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Escritores e bonecas

Amiga engenheira me conta um dos momentos mais definidores de sua vida:

“Então, eu tinha uma daquelas bonecas que fazia alguma coisa, sabe? Falava, mexia, não lembro. Aí, um dia, de repente, ela parou de funcionar. Eu era bem pequena ainda mas consegui abrir a boneca, dei uma fuçada lá dentro, mexi alguma coisa e, pimba, ela voltou a funcionar. Aquilo pra mim foi poderossíssimo. Eu tinha agência, eu tinha autonomia, eu tinha poder. Quando as coisas paravam de funcionar, paravam de agir como eu queria que agissem, eu tinha poder de intervir, de reparar, que moldar o mundo à minha vontade, por força do meu intelecto, da minha habilidade. Claro que eu não conseguia articular isso naquela idade, mas foi uma sensação fortíssima que nunca me abandonou, uma sensação que me sustentou na escola, em cinco anos de faculdade de engenharia onde eu era uma de cinco mulheres entre quinhentos homens e, bem ou mal, me sustenta profissionalmente até hoje.”

E respondi:

“Que história linda. E como são incríveis nossas diferenças! Quando eu era pequeno, aconteceu a mesma coisa comigo, um boneco parou de funcionar, e nunca, jamais, teria me ocorrido abrir o boneco e mexer lá dentro!”

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Perguntou minha amiga:

“O que você fez?”

E lá fui eu:

“Bem, eu cavei um buraco no jardim, depositei o boneco ali dentro e coloquei todos os meus outros bonecos de pé em volta do buraco. Então, cada um deles fez um elogio fúnebre do defunto. O Falcon (alguém lembra do Falcon, meu Deus?) relembrou uma batalha impossível onde o falecido tinha salvo sua vida. A Barbie relembrou seu namoro com o falecido, com quem apenas rompeu porque ele teve que ir a guerra com o Falcon e só por isso ela tinha conhecido o Ken. (“Ainda bem pela guerra”, disse ela, em voz baixa.) O Ursinho Carinhoso disse ter conhecido o falecido assim que voltou da guerra, transformado por suas experiências militares em um lutador incansável pela proteção do meio ambiente e dos animais. Etc etc. Naturalmente, várias narrativas entravam em conflito e se contradiziam. Uma boneca dizia: “O Fulano que eu conheci jamais faria isso!” E outra gritava: “Você não sabe de nada! Comigo fez muito pior!” E caíam se atracando em cima do cadáver do outro. Etc etc. O fato de um boneco ter parado de funcionar me deu a oportunidade de criar várias biografias possíveis para ele, e também de criar vários outros personagens, e todas as maneiras diferentes através das quais eles se conheciam e interagiam. Foi muito legal.”

E minha amiga engenheira, me olhando como se eu fosse um ET:

“De fato, somos muito muito diferentes!”

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“Escritor obscuro prevê a própria morte”

Um experimento artístico-midiático-sociológico.

Sempre que vou embarcar em um voo, envio uma mensagem pra minha namorada dizendo que tive um mau pressentimento, que sonhei que o avião iria cair, que senti um cheiro de morte a bordo. Mas, ok, tudo bem, estou embarcando mesmo assim: “se cair, é porque era o meu destino.”

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Amar é cuidar

O cuidado amoroso verdadeiro é como o amor se manifesta no mundo.

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Algozes de nós mesmas

Nada pode ser mais poderoso, mais apavorante, mais necessário do que estarmos sozinhas com nossas mentes, sem intermediários e sem desculpas.

Se uma colega de trabalho me feriu hoje à tarde no escritório, essa foi uma ação dela sobre mim e, mais dia menos dia, ela vai pagar o preço: afinal, ela me fez sofrer.

Mas, se hoje à noite, fritando na cama sozinha com meus pensamentos, eu ainda estou remoendo esse insulto e mastigando essa ofensa, então essa é uma ação minha sobre eu mesma e o preço eu já estou pagando agora, em tempo real: eu estou me fazendo sofrer.

Mesmo em um universo tão cruel e tão aleatório, o meu maior algoz quase sempre sou eu mesma: meus pensamentos obssessivos, minha mente desordenada, meu apego à minha identidade.

Não precisa ser assim.

Narrativas

Millôr dizia: “Às vezes, você está discutindo com um idiota… e ele também!”

Sempre que alguém vem me falar mal de ex-cônjuge, penso uma variação disso:

“Às vezes, você casou com uma pessoa horrível… e ela também!”

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Relaxamento

Meditar não é pra se acalmar, pra se tranquilizar, para relaxar: pelo contrário, é pra nos darmos conta de que não somos calmas, tranquilas, relaxadas.

É para descobrirmos, muitas vezes para nossa surpresa, que ainda estamos obcecadas por aquele velho namorado, que ainda estamos sofrendo a dor daquela velha ofensa, que já estamos vivendo a angústia da morte que um dia morreremos.

Basta tentarmos habitar o momento presente para percebermos o quanto moramos no passado e no futuro.

meus textos, minha vida

um fenômeno interessante:

peço às minhas pessoas leitoras opiniões sobre os meus textos…

… e elas respondem dando opiniões sobre a minha vida.

aquelas velhas narrativas auto-congratulatórias

sempre desconfio de qualquer texto ou colocação, pensamento ou comentário

(especialmente partindo de mim!)

cuja moral da história seja

“olha como sou bonzão”

Cúmplices

Amiga:

“Fico aqui pensando, tudo isso que os espanhois e portugueses fizeram, dobraram a África e cruzaram o Atlântico, mataram e escravizaram, foi por especiarias, né? Pimenta, cravo, canela, noz moscada. Não foi pra se alimentar, não foi pra sobreviver: foi só pra aromatizar. E mesmo aqui no Brasil, fomos a maior economia escravista do mundo não pra plantar mandioca ou batata, mas sim café e açúcar. Você acha que quando as pessoas do passado tomavam um cafezinho, adoçavam com melado, temperavam com uma pitada de canela, que elas se sentiam cúmplices de toda essa miséria humana que tinham causado? Será que tinham noção do verdadeiro custo daquele luxo?”

Eu:

“Não sei. Porque você não faz uma busca na internet no seu iPhone?”

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Acolher a mentira

Se só pessoas que não mentem sobre si mesmas merecessem ser ouvidas e acolhidas, abraçadas e ajudadas, então, não sobraria ninguém.

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Perseguições

Quando eu era criança, e minha colegas de escola diziam que “a tia Fulana me persegue” eu sempre respondia:

“Porra, a tia Fulana é velha, tem dois filhos, é casada, dá aula em duas escolas, tem conta pra pagar. Você acha mesmo que ela iria perder o tempo te perseguindo?”

Aí eu cresci, virei professor, comecei a frequentar sala de professores e descobri, mais para minha surpresa que para meu horror, que sim, tem muita pessoa professora que persegue criança sim, persegue de verdade, persegue com dolo, e ainda se gaba na sala de professores:

“Hahaha, hoje o Juquinha se fudeu, peguei ele de jeito, ele nunca mais vai se meter comigo, humpft”

Eu dizia: “Fulano, você está se ouvindo? o juquinha nao é seu inimigo, seu adversário, seu nêmesis… ele é a criança de doze anos que você é pago para educar, e cuidar!”

“Ah, Alex, você fala isso porque não conhece o Juquinha! ele é um monstro!”

E eu só pensando em todos os coleguinhas de escola a quem eu devia desculpas retrospectivas por ter sido uma criança que claramente superestimava o equilíbrio emocional das pessoas adultas.

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A pior coisa que te fizeram

Muitas de nós temos relações ambivalentes e conflituosas, afetivas e odientas, gratas e ressentidas, com pai e mãe.

Gosto de propor o seguinte exercício:

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A liberdade da biruta

Pergunta:

“Alex, faz sentido se esforçar tanto para controlar e disciplinar a mente? Por que tanta repressão?”

Porque, ironicamente, nenhuma mente está mais presa, nenhuma mente é menos livre, do que a mente descontrolada, refém de seus próprios condicionamentos, correndo sem rumo de um lado para o outro como um cachorro que não sabe qual carro perseguir.

A gente se autocontrola para sermos mais livres.

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A culpa não é da África

O que está destruindo o planeta não é a superpopulação mundial.

Se as sete bilhões de pessoas tivessem o nível de consumo da Etiópia, o planeta tava de boas.

Não dá pra falar de superpopulação sem levar em conta o aspecto classe, como se as sete bilhões de pessoas fossem “iguais”, como se uma equatoriana e uma alemã tivessem a mesma pegada de carbono.

O que está destruindo o planeta é o superconsumismo ocidental.

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* * *

Uma boa definição para “pessoa de direita”: aquela que fala, pensa, reflete sobre qualquer assunto sem levar em conta o aspecto “classe”.

 

existem pessoas

existem pessoas que são frias porque sentem nada ou pouco.

existem pessoas que parecem frias porque sentem tudo extremadamente e aprenderam a controlar as emoções.

existe a teoria de que as primeiras são as segundas que você ainda não conheceu direito.

Nossa vida no meio do lixo

Pergunta: “Como desapegar das minhas tralhas?”

Ceci Garrett has been helping hoarders, like this one, with Lightening the Load, a hoarding ministry in Spokane. Garrett's mother was a hoarder and they appeared on the show "Hoarders" on A&E. COLIN MULVANY colinm@spokesman.com

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Como lidar com a dor

Pergunta: “Alex, como você lida com a dor?”

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A cruz e o carma

Outro dia, um moço me procurou. Setenta anos, alguns distúrbios mentais, um câncer no cérebro. Estava raivoso, puto, frustrado.

Em um dado momento, me acusou de não estar fazendo nada para ajudá-lo. Que o que ele precisava mesmo era que eu pegasse aquele câncer pra mim. Afinal, por que no cérebro dele e não no meu?!

E eu respondi:

“Se você pudesse pegar o meu diabetes, a minha hipertensão, a minha gota, a minha gastrite, eu pegaria o seu câncer de cérebro.”

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A religião é um espelho

Podemos escolher presumir sempre o melhor: a religião é um espelho onde cada pessoa enxerga aquilo que traz.

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O monge é uma farpa na carne da História

Os monges foram os primeiros revolucionários e os monastérios, as primeiras utopias.

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