a ambição dos escravos

O que é pior: a ambição dos escravos ou a falta de ambição dos escravos?

Palavras da Condessa de Merlin, uma nobre escravocrata cubana, escritas em 1841.

Reparem como ela passa de condenar a preguiça e falta de ambição dos negros (e por isso devem ser escravizados) para logo em seguida condená-los pela suposta ambição que demonstrariam assim que libertos (e por isso devem continuar escravizados).

“Suponhamos que os ingleses consigam obter, sem transtornos e sem desordens, a emancipação dos escravos de nossas colônias. Seu primeiro sentimento, sua primeira necessidade, qual será? Não fazer nada. O trabalho lhes é insuportável e só se consegue obrigá-los a trabalhar a força. Um negro indolente e selvagem, desprovido de todo desejo de progresso, de ambição, de dever, preferirá substituir sua vida vagabunda e sensual pelos rigores de um trabalho voluntário e de um sustento adquirido com o suor de sua testa? Mas suponhamos que, por um milagre, a educação moral dos escravos libertados se desenvolvesse de repente e os trouxesse a amar o trabalho. [Adoro esse “trouxesse”: a Condessa de Merlin nunca trabalhou um dia sequer em sua vida.] Caso se convertessem em trabalhadores, os negros não demorariam em se ver atormentados pelo desejo de ser proprietários; pela rivalidade, pela ambição, pela inveja contra os brancos e suas prorrogativas. Sob um regime político constitucional, em um país governado por leis equitativas, não exigiriam participar destas mesmas instituições? E vocês lhes concederiam os seus mesmo direitos e os seus mesmos privilégios? Fariam deles os seus juizes, os seus generais, os seus ministros? Dariam-lhes suas filhas em matrimônio? Não é isso que queremos, exclamarão os amigos dos negros: que sejam livres, mas que se limitem a trabalhar a terra e a conduzir a cana como bestas de carga. Não consentirão: se hoje ocupam-se dessas atividades e consideram-se felizes em seu estado imperfeito de homens selvagens, no dia em que se acenda para eles a luz da inteligência perceberão que são homens como vocês, e o campo de batalha ficará com o mais forte. Reflitam: quando estalar o primeiro sinal de combate, não haverá piedade possível entre duas raças incompatíveis.”

O discurso da Condessa tem o grande mérito de desmascarar a hipocrisia dos abolicionistas, esses brancos bondosos que queriam a liberdade dos negros mas que sinceramente não podiam nem conceber um juiz negro ou, pior, muito pior, um genro.

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