A cruz e o carma

Outro dia, um moço me procurou. Setenta anos, alguns distúrbios mentais, um câncer no cérebro. Estava raivoso, puto, frustrado.

Em um dado momento, me acusou de não estar fazendo nada para ajudá-lo. Que o que ele precisava mesmo era que eu pegasse aquele câncer pra mim. Afinal, por que no cérebro dele e não no meu?!

E eu respondi:

“Se você pudesse pegar o meu diabetes, a minha hipertensão, a minha gota, a minha gastrite, eu pegaria o seu câncer de cérebro.”

cancer battle

* * *

Se fosse uma parábola inventada, a história pararia por aqui. Como aconteceu mesmo, eu preciso contar o que ele fez depois de eu dizer isso.

Ele franziu a sobrancelha e, primeiro, fez cara de surpreso e, depois, de desconfiado, e retrucou:

“Peralá, esse troço de diabetes mata, não mata?!”

* * *

E balancei a cabeça afirmativamente e continuei:

“Eu posso te ouvir e te acolher, te abraçar e te aceitar, mas não tenho como efetivamente tirar a sua dor e extirpar seu câncer, carregar a sua cruz e incorporar o seu carma. Sua dor e seu câncer, sua cruz e seu carma, tudo isso é seu.”

 

§ 2 respostas para A cruz e o carma

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.