eu sou minha aparência

19 June, 2013

somos julgados por nossa aparência o tempo todo. e com razão.

nossa aparência não é uma dimensão a parte, alheia à nossa verdadeira ó-tão-linda essência linda. isso é pensamento cartesiano.

nossa aparência somos nós. ela é resultado de minhas escolhas, de minha história de vida.

é tão justo sermos julgados por nossa aparência quanto por nossa inteligência, cultura, talento, sorte, berço.

inteireza

18 June, 2013

algumas pessoas buscam por alguém que as complete.

já eu busco por quem esteja inteiro.

ideia para adesivo de parachoque

17 June, 2013

“seu amigo negro não prova nada.”

respeito

16 June, 2013

“respeitamos o passado aqui e ali e, se ele concordar em permanecer morto, podemos até preservá-lo, mas se insistir em continuar vivo, vamos atacá-lo e matá-lo.”

“os miseráveis”, de victor hugo.

palestra “as prisões”: rj, 6jul2013

15 June, 2013

data: sábado, 6 de julho de 2013

local: a definir

horário: das 13h às 19h, com direito a intervalo e lanche

valor: r$100 até uma semana antes; r$150 na última semana.

lotação: 20 pessoas

"as prisões", rj, 6jul13. design: flávia tótoli.

“as prisões”, rj, 6jul13. design: flávia tótoli.

essa é uma palesta experimental, tentando comprimir o conteúdo do meu futuro livro das prisões em cerca de três horas de exposição e três horas de troca, para todos terem tempo de compartilhar suas histórias. o objetivo é testar o material, ver qual será o feedback, o que funciona, etc.

ao pagar por essa palestra, você está aceitando essas limitações e, na verdade, está afirmando querer fazer parte desse processo de experimentação.

e eu, porra, te agradeço muito, muito mesmo.

comprar


o que são as prisões

as prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida. são as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. enfim, prisões.

comecei a questioná-las uma a uma. algumas, mantive; da maioria, me desfiz:

verdade // dinheiro // privilégio // sexismo // racismo // monogamia // religião // patriotismo // escolhas // respeito // certeza // os outros // o futuro // medo // ambição // felicidade // narcisismo

a série as prisões foi originalmente publicada na internet entre 2003 e 2006, gerando muita polêmica e fortes paixões entre os leitores.

os textos foram então retirados do ar e retrabalhados, revisados e reorganizados por um editor independente. em breve, devem sair em forma de livro.

mas, primeiro, a palestra.

confira o roteiro completo da palestra.


compromisso

15 June, 2013

se você quiser sair, não vou te segurar. se você quiser ficar, não vou te expulsar.

ego

14 June, 2013

como escritor, meu trabalho é expor publicamente minhas falhas, meus medos, minhas vergonhas. meus egoísmos, minhas pequenezas, minhas mesquinharias.

não para falar de mim, porque eu não importo.

mas para que os leitores reflitam sobre suas próprias falhas, seus próprios medos, suas próprias vergonhas. seus próprios egoísmos, suas próprias pequenezas, suas próprias mesquinharias.

se tive sucesso, deixe uma moeda na minha canequinha de esmolas e fique com machado.

viver com menos: por que isso incomoda tanto?

13 June, 2013

hoje, uma leitora mandou algumas críticas sobre a matéria do globo sobre minimalismo:

“Alex, sinceramente não acho que viver em 40m2 em COPACABANA seja realmente viver com menos. Quero ver viver em 40m2 em Realengo. Possuir um kindle, ou consumir marcas fetiche como a Aple, definitavamente não é viver com menos. Estilo de vida sou-filhinho-de-papai-mochileiro não é viver com menos. Fácil pregar este “word way of life” quando tem muita gente vivendo o estilo pobre way of life. E se você for notar o perfil dos entrevistados é sempre gente jovem,de profissões meio tendências tipo jornalista, design,decorador…tudo muito tendência. Coisa de quem foi passar temporada em Londres e voltou assim.”

pra começar, moro num apartamento de VINTE metros quadrados.

depois, não tenho nem nunca tive nenhum produto da apple.

além disso, ter um kindle (que custa 300 reais no ponto frio) me permitiu me livrar de 80% dos meus livros e carregar menos objetos pela vida.

mais ainda, não entendo bem que diferença nada disso faz.

e se eu possuísse algum produto apple? isso mudava alguma coisa?

segundo a leitora, possuir um kindle “não é viver com menos”.

mas… por que não? ou melhor, por que enfatizar o kindle?

por exemplo, eu tenho um kindle. mas não tenho…

cama, cadeiras, mesa, televisor, aparelho de som, automóvel, bicicleta, freezer, dvd player, mp3 player, armários, gavetas, torradeira, liquidificador, smartphone, etc.

e aí?

existe um ranking de objetos? se você tem os objetos A, B, e C vive com menos mas se tem o D, não?

por exemplo, se eu não tivesse um kindle mas sim uma TV (objeto mais caro que o kindle e presente em 97% dos lares brasileiros, inclusive nos mais pobres) então poderia dizer que “vivo com menos”?

aliás, quem é que decide quem pode dizer que vive com menos? quem é o árbitro? é a minha leitora?

* * *

se o sujeito é da classe média e vive na enlouquecida roda-viva do consumo e do crédito, então ele é um consumista, um esnobe, um sei-lá-o-quê.

se o sujeito é da classe média e tenta viver com menos, consumir menos, ter menos objetos, então ele está tentando viver um “pobre way of life”, ele é um poser, um hipster.

qual é a alternativa que minha leitora está sugerindo? suicídio?

* * *

se o sujeito vai morar em londres e lá, lavando a própria privada, como tantos bem-nascidos brasileiros fazem pela primeira vez só no exterior, ele aprende as virtudes da frugalidade, do não-desperdício, do não-consumismo, e volta para o brasil disposto a viver com menos….

por que exatamente isso seria uma coisa errada ou digna de crítica?

só é válido se ele aprender em magé ou em diadema? ou se ele já tiver nascido sabendo?

se aprendeu em londres, não conta?

por quê?

* * *

eu não teria a cara-de-pau de me dizer pobre. eu sei bem o que é pobreza. e nunca passei por ela.

eu sou apenas uma pessoa que tenta viver com menos. que se desfez da maioria dos seus objetos e que evita comprar novos. só.

não me acho melhor que ninguém por causa disso nem acho que faz sentido ficar contando objetos: “ah, eu só tenho doze camisas!” “arrá! sou mais minimalista, tenho cinco!”

fico realmente impressionado como a simples proposição de tentar viver com menos consegue gerar tanta polêmica, tanta raiva, tanto despeito.

qual é exatamente o problema com meu estilo de vida? por que ele incomoda tanto?

citação

13 June, 2013

“você é eternamente responsável pelas merdas que lê em livros idiotas e depois sai repetindo por aí.”

paypal

12 June, 2013

para quem quiser usar o paypal, pague por aqui e acrescente cinco reais de frete:

 

só mais uma quarta-feira

12 June, 2013

já andaram me perguntando o que vou fazer no dia dos namorados.

bem, nada: não tenho namorada. (até que porque gente não se tem.)

mas existe sim uma pessoa que eu amo.

essa pessoa é um ser independente, livre para beijar (e jogar bola), transar (e cozinhar), amar (e fazer ioga) com quem ela quiser.

ela não tem compromisso algum comigo, com exceção dos compromissos fluidos que decorrem da amizade e do afeto compartilhados.

ela me acompanha em muitos momentos e não em outros.

quando está comigo, é sempre lindo.

quando não está, duas coisas acontecem:

em primeiro lugar, sou feliz de outras maneiras, com outras pessoas, fazendo outras coisas. embora eu a ame, não preciso dela para ser feliz. e nem ela de mim. isso é libertador.

em segundo lugar, confirmo ainda mais que a amo. sinto falta dos seus ossinhos protuberantes do quadril, do seu jeito de bizarro tomar limonada com sal, de beijar seus pés até ela dormir, de ser acusado de romantismo quando escrevo textos como esse.

então, quando ela escolhe voltar para os meus braços, sem que nenhum compromisso ou obrigação nos una, quando poderia estar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa com qualquer um, eu me sinto amado, mesmo que ela negue.

(não acredito no que as pessoas dizem, acredito no que fazem. se ela diz que não me ama mas se comporta como se amasse, então, na prática, na realidade, do modo mais concreto possível, ela ama. e isso vale pra tudo.)

* * *

a sociedade nos enfia muitos dogmas na cabeça. que só podemos amar uma pessoa. que quem ama sente ciúmes.

ou que as relações têm que sempre andar pra algum lugar, avançar, atingir metas, “evoluir”.

quando me sinto amando muito, às vezes tenho esses rompantes de “levar o relacionamento para a próxima etapa”.

mas essa ânsia não resiste a três segundos de reflexão.

afinal, quais são essas metas? morar junto, noivar, casar, ter o primeiro filho, comprar uma casa?

nem eu nem ela queremos nada disso. nada disso nos parece minimamente desejável.

confesso que ainda tenho dentro de mim essa vontade súbita de “ir a algum lugar com o relacionamento”, mas, quando olho pra frente, não existe nenhum lugar para onde eu queira ir.

já estou no melhor lugar onde poderia estar.

* * *

de vez em quando, me perguntam:

“alex, como encontrar parceiros para viver essas relações livres e independentes? onde estão essas pessoas?”

quando você se coloca publicamente como alguém que vive de acordo com certos valores, você vai naturalmente

– repelir pessoas que não compartilham esses valores (te poupando do trabalho de espantá-las uma por uma) e;

– atrair pessoas que compartilham esses valores e que estão buscando por seus pares.

tenho prazer em desentocar iguais.

eu me revelo justamente para descobrir quem vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede. muita gente me acha esquisito? claro. essa é a ideia. não tenho medo de rejeição.

vale a pena afastar mil bois para atrair uma única leoa.

* * *

só não esqueça do seguinte:

a pessoa interessante que você tanto busca também está buscando por uma pessoa interessante.

encontrá-la é só o começo do desafio: mantê-la interessada é que são elas.

será que você é a pessoa dos sonhos da pessoa dos seus sonhos?

* * *

quando escrevo esses textos, muitos leitores se sentem agredidos, como se eu estivesse criticando seus estilos de vida e tentando convencê-los a mudar.

não estou. eu contar da minha paixão por maçã não é uma crítica a quem come abacaxi. o que funciona pra mim pode ser que não funcione para você. somos todos livres para vivermos nossas vidas como quisermos. eu não sou melhor que você. minhas escolhas não são melhores que as suas.

então, sintam-se livres para comemorar o dia dos namorados, essa data criada por um publicitário baiano pra alavancar a venda de um mês fraco, mas que, como tudo na vida, tem o significado que colocamos nele e não é menos real por causa disso.

mas, pra mim, sinceramente, hoje é só quarta-feira.

aviso sempre reiterado

11 June, 2013

sou um autor de ficção. todos os meus textos são sempre rigorosamente ficcionais, mentirosos, falsos, apócrifos, inventados. aqui, no meu facebook, no papodehomem. em qualquer lugar.

lei do conselho

10 June, 2013

(ou “acho que você deve mandar seu chefe tomar no cú”):

a contundência de um conselho é inversamente proporcional às consequências práticas que recairão sobre o aconselhador.

lei da racionalização

9 June, 2013

(ou “bem, se não fosse eu, alguém mais teria feito”):

qualquer racionalização em seu benefício é quase sempre errada, e sempre de mau-gosto.

roubado por aí

8 June, 2013

“o problema da vida é que julgamos os outros por suas ações, mas a nós mesmos por nossas intenções.”

palestra “menos”, com claudia regina: roteiro

7 June, 2013

prioridades

- o que vc faz com seu tempo? o que faz com seu espaço? o que é importante pra vc? quais são suas prioridades? por que suas prioridades são suas prioridades?

objetos

- três tipos de objetos: os do passado, os do presente, os do futuro.

- objetos do passado – as lembranças não estão nos objetos – medo de esquecer o avozinho – o momento feliz não está no objeto. se jogarmos fora o objeto, o momento feliz não vai junto.

- objetos do futuro – medo de não ter o objeto se precisar – custo de guardar por anos uma coisa q não precisa nunca – questão da bagagem: tamanho da bagagem é diretamente proporcional ao seu medo.

- objetos do presente – naturalizar os objetos – ter tv pq todos tem, usar sabonete pq todos tem – a importância de desnaturalizar o mundo – a situação da mulher.

- aconchego no vazio – objetos impedem de ver o que é importante – mas o que é importante?

dinheiro

- viver com menos não é voto de pobreza – é questão de estabelecer prioridades

- gastar menos para trabalhar menos – nao preciso trabalhar com o que nao quero para manter um estilo de vida que nao preciso.

- dinheiro serve pra comprar tempo. tempo não é dinheiro, pq o dinheiro que é perdido vc pode recuperar.

tempo

- experiencia de alugar próprio apt, sair de casa e deixar objetos pessoais para outros usarem – arriscar objetos para ganhar tempo

- mas o que vc faz com seu tempo? quais são as suas prioridades? (adorno define tempo livre)

- chegar em casa depois do trabalho e não saber o que fazer.

- tempo livre só é livre (e não um tempo livre em função do trabalho) se você tiver algum projeto pessoal para ocupá-lo.

- ócio criativo.

espaço

- morar num lugar menor mas mais perto daquilo que te interessa, seja cultura, vida social, família, ou mesmo trabalho.

- a questão do carro: quanto custa, vale a pena, aluguel de carro.

conclusões

- quais são as prioridades do seu cachorro?

- ganancia aquisitiva – mania de contar objetos (“só tenho 50 objetos!” “eu tenho menos!”) – não entrar em disputa de quem tem menos, de quem é menos.

- fotografia – necessidade de registrar tudo – a foto é ao mesmo tempo objeto do futuro (vc tira a foto por medo de perder aquele momento para sempre se não registrá-lo) e objeto do passado (para vc olhar depois e relembrar do momento feliz), mas a ânsia por tirar mais e mais fotos te impede de viver o momento feliz no presente.

- vida sem rastros: as pessoas que usarem meus objetos não vão saber a história deles. mas e daí?

- desapego ao desapego.

* * *

a próxima palestra “menos” será em bh, no dia 23 de junho.

para pôr no currículo

7 June, 2013

o beijo mais passional que ganhei da Outra Significativa foi quando ela viu certas pessoas falando mal de mim no twitter.

ser odiado pelos nefandos é a melhor carta de recomendação que existe.

dá vontade de pendurar esse ódio no peito como uma medalha e mostrar pra todo mundo.

Menos é mais

6 June, 2013

Por Alexandre Rodrigues. Valor Econômico, de São Paulo. 22 de março de 2013.

Criado em um apartamento de 600 metros quadrados na Barra da Tijuca, no Rio, o escritor carioca Alex Castro cresceu tendo para si um quarto com mais de 20 metros quadrados. Hoje vive em um apartamento pouco maior do que isso. Nos 22 metros que ocupa, em Copacabana, são poucos os móveis e objetos e, se há um sofá e uma rede, não há espaço para uma cama. Nem gavetas nem armários, exceto um pequeno, de limpeza. Além de três pares de sapatos, seus pertences são outros três de Havaianas, três calças, uma camisa, 12 camisetas (número aproximado), dois casacos, um blazer, dois jogos de toalhas, dois de cama, alguns utensílios de cozinha, um notebook, um Kindle, um celular e uma câmera digital. Poderia ser uma história de ruína financeira, mas se trata de um fenômeno cada vez mais observável. Castro aderiu a um estilo de vida minimalista.

Como os movimentos artísticos do século passado que lhe emprestam o nome, o minimalismo do século XXI prega a redução do estilo de vida ao essencial. O fenômeno ganhou uma vertente importante a partir da digitalização da cultura e da internet. As músicas se tornaram MP3, descartando os CDs. Serviços como o Netflix, que passam filmes em “streaming”, e “torrents” feriram de morte os DVDs. Os livros ainda resistem, mas para muitos é questão de tempo – a Amazon já vende mais livros eletrônicos do que físicos e hoje uma biblioteca inteira pode ser guardada e lida em um “tablet” ou Kindle. Veio a crise na economia mundial e a ideia de consumir menos ganhou novos adeptos.

“Não tenho um simples CD ou DVD e tenho só 10% dos livros que já tive”, escreveu Graham Hill, milionário da bolha da internet, na semana passada, no jornal “The New York Times”. Após enriquecer vendendo sua primeira empresa, Sitewerks, por mais de US$ 300 milhões em 1998, ele se viu de uma hora para outra comprando óculos de US$ 300, “gadgets” de todo tipo e com um Volvo turbo na garagem. A certa altura, sem tempo, tinha um “personal shopper”, treinado em seus gostos pessoais, para não precisar ir às compras pessoalmente.

Com o tempo, sua vida se complicou. Decidiu mudar-se para um apartamento de quatro andares em Nova York, que precisava de novos móveis e acessórios. O momento em que decidiu abandonar tudo veio quando conheceu Olga, nascida em Andorra, que o fez deixar os Estados Unidos e ir morar em um pequeno apartamento em Barcelona. Depois, nem isso.

O casal viveu como nômade entre Buenos Aires, Bangcoc, na Tailândia, e Toronto, no Canadá. Mesmo o romance tendo acabado, Hill não voltou à antiga vida: “Eu gosto de coisas materiais tanto quanto qualquer um. Estudei design de produtos no colégio. Apoio ‘gadgets’, roupas e todos os tipos de coisas. Mas minhas experiências mostram que depois de certo ponto os objetos materiais têm uma tendência a piorar as necessidades emocionais que deveriam apoiar”.

Histórias como a dele se contrapõem a um fenômeno: somos acumuladores. Não é preciso recorrer a casos extremos de pessoas que vivem cercadas pelo próprio lixo. Em um estudo da Universidade da Califórnia, antropólogos submergiram por nove anos na vida de 32 famílias de classe média americanas. Fotografaram cada objeto que entrava nas casas, registrando o atulhamento. Constataram que gerenciar a quantidade de tralhas acumuladas é uma das prioridades de qualquer morador adulto e que há uma curiosa correlação entre a bagunça de ímãs e bilhetes na porta da geladeira e do resto da casa. E a melhor de todas: 75% das garagens estavam tão lotadas de quinquilharias que já não permitiam a entrada dos carros.

Nas últimas décadas, estudos de psicologia revelaram os efeitos negativos desse hábito. Pessoas consumistas são mais ansiosas, infelizes e antissociais, concluíram, em uma série de estudos, dois pesquisadores americanos, Tim Kasser e Aaron Ahuvia. No ano passado, um trabalho conduzido por Galen V. Bodenhausen, da Universidade Northwestern, também nos Estados Unidos, chegou às mesmas conclusões, acrescentando que entre os consumistas desenfreados as taxas de bem-estar eram mais baixas do que em outros grupos.

O culto do “viver com menos” propõe uma ida ao extremo oposto. Não é um movimento, mas um fenômeno de muitas facetas, sem causa única e nenhuma regra. Mesmo assim, a ideologia minimalista se espalha na internet, com centenas de sites, blogs e perfis em redes sociais contando experiências e dando sugestões. “Não sei bem se há um movimento. Mas existem cada vez mais pessoas pensando que é simplesmente insustentável a quantidade de objetos que carregamos pela vida”, diz Alex Castro, que discute o minimalismo em seu site pessoal (alexcastro.com.br).

Ler a respeito fez Andrew Hyde, escritor e consultor de “startups”, desistir do apartamento onde acumulava coisas de uma vida toda. Primeiro, reduziu todos os pertences a cem itens. Concluiu: ainda era demais. Em agosto de 2010, pôs à venda quase tudo e ficou com apenas 15 coisas. Desde então, é o máximo de objetos que se permite ter. Descoberto por um radialista, ficou famoso. Aproveitou a notoriedade e, com itens como uma mochila, um par de camisas (veste uma a cada dois dias), um iPhone e uma toalha, viajou por 15 países, inclusive o Brasil no segundo semestre de 2012, reunindo histórias para o livro “A Modern Manual – 15 Countries with 15 Things” (Um manual moderno – 15 países com 15 coisas”).

“Quando algo estraga, tento consertar. Se não consigo, compro algo parecido na loja”, conta. E não foi só. Além de ter só 15 coisas, decidiu, como Hill, não ter mais moradia fixa. Continua viajando e cumprindo, em paralelo ao projeto minimalista, uma lista de desafios pessoais, como correr uma maratona (cumpriu), cair na festa em Barcelona (cumpriu) e escalar grandes montanhas (a cumprir).

“É um processo de anos. Você vai percebendo que precisa de menos coisas. Que não precisa de dez calças, de dez pares de sapatos. Que não precisa ter na estante todos os livros que leu”, diz Alex Castro. Ele se preocupa agora em manter o estilo de vida espartano também no mundo digital. “Não guardo filme algum. Sempre que assisto, apago.”

O conceito não é novo. Sem contar o exemplo do filósofo Diógenes, que na Grécia Antiga condenava os luxos da civilização e viveu em um barril, e uma penca de santos, Steve Jobs foi um minimalista. Uma ironia, já que parte importante de seus negócios era convencer pessoas a abandonar seus antigos MacBooks, iPhones, iPods e iPads por novos modelos. Mesmo rico, quando solteiro ele vivia praticamente sem nada: uma foto de Einstein em um porta-retratos, uma luminária, uma cadeira e uma cama. O humorista Ronald Golias (morto em 2005), outro adepto das poucas posses, dizia que cada uma significava uma nova responsabilidade e com um número pequeno podia usufruir melhor de todas.

A ideia de que podemos viver com bem menos – no caso, espaço – também está por trás de alguns empreendimentos imobiliários recentes em São Paulo. Apartamentos de pouco mais de 20 metros quadrados já são comuns nos lançamentos em bairros como Campo Limpo, Brooklin e Bela Vista. Repete-se aqui a tendência já verificada em metrópoles como Montreal, Hong Kong e Tóquio, onde a falta de espaço fez dos “miniflats” o padrão nas construções.

Pouco espaço significa poucos pertences. O impacto afeta a maneira como cada um se relaciona com o lugar onde vive. “Essa noção de lar restrito ao espaço físico se expandiu. Posso estar em outra cidade, mas, ao me conectar à internet, converso com meus amigos e minha família como se estivesse em casa”, diz o arquiteto Guto Requena, um dos responsáveis pelo projeto do escritório do Google em São Paulo. “Imagino para o futuro uma tribo de nômades capazes de, com poucos pertences e constantemente conectados, fazer de qualquer lugar o próprio lar.”

Não precisa imaginar. É a vida do americano Chris Yurista, agente de viagens e DJ, morador de Washington, que, vendo os pertences aos quais dava valor transformados em mídia digital – chegou a ter dois mil discos de vinil -, em 2009 decidiu abandonar o apartamento no porão onde morava e, guardando suas melhores roupas, um Macbook, um HD externo com 13 mil MP3s, um miniteclado musical e uma bicicleta, nunca mais teve um lar. “Não me sinto vazio vivendo como vivo porque descobri uma maneira de usar a tecnologia digital para minha vantagem”, diz. Noite após noite, dorme nos sofás de amigos ou quartos de hotel.

Mas, se reduz pertences ao menos possíveis, o estilo de vida minimalista não rompe com a sociedade de consumo. É sintomático que várias vezes, entre os objetos restantes, sejam listados aparelhos da Apple, a mais fetichista das marcas. Além do mais, um Kindle, um videogame, um bom computador e um smartphone como o iPhone ou o Samsung Galaxy custam, somados, mais do que uma estante cheia de livros, fora valer mais do que a renda anual da população de muitos países. Com a evolução da tecnologia, também acabam trocados de tempos em tempos, aumentando a pilha de lixo tecnológico.

A reação do inglês Mark Boyle a essas contradições foi a experiência minimalista mais radical. Ex-dono de duas empresas de comida orgânica, formado em economia, em 2008 ele decidiu renunciar ao dinheiro. “Na manhã em que finalmente desisti de usar dinheiro, o mundo inteiro mudou. Foi no mesmo dia das notícias sobre a quebra dos bancos envolvidos em negócios no mercado de hipotecas subprime. Então, quando comecei a contar às pessoas os meus planos, concluíram que estava me preparando para algum tipo de colapso financeiro apocalíptico”, relata.

Em diversas formas – cacau, gado, sal, ouro etc. -, o dinheiro acompanha a civilização humana desde o início. Mesmo as trocas simples, por meio do escambo, davam valores diferentes às mercadorias. “O dinheiro como meio de troca é antigo, mas como mediador universal de quase todas as relações humanas é moderno”, afirma Lincoln Ferreira Secco, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). As moedas de metal foram uma invenção dos gregos, no século VII a.C. Desde então, o sistema financeiro só fez evoluir.

Boyle resolveu que dava para viver sem dinheiro. Na Inglaterra, uma série de artigos para o jornal “The Guardian”, que o batizou de “o homem sem dinheiro”, fez dele uma celebridade. Vive em um trailer velho, que ia ser jogado fora, no Sudoeste da Inglaterra, plantando a própria comida e usando baterias solares para recarregar o celular e o notebook. Cozinha em um forno a lenha com a madeira que colhe na floresta. Depois de um ano da experiência, escreveu um livro, “The Moneyless Man: a Year of Freeconomic Living” (O homem sem dinheiro: um ano vivendo na economia livre), em que conta como foi a experiência. “Foi difícil nos primeiros dois ou três meses. Tudo era novo para mim, mas, desde então, ficou mais fácil e é o período da vida em que mais me senti livre”, diz.

Mesmo admitindo que dificilmente terá muitos seguidores, Boyle tenta dar um alcance maior a seu esforço. É o autor do “Manifesto sem Dinheiro”, mantém um site pessoal, colabora regularmente com o “Guardian” e dá palestras conclamando as pessoas a renunciar a um dos maiores pilares da civilização humana. Caso parecido com a da alemã Heidemarie Schwermer, que viveu sem dinheiro por 15 anos até ser descoberta por uma equipe da BBC e virar tema do documentário “Living without Money” (Vivendo sem dinheiro), que relata sua história: é aposentada, ganha bem, mas doa todo o dinheiro para a caridade, mesmo destino da renda dos três livros que escreveu. Tem três filhos e duas netas, que visita com alguma frequência. No restante do tempo, vaga sem rumo.

Seus pertences cabem numa mala com rodinhas, que leva em viagens pela Europa, convidada por anfitriões que pagam a passagem para que os visite. Quando jovem, ela visitou o Brasil. Chocada com a pobreza que viu nas favelas, mesmo seguindo carreira como professora e depois psicoterapeuta, passou a achar que havia algo errado com o dinheiro. Fez quatro experiências de abandoná-lo, aumentando a duração a cada vez, até que em 1995 doou a casa, as roupas e outros bens, passando a trocar pequenos serviços por comida e roupas. “Ainda usei algum dinheiro nos três primeiros meses, mas então aprendi a viver sem nada”, afirma. Hoje, os convites já não incluem trabalho, apenas sua presença.

Tanto Heidemarie como Boyle e outro famoso sem dinheiro, o americano Daniel Suelo, que vive numa caverna no Utah e é tema da biografia “The Man Who Quit Money” (O homem que deixou o dinheiro), escrita por Mark Sundeen, dizem que é possível para uma sociedade abandonar o dinheiro sem entrar em colapso. Algo que para Lincoln Secco é impossível: “Os socialistas utópicos, como Proudhon [socialista francês do século XIX] até criaram substitutos do dinheiro, como a troca de produtos de acordo com o tempo de trabalho. Mas isso sempre foi marginal. Nenhuma economia socialista tentou chegar perto da abolição do dinheiro”, observa o professor da USP.

Movimentos de contestação, nos quais o minimalismo e a renúncia ao dinheiro se encaixam, são, segundo Secco, cíclicos e comuns à história do capitalismo. “Desde o século XIX, avançam com a exibição de novas facetas maléficas do capitalismo, como a destruição ambiental, a monopolização, a manipulação genética de produtos agrícolas apenas subordinada ao lucro etc.”.

Apesar de se dizer simpático aos minimalistas, Guto Requena também não imagina a maioria da humanidade, mesmo vivendo em espaços pequenos, reduzida ao essencial. Afinal, somos fetichistas. “A casa do futuro não vai ser a casa dos Jetsons. Ainda vai ser cheia de lembranças. Carregamos conosco aquilo que nos traz algum tipo de sentimento, seja um urso de pelúcia ou a cadeira que pertenceu à avó.”

Mas no fim das contas é impossível entender o que atrai no estilo de vida minimalista sem levar em conta um aspecto: a sensação de liberdade por não ter tantos pertences é algo repetido em todas as entrevistas. O ato de abandonar objetos é descrito quase sempre como uma experiência libertadora, quase religiosa. “Me sinto bem livre, sempre”, diz Alex Castro. “Minha liberdade não tem nada a ver com o número de meus pertences.” E Graham Hill: “Não há nenhuma indicação de que essas coisas [os objetos] fazem alguém feliz; de fato, parece o contrário”.

a ética de viver com menos

6 June, 2013

afinal, qual é a grande diferença entre a pessoa que tenta viver com menos e aquela que consome tudo o que ganha?

* * *

diálogo com uma amiga querida:

Uma pessoa que abraça o minimalismo não deveria também se libertar da necessidade de ganhar dinheiro e viver de fato com o que se tem, ainda que esse tudo seja nada? Você não acha que está na mesma prisão de quem tem necessidade de manter um estilo de vida caro? “Preciso ganhar meu sustento mês a mês”, você diz. Não seria a mesma frase do burguês que trabalha todo dia no seu cubículo para manter as prestações do carro do ano pagas?

excelente pergunta. veja se esse texto aqui responde: A pior desculpa da humanidade: “não tive escolha”

Não responde. Já li esse texto. Acho que você, Juan, Juliana e eu estamos no mesmo barco. Todos “precisamos” manter um estilo de vida. Essa manutenção pode envolver mais ou menos dinheiro. Mas o fato é que, mesmo vivendo com menos e menos apegado a bens de consumo, você também está na prisão, né? Abandonou os materiais, mas os imateriais ainda estão aí, fazendo que você precise ganhar seu sustento.

exato. por isso, eu não me acho diferente do “burguês”.

cada um estabelece suas prioridades e depois corre atrás de grana pra pagar suas contas. eu só tento estabelecer menos prioridades e ter menos gastos pra precisar correr menos atrás.

mas, fundamentalmente, é a mesma situação. uma não é melhor que a outra.

o que o texto está dizendo é que o cara escolher gastar sua própria grana com um carro de corrida ou com filhos dá na mesma. ele é livre, o dinheiro é dele, ele gasta no que quiser. olhar pros dois e achar que o cara que torra tudo com o carro de corrida é um futil é uma visão muito moralista.

Entendi. Precisando de menos, o esforço é menor.

quanto menos coisas você precisar, menos vai ter que se matar pra conseguir essas coisas e mais tempo vai te sobrar.

mas não é uma crítica moral. não tem nada de errado no cara que se mata pra ganhar 30 mil por mês e todo mês torra os 30 mil que ganhou.

Tô te perguntando isso porque eu gostei muito do texto do cara que te critica. Queria que todo mundo que me criticasse fizesse tão bem quanto esse cara!

concordo com ele em praticamente tudo. eu poderia ter escrito esse texto.

Realmente me parece um desejo de diferenciação. Não dá sua parte, mas de um grupo muito grande.

bem, eu só quero trabalhar menos.

da minha parte, é pura vagabundagem. sem moralismos.

“alex castro, guru do minimalismo?” não, obrigado

6 June, 2013

o músico jorge l. santos, leitor de antiga data, escreveu um texto provocante e inteligente sobre a “moda” do minimalismo e meu papel de “guru” dentro dela.

abaixo, o texto do jorge:

* * *
A moda minimalista

Já de um bom tempo tenho hábito de me questionar bastante sobre a real necessidade de comprar qualquer objeto. Esse foi um dos motivos que me levou a ter um celular tão “tardiamente”. Eu simplesmente não via necessidade em ter um. Só em 2010 passei a usar o bendito aparelho. Não se tratava de uma postura anti-capitalista ou anti-tecnológica. Eu sempre argumentava aos estupefatos interlocutores que me perguntavam por que eu não tinha o “dito cujo”: “eu não acho que preciso”. Além do mais; era um gasto a menos.

Esse prelúdio foi apenas para iniciar um comentário sobre a nova moda da classe-média intelectualizada brasileira: o minimalismo. Para quem já teve tudo, e no fundo sabe que pode voltar a ter tudo, a escolha chamada de minimalista é mais fácil do que apregoam seus defensores. Em geral, incomoda-me um pouco quando alguém começa a vender uma ideia de “dever-ser”, uma espécie de manual, ainda que mais aberto e não dito de forma explícita, de um “viver diferenciado”.

Duas matérias recentes em jornais de grande circulação atestam esse novo “fenômeno” social nas altas classes brasileiras. Primeiro o Valor Econômico, e mais recentemente O Globo. Em ambos, o escritor Alex Castro aparece como um dos gurus desse modus vivendi. Acompanho há alguns anos os textos que ele escreve. Alguns brilhantes sobre racismo e história da escravidão no Brasil. Ele também é ficcionista embora na prática dedique pouco da sua produção para isso. Cheguei inclusive a comentar um romance dele aqui.

Alex virou um guru de jovens adultos em busca de uma vida sem a culpa do consumo. A palavra guru aqui não é figura de retórica, além de escrever sobre o assunto, ele dá palestras ”ensinando” as pessoas como se libertar do que ele chama de “prisões”. Apenas para assistir a palestra, paga-se a bagatela de R$100, o que por si denota quem é o público alvo. Não é uma consulta/atendimento individual, é uma palestra coletiva. Mas o que está em questão não é o preço, nem mesmo o Alex em si, cuja formação e persona pública humanísticas são irrepreensíveis, mas sim o fato de que, conscientemente ou não, ele encarna essa busca médio-classicista de ser diferenciado.  Mais do que isso; a tentativa de propagar essa ideia não é muito diferente de uma igreja evangélica neo-pentecostal. A comparação parece absurda, mas tudo deve ser visto em termos.

Nesse meio altamente intelectualizado, não caberia bravatas e nem ameaças de inferno ou semelhante, todavia assim como nas religiões, Alex vende uma ideia de que há um jeito ideal de se viver e que esse jeito é o dele – e inteligentemente ele diz que não faz isso, que “não está cagando regras sua cabeça”. Para isso, utiliza uma retórica que vai do excesso consumista do capitalismo ao budismo ocidentalizado, tendo a si próprio como modelo basilar, o que na prática não se coaduna.

Frequentemente em seus textos Alex cita supostos amigos que enriqueceram e em momentos de crise de consciência, por conta de suas escolhas de outrora, o ligam apenas para parabeniza-lo pela coragem de “viver assim”. Ele encara a escolha do outro como prisão. O simples fato de mencionar esses diálogos com amigos “ricos”, colocando-se como Robin-Hood da liberdade e do desapego já encerra em si uma vontade de verdade (para utilizar fora de contexto um termo de Foucault sobre o discurso) inequívoca e quase positivista.

Utilizar o Zen-budismo como base, no meu entender, agrava ainda mais a situação. É difícil saber o que é o Zen, mas dá pra arriscar dizer o que ele não é, e cada vez que o Alex fala desse assunto, minimalismo, citando ou se baseando direta ou indiretamente em algo do Zen, mais ele se afasta dos princípios fundamentais da práticado Zen. Sua retórica moral (não moralista) que está por trás do discurso minimalista se baseia numa leitura ocidental extremamente pretensiosa do Zen, que o coloca como solução moral e espiritual para os males da pós-modernidade, algo como uma terapia para alma e para consciência moral. Fazendo isso se afasta radicalmente do silêncio como princípio.

São muitas as contradições escancaradas: ele escreve que vive uma vida mínima, sem luxos, sem viagens, etc, mas realiza turnês frequentes em diversos estados, segundo seus próprios twitts. O fato de não ficar num hotel não te torna um monge renunciado. Pelo contrário, ficar na casa de amigos e fãs é um privilégio que poucos podem ter. O escritor fala de uma vida sem rastro, mas escreve sob seu cotidiano há mais de uma década.

De toda forma não se trata de um julgamento moral. Não faria sentido algum qualquer que fosse o caso em questão. Não há desvio ético ou moral em se ganhar dinheiro e fama com um nicho de mercado. Procuro apresentar o Alex, aqui, como um exemplo, uma personagem, extraído das reportagens antes mencionadas, para apontar as profundas contradições que enxergo no discurso e prática de um dos “líderes”, por falta de melhor termo, dessa prática.

No fim das contas é isso que, ao que me parece, busca essa classe-média ilustrada brasileira. Ser diferenciado. Umas das coisas que sempre marcou o “ser classe-média” era o acesso a bens duráveis como carro, tevê, imóveis e hábitos de consumo acima do padrão, como ir a restaurantes, teatros, cinemas e viagens mais longas com alguma frequência. Esse padrão de consumo colocava esse grupo numa posição social, nessa tensa relação de poder cotidiana, muito acima da massa de trabalhadores. Ainda que empregado, o trabalhador comum considerava uma “simples” tevê nova um bem quase inalcançável, o sonho de uma vida.

Na Era Lula, isso começou a mudar. O crescimento econômico a uma baixa inflação, o aumento de crédito com juros mais baixos, permitiu um acesso vertiginoso a bens de consumo antes quase que exclusivos das classes-média e alta. Aliado a isso, a educação que servia como privilégio delimitador dessa fronteira, o ensino superior em especial, cada vez mais se torna mais acessível e deixa de impactar nas relações de poder e principalmente de sensação de superioridade, quase nunca declarada, das classes altas com a classe subalterna. Lógico que essa generalização não se aplica exatamente ou necessariamente a esse grupo dos minimalistas, mas de certa forma esse fenômeno parece delinear esse traço em se tratando do fenômeno no Brasil. Talvez esse seja um traço cultural marcante da classe-média brasileira, essa vontade de diferenciação. Como menciona a filósofa Marilena Chauí nesse vídeo, referindo-se a classe-média paulistana, o médio-classista tem por hábito essa vontade de privilégio.  Principalmente de diferenciação explicitada ora no poder aquisitivo ora no status intelectual, leia-se diplomas universitários, ora num estilo de vida que possa ser abalizado por legitimadores intelectuais/ideológicos, como no caso do Alex, e  sobretudo uma diferenciação que se marque pela singularidade, pela exclusividade, nesse caso de ordem social.

Considero o minimalismo uma prática tão legítima quanto qualquer outra. Embora eu possa ser até considerado um “minimalista”, talvez por questionar tanto minha real necessidade de aquisição de certos bens ou por exercitar, em algum nível, o desapego material, e mais dificilmente, imaterial, não há absolutamente um argumento que torne essa postura mais legítima que outras. Nem mesmo a sustentabilidade. Seria sofismar usar uma questão de ordem coletiva e de grandes proporções, qualquer que seja o estilo de vida, como argumento para legitimar uma prática individualista e moralmente pretensiosa. Uma pessoa que é verdadeiramente simples nunca clamaria para si o status da simplicidade.

[fim do texto do jorge]

* * *

concordo com quase tudo que o jorge diz. vejo todas essas contradições que ele aponta e tento resolvê-las na minha vida prática.

eu somente colocaria algumas coisas de modo diferente: por exemplo, ao chamar o minimalismo de “moda”, o jorge já está se colocando contra ele. (eu teria dito “estilo de vida”)

mas não acho que o jorge está errado: ele está escrevendo em resposta à matéria do globo, que faz um esforço grande para apresentar o minimalismo como “modinha de jovens hipsters burgueses entediados”.

definitivamente, de agora em diante, o minimalismo vai ser progressivamente apresentado, visto e detonado como uma modinha de gente rica, e quero fugir desses rótulos.

eu tento viver com menos. só isso. menos objetos, menos tensões, menos consumo, menos trabalho, menos grana.

não me apresento como guru e, para evitar de ser visto assim (nem sempre funciona), reitero repetidas vezes que não quero convencer ninguém e que não acho minha vida melhor do que outras.

não faço parte de nenhum movimento. não assinei abaixo-assinados. não defendo que ninguém mude sua vida. não acho que ninguém deve viver como eu.

não me considero budista e, com certeza, não estou qualificado para ensinar o dharma para ninguém.

e, por ser sinceramente pobre, preciso sim ganhar meu sustento mês a mês. não tenho economias, investimentos, emprego fixo. por isso, aceito dinheiro para falar sobre como decidi viver minha própria vida.

existem contradições inerentes nisso? existem. o texto do jorge as descreve muito bem.

estou aqui tentando resolvê-las. um dia de cada vez.

enquanto isso, para quem quiser ouvir soluções da boca de um guru, sugiro ler textos de auto-ajuda ou contratar um  coach.

aqui, não oferecemos esse serviço.