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escravidão: o passado é o presente

a escravidão africana nas américas foi talvez a maior tragédia da era moderna.

estima-se que cerca de 11 milhões de pessoas tenham sido transportadas à força da áfrica para as américas.

dentre as muitas nações responsáveis por esse lucrativo e criminoso tráfico, a maior culpada é portugal.

dentre as muitas nações que compraram essas pessoas e que construíram sua riqueza em suas costas, a maior culpada é o brasil.

dentre os muitos portos brasileiros que receberam essa massa humana desgraçada, o principal foi o rio de janeiro.

a história da escravidão africana nas américas começa e termina lusófona: em 1441, portugal traz para a europa as primeiras pessoas escravizadas; em 1888, o brasil torna-se o último país do continente a abolir o horror.

um crime contra a humanidade que é, antes de tudo, lusófono, brasileiro, carioca.

* * *

na alemanha, mesmo entre adolescentes cujos pais e mães nem eram nascidos durante a guerra, basta uma menção a nazismo, holocausto ou auschwitz para fazê-las abaixar a cabeça em silêncio, envergonhados, culpados, tristes.

nós, no brasil, se tivéssemos vergonha na cara, se tivéssemos um pouco mais de memória, faríamos a mesma coisa ao ouvir menções a senzala, navio-negreiro, escravidão.

essa vergonha é nossa.

* * *

no rio de janeiro, o principal porto de desembarque de pessoas escravizadas foi o cais do valongo, desativado e aterrado em 1843 por um império que tinha vergonha da escravidão que lhe sustentava.

hoje reformado e reembalado para turistas, esse cenário de horror foi inserido no recém-criado circuito histórico e arqueológico da celebração da herança africana, ao lado de outras atrações como a pedra do sal, os jardins suspensos e o cemitério dos pretos novos — que não era nem mesmo um cemitério, somente um valão onde eram jogadas as vítimas da travessia atlântica.

mas o que falta ao brasil e ao rio de janeiro não são novas atrações turísticas, e sim espaços que promovam uma verdadeira compreensão dos horrores que aconteceram (e ainda acontecem) debaixo dos nossos olhos, nesse nosso chão, na nossa senzala, no nosso quartinho de empregadas, nas nossas comunidades.

* * *

o holocausto perpetrado pela alemanha durante as décadas de 1930 e 1940 matou cerca de seis milhões de pessoas judias, um terço da população judaica mundial, além de incontáveis milhões de outras pessoas.

esse horror não deve nunca ser suavizado.

mas não foi nem de longe o único horror perpetrado pela civilização europeia em sua longa história de horrores.

é impossível visitar lugares de tortura e morte como auschwitz, treblinka, sobibor sem uma atitude de respeito e reflexão, sem pensar na memória das centenas de milhares de pessoas que sofreram ali.

auschwitz matou 1,1 milhão de pessoas, treblinka, 900 mil, sobibor, 200 mil.

enquanto isso, o brasil recebeu 4 milhões de pessoas escravizadas, sendo que um milhão só pelo cais do valongo, logo ali ao lado, no centro do rio.

por que nós, pessoas brasileiras, não temos a mesma atitude de respeito e reflexão ao visitar uma senzala, um engenho, um pelourinho?

* * *

estou no cais do valongo, tentando esquecer os números e somente imaginar como teria sido a experiência individual, una, indivisível, de pisar em terra firme ali, naquelas pedras, naquele chão.

imagino que fui arrancado de minha família e de tudo que conheci; que atravessei o oceano cercado de pessoas agonizantes em um navio infecto; que não pude trazer nenhum objeto pessoal; que não sabia se jamais veria minha terra; que estava condenado a um castigo literalmente e potencialmente infinito, pois a escravidão não seria apenas minha, mas sim herdada por toda a minha descendência até o fim dos tempos.

imagino que o rio de janeiro, para mim, escravo recém-chegado, era um lugar desconhecido e cheio de horrores; era o porto onde colegas de viagem mais fracos vinham morrer; era o chão onde começava a escravidão do meu corpo; era minha primeira experiência nesse novo mundo onde seria cativo e explorado.

imagino então que hoje o rio de janeiro continua sendo um lugar de horror para as pessoas que descendem de mim e dos meus, para as pessoas que têm o meu sangue e a minha cor, que são ao mesmo tempo a maior parte das vítimas de assassinato e também a maior parte da população carcerária, e ainda têm que ouvir que racismo não existe no brasil.

tudo isso aconteceu ontem, e continua acontecendo hoje.

a polícia militar não invade do mesmo jeito a cobertura do descendente do escravista e o barraco do descendente do escravo.

o passado, como uma pedra jogada na água, cria ondas concêntricas que repercutem no presente.

o passado é o presente.

Prisão Conhecimento

Cultivando o não-conhecimento e abraçando a não-certeza, exercendo a não-opinião e praticando o não-debate. Ouvindo e aceitando, acolhendo e abraçando.

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um escritor no campo de concentração

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não há nada a ser ensinado. não há nada a ser aprendido. só existe a dor para ser compartilhada.

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O que é ideologia

Ideologia é como espinafre no dente: a gente só vê o dos outros.

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diário de uma olimpíada: última semana

durante a rio2016, arrumei um celular, voltei ao facebook e compartilhei por lá minhas experiências em tempo real.

os textos sobre a primeira semana estão aqui. abaixo, escritos no calor do momento e não-editados, alguns trechos sobre a segunda e última semana de jogos.

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mais um ouro para o brasil

entre o parque olímpico e o metrô jardim oceânico, o brt tem somente uma parada: no barrashopping.

infelizmente, em um desses dias olímpicos lotados, esqueceram de informar ao motorista, que passou direto.

a galera veio abaixo, gritando, mandando parar.

ele parou e começou a voltar, devagarinho, dando ré naquele ônibus gigantesco, claramente com muito cuidado e dificuldade.

demorou um tempinho.

quando finalmente conseguiu, a galera veio abaixo de novo, dessa vez batendo palmas e assobiando:

“é ouro! é ouro, brasil!”

sem saber se era sério ou se era sarcasmo, o motorista levantou os braços, agradeceu e seguimos viagem.

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querida correspondente estrangeira

acompanhei com afinco sua cobertura sobre os dias que antecederam a catastrófica rio2016 e, inclusive, confiando no seu conhecimento da realidade brasileira, até cancelei minhas reservas e revendi meus ingressos.

infelizmente, na véspera da calamitosa festa de abertura, passei mal e entrei em coma, do qual acabei de sair, duas semanas depois.

rio2016

agora, quero escrever meu próprio artigo sobre o caos da rio2016, mas estou com dificuldades de encontrar informações abalizadas.

por favor, você poderia me confirmar:

dentre o um milhão de visitantes…

— quantas foram executadas pelos esquadrões da morte das favelas?

— quantas turistas morreram por conta de atentados terroristas?

— quantas atletas contraíram zika?

— quantas iatistas caíram vitimadas pelas águas de esgoto aberto?

— quantas competições tiveram que ser canceladas porque os estádios não ficaram prontos?

— dentre os estádios milagrosamente “finalizados”, quantos desabaram por terem sido construídos de forma corrupta e apressada e incompetente?

— quantos nadadores foram roubados justo na noite em que queriam fugir de outros compromissos?

na certeza de que esses números devem estar na ponta dos seus dedos, fico no aguardo. » leia o texto completo «

diário de uma olimpíada: primeira semana

estou absolutamente feliz com a rio2016: arrumei um celular, voltei ao facebook e estou compartilhando por lá minhas experiências em tempo real.

abaixo, alguns dos menos piores momentos. » leia o texto completo «

a coragem de não ter coragem

de vez em quando, dizem que sou “corajoso”.

mas não sou não.

pelo contrário, olho em volta e quase todas as pessoas são bem mais corajosas do que eu.

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cinco perguntas sobre religião

o que é ser uma pessoa religiosa?

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como lidar com fãs

se a pessoa gosta muito dos meus textos… é provavelmente porque leu pouco.

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“meu texto é bom?”

um texto só pode ser bom em função do seu objetivo. aquilo que “sai pronto de você” “em um jato de inspiração”… é urina.

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a arte melhora uma cidade

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em el bolsón, na patagônia, existe uma tradição local de artistas entalharem imagens em árvores mortas.

para melhorar a cidade.

fato

a verdade é que tudo é mentira. a mentira é que nada é verdade.
verdade mentira

minha técnica para lidar com conselhos não-solicitados

quando a pessoa começa a dar o conselho não-solicitado, eu dou mute nela dentro da minha cabeça;

fico pensando em outra coisa enquanto ela está mexendo a boca;

quando vejo que ela parou de mexer a boca, eu seguro em sua mão, dou um sorriso caloroso e verdadeiro e digo, “poxa, muito, muito obrigado mesmo pelo seu carinho, infelizmente, agora eu tenho que correr, mas vou levar suas palavras no coração por toda a vida”;

vou embora e passo a evitar essa pessoa.

tem funcionado muito bem pelos últimos 41 anos. a maior vantagem é pouco a pouco ir construindo um círculo de amizades de pessoas que não se metem nas vidas umas das outras.

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pessoas intrusivas

a pessoa insiste em vir me dizer, de forma carinhosa e educada, que eu tenho essa e aquela questão, e que ela acha que isso e aquilo poderia resolver.

diante disso, tenho três opções:

1. aceitar a intrusão

(inaceitável);

2. tentar responder, também de forma carinhosa e educada, que por mais que eu goste dela e admire seu incrível trabalho, não tenho interesse algum em saber o que acha da minha vida e como eu poderia melhorá-la

(mas isso não consigo dizer e, ainda por cima, minha experiência demonstra que é inútil);

então, só me resta:

3. me afastar.

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respondendo comentários

às vezes me perguntam:

“por que você não responde comentários na internet?”

porque nunca, nunca aconteceu de eu responder um comentário e, então, no dia seguinte, pensar:

“puxa, que bom que respondi aquele comentário ontem. foi mesmo a coisa certa a se fazer!”

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resposta padrão à metade das comunicações que recebo

“oi, pessoa que eu não conheço e que não sabe nada sobre a minha vida. respeito sua opinião completamente não-solicitada sobre mim. adeus.”

porque não curto suas postagens no facebook

tentando não alimentar o monstro que nos devora.

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vacas felizes

um sonho.

que toda embalagem de carne orgânica tivesse uma pequena bio do animal que deu sua vida para nos alimentar.

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“essa é a giselda, uma galinha. ela veio ao mundo no dia 3 de maio de 2013. ao longo da vida, ela botou 50 ovos, dos quais 10 chocaram. nenhum dos seus pintinhos macho foi triturado. ela gostava de tomar sol encostada em uma mangueira. um dia, ela encarou um gato para defender sua ninhada. depois de viver uma vida bela e plena, giselda foi abatida no dia 20 de dezembro de 2014, para alimentar você e sua família.”

as cinco lembranças

— adoecer faz parte da minha natureza. adoecer é uma lembrança da presença do mundo em mim.

— envelhecer faz parte da minha natureza. envelhecer é o ornamento da minha impermanência.

— morrer faz parte da minha natureza. morrer é uma dádiva da impermanência.

— tudo aquilo que amo ou odeio (objetos, parentes, pessoas amigas e inimigas) também compartilham da mesma natureza impermanente e passageira.

— somente as minhas ações são os meus pertences verdadeiros. não posso fugir às suas consequências. minhas ações são o chão que fazem o meu caminho.

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