hoje à noite: lançamento da fal, em botafogo, rj

17 maio, 2012 § 0

hj, a partir das 19h30, estarei na prefácio de botafogo para o lançamento da linda fal. todo mundo que é todo mundo de todo mundo vai estar lá e vc deveria ir também. está convidado. pode ir. o evento é aberto ao público. se alguém quer me encontrar, ou comprar algum dos meus livros, pode aparecer tb, sempre tenho uns livrinhos na bolsa. o livro da fal é foda demais, eu já li, a minha dedicatória é a mais legal do mundo, recomendo pra todos. VENHAM.

divina fal

Gilberto Freyre e Casa-Grande & Senzala: historiografia & recepção

16 maio, 2012 § 1

Quase oitenta anos após sua publicação, Casa Grande & Senzala continua sendo, ao mesmo tempo, um livro fácil e um livro dificílimo: fácil pelo estilo leve e coloquial de Freyre, que o coloca ao alcance de qualquer leitor médio em busca do prazer da leitura; difícil, dificílimo, pois a própria oralidade da linguagem, e a tendência freyreana de pensar em termos de “antagonismos em equilíbrio”, tornam Casa Grande & Senzala uma obra repleta de ambiguidades que, a todo momento, traem e enganam um leitor acadêmico que tente “isolar” os pensamentos e opiniões de Freyre. Em Casa Grande & Senzala, muitas vezes a afirmação vem seguida da sua negação, e vice-versa, e assim sucessivamente, “fazendo com que a cada avaliação positiva possa se suceder uma crítica … que acaba por dar um caráter antinômico à sua argumentação.” (Benzaquen)

No momento do seu lançamento, diz Antonio Candido, é difícil de se avaliar a enormidade do impacto da obra: “sacudiu uma geração inteira, provocando nela um deslumbramento como deve ter havido poucos na história mental do Brasil.” Monteiro Lobato compara sua publicação à chegada do cometa Halley – que foi muito mais impressionante em 1910 do que em 1986, cabe dizer, ou não se entenderá a comparação. Freyre oferece uma versão totalmente nova da História do Brasil, varre do pensamento brasileiro a noção de racismo científico e interpreta positivamente tanto a contribuição negra quanto a mestiçagem.

Em breve, porém, acadêmicos marxistas ligados à USP, como Florestan Fernandes, Caio Prado Jr, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e Antonio Candido, começam uma crítica sistemática às idéias de Freyre. Nas palavras de Gabriel Cohn, em oposição à visão patriarcal, “de cima”, mais culturalista e antropológica, de Freyre, propõem uma perspectiva plebéia, “de baixo”, mais sociológica e econômica. À leitura de Freyre, focada na singularidade cultural e racial do Brasil, Florestan Fernandes contrapõe uma leitura que enfatiza a participação do país nas grandes correntes históricas ligadas à expansão do capitalismo mundial. Ainda segundo Cohn, apesar da rivalidade entre elas, essas visões seriam mais complementares do que propriamente excludentes.

Entretanto, para debater ou refutar Freyre, primeiro era necessário defini-lo e enquadrá-lo, uma tarefa dificílima em se tratando de um autor tão ambíguo e escorregadio, sem afiliações acadêmicas, e capaz de chamar para si quase todos os rótulos sem jamais colar-se a eles. Carlos Guilherme Mota, por exemplo, em quase desabafo, nota que Freyre desenvolveu uma série de “mecanismos e artifícios” para não ser facilmente localizável: se colocar como sociológo ao mesmo tempo em que diz fazer anti-ciência; se definir como liberal, mas criticar os liberais; se afirmar um revolucionário, mas um revolucionário conservador; e por fim, se classificar simplesmente como “escritor”, o que, de acordo com Antonio Candido, é uma “teima” que serve apenas para indefinir suas verdadeiras coordenadas. Já pode-se ver o enorme incômodo que Freyre causava em uma parcela da academia: Mota, ao usar a palavra “desenvolver”, e Cândido, “teima”, praticamente sugerem que o estilo sincrético, paradoxal e iconoclasta de Gilberto Freyre seria não um reflexo legítimo de sua personalidade, mas somente “mecanismos e artifícios”, nas palavras de Mota, propositalmente criados para ludibriar seus adversários. Começa aqui a história das desleituras da obra de Freyre.

Com o passar dos anos, Freyre realmente sofre uma guinada conservadora: na década de sessenta, manifesta seu apoio às ditaduras do Brasil e de Portugal e começa, enfim, a utilizar o termo “democracia racial” – originalmente criado por Roger Bastide e que jamais aparece em Casa Grande & Senzala ou Sobrados & Mucambos. Entretanto, as posições conservadoras posteriores de Freyre são progressivamente projetadas em seus trabalhos anteriores, até o ponto de ser praticamente um truísmo (falso) que “Casa Grande & Senzala é o livro que defende/começa/define/promove/apresenta/etc a tese da democracia racial”.

Entre as décadas de sessenta e oitenta, quanto mais conservador Freyre se afirma, mais a crítica marxista a ele torna-se compreensivelmente feroz. Pode-se dizer que, durante esses anos, seu prestígio acadêmico esteve no nível mais baixo: quando Stuart Schwartz escreve seu seminal Segredos Internos: Engenhos e Escravos na Sociedade Colonial, seu objetivo original era simplesmente provar que “visão doce” que Freyre tinha da escravidão estava equivocada. Dante Moreira Leite parece fazer o epitáfio intelectual de Freyre quando afirma que sua posição parecia então [1969] inevitavelmente datada e anacrônica, identificando-o com os grupos mais conservadores e afastando-o dos intelectuais mais criadores. E conclui: Casa Grande & Senzala entretém mas não explica e, na verdade, por sua fórmula ensaística e universalista, encobre o problema real das relações de dominação no Brasil. Antonio Candido, como que curado do impacto que sofreu com a obra, desdenha: Casa Grande & Senzala não é uma interpretação do Brasil, mas uma autobiografia. Com a morte de Freyre em 1987 e a queda do muro de Berlim em 1989, entretanto, os ânimos começam a esfriar e Freyre pôde ser lentamente apropriado pela academia.

Em 1995, estudando História do Brasil, na PUC-RJ, recordo-me perfeitamente do professor que nos apresentou a Casa Grande & Senzala como um livro que há algum tempo não era ensinado e que “agora estava voltando”, pois era importante para a evolução do pensamento brasileiro, embora reacionário, conservador, ultrapassado, etc. É possível que a súbita popularidade de Freyre nessa universidade tenha se dado graças ao lançamento, no ano anterior, de Guerra e Paz. Casa Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30, por um professor da casa, Ricardo Benzaquen de Araújo, provavelmente o melhor livro acadêmico sobre Freyre. Voltaremos ao livro de Ricardo ao final desse ensaio; basta dizer que a década de noventa marca a “retomada freyreana”, na feliz colocação de Christopher Dunn.

Uma vasta gama de pensadores, personalidades e pesquisadores tem redescoberto e reutilizado Gilberto Freyre, desde o ex-ministro da cultura Gilberto Gil, tentando aumentar a mestiça auto-estima nacional, até a antropóloga Yvonne Maggie, uma das faces mais visíveis da luta contra a adoção de cotas raciais no Brasil. Apesar disso, a produção brasileira mais recente, em livro, não parece estar à altura do tema. Gilberto Freyre e a Invenção do Brasil (2000) e Gilberto Freyre e o Idéario Brasileiro (2005), de Roberto Cavalcanti de Albuquerque e Odilon Ribeiro Coutinho, são somente panegíricos freirianos, listagens dos elogios que ele recebeu e respostas aos seus críticos. Pelo menos, não escondem suas lealdades: no primeiro, o autor já afirma na orelha que foi amigo de Freyre por 30 anos e o segundo apresenta uma foto de Freyre com o autor na contracapa. A Construção da Brasilidade. Gilberto Freyre e sua Geração (2001), pelo respeitado historiador Vamireh Chacon, fala pouco sobre “a construção da brasilidade” mencionada no título, e contém pouca ou nenhuma análise sobre a obra freyriana: trata-se de um estudo documental sobre o impacto e as leituras de Casa Grande & Senzala, antologizando resenhas, correspondência e controvérsias: decepciona como trabalho acadêmico, mas pode tornar-se uma boa fonte primária. Gilberto Freyre, Um Vitoriano nos Trópicos (2005), de Maria Lúcia Pallares-Burke, é um trabalho acadêmico de peso mas talvez com um recorte excessivamente estreito: a influência de autores ingleses na formação intelectual de Gilberto Freyre até Casa Grande & Senzala. Por fim, mais interessantes, três coleções de artigos trazem contribuições inovadoras à pesquisa freyriana no século XXI: Gilberto Freyre e os Estudos Latino-Americanos (2006), organizado por Joshua Lund e Malcolm McNee, O Imperador das Idéias. Gilberto Freyre em Questão (2001), organizado por Joaquim Falcão e Rosa Maria Barbosa de Araújo, e a edição crítica de Casa Grande & Senzala da Coleção Archivos (2002), organizada por Guillermo Giucci, Enrique Rodriguez Larreta e Edson Nery da Fonseca.

Também no exterior, acadêmicos têm se debruçado sobre Gilberto Freyre, em novos livros como Colonialism and Race in Luso-Hispanic Literature (2006), de Jerome Branche, White Negritude. Race, Writing and Brazilian Cultural Identity (2008), de Alessandra Isfahani-Hammond e a coletânea de artigos The Masters and the Slaves. Plantation Relations and Mestizaje in American Imaginaries (2005), editado pela mesma autora. Essa mais recente produção norte-americana tem feito fortíssimas críticas a Freyre, partindo não mais de bases marxistas ou materialistas históricas, mas dos estudos culturais, pós-coloniais e afro-americanos.

O livro de Branche exemplifica bem essa nova variação de uma antiga maneira de desler a obra de Freyre: é uma análise de raça enquanto narrativa no cânone luso-hispânico, desde o século XV até o presente, buscando por instâncias de traços racistas, mesmo que atenuados e suavizados, no discurso dominante. Naturalmente, Branche também se debruçou sobre Freyre: ele aponta que o próprio título Casa Grande & Senzala, com sugestões de inerentes hierarquias sociais, raciais e sexuais, desmente as teorias freyrianas de relações sociais e raciais harmoniosas. Continua Branche: as referências à casa-grande e à senzala já remeteriam a um espaço de dominação econômica e política, com potencial inerente de coerção e brutalidade; além disso, a referência ao patriarcado no subtítulo (“Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal”) também evocaria toda a dominação patriarcal masculina branca do senhor de engenho sobre suas escravas, filhas e esposas.

Naturalmente, a explicação verdadeira pode ser rigorosamente oposta: dado que o próprio título Casa Grande & Senzala enfatiza as hierarquias sociais, raciais e sexuais do Brasil Colônia, então talvez seja Branche quem fez uma leitura equivocada do livro, ao atribuir a ele idéias que o próprio Branche reconhece que são desmentidas pelo título! Talvez, ao contrário do que Branche parece apressadamente concluir, colocar a palavra “patriarcado” no subtítulo de um trabalho de História não signifique necessariamente celebrar esse patriarcado, mas denunciá-lo, entendê-lo, estudá-lo. A precariedade da leitura de Branche, que ao mesmo tempo registra em Freyre a presença das ausências que aponta, é explicitada no seguinte trecho, sintomático de uma des-leitura bem comum de Casa Grande & Senzala. Vale a pena a citação longa, pois é flagrante como uma frase desmente rigorosamente a frase anterior:

“Freyre’s authorial ambivalence emerges again as he identifies slave children as indispensable playmates of the off-spring of the slave-owning class, while they are also seen as a source of moral and physical corruption for them. Slave boys teach their young masters obscene language, and the slave girls introduce them to sex and often to syphilis. The repeated image of interracial childhood interaction in Masters and the Slaves, as putative metaphor for racial democracy among the young by way of the effect of affect, is by no means watertight. Its purported sincerity is exploded by the sadism that often characterizes the relationship between the young slave owner’s son and his black slave companion and in his ininhibited sexual access to black and mulatto girls at the onset of puberty. In fact, the unenvenness of such relationships is vividly depicted by Freyre’s nonchalant reference to the belief among diseased young males of the slave-holding class that having sex with a twelve- or thirteen-year-old virgin would cure their syphilis.”

O trecho é tão contraditório que quase poderia ter sido escrito por Freyre e ser um exemplo do seu estilo de “antagonismos em oposição”. Nas primeiras duas frases, Branche chama a atenção para as várias descrições de exploração sexual de crianças brancas sobre negras e mulatas em Casa Grande & Senzala, algo que não se esperaria em um livro que, como ele parece acreditar, promove a “democracia racial”, mas Branche não vê a contradição em seu próprio argumento. Na terceira frase, o autor comenta que essa interação sexual infantil forçada “não funciona como metáfora da democracia racial” – mas não se sabe de onde ele tira que essas relações de estupro e dominação poderiam jamais ser consideradas metáforas de qualquer tipo de democracia racial. Aparentemente, ele acredita que Freyre diz isso, mas não cita onde. Por fim, na quarta e quinta frases, Branche se contradiz de novo e lista várias ocasiões em que Freyre, mais uma vez, descreve os crimes sádicos das relações sexuais entre senhores e escravos, sem jamais parecer compreender que são essas descrições, entre outras coisas, que comprovam que Casa Grande & Senzala não defende que o Brasil Colônia fosse um paraíso racial.

Poderíamos nos perguntar: se o livro descreve tantos horrores da relação entre senhores e escravos, como pode promover a democracia racial? Se promove a democracia racial, por que incluir tantos e longos trechos sobre sadismos, torturas, estupros? A leitura de Branche, que já escreve buscando o racismo disfarçado do discurso oficial, é sintomática da forma mais comum de desleitura freyreana: é impressionante a quantidade de atrocidades, torturas e estupros que um leitor precisa relevar ou esquecer para fechar Casa Grande & Senzala e tachá-lo de livro “promotor da democracia racial”.

Também não está se tentando aqui glorificar ou defender Gilberto Freyre – pecado de parte da bibliografia atual. Naturalmente, se Branche buscava pelo racismo subjacente ao discurso oficial, mesmo se atenuado ou suavizado, ele poderia encontrar muitos exemplos em Casa Grande & Senzala – somente não os que ele cita – e não apenas aí, mas em toda a produção literária brasileira até então. Por exemplo, quando Gilberto Freyre escreve que todo brasileiro,

“mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo … a sombra … principalmente do negro. … Em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer…”,

não há dúvida de que se trata de uma operação de exclusão, ainda que presumivelmente bem-intencionada. O negro, apesar de tão valorizado no texto, é claramente excluído da categoria “todo brasileiro” ou mesmo do “nós”. Ele é quem está fora, ele é a “sombra”. Ele “nos” dá de mamar, justamente por não ser parte desse “nós”: é externo a ele, está fora de nós. Aliás, a primeira pessoa do plural é sempre complexa na prosa freyriana, mais um exemplo da ambiguidade que dificulta sua assimilação pela academia: para Gilberto Freyre, “nós” pode ser desde “brasileiros brancos descendentes de senhores de engenho nordestinos” até “brasileiros brancos, mas sem incluir negros e índios”, passando inclusive por “todos os cidadãos brasileiros”. É a proliferação do primeiro “nós” que permite que Antonio Cândido, não sem alguma razão, classifique Casa Grande & Senzala como autobiografia.

O que muitas vezes falta aos autores que embarcam em críticas semelhantes contra Freyre é a contextualização de quão pouco racista o seu discurso era, em comparação ao discurso contemporâneo e anterior. Aos nossos ouvidos politicamente corretos de começos do século XXI, um autor dizer que todo brasileiro mamou em tetas negras pode parecer somente uma operação de exclusão. Em 1933, “sacudiu uma geração inteira”, nas palavras de Cândido. Pinçar racismos aqui e ali na prosa ambígua de Gilberto Freyre é muito fácil; fazê-lo sem contextualizar o impacto de sua obra na atmosfera racista de então é má-fé acadêmica.

Recentemente, alguns intelectuais brasileiros têm revalorizado a contribuição de Freyre, especialmente no sentido de superar o racismo científico e estabelecer a democracia de raças como um ideal a ser atingido. Hermano Vianna ataca o “mito do mito da democracia racial”, muito em voga entre brazilianistas, segundo ele, e que teria se originado de “uma leitura apressada, tendenciosa e burra” de Casa Grande & Senzala:

“como dizer que CG&S criou uma imagem idílica da sociedade colonial se, logo no prefácio de sua primeira edição, aprendemos que os senhores mandavam ‘queimar vivas, em fornalhas de engenho, escravas prenhes, as crianças estourando ao calor das chamas’…?”

Vianna também considera que o melhor do Brasil seja nossa valorização da mestiçagem, que não seria sinônimo de defender a idéia de vivermos em uma democracia racial.

Já em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (2007), de Antonio Risério, a presença de Gilberto Freyre é sentida em cada página, mesmo quando não mencionado. Em muitos trechos, Risério parece literalmente incorporar Freyre:

“Quando falo de sociedade urbana convivial, não estou me referindo a uma sociedade harmônica, sossegada, entregue à sua própria placidez. Não me refiro sequer a um espaço social onde os conflitos se apresentassem de forma atenuada. Em outras circunstâncias, estes esclarecimentos seriam dispensáveis, mas o ambiente brasileiro não se encontra hoje, mentalmente, em condições normais de temperatura e pressão. Parece até que as pessoas estão fazendo questão de parecer burras. Daí o didatismo e a redundância a que somos obrigados.”

Neste livro, Risério busca entender dois fenômenos fundamentais do Brasil: a mestiçagem e o sincretismo, resgatando-os e valorizando-os. Sobre a democracia racial, ele aponta que o próprio impacto e recepção de Casa Grande & Senzala provaram não ser o Brasil uma democracia racial, mas essa tornou-se uma das grandes aspirações nacionais. De certo modo, à sua maneira, mesmo sem inventar a expressão “democracia racial” ou usá-la em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre deu ao país o seu “Brazilian Dream”. E, desde que não seja usada conservadora e reacionariamente, como uma desculpa para alienação política, como uma realidade que o Brasil já alcançou, qual é o problema da “democracia racial” como projeto, como sonho, como aspiração? Será algo tão ruim assim? Não será essa, talvez, a maior contribuição do Brasil à cultura mundial? E fecha o livro com a frase: “Cumpre, portanto, fazer com que o mito se encarne na história.”

Por fim, como já foi dito, talvez o melhor livro acadêmico sobre Freyre nas últimas décadas tenha sido Guerra e Paz: Casa-Grande e Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30, de Benzaquen. Fugindo de interpretações fáceis de Gilberto Freyre, sem nem pinçar seus trechos mais felizes para endeusá-lo, nem seus piores deslizes, para pintá-lo como um ideológo reacionário, Benzaquen foi direto ao cerne do estilo freyriano, à sua característica talvez mais difícil: seus “antagonismos em conflito”, “sua heterogeneidade”, “sua imprecisão”, que seria “um dos componentes mais importantes de Casa Grande & Senzala”, “fornecendo valiosas pistas para a compreensão de alguns dos seus mais importantes propósitos”.

Em suma: a parte constitutiva do pensamento freyriano seria justamente a imprecisão que Mota havia desdenhado como “mecanismo e artifício”. Para Benzaquen, o pano de fundo de Casa Grande & Senzala é o realce dado por Gilberto Freyre ao caráter despótico e mesmo brutal de nossa tradição patriarcal, capaz de permitir uma certa dose de intimidade entre grupos sociais divergentes sem que isso cancelasse ou sequer diminuísse a desigualdade e a opressão embutidas em seu relacionamento. Depois de listar alternadamente alguns trechos sobre sadismo e sobre confraternização entre brancos e negros, dando a impressão de uma certa esquizofrenia autoral por parte de Freyre, Benzaquen dá o passo que Branche, e outros críticos, não deram:

“CGS dá a impressão de ter sido escrito justamente para acentuar a extrema heterogeneidade que caracterizaria a colonização portuguesa, ressaltando basicamente a ativa contribuição de diversos e antagônicos grupos sociais na montagem da sociedade brasileira.”

Assim como, na sociedade, diversos opostos conseguem conviver de lado a lado, em amálgama tenso mas equilibrado, Gilberto Freyre, ao vencer a desconfiança fundamental que o pensamento ocidental nos ensinou a manter quanto à contradição, também consegue reunir elementos antagônicos sem se preocupar com sua síntese ou com o estabelecimento de mediação entre eles, fazendo assim desse relativo louvor da ambiguidade o ponto central e decisivo de sua reflexão. O estilo de Freyre era um modo concreto de trazer para a escrita parte da instabilidade, ambiguidade e excesso que caracterizavam a sociabilidade da casa grande.

a vaidade do artista

15 maio, 2012 § 1

escrevi o texto para esse meu site pessoal aqui, mas acabei publicando no papodehomem. uma discussão interessante sobre a condição do artista. leiam lá.

um trecho:

Ser artista e não ser narcisista é impossível.

Hoje, o desafio da arte é outro: como ser artista/narcisista, em um mundo onde o Pinterest e o YouTube, o Twitter e o Facebook, não só estimulam um narcisismo generalizado galopante como permitem que qualquer um tenha um público?

A internet tornou-se a primeira barreira de entrada: se a sua arte, gráfica ou narrativa, em vídeo ou em música, não é melhor do que o grosso da produção amadora que pode ser consumida gratuitamente pela internet, talvez você devesse mesmo considerar aquela sólida carreira em seguros.

A luta contra a vaidade é um exercício sisifeano diário de auto-conhecimento e disciplina.

Encaro minha vaidade como os holandeses encaram o Mar do Norte: já estava lá quando nasci, me define, me possibilita, me traz prosperidade e, se não for contido, me devora.

leia o texto completo: a vaidade do artista

duas suiças amigáveis

10 maio, 2012 § 8

quem tem cabelo crescendo na cara pode escolher entre duas opções: ou faz disso uma obrigação chata, ou zoa.

escolhi zoar.

mês passado, o corte foi o futurista klingon, remetendo a um futuro que nem existe — como, aliás, todo bom futuro.

o corte de maio, em contraste, remete a um estilo do século xix que já era considerado estranho naquela época, apesar de ter tido uma certa popularidade.

em inglês, friendly mutton chops. (mutton chops seriam só as suiças. friendly, ou amigável, é quando as suiças estão conectadas ao bigode.)

duas suiças amigáveis

sempre na moda.... de 1871

sugestões para junho?

o melhor de tudo é que esqueço da barba, aí passo por um espelho e começo a rir sozinho olhando minha própria cara.

biografia de alex castro

10 maio, 2012 § 1

Alex Castro, 28, é capitão-de-mar-e-guerra da Marinha do Brasil e atual comandante do porta-aviões NAe São Paulo (A-12). Também está em cartaz no Cine Íris com o espetáculo burlesco “Sou Travesti, E Daí?”, escrito, dirigido e interpretado por ele. Tem dois filhos e não bebe.

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cada edição de cada livro meu tem uma nova biografia apócrifa. essa aqui é do número 23 da revista pequena morte.

lar, dulcíssimo lar

8 maio, 2012 § 6

a melhor coisa de estar entre cariocas é que a gente pode dizer que ama, pode mandar passar lá em casa, pode até jurar amizade eterna, e sabe que o outro carioca não vai dar uma de suiço e achar que amo mesmo ou, pior, realmente aparecer na minha casa.

biografia de alex castro

5 maio, 2012 § 1

Alex Castro nasceu em 1966, na cidade de Santarém, no Pará. Abandonou cedo a escola para ganhar o mundo: conheceu os cinco continentes e já trabalhou como marinheiro e marceneiro, palhaço e podólogo, cabelereiro e cobrador, entre outros. Atualmente, vive em Porto Seguro, Bahia, com seu companheiro Luiz Biajoni, onde  juntos criam tartarugas e coordenam a ONG Macuco.

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cada edição de cada livro meu tem uma nova biografia apócrifa. essa aqui é da 2ª edição (magenta) de mulher de um homem só.

se fosse só gostar das coisas que entendo…

4 maio, 2012 § 7

mesa de restaurante, várias pessoas. alguém menciona o filme melancolia, do von trier, e eu digo que gostei muito.

namorada: “que gostou muito o quê, alex! você teve que ir arrastado e depois ainda disse que não entendeu nada!”

eu: “não entendi mesmo! mas se só fosse gostar das coisas que entendo eu não gostaria de cinema escandinavo, não gostaria de arco-íris, não gostaria nem de mulher!”

ninguém sabe quando vai passar a gostar do que jamais gostou

3 maio, 2012 § 2

nunca diga desse pau não chuparei.

O Peso da História: A Escravidão e as Cotas

25 abril, 2012 § 47

A História ainda é uma bola de ferro que os descendentes dos escravos arrastam pelos tornozelos. Os efeitos nocivos da escravidão continuam afetando os bisnetos de suas vítimas diretas.

Eu (n.1974) cursei o ensino fundamental no Colégio Santo Agostinho, o médio na Escola Americana do Rio de Janeiro e, depois, História no IFCS/UFRJ (’99) porque meu pai cresceu em Botafogo, fez o ensino médio no Colégio Andrews e se formou bacharel em Economia (’70) pela mesma UFRJ.

Meu pai (n.1946) estudou na UFRJ porque meu avô estudou engenharia no Instituto Eletrotécnico de Itajubá, atual Universidade Federal de Itajubá (’38) e trabalhou durante muitos anos para a Chesf (Companhia Hidro-Elétrica do São Francisco), inclusive nas obras do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso.

Meu avô (n.1909) foi engenheiro porque meu bisavô (n.1876) saiu do Mato Grosso (onde seu pai, veterano do Paraguai, estava servindo desde a guerra) pra estudar no Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde foi comandante-aluno de 1897, depois formando-se engenheiro militar, participando do episódio dos 18 de Forte e reformando-se coronel.

Em 1888, com 12 anos de idade, meu bisavô estudava na capital do Império, em um dos melhores colégios públicos do país, com bolsa integral, soldo e emprego garantido após a formatura.

Se, ao invés disso, nesse mesmo ano, ele tivesse sido libertado (leia-se posto pra fora de casa) com a roupa do corpo, analfabeto e despreparado, sem conhecer pai e mãe, desprovido de qualquer poupança ou bens*, teriam seus descendentes estudado nas melhores escolas e universidades do país e feito parte da elite brasileira?

Sem esse capital socio-econômico e cultural acumulado pelo meu bisavô em 1888 (para não irmos mais longe), onde teria ido parar a cadeia de acontecimentos que desembocou na minha vida? Estaria eu, nesse momento, sadio e medindo 1,80m, cursando um doutorado em Nova Orleans e escrevendo essas linhas? Dentre minhas realizações, quantas são exclusivamente por mérito meu e quantas são consequência direta da vida privilegiada que eu e meus antepassados levamos? Que tipo de dívida EU tenho com as pessoas que não tiveram tanta sorte? Será ético simplesmente dizer “sorte minha, azar deles, e foda-se, hoje já nivelou tudo e no vestibular todos têm chances iguais”?

Dado que os efeitos nocivos da escravidão ainda se fazem sentir na pele dos descendentes das vítimas, não é tarde demais para serem indenizados pelo Estado.

E as cotas são um bom começo.

* * *

*Riqueza [wealth] é um indicador mais importante de desigualdade racial do que renda pois, ao ser transmitida de uma geração a outra, acaba reproduzindo injustiças históricas ao longo do tempo. Por exemplo, nos Estados Unidos hoje, enquanto a renda dos negros é 75% da dos brancos, sua riqueza líquida é de somente 18%. (Telles, 116, Mills, 37-38) Esse texto sobre cotas tem uma série de adendos e respostas a comentários dos leitores que podem ser lidos aqui. Leia também: Brasil, Meritocracia de Todos. Ou melhor, leia meus melhores textos sobre raça no Brasil.

sou contra as cotas!

sou contra as cotas!

vesti azul e minha vida então mudou

23 abril, 2012 § 0

quase toda noite, Namorada e eu dançávamos em nosso quarto. oliver não gostava de ser excluído, e pulava e latia, pedindo para entrar. então, colocávamos o bicho apertado entre nós, seguro por nossos corpos, e assim dançávamos, coladinhos, os três.

biografia de alex castro

22 abril, 2012 § 0

Alex Castro, 42, estudou em Nova Orleans, mendigou no Timor Leste, se prostituiu no Bois d Bologne. Hj mora em Copa, onde o mundo vem a ele & ñ precisa + sair d casa.

* * *

cada edição de cada livro meu tem uma nova biografia apócrifa. essa aqui é do ebook viagens na terra dos outros.

noivos do arpoador

21 abril, 2012 § 0

noivos do arpoador

clique para ver em tamanho maior.

a fácil tolerância

20 abril, 2012 § 5

as pessoas que mais mandam são as que se sentem mais acuadas pela patrulha de quem não manda nada.

para quem faz parte do status quo e está acostumado a ser a opinião dominante e nunca interpelada, qualquer contradiscurso, mesmo marginalizado e quase impotente, é sempre visto como intolerável:

“feminismo radical”, “racismo reverso”, “ateísmo militante”, “ditadura gay”, etc.

o ideal é a feminista feminina, o negro que sabe o seu lugar, o ateu calado, o gay dentro do armário.

é fácil ser tolerante com o outro: basta ele ficar quieto e nunca me lembrar que existem no mundo opiniões diferentes das minhas.

* * *

entendo os privilegiados defendendo seus privilégios. não entendo o militante negro reclamando das feminazis, o ateu se insurgindo contra o racismo reverso, o gay incomodado pelos ateus militantes.

falta espelho e falta solidariedade.

de mãos vazias, seguro a pá

19 abril, 2012 § 0

De mãos vazias, seguro a pá.
Ando a pé, montado no touro.
Cruzo a ponte e ela flui,
Mas a água não.

tradução livre do poema de Bodisatva Fudaishi, também conhecido como Jinie, Fu Ta-shih, Shan-hui (China, 497–569)

(outras versões: “Observai a pá nas minhas mãos vazias. / Enquanto montado num touro vou andando a pé. / Quando passo sobre a ponte não é a água que corre, e sim a ponte.” // “Empty-handed, I hold a hoe. / Walking on foot, I ride a buffalo. / Passing over a bridge, I see / The bridge flow, but not the water.” // “Empty-handed I go and yet the spade is in my hands; / I walk on foot, and yet on the back of an ox I am riding: / When I pass over the bridge,/ Lo, the water floweth not, but the bridge doth flow.” // “Ando con las manos vacías y con todo la espada está en mis manos; // marcho a pie, y con todo a grupas de un buey voy cabalgando; // cuando paso por sobre el puente, // el agua no fluye, pero el puente si.”)

biografia de alex castro

18 abril, 2012 § 0

Alex Castro, pseudônimo de Luana Chnaidermann de Almeida, tem 17 anos e estuda no Colégio Equipe, em São Paulo. Natural do Acre, Luana publica contos em antologias desde os doze e pretende prestar vestibular para Dança. Seu primeiro romance, “Shoah em Pindorama: Um Faroeste”, foi publicado pela Livros do Mal, em 2002.

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cada edição de cada livro meu tem uma nova biografia apócrifa. essa aqui é da 3ª edição (laranja) de mulher de um homem só.

a vergonha de doisneau

17 abril, 2012 § 3

alguém pediu para seguir doisneau pelas ruas de paris e observar seu método de fotografia. ele recusou. disse que teria vergonha que vissem quantas vezes ele passou pela foto perfeita e nem se deu conta, somente para voltar correndo, dez segundos ou cinco minutos depois, e ainda ter que implorar para completos estranhos fazerem de novo, para a câmera, o que tinham feito naturalmente pouco antes.

mas quantas pessoas não passaram pelas mesmas cenas que doisneau? quantas ideias geniais não temos todo dia?

a marca do grande artista é justamente saber quando voltar.

les coiffeuses au soleil, 1966

les coiffeuses au soleil, 1966

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para quem está no rio: a exposição “simplesmente doisneau” está no centro cultural justiça federal até 24 de junho de 2012. a entrada é franca. a informação acima foi retirada do documentário “robert doisneau: tout simplement” (2000), de patrick jeudy, que pode ser assistido na mostra.

o bonde chora

17 abril, 2012 § 1

o bonde chora e os pterodáctilos voam. largo dos guimarães, santa teresa. abril 2012.

e os pterodáctilos voam... lg dos guimarães, st teresa, 4/12

sina

16 abril, 2012 § 2

ser amado por muitos. não ser a prioridade de ninguém.

cada um se joga na areia pelo que gosta

15 abril, 2012 § 0

copa rj rj, set/11

copa rj rj, set/11