1711: eneida carioca

canto as lutas e o varão que,
forçado a fugir da pátria,
partiu das águas da guanabara
e subiu a serra rumo ao sertão.
muito o maltrataram
as forças humanas e divinas,
as chuvas e as ciladas,
os trovões e os tiros,
o ódio dos franceses huguenotes e
a covardia de um governador pusilânime.

vamos, ó ilustre hóspede, pedimos nós,
conta-nos, desde o princípio,
tuas desgraças e peregrinações,
da armadilha urdida pelos franceses e
da queda da mui-leal são sebastião,
e de como encerrou-se na américa
o domínio lusitano e católico.

calados, todos voltaram-se,
atentos, para o varão,
que do seu alto leito,
emocionado assim narrou:

manda-me, ó senhora, renovar um sofrimento nefando. ao relatar a queda do rio de janeiro e do seu reino pelos portugueses, dolorosos fatos que eu próprio vi e dos quais muito participei, qual marinheiro normando ou até mesmo o próprio tão cruel duguay-trouin não haveria de lançar dos olhos mares d’água? a noite úmida já desce do céu e os astros cadentes convidam ao sono. mas, se tanto deseja conhecer os nossos infortúnios e ouvir um breve relato da suprema desgraça lusa, ainda que me cause horror relembrar tais dores e que até hoje eu tenha fugido a esse sofrimento, começarei.

quebrantados por sua fracassada invasão do ano anterior e batidos pelo insucesso, decidem os franceses armar nova expedição contra a mui-leal e católica cidade de são sebastião do rio de janeiro.

* * *

trechinho de uma noveleta que estou escrevendo.

a narrativa faz um pastiche do segundo canto da eneida, de virgílio (um dos pontos altos da literatura ocidental, que conta a história da queda de tróia e da fuga de enéias), e se passa na noite de 21 de setembro de 1711, quando o rio de janeiro foi abandonado diante da invasão francesa.

como não leio latim, utilizei como base as traduções de domingos paschoal cegalla, tassilo orpheu spalding, manuel odorico mendes & joão franco barreto.

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