Amar é cuidar

O cuidado amoroso verdadeiro é como o amor se manifesta no mundo.

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Existem muitos mitos perigosos em nossa sociedade.

Existe o mito do “amor materno”, que diz que toda mãe naturalmente amará sua cria mais do que tudo, e que silencia, entre muitas outras coisas, a simples realidade de que as mulheres são seres humanos individuais que amam ou não cada uma do seu jeito, e também a terrível realidade da depressão pós-parto.

Existe o mito da “feminilidade cuidadora”, que diz que todas as mulheres, mães ou não, são naturalmente mais delicadas e sensíveis, empáticas e carinhosas, e portanto, que seriam mais aptas para profissões como babá e enfermeira e menos para general de brigada e presidente da república, silenciando e invisibilizando tanto as mulheres não-cuidadoras quanto os homens cuidadores.

Por fim, existem muitos e muitos mitos sobre o “amor”, essa pretensa emoção sublime e pura que nos arrebataria o corpo e mudaria nossa vida, uma coisa linda sobre a qual muito se fala mas que eu nunca vi, peguei, cheirei, testemunhei.

Porque eu testemunho ações, não emoções: eu testemunho apenas o que as pessoas fazem, não o que elas sentem.

As emoções das outras pessoas estão para sempre fora do alcance do meu poder de observação.

As ações das outras pessoas, por outro lado, estão aí no mundo, acontecendo ao vivo e em 3D, em technicolor e em dolby surround, afetando nossas vidas e ditando o tom de nossa existência.

Para mim, o amor é um cuidado. Amar é cuidar.

Um amor, por mais incrível que se diga amor, que não se manifeste em cuidado prático e concreto… de que adianta? a quem serve?

Por outro lado, se a pessoa me cuidou com atenção e com dedicação, com respeito à minhas necessidades e aos meus limites… que diferença faz para mim o que ela realmente sentiu, essas tais emoções puras às quais não tenho nem nunca terei acesso, a não ser através de suas ações?

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Algumas pessoas, apegadas às suas idéias idealizadas de “amor puro”, reagem com horror:

“Alex, cuidado é uma coisa que se compra! Então, dá pra comprar amor?”

De fato, não sei.

No filme “Que horas ela volta?“, será que a personagem da Regina Casé realmente amava o menino da casa?

Apesar de ser paga para cuidar dele, entre muitas outras atribuições, me parece que ela também demonstrou seu amor por ele através de uma série de ações cuidadosas e cuidadoras.

Será que achamos realmente que a pessoa que trabalha em uma pré-escola ou creche, orfanato ou hospital infantil, não ama nenhuma das crianças que cuida só porque recebe dinheiro para cuidar delas?

Se essa pessoa fizer apenas o mínimo necessário para não perder o emprego, isso para mim não é cuidado e, sem cuidado, não há amor.

Mas, se cuidar verdadeiramente das crianças que recebe dinheiro para cuidar… não vejo como isso seria possível sem amor.

Não é nem que cuidar verdadeiramente sem amor é impossível.

É que cuidar verdadeiramente é amor.

Cuidar verdadeiramente é como o amor se manifesta no mundo.

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Existe um troço dentro de mim, etéreo e efêmero, que reconheço como sendo parecido ou equivalente ao conceito que a nossa sociedade articula como “amor”.

Então, chamo isso de “amor”.

O problema é que esse troço está largamente fora do meu controle. Minha vida teria sido um oceano de placidez se eu pudesse ter escolhido deixar de amar algumas pessoas e começar a amar outras, ligar ou desligar esse troço ao meu bel-prazer.

Mas, talvez a descoberta mais incrível e transformadora da minha vida, é que, em termos de minha atuação no mundo como pessoa moral, não fazia a menor diferença prática quem eu amava e quem eu não amava.

Para ouvir e acolher, abraçar e aceitar uma pessoa eu não precisava necessariamente nem mesmo gostar dela: bastava reconhecer nela a mesma humanidade, a mesma consciência, a mesma autonomia, o mesmo valor que reconheço em mim.

Hoje, ao invés de me obrigar a sentir o que não sinto, ao invés mesmo de ficar investigando o que sinto e o que não sinto (“será que amo verdadeiramente dessa pessoa?”), eu simplesmente tento cuidar amorosamente de todas as pessoas que estão ao meu alcance.

Foda-se o que sinto, o que importa é o que faço.

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Outro dia, uma pessoa me confidenciou que nunca foi amada. Nem pela mãe, nem por ninguém. Nunca. Ponto.

E eu tive a temeridade de responder:

“Olha, nem te conheço, mas posso afirmar com certeza que não.

Porque o ser humano passa anos e anos completamente dependente: durante meses, não consegue nem virar o próprio corpo na cama. Todas nós já fomos seres indefesos que só conseguiam gritar e comer, cagar e mijar.

Para qualquer pessoa adulta, teria sido fácil e tentador simplesmente dar um passo atrás e andar na direção oposta dos gritos estridentes e do cheiro de merda.

Cada uma de nós só está aqui hoje porque, ao longo de vários anos, fomos recipientes de muita atenção, muito cuidado, muito amor.

Talvez não tenha sido sua mãe. Talvez não tenha sido ninguém da sua família. Talvez você nunca saiba quem foi.

Mas, com certeza, você já foi muito amada.

Somos todas a prova viva do amor que recebemos.”

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Sou Irmão ordenado em um templo chamado Templo do Cuidado Amoroso Eterno. Frequento todos os dias, durmo lá três noites por semana, desenvolvo uma série de atividades, estou treinando para um dia me tornar professor e sacerdote nessa tradição.

O “cuidado amoroso”, com a casa e entre nós praticantes, com as pessoas que nos procuram e com o mundo, é nossa principal preocupação, nossa meta, nossa prática.

Para mim, tem sido uma honra, um privilégio, uma grande alegria poder estar lá, dedicando minha vida a esse objetivo.

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