraçado como esse negócio de fazer sentido gera diferentes pontos de vista, até mesmo opostos. Tenho em mente que se a morte é desaparecer, apagar, um literal sono eterno, aí sim é que a vida que a gente viveu deixa de ter sentido, a princípio para a própria pessoa, mas depois que todos morrerem, sua vida tbm deixou te ter sentido para todos eles. O fim da novela, os filmes que vc viu, os livros que vc leu e escreveu, as pessoas com quem se relacionou, tudo isso desaparece como se nada tivesse acontecido, perdendo todo o sentido. Enfim, tbm encontrei em que e como preciso acreditar.
as xs nem quero saber o final dessa novela, não!
deus me livre de ser eterna! :)
Fica tranquilo. As evidências estão em sintonia com tua paz de espírito.
Eu estou com o Eduardo. Acreditar ou deixar de acreditar em algo por conveniência não faz sentido. Vontade não muda a realidade. A verdade é sempre melhor do que a ilusão.
Católica demais essa sua ideia de deus. Ou Deus, que seja.
“É curioso como não há um ateu sequer que não seja cristão.”
Hã?
É curioso como não há um ateu sequer que não seja cristão.
Oi Alex,
Todo mundo já teve ou tem tal dúvida. Todavia, acho que independente de qualquer situação positiva ou não, seguir em frente e torcer para estejamos mesmo errados pra poder consertar, pode ser uma saída. Hoje sou fria para algumas questões, mas momentos difícies exigem alternativas, ainda que sob a ordem do intangível.
Abraços,
Lu
O fato é que você NÃO ENTENDE Deus.
“…baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses poucos anos terrenos…”
Ta aí um exemplo de que você não tá entendendo muito bem o que é religião, Alex. Isso é aceito por algumas, e não por outras. Cara, você deveria procurar conhecer um pouco mais antes de fazer esse tipo de crítica tão simplória.
Eu sou ateu, mas não acho nós fazemos esse tipo de escolha. Não escolhi ser ateu “por que é melhor”, quem tem fé não “escolheu ter fé por que é mais vantajoso”. Não se escolhe esse tipo de coisa da mesma forma que se escolhe qual lubrificante você vai por no seu carro, pondo um do lado do outro e comparando qual é mais apropriado. O buraco é mais embaixo.
Seguem algumas palestras bem legais, se puder por favor assista.
http://bigideas.tvo.org/episode/142676/david-sloan-wilson-on-religion-and-other-meaning-systems
http://ww3.tvo.org/video/163562/jordan-peterson-necessity-virtue
Abraço.
Brilhante, Alex. Eu tenho tentado explicar as coisas nesses termos. Acreditar em deus é uma questão moral e não epistemológica. Precisamos decidir se é melhor acreditar em deus, quer ele exista ou não, ou se é melhor não acreditar em deus, quer ele exista ou não.
Eu concordo com você. Acreditar em deus é uma má ideia, em todos os cenários possíveis.
Forte abraço
Na verdade, eu penso que essa questão de não acreditar em reencarnação pode ser visto como um estimulante, não como algo ruim. É só você pensar: “Putz, eu não vou ter outra vida, essa é a minha única chance. Eu tenho sorte de estar aqui, então vou aproveitá-la. É agora ou nunca.”
Vê, não acredito em deus e não acredito em reencarnação, e a partir do momento que me dei conta dessas duas questões, virei a minha forma de ver o mundo e a minha própria vida de cabeça pra baixo, de uma forma muito boa e produtiva.
Tudo depende, no fim, da sua perspectiva em relação ao assunto. Eu prefiro ver o lado bom.
Acho que a existência de um deus não tornaria minha vida insuportável não, contanto que ele ficasse no seu canto e evitasse, nos momentos de piti, afogar ou queimar todo mundo.
Já a reencarnação, ao menos através da minha perspectiva, soa maravilhosa. A eternidade enclausurada em uma única vida parece assustadora, mas a mesma num ciclo eterno de nascimento e morte seria perfeita.
E isso resolveria dois problemas básicos:
1° Morro de medo de morrer, mas nesse sistema eu nunca morreria 100%
2° Não faz sentido ser eterno pra chegar num ponto de saturamento no qual nada mais seja novo e interessante. Mas se eu puder renascer, pronto, problema resolvido.
É uma pena que quando morrermos, simplesmente morreremos e nada mais. Mas tomara que eu esteja errado.