próximos eventos

clique aqui para ver quais são os próximos eventos do alex castro.

a entropia e o tempo

a entropia aumenta com o tempo ou a entropia É o tempo?

aprendemos na escola que o universo favorece à entropia (é mais fácil quebrar uma caneca do que fazer uma caneca) e que tudo caminha em direção à própria dissolução.

ou seja, aprendemos que a entropia aumenta com o tempo.

entretanto, existe outra maneira de ver a coisa: talvez a entropia SEJA o tempo.

pois, afinal, só conseguimos perceber ou medir o tempo através da entropia que percebemos no universo. não há como dissociar entropia do tempo.

em outras palavras, sabemos que o tempo está passando porque podemos ver a rosa progressivamente murchando dia a dia.

mas talvez não seja a entropia da rosa aumenta com o tempo mas que é o próprio tempo que seja a entropia que destroi a rosa.

ficou claro? (se ficou, então você não entendeu nada.)

* * *

sobre isso: four reasons you shouldn’t exist

* * *

alguns textos entrópicos:

cajuína // eu, que vou morrer, os saúdo, que também vão morrer // você não tem tempo

 

história de uma caixa de farmácia

farmácia, tarde da noite.

vou até o balcão no fundo, onde o único atendente está conferindo a receita de um freguês. eu espero.

a senhora que estava no caixa percebe e vem correndo, ansiosa, como se me atender fosse a coisa mais legal do mundo, e pergunta o que estou procurando.

plasil, eu digo.

ela faz uma cara de que nunca ouviu falar daquele nome, mas vai procurar pela farmácia mesmo assim. daqui a pouco, ela retorna, dessa vez com uma nova expressão no rosto: sinto tanto, mas tanto por não ter podido ajudá-lo. jê suí dessolê!

e eu penso: plasil é um remédio muito comum, como pode não conhecer?

dentro de mim, sinto os primeiros tremores do velho alex acordando, o alex-godzilla, o alex-mr-hyde, o alex que dizia coisas como, “cara, eu aguento tudo, só não tolero gente incompetente!”

verdadeiro diabinho, o alex-que-eu-era sabe exatamente o que eu deveria dizer para a atendente da farmácia:

“a senhora poderia ir buscar alguém que saiba o que está fazendo, por favor?”

mas o velho alex era um babaca e eu não faço mais o que ele manda.

sorrio para a atendente e agradeço muito. continuo olhando coisas aleatórias pela farmácia até ela se afastar um pouco e, então, sem que ela escute, pergunto ao moço que está atrás do balcão:

por favor, plasil é aí dentro ou cá fora?

ocupado e ranzinza, ele faz um gesto impaciente na minha direção e grita:

dona maria, PLASIL!

ela se aproxima novamente:

eu já procurei, não tem.

ele aumenta o tom:

tem sim, caceta. tá ALI!

imperturbável e sorridente, dona maria se abaixa, encontra o plasil e entrega na minha mão:

aqui está, filho.

e ela me leva até o caixa, onde passa a minha compra.

* * *

aqui dentro de mim, no meu ó-tão-incrível ego, eu continuo sendo aquele horrível menino-criado-feito-um-reizinho cujo primeiro instinto teria sido destratar a dona maria.

quase sempre, consigo me controlar.

às vezes, falo coisas horríveis.

é como o alcoolismo: nunca se está realmente curado.

praticar ser a pessoa-que-queremos-ser nunca é fácil.

* * *

na saída da farmácia, seguro as duas mãos de dona maria e digo:

obrigado, viu? a senhora foi muito, muito gentil.

peludos & pelados, políticos & poéticos

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alex & claudia, na casa da let, em um ensaio fotográfico peludo & pelado, político & poético, por coletivo além.

(os fotógrafos, mateus & núbia, também estavam pelados & peludos.)

* * *

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nem toda nudez precisa ser objetificante.

tristemente, no mundo de hoje, um ensaio fotográfico onde a nudez não seja nem sexual, nem erótica, nem pornográfica, e onde os pelos do corpo humano sejam retratados de forma natural…

…é um ensaio fotográfico absolutamente político & transgressor.

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em janeiro de 2014, claudia e eu fomos clicados pelo coletivo de arte político-poética além.

(se você não puder abrir esse link no seu trabalho, leia a prisão trabalho.)

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quais comentários responder?

de repente, a Outra Significativa levanta a cabeça do seu latptop e pergunta:

“me diz se eu devo responder isso aqui.”

e eu, na lata: “não responde.”

“mas você nem viu.”

“não responde. vai por mim.”

mas ela veio e me mostrou. um babaca criticando uma foto linda só porque a modelo tinha cabelo nas pernas. e eu suspirei:

“ok, responde ao babaca. mas, por favor, da próxima vez, não me mostra o comentário. assim a minha opinião de “não responde” pode ser 100% isenta!”

voyeur

voyeur

ganha um doce quem adivinhar o que ela está fazendo.

como ganhar a vida dando meu trabalho de graça

nada pode ser mais mesquinho do que dizer “olha, tenho uma coisa legal aqui mas só te mostro se você pagar”.

e, na nossa sociedade capitalista, nada poderia ser mais tristemente comum.

* * *

todos os meus textos estão disponíveis gratuitamente na internet, para quem quiser ler, reler, linkar, distribuir.

todos os meus livros circulam gratuitamente, na forma de ebooks.

na revista fórum, escrevo gratuitamente, sem ganhar nada, por ativismo e por militância, porque a revista é importante para as causas que apóio.

todos os meus encontros têm a opção de entrar gratuitamente: paga somente quem quer, quem gosta de mim, quem acompanha meu trabalho, quem deseja colaborar.

ninguém precisa pagar para usufruir dos frutos do meu trabalho.

para mim, isso é o mais importante. senão, não faria sentido.

* * *

praticar arte de forma mais inclusiva e, ao mesmo tempo, ganhar a vida como artista é um dos grandes dilemas da arte contemporânea.

publicar minha literatura de graça na internet, sempre disponível para todos, e ganhar dinheiro vendendo esse mesmo conteúdo na forma de livros e encontros para quem pode e quer pagar… essa me parece ser uma das formas mais inclusivas de fazer literatura no brasil.

é o que posso fazer.

***

hoje, consigo ganhar a vida exclusivamente como escritor, graças à generosidade de cerca de 200 mecenas, entre elas 55 assinantes-pagantes, que contribuem com doações em dinheiro para a minha produção.

são elas que permitem que eu dê o meu trabalho de graça para quem deseja usufruir dele e não pode pagar.

muito, muito obrigado.

* * *

se você gosta do meu trabalho, e se não for fazer falta no leitinho das crianças, por favor, considere fazer uma doaçãohttp://alexcastro.com.br/mecenato/

se quer só acompanhar os meus textos, ler prévias, saber das novidades, assine meu newsletter (não custa nada!): http://alexcastro.com.br/assine

racismo reverso

uma camisa “100% branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar uma pessoa privilegiada celebrando seu privilégio.

uma camisa “100% negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.

existe uma enorme diferença.

* * *

a partir de agora, quando alguém vier me falar de racismo reverso, vou mostrar esse vídeo. tem legendas em português.

um pouco sobre o encontro “as prisões”

 há doze anos, escrevo sobre as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. são elas:

verdade // dinheiro // trabalho // privilégio // sexismo // racismo // monogamia // religião // patriotismo // escolhas // respeito // certezas // os outros // medo // ambição // felicidade // narcisismo

agora, estou promovendo o encontro “as prisões” por todo brasil. o público-alvo são ovelhas negras em busca de interlocutores. o encontro oferece a oportunidade de passarmos o dia inteiro trocando histórias, compartilhando vidas, debatendo perplexidades. ao final, nós, todas as pessoas, estamos exaustas, gastas, esvaziadas. confusas, atarantadas, chacoalhadas. (veja os depoimentos de quem já foi.)

o encontro “as prisões” é independente por ideologia. não possui vínculo institucional algum. é divulgado pela internet de forma alternativa e realizado em praias, parques, quintais, praças. oferece frutas e castanhas para comermos ao longo do dia e tem um intervalo para almoço. começa sempre às nove da manhã de sábado ou de domingo e termina na hora que terminar. muitas vezes, a química é tanta que não queremos ir embora: o encontro mais longo durou 13 horas.

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o encontro é pago. mas negar uma pessoa só porque ela não pode pagar seria dar importância demais a essa convenção arbitrária que chamamos dinheiro. portanto, algumas pessoas pagam, outras pagam menos, outras não pagam. na prática, as que pagam me possibilitam fazer o encontro para as que não pagam. nada poderia ser mais solidário do que isso. (para saber mais, consulte a política de gratuidades.)

não é auto-ajuda, terapia, coaching. não é palestra, aula, exposição de conteúdo. não tem apostila, powerpoint, frases de efeito pra anotar no moleskine. não oferece respostas, soluções, remédios. não promete uma vida mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.

não ajuda em nada. pelo contrário, só atrapalha. às vezes, nos transforma em pessoas ainda mais confusas, desajustadas, perdidas. afinal, ser bem-sucedida e bem-ajustada em um mundo canalha pode bem ser indicativo de nossa própria canalhice.

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calendário completo de encontros “as prisões” em todo o brasil em 2014.

sobre alex castro: bio, clipping, fotos, entrevistas.

dúvidas, questões, desabafos? fale com o alex.

prisões já publicadas: monogamia // patriotismo // dinheiro // trabalho // felicidade // narcisismo

o que você gosta de ouvir?, me perguntou um amigo

eu: mulher rindo. alho refogando. zíper abrindo. ondas quebrando. gemidos de gozo. criança brincando. zumbido de ar-condicionado começando a funcionar. dois sapatos caindo no chão, lentamente, um depois do outro. o apito do sorveteiro que passava pela minha casa. passos descalços no chão frio. “eu te amo, alexandre.” o oliver latindo quando chego em casa. saltos altos no mármore. máquina de escrever elétrica. pisada forte de mulher decidida. apito do recreio. pernas femininas, vestidas de couro ou látex, roçando uma contra a outra enquanto andam. suspiro saciado de prazer. ronco do oliver dormindo profundamente.

ele: não. eu quis dizer de música.

eu: ah.

“é tudo mentira”, uma entrevista

talvez minha melhor entrevista.

concedida a felipe nascimento, do blog voo subterrâneo.

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como disse krishnamurti, filósofo indiano do século passado, não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade doente. mas, para os deslocados, as pessoas que não encontram eco dentro dos valores estabelecidos nas esferas da família, religião, sexualidade, trabalho e tantas outras, nem sempre é fácil sentir-se saudável tendo ideias e comportamentos respeitados por poucos. entretanto, há quem trabalhe para tentar desconstruir as verdades estabelecidas, questionar os valores sociais cristalizadas, dialogar sobre outras formas de convívio e comportamento. são esses os interlocutores das “ovelhas negras”, e entre eles está alex castro.

escritor, alexandre moraes de castro e silva é carioca, nascido em 1974. em seus textos, é recorrente a abordagem de temas como feminismo, racismo, identidades de gênero, relacionamentos não monogâmicos, ego, narcisismo. ele escreve regularmente em seu blog e no papo de homem, e como literatura publicou o livro de contos “onde perdemos tudo” e o romance “mulher de um homem só”. além de escrever, também trabalha promovendo encontros chamado “as prisões”, no qual se reúne com grupos de pessoas para discutir temas como monogamia, dinheiro, família, regilião, ego, felicidade, etc. ele também foi um dos co-fundadores do tumblr classe média sofre.

procurado pelo voo subterrâneo, que realiza entrevistas gravadas em áudio, alex castro optou por responder as perguntas por e-mail, para  ter “tempo de refletir e pensar em cada resposta, com calma e tranquilidade”. confira, abaixo, a entrevista.

* * *

se tornando escritor

o que fez você decidir, com 12 anos de idade, que iria ser escritor?

até os 12 anos, eu desenhava quadrinhos, que xerocava e vendia entre os amigos de escola. então, passei um mês com um amigo da família que era desenhista profissional, gutemberg monteiro, o goot, que na época desenhava a tirinha do tom & jerry. essa temporada com o goot me fez ver que desenho era muito mais complicado do que eu imaginava. percebi que minha paixão era contar histórias e que o desenho era somente um meio (muito complicado e trabalhoso) de fazer isso. então, aposentei os materiais de desenho e decidi que seria escritor.

coloquei uma mesa e uma máquina de escrever elétrica ibm no meu quarto, daquelas verdes e enormes, com esferas metálicas, e comecei a trabalhar todo dia. nesse ano, meu primeiro exercício foi inventar um detetive e reescrever contos policiais de outros personagens mas agora estrelados pelo meu. sem a pressão de precisar criar um enredo, eu podia treinar desenvolver o meu próprio personagem.

e assim, comecei. esperando não parar até morrer, como disse whitman.

em algum momento essa convicção tua foi abalada?

não sei bem se era uma convicção, nem se era sólida ao ponto de ser abalada. digamos que era gelatinosa. o que é gelatinoso não se abala, pois se tremer já é da sua natureza. mas, certamente, desde então, nunca quis ser nenhuma outra coisa a não ser isso: escritor.

quais foram as pessoas que mais inflenciaram suas ideias e seu jeito de ser?

vou citar só os escritores, pois se falasse das pessoas de carne-e-osso do meu dia-a-doa, não acabaria nunca mais.

ninguém lê do mesmo jeito depois de ler borges. clarice lispector e lobo antunes me ensinaram que eu podia fazer muito mais com a língua portuguesa do que imaginava possível. a bíblia e “declínio e queda do império romano”, de gibbon, me ensinaram tudo o que sei sobre a arte de contar histórias. henry miller, apesar do sexismo galopante, e walt whitman me ensinaram um amor pela vida além de todas as fronteiras e de toda a lógica. thoreau e conrad me ensinaram, pelo contrário, um certo autocontrole e uma sobriedade que são tão importantes quanto. “cecília valdés”, de cirilo villaverde, me mostrou como os horrores da escravidão podem virar grande literatura. “a hora da estrela”, de novo da clarice, “os miseráveis”, de victor hugo, e “memórias de um caçador”, de turgeniev, e tudo de lima barreto, me ensinaram como escrever e como abordar as histórias das pessoas humildes e marginalizadas. machado me ensinou o valor da sutileza, que tudo pode ser dito indiretamente, discretamente, e o texto não é menos contundente por causa disso. por fim, tchecov me ensinou que não se pode escrever ficção sem uma gigantesca empatia por tudo que seja humano.

esses são meus mestres.

relação com as causas sociais

quais as principais dificuldades que você encontrou ao longo de sua vida e como você vem superando elas?

tive uma vida privilegiada. sou homem, branco, hétero, cis, classe média alta. em um país como o nosso, tão cruel com suas mulheres, com suas pessoas negras, com suas pessoas homossexuais, com suas pessoas trans*, chega a ser ofensivo uma pessoa como eu falar em dificuldades. eu só tive facilidades. minha maior dificuldade talvez tenha sido justamente superar os preconceitos de classe oriundos da minha vida ó-tão-fácil, me dar conta de que o mundo não girava em torno do meu umbigo e, finalmente, reconhecer meus muitos privilégios. só então pude virar uma pessoa menos detestável. é um longo processo. falta muito ainda.

quando e como surgiu em você suas preocupações com as causas sociais, femininas, raciais, etc?

morar no exterior e ver o brasil de fora me fez desnaturalizar algumas convicções. ver que havia outras maneiras de resolver os mesmos problemas. que o nosso jeito não era um “destino” ou uma “obrigatoriedade”, mas nossa escolha enquanto sociedade. e o que é escolhido pode ser des-escolhido.

essa escolha que você diz você se refere a escolha de todos ou dos que têm o poder de escolha? é questão de des-escolher ou de mudar quem escolhe?

existem duas esferas aí.

na esfera das pessoas individuais, o mundo hoje é claramente dividido entre as pessoas que têm todas as escolhas e pessoas que têm escolhas bastante limitadas. na verdade, meritocracia e liberdade de escolha são dois dos grandes mitos da nossa direita. para as pessoas privilegiadas, é sempre muito fácil esquecer que nem todas as pessoas tiveram as mesmas possibilidades de escolha que elas, e então, apontar para as pessoas oprimidas e exploradas… e afirmar que elas são oprimidas e exploradas porque escolheram ser assim!

a outra esfera é a social: a nossa sociedade como um todo, de forma coletiva, impulsionada por seus membros, democraticamente, pela ação política, pela opinião pública, pode sim escolher mudar de rumo. como um transatlântico, que muda de rumo bem devagar, mas muda.

as prisões

o que o motivou a escever sua série de textos sobre as prisões?

sempre fui um leitor voraz. tinha curiosidade sobre tudo. absorvia conhecimento febrilmente. então, um dia, comecei a me questionar. e fui percebendo que era tudo mentira. que apesar de suas melhores intenções, meus pais tinham me ensinado várias coisas que simplesmente não eram verdade. e não só eles: meus professores, meus amigos, meus parentes, meus escritores favoritos. e comecei a desconstruir todas essas lições. des-conhecer todo esse conhecimento. des-aprender todo esse aprendizado. em um dado momento, passei a questionar a própria noção de verdade. e daí que não é tudo verdade? hoje, acho que “sabemos” coisas demais. há mais de dez anos que meu foco é saber menos coisas. desaprender. todo dia extirpar mais um conhecimento inútil da minha cabeça, mais uma certeza errada, mais um preconceito adquirido. fora, fora, fora. “as prisões” é como chamo esse processo de des-aprendizado.

como foi esse processo de transformar esses textos em temas da palestras?

não sou filósofo. só o que sei fazer é escrever sobre coisas que nunca aconteceram a pessoas que nunca existiram. criei meu primeiro blog na internet, em 2003, justamente para publicar as primeiras prisões. porque já pressentia que esse era um daqueles poucos projetos literários que não poderia ser escrito em uma cabana isolada. que para conseguir aclarar e desenvolver essas ideias, eu precisaria de um contato, de um confronto, de um debate com um público ansioso, curioso, revoltado, reativo, os encontros que tenho realizado a partir de 2013 são parte desse processo: não dá pra exagerar como o contato com esse público tem ajudado a desenvolver, refinar, jogar fora, recriar minhas ideias. um escritor sem as pessoas que o leem não é ninguém.

quais das prisões são as que mais te aprisionam atualmente?

quase tudo o que faço é por vaidade. quase tudo que não faço é por preguiça. essas são minhas duas maiores prisões. e luto contra elas todo dia. como sou preguiçoso, não luto com tanto afinco assim. como sou vaidoso, criei uma série de textos para me gabar publicamente dessa minha luta. ou seja, de novo, ainda falta um longo caminho pela frente.

escrita e transformação social

meus textos buscam desmontar as verdades compulsórias que nos enfiam goela abaixo.

vivo em um mundo onde as cenas cotidianas que mais me enchem de horror são vistas com normalidade por quase todas as pessoas a minha volta. a exploração, a desigualdade, o racismo, a transfobia. tudo aceitável e dentro dos padrões do bom funcionamento da sociedade.

então, sinto que estou sempre escrevendo textos de horror.

talvez essa seja a melhor definição de arte engajada: tornar contagioso o horror.

li em uma entrevista que o classe média sofre é seu único trabalho que te deixou orgulhoso. por que ele te orgulha e por que você não sente isso em relação a seus outros trabalhos?

orgulho é uma coisa meio babaca, né? afinal, pra que serve o orgulho? em um dado momento, eu me orgulhei do classe média sofre, sim, por causa do pequeno impacto concreto que ele teve: muita gente estava sinceramente auto-censurando algumas das piores barbaridades elitistas que talvez dissessem por medo de aparecer no classe média sofre. mas, no fim das contas, e daí? o mundo mudou? ficou um lugar melhor, mais justo, mais igual por causa disso? não, né? então, me corrijo: não sinto orgulho de nada que fiz.

até que ponto você acredita que seus trabalhos são capazes de transformar a realidade?

não são.

mas você escreve querendo isso, pelo menos é a impressão que dá nos textos que saem no papo de homem…

entre o que as pessoas querem e o que é efetivamente possível existe uma distância infinita.

há quem fale que se o próprio trabalho provocou uma mudança positiva em uma pessoa já valeu a pena. não é esse o caso? existe algo ou alguém que consegue de forma rápida uma mudança social profunda?

só a revolução. encontro vocês lá embaixo com o fuzil.

“é tudo mentira”

há um aviso, no papo de homem e no seu site, que todos os seus textos são ficcionais. o que faz seus textos opinativos/argumentativos serem ficcionais? qualquer texto desse gênero, independente de quem escreva, são ficcionais?

tudo é ficção. a verdade não existe. tem coisa mais ficcional do que o jornal nacional, do que um livro de história do brasil, do que uma biografia de celebridade? as pessoas ainda acreditam no que leem e isso me choca todo dia. por isso, bato sempre nessa mesma tecla: é tudo mentira. tudo. o tempo todo. especialmente as coisas que batem no peito pra se afirmar verdades verdadeiras.

seu único livro de contos até hoje fala sobre perdas. por que seu interesse em escrever e publicar sobre esse tema?

pura curiosidade intelectual. na prática, na verdade verdadeira, nunca perdi nada. todos os meus livros são maneiras de sair de mim mesmo. para falar de mim, tenho meu blog, minha terapia, meu diário. já a ficção é para brincarmos de ser pessoas que não existem, fazendo o que nunca fizemos, sentindo o que nunca sentimos.

li em entrevistas que no livro mulher de um homem só você optou por escolher como narradora a personagem menos parecida contigo, porque achava chato falar de si mesmo na literatura. como leitor seu, creio que seria mais interessante fazer o contrário, por seu estilo de vida e ideias serem mais singulares, enquanto carla é uma personagem mais próxima do senso comum. qual sua opinião sobre isso?

talvez o que me faça uma pessoa de estilo de vida e ideias “singulares”, como você falou, seja o fato de eu achar mais interessante dar vida à carla (a narradora de “mulher de um homem só”) e tentar descobrir o que motiva uma pessoa como ela, e o que a lavagem cerebral do senso-comum faz com a cabeça de alguém, do que falar de mim, da minha individualidade borbulhante e da minha vida pretensamente singular. minha vida não tem nada de especial. nem a da carla, aliás.

“só faz sentido escrever se for para ser do contra.

muitos de seus textos têm uma linguagem que pode soar violenta, autoritária, para quem não concorda com suas ideias. há quem procure escrever de forma a evitar o máximo que quem tenha opiniões contrárias se sintam ofendidas. queria que você contasse sobre o estilo da sua escrita. você escreve esperando um tipo específico de reação? escreve apenas pensando na forma mais exata de se expressar?

tudo o que escrevo é sempre para sacudir. jamais escreveria para afagar o ego e as certezas da pessoa leitora. de que serviria isso?

de vez em quando me perguntam: você é sempre do contra? não, claro que não. a maioria das minhas opiniões é igual à opinião da maioria das pessoas. mas de que serve escrever sobre isso? se saiu o filme x e ele é uma unanimidade de crítica e público, todo mundo adorando o filme, e eu também adorando o filme… de que adianta eu escrever mais um texto dizendo que o filme é lindo e reforçando o que todo mundo já sabe e já acha?

então, não é que sou sempre do contra, mas que acho que só faz sentido escrever se for para ser do contra. se for para mostrar à leitora um novo ângulo. se for para sacudir suas certezas. para questionar suas ideias.

tudo o que escrevo é para desmontar certezas. (às vezes, as minhas.) tudo o que escrevo é para sacudir. tomo o maior cuidado para nunca criticar pessoas vivas, para nunca acusar ninguém de nada, para nunca apontar dedos, mas é natural que algumas pessoas se sintam atacadas.

nesse caso, digo a elas: o texto não era sobre você, mas se você vestiu a carapuça e se sentiu atacada… então, é porque era.

uma frase sua: “não se muda o mundo respeitando a opinião de quem te oprime”. qual sua opinião sobre as ideias religiosas de amor incondicional, o que se aplica ao opressor, seria isso contrário à transformação social?

muitas das ideias religiosas são ótimas. a bíblia é meu livro preferido; jesus, uma pessoa excepcional; e sua mensagem, revolucionária e subversiva. o mais incrível do novo testamento é ver as epístolas paulinas desmentindo todo o evangelho que veio antes, transformando aquela linda mensagem revolucionária na fundação de um império conservador. é como se adam smith tivesse escrito o posfácio ao manifesto comunista afirmando que marx na verdade amava o livre-mercado e a mão invisível. jesus é o chê, paulo é fidel. um fala bonito e morre cedo, o outro administra o dia-a-dia do pós-revolução. enfim, meu problema não são as ideias religiosas, mas sua aplicação.

público que o acompanha

quais os perfis das pessoas que entram em contato contigo, que se correspondem com você e vão nas suas palestras? quais os maiores sofrimentos das pessoas que te procuram?

em geral, eu atraio ovelhas negras. as pessoas que vêm até mim tendem a ser aquelas que se sentem sozinhas, deslocadas. as malucas dos seus grupos. buscando por interlocutores. em um encontro meu, uma moça disse: “acho que é a primeira vez que estou em um grupo de pessoas e ninguém pensa que sou a excêntrica.”

na sua visão, qual é causa para que haja tanto sofrimento humano?

a ignorância e a cegueira. o mal está naquilo que a gente não vê, naquilo que não enxergamos, no fato de que nossos olhos naturalmente não reconhecem alguns locais, algumas pessoas, alguns problemas. o romance que estou escrevendo pelos últimos seis anos, “cria da casa: histórias de empregadas & escravos”, é todo sobre isso: a nossa cegueira constitutiva. os cantos para onde nunca olhamos e o que está acontecendo por lá.

* * *

nessa parte da entrevista, vou falar algumas palavras e gostaria que você desse a concepção, o entendimento que você tem sobre elas. a primeira é literatura:

literatura

linguagem carregada de sentido.

qual tua relação com as outras artes? vi que você gosta muito de teatro…

teatro é sensacional. é literatura em movimento, cinestésica, com cheiro, suor. gostaria muito de trabalhar em teatro, mas não sei se conseguiria funcionar bem em grupo. talvez por isso mesmo devesse tentar. aliás, vou. acabei de escrever meu primeiro texto teatral e tenho outros cinco planejados.

trabalho

escrever.

você diz que as pessoas não precisam necessariamente trabahar com aquilo que amam, que às vezes é melhor que isso nem aconteça. como isso se aplica no seu caso? existe algum tipo de trabalho que você goste mais do que escrever?

essa doutrina de que temos que amar o nosso trabalho, que temos que trabalhar no que amamos, etc, é muito elitista e hipócrita. essa possibilidade está aberta para pouquíssimas pessoas. a enorme maioria da população humana, todas pessoas tão incríveis e complexas como eu e você aí lendo isso, com um cérebro poderoso e subjetividade profunda, estão fadadas a trabalhar em empregos chatos e repetitivos, entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones. a questão não é se amamos ou não essas atividades remuneradas que executamos, mas se o salário que nos pagam em troca das horas de trabalho é maior do que tudo que esse emprego toma de nós em termos de tempo e energia vital. a questão é se temos tempo e energia para viver nossas vidas plenas de pessoas humanas quando não estamos entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones.

quanto a mim, só sei escrever, mas tenho pensado seriamente em abandonar a escrita profissional. o raduan nassar, quando largou a literatura, disse que não havia criação literária que se comparasse a uma criação de galinhas. penso muito nisso. se não é mais digno, mais honesto, mais humano, em vez de receber dinheiro para escrever textos que eu normalmente não escreveria, receber dinheiro para cuidar, passear, dar banho, tosar cachorros, e só escrever aquelas coisas que eu realmente escreveria de graça.

o que o motivou a trabalhar de forma totalmente independente hoje, sem nenhum vínculo com alguma instituição? você considera essa tua forma ideal de trabalhar?

eu trabalho da única maneira que seria possível para mim. sou uma pessoa solitária, como imagino que são a maioria das pessoas que escolhem essa vida. sou temperamentalmente incapaz de fazer parte de grupos, empresas, instituições. em muitas carreiras, como nas ciências, por exemplo, só se consegue produzir tecnologia de ponta trabalhando em grupo. já a grande literatura, muitas vezes, é produzida por misantropos isolados em cabanas distantes. por isso, quase sempre, quem escolhe a literatura é por ter uma certa aversão a trabalhar em grupo. pelo menos eu tenho.

liberdade

uma excelente desculpa. como fim último, é um objetivo vazio. ser livre pra quê?

quando você diz que quer se livrar das mentiras impostas socialmente, isso não se refere a ter uma liberdade mental? nesse caso, a liberdade não seria, além de somente uma postura individual, uma postura coletiva no sentido de querer se livrar dos preconceitos, dos ideais individualistas do capitalismo, etc?

liberdade e felicidade são dois conceitos bem interessantes. assim, por alto, eles parecem lindos, unânimes, desejáveis. entretanto, quando você começa a olhar de perto, eles se desfazem.

existe ou poderia existir felicidade? essa felicidade plena, linda, pura? se você disser que não, que a felicidade são momentos, então, bem, a gente já está limitando mais e mais a definição, não? quais momentos? quantos momentos?

idem com a liberdade. existe isso de liberdade? alguém já teve essa liberdade plena, linda pura? é teoricamente possível? não, né? então, ok, todos temos liberdades bem restritas. podemos votar, mas não podemos deixar de votar. podemos chamar a polícia, mas não podemos passar a mão na bunda do guarda. podemos falar que uma peça é uma merda mas não podemos gritar fogo no teatro lotado.

ou seja, nossa tal liberdade é limitada de mil maneiras diferentes, pela lei, pela sociedade, pelos costumes. mais ainda, essa liberdade também é cerceada pelos limites do nosso corpo, pela química do nosso cérebro. toda nossa evolução nos preparou para encontrarmos, consumirmos, acumularmos gordura e açúcar. então, o quanto somos realmente livres para abdicar dessas substâncias que todo nosso corpo deseja? o alcoolatra é realmente livre para não tomar o copo de vodca que lhe oferecem? somos livres para ir conta a programação do nosso cérebro?

então, se essa tal liberdade, pela qual eu deveria estar disposto a matar e morrer, é cerceada pelas leis, pela família, pela sociedade, por meu cérebro, por meus hormônios, etc etc, o quanto livre eu realmente sou? se não sobrou quase nada, se a minha liberdade acabou se reduzindo somente a esse quadradinho aqui, ainda faz sentido falar em liberdade? mais ainda, ainda faz sentido matar e morrer por essa liberdade? ainda faz sentido colocar essa liberdade como fim último da minha existência?

política

vida.

você acredita na viabilidade do socialismo? quais foram suas impressões sobre cuba, por exemplo?

não vou nunca desistir da ideia de que é possível algum tipo de socialismo verdadeiro e viável, mas com democracia. que não é necessário fechar as fronteiras e a imprensa para termos uma sociedade menos desigual. cuba é um lugar incrível, um celeiro de ideias brilhantes e de exemplos negativos mais brilhantes ainda. resta saber quais vamos adotar para nós.

dinheiro

um mal necessário. sem dinheiro, não há independência. sem dinheiro, seremos sempre escravos, dependentes, submetidos a outras pessoas. aliás, com dinheiro, também.

drogas

a droga de um é a religião do outro.

você escreve muito pouco sobre o tema. você acha que diz respeito a relação pessoal de cada um? acha que ela pode ser encarada como mais uma prisão?

quando me perguntam se o consumo de drogas causa violência, sempre respondo que a proibição das drogas é que causa violência. se algum alucinado inventasse de proibir o chocolate, também teríamos guerras para controlar a boca de diamante negro, também teríamos gente subindo o morro para compar sonho de valsa. as substâncias proibidas que hoje chamamos de drogas deveriam ser liberadas e legalizadas, no mesmo status que álcool e tabaco, pagando impostos e com restrições de venda e publicidade.

quanto a mim, já provei drogas, mas apenas socialmente. entendo seu valor para abrir a consciência e estimular a criatividade. mas eu, pessoalmente, prefiro não alterar minha percepção. tomo café até o meio-dia, chá verde à tarde, e vinho tinto a partir das seis. é o máximo que me permito de alteração química intencional.

deus

adesivo de parachoque: “eu, sem deus, sou eu. deus, sem mim, é só uma manifestação pueril do inconsciente coletivo.”

como foi sua aproximação com o budismo? você já teve contato com outras práticas religiosas?

não acredito em qualquer tipo de deus, espiritualidade, força, energia, tarô, astrologia, homeopatia, etc etc. leio e estudo religiões por toda a vida. fui a todas as cerimonias de todas as religiões que me convidaram. respeito, admiro, e em alguns casos lamento, as convicções religiosas das pessoas, mas não compartilho de nenhuma. eu pratico zen mas é só porque o zen não me pede nenhuma crença, não me oferece nada para acreditar. é uma prática, um caminho, não uma fé.

amor

claudia.

como foi esse processo de questionamento da monogamia?

eu amo muito. me apaixono, me entrego, me junto. adoro o amor, a cumplicidade, o carinho. gosto de ter uma companheira que caminha ao meu lado e ao lado de quem eu caminho. saber ser solteiro é necessário, e é muito bom, mas nada se compara à sensação de estar ao lado da pessoa que é acertada para nós naquele momento. você antes falou de orgulho e, talvez, a coisa que eu mais chegue perto de ter orgulho seja das pessoas incríveis, sensacionais, brilhantes que me deram o privilégio de compartilhar a cama comigo.

faltou você responder a pergunta… como foi o processo de questionamento da monogamia?

nunca precisei ativamente questionar e desmontar a monogamia dentro de mim, pois ela sempre me pareceu auto-evidentemente nociva e impraticável. a monogamia nunca me pareceu uma possibilidade.

morte

a coisa mais importante da vida. eu amo a minha morte. sem ela, eu não sairia da cama, não faria nada, ficando só comendo pizza, bebendo vinho, fumando, me masturbando, vendo filme. só o fato de que vou morrer, inapelavelmente e em breve, me faz sair da cama, aturar as pessoas, ser minimamente produtivo.

felicidade

a felicidade e a liberdade são os maiores engodos, as maiores quimeras da nossa geração. quando tudo na sociedade, as escolas, os anúncios, os pais, as comédias românticas, etc, quer nos convencer a buscar a liberdade e a felicidade, que esses devem ser os dois principais objetivos da vida de alguém, então é hora de parar e repensar tudo. afinal, por que quero tanto ser livre? por que quero tanto ser feliz? o mundo vai ser um lugar melhor se eu for livre e feliz? eu vou ser uma pessoa melhor se eu for livre e feliz?

realizações e decepções

quais as maiores decepções e realizações que você teve em sua vida?

tive várias decepções literárias. quase diariamente, aliás. até perceber que eram todas só o meu ego falando. que todas eram uma variação de “eu mereço x, por que não me deram x? eu sou y, por que ninguém diz que sou y?” etc etc. hoje, quando meu ego tenta dizer alguma dessas coisas, eu enfio a cabeça dele dentro d’água até pedir arrego. das minhas realizações, então, ele nem ousa falar: sabe que eu lhe daria um belo de um chute no saco. atualmente, minha maior decepção é quando me distraio e solto coisas como “minha obra” ou “meu dever de artista”. o ego tem que apanhar todo dia pra saber quem manda.

medo e saudade

quais são seus maiores medos?

tenho medo das grandes ironias da vida. de perder o arquivo do romance que acabei de escrever. de morrer de uma doença um ano antes de descobrirem a cura. desse tipo de coisa que acontece num universo aleatório e sem deus, onde tudo caminha em direção à entropia.

do que você tem saudade?

de nada. saudade é inútil e traiçoeira. faz a gente desprezar o presente, que é a única coisa que existe, concreta e pulsante, em prol de um passado mentiroso e seletivo, sempre muito melhor do que realmente foi.

sociedade ideal

você tem alguma concepção de uma sociedade ideal?

uma sociedade onde as pessoas tivessem nas estantes livros sobre como ser uma pessoa melhor, uma pessoa mais aberta, uma pessoa mais humana, e não livros sobre como ser mais feliz, mais rico, mais bonito.

planos

tem planos para o futuro?

evito fazer planos. um desejo que tenho é, um dia, morar em um barco.

citação e aprendizado

uma frase ou citação que você goste muito:

sim!

um aprendizado que você teve em sua vida e que quer compartilhar para os outros:

aprender a ser menos egocêntrico e egoísta. não existe paz possível para as pessoas egocêntricas e egoístas, sempre tão preocupadas com nossa própria felicidade, com o que as outras pessoas estão falando de nós, em como podemos usar essa ou aquela pessoa para nosso benefício, em como devemos nos afastar dessa ou daquela pessoa porque ela não tem nada a nos oferecer, etc. é minha grande batalha diária. um aprendizado que não tem fim.

entrevistas como essas, aliás, só atrapalham. o fato de alguém ter interesse no que tenho a dizer só confirma algumas das piores pretensões do meu ego.

entretanto, eu sou escritor e vivo disso. se não por entrevistas assim, as pessoas não vão me conhecer, não me ler e não vou ter como ganhar a vida. (o horror, o horror!)

esse é o meu grande dilema pessoal (aliás, bem egocêntrico, como todo “dilema pessoal”): como ser um artista trabalhando em público e evitar ser egocêntrico e egoísta?

claramente, não sei responder essa pergunta.

talvez cuidar de cachorros.

* * *

leia outras entrevistas de felipe nascimento no site voo subterrâneo: monja coen, eduardo marinho, claudio assis, helio leites.

* * *

calendário completo de eventos de alex castro em 2014.

aquele prazer em reclamar

festival de teatro. por coincidência, sento ao lado da mesma senhora duas vezes.

oi, você não estava ao meu lado na peça tal?

sim, meu filho. que coincidência!

começamos a conversar sobre a peça anterior. ela disse que gostou muito de tudo. o único problema foi o som.

não consegui ouvir nada! veja só você que absurdo!

sim, confesso que me incomodou um pouco no começo, mas rapidamente a gente acostuma o ouvido, né? além disso, — era um festival internacional e a peça tinha legendas — quando eu achava que tinha perdido algo, sempre dava pra conferir o texto. e a montagem, o que a senhora achou?

montagem primorosa, mas esse som, nossa senhora! tinha que ter uma acústica melhor!

bem, gostei muito dos atores…

eu também. são ótimos. pena que não consegui ouvir nada, né? uma peça dessas, de nível internacional, jamais poderia ser encenada numa tenda ao ar livre! o som vai reverberar onde?

sim, claro, mas a senhora reparou na qualidade do texto? as idas e vindas temporais foram muito bem costuradas…

essa companhia é primorosa, meu filho. é o melhor texto teatral do brasil. por isso é imperdoável serem tão levianos com o som. qualquer um saberia que não se pode encenar uma peça ao ar livre a cinquenta metros do cruzamento mais movimentado da cidade, às seis da tarde! a cada buzina que tocava, a cada ônibus que passava, eram diálogos e diálogos que a gente não ouvia.

a conversa foi me deixando tristíssimo. eu queria pegar aquela senhora no colo e, de algum modo, salvá-la de si mesma, mas já aprendi que não dá pra salvar ninguém. especialmente de si mesma.

felizmente, soou a campainha e começou mais uma peça. linda. sensacional. da qual só lembro coisas boas.

* * *

tive uma namorada querida que se dizia cidadã consciente.

ligava pra fábrica do pãozinho e ficava meia hora descascando a moça do atendimento porque tinham vindo sete pães ao invés de oito. mandava sms pra administração do metrô pra avisar que o vagão tal fez uma parada muito brusca. chamava o gerente do mercado pra reclamar que depois das dez da noite nunca tinha ninguém pra cortar o presunto.

às vezes, apontava o dedo na minha cara, ressaltava minha dita passividade e acusava:

é por causa de gente como você que o brasil está assim!

e eu, na época, não dizia nada. porque a amava. porque evito brigar com gente que gosta de briga. e porque, no fundo, desconfiava que talvez pudesse ter razão.

hoje, muitos anos depois, e amando-a como ainda amo todo mundo que já amei, eu diria, com um pouco de tristeza, algum cansaço e um carinho imenso:

não, meu amor. é por causa de gente como você que o mundo está assim.

a boneca de sal

para quem está muito preocupada com sua própria individualidade, em não seguir os outros, em não ser só mais uma, em decifrar seus próprios dilemas existenciais, e em toda essa infindável masturbação mental, sempre recomendo a história da boneca de sal.

a parábola do boneco de sal

“quem é você?”

era uma vez uma boneca de sal. após peregrinar por terras áridas, descobriu o mar e não conseguiu comprendê-lo. perguntou ao mar: “quem é você?”

e o mar respondeu: “sou o mar.”

“mas o que é o mar?”

e o mar respondeu: “o mar sou eu.”

“não entendo”, disse a boneca de sal, “mas gostaria muito de entender. como faço?”

o mar respondeu: “encoste em mim.”

então, a boneca de sal timidamente encostou no mar com as pontas dos dedos do pé. sentiu que começava a entender mas também sentiu que acabara de perder o pé, dissolvido na água.

“mar, o que você fez?!”

e o mar respondeu:

“eu te dei um pouco de entendimento e você me deu um pouco de você. para entender tudo, é necessário dar tudo.”

ansiosa pelo conhecimento, mas também com medo, a boneca de sal começou a entrar no mar. quanto mais entrava, e quanto mais se dissolvia, mais compreendia a enormidade do mar e da natureza, mas ainda faltava alguma coisa:

“afinal, o que é o mar?”

então, foi coberta por uma onda. em seu último momento de consciência individual, antes de diluir-se completamente na água, a boneca ainda conseguiu dizer:

“o mar… o mar sou eu!”

* * *

a história pode ter várias mensagens. uma delas é aprender a não fazer perguntas idiotas. outra, que todo conhecimento tem um custo. também outra, que a verdadeira compreensão só pode se dar de dentro. ou, melhor, que só saindo de si mesma, só através do desapego, é possível uma verdadeira compreensão do outro, do universo, de qualquer coisa.

meu texto acima foi adaptado das versões do frei leonardo boff e do padre jesuíta anthony de mello. apesar das duas fontes cristãs, a história me parece profundamente budista.

e me fez recordar a historinha abaixo.

* * *

depois de um concerto, a fã aborda a pianista e diz:

“eu daria minha vida para tocar tão bem assim.”

e ela responde, simplesmente:

“eu dei.”

* * *

os próximos encontros “as prisões” são no rio de janeiro e em são paulo. depois, em agosto e setembro, todas as capitais do nordeste.

se essa historinha fala com você, acho que deveria vir. vai ser legal. pode ser bonito.

confira o calendário completo

hoje de manhã, chorei

o encontro “as prisões”, em belém, foi com certeza o mais esquentado e exaltado, mas também o mais aberto e mais emocionante.

nunca vi tantas participantes a beira das lágrimas. nunca tantas participantes se abrirem tanto, se exporem tanto, se sentirem tão livres para compartilhar e contribuir.

hoje de manhã, lendo os depoimentos das pessoas participantes, agarrei a Outra Significativa pela cintura e comecei a chorar.

fui durante muito tempo uma pessoa muito ruim e muito egoísta. provavelmente ainda sou.

não sinto culpa dos pecados passados. culpa nao faz sentido. culpa nao resolve nada.

mas sinto sim uma obrigação de reequilibrar a balança. de devolver um pouco do que recebi. de passar adiante as graças que usufruí.

então, chorei ao ver o impacto das minhas palavras em vocês. ao ver que estou ajudando minimamente.

sem querer salvá-los. sem querer carregá-los. sem querer dar respostas.

só mostrando um jeito diferente de pensar. só dando uma pequena ajuda. como tantas pequenas ajudas que recebi e nunca agradeci.

e que, agora, passo adiante.

muito obrigado.

prisão narcisismo

no encontro as prisões, passamos o dia inteiro conversando sobre todas essas bolas de ferro mentais que arrastamos pela vida. as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. enfim, as prisões.

a última, e a mais importante, a prisão sem a qual toda a discussão anterior não teria sentido, é a prisão narcisismo.

afinal, a maior de todas as prisões somos nós mesmos. nós e nosso imenso narcissismo. sempre só olhando para os nossos umbigos, para os nossos ó-tão-importantes problemas.

abaixo, alguns textos que desenvolvem o conteúdo da prisão narcisismo. são alguns de meus textos mais importantes:

eu não sei o que está acontecendo na líbia // zazen // uma caneca // somos todos fingidores // paradoxo de narciso // cajuína // vou mudar de vida… mas não hoje // o mal é a falta de atenção // a solidão de narciso

* * *

para ajudar em nossos esforços para sermos menos narcissistas, eu proponho os exercícios de empatia:

1. praticar um olhar generoso // 2. dar-se conta das pessoas // 3. ver na sua totalidade // 4. ouvir com atenção plena // 5. exercer a não-opinião // 6. colocar-se em outra pessoa

como funciona o privilégio

um filme só sobre homens é um filme.

um filme só sobre mulheres é um filme feminino.

um ensaio fotográfico só de mulheres brancas é um ensaio de mulheres.

um ensaio fotográfico só de mulheres negras é um ensaio negro.

um romance sobre um casal hétero é um romance.

um romance sobre um casal homossexual é um romance gay.

quantas vezes não somos nós mesmas, na nossa fala e nas nossas ações, a perpetuar esse tipo de normatização tirânica?

como funciona o machismo

tudo o que as prisões não são

sobre o encontro “as prisões”.

não é auto-ajuda, terapia, coaching.

não é palestra, aula, exposição de conteúdo.

não promete respostas, soluções, remédios.

não é fácil, não é mastigado.

não tem apostila, bullets de powerpoint, frases de efeito pra você anotar no seu moleskine.

você não vai te tornar uma pessoa mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.

não vai te ajudar em nada.

prisoes sp 23mar14 por flavia totoli

pelo contrário, talvez te atrapalhe.

talvez te transforme em uma pessoa ainda mais confusa, desajustada, perdida.

talvez você saia do encontro incapaz de conviver em sociedade, de tolerar o mundo, de conversar com sua família.

ou, pior, muito pior… talvez nem isso.

de qualquer modo, o encontro “as prisões” não vende nada e não promete nada.

venha por sua conta e risco. sem expectativas.

ficamos juntas um dia inteiro e, ao final, estamos todas exaustas, gastas, esvaziadas. confusas, atarantadas, chacoalhadas.

não se sinta mal se não quiser encarar. eu entendo.

só não deixe de vir por falta de dinheiro — temos uma política de gratuidades bem ampla.

deixe de vir só por falta de coragem mesmo.

talvez não seja mesmo pra você.

depoimentos de quem já foi // política de gratuidades // calendário de encontros para todo o brasil em 2014

parecia que não queríamos ir embora

alguns encontros “as prisões” são realmente especiais.

ontem, em bh, começamos às nove da manhã, almoçamos no bolão e deveríamos ter acabado às seis da tarde.

deveríamos.

quando nos expulsaram do teatro onde estávamos realizando o evento, às sete da noite, depois de uma hora de atraso, ainda faltavam cinco das vinte e três pessoas participantes de apresentarem.

então, fomos para a praça santa tereza, ali do lado, e continuamos conversando, ouvindo, conhecendo umas às outras até às dez.

finalmente, depois de eu ter encerrado o evento com a prisão felicidade e prisão narcissismo, fechamos a noite comendo pizzas na parada do cardoso.

parecia que não queríamos nos separar. tínhamos ouvido histórias inesquecíveis, conhecido pessoas sensacionais. tínhamos nos dado, nos compartilhado.

poucas coisas aproximam tanto as pessoas quanto simplesmente ouvi-las com todo nosso carinho, com toda nossa atenção.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

* * *

foi o terceiro encontro “as prisões” em bh.

as pessoas participantes dos dois primeiros ficaram amigas, companheiras, amantes. saem para piqueniques, botecagens, passeios. que eu saiba, dois casais já se formaram, talvez mais.

fico muito, muito feliz.

* * *

nos novos encontros “as prisões”, eu cada vez falo menos e as pessoas participantes, cada vez mais.

o objetivo do encontro não é “passar o conteúdo” das “minhas ideias”. não é aula. não é palestra. nada disso.

tudo o que tenho a dizer pode ser lido nos meus textos, disponíveis gratuitamente pela internet. ninguém precisa sair de casa pra saber o que eu penso.

os encontros “as prisões” são para aprendermos a ser melhores ovelhas negras.

para que aquelas pessoas, tão acostumadas a serem sempre as “esquisitas” da família e as “maluquinhas” do escritório, finalmente estejam em meio às suas iguais.

para encontrarmos nossas interlocutoras.

e é minha honra, minha alegria, meu privilégio poder ser o catalizador desse encontro.

* * *

ninguém precisa pagar para vir nesses encontros.

seria um absurdo impensável negar uma pessoa só porque ela não tem dinheiro. seria dar importância demais à essa convenção arbitrária que chamamos dinheiro.

quem pode pagar, paga. e eu agradeço. vivo disso e não tenho outra renda.

quem não pode pagar, não paga. e eu agradeço pela oportunidade de ajudar.

na prática, as-pessoas-que-podem-pagar pagam pelas pessoas-que-não-podem-pagar e nada poderia ser mais lindo e mais justo e mais solidário do que isso.

quanto a mim, se sobrar o suficiente para eu cobrir a passagem, o aluguel do espaço e as comidinhas, já está bom demais.

se eu quisesse ganhar dinheiro e ficar rico, com certeza não estaria aqui escrevendo sobre as prisões, essas bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida, essas ideias pré-concebidas, essas tradições mal-explicadas, esses costumes sem-sentido.

* * *

esse ano, vou levar as prisões para todo o brasil. o calendário completo está aqui. veja também a política de gratuidades e os depoimentos de quem já foi.

prisões, bh, 18mai. pç st tereza. foto: claudia regina.

prisões, bh, 18mai. pç st tereza. foto: claudia regina.

listinhas literárias

melhores pessoas autoras vivas: lobo antunes e houellebecq.

livros preferidos, todos os tempos: bíblia, declínio e queda do império romano, peregrinação.

melhores romances escritos nas américas no século XIX: moby dick, cecilia valdés, dom casmurro.

livros para entender o brasil: casa grande & senzala, os sertões, quarto de despejo.

russos fundamentais que não são nem tolstoi, nem dostoievski, nem tchecov: turgeniev, gorki, gogol.

melhores romances brasileiros: dom casmurro, grande sertão: veredas, hora da estrela, água viva

melhor romanção-romântico-séc.XIX: os miseráveis

melhor romanção-realista-séc.XIX: fortunata y jacinta

melhores historiadores: freyre, thompson, gibbon, fraginals.

três poetas essenciais: whitman, whitman, whitman.

melhor pessoa autora em língua portuguesa, todos os tempos: lispector.

* * *

próximos eventos: belo horizonte, vitória, belém, macapá, são luís. (lista completa.)

 

turismo na favela

de uns tempos pra cá, virou moda: turistas vêm ao rio e não querem mais conhecer o corcovado ou o pão de açúcar, mas sim a favela da rocinha e do vidigal. estão as pessoas gringas se aproveitando das faveladas? ou são as pessoas faveladas que estão cambalachando as gringas? o turismo estimula o progresso das favelas ou garante que nunca saiam da mesma estagnação?

o pós-turista

o turismo nas favelas é uma faceta no novo “pós-turismo”.

agora que pessoas de poder aquisitivo cada vez mais baixo já podem visitar os destinos turísticos tradicionais (a classe média sofre com esses pobretões na fila da disney!), as novas pós-turistas, para se distanciar da ralé e reestabelecer a distância original, precisam buscar novas experiências turísticas, mais inusitadas, mais interativas, mais aventureiras, indo a lugares que seriam a antítese do antigo turismo, localidades antes marginais e agora reinventadas e reapropriadas.

em outras palavras, com tantas pessoas pobres agora lotando gallerie laffayette, em paris, suas antigas frequentadoras hoje fazem safari tours em favelas.

a indústria do turismo classifica a pobreza como exótica, a transforma em mercadoria e a vende para turistas que queiram participar dessa “economia de sensações”, onde o que compram é justamente a sensação voyeurítica de poder vivenciar a pobreza e a miséria sem precisar, para isso, serem pobres e miseráveis.

o capitalismo celebra toda a diferença que seja capaz de mercantilizar.

turismo da miséria: prós e contras

eu sou do rio, morei por seis anos em nova orleans e faço pesquisas em havana. são três cidades turísticas (e lindas, diga-se de passagem) onde se faz esse “turismo da pobreza”.

no rio, são as favelas. em nova orleans, é a destruição causada pelo furacão katrina. em havana, são os prédios em ruínas. sempre cercados de belgas bem alimentados, calçando birkenstocks e tirando fotos com máquinas cujo valor alimentaria uma família local.

isso é bom?

para defensores da prática, ela tem as seguintes vantagens:

  • melhorar o desenvolvimento econômico da região;
  • conscientizar turistas;
  • aumentar a autoestima da população;
  • forjar lideranças locais;
  • compartilhar recursos e conhecimento entre pessoas que não teriam se encontrado se não fosse o turismo.

para quem está contra, existiriam dois grandes problemas:

  • os benefícios gerados vão em grande parte para as pessoas proprietárias das agências e não revertem em melhorias e investimentos nas comunidades;
  • mais que conscientização e mobilização social, essas visitas gerariam um certo voyeurismo diante da pobreza e do sofrimento.

quem é a turista da miséria?

em seu livro gringo na laje, a socióloga bianca freire-medeiros traçou um interessante estudo do turismo na favela da rocinha, falando com moradoras, turistas, guias de passeio e proprietárias de agência.

segundo suas pesquisas, a principal característica dessa turista seria sua ansiedade de se diferenciar:

  • das moradores; afinal, o turismo na favela não deixa de ser uma maneira de darem mais valor aos confortos materiais de casa.
  • das turistas convencionais, que só vão aos pontos turísticos previsíveis e jamais teriam coragem de encarar uma favela.
  • das turistas voyeurs e pouco engajadas, que visitam as favelas do jeito errado, como abutres, sem contribuir, sem ajudar, etc.
  • da elite local, preconceituosa e com medo de conhecer sua própria cidade.

mais do que tudo, essas turistas estão buscando por uma mítica “experiência verdadeira”, uma certa “realidade nua e crua” a qual teoricamente não têm mais acesso em casa – como se suas vidas afluentes e confortáveis na europa fossem menos reais e menos verdadeiras do que as vidas dos favelados da rocinha.

e saem do passeio com a sensação de terem desfrutado de uma experiência completamente inalcançável e intransferível, seja aos turistas comuns, seja às elites locais.

essa busca ansiosa pela ilusória “mediação não mediada” baseia-se na crença de que existem experiências turísticas “autênticas” que podem acontecer sem a mediação da indústria do turismo, sem serem produtos culturais prontos e pré-fabricados.

ou seja, é a miragem de que o produto “passeio de um dia na favela da rocinha”, vendido por uma agência de turismo, é intrinsecamente mais autêntico do que o produto “passeio de um dia no corcovado”, vendido pela mesmíssima agência.

para que a visita à favela sirva seu objetivo, a turista precisa se convencer que a sua visita, ao contrário das das outras turistas voyeurs, é um ato ético e solidário.

a experiência não deixa de trazer consigo uma certa ansiedade: afinal, como uma praia deserta, se todas a visitarem, ela deixa de ser deserta.

nesse ponto, o valor da favela está em ser exclusiva e fora do mainstream; quanto mais turistas a visitarem, menos desejável ela se torna como fator de diferenciação.

fica claro que, nessa economia de sensações do turismo da miséria, o que está sendo vendido à turista é principalmente uma certa sensação de superioridade moral e intelectual.

o que pensam as moradoras das favelas

a principal ilusão das turistas é que seus passeios trazem algum benefício à comunidade.

de fato, as agências são operadas de fora da favela e os lucros vão para suas proprietárias. quando muito, comerciantes da favela tem um pequeno aumento de vendas, mas a maioria diz que turistas só querem saber de tirar fotos e comprar água.

em muitas ocasiões, fica claro que as turistas querem apenas uma confirmação de sua própria imagem mental da favela. conta uma moradora:

“uma vez, quando meu filho era mais novo, [algumas turistas] quiseram tirar foto dele, mas quando cheguei com ele [que é branco], eles não quiseram, porque eles queriam um neguinho.”

na verdade, como disse um comerciante, as turistas dão somente uma pequena ajuda nos lucros, mas seu maior valor está em tirar a impressão de lugar violento que a favela tem. por isso, grande parte das pessoas moradoras vê esse tipo de turismo de modo positivo.

para as moradoras, a questão não é nem tanto se o turismo na favela deveria existir ou não, mas de que maneira ele poderia beneficiar a comunidade. a maioria das turistas pensa estar ajudando a comunidade simplesmente ao participar do passeio, mas as moradoras têm outra ideia do que constituiria ajuda:

“os turistas … às vezes … só passam pelos lugares mais ricos… [s]e eles fossem lá… onde o pessoal é mais necessitado, talvez eles pudessem se inspirar em limpar o lugar, talvez alguém se interessasse em ajudar os moradores… alguém poderia trazer dinheiro, consertar um cano. isso iria beneficiar a galera lá, porque ia incentivar os moradores a consertar as casas, tirar a lama, tirar o lixo.”

a questão do cheiro

o cheiro ruim é essencialmente subversivo. ele não pode ser banido, controlado, pasteurizado, estetizado.

se a fotografia permite que a miséria mais degradante transforme-se em objeto estético (oi, sebastião salgado), o cheiro não se presta a isso.

a vala aberta, o esgoto imundo, o lixo ao sol, o rato morto, nenhum deles pode ser tão facilmente domesticado, empacotado, vendido e distribuído ao mundo como uma bela foto de uma menina pobre e remelenta.

o cheiro exige ser confrontado: ou você fala sobre ele, ou você fica calado. não existe meio termo.

e, não por acaso, os relatos sobre visitas às favelas abundam em fotos, mas contém muito poucas referências ao cheiro.

nós também fazemos parte do problema

essa história não tem mocinhas nem vilãs. as faveladas não são pobres coitadas incapazes de pensar criticamente sua situação. as estrangeiras não são babacas ou iludidas ou ingênuas. as guias de turismo e donas de agência não estão explorando a favela.

senão, podemos acabar falando coisas assim:

“cabe a nós, elite ilustrada não-favela, defender as pessoas faveladas dessas turistas desalmadas e voyeuristas que as veem como animais em jaulas.”

na verdade, nosso papel nessa história é outro.

quando as turistas se gabam de visitar a favela, um lugar onde a preconceituosa elite local se recusa a ir… é de nós que estão falando.

quando as moradoras dizem que o maior benefício do turismo é quebrar a invisibilidade social da favela e ajudar a refutar os estigmas de violência e miséria… é de nós que estão falando, nós que criamos essa invisibilidade, nós que perpetuamos esse estigma.

e então? o que nós vamos fazer?

* * *

o texto que você acabou de ler é um resumo e uma paráfrase do livro gringo na laje: produção, circulação e consumo da favela turística, de bianca freire-medeiros, publicado pela editora fgv em 2009, e disponível em uma edição de bolso baratinha. recomendo com ênfase.

* * *

aviso sobre linguagem e gênero

o texto acima fez uma valente tentativa de ser unissex e usar uma linguagem de gênero sempre neutra. todas as explicações e argumentos, sem exceção, se aplicam igualmente a homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais. se alguma frase ou construção pareceu excluir essa ou aquela identidade, sexo, gênero ou orientação, foi descuido meu. por favor, avisem e vou corrigir. para mais detalhes sobre como utilizar uma linguagem menos sexista, por favor, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua.