Agostinho de Hipona

Poucos livros foram mais importantes na minha vida do que as Confissões de Agostinho de Hipona.

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Um velho amigo

Tem pessoas autoras com quem temos uma conexão tão forte.

Agostinho, pra mim, é como se fosse um velho amigo.

Impossível não pensar nele como um daqueles bróders que já carreguei depois da bebedeira mas que hoje não bebe mais. Uma pessoa sempre interessante e fascinante, não apenas pela nova vida que conscientemente abraçou, e sobre a qual fala com intensidade única, mas também pela antiga vida devassa que podemos perceber aqui e ali, por entre as frestas da nova, através de seus comentários sempre mordazes.

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Quem lê sem generosidade nunca entende nada

Agostinho de Hipona (um dos meus autores preferidos), ao explicar como ler a Bíblia (meu livro favorito), em A doutrina cristã, dá essa chave de leitura imbatível:

A Bíblia ensina o amor.

Portanto, qualquer coisa que você leia que pareça que não está ensinando o amor (tipo aqueles trechos onde Deus afoga todo mundo ou manda matar todos os cananeus) é porque você está lendo errado: existe alguma interpretação possível, simbólica, metáforica, etc que permite a leitura desse trecho onde ele ensine o amor, você é que não percebeu.

Naturalmente, é uma excelente maneira de justificar as piores atrocidades da Bíblia, mas também é uma boa maneira de ler qualquer coisa:

Em caso de dúvida ou mal-entendido, presumir o melhor, presumir o amor.

(É isso que tento praticar no Exercício do Olhar Generoso, que faz parte dos Exercícios de Atenção e é parte integrante do meu encontro As Prisões.)

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Porque reler livros

Li as Confissões aos 21 anos. Reli em Cuba, ano passado, no dia em que completei 42. Desde então, nunca mais larguei: estão sempre na minha cabeceira, e leio trechos aqui e ali.

É incrível como o livro melhorou desde a época em que eu era um moleque ateu que sabia tudo de tudo, até hoje, quando sou um homem de meia-idade que não sabe nada de nada, e se descobre cada vez mais intensamente religioso.

Uma amiga me perguntou por que reler livros.

É por isso: porque a gente muda.

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Para quem está na borda da piscina

As Confissões é um dos livros mais chacoalhadores que já li.

Fiquei mexido, emocionado, consternado.

E muito, muito irmanado, muito próximo ao autor.

Sem Agostinho, eu não teria conseguido dar o salto no zen e não teria me ordenado.

Obrigado, velho amigo.

Recomendo as Confissões de Agostinho de Hipona para qualquer pessoa que esteja a beira de uma grande decisão que simplesmente não consegue tomar.

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Uma nova tradução

O Brasil finalmente ganhou uma nova tradução do livro, mais moderna, menos engessada, com boas notas, publicada pela Companhia das Letras. Podem comprar. Recomendo a todas as pessoas.

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Alegria de bêbado

Abaixo, “Alegria de bêbado”, um dos meus trechos favoritos das Confissões, capítulo 6.3.

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“Era o dia em que me preparava para declamar os louvores do imperador; neles ia mentir muito e, mentindo granjearia a aprovação dos que sabiam das mentiras.

Preocupado, meu coração se consumia com a febre de pensamentos impuros quando, ao passar por uma rua de Milão, vi um mendigo já bêbado, creio eu, mas bem humorado e divertido.

Suspirei então, e falei aos amigos que me acompanhavam sobre as muitas dores que nos provocavam nossas loucuras.

Com todos os esforços, quais eram os que então me afligiam, apenas arrastava a carga de minha infelicidade cada vez mais pesada, aguilhoado por meus apetites, para conseguir somente uma alegria tranqüila, na qual já nos havia precedido aquele mendigo; alegria que nunca talvez alcançássemos.

O que ele havia conseguido com umas poucas moedas de esmola, era exatamente o que eu aspirava com tão árduos caminhos e rodeios: a alegria de uma felicidade temporal.

A alegria do mendigo não era certamente verdadeira, mas a que eu buscava com minhas ambições era ainda mais falsa.

Ele, pelo menos, estava alegre, e eu, angustiado; ele seguro, e eu inquieto. …

O ébrio, naquela mesma noite, curaria sua embriaguez, enquanto eu já dormia com a minha, e me levantara com ela, e tornaria a dormir e a levantar com ela!”

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Minhas edições de Agostinho de Hipona

Por Agostinho:

Confesiones.

Confessions, the. Chicago: Great Books of the Western World, 1978. [Trad: Edward Bouverie Pousey, 1914.]

Confessions. NY: Everyman’s, 2001. [Trad: Philip Burton.]

Confessions.  Oxford: OUP, 2008. [Trad: Henry Chadwick, 1991.]

Confessions.  Londres: Penguin. [Trad: R. S. Pine-Coffin, 1961.]

Confessions. Indianapolis: Hackett, 1993. [Trad. F. J. Sheed, 1942.]

Confesiones. Madri: Mestas, 2003. [Trad. Eugenio de Zeballos, 1781.]

Confissões. SP: Paulinas, 1986. [Trad: Maria Luisa Jardim Amarante, 1984.]

Confissões. SP: Nova Cultural, 1996. [Trad: J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, ?]

Confissões. SP: Quadrante, 1985. [Trad: Jorge Pimentel Cintra.]

De civitate Dei.

City of God, the. Chicago: Great Books of the Western World, 1978. [Trad: Marcus Dods, 1871.]

Concerning the city of God against the pagans. Londres: Penguin, 2003. [Trad: Henry Bettenson, 1972.]

De doctrina Christiana.

On Christian doctrine. Chicago: Great Books of the Western World, 1978. [Trad: J. F. Shaw, 1886.]

On Christian teaching.  Oxford: OUP, 2008. [Trad: R. P. H. Green, 1997.]

Coletâneas.

Basic writings of Saint Augustine. 2 vols. NY: Random House, 1948. [Org: Whitney J. Oats]

Essential Augustine, The.  Indianapolis: Hackett, 1974. [Org. Vernon J. Bourke.]

Outros

Against academicians. The teacher. Indianapolis: Hackett, 1995. [Trad. Org. Peter King.]

On free choice of the will. Indianapolis: Hackett, 1993. [Trad. Org. Thomas Williams.]

Sobre a vida feliz. Petrópolis: Vozes, 2014. [Trad: Enio Paulo Giachini.]

Sobre Agostinho

Augustine, conversions to confessions, de Robin Lane Fox. NY: Basic Books, 2015.

Augustine of Hippo, a biography, de Peter Brown. Berkeley: UC Press, 1969.

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