próximos eventos

veja quais serão os próximos encontros & assine a newsletter.

leituras, julho 2015

meus livros lidos no último mês.

sempre com a ressalva que ler livros é um hobby como outro qualquer.

* * *

debt: the first 5,000, de david graeber, 2011, inglês. jun-jul15.

um dos livros mais incríveis, sensacionais, abridores de mente que li na vida. minha cópia está toda sublinhada.

acho interessante traçar a genealogia das leituras. eu só li o graeber porque ele é citado elogiosamente no delicioso declaration, de michael hardt e antonio negri, 2012, que eu só li porque o jonas paskauskas werdine comentou que eu deveria ter baseado a prisão dinheiro nesse livro. não foi o caso: a prisão dinheiro é de 2008 e o livro é de 2012, mas a linha de pensamento é a mesma. :)

muito obrigado.

* * *

the new annotated h. p. lovecraft, de h. p. lovecraft, c.1920-1930, inglês. (org: leslie klinger, 2014) releitura, jul15.

lovecraft é um dos meus autores favoritos, não só pelo conteúdo mas pelo estilo. sempre que me aparece alguma pessoa escritora iniciante cheia de regras na cabeça, entre elas a fatal proibição à advérbios e adjetivos, eu indico lovecraft.

lovecraft, sozinho, redime advérbios e adjetivos para toda a literatura.

leslie klinger organizou a deliciosa, maravilhosa nova edição anotada das obras de sherlock holmes, um livro que eu procurava desde criança e ainda não existia. quando soube que ele tinha acabado de lançar uma edição anotada de lovecraft, tive que comprar.

toda noite, quando o cérebro vai ficando cansado, eu páro de ler as coisas difíceis e vou ler um conto do machado ou do lovecraft.

* * *

three sisters, de anton tchecov, 1901, russo. (trad: elisaveta fen.) releitura, jul15.

tchecov é o meu autor favorito de todos os tempos. não canso de ler e reler. reli as três irmãs, uma de suas melhores peças, antes de ir a uma apresentação incrível, a céu aberto, no pôr-do-sol, nos jardins do casarão austragélsio de athayde.

* * *

the buddha on wall street. what’s wrong with capitalism and what we can do about it, de vaddhaka linn, 2015, inglês, jul15.

um livrinho desigual, com uma perspectiva budista sobre economia, consumismo, felicidade. li como parte da minha pesquisa para a prisão felicidade, mas a parte mais interessante foram suas recomendações de leitura sobre economistas que escrevem contra o desenvolvimentismo atual.

* * *

poemas 1913-1956, de bertolt brecht, 1913-1956, alemão. (org/trad: paulo césar de souza, 1990.) jul15.

como não amar brecht? comprei o livro para ler para a Outra Significativa dormir. (ela dormia melhor com poemas!) agora, é o meu livro de banheiro.

* * *

confessions of an english opium eater, de thomas de quincey, 1821, inglês. 14jul15.

tenho uma estantezinha com paperbacks vagabundos e já meio fodidos que são os livros que levo para ler na praia. li o quincey na praia de copa, depois de nadar com capitu, com ela tremendo no meu colo.

a questão dos viciados em ópio na europa oitocentista, a criação mitológica de um submundo do crime, as preocupações das autoridades, tudo isso levou diretamente à desastrosa guerra contra as drogas que faz vítimas até hoje.

e tudo começa com esse relato do quincey.

* * *

evangelhos proibidos. as batalhas pela escritura e os cristianismos que não chegamos a conhecer, de bart d. ehrman, 2003, inglês. (trad: eliziane andrade paiva, 2008.) 15jul15.

a bíblia é uma antologia de diversos livros escritos ao longo de mais de mil anos. pouca gente sabe que havia outros evangelhos, outros apocalipses, outros livros de esdras, outros livros dos macabeus, outras cartas de paulo, que, por vários e vários motivos, acabaram não entrando na bíblia e não sendo, literalmente, canonizados.

muitos desses livros existem até hoje e são leituras fascinantes, indicando os diferentes caminhos e possibilidades que o cristianismo e, consequentemente, a civilização ocidental poderiam ter seguido, digamos, se os quatro evangelhos da bíblia fossem tomé, tiago, pedro e barnabé (todos evangelhos reais e muito interessantes) ao invés de mateus, marcos, lucas e joão.

o livro acima é uma história do jogo político que levou à canonização de alguns evangelhos e à proibição de outros.

* * *

papeis avulsos, de machado de assis, 1882, português. releitura. 15jul15.

estou sempre lendo e relendo machado. leio antes de dormir, quando o cérebro está cansando.

* * *

história da sexualidade vol.1, a vontade de saber, de michel foucault, 1976, francês. (trad: maria thereza da costa albuquerque e j. a. guilhon albuquerque) 20-25jul15.

microfísica do poder, de michel foucault, c.1970-80, francês. (org: roberto machado, trad: vários.) 20-25jul15.

the foucault reader, de michel foucault, c.1970-80, francês. (org: paul rabinow, trad: vários, 1984) 20-25jul15.

power: essential works of foucault, de michel foucault, c.1970-80, francês. (org: james d. faubion, trad: vários, 2000) 20-25jul15.

no livro das prisões, que estou tentando organizar, falo muito de poder, mas… qual poder? foucault, além de ser simplesmente delicioso de acompanhar, é o pensador que melhor articulou uma noção contemporânea, não esquemática, não maniqueísta de poder.

teria sido fácil conseguir o que eu queria em menos livros mas confesso que foi meio viciante ler e continuar lendo foucault. agora, quero muito ler os anormais, que está na fila.

* * *

denial of death, de ernest becker, 1973, inglês, 23-24jul15.

escape from evil, de ernest becker, 1975, inglês, 24-25jul15.

dois livros também brilhantes e sensacionais. minhas cópias têm mais palavras sublinhadas do que não sublinhadas.

lido por sugestão de david r. loy, autor de the great awakening: a buddhist social theory, outro daqueles poucos livros com os quais concordo com cada palavra.

* * *

psicologia das massas e análise do eu, de sigmund freud, 1921, alemão. (trad: paulo césar de souza) releitura. 26jul15.

um dos primeiros textos de freud que li, vinte anos atrás, para uma aula de história contemporânea, e não entendi quase nada. hoje, já entendo, mas não é dos meus favoritos.

reli por sugestão de becker, que o cita repetidas vezes.

o futuro de uma ilusão, de sigmund freud, 1927, alemão. (trad: paulo césar de souza) releitura. 26jul15.

sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina, de sigmund freud, 1920, alemão. (trad: paulo césar de souza) 26jul15.

uma neurose do século xvii envolvendo o demônio, de sigmund freud, 1923, alemão. (trad: paulo césar de souza) 26jul15.

o mal-estar da civilização, de sigmund freud, 1930, alemão. (trad: paulo césar de souza) 26jul15.

freud é um dos meus autores preferidos pois é delicioso de ler mesmo quando está completamente errado. não é necessário concordar com suas conclusões para apreciar a beleza do seu método psicanalítico de tratar as pessoas como se elas fossem um romance e ele, um crítico literário. não é à toa que ele é muito estudado em letras.

além disso, ninguém constroi um argumento tão bem quanto darwin e freud, não por acaso, duas pessoas que sabiam estar escrevendo textos revolucionários que iam contra todos os preconceitos de seus contemporâneos. tudo o que sei de retórica e argumentação eu aprendi lendo freud e darwin.

* * *

vaca e outras moças de família, de renata côrrea, 2015, português, 27jul15.

na cama com nietszche, de vanessa guedes garcia, 2015, português, 27jul15.

dois novos livros de duas amigas queridas.

* * *

mirtes vive, de daniela abade, 2015, português, 28jul15.

novo romance da daniela abade, lançado diretamente para kindle.

* * *

the great god pan, de arthur machen, 1894, inglês. 28jul15.

lido porque era uma das novelas de terror favoritas do lovecraft e do stephen king.

* * *

como viram, eu tenho quatro categorias de livros: pra ler na praia, no banheiro, antes de dormir, e os livros de trabalho.

* * *

convenções da lista: título, autor, data da escritura, idioma original. (organizador, tradutor, data da organização e/ou tradução) data da leitura.

* * *

uma ressalva importante

fazer listas de livros reforça uma ideia que considero muito problemática:

que “ler é bom”, que todas deveríamos “ler mais”, que ler é uma atividade intrinsecamente melhor do que a maioria das outras, etc.

mas ler um livro não é mérito, não é vantagem alguma, não é algo para se gabar.

mais importante, simplesmente ter lido um livro não significa que a pessoa leitora o entendeu, que tirou dele qualquer coisa de relevante, bela, prazeirosa ou útil.

listar os livros que eu li faz tanto sentido quando listar os vagões de metrô que eu viajei. (aliás, quase sempre, o 1022 e o 1026, que operam na linha um e são os últimos vagões de suas composições.)

e daí, não?

apesar disso, incrivelmente, as pessoas pedem e perguntam.

enfim, a verdade é que trabalho com livros. para mim, pessoalmente, esse tipo de lista é relevante e me ajuda a sistematizar as leituras.

novo encontro: oficina de empatia

depois de realizar mais de 50 encontros “as prisões” em todas as regiões do brasil, decidi encerrar esse ciclo, ao menos temporariamente.

ao longo dos últimos meses, o encontro “as prisões” foi mesmo perdendo o foco nas prisões e se concentrando mais e mais em narcisismo e empatia.

então, decidi criar um novo encontro, para praticarmos escutatória e generosidade, não-opiniao e não-conhecimento:

uma oficina de empatia. 

um encontro mais curto e mais enxuto, com menos pessoas, oito, e durando somente quatro horas, podendo ser realizado em uma noite de semana.

com um preço sugerido mais barato, oitenta reais, mas sempre com a opção de as pessoas pagarem o que quiserem e o que puderem.

com foco exclusivo nos exercícios de empatia que venho desenvolvendo desde o ano passado.

para quem veio ao encontro “às prisões” antes de outubro de 2014, será uma experiência completamente diferente.

a primeira oficina de empatia vai acontecer no rio, na minha casa, na noite de quinta agora, 30 de julho, das 18h às 22h.

para quem quiser participar desse experimento junto comigo, por favor, inscreva-se aqui.

em agosto, vou a são paulo lançar meu novo livro “a autobiografia do poeta-escravo” e devo fazer uma oficina lá também.

além disso, estou morrendo de saudade do inhotim e estou pensando em aproveitar setembro para lançar o livro também em BH, fazer uma oficina de empatia e visitar o parque.

(para saberem quando vão ser os próximos eventos, não deixem de se inscrever na lista de espera.)

muito, muito obrigado a todas vocês.

(leiam os exercícios de empatia.)

novas dedicatórias apócrifas

o saldão dos meus livros foi um sucesso. onde perdemos tudo e lll estão esgotados, e sobraram só nove cópias do mulher de um homem só.

(cometi o erro de folhear o lll e quase devolvi o dinheiro de quem comprou, mas vá lá. saibam que o livro é horrível e que eu discordo de 80% do que está lá!)

os livros serão todos enviados ainda hoje.

para comprar meu novo livro outrofobia, ou uma das últimas nove cópias de mulher de um homem só, e também receber sua dedicatória apócrifa, visite minha página de livros.

* * *

passei as últimas semanas escrevendo mais de duzentas dedicatórias.

abaixo, algumas das melhores.

muito obrigada a todas as pessoas que mandaram sugestões de dedicatórias.

de brinde, algumas fotos da capitu (tosada!) interagindo com os livros.

alfabetização

arruma emprego para filho do amigo

até dei a bunda

atendente do caixa do mercado para cliente grossa

capitu e livros

avô para neta

bebado para esposa

bilhete suicida

bras cubas 1

bula de remedio

cachorro

cancao do exilio

capitu e livros (3)

cancer venceu

capoeira

desenho para mãe

devolve consolos

diretor para atriz pornô

dom pedro para marquesa de santos

empregada para patroa

capitu e livros (5)

epitafio gil vicente

eu disse eu falei

funcionario do mes com prioridades em ordem

garoto de programa

gemeos

horoscopo

capitu e livros (10)

indireta para suruba

livro abandonado em banco de praça

manual de etiqueta

menina que comprava sonhos

missao do agente secreto

nenhuma esposa vale isso

oportunidade unica

orientador para orientando sobre alex castro

paquerando professora do filho

para o amor da quinta serie

capitu e livros (8)

patroa para babá

por que por que

presente da tia coisinha de nada

preso para carcereiro

capitu e livros (4)

prisioneira politica

prostituta para cliente

recado para porteiro

recado para si mesma do futuro

recado para si mesmo por amnesia

receita de quiabo

capitu e livros (1)

resenha de produto na amazon

capitu e livros (2)

rol de roupas

se está recebendo é pq estou morto

serial killers para policiais

stalker

telegrama

tentando converter amigo

termos de uso

último pedido para enfermeira

vai contar e nao conta

voce nao é a mae do pedrinho

capitu e livros (7)

* * *

quer mais?

tem mais dedicatórias apócrifas aqui.

tudo o que você precisa saber sobre o capitalismo, em uma livraria

moro entre dois bairros cheios de livrarias, inclusive algumas muito badaladas e gigantescas, como a livraria da travessa de ipanema.

como não tenho internet em casa, quando quero um livro, eu ligo pra uma meia dúzia de livrarias e pergunto.

e, apesar de todas essas livrarias, é sempre uma pequena livraria na esquina da minha rua que tem tudo o que eu quero.

com um problema.

chego lá e o jardim das aflições, magnus opum do vilósofo olavo de carvalho, lançado quinze anos atrás, está permanentemente exposto em lugar de honra, como se tivesse sido lançado ontem por uma editora que pagou caro pelo espaço na vitrine.

além disso, a obra está sempre ladeada de escudeiros: o novo livro do constantino, a biografia do lobão, o último lançamento da três estrelas, todos exibidos com destaque.

mas aí, outro dia eu estava buscando por uns livros obscuros do paulo freire, sabe quem é?, aquele comunista que as pessoas do leblon fazem passeata contra?, e eles tinham uma estante inteira com dezenas de obras do paulo freire, obras que não tinham em nenhuma das outras livrarias pra-frentex do bairro.

(não em destaque como as obras do olavão, claaaaro, mas estavam lá.)

aí, semana passada, decidi reler foucault, que eu tinha lido em xerox, e, de novo, a única livraria do bairro que tinha todas as obras do foucault que eu estava procurando, sabe quem é?, o filósofo careca pervertido gay que a igreja impediu de virar cátedra na puc?, foi essa livraria olavete.

(ok, de novo, não em destaque, mas estavam todos lá – e são muitos.)

essa pequena livraria olavete em copacabana simboliza tudo o que o capitalismo tem de melhor e de pior:

ele é o único sistema cuja ganância é tamanha que incorpora, aceita e coopta até mesmo o discurso que prega a sua própria destruição – desde que possa lucrar com isso – tudo sob o manto de uma democracia de fachada – que sempre vai só até certo ponto, e olhe lá.

enfim, virei freguês.

marcadores de página

quem compra os meus livros na minha mão, seja aqui pelo site ou em algum evento, ganha marcadores de página exclusivos.

marcador de página código de barras

marcador de página outrofobia

mulher de um homem só marcador GRANDE

meus livros à venda estão aqui.

a autobiografia do poeta-escravo

Juan Francisco Manzano, poeta na ilha de Cuba, foi a única pessoa escravizada latino-americana a escrever uma autobiografia sobre sua experiência no cativeiro.

manzano ediciones matanzas capa

manzano hedra capa

Autobiografía, de Juan Francisco Manzano. Edição, introdução e notas de Alex Castro. (Ediciones Matanzas, Cuba, 2015.) Em breve.

A autobiografia do poeta-escravo, de Juan Francisco Manzano. Edição, tradução, introdução e notas de Alex Castro. (Editora Hedra, 2015.) Em breve.

“Em 1835, sob encomenda de um grupo de literatos, o poeta cubano Juan Francisco Manzano redigiu um testemunho de suas experiências enquanto escravo, um empreendimento repleto de dificuldades práticas e políticas. O quanto falar? O quanto silenciar? O quanto aqueles homens brancos e ricos, aparentemente tão tolerantes, eram capazes de ouvir e aceitar? Como denunciar a escravidão sem ofender seus patronos escravocratas? Após consideráveis revisões e reescrituras, o manuscrito foi traduzido para o inglês e publicado por abolicionistas em Londres.

A autobiografia do poeta-escravo é pela primeira vez publicada no Brasil, um dos países que mais tarde aboliu o horror narrado com tamanha vivacidade por estas páginas. É diante de tal delicadeza histórica que o tradutor e organizador Alex Castro nos apresenta o resultado de uma tarefa também árdua, a de transladar o texto de Manzano mantendo seu vigor e respeitando suas idiossincrasias, marcas tão reais e concretas como lanhos de chicote na carne do escravo. O livro inclui duas versões da Autobiografia, uma tradução para a norma culta do português e uma transcriação criativa, acompanhadas por mais de 300 notas explicativas e um conjunto de textos que torna a presente edição um marco na memória da escravidão e da luta pela liberdade.”

Da orelha da edição brasileira, a ser publicada pela Editora Hedra em 2015.

O livro também será publicado em Cuba pela primeira vez em quarenta anos, em edição fac-símile da Ediciones Matanzas, com minha introdução e notas.

* * *

Trechos

Tradução à norma culta do português:

Uma tarde, saímos ao jardim e, durante muito tempo, fiquei ajudando minha ama a colher flores ou transplantar alguns matinhos como passatempo, enquanto o jardineiro andava por toda a largura do jardim, cumprindo sua obrigação. Ao nos retirarmos, sem consciência realmente do que fazia, peguei uma folhinha, uma folhinha qualquer de botão de gerânio. Essa malva extremamente cheirosa ia em minha mão, junto com sei lá mais o que eu levava. Distraído com meus versos de memória, seguia minha sinhá à distância de dois ou três passos e caminhava tão alheio a tudo que ia despedaçando a folha, do que resultava maior fragrância. Ao entrar em uma antessala, não sei com que motivo minha sinhá retrocedeu. Eu lhe dei passagem mas, ao passar por mim, lhe chamou atenção o cheiro. Imediatamente colérica, com uma voz fortíssima e alterada, me perguntou:

“O que tens nas mãos?”

Fiquei morto. Meu corpo gelou-se em um instante e, sem poder quase ficar de pé pelo tremor que me deu em ambas as pernas, deixei cair a porção de pedacinhos no chão.

Ela me tomou as mãos e as cheirou. Pegando os pedacinhos, eles pareciam um montão, um matagal, um atrevimento.

Quebraram meu nariz.

* * *

Transcriação:

huma tarde sahimos ao jardim durante muinto tempo fiquei ajudando minha ama á colher flores ou transplantar alguns matinhos como pasatempo enquanto o jardineiro andava pr. toda a largura do jardim cumprindo sua obrigaçaõ ao nos retirarmos sem consiensia realmente do qe. fazia peguei huma folhinha, huma folhinha coalquer de botaõ de geranio esta malva estremamente odoroza ia em minha maõ junto com sei la mais o que eu levava distraido com meus versos de memoria seguia minha sinhá á distansia de dois ou trez pasos e caminhava taõ alheio á tudo qe. ia dispedaçando a folha do qe. rezultava maior fragansia ao entrar numa antesala naõ sei com qe. motivo a sinhá retrocedeu, le dei pasagem mas ao pasar por mim le chamou atensaõ o cheiro imediatamente colerica com huma voz fortisima e alterada me perguntou qe. tens nas maõs; eu fiquei morto meu corpo gelou-se num instante e sem poder quasi sustentar-me pelo tremor qe. me deu em ambas pernas, deixei cahir a porsaõ de pedaçinhos no chaõ me tomou as maõs e as cheirou e pegando os pedaçinhos paresiaõ hum montaõ hum matagal e hum atrevimento de nota quebraraõ meu nariz

* * *

Original em espanhol:

una tarde salimos al jardin largo tiempo alludaba a mi ama a cojer flores o trasplantar algunas maticas como engenero de diversion inter el jardinero andaba pr. todo lo ancho del jardin cumpliendo su obligasion al retirarnos sin saber materialmente lo qe. asia cojí una ojita, una ojita no mas de geranio donato esta malva sumamente olorosa iva en mi mano mas ni yo sabia lo qe. llebaba distraido con mis versos de memoria seguia a mi señora a distansia de dos o tres pasos e iva tan ageno de mi qe. iva asiendo añiscos la oja de lo qe. resultaba mallor fragansia al entrar en una ante sala nosé con qe. motivo retrosedió, ise paso pero al enfrentar conmigo llamole la atension el olor colerica de proto con una voz vivisima y alterada me preguntó qe. traes en las manos; yo me quedé muerto mi cuerpo se eló de improviso y sin poder apenas tenerme del temblor qe. me dió en ambas piernas, dejé caer la porsión de pedasitos en el suelo tomóseme las manos se me olio y tomandose los pedasitos fue un monton una mata y un atrevimiento de marca mis narises se rompieron

* * *

As capas, abertas

(Clique para ver em tamanho maior.)

manzano capa hedra 2a versao

Autobiografía  Manzano, cubierta

* * *

O manuscrito

A primeira página do manuscrito original, na caligrafia de Manzano, disponível na Biblioteca Nacional José Martí, em Havana:
(Clique para ver em tamanho maior.)

2

A edição cubana será fac-símile e vai contar com fotos de todas as páginas do manuscrito.

* * *

As fotos

Em abril de 2014, a fotógrafa Claudia Regina e eu estivemos em Cuba para buscar os vestígios da passagem do poeta-escravo pela ilha. Ambas as edições cubana e brasileira serão ilustradas com as belíssimas fotos da Claudia Regina.

Ruínas da antiga casa-grande do Engenho Los Molinos, em Matanzas 7

Ruínas da antiga casa-grande do Engenho Los Molinos, em Matanzas 3

Ruínas da antiga casa-grande do Engenho Los Molinos, em Matanzas 7

Ruínas da antiga casa-grande do Engenho Los Molinos, em Matanzas 7

outrofobia, textos militantes

Outrofobia. s.f. Rejeição, medo ou aversão ao outro. termo genérico utilizado para abarcar diversos tipos de preconceito ao outro, como machismo, racismo, homofobia, elitismo, transfobia, classismo, gordofobia, capacitismo, intolerância religiosa etc.

* * *

outrofobia Capa

Outrofobia, textos militantes. (Editora Publisher Brasil, 2015.) R$60, com direito a dedicatória apócrifa & marcador de página exclusivo.

Para comprar por R$30 no site da editora, sem dedicatória e sem marcador, clique aqui.

* * *

Uma coletânea dos meus melhores textos políticos, sobre racismo, feminismo, transfobia, privilégio.

Textos de luta. Feitos para incomodar, despertar, cutucar.

Não são textos acadêmicos. Não trazem fatos novos, formulações originais, pesquisa primária, questões aprofundadas.

Eu jamais presumiria “ensinar” racismo para pessoas negras, feminismo para mulheres, transfobia para pessoas trans*.

O objetivo desse livro é tentar abrir os olhos das pessoas privilegiadas.

* * *

Comprando por aqui, você paga um pouco mais caro, mas ganha uma dedicatória apócrifa exclusiva e individual, marcadores de página também exclusivos e, mais importante, a satisfação de estar ajudando diretamente o autor dos textos que você curte.

* * *

Conteúdo

Prefácio, por Aline Valek

Sobre um uso da língua menos sexista e mais humano

Pra começar

Uma história de quatro pessoas

Racismo

Senzalas & campos de concentração

O peso da história: a escravidão e as cotas

Imigrantes sim, mas de que cor?

Racismo, miscigenação e casamentos interraciais no Brasil

Feminismo

Feminismo para homens, um curso rápido

A fácil paternidade

Cavalheirismo é machismo

O papel dos homens no feminismo

O segredo de beleza dos homens

Conversando sobre transfobia com uma criança

Faixa-bônus:

Como se sente uma mulher, por Claudia Regina

Privilégio

Carta aberta às pessoas privilegiadas

O assunto não é você

Ação de graças pelos privilégios recebidos

Carta aberta às humoristas do Brasil

Pra encerrar

O desabafo da moça do crachá

O baralho viciado

* * *

* * *

Capa, contracapa, orelhas

Clique na imagem para ver em tamanho maior.

Outrofobia capa isabel final 19nov14.pdf

* * *

Prefácio, de Aline Valek

Não gostar do Alex Castro foi a minha primeira reação. Foi até natural: quando descobri seus textos, descobri também que eles me provocavam certo mal-estar. Era comigo que eles falavam. Era pelo meu braço que eles me agarravam, sacudiam e ainda tentavam me arrastar para fora das linhas que delimitavam a minha zona de conforto.

Não encontro outra forma de começar a não ser com todo esse narcisismo: o que esses textos ME causaram, como eles pareciam ser escritos para MIM, como EU me senti. Eu. Eu. Eu. Porque, de certa forma, esses textos foram o aríete a derrubar meu ego para que eu pudesse enxergar a mensagem: o mundo não é sobre você.

Quão péssimo pode ser encarar essa verdade?

As páginas a seguir podem trazer o mesmo desconforto. Não é fácil digerir a possibilidade de ser um outrofóbico, alguém incapaz de perceber as outras pessoas e de se solidarizar com qualquer drama que vá além das paredes do seu mundo pessoal. Mas ninguém disse que se tornar uma pessoa melhor, mais empática e menos babaca, seria um passeio no parque.

A escrita de Alex Castro está aí para facilitar um pouco esse trabalho. Em ficção ou temas sérios, Alex consegue prender a atenção com uma linguagem constrangedoramente direta e não tem medo de te conduzir às mais profundas questões humanas, mesmo até aquelas das quais você talvez preferisse manter distância. É uma leitura que exige alguma coragem; Alex escreve como quem busca uma conversa franca. Aliás, Alex escreve como fala em seus encontros sobre As Prisões, dos quais já participei uma vez: enquanto fala dos costumes, tradições e preconceitos que arrastamos pela vida como bolas de ferro mentais, ele conta histórias e traz questionamentos provocadores, sem se importar se isso vai perturbar ou destruir todas as certezas de quem ouve. Tudo isso falando com muita calma, sentado bem à vontade sobre as pernas cruzadas e ainda preparando um cachimbo.

Tendo em mente esse cara zen e despreocupado, que ouve com tanta atenção, fica difícil se manter na defensiva contra um suposto escritor malvado apontador-de-dedos que quer um conflito com você. Porque o assunto aqui não é você, mas tampouco Alex. Se não é sobre leitor nem autor, é sobre quem?

No seriado Lost, sobreviventes de um trágico acidente de avião se veem perdidos em uma ilha misteriosa. Os protagonistas estão vulneráveis, desesperados e confusos; quando percebem que eles não são os únicos habitantes da ilha, bate um terror. Em vários episódios, quando nossos heróis e heroínas estão andando na selva, ouvem vozes por todos os lados. Ouvem passos. Quando se escondem, são capazes de ver pernas de homens, mulheres e crianças passarem por eles. Começam a chamá-los de Os Outros. Pessoas que eles não sabem quem são, o que fazem, onde vivem e o que querem com eles – e, por isso mesmo, só podem ser uma ameaça.

Somos, em alguma medida, esses protagonistas nesse exato momento da história. Sabemos que não estamos sozinhos, mas não conhecemos aqueles que dividem o mundo, essa ilha misteriosa, com a gente. Os Outros são apenas sombras que passam por nós na floresta e vozes que ouvimos ao longe, mas não conseguimos distinguir o que dizem. Temos medo d’Os Outros. Passamos a desenvolver mecanismos de defesa para nos proteger dessa ameaça que Os Outros possam representar e fechamos a escotilha de nós mesmos para não precisar entrar em contato com eles.

É no sentido de desconstruir essas muralhas invisíveis e de nos abrir para o conhecimento do Outro que Alex escreve. O assunto aqui são Os Outros: justamente esses que fomos ensinados a ignorar, a não ouvir, a tratar como inimigos.

É isso que torna a leitura de Outrofobia tão difícil e, ao mesmo tempo, tão necessária. Se você for capaz de se abrir para essa proposta, já terá dado o primeiro passo para se abrir também a uma visão mais humana do mundo. Garanto que pode não ser agradável, mas o mundo sem empatia já não é um lugar muito suportável.

Aline Valek, escritora e feminista, publica seus textos na Carta Capital e no site alinevalek.com.br, e é co-criadora do projeto de ficção científica feminista “Universo Desconstruído”.

* * *

outrofobia Capa

Outrofobia, textos militantes. (Editora Publisher Brasil, 2015.) R$60, com direito a dedicatória apócrifa & marcador de página exclusivo.

Para comprar por R$30 no site da editora, sem dedicatória e sem marcador, clique aqui.

dedicatórias apócrifas

todos os meus livros que vendo, seja pessoalmente ou pelo meu site, vêm sempre com uma dedicatória única e exclusiva, apócrifa e 100% falsa.

algumas vezes, escrevo como um pai dedicando um livro à filha. noutras, como um filho dedicando o livro ao pai. amante rejeitando, ou amante rejeitado. etc etc.

as dedicatórias fazem parte da própria ficcionalidade das obras e ajudam a borrar um pouco mais a relação autora-leitora.

além disso, cada edição de cada um dos meus livros de ficção tem sempre uma biografia do autor apócrifa e diferente.

todas essas iniciativas, que parecem brincadeira mas não são, fazem parte do mesmo projeto artístico de apagamento do autor, de demonstrar que o autor não importa, só o texto importa.

ocasionalmente, as dedicatórias causam problemas, crises de ciúmes, revoltas paternas. hoje, soube de uma moça que pegou antipatia de mim por ter pensado que a dedicatória era algum tipo de indireta sarcástica contra ela.

quando isso acontece, apesar de eu saber que a possibilidade sempre existe, fico bem chateado e peço desculpas.

só pessoas lindas e incríveis compram livros independentes direto da mão do autor — ao invés de simplesmente comprarem o novo best seller genérico na fnac mais próxima. a última coisa que quero é chatear minhas leitoras fiéis.

então, mais uma vez, perdão. as dedicatórias são minicontos ficcionais: quaisquer correspondências com a realidade serão sempre mera coincidência.

se você tem uma dedicatória apócrifa que gostou, compartilhe uma imagem dela nos comentários.

e eu te agradeço.

* * *

abaixo, alguns exemplos.

dedicatoria apocrifa (1)

dedicatoria apocrifa (2)

dedicatoria apocrifa (3)

dedicatoria apocrifa (4)

dedicatoria apocrifa (5)

dedicatoria apocrifa (6)

dedicatoria apocrifa (7)

dedicatoria apocrifa (8)

dedicatoria apocrifa (9)

dedicatoria apocrifa (10)

dedicatoria apocrifa (11)

dedicatoria apocrifa (12)

dedicatoria apocrifa (13)

dedicatoria apocrifa (14)

dedicatoria apocrifa (15)

dedicatoria apocrifa (16)

dedicatoria apocrifa (17)

dedicatoria apocrifa (18)

dedicatoria apocrifa (19)

dedicatoria apocrifa (20)

dedicatoria apocrifa (21)

* * *

para comprar meus livros e receber a sua, clique aqui.

alex castro, aberto à visitação

todo dia, sempre das 18h às 21h, estou aberto à visitação por qualquer pessoa que queira me encontrar.

gosto muito de receber visitas. preciso receber visitas. não é necessário ser minha amiga, ter intimidade, achar que é uma pessoa interessante. pode vir sem vergonhas.

* * *

quando estou em casa, minha rotina é simples: trabalhar do nascer ao pôr do sol, com intervalos para meditar, malhar, remar.

lá pelas seis da tarde, cansado, meu ritmo de produção começa a diminuir e percebo que estou carente, depois de um dia inteiro de trabalho sem contato humano.

essa é a hora perfeita para me visitar.

moro no arpoador, ali naquela zona indistinta entre copacabana e ipanema, do lado do metrô general osório. se você estiver por perto, basta ligar pro meu fixo. se eu atender, é porque estou em casa.

(não adianta mandar email: não tenho internet!)

aí, quem sabe, podemos beber um vinho aqui no meu apartamento, tomar um açaí na casa de suco da esquina, ver o sol se pôr na pedra do arpoador, pegar um teatro.

em geral, vou dormir lá pelas 21h, 22h.

minhas informações de contato atualizadas estão sempre na minha página de contato.

* * *

nas últimas semanas, quase todo dia tem aparecido alguém diferente, pessoas interessantes, novas histórias de vida.

sou um privilegiado de passar o dia inteiro fazendo aquilo que amo e ainda conhecer pessoas incríveis todos os dias.

obrigado.

* * *

minhas contas mensais

como eu vivo da generosidade das minhas mecenas, acho importante que minhas contas sejam abertas e públicas.

minha casa.

minha casa.

no momento, minha única renda fixa são r$800 que ganho por textos que publico na internet.

todas as outras entradas possíveis são irregulares, incertas e imprevisíveis: vendas de livros ou de encontros, contribuições das mecenas, alguma turista querer ficar no meu apartamento. em qualquer dado mês, elas podem facilmente não render nem um único real.

já as despesas fixas mensais são aproximadamente: r$350 de condomínio, r$150 de gás/luz/internet/telefone fixo, r$400 de mercado, r$100 de transporte.

tenho um plano de internet popular de r$29, mas só para hóspedes: quando não tem hóspede, uma amiga fica com o modem, para eu poder trabalhar sem distrações. o plano de telefone fixo também é popular, só r$22. no gás, pago o mínimo, r$29.

algumas pessoas não acreditam que minha conta de luz seja tão barata, mas meus únicos aparelhos elétricos de uso contínuo são um frigobar e um laptop. além disso, tenho uma lâmpada fria no teto e outra em uma luminária de leitura, que nunca ficam acesas por mais de duas, três horas por noite. sobram apenas o chuveiro elétrico e o ar condicionado, dois aparelhos sazonais utilizados poucos meses por ano.

o que mais encarecia minhas compras de mercado eram bebidas, carnes e artigos industrializados, três coisas que não compro mais. sem isso, é impressionante o quanto rendem compras de grãos, frutas, legumes, ovos.

os gastos de transporte são baixos, pois faço tudo a pé, pelo bairro.

troco de computador nos anos pares, cerca de r$1.500, e de óculos nos ímpares, cerca de r$1.000, as únicas duas compras que programo e parcelo no cartão.

anualmente, pago cerca de r$100 de iptu.

não pago aluguel pois tenho a felicidade de ter recebido um apartamento, de forma completamente inesperada, em 2011. mas eu não estaria pagando aluguel de qualquer jeito. se esse apartamento não tivesse caído do céu, eu estaria morando, em definitivo e de favor, com a minha leitora e quase-irmã sônia, que cuidava do oliver durante minhas viagens, que me hospeda quando aparecem turistas para passar uns dias no meu apartamento, que agora hospeda até a minha companheira, que largou o aluguel e foi morar com ela.

(segundo a sônia, a primeira versão da prisão dinheiro, publicada em 2008, mudou sua vida e ela se sente em dívida comigo. eu sempre digo que ela não me deve nada, claro, mas aceito graciosamente o mecenato.)

minhas despesas fixas são essas. o que preciso pra viver é isso.

todo o resto ou é luxo (“olha que linda essa nova edição de moby dick“) ou é emergência — recentemente, minha geladeira pifou e precisei comprar uma nova (r$700, à vista).

ou seja, com cerca de mil reais por mês, eu vivo e vivo bem, com todas as minhas necessidades básicas preenchidas. usando laptop, consumindo cultura, comendo orgânicos. morando sozinho. na inflacionada zona sul do rio de janeiro.

se morasse com a família ou com uma companheira, em uma cidade ou bairro mais barato, poderia me bastar por muito menos.

em uma emergência, ainda dá pra apertar mais o cinto e abaixar esse número: comer mais frugalmente, andar mais a pé, usar menos eletricidade.

mas e o resto?, você poderia perguntar. viver não é apenas sobreviver. e os prazeres da vida?

sexo é de graça. passear em um parque, nadar no oceano, ver o pôr do sol no arpoador, tudo de graça. livros, eu pego na biblioteca, leio os que já tenho, baixo em pdf. exercícios, faço em casa ou na praia. internet, uso em qualquer café, quiosque, shopping center. filmes, baixo pela internet. saúde, o estado fornece de graça, inclusive meus remédios de pressão e diabetes. arte, sempre tem peça, show, exposições gratuitas, ou quase.

(na verdade, sem ser explorador demais, dá até para comer todas as refeições na casa das pessoas amigas. henry miller, em sua fase mais pobre de autor marginal, fazia uma escala de almoço com dezenas de pessoas conhecidas. com um mínimo de quinze, que nem é tanta gente assim, já dá pra marcar de aparecer na casa de cada uma em, digamos, terças-feiras alternadas e, assim, manter o papo sempre em dia e não explorar demais nenhuma única pessoa. em troca, henry se comportava como o artista marginal divertido e interessante que esperavam que fosse. devia ser um excelente negócio para todas as pessoas envolvidas: eu com certeza alimentaria henry miller duas vezes por mês. aliás, quem quiser me convidar para jantar regularmente, eu aceito.)

não estou dizendo que essa vida é desejável ou detestável, bonita ou feia, digna ou indigna, nenhum adjetivo positivo ou negativo.

estou dizendo que é possível.

para mim, é uma grande tranquilidade saber que me sustento com mil reais.

então, se vivo e me mantenho com mil reais, sem me faltar nada de necessário, isso quer dizer que viveria muito bem (luxuosamente até) com dois mil.

na prática, esse é o número que uso. considero que minha despesa mensal é de dois mil reais e meu atual objetivo financeiro é nunca gastar mais que isso por mês.

sendo bem sincero, me sinto até rico. afinal, é o dobro dos meus gastos fixos. mil reais de lambuja.

dá pra comprar uma geladeira novinha, o imprevisto dos imprevistos, e ainda ficar dentro do orçamento. dá pra comprar aquele livro que não resisti. dá pra pegar um táxi no dia em que estou carregando peso e está chovendo. dá pra assistir peças em teatros da prefeitura, onde o ingresso nunca passa de vinte reais. dá pra sair com as amigas pra jantar no mexicano da esquina.

em suma, dá pra ser flexível na frugalidade.

o que sobra eu economizo.

porque artista mambembe de vida incerta precisa economizar cada centavo. porque ter dinheiro economizado no banco é uma das formas mais concretas de liberdade.

* * *

“Ah, Alex, viver assim é muito fácil! Na minha vida, não daria!”

Ao ler um texto como esse, muitas pessoas leitoras sentem uma ânsia irrefreável de ou apontar que a vida delas é diferente da minha (“para quem trabalha fora de casa não dá pra só gastar cem reais de transporte”, etc) ou interpelar a minha vida pessoal (“sendo dono de imóvel é fácil!”, “duvido que gaste só cem reais de luz, água, telefone!”, etc).

Mas esse texto não é sobre a minha vida. A minha vida está apenas sendo utilizada como exemplo porque é a vida de quem escreveu o texto. Naturalmente, os exemplos específicos da minha vida não vão se aplicar às vidas das pessoas leitoras.

Hoje, em 2014, sou dono de imóvel. Mas não era quando esse texto foi originalmente publicado em 2008, e muito menos nas duas vezes em que quebrei antes disso. Em 2004, por exemplo, eu e minha esposa pagávamos R$600 por um quarto e sala em Jacarepaguá, subúrbio do Rio. Em 2008, já sozinho, pagava trezentos e cinquenta dólares por um quarto em uma república de estudantes em Nova Orleans. O fato de eu ser dono ou não de um imóvel, hoje ou ontem, faz muito pouca diferença para a mensagem geral do texto.

O objetivo desse texto não é demonstrar que só dá para viver assim quem tem uma vida idêntica à minha ou que a minha vida é o máximo e todas devem me imitar. (Que texto idiota seria esse!)

O objetivo desse texto é, através dos exemplos da minha vida, tão única e singular quanto a de qualquer pessoa, transmitir um novo jeito de pensar nossas despesas e nosso consumo, nossas necessidades e nossos prazeres, para que então cada um de nós possa decidir por conta própria o que quer fazer de nossas vidas tão únicas e tão singulares.

* * *

o texto acima faz parte da prisão dinheiro, onde esses temas são explorados mais à fundo.

eu sobrevivo graças à generosidade de cerca de 350 mecenas, que fazem contribuições em dinheiro para apoiar minha produção. se meus textos são importantes para você, por favor, considere a possibilidade de contribuir também.

para saber como, visite minha página de mecenato.

conselho

hoje, uma jovem me pediu conselho de carreira.

só tenho um, dividido em três partes:

evite ao máximo trabalhar, para não ser tentada a consumir.

evite ao máximo consumir, para não precisar trabalhar.

evite ao máximo procriar, para não usar a prole como desculpa para vender sua alma ao mercado de trabalho e ao mundo de consumo, fazendo concessões que jamais faria por si mesma.

evitando essas três armadilhas, o mundo vai se abrir para você em infinitas possibilidades.

ou não.

na pior das hipóteses, sua vida vai ser muito mais simples.

aviso de ficcionalidade

Todos os meus textos são textos de ficção, escritos por um autor de ficção, que assina um nome de ficção.

Talvez crônicas ensaísticas, talvez romance pós-moderno. Talvez histórias filosóficas, talvez ensaios narrativos.

Toda e qualquer anedota aparentemente autobiográfica nos meus textos foi inventada por mim, para fortalecer ou ilustrar um argumento, e não possui relação alguma com a realidade.

A verdade raramente é verossímil. Quanto mais verdadeiras parecerem as histórias, mais mentirosas serão.

Na verdade, quase todas são reais, mas nenhuma é verdadeira. Algumas que digo que aconteceram comigo na verdade aconteceram com outras pessoas. Algumas que digo que aconteceram com outras pessoas na verdade aconteceram comigo. E vice-versa.

Para evitar que meus textos se tornassem relatos egocêntricos da minha vida, todas as anedotas autobiográficas são consistentemente contraditórias, apenas acessórios a serviço de algum argumento sendo desenvolvido.

Eu sou irrelevante.

O que importa é a mensagem, nunca o mensageiro.

O que importa são as ideias sendo expostas, não a pessoa que as está expondo.

* * *

Como escritor de ficção, parte importante do meu trabalho é mostrar às pessoas leitoras que tudo é ficção. A verdade não existe. Tem coisa mais ficcional do que o Jornal Nacional, do que um livro de História do Brasil, do que uma biografia de celebridade?

É tudo mentira. Tudo. O tempo todo. Especialmente as coisas que batem no peito pra se afirmar verdades verdadeiras.

* * *

Talvez minhas intenções sejam as piores possíveis. Talvez eu tenha escrito o oposto do que realmente penso. Talvez eu tenha sido do contra só para criar polêmica. Talvez eu tenha dito tudo o que as pessoas queriam ouvir.

E daí? Minha mentira pode ser a sua verdade. Minha ironia, seu dogma.

Você, a pessoa destinatária, é muito mais importante do que eu, a remetente. É você que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem. O meu texto vai dizer o que você disser que ele disse.

Se gosta do que escrevo, se meus textos lhe ensinam alguma coisa, se julga que minhas ideias têm algum valor, então, essa é uma verdade mais importante do que qualquer verdade sobre minha biografia ou minhas intenções.

Se não gosta, se não ensinam, se não têm valor, então a verdade sobre os detalhes da minha vida importa menos ainda.

Só o texto importa.

* * *

Alex Castro, na verdade, não existe.

Alex Castro é um mentiroso patológico: mente sobre sua vida, seus sentimentos, mente até sobre mentir. Não dá pra confiar em nada do que escreve. Principalmente sobre ele mesmo.

Alex Castro é um grande fingidor: ele mente para convencer os outros ou acredita em suas próprias fantasias?

Alex Castro é um narcisista que finge não ser? Ou finge que é o narcisista que não é?

Alex Castro não existe, mas você existe. Pode se apalpar. Se você pensa que está lendo esse texto, logo, você existe.

Alex Castro não importa, mas você importa

Alex Castro não existe, mas os minutos que você passa lendo os textos dele existem: para o bem ou para o mal, são concretos e foram perdidos para sempre.

Alex Castro não existe, mas tudo o que Alex Castro faz surgir em você, seja raiva ou desprezo, reflexão ou respeito, existe.

Não adianta tentar entortar a colher: a verdade é que a colher não existe.

É só você, o tempo todo.

“Não tente dobrar a colher. Tente apenas perceber a verdade. A colher não existe. Não é a colher que se dobra, é apenas você.”

“Não tente dobrar a colher. Tente apenas perceber a verdade. A colher não existe. Não é a colher que se dobra, é apenas você.”

* * *

Para saber a verdade sobre como fiquei assim, leia a minha bio.

Para ler mais sobre como a verdade pode ser uma prisão, leia a prisão verdade.

porque eu não debato

duty_calls

debater é uma atividade intrinsecamente narcisista, arrogante, competitiva.

eu não acho que minhas opiniões são melhores que as das outras pessoas – uma premissa básica do debate, senão não tentaríamos convencer essas pessoas de que nossas idéias estão certas e as delas, erradas.

eu não acho que cabe a mim a tarefa infindável de corrigir, iluminar, convencer as pobres pessoas que têm opiniões diferentes das minhas – pois, como minhas opiniões são as melhores, quaisquer opiniões diferentes são por definição piores, claro!

não acho saudável atividades competitivas como argumentar e contraargumentar, pegar a outra pessoa em contradições, demonstrar as falácias de seus argumentos, etc – na minha vida, prefiro atividades que não tenham vencedoras e perdedoras.

* * *

eu escrevo textos que expõem algumas das minhas ideias.

eu leio com atenção, carinho e empatia todo o feedback que recebo sobre esses textos.

e pronto.

vejo meus textos, minhas ideias, meus argumentos sendo usados em muitos debates. respeito quem faz isso.

mas prefiro só escrever os textos e, depois, ficar na minha.

* * *

algumas pessoas discordam veementemente de minhas ideias e me escrevem comentários apaixonados, cheios de argumentos, querendo me provocar ao debate.

mas não vou debater com essas pessoas, contraargumentar seus argumentos, convencê-las das minhas idéias, mostrar seus erros.

nada disso cabe a mim. respeito suas opiniões.

eu somente agradeço o feedback e pronto.

* * *

de vez em quando, algumas pessoas ficam meio chocadas com essa minha posição, e perguntam:

“mas alex, se você não debate… como você aprende?!

eu com certeza nunca aprendi nada em nenhum debate, esse ambiente hipercompetivivo onde duas ou mais pessoas ficam querendo ganhar uma questão e demonstrar o erro da outra.

em debates, as pessoas só aprendem técnicas de oratória e narcissismo avançado.

eu aprendo lendo, vivendo, experimentando. aprendo com livros, aprendo em salas de aulas, aprendo nas ruas.

mais do que tudo, eu aprendo… ouvindo!

nada me ensinou mais do que simplesmente sentar com alguém e lhe oferecer o maior presente que posso dar: minha atenção plena.

com certeza, não debatendo com ela os prós e contras de qualquer questão.

* * *

se esse assunto lhe interessa, te peço para ler os exercícios de empatia.

para quem serve o brasil?

hoje, economistas admitem que o salário mínimo é desumano e indigno, mas argumentam, com resignação, que o país iria à falência se pagasse um salário mínimo humano e digno.

ontem, cafeicultores admitiam que a escravidão era desumana e indigna, mas argumentavam, com resignação, que o país iria à falência se as lavouras fossem plantadas por pessoas assalariadas.

seja na época colonial ou no governo lula, o consenso entre as pessoas brasileiras que vivem em condições humanas e dignas é sempre o mesmo: o brasil só pode existir enquanto entidade política viável se mantiver grande parte das outras pessoas brasileiras em condições desumanas e indignas.

mas é viável uma entidade política que não consegue nem mesmo garantir condições humanas e dignas para a maioria de sua população?

nesse caso, existir para quê? existir para quem?

* * *

esse trecho faz parte do meu texto prisão patriotismo. (leia o texto inteiro aqui.)

as prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida. são as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido:

verdade // dinheiro // trabalho // privilégio // monogamia // religião // patriotismo // os outros // obediência // sucesso // felicidade // narcisismo

em junho, durante o feriadão de corpus christi, vai acontecer a segunda imersão as prisões, em uma fazenda na divisa rj-sp: vão ser quatro dias de trocar histórias, compartilhar vidas, debater perplexidades. quem comprar até 20 de fevereiro ganha r$200 de desconto. mas também rola vir de graça.

para saber mais sobre o projeto as prisões, clique aqui.

para saber mais sobre a imersão de corpus christi, clique aqui.

para acompanhar meus textos, assine meu newsletter.

exercícios de empatia

exercitar a empatia é escolher habitar a vulnerabilidade de outra pessoa.

(participe das oficinas de empatia. calendário completo e informações aqui.)

malvados, por andré dahmer

* * *

exercícios de empatia, a série completa

1. praticar um olhar generoso

2. dar-se conta das pessoas

3. ver na sua totalidade

4. ouvir com atenção plena

5. cultivar o não-conhecimento

6. exercer a não-opinião

7. não ser a constante

8. colocar-se em outra pessoa

9. escolher agir com empatia

* * *

você daria uma esmola para ele?

gostou? assine minha newsletter.

o que o faxineiro disse ao porteiro

entreouvida em copacabana:

“hoje, dona míriam, do 802, veio me dar bom-dia, perguntou meu nome, disse que era a primeira vez que me via ali… rá! primeira vez que ela repara em mim, né? porque ela me vê todo dia aqui varrendo a portaria.”

as virtudes do medo, de gavin de becker: minha mais urgente recomendação de leitura

as virtudes do medo” de gavin de becker, sobre como se prevenir contra violência, é o livro que mais presenteei na vida. já salvou minha vida e pode ser que salve a sua.

se você só aceitar uma recomendação de leitura minha, aceite essa.

vale em dobro para as mulheres, sempre expostas a violências adicionais que nós homens muitas vezes nem imaginamos.

(leia também esses dois posts da lola sobre o livro: sinais que você deve temer & medo e intuição podem salvar nos salvar de perigos.)

como a edição nacional já está esgotada faz tempo, minha querida amiga maffalda (que também teve sua vida salva por “as virtudes do medo“) escaneou o livro e converteu para vários formatos de ebook (azw, epub, mobi), tornando-o assim disponível para todas as pessoas brasileiras.

que seja então um presente e um pedido, de mim para vocês, homens e mulheres, leitoras e leitores:

por favor, leiam “as virtudes do medo“.

(ou leiam o original em inglês, “the gift of fear“.)

agradecimento público às mecenas

queridas mecenas,

esse texto é só para agradecer. mais uma vez. sempre.

vocês não imaginam o quanto eu valorizo, prezo, respeito o mecenato de vocês.

não acho trivial, não acho comum, não acho ordinário, que pessoas que eu nem conheço me contribuam dinheiro em troca…

bem, de nada, de textos que eu já dei e que já leram de graça.

não quero nunca me acostumar. não quero nunca ser a pessoa que acha normal receber esse tipo de contribuição.

penso no mecenato de vocês como um privilégio e como uma obrigação.

saber que vocês estão aí me faz ser uma pessoa melhor, um artista mais produtivo, um homem menos gastador.

eu penso:

não, não posso chutar o balde, não posso passar o mês só lendo game of thrones, não posso fazer aquela extravagância financeira.

não é para isso que essas 280 mecenas me sustentam.

eu tenho obrigação de ser essa pessoa que elas acham que eu sou.

e, talvez, quem sabe, na prática diária, um dia eu venha a ser.

vocês me ajudam muito, muito mais do que imaginam. (a ajuda financeira é a menor delas.)

e sou grato, muito grato.

* * *

você daria uma esmola para ele?

para também contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

distópicas e luditas

de repente, na rua, alguém fala comigo.

abro a boca para responder…

e a pessoa passa por mim como se eu fosse um fantasma:

estava apenas falando em seu fone bluetooth, totalmente imersa em seus próprios problemas, tratando a rua pública como se fosse uma esteira rolante por onde desliza fantasmagoricamente, sem estar realmente presente, enquanto resolve suas questões virtuais com pessoas virtuais através de uma tecnologia virtual.

errado sou eu de achar que a rua é um espaço público para interação concreta entre pessoas de carne e osso.

* * *

infelizmente, não aprendo. meus instintos ainda são totalmente antiquados, completamente século XIX:

sempre levanto os olhos otimista, achando que estão falando comigo, achando que estou prestes a embarcar em mais uma interação humana…

sempre abaixo os olhos cabisbaixo, sem conseguir reprimir uma inexplicável pontada de desamor e solidão.

* * *

outro dia, em copacabana, aconteceu de novo.

levantei os olhos para o moço, mas ele não estava falando comigo.

entretanto, pasmem!, conferi uma orelha, verifiquei a outra: nenhum fone!

era um maluco à moda antiga, falando sozinho pelas esquinas do bairro.

ninguém entende, mas aquilo me trouxe tanta esperança.

elogio aos cães

os cães foram criados pela humanidade, à nossa imagem e semelhança, tão variados entre si como são variadas as pessoas humanas e suas sociedades.

e são talvez nossa melhor, mais nobre criação.

se algum dia a humanidade desaparecer, que seja julgada não por suas bombas atômicas ou obras de arte, mas por essa criação magnífica e transcendental, coletiva e cumulativa, generosa mas interessada, verdadeiramente atemporal e transcultural: o cachorro.

se sumíssemos todas as pessoas, os cachorros seriam a melhor coisa que deixaríamos pra trás.

só que não aceitariam ser deixados para trás: viram junto conosco até o fim, se preciso.

trilhos do trem em nova orleans

oliver nos trilhos do trem, em nova orleans.

* * *

“eu sou a lenda“, com will smith, é um filme ruim baseado em um livro bom, mas vale pelo cachorro.

sozinhos em um mundo pós-apocalíptico, temos uma relação homem-cachorro paradigmática: acordam juntos, caçam juntos, dormem juntos – como tem de ser, em perfeita sintonia.

é a própria essência do companheirismo, uma relação tão primordial que chega a ser atemporal e transcultural: há 10 mil anos, um aborígine africano e seu cão, o que haveria de diferente?

resgata pós-katrina (2)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

* * *

algumas pessoas gostam de se perguntar: “o que jesus faria numa hora dessas?”

eu sempre me pergunto: “o que meu cachorro faria numa hora dessas?”

meu cão, oliver, foi encontrado na favela de rio das pedras em março de 2003. estamos juntos há quase doze anos. enfrentamos o furacão katrina. atravessamos os eua fugindo do furacão gustav. Viajamos o mundo, de carro e barco, trem e avião. vivemos aventuras mais inacreditáveis que tintim e milu. ao longo desses doze anos de vida pública na internet, esse cachorro sem-vergonha amealhou uma legião de fãs.

tantos cachorros se traumatizaram com o katrina, mas oliver continuou tranquilo. adora crianças e tem infinita paciência com tapas na cara e puxadas de bigode. anda pela rua olhando pra cima, fazendo contato visual com todas as pessoas. Éé amigo de todos os cachorros que encontra. não possui objetos que defende com rosnados possessivos. recebe bem todas os muitos invasores em potencial que aparecem na minha casa.

é um cachorro do bem.

oliver & alex na rede

ler na rede com o oliver, minha coisa preferida da  vida.

* * *

sempre que a vida fica pesada, confusa, complicada, eu tento me colocar no lugar do oliver. ver o mundo através das suas prioridades.

o oliver não liga pra dinheiro, prestígio, fama, respeito, vaidade. não tem medo da morte. não fica se admirando no espelho. não deixa seus fãs lhe subirem à cabeça. não tem apego a nenhum objeto. não faz ego search no twitter.

o oliver gosta de comer e de beber. de transar e de lamber pé. de correr e de brincar. de ficar imóvel ao sol por horas a fio. de entrar pulando no mar. de deitar juntinho de quem ele gosta. de seduzir as pessoas com seu olhar doce e sacana.

não é um cachorro perfeito, claro. tem medo de fogos de artifício, não gosta de motoqueiros e, mais do que tudo, não suporta não ser o centro das atenções.

na televisão

estrela da televisão.

* * *

pratico zen.

todo dia, no templo ou em casa, sento em uma almofada redonda e fico voltado para a parede, imóvel, por muitos minutos.

em nova orleans, em uma casa de vários quartos, eu me fechava em um dos aposentos vazios. agora, em copacabana, moro em um quitinete de um só ambiente.

medito junto com o oliver. e ele não tolera. como assim eu não vou dar atenção para ele? nada disso.

oliver rosna. oliver grita. oliver puxa a minha camisa. oliver lambe a minha cara.

e fico lá, imóvel, não coçando a coceira, lembrando as últimas palavras do mestre hakuin:

“meditar no meio da ação é milhões de vezes superior a meditar em meio à placidez.”

obrigado, oliver.

aturando crianças

aturando uma criancinha com toda a paciência do mundo. :)

* * *

perdi minhas maiores batalhas. tentei ser empresário e quebrei. tentei salvar meu casamento e falhei. ainda tento ter uma carreira literária e nada.

e, ainda assim, a pior noite da minha vida foi passada no aeroporto de detroit, véspera do katrina, dormindo sozinho no chão e chorando convulsivamente pelo amigo e companheiro que trouxera comigo do brasil e não conseguira salvar do pior furacão de todos os tempos.

nada nunca chegou perto do que senti essa noite.

na neve em nova orleans

na neve, em nova orleans.

* * *

oliver se recusa a revelar a idade, mas já está velhinho. está comigo há 12 anos e já era adulto quando nos conhecemos.

na semana passada, ele chegou na veterinária com uma leve anemia e uma pequena infecção, mas foi tratado por uma semana inteira… para dor nas costas. e sempre piorando! resultado: uma semana depois, a anemia e a infecção estavam descontroladas!

quarta de manhã, quando o levei em outro veterinário, não conseguia nem ficar de pé.

estava com uma infecção, forte anemia, plaquetas baixíssimas, um terço do volume de sangue.

na quinta, teve quase todo o seu sangue trocado pelo de uma rotweiler fêmea de três anos chamada bones.

depois da dose maciça de sangue de rotweiler, ele já está querendo enfrentar um novo furacão.

agora, vai se recuperando mas ainda está internado.

internado (2)

internado, dezembro de 2014.

* * *

não quero que o oliver viva pra sempre, nem vou tentar estender a existência dele além da sua qualidade de vida. só o que quero mesmo é poder passar 2015 grudado nele, me despedindo, curtindo, e compensando as muitas viagens que fiz em 2013 e 2014.

e ainda existem outras questões. em um mundo tão desigual, com tantas crianças passando fome, o quão ético é gastar fortunas para salvar a vida de um cachorro idoso, especialmente um que já viveu mais aventuras e já viu mais do mundo do que a maioria dos cachorros?

não tenho uma resposta para essa questão, mas estou com ela sempre em mente.

a conta das últimas duas semanas está em quatro mil reais e, se não fossem as pessoas que estão me ajudando financeiramente, não sei onde eu estaria.

mas… qual é o limite?

(aliás, muito, muito obrigado mesmo a todo mundo que ajudou. para ajudar também, clique aqui.)

internado (1)

internado, dezembro de 2014.

* * *

ter um cão significa não apenas uma lição diária sobre os verdadeiros prazeres da existência (afinal, o que são dinheiro e prestígio perto de correr ao sol e lamber quem se ama?), mas também sobre o inevitável ciclo da vida.

ter cachorro é aprender que a nossa juventude acaba mais rápido do que imaginamos e que logo atrás vem a velhice, a decadência física e a morte.

e ter cachorro também, por outro lado, é aprender que a morte pode e deve ser encarada com naturalidade e tranquilidade, com força e com estoicismo.

nessa minha vida cinófila, já perdi três grandes amigos: dolly, 1977-1989, júnior, 1990-1992, átila, 1993-2002. oliver, companheiro atual, de idade desconhecida, está comigo desde março de 2003, quando já era adulto. apareceu em minha vida no mesmo mês em que criei o lll, o blog que mudou minha vida. simbólico?

átila morreu depois de uma semana de esforços frenéticos para salvá-lo. não o deixamos sozinho nem por um instante. quando finalmente morreu, minha irmã e eu dormimos abraçados ao seu corpo. sentimos o rigor mortis progressivamente ir e vir. no dia seguinte, o enterramos debaixo das flores que ele gostava de cheirar toda manhã. entre as flores, minha mãe colocou uma plaquinha: “canto do átila”.

nenhum herói de filme teve morte mais digna, nenhum guerreiro valente foi mais bravo do que esses três animais ao encararem a própria morte. quem me dera ter essa força, essa tranquilidade, essa segurança.

quem me dera ter um cachorro pra me lamber a mão enquanto morro.

quem me dera ter uma pessoa querida para cuidar dele com amor e carinho depois disso.

internado (3)

internado, dezembro de 2014

* * *

odeio textos piegas. escrevo muitos. quase sempre, tenho a sabedoria de não mostrá-los a ninguém. com uma exceção: textos piegas sobre cachorros. quando falo de cachorros, eu viro uma manteiga derretida sem vergonha alguma.

* * *

mais fotos

resgata pós-katrina (4)

resgata pós-katrina (3)

resgata pós-katrina (1)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

* * *

rapper

rapper.

* * *

pronto para a viagem

embarcando.

* * *

por do sol

pôr-do-sol.

* * *

papo reto

papo reto.

* * *

oliver & co em são francisco

oliver & co, em são francisco.

* * *

observando as ruas de nova orleans

observando as ruas de nova orleans.

* * *

no seu puff

no seu puff preferido, na casa da sônia.

* * *

no metrô do rio de janeiro

no metrô do rio de janeiro.

* * *

natalino

ho-ho-ho!

* * *

lendo mulher de um homem só

no lançamento de mulher de um homem só.

* * *

lagoas da barra da tijuca

lagoas da barra da tijuca.

* * *

grafitti pós-katrina em nova orleans

grafitti pós-katrina em nova orleans.

* * *

enxerido

enxerido.

* * *

em ubatuba

em ubatuba.

* * *

em paraty

em paraty.

* * *

close up

tímido.

* * *

chegando em nova iorque durante furacão gustav

em newark, new jersey, chegando em nova iorque, fugindo do furacão gustav.

* * *

caminha bang & olufsen

ninguém acredita quando digo que o oliver já teve uma cama bang & olufsen.

* * *

remando com o oliver na baía de guanabara

remando na baía de guanabara.

* * *

oliver faleceu no dia 17 de dezembro de 2014.