25 fevereiro, 2010 §
O Prosa & Verso, suplemento literário do jornal O Globo, resenhou hoje 5 livros de literatura brasileira disponíveis pela internet. Eu, dois amigos (meu irmãozão Biajoni e minha colega de pós Ana Paula Maia) e dois que eu não conhecia. Os resenhistas não estavam puxando o saco de ninguém, porque os livros desses dois últimos foram literalmente destroçados. Para mim, pro Bia e pra Ana Paula, felizmente, só elogios.
Leia a resenha de Miguel Sanches Neto: Apelo estilístico em obra com tom de paródia (é preciso ser usuário cadastrado Globo Premium, mas é de grátis)
Aliás, se estou vendendo Onde Perdemos Tudo na internet, é graças a essa matéria. Quando o repórter Miguel Conde entrou em contato comigo (via Tata, muito obrigado!), eu não tinha nada disponível. Eu e a Ana, minha agente, tínhamos decidido parar os downloads dos livros enquanto ela bate perna procurando editora pra eles. Entretanto, para aparecer na matéria, o livro resenhado teria necessariamente que estar disponível na web – mas não necessariamente de graça. Já que teria que liberar os downloads de novo, por que não tentar uma nova experiência? Resultado: dos cinco livros, só o Onde Perdemos Tudo está a venda. Todos os outros são distribuídos gratuitamente. O que isso quer dizer? Não sei. Talvez eu seja o único metido o suficiente pra achar que meu livro vale alguma coisa.
Sobre a elogiosa resenha de Miguel Sanches Neto, só tenho uma coisa engraçada a observar: ele enfatiza várias vezes uma “gramática do meio eletrônico”, um “diálogo com formato blog” e uma “velocidade de leitura própria da internet” mas, com exceção de um curtíssimo conto, todos os outros foram escritos entre 1994 e 1997, quando mal existia a internet como conhecemos hoje, e portanto não sofreram influência alguma da estética web ou da linguagem de blog. Acho que isso só prova como o meio influencia o conteúdo, como o fato de ler um texto na web faz ele parecer um texto web. Na verdade, apesar de eu gostar dos contos, eles refletem meu estilo de dez anos atrás. Hoje, sim, meu estilo já é bastante influenciado pela internet e eu jamais, jamais usaria tantas epígrafes, por exemplo.
Se quiserem, deixem um comentário pra equipe do caderno e digam o que acharam da iniciativa. Eu achei porreta, mas eu sou suspeito, claro.
25 fevereiro, 2010 §
(Publicada no Prosa & Verso, do jornal O Globo, em 11 de novembro de 2006)
Disponíveis na internet, mas escritos para um volume impresso, os contos de “Onde perdemos tudo“, de Alex Castro, incorporam a gramática do meio eletrônico. O volume dialoga com o formato do blog, tanto pela diagramação quanto pela opção por fontes sem serifa e pela forma de dispor os parágrafos. Mais do que esse parentesco gráfico, os contos guardam a velocidade de leitura própria da internet. Lê-se com rapidez mesmo os relatos longos, que em nenhum momento se revelam cansativos. As frases e os parágrafos são curtos, o autor cria suítes, dividindo a história em blocos, com subtítulos divertidos.
O conto mais bem realizado, como quer o próprio autor, é o primeiro “A morte de meu cachorro“. História de um momento em que um casal se separa, e cada um vai cuidar de sua vida. A velhice e a solidão são atingidas quando o narrador não é reconhecido por uma alma gêmea, obrigando-se a conviver com experiências que não são mais plenamente compartilháveis. Esse esvaziamento se dá num cenário que deveria ser palco de um reencontro. A amiga muda-se para Buenos Aires, o narrador segue para visitá-la, tentando vencer a distância espacial, que cumpre seu papel: “Lendo cada um sua seção do Clarín, Fiona e eu padecíamos de um silêncio ainda mais cancerígeno [sic]: o silêncio de quem tem muito a dizer, mas prefere calar; o silêncio da conveniência. Pra que discutir? Emudecer poupa dores-de-cabeça, explicações, embaraços. Sobra o nada”. Esta elevação do silêncio a uma categoria cancerígena revela a forma dramática de representar alguns episódios. O conto não segue um fluxo narrativo contínuo, trabalha com flash-back e janelas, que são abertas para esclare cer coisas ou resumir passagens.
Outro conto interessante é o que dá título ao livro. A história se passa numa festa, quando dois ex-namorados se encontram depois de um longo distanciamento. As conversas tendem ora para o dramático, ora para o banal, e nelas cabem, por exemplo, comentários sobre um tratamento de pele. A moça é uma ficcionista, no início de carreira, com as dificuldades normais de afirmação. O ex-namorado é o modelo de personagens para ela, o que mostra que esta é uma relação de atração e repulsa. O que os separou não é conhecido, e a vida dos dois segue vazia.
Os personagens dos contos de Alex Castro apresentam uma tendência para filosofar, fortalecida pelas epígrafes, algumas longas, presentes em todos os contos. Em certas passagens, encontramos uma dramaticidade exacerbada, que valoriza o acontecimento marcante, em detrimento da exploração dos pequenos nadas. A morte, a separação e a briga acabam muito valorizadas, levando a narrativa a soluções folhetinescas.
O componente que dá literariedade aos contos é a ironia, a busca de soluções bem-humoradas. O autor, que brinca o tempo todo com conceitos literários, transita por um universo em que cabem produtos literários sofisticados e outros da cultura de massa. Os diálogos, os subtítulos e os títulos dos contos e dos livros inventados ganham um tom paródico. Tudo apontando para uma saborosa desconstrução da seriedade. Onde perdemos tudo apresenta narradores meio tagarelas – outro pedágio à internet? -, mas é justamente nisso que reside sua força. E se falta uma maior voltagem literária nestes contos, é indiscutível que a prosa de Alex Castro já possui apelo estilístico.
MIGUEL SANCHES NETO é escritor
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Agradecimentos à Olivia sem acento, que me passou o texto em formato eletrônico. Aliás, dia 5 de dezembro, ela lança seu primeiro romance, Desumano, pela Brasiliense. Quando tiver mais detalhes, eu dou.
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Onde Perdemos Tudo, meu primeiro livro de contos, lançado diretamente na internet, é formado por 5 contos, em 120 páginas, sobre o tema comum de perda.
O elogiadíssimo projeto gráfico (o livro está lindo!) é do designer Ricardo Couto, selecionado através de um concurso promovido aqui pelo blog, idéia de São Mauro Amaral.
Ficou curioso? Instigado? Pô, sete reáu é uma merreca, vale a pena arriscar. Deixe de comprar uma bananada e torne-se acionista da novíssima literatura brasileira.
25 fevereiro, 2010 §
Ontem, na Tribuna da Imprensa, uma matéria muito elogiativa de Marcelo Copelli sobre os lançamentos dessa semana:

O carioca Alex Castro é escritor, cronista e dono do blog Liberal, Libertário, Libertino, um dos mais lidos da internet brasileira. Dentre seus romances está “Mulher de um homem só”, baixado mais de 30 mil vezes durante o período em que esteve disponível gratuitamente. Uma marca, aliás, muitas vezes não atingida por escritores com livros publicados.
Na seqüência, foi um dos pioneiros em experiência de e-book (livro eletrônico) pago do Brasil, com “Onde perdemos tudo”. Começou a escrever antes mesmo de se ouvir falar em blogs, “quando eu mal tinha e-mail”, lembra Alex, que é cronista da Tribuna BIS. Resolveu, posteriormente, colocar seus textos na internet para testar a receptividade das pessoas.
E fez sucesso. Escreve, antes de tudo, por prazer (“É o que eu sei e quero fazer, desde que me entendo por gente”). e, neste ato, ousa, mescla nuances, porém reluta em atrelar as possíveis armadilhas e devaneios do seu ego ao trabalho, “Eu não sou o que eu faço, eu sou o que sou”, diz.
Ainda assim, é quase inevitável não associar o espírito contemplativo e satírico do autor aos seus textos, muitas vezes apimentados por uma intrínseca e inteligente irreverência, diga-se de passagem. Já Luiz Biajoni, jornalista paulista, igualmente blogueiro, é autor do e-book mais resenhado da rede “Sexo anal – Uma novela marrom”, romance que dá idéia de “jornalismo marrom”, explorando violência e o sexo, além de mais de 50 textos virtuais. 
Segundo Castro, “Biajoni é dotado de uma imensa genialidade e demonstra, em suas obras, uma força vital incontrolável”, comenta. Ambos, sucesso de visitas nos blogs, reconhecidos e agraciados pela crítica literária, conheceram-se pela internet. Tanto um quanto o outro usaram a experiência virtual como aprendizado, e não tiveram o uso do recurso como forma de limitação ou isolamento.
Ao contrário, fizeram da ferramenta um meio de interação com os leitores, que passam de 5 mil por dia. Os dois, então, desenvolveram conjuntamente um projeto e decidiram agora sair dos campos virtuais para o papel, lançando os livros “Liberal Libertário Libertino – Crônicas” e “Virgínia Berlim – Uma experiência”. Alex Castro, autor do primeiro, lança também em formato e-book “Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas cubanas”.
Casos inusitados
Em “Liberal Libertário Libertino – Crônicas”, Alex Castro escreve com envolvente habilidade sobre temas banais, descreve experiências e conta casos inusitados, como a história de sua fuga do furacão Katrina, em New Orleans, e a posterior busca por seu cão, Oliver, nos escombros da cidade.
Neste período, lembra Alex, “os leitores do blog acompanhavam diariamente meus passos. Preocupavam-se com o Oliver (o cachorro) e aguardavam notícias minhas. Parecia uma novela”, lembra o escritor. Em “Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas cubanas”, Alex nos mostra um novo olhar sobre Cuba, através de textos e imagens que oscilam entre a simpatia e a crítica, o amor e a repressão, revelando aspectos insólitos da cultura cubana.
Muitas das crônicas de ambos os livros foram publicadas originalmente, em sua coluna de sexta-feira, na TRIBUNA DA IMPRENSA. Luiz Biajoni, por sua vez, nos traz em “Virgínia Berlim – Uma experiência” um exercício de estilo para contar uma história de conquista e perda entre duas pessoas, colegas de trabalho que se apaixonam.
Uma obra intimista, que inova ao trazer, como brinde, um CD com canções que têm as letras traduzidas em anexo. O design e a edição dos três livros são de Albano Martins Ribeiro, do selo OsViraLata, um projeto inovador com foco na divulgação de trabalhos de escritores independentes e a promoção do contato entre autores e leitores. Através do site do selo (www.osviralata.com.br), o leitor poderá adquirir as obras, tanto as impressas quanto o e-book.
LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO – CRÔNICAS – Crônicas de Alex Castro. Edição OsViraLata. 136 págs. R$ 28,50
RADICAL REBELDE REVOLUCIONÁRIO – CRÔNICAS CUBANAS – Crônicas de Alex Castro. Ed. OsViraLata (e-book). 155 págs. R$ 20.
VIRGÍNIA BERLIM – UMA EXPERIÊNCIA. Romance de Luiz Biajoni. Ed. OsViraLata. 68 págs (inclui CD). R$ 28,50
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Para comprar os livros, clique nos links acima. Não ficou interessado? Caramba, você é difícil de agradar.
25 fevereiro, 2010 §
Sou um homem erudito. Posso, em uma só respiração, citar trocentos clássicos (que realmente li!), relacioná-los com os movimentos estéticos em voga na época e ainda jogar umas palavras em latim e francês pra impressionar.
Vão aparecer alguns idiotas achando que estou me gabando, mas é bem o contrário. Erudição é o tipo de coisa inútil que só quem não tem acha que vale alguma coisa.
E, em arte, pior, só atrapalha. Nada mais chato do que aqueles autores que esfregam sua erudição na cara dos leitores, quase sempre de modo totalmente desnecessário.
Essas arroubos de erudição até me saem muito naturalmente. Meus primeiros rascunhos são cheios deles. Quase sempre, apago todos – para minha dor, pois alguns ficam até bons, mas minha teoria da literatura não permite essas babaquices. (Outro dia, o Doutor Plausível fez um artigo sobre o chatíssimo name-dropping da nova literatura brasileira.)
Enfim, meu romance Mulher de Um Homem Só não é sobre mim, é sobre a Carla, o Murilo e a Júlia. Eu sou erudito, é o meu hobby, a Carla não. Na versão original, ela citava até Nietszche e Sartre. Era ridículo. Carla jamais teria lido Nietszche e Sartre. (Até aí tudo bem, porque a maioria das pessoas que conheço que cita Nietszche e Sartre também não leu, mas outra característica de Carla é não ser poseur e cagar pra isso tudo.)
O trecho abaixo, em itálico, foi das que mais me doeu cortar. Quase tirei a referência ao niilismo também, mas decidi deixar.
Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo – carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado – e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. Tinha uma idéia totalmente distorcida de Dostoievski, claro, baseada em uma amostra não-representativa, e, por isso mesmo, não terminou os Karamazovi, parecia que o autor estava traindo a si mesmo. Se tivessem lhe dito que o Dostoievski verdadeiro era o dos Karamazovi, teria ficado furiosa, gritaria heresia! Deveria ter acabado o romance. E era – ou se dizia, ou se pensava – uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados em frente à praia e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso – por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as mulheres lavassem suas próprias calcinhas.
Por favor, não venham me dizer que esses trechos estão fracos. Ou acham que saíram do livro por estarem geniais?
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O Erro de Nietszche
Nietszche descobriu Notas do Subsolo em 1887, um ano antes de ficar definitivamente louco e começar a conversar com cavalos, e exclamou:
I did not even know the name of Dostoievski just a few weeks ago. (…) An accidental reach of the arm in a bookstore brought to my attention L’Esprit Souterrain, a work just translated into French. (…) The instinct of kinship (or how should I mention it) spoke up immediately: my joy was extraordinary.
Naturalmente, não havia, nem poderia haver, kinship, ou irmandade, possível entre Nieszche e Dostoievski. Os dois provavelmente teriam caído na porrada. Mas o erro de Nietsche era compreensível. Quem lê um único livro de um autor, fora de contexto, teria todas as justificativas do mundo para presumir estar lendo as próprias idéias do autor. Afinal, a maioria dos autores faz isso.
Na verdade, Nietszche presta um grande elogio a Dostoievski. O espírito da ficção é esse: criar pessoas reais, capazes de idéias reais, que não necessariamente são as nossas. O autor, idealmente, deve desaparecer, e levar consigo suas idéias e sua biografia, e deixar que seus personagens vivam e brilham, alimentados por sua energia vital.
(Leia mais sobre isso no meu artigo sobre Dostoeivski.)
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Meu romance “Mulher de Um Homem Só“, narrado por uma mulher, é minha humilde tentativa de entrar na cabeça de uma mulher, de falar como mulher, de ser mulher um pouquinho. Se esse assunto lhe interessa, se ficou curioso ou instigado, dê uma olhada e descubra se fui uma mulher convincente.
Algumas mulheres que gostaram: Alessandra Bonrruquer, Paula Lee, Mary W, Marina W, Ju Dacoregio, Isabella Ianelli, Fernanda França, Re Alves.
Para ler essas e outras resenhas, comentários e reações ao livro, visite a Seção Mulher de Um Homem Só.
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Três entrevistas minhas, sobre esse livro e sobre literatura de modo geral:
- Quanto Vale ou É por Quilo – Revista Bula
- Alex Castro: Um blogueiro liberal, libertário e libertino – Global Voices Online
- Alex Castro: Escritor e Mindfucker – Portal Literal
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Para quem gosta de folhear e cheirar, o romance pode ser comprado nas seguintes livrarias do Rio e de São Paulo:
São Paulo
- HQMix (livreiro Gualberto)
Pç Roosevelt, 142 (11-3258-7740)
Rio de Janeiro
Berinjela (livreiro Daniel)
Rio Branco, 185, lj 10, Centro (21-2215-3528)
Baratos da Ribeiro (livreiro Maurício)
Barata Ribeiro, 354, lj D, Copacabana (21 2549 3850)
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Se você ainda está em dúvida se vale a pena, “Mulher de um Homem Só” também pode ser lido e folheado pelo Google Books. Mas só 50%, viu? Pra ler o resto, só comprando.
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Para os tecnófilos, Mulher de Um Homem Só também está a venda na Amazon.com em formato kindle. Clique e confira .
Na verdade, se quer ler Mulher de Um Homem Só no seu kindle, fale comigo. Posso te mandar um PDF que fica muito mais bonito e legível no kindle do que o próprio formato kindle.
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Finalmente, deixe de fazer doce e compre.
25 fevereiro, 2010 §
Os Viralata acabou mas meu romance Mulher de Um Homem Só continua a venda.
Em 2009, ele foi homenageado por duas pessoas que respeito muito: primeiro, a Mary W. o colocou como sua melhor leitura de 2009 e, depois, Mestre Inagaki, classificou-o entre os cinco melhores livros do ano – ao lado da buceta do Bia.
Ontem, a Cris Cerdera, mulher linda, querida e inteligentíssima, também publicou uma não-resenha sobre Mulher de Um Homem Só, ressaltando uma abordagem possível da história que poucos outros leitores mencionaram:
Não sou eu que tenho que resistir ao livro. É ele que precisa resistir a mim. Precisa dar um chute bem dado nas minhas desconfianças. Provar que merece minha atenção e meus afetos. Tenho que admitir que o livro do Alex fez isso ““ e fez bonito demais. Porque eu me apaixonei. …
Ele [O Alex] brinca com a língua, existe uma relação dele com a língua que é erótica, de desejo, de fruição, bem como fala o Barthes. O Alex tem intimidade com essa senhora. Nas mãos dele, ela ““ a língua ““ se entrega. …
A narradora [Carla, casada com Murilo], me confundiu, me exasperou, me deixou com vontade de dar um chute na bunda dela. Me levou pra dentro da história, dialogou comigo, olhou no fundo do meu olho e me perguntou: “Você me entende?” …
E existe também o fato ““ para mim muito claro ““ de que o autor lança uma bela e espessa cortina de fumaça nos nossos olhos. Porque, ao contrário do que possa parecer, MduHS não é uma história de ciúme. Isso não ficou claro logo no começo para mim. Foi preciso prestar atenção demorada às palavras de Carla pra perceber isso. MduHS é a história do amor de Carla por Júlia. E de como ela resistiu a esse amor até o fim. Esse dado, esse “˜truque”™ do autor me fisgou. Porque não há nada que seja dito claramente. A gente nunca vai poder dizer com toda certeza e eu acredito que a boa literatura faça exatamente isso. …
Me lembro de uma professora da graduação que dizia, ao comentar o texto do Eco, Obra aberta: “˜Gente, a obra é aberta, mas não é escancarada”™. E o que isso vem a ser? Isso quer dizer, apenas, que as possibilidades de leitura estão inscritas no próprio horizonte do texto. Essas possibilidades podem ser múltiplas ““ sim, óbvio ““ mas não infinitas. Não disparatadas. É no próprio tecido da narrativa que vamos encontrar as pistas de que necessitamos.
Então, só como exemplo, eu vou transcrever aqui uma das passagens do livro que para mim é das mais belas:
Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela e política e fofocas em geral. Outra vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconsequência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato [...]
Clique aqui para ler a não-resenha completa da Cris. Ou deixe de doce e compre o livro.

25 fevereiro, 2010 §
No depoimento insuspeito da brilhante Mary W. para o Amálgama:
Mulher de um homem só (Os Viralata, 2009) é o melhor livro que eu li em 2009. O autor, Alex Castro, tem uma visão bastante peculiar da psiquê feminina e então o livro é absurdamente relacional. O masculino e o feminino tentam dialogar e a verdade é que o masculino acaba calado. A narradora conta toda a história sem tentar encobrir neuroses e birutices de qualquer espécie. Daí que ela somos todas nós. Ou todos nós. A leitura flui e a gente não vê o tempo passar enquanto lê. O que é significativo já que
se trata de uma história que deveria ser pesada (ela está falando sobre um casamento marcado por desconfianças e a gente percebe que toda a vida dela é marcada por essa infelicidade conjugal). Mas a gente não se cansa. Não sente o peso. Há apenas identificação e gargalhadas. Um livro sobre esse tal mal-estar contemporâneo. Sobre indivíduos que se comunicam apenas através de loucuras. Sobre a dificuldade de mantermos em pé as instituições do passado (casamento, família). E tudo contado assim, através de uma personagem sem freio, que faz com que a gente desembeste com ela.
É muito significativo quando alguém que a gente respeita profundamente escreve um depoimento desses sobre nosso livro. Foi meu presente de natal.
O Amálgama me fez a mesma pergunta, mas não consegui dar uma resposta.
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Leia gratuitamente via Google Books, compre via Kindle (tem uma boa seleção de blurbs nessa página), veja as resenhas e comentários de outros leitores, confira as livrarias no RJ e SP onde você pode comprar o livro à moda antiga, pague via PayPal (caso você não tenha cartão de crédito brasileiro) ou, simplesmente, pare de fazer doce e compre.
25 fevereiro, 2010 §
Para muitas leitoras, a história de Libeca – que pode ser lida como um conto independente – é a melhor parte de Mulher de Um Homem Só. Para convencer quem ainda estava em dúvida, o trecho completo:
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Mas às vezes ele me choca, me choca de verdade. Algumas histórias não sei se teria casado se soubesse. A primeira vez que esses ideais inconstantes do Murilo foram postos à prova foi com o caso da Libeca e, nessa prova, o Murilo não passou não, não passou mesmo, teria ido direto pra recuperação e ia ficar dezembro todo na sala de aula. Mas acho que sou eu. Religiosa ou não, não interessa, sou muito passional, muito apegada à vida: uma vida, um minuto a mais de vida que seja, não vale todas as teorias e argumentações e racionalizações do Murilo, e não entendo como ele pode ser tão frio, como pode colocar idéias antes de gente, e isso me assusta, porque decidi passar a vida com esse homem, e ele é o pai da minha filha, e não sei se posso confiar nas decisões dele, se o seu bom senso errático não poderia preferir lealdade a algum ideal abstrato do que à vida de Raquel. E essa história me bota medo, mas vou contar mesmo assim, vou contar o que Murilo fez com a Libeca porque isso tem tudo a ver com o que houve depois.
Júlia, como sempre, estava lá. Os dois estudaram juntos em um colégio católico (até o Murilo se revoltar e pedir pra sair, vocês lembram), os dois cresceram juntos, porra. Faziam tudo juntos. Se não fosse por mim, ainda estariam fazendo, mas esquece. Apesar do companheirismo todo, apesar de tanto amor entre eles, não andavam no mesmo grupo: eram a única interseção de dois círculos diferentes. Os amigos de Júlia não entendiam o que via em Murilo, como agüentava andar com um chato daqueles, caretão e pentelho, de óculos fundo de garrafa e vocabulário difícil, e também tinham ciúmes dele, porque apesar do grupo e da galera, daquela turma toda de gente tão interessante e avançadinha (ou assim eles se consideravam), Murilo era a prioridade de Júlia e ela largava tudo para estar com ele. O vice-versa, naturalmente, era verdadeiro, como não?
E chegamos a Libeca, que andava com Júlia e seus amigos, fumava maconha e ouvia rock progressivo, pichava banheiros e matava aula de ginástica. Estavam todos no começo do segundo grau, ou ensino médio, é isso que estão chamando agora?, e finalmente podiam se vestir como quisessem: a obrigatoriedade do uniforme só ia até a oitava série. E Libeca era daquelas alunas citadas pelos freis mais conservadores para justificar a insensatez de tal medida: só se vestia de preto, jeans rasgados, coturnos fedorentos, essas coisas. Os jeans rasgados foram proibidos, sob o argumento de que as roupas dos alunos precisavam, pelo menos, estar inteiras, mas o resto era ou deixar ou voltar aos uniformes. Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo, carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado, e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. E era, ou se dizia, ou se pensava, uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados no melhor bairro da cidade e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso. Por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as meninas de sua idade lavassem as próprias calcinhas. Falando em calcinhas, Libeca e suas amigas também gostavam de defender o amor livre, que sexo não significava nada, que essas coisas não tinham importância alguma, e faziam pouco de meninas como eu, que éramos direitas e vaidosas, não fumávamos e tínhamos o mínimo de decoro. Mas muitas dessas minhas amigas tão decorosas já namoravam firme, aqueles calouros universitários que na época nos pareciam uns homenzarrões, e, com eles, perdíamos a inibição, ficávamos mais seguras de nossos corpos e brincávamos de colocar coisas deliciosas na boca, essas travessuras que só se faz com quem se confia, com quem se é íntimo, com quem se ama, mesmo sendo aqueles amores fugazes mas faiscantes da adolescência. Enquanto isso, Libeca sentava no colo dos garotos, se dava a intimidades físicas com todos, porque essas coisas não importavam, eles botavam a mão aqui e ali e, quem visse, diria que era mulher liberada e experiente, mas quando estava a sós com eles, toda a força dos valores culturais decadentes da nossa sociedade se fazia sentir e Libeca defendia com fúria aquele ultrapassado e cabeludo conceito de honra que residia ali no meio das suas pernas, e nunca fez nada com nenhum dos garotos em cujo colo sentou. E, às terças-feiras, Libeca se desvencilhava dos amigos em segredo e ia visitar sua bisavó, que era uma velha muito sozinha que morava em um asilo no subúrbio, seus pais e seus avós nunca iam, mas Libeca se sentia mal com isso, e ficava mais de duas horas em três ônibus pra chegar no asilo e nunca faltava, e levava escondido um saquinho de pão de mel pra bisavó, que não podia comer doce por causa do seu diabetes, mas que dizia pra Libeca que vida sem pão de mel não valia a pena, e Libeca levava, e ficava lá vendo a bisavó quebrar o pão de mel com os lábios porque não tinha mais dentes e deixava a massa derreter na boca, e as duas conversavam, a bisavó ouvia a Voz do Brasil todo dia e sempre perguntava pra Libeca suas opiniões, o que pensava desse novo Plano Cruzado, se era fiscal do Sarney, se a seleção tinha chances de levar o tetra no México ou até se a Viúva Porcina devia mesmo era ficar com o Roque, e era bom porque isso forçava Libeca a se informar e, além de ler Dostoievski e não entender, também enfrentava a Veja todo domingo. Enfim, quinze anos.
Desculpem o desvio mas é que, assim como a Libeca se sentia mal com o abandono da bisavó, também me sinto mal que Murilo e Júlia, apesar de tudo e depois de tudo, nunca tenham sabido quem era essa moça que queria se matar. Gosto de me enganar achando que saber do pão de mel teria feito alguma diferença para o Murilo mas não: ele agiria como agiu de qualquer jeito – Júlia talvez levasse o pão de mel em consideração.
E, nesse dia, estavam os dois, Murilo e Júlia, em um dos seus cantos preferidos do colégio, aproveitando sua meia hora de recreio debaixo da sombra de uma amendoeira: ela fumando e desenhando em um caderninho e ele lendo algum livro da coleção Vagalume, acho que o Escaravelho do Diabo. Então, apareceu a Libeca e, ao contrário de quase todos os outros colegas da Júlia, a Libeca tolerava o Murilo, até gostava dele um pouquinho. Tinha um assunto pessoal pra falar com a amiga, mas Murilo estava lá e a Libeca não se importou, contou pra ele também. Não era segredo.
Libeca queria morrer. A vida não fazia sentido, nossos valores morais eram falsos ícones impostos por uma mídia corrupta e globalizada, as relações humanas eram regidas por um deus artificial criado para facilitar a dominação dos mais fracos pelos grandes cartéis internacionais… Ah, chega! Quem é que já não ouviu esse tipo de conversa? Não tenho estômago de repetir essas besteiras todas, acho muito triste uma menininha assim já com tanto amargor na boca, e sem razão alguma, e não gosto de falar muito porque nessas horas penso na minha filha, se também não poderia estar falando pra outros jovens da idade dela que a vida não presta.
Mas tenho que continuar porque Libeca continuou, não parou; não parou mas falava com muita calma, aquela calma que assustava, e dizia que não queria mais, já tinha inclusive tentado o suicídio antes, ao treze anos, mas agora era pra valer. De que adiantava ficar no mundo quando não se gosta de nada? Não tinha vaidade, não gostava do seu corpo, não gostava da sua família, não gostava da sua vida, a vida não lhe dava prazer. E acrescentou, pra surpresa boba do Murilo, pois Júlia já sabia, não porque Libeca tinha contado, mas porque não comprava aquele mise-en-scene todo, que era virgem – virgem!, e Murilo corou, como se essa idéia atentasse contra algum senso de pudor seu, logo ele que só iria perder a virgindade dali a dois anos, em um puteiro de segunda – que não conhecia o prazer sexual e que nem queria conhecer, tudo era tão falso nesse mundo!, nem se masturbava, sentia nojo do menor prazer físico, e lá se foi Murilo corar de novo enquanto Júlia nem piscou.
E, no fundo, coitados deles dois, que se achavam tão adultos e inteligentes e sofisticados, mas só tinham quinze anos mesmo, e nem desconfiaram que Libeca nunca tinha tentado o suicídio coisa nenhuma e que se masturbava toda noite sim, muitas vezes passava a noite inteira se masturbando, como se aquele ato individual, aquele único ato não influenciado pelas forças imperialistas que dominavam todos os aspectos de nossas vidas, fosse, por isso mesmo, a única coisa que valesse a pena ser feita, e que tinha muito prazer sim cada vez que chegava no asilo e sua bisavó ainda estava viva, tinha medo profundo do dia em que chegaria lá e não houvesse a quem dar o pão de mel.
Mas Murilo e Júlia levaram aquilo a sério. Murilo e Júlia, aliás, levavam tudo muito a sério naquela época, eram jovens seríssimos, convencidos de uma suposta situação de maturidade precoce e que, portanto, deveriam se comportar de acordo. E tinham razão de levar Libeca a sério porque dessa vez era sério mesmo. Libeca queria morrer: o prazer de encontrar a bisavó era um prazer amargo, misturado com medo, e ela, quando se masturbava, não sentia realmente prazer físico algum, não pensava em ninguém, não visualizava nada, se masturbava a seco, se masturbava de ódio, ficava vermelha, inchada, depois ardia pra urinar, até o chuveirinho do bidê doía. Menos uma ou outra pequena mentira, Libeca queria mesmo morrer e, por isso, estava ali pedindo ajuda daquela maneira tão óbvia, tão ridícula, coitada. E também não tinha sido à toa que Libeca discutira o assunto na frente do Murilo, embora ela mesma nunca tenha se dado conta disso, porque, em sua cabeça, Murilo era mais centrado, mais adulto que Júlia. E Libeca esperava que fosse justamente ele quem a cortasse e dissesse o que é isso?, você é tão jovem!, que absurdo!, você tem a vida toda pela frente!, e esses clichês que, salpicados na hora certa, podem salvar uma vida, porque ninguém realmente deseja morrer – muito menos uma adolescente sadia, de dentes perfeitos e no peso certo.
Murilo, entretanto, que corava com masturbações e virgindades, permanecia impassível ao suicídio. E foi Júlia a primeira a falar, mas ainda demorou um tempo, porque estava chacoalhada por dentro, e precisou esfriar seu temperamento quente antes de abrir a boca, e se lembrou de o quanto realmente gostava de Libeca, e pensou em alguns bons momentos das duas, e enquanto isso o tempo ia passando, um silêncio desagradável debaixo da árvore, mas o engraçado é que não era, quero deixar bem claro, silêncio de hesitação. A resposta que Júlia deu ela teria dado imediatamente: o tempo de espera foi porque queria se controlar por dentro, queria ter certeza de que, quando falasse, seria de voz firme, queria fechar os olhos às lágrimas para que não escapulisse nenhuma. E se esfriou e olhou para Libeca e, com a seriedade que só uma adolescente extremamente convencida de sua própria importância pode ter, afirmou:
- Vou sentir muito a sua falta.
E Libeca emudeceu. Emudeceu mesmo. Não só naquela conversa não: ficou calada pelo resto do dia. Mas ah!, nem precisava falar: estava na presença de dois loquazes filósofos, bastava que ouvisse, que se regalasse com aqueles grãos-de-bico de sabedoria, maduras (quase podres) lições de vida. Estava muda mas ainda participava da conversa: virou-se para Murilo, a pessoa de quem mais esperava ajuda, o “homem” mais responsável do grupo, e ele apenas sacudiu a cabeça, concordando com Júlia. Sei o que Libeca pensou e não foi não, Libeca, isso é que é o pior. Os dois cretinos nunca tinham conversado sobre isso, nunca haviam debatido suicídio, nunca haviam decidido o que fazer se uma situação como aquela se apresentasse. Nada disso. Ambos chegaram àquela mesma posição ridícula espontaneamente. E nem mesmo foi um quem influenciou o outro. Murilo só não disse as mesmas palavras que Júlia porque mal conhecia Libeca, seria hipócrita dizer que sentiria a falta dela. Pensou um pouco no que falar e acrescentou, sem o menor constrangimento de usar a palavra sagrado:
- É seu direito. Nosso direito sagrado.
Libeca continuou muda e ele desenvolveu:
- Na nossa existência, só temos dois momentos realmente íntimos. Dois únicos momentos nos quais uma pessoa fica sozinha consigo mesma e ninguém tem nada a ver com isso.
E Murilo fez uma pausa, não uma pausa dramática, mas uma pausa cumplicitória, esperando que sua amiguelhazinha adivinhasse seu pensamento e completasse seu raciocínio. Júlia entendeu. A primeira era fácil:
- O suicídio e… Ela hesitou um pouco, formulou uma resposta, questionou, confirmou, verbalizou: …a masturbação.
Pronto. Feliz com sua comparsa, Murilo continuou o discurso, fruto de seus dezesseis anos incompletos de sabença, a cara cheia de cravos e erupções, o cabelo penteado em uma franja pra esconder as espinhas da testa:
- Nada é realmente nosso. Tudo pode ser tirado, recolhido, leiloado. Mas nossa vida é só nossa, só diz respeito a nós. Seria uma grande arrogância e uma enorme falta de respeito da nossa parte ter a ousadia de lhe dizer o que fazer com sua vida.
E Júlia, não encontrando mais nada eticamente aceitável para falar, repetiu:
- Vou sentir sua falta.
Libeca entendeu. Demorou um pouco, mas entendeu. Era sério mesmo. Os dois não estavam brincando. Não seria ali que Libeca ouviria os clichês de consolo de que precisava. Por fim, Júlia decidiu elaborar:
- Acho até filosoficamente errado (filosoficamente é o caralho!, pensou Libeca, mas continuou calada para ouvir até o fim) eu falar isso, não tenho nada a ver com sua vida, mas vou dizer de qualquer jeito: gosto muito de você, Libeca, muito mesmo!, e pegou a mão de Libeca, e Libeca estava tão anestesiada por aquela palhaçada que nem puxou a mão de volta como queria, e caso essa seja a sua decisão, quero que saiba que vou sentir muito sua falta e vou ficar muito triste.
E acabou. Murilo havia feito seu discurso. Júlia, já tendo falado mais do seria filosoficamente correto, também se absteve da conversa. E Libeca, Libeca concluiu que realmente não havia mais nada a ser dito, não tinha mais o que fazer ali, nunca teve. Foi embora.
E eu, o que posso dizer mais? Os dois sábios nem mesmo discutiram entre si o assunto depois. Não havia o que discutir. Concordavam de tal maneira que a única coisa que poderiam acrescentar eram parabéns mútuos por sua atitude lógica e coerente. Mas não havia por que parabenizar o outro por não ter feito mais do que sua obrigação de ser humano pensante. E é esse, minha amigas, o pai da minha filha. E, ainda mais assustador, Júlia é a madrinha.
(Quanto a Libeca, ela morreu, naturalmente. Teve um câncer maligno repentino nos ossos e se desmilingüiu em poucos meses. Deixou um viúvo, um ex-marido, três filhos e uma netinha que mal conheceu. Como quase todas nós, conseguiu sobreviver aos seus quinze anos. O mais irônico é que, talvez, com a ajuda de Murilo e Júlia. Dado seu rancor contra o mundo naquela época, não sei se clichês de CVV teriam salvo sua vida. Mas aquele choque com certeza a balançou. Libeca passou os dias seguintes odiando aqueles dois putos, nem se lembrou de o quanto odiava a si mesma. Quando passou o ódio, também havia passado o impulso. E não voltou mais. Entrou em outra fase, parou de ler e nunca nem abriu a coletânea de Nietzsche que comprara algumas semanas antes. Foi passar o verão no nordeste, se apaixonou por um surfista e deixou o cabelo crescer, trocou piercings por tatuagens e continuou sendo adolescente, e dali a pouco mudou tudo de novo, e assim foi indo. Só soube mesmo o que era orgasmo, entretanto, com o segundo marido, mas nem isso foi lá grande perda, porque passou todo o primeiro casamento achando que estava tendo orgasmos e gostando muito, e isso é o que conta. Enfim, Libeca sobreviveu e nunca mais dirigiu palavra a Murilo e, portanto, saiu da minha história.)
Ai, quem me dera ter contado esse caso apenas para exemplificar as esquisitices de Murilo e Júlia. Dizer: eles são assim, ó. Por exemplo, olha só o que eles fizeram quando tinham quinze anos. Mas não. A historinha é importante, pois não é a criança o pai do homem? Não estão esse Murilo e essa Júlia, que tão eticamente aconselharam a Libeca, dentro do pai e da madrinha da minha filha?
* * *
Convencida, finalmente? Então, compre o livro.

25 fevereiro, 2010 §
Acabei de revisar “Usucapión”, a tradução para o espanhol do meu romance “Mulher de um Homem Só“.
Foi uma das maiores emoções da minha vida. Jamais poderia imaginar que seria tão forte. Imagino que ser pai deva ser um pouco assim: porque aquela criança era minha, era minha como poucas coisas jamais poderão ser minhas, mas por outro lado também é da Ianina, tradutora de mão-cheia, que colocou ali muito do seu trabalho, do seu artesanato, das suas emoções, da sua sensibilidade.
Reler minhas palavras em espanhol me fez ficar ainda mais consciente da importância da escolha de cada palavra, de cada ambiguidade, de cada lugar-comum, de cada neologismo.
Estou mexendo no texto ainda, mas se houver tradutores ou falantes nativos de espanhol que queiram dar uma olhada, por favor, levantem o braço. Tenho muitas dúvidas esparsas e sempre preciso de feedback!
* * *
Um trechinho, para compararem com esse aqui:
Libeca cultivaba sus enormes ojeras con un cuidado parecido al que nosotras, las chicas más femeninas, sólo le dedicábamos a nuestras cabelleras: cabellera que Libeca había rapado al estilo cadete del ejército. Fumaba marihuana pero nunca sintió nada (fingía, para no pasar vergüenza) y era literata, tan literata como se puede ser a esa edad: adoraba a Dostoievski, había leído Memorias del subsuelo, cargaba siempre una edición en su cartera, que todo el grupo había leído y subrayado, y, atraída por el autor, comenzó a leer Los Hermanos Karamazovi pero nunca lo consiguió acabar. Y era, o se decía, o se pensaba, una rebelde, una nihilista (palabra que le encantaba salpicar en las conversaciones, para mostrar cuán sofisticada y culta era), y todo esto a los quince años, que, de hecho, pensándolo mejor, es en la única edad que es perdonable imaginarse nihilista. Vivía en un apartamento de casi mil metros cuadrados en el mejor barrio de la ciudad y tenía siempre un chofer a su disposición, pero, por cuestiones ideológicas, sólo iba a la escuela en ómnibus y tenía un orgullo planetario de eso. Por otro lado, nunca se le había ocurrido, que en el mundo exterior, las chicas de su edad se lavaban su propia ropa interior. Hablando de ropa interior, a Libeca y a sus amigas también les gustaba defender el amor libre, ya que el sexo no significaba nada y esas cosas no tenían ninguna importancia, no pensaban muy bien de chicas como yo, que éramos estrictas y vanidosas, no fumábamos y teníamos al menos un poco de pudor. Pero muchas de mis amigas más pudorosas ya estaban bien de novias con esos novatos de facultad que en aquella época nos parecían grandes hombres y con ellos, perdíamos todas las inhibiciones, estábamos más seguras de nuestros cuerpos y jugábamos colocándonos cosas deliciosas, esas travesuras que sólo se hacen con personas en las que se confía, con quien se es íntimo, con quien se ama, inclusive siendo esos amores fugaces de la adolescencia. Mientras tanto, Libeca se sentaba en el regazo de los chicos, tenía intimidad física con todos, porque esas cosas no importaban, ellos le metían la mano aquí y allá, y quien viera eso, diría que era una mujer liberal y con experiencia, pero cuando estaba sola con ellos, toda la fuerza de los valores culturales decadentes de nuestra sociedad se hacían sentir y Libeca defendía con furia aquel ultrapasado y peludo concepto de honra que residía allí en medio de sus piernas , y nunca hizo nada con los chicos en cuyos regazos se sentó. Y, los martes, Libeca se deshacía de los amigos y en secreto se iba a visitar a su bisabuela, que era una vieja muy solitaria que vivía en un asilo en los suburbios, sus padres y sus abuelos nunca iban, pero Libeca se sentía mal con eso, y pasaba más de dos horas en tres ómnibus diferentes para llegar al asilo y nunca faltaba, y llevaba una bolsita escondida con pan de miel para la bisabuela, que no podía comer dulces por causa de la diabetes, pero que le decía a Libeca que la vida sin pan de miel no valía la pena, y Libeca le llevaba el pan de miel y se quedaba viendo a la bisabuela partirlo con los labios porque no tenía dientes y dejaba la masa derretirse en la boca y ahí las dos conversaban, la bisabuela oía los noticieros de radio todos los días y siempre le preguntaba a Libeca cuáles eran sus opiniones sobre distintos asuntos, qué pensaba del nuevo presidente, si la selección tenía alguna posibilidad de ganar el Mundial de Fútbol, inclusive si la huérfana de la telenovela debía quedarse con el médico, y todo esto era bueno porque obligaba a Libeca a informarse, y además de leer a Dostoievski y no entenderlo, también tenía que enfrentarse con los periódicos todos los días. En fin, quince años.
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Convencida, finalmente? Então, compre o livro.

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Em tempo: para todas suas necessidades de tradução, revisão e transcrição, recomendo enfaticamente a empresa da Ianina e do Emanuel, Traduções Emcampos.
25 fevereiro, 2010 §
Entrevista concedida a Luis Eduardo Matta, no Digestivo Cultural, de 20 de março de 2007.
A internet, queiramos ou não, é uma realidade para a literatura, sobretudo a fértil literatura que vem surgindo da pena (ou seria do teclado?), de jovens escritores, muitos dos quais talentosos e com bom domínio da escrita e que, por razões variadas, não se aventuraram pelo mercado editorial tradicional.
Resistente no começo, o establishment cultural começa a reconhecer o potencial da internet e a levar em conta os trabalhos nela publicados. Recentemente, o prestigiado suplemento literário “Prosa & Verso” do jornal O Globo, começou a dedicar espaço para resenhar livros publicados exclusivamente na Web. Um dos primeiros autores a ser agraciado com essa iniciativa foi Alex Castro, titular do popular blog Liberal ““ Libertário ““ Libertino e escritor carioca atualmente residindo nos Estados Unidos, que teve o seu livro de contos Onde perdemos tudo resenhado pelo renomado crítico e escritor Miguel Sanches Neto, na edição de 11 de novembro passado. Alex Castro é, também, autor do romance Mulher de um homem só, que já foi baixado trinta mil vezes, durante os três anos em que esteve disponível gratuitamente na internet. Uma marca, aliás, que muitos escritores com livros publicados não consegue atingir.
Se a literatura e a internet farão um casamento duradouro ““ ou até mesmo eterno ““ ou se não passa de uma fase, isso ainda é uma incógnita. Eu, pessoalmente, tenho sérias dúvidas sobre se o livro de papel tal qual conhecemos irá desaparecer, como muitos prevêem; o que, naturalmente, não impede que um suporte eletrônico de leitura se consolide e ambos possam conviver sem atritos.
Na entrevista abaixo, Alex Castro nos fala sobre a sua experiência literária na internet, sua obra e sua visão sobre a literatura contemporânea, aproveitando para contar um pouco sobre a sua vida, o que poderá surpreender vários dos leitores do seu blog e, até mesmo, da sua literatura.
1. Alex, você escreveu um romance Mulher de um homem só e, agora, aventurou-se, também, pelos contos, com Onde perdemos tudo. Quais seriam as semelhanças entre esses dois trabalhos? Quais foram as suas intenções ao escrevê-los (se as houve)?
São dois projetos bem distintos. O livro de contos Onde perdemos tudo reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Eu nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta.
O romance, Mulher de um homem só, desenvolve o tema de um dos contos: se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.
2. Você mantém um blog muito popular na internet. A sua experiência na rede inspirou-o ou auxiliou-o na sua atividade literária? Gostaria que falasse um pouco a respeito.
Tanto Onde perdemos tudo quanto Mulher de um homem só foram escritos antes que eu ouvisse falar de blogs, quando eu mal tinha e-mail. Acho engraçado as pessoas que lêem esses livros e fazem análises complexas sobre sua linguagem web! Mas, enfim, cada leitor lê como quer, não há leitura certa.
Meu blog foi criado em função de um outro projeto, ainda em andamento, de um livro de ensaios sobre as prisões que acorrentam o pensamento do homem, como religião, monogamia, heterossexualidade, preconceito, patriotismo, ambição, medo, verdade, etc. Como são ensaios polêmicos, achei que seria interessante testá-los antes na internet para ver que tipo de recepção teriam. E, bem, é isso que ainda estou fazendo. Só mais tarde aproveitei a plataforma web para também divulgar esses outros trabalhos que já estavam prontos.
Aprendi muitíssimo com a experiência. Hoje, já acho imprescindível esse contato de um escritor com seu público que a internet permite. O escritor que não usa desse recurso está se limitando e se isolando, está se comportando como um surdo que não quer ouvir seu público.
Por outro lado, acho importante acabar com essa idéia de “escritor-blogueiro”. Antigamente, os poetas mimeografavam suas poesias e iam de bar em bar distribuindo-as, e ninguém os chamava de “poetas-mimeografeiros”. Eu distribuo meus livros em formato PDF e não sou um “escritor-pedeefeiro”. As pessoas confundem meio com mensagem. A internet é somente mais um meio, uma plataforma, que permite que a literatura seja melhor distribuída, mas ainda é a mesma literatura de sempre.
Mesmo os ensaios das prisões, que foram escritos depois de eu ter experiência com web e blogs, não têm nada a ver com a estética, agilidade, vocabulário ou concisão da internet. São ensaios longos, complexos, refletidos. Não foram escritos para serem lidos em cinco minutos, por alguém desatento, que está batendo papo no MSN e checando e-mail ao mesmo tempo. Exigem um leitor crítico e pensante.
3. Há elementos autobiográficos nos seus livros ou estes são apenas produto de uma mente criadora?
Eu acho que não há nada mais tedioso, lugar-comum e narcisista do que esses escritores cujos protagonistas são sempre o alter ego deles mesmos, esses escritores que escrevem livros para falar de si mesmos ou para exorcizar seus demônios.
Fiz isso só uma vez, no último conto de Onde perdemos tudo, que é um conto humorístico, pra quebrar um pouco o clima deprê do livro. É a história de um escritor chamado Alexandre que está pra lançar seu livro de contos Onde perdemos tudo quando descobre um conto igual em outro livro escrito cinqüenta anos antes. A grande brincadeira é mostrar, entre outras coisas, o ridículo desse negócio de escrever sobre escritores escrevendo sobre escritores. Jurei que nunca mais faço isso, a não ser que tenha um bom motivo.
Olha, meus demônios eu exorcizo na terapia. Eu já me conheço, não preciso usar ficção pra isso. Para mim, literatura é para criar gente, pra eu entrar na cabeça de outras pessoas, pra eu tentar criar empatia com esses personagens tão diferentes de mim, para eu tentar descobrir como essas pessoas reagiriam a determinadas situações. Se for pra falar de mim mesmo, qual é a graça? Eu já sei quem eu sou. Eu já sei o que eu faria. Melhor escrever não-ficção.
Então, não: meu trabalho, além de não ser autobiográfico, é anti-autobiográfico. Às vezes, só o fato de um personagem ser parecido comigo já me corta o tesão. Meu romance, Mulher de um homem só, ficou parado por muito tempo, porque ele deveria logicamente ser escrito do ponto de vista do Murilo ou da Júlia, que são personagens um pouco parecidos comigo. E eu nunca começava o romance porque, bem, eu já conhecia esses personagens, não tinha interesse em mergulhar neles, faltava tesão. Só quando uma amiga me sugeriu que o romance fosse narrado pela esposa é que a coisa deslanchou. Eu não sabia quem era aquela mulher, ela não tinha um grande papel na trama, ela não era nada parecida comigo. Escrevi Mulher de um homem só, então, para conhecer a Carla, para saber que tipo de pessoa ela era, para compreender por que ela fez as coisas que fez e aturou as coisas que aturou.
E, por outro lado, claro, toda literatura é autobiográfica, de certo modo, porque a matéria-prima da literatura é a vida. O escritor rouba pedaços de vida de todo mundo que ele conhece, e mais ainda de si mesmo. Então, todos os personagens de um escritor são repletos de coisinhas dele, de coisas que aconteceram com ele, de manias que ele tem ““ mas também das coisinhas e manias dos seus amigos e parentes. Então, apesar dos meus personagens terem várias experiências em comum comigo ou com pessoas que conheço, eles não são nem eu nem essas pessoas. Se não achasse que são indivíduos independentes, nem teria mostrado o texto pra ninguém, aliás.
4. Como blogueiro consagrado, como você vê o papel da internet no campo da cultura, da informação e do entretenimento hoje em dia? Você acredita que a internet vai substituir a imprensa e o suporte livro tal qual nós conhecemos hoje?
Blogueiro consagrado? Ha ha. Quando me dizem isso eu sempre lembro de uma amiga que definiu com precisão: ser um “blogueiro famoso” é como ser “miss minissaia do festival das flores de Lambari, ou seja, nada.”
Enfim, eu não sou contra ler na tela per se. Eu tenho um laptop e leio muito nele. Tem pessoas que falam que o papel sempre será superior porque podem ler num parque, encostados numa árvore, ao ar-livre, e eu acho uma certa graça porque eu faço tudo isso com meu laptop! Mas, realmente, ler romances ou poesia sempre vai ser melhor no papel.
Por outro lado, jornais, enciclopédias, atlas e dicionários já estão totalmente obsoletos, as pessoas só ainda não sabem disso. Hoje em dia, quem ainda gasta R$2 mil numa Enciclopédia Britânica? Dou aulas pra muitos jovens e nenhum deles lê jornal-papel. A geração que está virando gente hoje lê jornais na Web. Eu mesmo não entendo o que leva alguém a comprar um jornal às onze da manhã, sabendo que ele foi fechado às vezes mais de doze horas antes e está completamente desatualizado. Além de que suja as mãos, é difícil de dobrar e mata arvorezinhas. Sim, muita gente diz que gosta justamente dessa liturgia ritual do dobrar e desdobrar, das pontas dos dedos sujos, mas são porque associam o gestual ao ato de se informar, porque cresceram assim. Enquanto essas pessoas viverem, haverá jornal. O problema é que, como os jornais não estão adquirindo novos leitores, quando morrer essa geração, o jornal acaba. Do meu ponto de vista, aliás, faria mais sentido dar de graça os jornais impressos desatualizados e depois cobrar para o leitor entrar no site e ler as notícias atualizadas. Mas eu sempre vejo tudo ao contrário.
Já a literatura acho que não tem nada a temer da internet.
5. Tanto Mulher de um homem só quanto Onde perdemos tudo foram publicados na internet. Como é essa experiência de publicar unicamente no mundo virtual? Você se sente gratificado? Como é o retorno dos leitores? Como tem sido a receptividade dos livros junto aos internautas?
Lancei Onde perdemos tudo na internet em setembro de 2006, já vendi cerca de 60 cópias (o que parece pouco) mas ganhei líquidos R$700, o que é muito, ainda mais pra um livro de contos de um desconhecido. Se o livro tivesse saído por uma editora tradicional e eu ganhasse os tradicionais 5% do preço de capa, eu teria que vender mais de mil exemplares pra ganhar a mesma coisa.
Mulher de um homem só foi distribuído gratuitamente na rede por 3 anos, sendo baixado mais de 30 mil vezes. Graças ao romance e ao blog, um professor universitário brasileiro nos Estados Unidos me convidou para vir fazer doutorado em Literatura em Nova Orleans, e é onde estou agora, vivendo de bolsa. O blog rende em média R$500 por mês só em comissões do Submarino e do Google. Parece pouco, mas pra um blog que nunca achei que daria nada? O dinheiro fica acumulando na minha conta corrente no Brasil e, quando volto pra casa, vivo por conta dessa grana, o que é uma sensação bem gostosa.
Na verdade, para mim, como escritor de literatura, a internet já me deu BEM mais leitores e BEM mais dinheiro do que eu conseguiria publicando por uma editora tradicional. Só falta mesmo o reconhecimento dos meus pares ““ outros escritores, professores de letras, jornalistas culturais, os literatos em geral. Como ainda não passei por esse ritual de passagem do livro impresso, ainda não sou escritor, sou “blogueiro”. Veja bem: não estou dizendo que as uvas estão verdes. Eu quero passar pelo ritual de passagem, quero sair em livro impresso, quero ser aceito como um igual pelos membros da minha tribo, mas a internet me fez ver o verdadeiro valor disso. Tornou-se apenas um ritual, de valor simbólico. Leitores e dinheiro, que são o que há de mais concreto, eu sei que consigo mais através da internet.
6. Como você enxerga a nova literatura contemporânea brasileira? Você tem contato com escritores da chamada “nova geração” e/ou com seus livros e textos? Você percebe características comuns nos trabalhos destes jovens autores e nas suas propostas literárias? Pode-se distinguir uma voz e uma fisionomia predominantes nesta nova literatura? E como você situaria o seu trabalho dentro dela?
Pode parecer incrível para quem me vê como um blogueiro tecnófilo do século XXI, mas eu sou um homem do século XIX. É lá que eu passo a maior parte do tempo, é lá que eu trabalho, é de lá que são os livros que eu leio. Meu maior interesse intelectual, por dez anos, foram as guerras do Prata, desde a conquista final do Uruguai, em 1816, até o final da Guerra do Paraguai.
Agora, meu tema principal de pesquisa são as representações da escravidão na literatura brasileira do século XIX, com ênfase no processo de canonização literária. Será que escravidão foi abordada de forma diferente nos romances que foram consagrados e nos que foram esquecidos? Será que a abordagem de um tema polêmico e desagradável desses não influiu no processo de canonização? Ou seja, não é nem que a escravidão foi ignorada, mas que o establishment ignorou os livros que falaram dela. E qual a relação disso com o processo de formação de uma identidade nacional através da literatura? Será que, nesse momento de decidir quem éramos, queríamos ser um país caracterizado pela escravidão? A coisa também passa por questões de teoria e estética da recepção. Afinal, como esses livros, tanto canônicos quanto não-canônicos, eram lidos? Quem os lia?
Além disso, para fins de comparação, estou mergulhando fundo na literatura abolicionista cubana, um país bem parecido com o Brasil em muitas coisas mas com uma literatura completamente diferente, com romances abordando de frente os dilemas mais duros da escravidão, problematizando questões que nenhum escritor brasileiro ousou nem levantar. Por quê? Por que tamanha diferença? Por que os escritores cubanos ousaram atacar literariamente a escravidão enquanto os brasileiros fugiram da raia e fingiram que não viram o problema?
Em suma, sei que fugi da pergunta mas já volto. Eu queria dizer que meus interesses intelectuais e literários me prendem tanto ao século XIX que, sinceramente, não tenho tempo nem saco pro XX nem pro XXI. O século XX foi um século chato e sangrento. Não me atrai.
Li pouquíssimos autores contemporâneos e gosto de menos ainda. Tenho todos os Livros do Mal e acho que os Daniéis, Galera e Pellizzari, ainda vão muito longe, mas que nem começaram a dar tudo o que podem dar. O Biajoni, que escreveu o ainda não publicado Sexo Anal, um dia vai ser visto como o gênio da nossa geração. Dos meus contemporâneos, acho que os melhores são o Alexandre Soares Silva e a Daniela Abade. A Coisa Não-Deus e Crônicos são romances simplesmente sensacionais, criativos, poderosos, que fogem à estética vigente, que ousam, arriscam. Me entristece ver que ambos não são nem um pouco badalados e que estão sempre parecendo que vão parar, enquanto que semi-analfabetos vivem saindo nas primeiras páginas de cadernos literários. Outro grande livro contemporâneo foi Aqueles Cães Malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, que ganhou o Jabuti em 1995, publicou outros dois livros praticamente iguais ao primeiro e depois sumiu. Por fim, o grande lançamento do ano passado foi o tour-de-force da Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor, um tijolão maravilhoso de mil páginas, no melhor estilo dos romances do século XIX que eu amo, contando 80 anos de vida de uma escrava africana no Brasil. Ainda vai ser um clássico. De resto, ou não li ou não gostei.
A nossa literatura contemporânea tem uma série de cacoetes que me incomodam. Um deles é essa mania de escritor escrever livros sobre escritores malditos, bebendo, fumando e falando palavrão, andando por uma cidade suja e sem nome, mostrando como a vida é tediosa e sem sentido, como não significa nada, blá blá blá. Bukowski já fez isso. Rubem Fonseca já fez isso. Até Camus já fez isso. Essa estética do maldito é muito chata. Não que eu seja contra per se, mas que é algo que já foi feito à exaustão. Estorvo, do Chico, pra mim é emblemático desse processo, um livro que reúne todas as piores características desse “gênero”.
E o pior é que esses escritores se chamam, na maior cara dura, de malditos, rebeldes e ousados. Ora, gostando-se ou não, “maldito, rebelde e ousado” (ele iria odiar a classificação) é A Coisa Não-Deus, do Alexandre Soares Silva, um livro que é diferente de tudo o que é publicado por aí, ambientado em um céu povoado pelos grandes gênios da humanidade! Veja bem, não estou nem falando de qualidade, muita gente pra quem emprestei A Coisa Não-Deus odiou, o que só prova que meu gosto é o inverso do senso comum. Mas, independente da qualidade do produto final, não há ousadia ou rebeldia alguma em se publicar mais um romance sobre sexo, drogas e rock’n'roll, sobre narradores apáticos em uma cidade violenta, sobre narradores que são um pastiche, voluntário ou não, dos piores livros de Rubem Fonseca e João Gilberto Noll. Alguns desses romances são melhores, outros são piores, mas há pencas deles nas livrarias. Qual é a ousadia nisso? Ousadia é escrever um livro debochado ambientado no céu. Você pode até gostar do livro ou não, mas tem que reconhecer que é ousado.
Assim como ousado é o Bia, que escreveu um livro chamado Sexo Anal, sobre uma moça que adora, bem, sexo anal, e é um livro engraçado, sensível, feminino, lindo. Esse é tão ousado que já passou por tudo quanto é editora e nenhuma teve culhão de publicar. Ousado também é você, Luis, com o seu projeto maravilhoso e quixotesco de criar uma literatura de entretenimento no Brasil, porque nem sempre a gente quer um romance transcendental, às vezes a gente quer só umas perseguições e explosões, e sem um mercado editorial saudável mantido por livros de entretenimento que vendam bem, também não se tem uma boa literatura.
Então, eu acho que a fisionomia, a voz dessa nossa nova literatura é a voz dos narradores apáticos, beberrões, drogados, insensíveis, violentos, em suma, chatos, chatos de doer. Eu tento ao máximo me situar fora disso.
Mas, como eu disse, sou mesmo um filho do século XIX.
25 fevereiro, 2010 §
Linda, inteligente, grande amiga, não-blogueira, Alessandra Souza também escreveu um não-post em seu não-blog sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:
O que eu mais gostei no RRR é a total ausência de trilha sonora de violinos. Sabe, aquela música triste que a gente sempre ouve na parte dramática dos filmes? Em nenhum momento, nem os que descrevem os aspectos mais difíceis da vida dos mais maltratados dos cubanos, minha cabeça produziu a trilha dos violinos tristes.
Isso porque, mesmo que seja de certa maneira “um retrato verdadeiro e sem disfarces da vida cubana e do sofrido, porém digno e corajoso povo de Cuba”, eca!, o livro é divertido. Muito divertido. Mais ainda se você conhece o Alex e consegue imaginar ele se passando por cubano na fila da sorveteria, paquerando a bibliotecária ou – a melhor de todas – aplicando o “contrajineteio” (tem que ler para entender).
Claro, se você precisa conhecer o autor para aproveitar a obra, é sinal que o livro não é tão bom assim. Apesar do que eu acabei de dizer, RRR não tem esse problema. Ele vale pelo que é: o relato da viagem de uma pessoa inteligente, observadora, mundana e praticamente sem vergonha na cara para um lugar que já é especial por várias razões.
Ainda por cima, o livro está lindo. Sério mesmo, a edição ficou o máximo, cheia de fotos ótimas que o Alex tirou por lá e é muito confortável para ler na tela ““ isso porque eu não gosto de ler nada mais longo que um conto no computador. Recomendado.
E então? Vai ficar só você sem ter lido?
Ah, e não conhece o não-blog da Alessandra, eu recomendo.
25 fevereiro, 2010 §
O simpaticíssimo Doni leu meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas e me fez elogios que me deixaram emocionado:
Cuba é a prova cabal de algo sobre as pessoas que eu, lento que sou, só fui aprender após alguns semestres de Psicologia: a grande maioria de nós apenas vê aquilo que quer ver. Os fatos não importam nada, pois haverá quase sempre um filtro moral ou ideológico que nos impedirá de enxergar mesmo. Ruim? Eu acho, mas a maioria de nós precisa disso, das verdades mastigadas que tornam a vida mais simples. Afinal, é muito mais fácil lidar com a dicotomia “nós x eles” do que com o absurdo da nossa imprevisibilidade.
Meus conhecidos “de esquerda”, mesmo quando voltam de visitas a Cuba, apenas falam das maravilhosas conquistas da revolução, de como aquele povo sofrido conquistou a dignidade, a igualdade e o direito de andar de cabeça erguida. É a terra prometida aos filhos de Trotsky. Já os “de direita”, você sabe, vão atentar para o fato de que o regime de Fidel Castro nada mais é que uma ditadura e que a população é sufocada em sua liberdade de expressão e etc. Os debates são como brigas de torcida, onde apenas valem as crenças e preconceitos de cada grupo, naturalmente melhores e verdadeiras.
Alex Castro é outro tipo de pessoa, tão ou mais irritante que os já citados, para ser sincero. Seja ele visto como um liberal libertário ou como um rebelde revolucionário, ele na verdade é um chato, crítico e cínico. É exatamente por isso que eu o acho a pessoa mais “confiável” para falar sobre Cuba, por mais que ele mesmo deixe claro já no início de seu livro Radical Rebelde Revolucionário que talvez nada do que ele relata nas 155 páginas seguintes seja verdade. É um bom começo.
Alex é curioso por natureza. Sua “vida burguesinha entre os shoppings da Barra da Tijuca” poderia tê-lo transformado no turista padrão, incapaz de ir além de seu mundinho, mas o leitor poderá perceber em diversos momentos que por mais que o ato de viajar seja custoso para ele, desconfortável, mais desconfortável ainda é não saber, não conhecer a fundo as pessoas. Assim, ele se torna um descobridor de histórias e de contradições.
A Cuba descrita em seu livro é feita de relações humanas, econômicas e afetivas, e não há maneira melhor de se estudar um povo. A narrativa é irônica, mas não sabemos se a ironia é a típica do autor ou está nas situações: Antes, gritavam aos exilados: “traidores!”. Hoje, o grito é outro: “trae dólares!”.
Tudo é paradoxal em Cuba. Meu momento favorito é quando ele fala de como é a imprensa estatal: “noticiar crimes, por exemplo, não está entre as tarefas de uma imprensa revolucionária. Poderia haver um serial-killer solto em Havana, com havaneiros tropeçando em corpos para chegar à banca de jornais, e não haveria nem uma linha sobre isso no Granma”. E de como o povo lida com isso: “Talvez vocês não tenham percebido a enorme ironia da situação. Se Cuba tivesse um povo largamente ignorante e semi-alfabetizado (como o brasileiro, por exemplo), pode até ser que engolissem tudo o que o governo diz. Entretanto, esse mesmo governo educou brilhantemente sua população no método científico, no materialismo dialético e no pensamento crítico. Ou seja, a prova de que a educação estatal funciona é justamente o fato de a população não acreditar na imprensa estatal”. Perfeito até ao falar do Brasil. Alex criou um livro cheio de belas referências, crítico, mas também poético e belo: “mãe, o moço quer tirar fotos dos meus pés. Tem problema?”.
A conclusão? “Alguns estrangeiros ignorantes ou preconceituosos dizem que não tem nada em Cuba. O governo diz que tem de tudo. A verdade está no meio”. O gostoso mesmo é compartilhar com ele cada uma das situações que o fizeram chegar a essa verdade, ou ilusão, quem sabe?
Obrigado, Doni! E você? Não vai ler?
25 fevereiro, 2010 §
Meu hilário amigo Adaílton Persegonha, do Leite de Pato, também escreveu seu depoimento sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:
Pronto, lá vem Titio Persegonha falar mal de comunista outra vez”¦ Bom, apesar de eu achar que isso seja função social de quem não toma sorvete pela testa, não é nada disso. O blog é do meu caro amigo Alex Castro. De liberal, libertário e libertino (não necessariamente ordem) a radical, rebelde e revolucionário há uma grande distância. Não para a pena de Alex.
Alex foi a Cuba. E de lá nos trouxe as suas deliciosas, saborosas crônicas cubanas (não tão saborosas quanto Annie, sua companheira de viagem, presente no livro, mulher pela qual qualquer um se apaixona à primeira lida). E o legal de seu texto é exatamente a forma de descrever o dia-a-dia da ilha de Dom Fidel. Sem carregar nas tintas ideológicas – tanto para um lado, quanto pro outro. É um livro para aturdir esquerdistas e direitistas.
Foi com enorme prazer que li os originais do livro de Alex. Aliás, faltam algumas páginas, mas o desfilar de seus personagens reais, a paisagem de um país perdido entre o presente, o passado e um futuro sempre incerto, as confusões de suas diversas moedas, sua crítica ácida (e ranzinza no meu modo de ver) do turismo sob a batuta do seu imenso poder de observação e objetividade me fizeram ter um sonho: ver este livro lançado em território cubano!
Valeu, Persegonha! Agora só falta você comprar.
25 fevereiro, 2010 §
Resenha do meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas, por Luana Chnaiderman de Almeida, publicada em seu blog:
A difícil arte da viagem
Não há nada mais difícil do que sair de casa. Mesmo para aqueles que dizem que amam viajar, que são despreendidos e não sentem saudades nem falta de nada e que dizem chegar em qualquer lugar e se adaptar totalmente, é sempre difícil sair de casa. Sair de verdade. E casa, aqui, pode ser tomada no sentido de espaço privado, doméstico, conhecido, domesticado, obediente. Em casa sabemos quais são as regras, os gostos, as expressões. Podemos antecipar reações, calcular riscos. Sair de casa, para valer, significa estar num espaço que não é seu, em meio a códigos não dominados, estar aberto a surpresas e ao desconhecido. A entrada nesse espaço pode ser violenta ou suave, mas ela nunca é fácil. É como a primeira noite com um homem. Há um momento de re-conhecimento, de si e daquele que está a sua frente. Não é à toa que a antropologia discute esse tema sem parar. E esse é um dos temas do novo livro do Alex Castro.
Pode-se dar uma volta ao mundo, sem que se saia de casa. Nos casos mais drásticos, aqueles que conhecem o cardápio inteiro do McDonald’s de todos os países que visitaram; aqueles que colocam roupa de safári para andar pelo Rio de Janeiro; aqueles que simplesmente, não se abrem para novas experiências e não aprendem nem a falar obrigado e bom dia na língua local. Em casos mais disfarçados: aqueles que olham para o mundo sempre em termos de comparação, vangloriando-se de si próprios, e não alteram um dedo mindinho para conhecer, de fato, o outro. E saem de casa, passam por outras casas, e estão sempre no mesmo lugar. O livro Radical, Rebelde, Revolucionário é um relato de um viajante pesquisador, que um pouco por obrigação de ofício e um pouco por natureza pessoal, saiu de fato de casa. E foi passar um mês em Cuba.
O viajante intelectual, o viajante cronista.
Essa é a espinha dorsal do texto. A viagem começou antes do avião, bem antes. Não somente no fazer do projeto que justificasse uma viagem de estudos paga, mas no mergulho em filmes cubanos, na escuta diária de rádios cubanas, da leitura sistemática de romances cubanos. O trabalho do intelectual é sempre um trabalho bastante difícil, apesar da boa vida que esses caras levam. É difícil porque se não há essa disposição do sair de casa, o trabalho está condenado à mediocridade. Me explico melhor: se ao terminar a tese, o doutorando estiver achando e pensando as mesmas coisas que pensava e achava ao iniciá-la, o trabalho não foi bom. O intelectual sério permite ser alterado por seu objeto de estudo, mergulha nele, torna-se, também, objeto do objeto.
Se o cara for estudar Homero, tem que saber grego. Não somente saber, deve ler com fluência, ter no coração ( e como perdemos sempre o significado mais belo do verbo decorar) passagens inteiras, conhecer as personagens como se fora amigo íntimo de todas elas. Além disso, vai ter que dar conta do que já se escreveu sobre Homero, das principais linhas interpretativas, dos debates existentes, e assim por diante. Pois bem, uma parte significativa do trabalho de doutorado desse viajante será sobre a literatura cubana no século XIX. Para a frustração do historiador, não há como ir ao século XIX, mas dá para ir à Cuba, e ler os romances, e ler os jornais, freqüentar as bibliotecas e conhecer as gentes. Para a satisfação da pessoa, o lugar é o máximo, e o escritor também tirou seu pitaco da experiência e escreveu esse relato de viagem, que deu no livro.
Da inverossimilhança da história:
Antônio Candido fala que a verossimilhança da literatura é dada pelos detalhes. Quanto mais detalhes aparecem, mais as personagens, lugares, paisagens tornam-se passíveis de existência para a cabeça do crédulo leitor. Alex Castro nos avisa:aqui, tudo é ficção, tudo é inventado, pois “a história de Cuba é impossível demais para ser verdade“. Como o livro é cheio de detalhes, tolinhos, lemos como se fosse verdade, e algumas partes até emocionam.
E a história inventada não é a história de Cuba, nem a história das pesquisas feitas, embora elas apareçam um pouco também. A história inventada é a de um lugar onde chove todos os dias, tempestades de dez minutos, o povo se abriga nas marquizes e depois volta a viver suas vidas. Onde é impossível andar estando seco, onde as pessoas fumam charutos que desafiam a lei da gravidade, onde não se encontra bacon, e o jornal é usado para limpar a bunda. Lugar de um sistema monetário completamente doido, que o Alex explica bastante mas que eu não entendi direito até agora. Lugar onde a todo momento se é abordado, por jineteros, polícia… onde se anda livremente pelas ruas às três da manhã, sem medo de assaltos ou violências. Histórias de amizades, de andanças, da ida a um balé, das casas, dos encontros e das pessoas que o Alex encontrou e conheceu.
Uma história de amor.
Há no livro inteiro um sabor acridoce, não se trata somente das belas histórias do povo cubano. Pois o Alex também escapa da armadilha que seria escrever esse livro como um libelo pró ou anti Cuba. Se os esquerdistas mais ferrenhos não vão gostar, os direitistas também torcerão seus narizes. O cronista é ponderado e, se enxerga poesia no fato de que os antigos palacetes são agora habitados por uma população negra e pobre, escreve a dado momento que visitar Cuba é como visitar uma prisão; ele, viajante, pesquisador, tem uma liberdade que seus amigos cubanos não possuem. Assim, em meio ao povo culto, a pobreza e escassez de recursos; em meio à simpatia e acolhimento, a obrigação de anotar em caderninhos todos os que entram e saem… O tempo inteiro os relatos oscilam entre o doce e o amargo.
Voltemos à cama, ao tal do primeiro encontro. Pode ser que os corpos se estranhem, que um queira ir para um lado, outro para outro. Que o início seja difícil mas convide a uma nova tentativa. Que portas sejam abertas. Alex Castro foi conhecendo as ruas, casas e pessoas de Havana como quem conhece uma mulher. E o livro trata da história de um amor crescente. Não idealizada, repito. Uma mulher sofrida, envelhecida, em suspense absoluto quanto ao futuro; uma mulher dividida, uma mulher bela, de história
singular. Como ele é generoso, e a favor do relacionamento aberto, divide essa mulher com a gente, dá dicas, orienta, conta segredos e ainda mostra fotos.
E ao lermos, crédulos, até acreditamos que essa mulher existe. Vale a pena conhecê-la, trata-se de uma bela viagem, para uma casa muito diferente, de fato, da nossa. Entremos.
Olha, se essa resenha não te fez querer comprar o livro, então desisto! Obrigado, Luana, você é linda!
25 fevereiro, 2010 §
Ana Lucia Araujo, acadêmica, pesquisadora, blogueira e amiga, escreveu uma linda resenha sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:
Narrado na primeira pessoa, o primeiro elemento positivo do livro é que ele é totalmente em sintonia com o formato escolhido: o e-book. As crônicas são curtas, tem ritmo, você pode lê-las na ordem que quiser. Elas podem ser vistas como capítulos de um relato de viagem. Estão ali quase todos os elementos desse sub-gênero, que tem geralmente três modos de enunciação : o comentário, a descrição e a narração. O comentário seriam todas aquelas explicações que o autor dá muitas vezes citando datas, estatísticas, fatos históricos. As informações do “comentário” (onde às vezes o autor pode se pronunciar sobre algum tema importante) podem ser recolhidas pelo autor durante a estadia no lugar visitado, mas geralmente elas são de segunda mão, algo que ele leu em outros livros ou que tomou de outros viajantes. A descrição é o ato de descrever paisagens, objetos, pessoas : cores, formas, etc. A narração seria tudo aquilo que releva da ordem da experiência, se trata principalmente de contar ações, que se desenvolvem no tempo.
O Alex não caiu na armadilha de abusar dos comentários longos e enfadonhos (como essa resenha) sobre Cuba. O leitor que tiver interesse em conhecer mais sobre a história de Cuba, que procure as centenas de livros escritos por historiadores, sociólogos e outros que passaram anos a estudar o assunto. Sim porque não existe nada mais cansativo que ler um romance onde o autor encantado pela pesquisa de duas semanas que realizou na biblioteca pública municipal de Quixeramobim sobre plantação de abacaxis resolve começar a dar entrevistas sobre plantação de tomates. O Alex não precisa disso e o leitor agradece. Sendo assim, o comentário aparece aqui e acolá, mas ele se mistura bem com a descrição e o relato das experiências vividas.
Aliás, não suporto esses romances históricos que param a ação para o autor gastar onda de quanto pesquisou. O Xangô de Baker Street, por exemplo, poderia ter sido bom se não a ânsia do Jô (ou do estagiário que fez a pesquisa com ele) de enfiar no livro cada informaçãozinha que ele descobriu.
Para esse livro, eu tentei dar todas, ou quase todas, as informações mais históricas e chatinhas nos primeiros dois capítulos, e deixar o resto do livro só para as crônicas. Demorei duas semanas pra escrever esses dois primerios capítulos e duas semanas para escrever o resto do livro. É difícil escrever um texto tão informativo sem ser chato ou seco. Na verdade, foi tão difícil que eu estava quase achando que esse livro não iria rolar.
Para descrever a Havana de 2007, ele usa o recurso da analogia, comparando Cuba com regiões que também tem na sua história um passado escravista, como Rio de Janeiro, Atlanta, New Orleans. É claro que isso é possível porque o autor conhece os lugares do qual ele fala, não se trata de informação livresca e não se trata então de relato de marinheiro de primeira viagem. No meio da descrição e do relato, além da analogia uma outra maneira de contar suas experiências é apelar para as lembranças do passado, de outras viagens, de outras pessoas que encontrou. O relato é cheio de personagens e mesmo se eles aparecem numa única crônica eles são bastante ricos: Annie, a companheira de viagem “gringa” bonita; Dionisio, o chileno malandro que “odeia os cubanos”; Leonardo, o cubano negro, bonito, honesto e apaixonado; Cándido, o Bozó (porque até em Cuba tem Bozós “eu trabalho na tv tá legal?”; Dolores, a bibliotecária sexy e muitos outros.
“Em Cuba, falta de tudo, menos justiça poética.”
As experiências relatadas nas crônicas tocam em temas que foram bastante delicados para a Revolução cubana, entre os quais as mulheres e os homossexuais, e em outros temas que fazem parte da realidade cubana principalmente depois do começo dos anos noventa, como a prostituição. Na crônica Os Jineteiros o que era pra ser dramático fica engraçado, mas sem ser machista ou caricato.
Alex Castro observou o cubano mas também o turista gringo que ele critica por andar em terra estrangeira vestido como se fosse para um safári. O autor, além de narrador também vira personagem de histórias que nem sempre são coroadas de sucesso e Castro brinca com a sua dupla identidade de brasileiro/estrangeiro/turista, mas que ao mesmo tempo é latino-americano e pode em várias situações se passar por um nativo na fila pra comprar sorvete, na livraria, no mercado. Como todo bom viajante que “conta um conto e aumenta um ponto”, o narrador-personagem não deixa de se gabar por conseguir comprar produtos com preço local. Sua “cara-de-pau” acaba trazendo muitos dividendos, inclusive o
melhor elogio que um turista-viajante pode receber de um nativo : “Alexandre, já podes se considerar um havaneiro honorário!”
Por todas essas razões vale a pena ler Radical, Rebelde e Revolucionário. Além de conhecer um pouco sobre Cuba, você vai dar boas risadas. Não preciso nem dizer que algumas crônicas vão servir de material para estimular a discussão na minha aula sobre revolução cubana desse outono e no curso sobre história das mulheres na América Latina após 1825. Na era da Internet, do skipe e da tv à cabo, essas crônicas têm a grande vantagem de constituirem um testemunho direto de alguém que viu e ouviu tudo que está contando e é esse olhar de testemunha ocular que faz elas serem tão boas.
Obrigado, Ana. E você, não vai ler não?
25 fevereiro, 2010 §
Paula Lee é inteligente, articulada e uma boa amiga. Ela é brasileira, mora em Portugal e acabou de lançar o livro Alugo meu Corpo, sobre sua iniciação na prostituição. Eis o que Paula teve a dizer sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:
Bem no início do livro Radical Rebelde Revolucionário, uma obra resultante da viagem do Alex Castro para Cuba, em função de duas bolsas de pesquisa, o autor deixa o aviso:”À exceção dos fatos narrados em primeira pessoa, não confiem nas informações deste livro”.
Tenho que aqui dizer que acredito em tudo o que o Alex Castro contou nesse livro. Por ingenuidade cega? Teimosia? Nenhuma das opções. Porque a verdade do livro não está nas provas, nos documentos, nem nos tão falados e incredíveis jornais de Cuba, descritos no livro. A verdade do livro está naquilo que o Alex viu, o que ouviu, tocou, cheirou, comeu, sentiu. Está naquilo que o Alex viveu em Cuba, não enquanto turista, mas enquanto descobridor, enquanto pesquisador, enquanto parte integrante do local, não apenas estudando a cultura de um povo, mas experimentando e tentando viver como um cubano, apesar de todas as divisões e limitações ali existentes.
E afinal o que importa a verdade num país que nem parece ser de verdade? Definir como verdade ou não o que está escrito no livro, seria anular tudo o que o Alex sentiu na sua “viagem-integração”. Independente de as informações por ele recebidas serem ou não verídicas, a verdade é, por si só, aquilo que viveu e sentiu, e isso ninguém pode lhe roubar.O Alex não foi para Cuba para conhecer uma nova terra, mas para conhecer um novo povo. Depois de Fidel, a primeira coisa que vem na minha cabeça quando a palavra Cuba é pronunciada é a minha paixão pelas danças latinas, especificamente a salsa. Tanto que, quando o Alex viajou, enviei-lhe um e-mail a dizer: dance salsa por mim.
“Na verdade, pensando bem, não confiem em nada, especialmente na minha narração em primeira pessoa. Este é um livro de ficção. Nenhuma das pessoas citadas existe. Nem eu. Todos os nomes de cubanos foram tirados do romance Cecília Valdés (1882), de Cirilo Villaverde. Não existe nenhum país chamado Cuba, nenhum presidente chamado Fidel Castro. Sério, vocês acreditaram mesmo que existia Cuba? Tolinhos.”
Mas o livro Radical Rebelde Revolucionário tem muito mais do que Fidel e salsa. Quando o Alex me puxou pela mão e me deixou em Cuba, eu disse: “Não ouse me abandonar, Alex, não me deixe aqui sozinha!”. Primeiro porque nem parece existir um país assim. É tudo muito irreal, ao mesmo tempo que soa tão verdadeiro, já que a verdade está em tudo aquilo que jamais poderia imaginar. Em segundo lugar porque só o Alex teria tanta desenvoltura para entrar dentro de Cuba, não como qualquer um entra como turista, mas entrar de verdade, de corpo, alma e charuto, para me apresentar o país. Quem diria que, no país onde sonhava ir dançar salsa, fosse descobrir tantos conflitos? E, mesmo assim com tantos conflitos, contrastes, limitações e miséria, Cuba fosse assim tão especial, tão quente?
Receei que em certa altura o Alex fosse largar a minha mão e dizer: “Se vira!”. Mas não, em momento algum ele fez isso. O Alex começa por me apresentar uma mulher tão segura que, nos tempos de hoje, parece não existir, juntamente com um país que parece obra de um artista cheio de imaginação. E me apresentou a moeda, e me fez também montar os pedaços do abacaxi, como num quebra-cabeças, para conferir se faltava alguma parte, me mostrou os livros proibidos da biblioteca nacional, me apresentou o cinema cubano, me fez quase fugir das casas de banho, se não estivesse tão apertada para fazer chichi.
A escrita do Alex foi fazendo com que caminhasse por cada rua, conversasse com cada pessoa, inclusive os jiniteiros. E suas análises mais uma vez brilham, porque mostram várias faces de situações que muitas pessoas só enxergariam de uma única forma.Mesmo se você não tiver o mínimo interesse por Cuba, aconselho a viagem. Porque no Radical Rebelde Revolucionário a gente até se esquece que está lendo na tela do computador, porque estamos, na verdade, viajando junto com o Alex.
Paula, muito, muito obrigado! E você? Já comprou seu exemplar?
25 fevereiro, 2010 §
Sergio Leo, colunista do Valor, jornalista prestigiado, blogueiro polêmico, também leu meu Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas e escreveu uma resenha absolutamente elogiosa:
Hummm, relato de viagem sobre Cuba está em uma das últimas prateleiras de minha lista de prioridades, mas vamos ver o que tem aí, pensei eu, ao abrir o arquivo com o livro do Alex. Pé de pato mangalô tres vezes; tirei o computador da tomada antes que o capeta me pegasse e eu não conseguisse mais tirar os olhos da mardita obra.
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Alex tem um texto brilhante, claro, divertido, engraçado. Mistura observações de acadêmico com sacadas do adolescente velho que é. Não é livro a favor de Fidel Castro, asseguro. Nem é uma diatribe contra o dito-cujo; é um relato de viagem, de um cara inteligente, bem escrito, e interessante até para quem não pensa em passar nem perto de Cuba.
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Até onde li, fala de uma moça que o acompanha na viagem (quem nunca viajou ao lado de uma mulhar inalcançável que atire a primeira calcinha), conta detalhes a favor e contra a ilha de Fidel Castro. Explica como o sistema de subsídios da ilha e sua proverbial carência de bens de primeira necessidade estimula a abordagem dos jornais oficiais com outros olhos (ou falando mais claro: jornal, em Cuba, é muito mais barato que papel higiênico, que nem sempre tem. Daí…).
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Tem até filosofia no livro (“confie em todos, mas corte o baralho“, já dizia sabiamente a avó do Alex, que é Castro mas não tem nada a ver com o Fidel). Imagens, como as que ele usa para descrever os óculos cor-de-rosa da imprensa cubana são uma das especialidades dele.
Sergio, muito, muito obrigado. Sei que você é um leitor exigente e sem tempo, seus elogios significam muito pra mim.
E você? Ficou curioso pra ler mais?
25 fevereiro, 2010 §
Cardoso, do Contraditorium, dos blogueiros mais acessados do Brasil, leu Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas e adorou. Aqui vai seu comovente depoimento:
E o Alex Castro gosta de picadura
Calma.
OK, eu explico. “picadura” é como chamam, em Cuba, o fumo para cachimbo. E não, eu não sabia disso até alguns minutos atrás. E o que diabos tem o Alex Castro a ver com Cuba? Ele foi para lá, passou um mês, realizando um trabalho bancado por duas bolsas de pesquisa, e aproveitou para escrever o eBook Radical Rebelde Revolucionário.
O MeioBit recebeu uma cópia do livro, mas fugiria muito do nosso foco lá. O Leo então perguntou se eu queria resenhar o livro no Contraditorium.
Hum. Intelectual. Que fuma cachimbo. Passeando em Cuba bancado por universidades para estudar a Disneylandia do Socialismo? Isso sempre dá naqueles livros chatíssimos onde o cara republica propaganda do Partido, ou então é escrito por um anticomunista ferrenho que vai passar o tempo todo falando das atrocidades da Revolução. Todo livro sobre Cuba cai nesses dois modelos.
Respondi que a princípio não queria, isso é chutar cachorro morto. Fazer resenha de um livro que sei que não vou gostar é implicância pura e masoquismo.
Só que eu detesto ser pré-julgado, e imagino que o Alex também. Mesmo que tivesse 99% de certeza do que iria encontrar, abri o PDF. Afinal, se fosse o que eu imaginava iria deixar de lado, não publicaria e como se diz por aí, ninguém se machucaria.
O livro é excelente, li de uma sentada só, mesmo com isso soando altamente comprometedor em um post com esse título.
São 155 páginas com crônicas deliciosas, onde ele conta seu dia-a-dia na terra de Fidel. Ele descreve um povo como qualquer outro. Alegre, triste, otimista, conformado, assustado, orgulhoso, envergonhado.
Ele encontrou Dolores, a bibliotecária mais sensual desde a Barbara Gordon, descobriu que os cubanos também usam o Jeitinho Brasileiro e aprendeu que quem decide o menu é o burocrata do Governo que escolhe quais produtos colocar nas lojas naquela semana. Passou por saias justas com vendedoras de abacaxi, apaixonou-se por vários pés (longa história) e enganou a polícia para tomar sorvete barato.
Alex alterna momentos líricos com o mais puro sarcasmo. Vejam o trecho abaixo. Não é qualquer um que capta essa cena.
A coisa mais interessante da estrada foi ver policiais cubanos uniformizados singelamente pedindo carona aos carros que passavam. Fiquei dividido entre achar lindo e deprimente, mas acabei achando lindo. Tem uma poesia que não sei bem explicar.
Por outro lado, solta pérolas do sarcasmo como:
A praia, Mar Azul, era simplesmente linda. Se essa foi a que sobrou pros cubanos, fico me perguntando como devem ser as somente para turistas, aquelas com policiais uniformizados nas entradas exigindo passaporte dos visitantes. Fidel Castro, se fosse vivo, jamais permitiria uma situação dessas. Afinal, a Revolução não foi justamente pra evitar que Cuba se tornasse o bordel dos Estados Unidos?
Ele comete vários pecados que farão com que a Academia odeie seu livro, e desejasse estar sob o Regime Cubano, onde Alex seria preso e seus livros proibidos. Ele cita o prosperidade artificial graças ao Regime Soviético, conta que os jornais oficiais são subsidiados, e que o povo os usa como substituto de papel higiênico, conta dos táxis para cidadãos, proibidos por lei de levar turistas, e constantemente parados pelo polícia, e conta até algo que acho difícil de acreditar. Se fosse um livro de um autor histérico anti-comunista, eu descartaria:
Annie, minha companheira de viagem, é norte-americana, branca, loira, olhos azuis. Leonardo é negro, forte, alto, musculoso, bailarino profissional. Em um pequeno percurso de vinte minutos andando pelas ruas de Havana Velha, somos parados quatro vezes por policiais diferentes. Pedem seu carnê de identidade, perguntam quem ele é, o que faz, de onde nos conhece, pra onde está nos levando, anota nossos nomes e o dele. Falam grosso e arrogantemente, como qualquer policial, mas nos deixam ir.
Isso mesmo. Há racismo em Cuba, e é oficial. Que orgulho do Brasil, onde isso não existe!
Mesmo assim, Radical Rebelde Revolucionário não é um ebook-denúncia. Nem tudo é ruim, nem tudo é um dramalhão mexicano. Alex não tem uma agenda oculta através do livro. Ele consegue falar mal de uma coisa, e na próxima crônica falar bem de outra. Mostra que por detrás da propaganda e da antipropaganda há gente. E gente é sempre interessante
Recomendo muito a leitura do livro. Pode ser comprado aqui neste site e custa apenas 200 pesos cubanos não-conversíveis, ou R$20, ou praticamente um salário-mínimo cubano (192 pesos).
Valeu, Cardoso. Bem, colega, e você? Depois dessa, se você não comprar o livro, só pode ser pirraça.
25 fevereiro, 2010 §
Entrevista concedida a Tulio Moreira Rocha, para a Revista Bula e para o jornal Opção, de Goiânia, em agosto de 2009.
Liberal, libertário e libertino. O escritor carioca Alex Castro fala sobre mercado editorial, literatura e internet. Nem José Saramago escapa

O escritor Alex Castro bolou um esquema incomum para o lançamento da edição impressa de seu primeiro romance, “Mulher de Um Homem Só”. Carioca, residindo atualmente em Nova Orleans, Estados Unidos, Alex fez uma campanha na internet para convencer leitores a comprar exemplares do livro, ao preço mínimo de R$ 24,40. A maioria dos investidores deu lances acima do valor inicial, garantindo a publicação. Em três semanas de pré-venda, o escritor conseguiu vender 117 exemplares, ao preço médio de R$ 33,90. O romance de Alex já havia causado boa recepção quando publicado na internet. Aliás, o autor tem uma relação de sucesso com o mundo virtual. O blog “Liberal Libertário Libertino“Â conquistou seguidores fiéis. O espaço, “anárquico” na definição do blogueiro, revela um criador ágil e multifacetado, atento e ousado. Para quem se interessou, é possível adquirir um exemplar do novo livro de Alex por meio do blog. Em entrevista a Revista Bula, Alex Castro afirma que a mágica de escrever um romance é poder sair um pouco de si e entrar no corpo de outra pessoa. O escritor também endossa o coro dos que acham José Saramago um chato e comenta sobre um de seus projetos vindouros, uma obra sobre sua intensa relação com a cidade do Rio de Janeiro. Confira.
Quais foram os desafios de publicar a versão “física” de “Mulher de Um Homem Só”, pela editora Os Viralata?
Alex Castro – Desafio nenhum, na verdade. Desafio foi tentar publicar o livro pelas ditas editoras tradicionais. Lançar o livro como lancei foi fácil. Anunciei no blog que faria uma edição física de “Mulher de Um Homem Só”, que a pré-venda já estava aberta. Dei os detalhes sobre a data que o livro iria para a gráfica e que o lançamento seria feito. Falei que dependendo do dinheiro que conseguisse levantar, decidia a tiragem do livro, ou então, desistia e devolvia o dinheiro de todo mundo. Enquanto isso, minha amiga, a artista plástica Isabel Löfgren, criou várias capas lindas, e os leitores também ajudaram a escolher a melhor. O Albano Martins, editor da Os Viralata, editou e formatou o texto do livro. Os resultados foram além de qualquer expectativa. Cento e cinquenta pessoas compraram o livro na pré-venda. Várias pagaram muito mais do que o preço mínimo, viabilizando com folga a edição.
Apesar da propagação dos chamados e-books na internet, viabilizados pela facilidade de distribuição e baixos custos, você ainda acha importante publicar “à moda antiga”, no papel?
AC – Não acho, não. Não vejo a menor graça no objeto livro. É uma coisa pesada, difícil de carregar, difícil de manter, que junta bicho, fede, dá mofo, essas coisas. Eu adoro literatura e adoro o conteúdo dos meus livros, mas não papel em si. O problema é que ainda estamos na Era do Papel. No final dela, mas ainda nela. As pessoas tendem a confundir papel com literatura, o que é meio ridículo. Papel é apenas o suporte. Uma poesia de Whitman é tão literatura se estiver no papel, numa tela de computador, escrita num guardanapo, num livro em áudio, grafitada numa parede, etc. Quando inventarem um outro suporte, mais barato, mais leve, que dê pra ler num parque num dia de sol, que dê pra marcar e sublinhar, e estamos quase lá, então os livros vão se tornar como os cavalos hoje: não vão sumir, mas também não vão ser uma opção de massa. Serão lidos e cavalgados somente pelos mais entusiastas.
Você se vê inserido no cenário da “literatura independente” brasileira? Quais são as barreiras e dificuldades para os autores que se propõem a escrever assim?
AC -Eu nunca me propus a escrever literatura independente. Eu me propus só a escrever literatura. Também não tenho fetiche por literatura independente. Se o Schwarcz (Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras) me ligar amanhã dizendo que me quer na editora dele, a única questão vai ser negociar o preço. O problema é o tal mercado editorial intransponível. A própria Companhia das Letras, li em algum lugar, afirmou que mantém um time de leitores pra ler os manuscritos submetidos, mas que nunca, nem uma única vez, publicou um livro que foi mandado assim na cara dura. Todos os livros que publicou vieram recomendados ou encomendados. Aí você vê que, verdadeira ou não, a história é emblemática. Se os caras nunca publicaram nenhum, o problema é provavelmente mais deles que dos autores, por um motivo simples. A Companhia é uma das maiores e mais prestigiadas editoras do Brasil. Provavelmente, muita gente que acabou saindo por outras editoras (e fazendo sucesso) também mandou seu livrinho na cara e na coragem para a Cia. das Letras, e nada. Será que eram mesmo livros tão ruins assim? Todos?
Para lançar “Mulher de Um Homem Só”, você recorreu às pessoas que gostam de investir em cultura. Apesar do velho senso comum de que a maioria da população brasileira é avessa às coisas do ramo, como você avalia o resultado do apelo, no caso do seu livro?
AC – No meu caso, foi tranquilo, pois tenho um blog há muito tempo, com leitores já cativos, que gostam de mim e me lêem diariamente. Muitos deles ficaram felizes de pagar para ler um livro inédito e também de retribuir as boas horas de leitura gratuita que tiveram. Quase todos os leitores pagaram mais do que o preço mínimo de R$ 24,40.
Você acredita que “livro é pra circular”. Qual é o tipo de leitor ideal para você? Como o leitor deve exercer o papel de propagador da obra literária?
AC – O meu leitor ideal não mantém uma estante cheia de livros que ele nunca mais vai abrir, como se fosse um caçador mostrando seus troféus:Â “Olha o antílope que eu cacei! Olha o Kuarup que eu li!” Acho muito esnobismo. Se já leu o livro e não vai ler de novo, passe adiante. Venda para um sebo. Doe para a biblioteca. Passe na universidade federal mais próxima e distribua entre os estudantes mortos de fome. Não deixe eles mofando entre os seus “troféus”.
O meu leitor ideal sabe também que sua relação com um autor vivo pode e deve ser interativa: ele pode interpelar o autor, interferir na obra, fazer ou destruir sua reputação. Não é a mesma relação que teria, digamos, com “Dom Casmurro” ou “Moby Dick”. Quando gosto do livro novo de alguém assim, eu faço post, escrevo no blog, conto pra todo mundo, dou o livro de presente, empresto, faço um escarcéu e uma divulgação muito maior do que faria se descobrisse um escritor morto e enterrado, porque sei que o autor precisa desse boca-a-boca pra existir. Ao mesmo tempo, quando odeio o livro de um autor vivo, eu fico calado e me auto-censuro muito mais do que no caso de um autor morto, que não está aí pra chorar de tristeza ou, pior, vir na minha porta me bater. Para que vou falar algo pra magoar um menino que está começando e cujo único pecado é ser incompetente e inábil? Eu sei que tenho liberdade de expressão. Eu sei que quem sai na chuva é pra se molhar. Sei que posso, mas, mesmo assim, não me sinto bem escrevendo algo que sei que vai fazer mal a alguém.
Um leitor comprou sete exemplares do meu livro, porque disse que adorou, queria conversar sobre o livro com os amigos, eles não conheciam, e achou que presenteá-los era um bom jeito de ajudar tanto a eles quanto a mim. Claro que esse homem é o meu leitor ideal, mas não precisaria ir tão longe. Basta colocar o livro de novo em circulação. Livro é pra ser lido. Se você já leu (e não vai usar ou precisar dele de novo), repasse para outra pessoa que vai lê-lo também.

Seu livro esteve disponível na internet para baixar até 2006, fazendo sucesso entre os internautas. Com o lançamento da versão “física”, você acha que a recepção de público e crítica pode ser diferente, comparada à versão digital?
AC – O livro teve uma recepção muito boa na internet, foi resenhado dezenas de vezes e obteve muito feedback. Via de regra, as leitoras se empolgaram mais do que os homens, a maioria se viu muito na personagem da narradora, a Carla. Não vejo porque a reação off line seria diferente. Minha grande esperança é poder atingir um público que não está na internet, que não teria acesso ao livro de outro jeito.
Fale um pouco sobre a sua formação cultural. Quais autores fizeram sua cabeça? Em que contexto você se interessou pela literatura?
AC – Sempre me interessei por literatura, mas nasci numa casa anti-literata, com poucos livros, e os poucos eram best-sellers, policiais, essas coisas. Tínhamos uma coleção da Britannica Great Books, o cânone do cânone, e me formei lendo esses livros, os grandes clássicos universais. Não tenho muitos autores que me formaram, não, porque sempre li muito, e desordenadamente, então, a graça é justamente ler muito, demais, sacudir aquilo tudo na cabeça e ver o que sai. Um escritor precisa ler muito por um único motivo: para saber o que já foi feito. Para não repetir livros velhos. Para ser capaz de detectar quando está inconscientemente roubando a voz de alguém. Essas coisas. Uma influência mais negativa do que positiva mesmo. Por exemplo, essa nova geração só repete Rubem Fonseca até hoje porque não leu o suficiente para saber como seus livros são repetitivos e velhos.
O que você aprecia na literatura atual, brasileira e internacional? E o que você preferia não ter lido nunca?
AC – Os dois melhores autores vivos na língua portuguesa são, sem dúvida alguma, Mia Couto e António Lobo Antunes. Ambos sempre me ensinam muito e fazem coisas com a língua portuguesa que eu achava que não poderiam ser feitas. Dos brasileiros vivos, tem pouca gente que eu gosto de verdade. Ariano Suassuna é provavelmente o melhor autor brasileiro vivo, só pelo “Romance d’A Pedra do Reino” e pelo “Auto da Compadecida”, mas ele não escreve faz tempo. Como todo mundo, gostei muito de “O Filho Eterno”, do Cristóvão Tezza . E meu irmão-marginal-escritor-independente Luiz Biajoni está escrevendo alguns dos livros mais originais, inovadores e empolgantes que já li em muito tempo, apesar de ninguém estar vendo ““ por enquanto. Fora da língua portuguesa, eu conheço muito pouco da produção contemporânea, mas o último livro sensacional que li, de me deixar boquiaberto e estupefato, foi “As Partículas Elementares”, do francês Michel Houellebecq, um autor completamente ensandecido e iconoclasta.
Não há nada que eu tenha lido que eu gostaria de não ter lido. Os livros ruins são muito importantes, pois servem de exemplo negativo, mostram o que já foi dito, o que já virou clichê, por onde não ir, o que não fazer.
Sobre “Mulher de Um Homem Só”, o que esse livro representa na sua obra? Como e onde ele está inserido no conjunto de seus trabalhos?
AC – Representa o fato de que ela existe. Minha obra, se é que podemos chamá-la assim, é composta de quatro livros. “Liberal Libertário Libertino” é uma coletânea das melhores crônicas que publiquei no blog de mesmo nome e na minha coluna na finada Tribuna da Imprensa, entre 2003 e 2007. “Radical Rebelde Revolucionário ““ Crônicas Cubanas” é um livro de crônicas de viagem sobre Cuba, um país que amo e adoro. Ao contrário do outro, não são crônicas coletadas, nem tiradas da internet, mas inéditas e escritas especificamente para formar esse livro. Devo ter feito algo de muito certo, porque os fidelistas me acusam de agente da CIA e os reacionários me acusam de lambe-botas do Fidel. O livro de contos “Onde Perdemos Tudo” reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta. A ordem dos contos também é importante: um livro de contos tem que ter uma sequência, algum tipo de narrativa. Nesse caso, começo com um conto sobre o processo de perda, sigo com um conto sobre o momento da perda em si, depois um conto sobre a perda relembrada e, por fim, um conto mais otimista, para não fechar o livro em uma nota desesperadora.
O romance “Mulher de Um Homem Só” desenvolve o tema de um dos contos: questiona se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.
Conte sobre o futuro. O que você está arquitetando?
AC – Atualmente, estou trabalhando em um romance chamado “Empregadas & Escravos”, tentando falar, de forma ficcional e não-esquemática, sobre essas nossas relações de poder tão ingratas. Já estou bem avançado nele. Além disso, como carioca expatriado, também tenho um projeto bem desenvolvido na minha cabeça de escrever um romance sobre toda essa questão de “sair do Rio”. O título de trabalho é “Rio Cidade Aberta” e a narrativa faria um paralelo com a Eneida, com aquele momento terrível em que Tróia está desmoronando, Enéias não quer sair mas acaba sendo obrigado a abandonar a cidade. A história se passaria em três momentos: 1711, quando a cidade foi tomada pelos franceses e a população, mesmo querendo lutar, foi obrigada a evacuar a cidade sob uma chuva torrencial; 1893, quando a nossa própria Armada começou a bombardear nossa própria capital, muitos moradores abandonaram a cidade em pânico e a situação só se resolveu quando o Rio foi declarado “cidade aberta”; e 2002/2003, quando por duas vezes Fernandinho Beira-Mar fechou o comércio e as escolas do Rio, a primeira vez que uma ação criminosa afetou a cidade como um todo.
Ao longo de todas essas épocas e situações, as questões serão basicamente as mesmas: vale a pena ficar no Rio e lutar pela cidade? Quando é a hora certa de sair? Existe isso de hora certa de sair? Eu amo o Rio obsessivamente, mas saí da cidade faz quatro anos. Ainda assim mantenho um apartamento lá e passo cerca de cinco meses por ano no Rio, então eu moro e não moro, saí e não saí. É uma posição que me permite, ao mesmo tempo, ver a cidade de fora e de dentro.
Como você utiliza seu blog para apresentar suas ideias e criações?
AC – O blog acaba se tornando o espaço do Alex-pessoa-física, em oposição ao Alex-escritor-de-ficção. No blog, exponho minha vida real, minhas opiniões, quem eu sou. Já a ficção é o mundo de ser outras pessoas, viver outras vidas. Nesse ponto, a grande função do blog, em relação aos meus livros, acaba sendo criar um grupo cativo de leitores que gosta do que eu escrevo e que se interesse em conhecer a ficção também. O único problema é que chegam na ficção procurando o Alex do blog, que é uma persona exuberante e polêmica, e ele está lá muito escondidinho, caladinho, deixando dar espaço para os personagens crescerem e encontrarem suas próprias vozes.
Não entendo esses autores que sempre escrevem sobre si mesmos, cujos protagonistas sempre são alter-egos disfarçados, cujos enredos são sempre baseados em coisas que lhes aconteceram. A mágica da ficção é justamente poder ser outra pessoa. Que graça teria escrever um romance sobre mim mesmo e sobre minha própria vida? Eu já me conheço, ora bolas. Já vivo comigo o tempo todo. Já vivo a minha vida o dia inteiro. Em “Mulher de um Homem Só”, eu, homem, ateu, libertário, artista, solteiro, sem filhos, poliamoroso, quis me metamorfosear em uma mulher, conservadora, casada, dentista, mãe, católica, ciumenta. Quem é essa pessoa? Como ela pensa? De que maneira reage às situações? Para mim, a mágica do romance é justamente esse processo de descoberta do outro. De sair um pouco de mim mesmo e de entrar no corpo de uma nova pessoa.
Recentemente, o jornalista Luís Antônio Giron, da revista “Época”, afirmou que a blogosfera se tornou o “paraíso dos chatos”, à exceção de blogueiros como José Saramago, citado pelo jornalista. Seu blog tem como lema “Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.” Como conquistar espaço num lugar tão “anarquizado” como a blogosfera?
AC – Nunca imaginei que iria ver as palavras “Saramago” e “chato” na mesma frase sem ser para dizer que ele é o rei absoluto dos chatos. Sensacional. Tem mesmo gosto pra tudo. O Saramago é bom ficcionista, mas seu blog é chato, suas opiniões são chatas, ele é uma pessoa chata. Saramago se tornou aquele típico ancião ranzinza que reclama de tudo que é novo e que ele não compreende direito. Apesar de tudo, existe um mérito de ele fazer essas reclamações em um blog (ou seja, ele entrou para ver como é), ao contrário de tantos outros velhos ilustres que reclamam de tudo sem nem saber sobre o que estão falando.
O blog tem sido um sucesso, ainda mais que ele é de fato totalmente anárquico. Não tem pauta, não tem tema, segue a esmo minhas obsessões. Via de regra, o blog fica travado em um assunto enquanto eu estou mentalmente travado nele, e quando mudo de interesse, o blog muda de tema, e assim vai indo. Invariavelmente, os leitores reclamam: “se ficar falando só de casamento aberto/racismo/teatro/etc, você vai espantar todo mundo, daqui a pouco ninguém mais te lê!”, mas não percebem que a graça de um blog é justamente não ter pauta, é justamente eu poder falar do que quiser, sem rédeas, sem editor, sem manual de redação.
Então, enfim, para um blog tão caprichoso e nada focado, é impressionante o seu sucesso, ainda que bastante limitado. Hoje, o blog paga o aluguel do apartamento que mantenho no Rio, ou seja, me permite manter uma presença na cidade que amo tanto, e só por isso eu já seria grato a ele. Na prática, o blog me permitiu realizar algo que sempre sonhei: viver de escrever. Em 2005, quando saí do Rio, eu dava aulas o mês todo em uma escola e ganhava mais ou menos o que o blog me rende hoje. Isso é muito gratificante. Não me vejo como blogueiro profissional, mas como escritor. Esse é um dinheiro que ganho dos meus leitores, em função dos textos que escrevo. Ser escritor é isso.
Afinal, quem vai levar o exemplar número 0001?
AC – Foi para uma leitora da Turquia que pagou R$ 200.
25 fevereiro, 2010 §
Entrevista concedida a Paula Góes, no Global Voices Online em Português, em 7 de agosto de 2009:
Por trás de um dos blogs mas populares do Brasil, o Liberal Libertário Libertino, há um romancista independente, um acadêmico apaixonado e um livre pensador. Nesse papo às vésperas do lançamento da primeira edição não virtual de seu primeiro romance, projeto que só pôde ser lançado com o patrocínio de um exército de leitores de seu blog ““ os mecenas da blogosfera ““ Alex Castro fala de blogs, das prisões que acorrentam o ser humano de como se livrou delas para abraçar a sua vida libertária, e, claro, de seu primeiro romance, agora lançado fora da rede, Mulher de Um Homem só ““ já muito bem conhecido por seus leitores que o baixaram mais de 30 mil vezes durante o período que esteve disponível para download gratuito.
Quem é Alex Castro?
Alex Castro é um grandecíssimo mentiroso, como todos os autores de ficção. Não confie em nada do que ele diz.

Em auto-definção no flickr, Alex Castro se diz (originalmente em inglês): Hedonista, novelista, ateísta, pedólatra. Destro, divorciado, maduro, viajado. Livre pensador, escritor, professor, pro-ativo. Foto: Roberto Rivera
O Liberal, Libertáro, Libertino está online desde 2003 e é hoje um dos mais populares blogs do Brasil. Como você entrou na blogosfera?
Vários e vários motivos. O mais engraçado é que, quando abri o LLL, eu nunca tinha lido um blog, nem sabia o que era. Minha amiga Isabel (a quem “Mulher de um Homem Só” está dedicado) é que ficou me pentelhando, dizendo que era a melhor ferramenta possível para um artista expor seu trabalho – e estava certa. Mais ainda, eu estava escrevendo uma série de textos chamados As Prisões, sobre as diversas prisões que acorrentam o homem, como heterossexualidade, monogamia, verdade, religião, vergonha, ambição, obediência, etc, e achei que seria legal ver quais seriam as relações das pessoas a eles. E, realmente, As Prisões tiveram, e ainda têm, uma repercussão muito legal. Além disso, eu tinha acabado de reencontrar uma antiga amiga de escola, Andreia, que tinha se tornado dominadora profissional na Austrália e vivia um casamento aberto, e levava uma vida parecida com a minha, mais libertária e mais libertina, e eu achei que alguns daqueles valores que eu e a Andreia tínhamos descoberto e praticávamos mereciam ser articulados, tinham que ser vividos em público. Na verdade, ela me fez sentir envergonhado por meu pudor público perante a vida. Então, o blog também foi um meio de discutir publicamente questões muito importantes e vitais pra mim até hoje, como amor livre, poliamor, ciúmes, monogamia, relacionamentos abertos, etc. E assim entrei na blogosfera.
O LLL gira em torno dessas prisões que acorrentam a humanidade ““ medo, vergonha, religião, patriotismo, felicidade, monogamia, heterossexualidade, dentre outras. Como você conseguiu se livrar delas?
Basta querer. Controle de si é tudo na vida. Quase nada na vida a gente controla mas eu mesmo, como eu reajo aos estímulos do mundo, como me coloco diante deles, isso depende de mim, sim. E, assim, aos poucos, um dia de cada vez, eu fui me tornando menos tímido, menos travado, menos humilde, menos envergonhado, menos bundão, menos preocupado com a opinião dos outros, menos medroso, menos consumista, menos careta, essas coisas. Mas é um processo consciente. Todas as forças do mundo nos empurram pra conformar com o rebanho. Então, “ser você mesmo” não é algo que venha naturalmente a ninguém, é uma luta diária. Você tem que se perguntar: “hoje, eu fui a pessoa que eu quero ser?”

Fumando, companhia do cachorro Oliver
[O LLL é] um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor.
Mas você disse para não acreditar em nada do que você diz então fica a dúvida: o Alex Castro hedonista, na prática, é um personagem?
Tenho uma pergunta melhor: e daí? Metade das coisas que eu disse nessa entrevista é mentira. Mas qual metade? Ou talvez isso que eu disse agora seja mentira e só falei sempre a verdade. Mas e daí? A verdade é que existe um livro chamado “Mulher de Um Homem Só” e ele é bom ou ruim independente de ter sido escrito por um homem ou por uma mulher, por um carioca ou um goiano, por um branco ou por um negro, por um adolescente ou por um velho. A mensagem das Prisões é válida ou não independente de eu ter esses valores ou não, de eu acreditar neles ou não. Vai ver eu escrevi tudo ironicamente, mas isso não impede alguém de levar o texto ao pé da letra e mudar sua vida. O texto é real, entende? Só isso importa. Eu, minhas mentiras, minhas verdades, minhas intenções, somos todos irrelevantes. Talvez a Prisão mais importante a ser vencida seja a Prisão Verdade, essa nossa necessidade quase infantil de questionar a veracidade de tudo o tempo todo. Eu sou um escritor de ficção: meu trabalho é justamente implodir a verdade. A ficção é uma mentira que, se bem dita, nos leva a verdades maiores do que a maioria das verdades que andam por aí bradando sua veracidade aos quatro ventos.
E qual a reação de seus leitores a essa vida “mais libertária e mais libertina”, considerando que foge completamente dos padrões aceitáveis no Brasil, um país ainda tão sexista? Há até uma campanha, “Eu Odeio o LLL”, com o seu aval.
A campanha “Eu Odeio o LLL” não tem apenas o meu aval. Eu a criei e a promovi. Oras, não há porque só as pessoas que gostam de mim terem banner me linkando. Quem me odeia também tem direito de me promover! Mas, obviamente, foi uma campanha humorística, pra brincar com aquele tipo de leitor que, justamente, diz que me odeia e discorda de tudo, mas lê e comenta obsessivamente todo dia. Esses leitores me divertem muito, mas são uma minoria, ainda bem. Logo enchem o saco e vão embora, porque eu não dou corda.
Via de regra, a mensagem das Prisões acaba tocando mais dois grupos de pessoas: em primeiro lugar, adolescentes ou pós-adolescentes de ambos os sexos que estão em processo de tentar se tornar adultos, livres e independentes. Uma amiga brinca que passo boa parte do meu tempo no MSN, como Sócrates na ágora, tentando corromper “meus jovens”. E, em segundo lugar, mulheres que estão naquela famosa crise dos sete anos, que subitamente se descobrem em casamentos mornos e insatisfatórios, e que de repente querem ser livres e realizar seu potencial. Esses dois grupos representam uma parcela desproporcionalmente enorme dos leitores que me procuram, então imagino que a mensagem das Prisões é relevante para quem está nessas situações.

Alex Castro, em foto de Roberto Rivera: robertorivera.com/portfolio.htm
Mudando para a literatura na rede, há bons blogs literários no Brasil? O que passa pelo seu seu blogroll?
Olha, eu confesso que nunca fui fã de blogs e, faz muito tempo, desencanei totalmente deles. Hoje, leio pouquíssimos blogs, e quase que só os de amigos próximos, pra saber como eles estão. Alguns bons escritores contemporâneos têm blogs, mas o blog é sempre uma coisa diferente da ficção. Até porque é difícil colocar ficção em blog. Então o blog acaba funcionando como uma ferramenta para o autor polir seu texto e construir um círculo de leitores para quem possa, depois, vender ou dar seu livro. Sinceramente, eu acho bem possível que existam bons blogs literários no Brasil. Mas eu, por deficiência minha, não conheço.
Você foi um dos pioneiros em experiência de e-books pagos no Brasil. Em que grau, na sua opinião, a internet ajuda autores e artistas independentes em geral?
A internet é fundamental, por permitir ao artista um contato direto com seu público, um contato que antes dependia de diversos mediadores: gravadoras, editoras, jornais, etc. Está surgindo um novo paradigma na arte que funciona mais ou menos assim: você distribui a sua arte de graça, para construir um público, e depois vende pra eles produtos diferenciados, raros, assinados, exclusivos, etc, do seu trabalho. De certo modo, estou fazendo isso com “Mulher de Um Homem Só”, que foi baixado gratuitamente mais de 30 mil vezes e foi vendido em edição limitada, numerada, na qual os leitores que pagaram mais ganharam os menores números. O exemplar número 001 foi para uma leitora da Turquia que pagou R$200 por ele.
Marcador de livro exclusivo para os mecenas da blogosfera que compraram o livro antes do lançamento.
Como surgiu essa idéia dos mecenas da blogosfera para transformar o Mulher de um Homem Só virtual em edição em papel?
“Mulher de Um Homem Só” ficou disponível para download gratuito por 4 anos, entre 2002 e 2006, quando foi baixado 30 mil vezes. Depois disso, contratei uma agente literária para tentar vender o livro para editoras, mas ela não conseguiu nada. Nesse meio tempo, lancei vários ebooks – sabe como é, tem custo zero – e fui vendendo, mas todo mundo vinha perguntar: “ah, nao tem de papel? odeio ler na tela!” etc. O problema é que, sem uma editora, imprimir em papel custa caro, tenho que pagar a edição do meu próprio bolso e fazer tudo sozinho. E pensei, hmm, se os leitores querem tanto livros de papel, por que então não pagam por eles? Vou colocar o livro em pré-venda, quando arrecadar o suficiente pra impressão, imprimo; senão, devolvo o dinheiro de todo mundo. E foi um sucesso. “Mulher de Um Homem Só” vendeu 150 exemplares na pré-venda e o valor arrecadado daria para custear uma edição de 700 exemplares.
Quais as vantagens e desvantagens de publicar na internet, em vez de seguir os caminhos tradicionais?
Para mim, as vantagens foram ganhar mais dinheiro do que ganharia publicando livro como o novato patinho feio de uma editora tradicional e também um maior contato com o meu público. A grande desvantagem de não estar no caminho tradicional é a falta de visibilidade e prestígio. Eu escrevo literatura e tenho um blog, mas sou chamado de “blogueiro”. O cara que tem um livro publicado pela Rocco (mesmo que ninguém tenha lido) e tem um blog, é um escritor – que, por um acaso, tem um blog. Mas isso já está mudando.
Esse contato maior com os leitores muda de alguma forma a forma como você escreve, ou até o enredo de suas histórias, uma vez que você passa também a conhecer mais o público e a saber o que ele quer, ou você mantêm, nesse caso, uma distância para produzir exatamente o que acha que deve, sem influências do consumidor de sua obra?
Muda. Mas não do jeito que você perguntou. Não existe muito isso de dar o que o povo quer. Não sou balconista, que pergunta ao cliente o que ele quer, vai e entrega. Na literatura, o cliente quase nunca tem razão. O espírito da literatura é o da complexidade. Um bom livro te leva a lugares que você não queria ir, te ensina coisas que você não queria saber, mostra que o mundo, as pessoas, as coisas, são mais complexos do que você imaginava. No momento em que um autor de ficção se propõe a dar os que os leitores querem, ele abdicou de uma das prerrogativas básicas da arte.
Aliás, talvez seja esse um dos tão buscados limites entre literatura-dita-arte e a chamada literatura de entretenimento: na segunda, você busca entreter e dar ao leitor o que ele quer. Na primeira, não. Obviamente, na literatura, você pode perfeitamente dar ao leitor o que ele quer, mas esse não pode ser um dos critérios fundamentais da criação da arte. Em tempo: não estou estabelecendo nenhuma relação de hierarquia entre ambas. Qualquer livro policial de Nero Wolfe é melhor do que 90% da literatura-dita-arte. Resta o fato de que ambos tipos de literatura tem um objetivo e uma relação com seu leitor bem diferentes.
E, respondendo a pergunta, sim, o contato com os leitores muda tudo, mas por outro motivo. Porque o autor escreve sempre com um leitor ideal em mente, e buscando criar um efeito nele. O contato com o leitor permite medir se você está atingindo seus objetivos e ajustá-los de acordo. Os exemplos são inúmeros. Uma vez, uma leitora me disse que uma cena de um conto fazia com que ela voltasse a uma época mais simples, mais idílica, que se sentisse como se estivesse dentro do Almoço da Relva, de Manet, fazendo um bucólico piquenique num bosque à beira no Sena em pleno século XIX”¦ E eu agradeci a opinião, e naturalmente a leitora não estava nem um pouco errada, cada leitura é válida, mas reescrevi a cena, coloquei um celular desligado em sua bolsa e uma asa delta passando no céu, justamente para cortar esse efeito, que não era o que eu buscava. Mas, veja, a internet não tem nada a ver com isso. Esse tipo de coisa acontece desde que existe literatura.
Como você tem base nos Estados Unidos no momento, enquanto , qual é a sua visão sobre as diferenças entre os mercados editoriais brasileiros e estadunidenses? (pergunta de @emanuelcampos, via twitter)
Nem sei. Eu vivo nos Estados Unidos de maneira muito estranha. Estou lá fisicamente, mas dentro da bolha universitária, que é como se fosse outro mundo. Estudo e dou aulas no Departamento de Espanhol e Português. Boa parte dos meus colegas, todos os meus alunos, quase todos do meu círculo social não apenas falam português fluentemente como têm um forte interesse pelo Brasil. Minha pesquisa é sobre Brasil. Minhas leituras, minha ficção, meu blog, minha producão acadêmica eu escrevo em português. Minha namorada, minha família, meus leitores, estão no Brasil. Eu publico no Brasil. Ou seja, todo meu olhar é voltado pro Brasil. Não acompanho, estudo, observo o mercado americano.
Há planos de tradução para esse, ou outros de seus livros?
Um casal de tradutores, ele brasileiro e ela argentina, se ofereceu para traduzir “Mulher de Um Homem Só” ao espanhol. Pretendo pegar essa versão e bater perna um pouco com ela. Tenho alguns contatos nos meios editorais cubanos e adoraria ser lido por lá. E também já existe todo um mercado literário em língua espanhola nos Estados Unidos que posso procurar – e que eu não conheço! Uma versão em espanhol, a segunda língua ocidental mais falada, já abriria inúmeras possibilidades. Aliás, o brasileiro do casal é justamente o Emanuel que sugeriu a pergunta acima.
E qual o trecho que mais gosta de Mulher de um Homem Só?
Não sei se é o que eu mais gosto, mas acho que é um trecho bem representativo.
“Eu não desconfiei porque nem todos esses almoços serviam pra despontar o vício de Murilo que Júlia tinha. Eu, que me achava sua clínica de reabilitação, era na verdade sua fornecedora clandestina: ela vinha me ver e fungava cada carreirinha de Murilo que pudesse encontrar. E eu fazia o mesmo, porque um gambá cheira o outro e eu também não sou lá muito diversa. Ela me sugava o presente, e eu, o passado. Júlia sabia tudo sobre o Murilo, cresceram juntos, nunca não se conheceram. Um era a constante da vida do outro. Júlia era tão constante que me fazia sentir a variável e isso me deixava tonta, eu precisava ir ao banheiro depois: eu imaginava Júlia, amanhã, fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e sugando o futuro. E eu pensava: o juramento foi comigo, a mulher dele sou eu.”
Amigos, no lançamento no Rio, alguns dos quais mecenas
Autógrafos:
Depois do lançamento no Mulher de Um Homem Só em São Paulo, no final de semana passado, o livro será lançado nesse sábado, 7 de agosto, no Rio de Janeiro. Veja o convite aqui. Para comprar o Mulher de Um Homem Só, acesse esse link. Para ver outros livros do de Alex Castro, lançados com o apoio do selo independente OsViralata, clique aqui.
25 fevereiro, 2010 §
Entrevista concedida a Ismar Tirelli Neto, do Portal Literal.
Há pouco mais de um mês, o escritor Alex Castro lançou o agilíssimo romance Mulher de um homem só (Os Viralata, 2009), cuja impressão foi inteiramente custeada por leitores já familiarizados com seu trabalho. “Cidadão virtual” dos mais atuantes, Alex arrebanhou um público considerável através de seu blog e de seus e-books, e foi o esquema de “compras por antecedência” por ele bolado que acabou viabilizando o salto ao impresso.
Quanto à entrevista: os trabalhos começam comigo não pescando muito bem os dados biográficos ao fim do romance. Na edição que me foi entregue, consta que o autor é um médico vegano residente no interior de São Paulo; todas as informações googladas contradizem essa bio crassamente. Alex ““ neste momento já estamos sentados num Hiper Matte desses de Botafogo ““ me mostra, então, a edição vindoura de “Mulher…”, que termina com uma minibio completamente outra, situando o autor em Santarém, onde estaria morando com o marido. Bastante alheio à etiqueta da reportagem, exclamo nosso convidado de “mindfucker”, que é a expressão em inglês para “alguém que se compraz em zoar com a tua cabeça”. É nesse momento que começamos a entrevista propriamente dita, e mais uma vez não consigo fazer com que o gravador engate de primeira (ao que Alex comenta, pacificador: “Todo gravador é ruim, só que de maneiras diferentes. Que nem o fax. Uma tecnologia que nunca ficou boa de verdade”)
Alex Castro: … esse negócio de mindfucker tem tudo a ver com pedagogia. Eu não consigo não ser professor, estou sempre tentando ensinar alguma coisa. Principalmente quando estou te sacaneando, quando estou mexendo com a sua cabeça. É sempre pra ensinar alguma coisa; nem que seja a não confiar num idiota como eu. Também tem a ver com filosofia Zen, coisa que eu gosto muito. A filosofia Zen é mestre sacaneando discípulo até o discípulo aprender a sacanear de volta. Só depois disso que o discípulo muda de fase. A grande função da literatura é mostrar que as coisas são mais complicadas do que parecem. A gente vive num mundo muito simples, só conversamos com gente de opinião parecida com a nossa ““ basicamente, todo o mundo vive uma vida em que todos os seus inputs confirmam aquilo que você já achava. A novela confirma seus valores, a namorada pensa como você: essa é a vida normal das pessoas. A gente busca quem pensa como a gente ““ o que, aliás, é um problema quando você fica meio conhecido. Você acaba convivendo muito mais com pessoas que gostam de você do que o contrário. Se eu tenho um leitor que gosta do que escrevo e quer me pagar um jantar, é muito mais provável que eu jante com ele do que com meu primo que me enche o saco. Óbvio. Mesmo eu que não sou ninguém, às vezes chego nisso: começo a conviver com tanta gente que acha que eu mando bem que passo a acreditar. Vira um círculo vicioso, onde as pessoas com quem você anda só fazem confirmar o que você já pensava. É foda, isso. Todo o mundo, de um modo ou de outro, está preso nesse esquema. E a arte serve pra quebrar isso. Qualquer arte boa serve pra mostrar que aquilo que você achava certo talvez não seja, que aquele cara que você achava equivocado talvez tenha razão ““ basicamente, que talvez as coisas não sejam assim. E talvez seja essa a grande diferença entre a “boa literatura” e a literatura thriller, policial, entretenimento, auto-ajuda. Martela-se muito nisso, mas na verdade é uma questão muito simples: um livro de literatura não é intrinsecamente melhor do que um livro policial. Eu adoro policiais, até auto-ajuda eu leio. Mas tudo tem o seu momento: é que nem comparar um tartelette com uma picanha. Mas a grande diferença da literatura que se pretende arte é o desejo de te questionar. A literatura thriller, a literatura policial, os livros de espionagem, os livros de auto-ajuda, são cheios de peripécias ““ mas essas peripécias não questionam sua visão de mundo. Pelo contrário, são formulaicas. Não é dizer que sejam ruins, mas ler Agatha Christie não muda a vida de ninguém. Você lê Christie e tem uma fórmula lá, que você conhece e gosta, e você quer voltar para aquele mundo familiar. Você quer passar mais algum tempo com o Poirot, com o Hastings, você sabe que no último capítulo vai aparecer o primo do mordomo e que ele é o bandido, e é divertido pra caralho, mas não muda sua visão de mundo. Outra coisa que eu também falo às vezes sobre literatura é que nós estamos no business de mudar a vida das pessoas. Não no sentido auto-ajudesco, porque, como já disse, auto-ajuda não muda nada. Você pega um Paulo Coelho, por exemplo, e são livros legaizinhos de ler…
(eu faço uma cara esquisita)
Alex (prosseguindo): Não são livros horríveis, tem historinha e tal; só não é Kafka. Você lê e aquilo confirma tuas idéias, teus valores, a noção que você tem do que era pra ser. A literatura que se pretende arte visa te mostrar que as coisas não são assim, que o mundo não é como parece, visa questionar um pouco teus valores e mudar, de fato, a tua vida. A questão da linguagem também tem parte nisso (de nada ser tão simples quanto parece). Por exemplo, o Biajoni, que escreveu Sexo anal (Os Viralata, 2007) e é um grande amigo meu, escreve uns livros meio pulp, com uma linguagem bem do dia-a-dia. São livros incríveis, mas eu acho que tem muito lugar-comum. E ele fala exatamente o contrário do meu livro: adora, mas acha que a Carla ““ a narradora/protagonista ““ não fala como uma “dentista”, ela usa uma linguagem diferente. E isso é parte integrante do meu projeto estético. O livro não é para ser realista. Ela já está falando mil lugares-comuns; que a linguagem não o seja também. Que a linguagem lembre a você o tempo inteiro que você está num livro. Houve um esforço de depurar da Carla tudo o que ela não falaria; todos os intelectualismos. A maioria dos neologismos, por exemplo, nasceram lugares-comuns. Eu sublinhava cada lugar-comum que ela falava e ia mudando. Por exemplo, em dado momento ela fala que “família é tudo farinha do mesmo saco”, e eu troquei por “família é esgoto do mesmo cano”. Eu fiquei um ano retorcendo a linguagem, tirando tudo o que me soava como expressão feita. É a diferença da pintura para uma foto: quando você vê um quadro pintado de uma maçã, tudo ali é encarado como escolha. Mas quando você vê uma foto de uma maçã, é muito mais fácil se distrair e atravessar a foto, vendo só o objeto. Você esquece que a maçã não está ali por ato divino; ela foi escolhida, assim como o ângulo. O fotógrafo fez praticamente todas as escolhas do pintor, só que elas não estão evidentes. A foto é documentário, e documentário é a coisa mais traiçoeira do mundo. Você esquece que a foto é uma construção humana e artística. Uma pessoa distraída pode tomar aquilo como verdade, como acontecido. O quadro não permite isso, porque ele se força como quadro, como construção. A mesma coisa vale para a linguagem literária, e é essa a discussão que eu tenho com o Biajoni. A linguagem literária, quando é muito natural, torna o livro transparente: você vê os personagens como se estivessem vivos. Eu não quero isso; eles não existem, nunca existiram, nunca vão existir. Existe o livro; uma coisa una, fechada. E cada notinha, cada biografia, tudo faz parte do livro. E se você se vê forçado a questionar até a biografia do autor, ou até o aviso de que o livro foi baseado em fatos reais, então aumentam as chances de você questionar a Carla, e de questionar a sua vida. A obra de arte exige ser vista como uma coisa só. Ela não deixa você passar batido por ela. Isso só para falar do objeto-romance, sem nem entrar na intriga. Uma coisa que eu acho sensacional é que, grande parte dos elogios que me fazem são calcados no realismo: que Carla é muito real. E eu sempre pergunto: “mas isso é bom?”. Usar isso como elogio presume que a função da literatura é ser real, e quanto melhor você recria a realidade, melhor é o livro. Mas não é isso.
I: Não faz sentido, historicamente, um livro que faz-de-conta que não é livro.
Alex: Mas a maioria dos livros é assim, hoje em dia. As pessoas ainda estão numa mentalidade século XIX, em termos de narrativa, porque a maior parte dos livros consumidos são isso: historinhas. É Harry Potter. E eu acho o máximo, li os sete livros empolgado. Mas é uma narrativazinha linear século XIX ““ Dickens poderia ter escrito Harry Potter. Então, para a maioria das pessoas que não tem muita sofisticação literária ““ e falo disso não como um problema; a literatura é linda porque cada um lê o que pode, como quer e do jeito que quer ““ mas pra quem ainda está preso num modelo século XIX de literatura, só vai existir a historinha. Outros leitores mais “pós-modernos” conseguem ir um pouco mais fundo, desconstruir mais um pouco. O que eu acho importante, do ponto de vista literário e pedagógico, é o livro se permitir ser lido de maneiras diferentes. Ulisses [de James Joyce] é legal, mas é ilegível como historinha. Se você só quiser saber como foi o dia do Bloom, não vai encontrar isso lá. Para um livro ser mais acessível, e atingir mais pessoas, ele deve permitir uma leitura sem sofisticação. Um leitor que quer uma historinha com começo, meio e fim, ele vai passar pelo livro sem nem perceber que não viu alguma coisa; ele não vai se achar burro. É chato ler um livro mais esperto que você. Eu não quero que meu livro seja mais esperto que ninguém. Se você quiser uma historinha de triângulo amoroso, ela está lá no meu livro, e quase todo mundo vai ler assim mesmo. É imprescindível para mim que não seja só isso. Assim, o livro oferece mais a quem quer mais, a quem consegue ver mais. Nesse ponto, uma amiga minha falou que o Mulher… é um romance do não-dito, a história de verdade deve ser colhida pelas bordas. Mas voltando: a literatura de entretenimento visa a entreter, sem necessariamente mudar os teus valores. Mas num livro como o meu ““ que se pretende arte ““ a primeira coisa que se deve entender é que a ficção é mentira. É mentira o tempo todo. Mentira, mentira, mentira. E eu sou um mentiroso profissional. Não vou ser pego falando a verdade, e por questão de método, de princípio. Eu quero que o leitor veja que não se pode confiar na ficção. A ficção te livra da barreira do real, então você pode se concentrar na mensagem de modo mais puro ““ você não precisa ficar se perguntando se aquilo aconteceu de fato, nem como. Você pode se dar ao luxo de não questionar os fatos porque sabe que os fatos são mentirosos ““ você pode se concentrar na mensagem. Aquele negócio, cara: a Bíblia é meu livro preferido, mas pra mim é pura ficção. E não interessa. Aquela ficção da Bíblia passa mil mensagens geniais, mesmo pra quem é ateu como eu. Jesus é um puta personagem; Paulo é quem fode com Jesus. Aliás, o Novo Testamento é ridículo. Metade é Jesus sendo incrível e a outra é Paulo desmentindo tudo o que você acabou de ler, cara! O Paulo reinterpreta tudo!
I: Mas taí, a questão da ficção como algo muito pouco confiável por natureza. Entra o Paulo, e você tem toda uma outra versão dos fatos.
Alex: Bom, o Novo Testamento é o quê? Você tem os quatro evangelhos e os Atos dos Apóstolos. Esquece “verdade”. Esses 5 livros… como literatura, são sensacionais. Tem sangue, morte, sexo, é muito legal. Mas aí depois, entra o Paulo reinterpretando tudo aquilo com as cartas. O Paulo falava de casamento e família, mas Jesus mandava todo mundo largar tudo, não casar, mandar a mãe à merda (Jesus era super cavalo com Maria). É incrível. É uma aula de crítica literária. Você tem um livro foda, e depois do livro, você tem 20 apêndices em que um crítico literário de MÃ-FE reinterpreta aquilo tudo do avesso. Aí, no final, chega o Apocalipse e fica genial de novo. Mas voltando ao Mulher de um homem só, esses avisos estão presentes no livro, em parte, para fazer com que o leitor comece a questionar sua própria expectativa desde o início: inclusive, a expectativa de veracidade no que tange à biografia do autor. A biografia do autor é irrelevante. Cada edição do meu livro leva uma biografia diferente, e o livro é o mesmo. A mensagem do livro ““ se existe alguma ““ é a mesma; a qualidade do livro ““ se ela existe ““ é a mesma; então, foda-se se o autor é gay, de Santarém, negro, branco, casado. Eu tenho até feito dedicatórias apócrifas, inventando histórias para cada leitor. Por exemplo, “Ao Ismar, meu querido amigo, nunca esqueço aquela nossa virada no vôlei contra seus primos em Maricá. Foi sensacional! Abraço, Alex”. Não só é engraçado ““ e me manteve são durante a noite de autógrafos, porque foram umas duzentas dedicatórias ““ como mostra que é um livro de ficção. Nada é pra ser de verdade. E daí que não é verdade? Até a dedicatória é falsa. Tudo é falso.
I: Você fala em “História do livro” [pósfacio de Mulher de um homem só] que brincou alguns anos com a idéia de narrar a história ou pelo Murilo, personagem inspirado em você mesmo, ou pela Júlia, personagem inspirada por uma amiga sua muito próxima; mas acabou optando pela Carla como narradora porque os outros dois personagens já lhe eram bem próximos. A ficção é, de fato, “pra gente ser outras pessoas”?
Alex: Bom, essa é a graça. Eu sou psicanalisado…
I: Quanto tempo?
Alex: Nove anos.
I: Que delícia.
Alex: Recebi alta do Collor, em 90, desde então não voltei mais. Mas como eu dizia, eu sou bem tranqüilo com o que eu sou. Eu sou bem resolvido, sei o que eu quero. Eu atormento os outros. Mas não sinto necessidade de me retrabalhar na ficção. O blog é o espaço do Alex cidadão ““ mesmo sendo um pouco ficcional. Mas é lá que eu trato de mim mesmo. É uma escrita fácil, simples, rápida: uma escrita de momento. Em ficção, a graça ““ pra mim ““ é ser outra pessoa, senão não faz muito sentido. Via de regra, muita gente anda fazendo livro sobre si mesmo. Eu até acho possível que o leitor tenha interesse na minha vida ““ aliás, no blog, eu fico chocado com o quanto as pessoas querem saber da minha vida ““ mas eu não tenho. Se eu fosse escrever um livro sobre mim, eu certamente perderia o tesão no meio do caminho. Eu me conheço. Eu já estou razoavelmente tranqüilo com o que eu sou.
I: Isso deve irritar as pessoas um bocado.
Alex: Bastante, é insuportável. Mas é divertido, também. As pessoas levam a minha vida no pessoal. Mas voltando à ficção, ao passo que eu conhecia mais ou menos o Murilo e a Júlia, havia lá uma mulher que eu não conhecia. A Carla não é como ninguém que eu conheço. Ela foi criada. E esse processo é o mais legal: ir conhecendo a personagem aos poucos, compor uma voz, descobrir o tipo de reação que ela teria. Todo autor é narcisista, mas o meu narcisismo é um pouco diferente ““ eu estou no romance, um pouco no Murilo e um pouco na Júlia, mas esse olhar sobre mim é externo; é a Carla, que sacaneia mil coisas minhas que estão no Murilo e na Júlia. Então, é também um exercício em tentar imaginar como as pessoas me vêem. Ser outra pessoa, e ao mesmo tempo, entender como me vêem. O narcisismo autoral entra nesse momento. Mas o livro não é sobre mim; é sobre ela. Só que em algum momento ela olha pra mim e me dá umas cutucadas.
I: O que acho incrível é que o discurso da Carla é violento, mas, ao mesmo tempo, totalmente senso comum. É um discurso de quem está completamente envolvido com as prisões que você ataca no seu blog: a heterossexualidade, a monogamia, a religião.
Alex: Sim, mas só me interessa porque não é meu. As pessoas que se conformam me fascinam; eu nunca consegui ser assim. Então, me interessa saber quem é essa pessoa, como é que alguém se torna isso. Se eu fosse escrever a história da minha vida, ia ficar mais ou menos como Trópico de Capricórnio [romance autobiográfico de Henry Miller, seqüência de Trópico de Câncer. Publicado em 1939, há uma edição recente no Brasil da José Olympio, de 2008], só que não tão bom. Quem quer ouvir mais um autor pseudomarginal, pobre, que fuma, que bebe, que transa… entendeu? É minha vida, mas não acho que seja boa literatura.
I: Você nota uma progressão na sua literatura, então, no sentido de estar cada vez mais externado de si mesmo, cada vez menos autobiográfico?
Alex: O blog me permitiu um espaço para falar da minha vida, e por causa disso, agora posso explorar coisas muito mais legais na minha ficção. Voltando ao senso comum da Carla ““ eu estou fazendo uma outra história agora protagonizada por uma mulher bem senso comum, e todas as pessoas para as quais mostrei o conto a odiaram. Mas a Carla, não. Há um grupo de leitores que incorpora totalmente o discurso da narradora.
I: “Compram sem nenhum questionamento”.
Alex: Sim, e acham que o romance é isso. Mas o romance foi feito para poder ser lido em camadas. O leitor tira o que quer, e isso é marca de uma literatura que se pretende arte. Um livro da Christie só pode ser lido de um jeito; não há três leituras possíveis de O assassinato no Expresso Oriente [de Agatha Christie, lançado em 1934]. O meu livro pode ser lido em vários níveis, dependendo do grau de sofisticação, de saco, de tempo. Uma leitura possível é essa: uma mulher fala a respeito duma cretina que invade seu casamento. Mas muita gente vai pro lado oposto, e pensa que Carla é uma mulher louca, obsessiva, doentiamente ciumenta. São pessoas que gostam de desconstruir a linguagem, e vão buscando os buracos no discurso. Pra mim, é muito interessante lidar com o discurso do senso comum, pelo fato de que a Carla nunca tem nada de muito concreto a dizer contra a personagem da Júlia: ela é só uma artistinha maluquete, como todo artista. Quando você pára e pensa, as críticas de Carla em relação à Júlia são todas muito vazias, não são nada de sério. O que eu tentei fazer foi um romance aberto para todas essas possibilidades de leitura.
I: Eu estou me reportando muito ao “História do livro”, porque eu achei muito interessante, além dum puta golpe de teatro, isso de terminar um livro com um histórico extremamente minucioso da feitura do mesmo. O que você pretende com essa abertura toda, e com essa tentativa tão sôfrega de diálogo com o leitor, se você trata toda a ficção como mentira… ? Não como mentira, bom…
Alex: Como ficção mesmo. Que é o nome chique pra mentira.
I: Eh, bom.
Alex: Sempre me chamam de fofoqueiro, e eu respondo: “eu prefiro o termo técnico: jornalista”.
(risos)
Alex: Bom, pra começar, tem dois escritores ““ o Stephen King e o Isaac Asimov ““ que eu amo e que faziam isso. Foi algo importante na minha formação porque permitia uma visão por dentro do método. Nos livros desses autores, quase sempre você encontra um prefácio, ou posfácio, ou apêndice, alguma coisa em que eles falam sobre como fizeram o livro, contando mil histórias ótimas ““ não só sobre a criação da história, mas sobre como a história se inseria em sua vida pessoal. Pra mim, como adolescente que queria escrever, isso era muito importante; porque me dava um insight na vida “real” das pessoas. Ou pelo menos na vida que elas queriam passar para os leitores; eu não acredito em nada, mas também não desacredito. Acho isso importante. Você nunca vai me ouvir dizendo “isso é mentira”, mas isso não significa que eu esteja comprando. Eu escuto, pronto. Acho que a língua perde por não ter um verbo que signifique “nem acreditar, nem duvidar”. Eu ouço, eu registro, tá bom. A outra coisa que aconteceu ““ um efeito bem legal, causado pelo blog ““ foi uma certa proximidade. Eu me senti próximo dos leitores. A conversa no final do livro é quase como um segredo entre o autor e o leitor. O Asimov ““ bom, eu sou um cara frio, acho meio ridículo quando as pessoas se comovem quando morre uma celebridade que elas nem conheciam ““, mas até hoje, a morte que eu mais senti de alguém que eu não conhecia foi a do Asimov. Porque eu achava que o conhecia. Só quando ele morreu que eu percebi a enormidade da minha relação pessoal com o Asimov, construída ao longo de 10 anos lendo uma obra repleta de avisos autobiográficos. Isso foi importante, acho legal passar adiante. E o blog reforça isso. Mas é algo mais meu; tenho vários amigos que têm blogs muito famosos mas que não têm isso. Eu sofro isso porque meu blog é confessional. Então as pessoas acham que me conhecem. No blog, a verdade é editada, para não causar mortes, suicídios e assassinatos (o meu, principalmente). E as pessoas acham que me conhecem muito bem, que têm uma relação íntima e profunda comigo. E isso é ótimo. Não fosse por isso, meu livro não teria tido o sucesso que teve. Mas tem a contraparte, eu tenho que lidar com muito maluco. Sabe, eu me achava próximo do Asimov, mas se eu encontrasse com ele na rua, não me comportaria como se fôssemos amigos de infância. Algumas pessoas, só pela leitura do blog, passam a esperar que eu me comporte como amigo delas também, e começam a fazer cobranças do tipo “você nunca mais falou comigo”. Não é que eu não goste dessa pessoa, mas eu não a conheço, não tenho assunto. Se a pessoa quiser falar comigo, não tem problema. Meu telefone está no blog. Anteontem me ligou uma leitora de Salvador…
I: Meu Deus…
Alex: Mas é maravilhoso, isso! Ligou onze da noite, pra dizer que o livro chegou e ela leu correndo. Falou do envelope acolchoado, do marcador de página exclusivo. Ela se sentiu muito próxima, muito incluída. Mas essa coisa de fazer exigências que eu não posso cumprir, isso acontece com gente perturbada, que não consegue fazer esse jump; pessoas que não percebem que me conhecem mas eu não as conheço. Em suma, o objetivo desse posfácio é não só iluminar o método (isso eu falo como estudante de literatura), mas também porque o livro é um case de marketing interessante. Pode ser que outras pessoas queiram fazer igual, por isso é interessante explanar. Mas o que mais me interessa é abrir o diálogo, para que o leitor se sinta próximo a mim. Mostrar o método e criar uma ponte de diálogo com o leitor, para ele entender como funciona a fábrica de salsicha; e, de certo modo, para o leitor se achar mais íntimo, se lembrar mais de mim, e amanhã comprar outro livro. É todo um processo de criação de nome, criação de marca. Mesmo que o cara escute falar de você hoje e não compre, amanhã vai que ele se lembra? A prima leu, recomendou, por aí vai. É um processo lento, dura a vida inteira. Mas o que os leitores me falam um bocado, e que eu acho fascinante, é que eles me acham especial. Ora, ninguém se acha especial. Tem momentos que eu me acho foda, outros que eu me acho um merda ““ mas eu nunca me achei especial. Elas falam que eu me tornei especial para elas, e o livro também, porque elas já me acompanham, já me conheciam do blog. E todo esse método ““ de vender “ações” do livro pela internet, num esquema de mecenato ““ é uma coisa única, e elas queriam fazer parte desse único, queriam poder dizer “eu ajudei, eu comprei antes”. Eu fiquei muito fascinado, porque eu achava que as pessoas iriam me ajudar, pensando “bom, eu leio o Alex de graça todo dia, ele está lançando livro, posso descer dez reais e cooperar”. E outra coisa: se a pessoa vai comprar o livro de qualquer jeito, compra logo antes, para que eu não precise tirar do bolso um dinheiro que não tenho, senão eu fico com um problema de liquidez sério. Sabe como é a nossa vida, nunca tem dinheiro. Nunca tem mil reais dando sopa no banco.
I: Nunca tem 10 reais.
(risos)
Alex: Então, tem isso. O apelo da conveniência, e a ajuda dos amigos. Não achei que fosse ter esse efeito. Eu não previ essa vontade que as pessoas tiveram de “fazer parte”. Como disse, nunca me imaginei um sujeito especial, não pensava que as pessoas achassem minha vida tão legal a ponto de querer fazer parte dela, pagar por uma ação desse empreendimento. Foi muito legal, talvez a coisa que mais me surpreendeu. As pessoas queriam se sentir incluídas no processo.
I: Bom, todo o mundo que te entrevista fala muito sobre sua relação com a internet. Eu não quero falar sobre isso.
Alex: Graças a Deus.
I (falando sobre isso): Mas no seu blog você parece exercitar uma verve mais polêmica, e tal.
Alex: Cara, pelo contrário. Eu nunca entro em polêmica. As pessoas falam besteira no blog e eu ignoro. Acho muito chato esse negócio de debater, nunca leva a lugar nenhum. Eu dou a minha opinião e pronto. Aí os leitores ficam se pegando, falando mil bobagens. O máximo que eu faço é voltar para fazer um esclarecimento. Mas eu nunca respondo, nunca contra-argumento, não leva a lugar nenhum.
I: E a sua atuação no meio acadêmico?
Alex: Acho o meio acadêmico muito chato. Não falo pra ninguém que faço doutorado.
I: Eu não vou editar isso. Compõe o personagem.
Alex: Pqp. Todo doutorando que eu conheço, via de regra, é mala. Eu só sou doutorando porque foi a única maneira que consegui de ganhar dinheiro com literatura. Ser pago para ler e escrever sobre literatura. Mas não acho que seja isso tudo. E como autor, é complicado você passar a vida escrevendo sobre o livro dos outros. Cada vez que escrevo sobre o livro de alguém, eu me sinto meio loser de não estar usando esse tempo para escrever o meu. Então, por um lado, é muito bom viver de literatura ““ olha que lindo, eu sou pago para ler romances, mandar voluntários ler romances, chegar de manhã cedo e discutir com esses voluntários, e se me der na telha, escrever alguma coisa sobre o romance. É bem gostoso pra mim, apesar de mil coisas pentelhas, como em qualquer trabalho. Agora o doutorado está acabando e eu não sei bem o que fazer. Não sei se sigo carreira acadêmica, se fico lá nos EUA, se volto para o Brasil definitivamente.
I: Mas a gente pode esperar novos livros, não?
Alex: Então, eu estou escrevendo um livro chamado Empregadas e escravos, fruto direto dessa minha ida para os EUA: vários episódios coordenados lidando com as nossas relações sociais escrotas. Outro que quero fazer se chama Rio: Cidade aberta. Que é sobre o estado do Rio ““ se tem salvação, se é melhor sair, se é melhor ficar. É uma coisa que todo carioca pensa muito. Quem vai, quem foi. Minha namorada tem um ditado ótimo, por exemplo: “São Paulo é como a morte. Um dia chega”. Todo carioca, em algum momento, arranja emprego em São Paulo.