A Erudição dos Personagens

25 fevereiro, 2010 § 0

Sou um homem erudito. Posso, em uma só respiração, citar trocentos clássicos (que realmente li!), relacioná-los com os movimentos estéticos em voga na época e ainda jogar umas palavras em latim e francês pra impressionar.

Vão aparecer alguns idiotas achando que estou me gabando, mas é bem o contrário. Erudição é o tipo de coisa inútil que só quem não tem acha que vale alguma coisa.

E, em arte, pior, só atrapalha. Nada mais chato do que aqueles autores que esfregam sua erudição na cara dos leitores, quase sempre de modo totalmente desnecessário.

Mulher de Um Homem SóEssas arroubos de erudição até me saem muito naturalmente. Meus primeiros rascunhos são cheios deles. Quase sempre, apago todos – para minha dor, pois alguns ficam até bons, mas minha teoria da literatura não permite essas babaquices. (Outro dia, o Doutor Plausível fez um artigo sobre o chatíssimo name-dropping da nova literatura brasileira.)

Enfim, meu romance Mulher de Um Homem Só não é sobre mim, é sobre a Carla, o Murilo e a Júlia. Eu sou erudito, é o meu hobby, a Carla não. Na versão original, ela citava até Nietszche e Sartre. Era ridículo. Carla jamais teria lido Nietszche e Sartre. (Até aí tudo bem, porque a maioria das pessoas que conheço que cita Nietszche e Sartre também não leu, mas outra característica de Carla é não ser poseur e cagar pra isso tudo.)

O trecho abaixo, em itálico, foi das que mais me doeu cortar. Quase tirei a referência ao niilismo também, mas decidi deixar.

Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo – carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado – e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. Tinha uma idéia totalmente distorcida de Dostoievski, claro, baseada em uma amostra não-representativa, e, por isso mesmo, não terminou os Karamazovi, parecia que o autor estava traindo a si mesmo. Se tivessem lhe dito que o Dostoievski verdadeiro era o dos Karamazovi, teria ficado furiosa, gritaria heresia! Deveria ter acabado o romance. E era – ou se dizia, ou se pensava – uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados em frente à praia e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso – por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as mulheres lavassem suas próprias calcinhas.

Por favor, não venham me dizer que esses trechos estão fracos. Ou acham que saíram do livro por estarem geniais?

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O Erro de Nietszche

Nietszche descobriu Notas do Subsolo em 1887, um ano antes de ficar definitivamente louco e começar a conversar com cavalos, e exclamou:

I did not even know the name of Dostoievski just a few weeks ago. (…) An accidental reach of the arm in a bookstore brought to my attention L’Esprit Souterrain, a work just translated into French. (…) The instinct of kinship (or how should I mention it) spoke up immediately: my joy was extraordinary.

Naturalmente, não havia, nem poderia haver, kinship, ou irmandade, possível entre Nieszche e Dostoievski. Os dois provavelmente teriam caído na porrada. Mas o erro de Nietsche era compreensível. Quem lê um único livro de um autor, fora de contexto, teria todas as justificativas do mundo para presumir estar lendo as próprias idéias do autor. Afinal, a maioria dos autores faz isso.

Na verdade, Nietszche presta um grande elogio a Dostoievski. O espírito da ficção é esse: criar pessoas reais, capazes de idéias reais, que não necessariamente são as nossas. O autor, idealmente, deve desaparecer, e levar consigo suas idéias e sua biografia, e deixar que seus personagens vivam e brilham, alimentados por sua energia vital.

(Leia mais sobre isso no meu artigo sobre Dostoeivski.)

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Meu romance “Mulher de Um Homem Só“, narrado por uma mulher, é minha humilde tentativa de entrar na cabeça de uma mulher, de falar como mulher, de ser mulher um pouquinho. Se esse assunto lhe interessa, se ficou curioso ou instigado, dê uma olhada e descubra se fui uma mulher convincente.

Algumas mulheres que gostaram: Alessandra Bonrruquer, Paula Lee, Mary W, Marina W, Ju Dacoregio, Isabella Ianelli, Fernanda França, Re Alves.

Para ler essas e outras resenhas, comentários e reações ao livro, visite a Seção Mulher de Um Homem Só.

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Três entrevistas minhas, sobre esse livro e sobre literatura de modo geral:

- Quanto Vale ou É por Quilo – Revista Bula

- Alex Castro: Um blogueiro liberal, libertário e libertino – Global Voices Online

- Alex Castro: Escritor e Mindfucker – Portal Literal

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Para quem gosta de folhear e cheirar, o romance pode ser comprado nas seguintes livrarias do Rio e de São Paulo:

São Paulo

- HQMix (livreiro Gualberto)
Pç Roosevelt, 142 (11-3258-7740)

Rio de Janeiro

Berinjela (livreiro Daniel)
Rio Branco, 185, lj 10, Centro (21-2215-3528)

Baratos da Ribeiro (livreiro Maurício)
Barata Ribeiro, 354, lj D, Copacabana (21 2549 3850)

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Se você ainda está em dúvida se vale a pena, “Mulher de um Homem Só” também pode ser lido e folheado pelo Google Books. Mas só 50%, viu? Pra ler o resto, só comprando.

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My Novel, Now Available on Kindle

Para os tecnófilos, Mulher de Um Homem Só também está a venda na Amazon.com em formato kindle. Clique e confira .

Na verdade, se quer ler Mulher de Um Homem Só no seu kindle, fale comigo. Posso te mandar um PDF que fica muito mais bonito e legível no kindle do que o próprio formato kindle.

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Finalmente, deixe de fazer doce e compre.

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