as prisões

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aviso de ficcionalidade

Todos os meus textos são textos de ficção, escritos por um autor de ficção, que assina um nome de ficção.

Talvez crônicas ensaísticas, talvez romance pós-moderno. Talvez histórias filosóficas, talvez ensaios narrativos.

Toda e qualquer anedota aparentemente autobiográfica nos meus textos foi inventada por mim, para fortalecer ou ilustrar um argumento, e não possui relação alguma com a realidade.

A verdade raramente é verossímil. Quanto mais verdadeiras parecerem as histórias, mais mentirosas serão.

Na verdade, quase todas são reais, mas nenhuma é verdadeira. Algumas que digo que aconteceram comigo na verdade aconteceram com outras pessoas. Algumas que digo que aconteceram com outras pessoas na verdade aconteceram comigo. E vice-versa.

Para evitar que meus textos se tornassem relatos egocêntricos da minha vida, todas as anedotas autobiográficas são consistentemente contraditórias, apenas acessórios a serviço de algum argumento sendo desenvolvido.

Eu sou irrelevante.

O que importa é a mensagem, nunca o mensageiro.

O que importa são as ideias sendo expostas, não a pessoa que as está expondo.

* * *

Como escritor de ficção, parte importante do meu trabalho é mostrar às pessoas leitoras que tudo é ficção. A verdade não existe. Tem coisa mais ficcional do que o Jornal Nacional, do que um livro de História do Brasil, do que uma biografia de celebridade?

É tudo mentira. Tudo. O tempo todo. Especialmente as coisas que batem no peito pra se afirmar verdades verdadeiras.

* * *

Talvez minhas intenções sejam as piores possíveis. Talvez eu tenha escrito o oposto do que realmente penso. Talvez eu tenha sido do contra só para criar polêmica. Talvez eu tenha dito tudo o que as pessoas queriam ouvir.

E daí? Minha mentira pode ser a sua verdade. Minha ironia, seu dogma.

Você, a pessoa destinatária, é muito mais importante do que eu, a remetente. É você que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem. O meu texto vai dizer o que você disser que ele disse.

Se gosta do que escrevo, se meus textos lhe ensinam alguma coisa, se julga que minhas ideias têm algum valor, então, essa é uma verdade mais importante do que qualquer verdade sobre minha biografia ou minhas intenções.

Se não gosta, se não ensinam, se não têm valor, então a verdade sobre os detalhes da minha vida importa menos ainda.

Só o texto importa.

* * *

Alex Castro, na verdade, não existe.

Alex Castro é um mentiroso patológico: mente sobre sua vida, seus sentimentos, mente até sobre mentir. Não dá pra confiar em nada do que escreve. Principalmente sobre ele mesmo.

Alex Castro é um grande fingidor: ele mente para convencer os outros ou acredita em suas próprias fantasias?

Alex Castro é um narcisista que finge não ser? Ou finge que é o narcisista que não é?

Alex Castro não existe, mas você existe. Pode se apalpar. Se você pensa que está lendo esse texto, logo, você existe.

Alex Castro não importa, mas você importa

Alex Castro não existe, mas os minutos que você passa lendo os textos dele existem: para o bem ou para o mal, são concretos e foram perdidos para sempre.

Alex Castro não existe, mas tudo o que Alex Castro faz surgir em você, seja raiva ou desprezo, reflexão ou respeito, existe.

Não adianta tentar entortar a colher: a verdade é que a colher não existe.

É só você, o tempo todo.

“Não tente dobrar a colher. Tente apenas perceber a verdade. A colher não existe. Não é a colher que se dobra, é apenas você.”

“Não tente dobrar a colher. Tente apenas perceber a verdade. A colher não existe. Não é a colher que se dobra, é apenas você.”

* * *

Para saber a verdade sobre como fiquei assim, leia a minha bio.

Para ler mais sobre como a verdade pode ser uma prisão, leia a prisão verdade.

porque eu não debato

duty_calls

debater é uma atividade intrinsecamente narcisista, arrogante, competitiva.

eu não acho que minhas opiniões são melhores que as das outras pessoas – uma premissa básica do debate, senão não tentaríamos convencer essas pessoas de que nossas idéias estão certas e as delas, erradas.

eu não acho que cabe a mim a tarefa infindável de corrigir, iluminar, convencer as pobres pessoas que têm opiniões diferentes das minhas – pois, como minhas opiniões são as melhores, quaisquer opiniões diferentes são por definição piores, claro!

não acho saudável atividades competitivas como argumentar e contraargumentar, pegar a outra pessoa em contradições, demonstrar as falácias de seus argumentos, etc – na minha vida, prefiro atividades que não tenham vencedoras e perdedoras.

* * *

eu escrevo textos que expõem algumas das minhas ideias.

eu leio com atenção, carinho e empatia todo o feedback que recebo sobre esses textos.

e pronto.

vejo meus textos, minhas ideias, meus argumentos sendo usados em muitos debates. respeito quem faz isso.

mas prefiro só escrever os textos e, depois, ficar na minha.

* * *

algumas pessoas discordam veementemente de minhas ideias e me escrevem comentários apaixonados, cheios de argumentos, querendo me provocar ao debate.

mas não vou debater com essas pessoas, contraargumentar seus argumentos, convencê-las das minhas idéias, mostrar seus erros.

nada disso cabe a mim. respeito suas opiniões.

eu somente agradeço o feedback e pronto.

* * *

de vez em quando, algumas pessoas ficam meio chocadas com essa minha posição, e perguntam:

“mas alex, se você não debate… como você aprende?!

eu com certeza nunca aprendi nada em nenhum debate, esse ambiente hipercompetivivo onde duas ou mais pessoas ficam querendo ganhar uma questão e demonstrar o erro da outra.

em debates, as pessoas só aprendem técnicas de oratória e narcissismo avançado.

eu aprendo lendo, vivendo, experimentando. aprendo com livros, aprendo em salas de aulas, aprendo nas ruas.

mais do que tudo, eu aprendo… ouvindo!

nada me ensinou mais do que simplesmente sentar com alguém e lhe oferecer o maior presente que posso dar: minha atenção plena.

com certeza, não debatendo com ela os prós e contras de qualquer questão.

* * *

se esse assunto lhe interessa, te peço para ler os exercícios de empatia.

para quem serve o brasil?

hoje, economistas admitem que o salário mínimo é desumano e indigno, mas argumentam, com resignação, que o país iria à falência se pagasse um salário mínimo humano e digno.

ontem, cafeicultores admitiam que a escravidão era desumana e indigna, mas argumentavam, com resignação, que o país iria à falência se as lavouras fossem plantadas por pessoas assalariadas.

seja na época colonial ou no governo lula, o consenso entre as pessoas brasileiras que vivem em condições humanas e dignas é sempre o mesmo: o brasil só pode existir enquanto entidade política viável se mantiver grande parte das outras pessoas brasileiras em condições desumanas e indignas.

mas é viável uma entidade política que não consegue nem mesmo garantir condições humanas e dignas para a maioria de sua população?

nesse caso, existir para quê? existir para quem?

* * *

esse trecho faz parte do meu texto prisão patriotismo. (leia o texto inteiro aqui.)

as prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida. são as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido:

verdade // dinheiro // trabalho // privilégio // monogamia // religião // patriotismo // os outros // obediência // sucesso // felicidade // narcisismo

em junho, durante o feriadão de corpus christi, vai acontecer a segunda imersão as prisões, em uma fazenda na divisa rj-sp: vão ser quatro dias de trocar histórias, compartilhar vidas, debater perplexidades. quem comprar até 20 de fevereiro ganha r$200 de desconto. mas também rola vir de graça.

para saber mais sobre o projeto as prisões, clique aqui.

para saber mais sobre a imersão de corpus christi, clique aqui.

para acompanhar meus textos, assine meu newsletter.

exercícios de empatia

exercitar a empatia é escolher habitar a vulnerabilidade de outra pessoa.

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exercícios de empatia, a série completa

1. praticar um olhar generoso

2. dar-se conta das pessoas

3. ver na sua totalidade

4. ouvir com atenção plena

5. cultivar o não-conhecimento

6. exercer a não-opinião

7. adaptar-se ao meio (em março/15)

8. colocar-se em outra pessoa (em abril/15)

9. fingir o não-narcisismo (em maio/15)

* * *

você daria uma esmola para ele?

para receber os próximos exercícios a medida em que forem sendo publicados, assine minha newsletter.

o que o faxineiro disse ao porteiro

entreouvida em copacabana:

“hoje, dona míriam, do 802, veio me dar bom-dia, perguntou meu nome, disse que era a primeira vez que me via ali… rá! primeira vez que ela repara em mim, né? porque ela me vê todo dia aqui varrendo a portaria.”

as virtudes do medo, de gavin de becker: minha mais urgente recomendação de leitura

as virtudes do medo” de gavin de becker, sobre como se prevenir contra violência, é o livro que mais presenteei na vida. já salvou minha vida e pode ser que salve a sua.

se você só aceitar uma recomendação de leitura minha, aceite essa.

vale em dobro para as mulheres, sempre expostas a violências adicionais que nós homens muitas vezes nem imaginamos.

(leia também esses dois posts da lola sobre o livro: sinais que você deve temer & medo e intuição podem salvar nos salvar de perigos.)

como a edição nacional já está esgotada faz tempo, minha querida amiga maffalda (que também teve sua vida salva por “as virtudes do medo“) escaneou o livro e converteu para vários formatos de ebook (azw, epub, mobi), tornando-o assim disponível para todas as pessoas brasileiras.

que seja então um presente e um pedido, de mim para vocês, homens e mulheres, leitoras e leitores:

por favor, leiam “as virtudes do medo“.

(ou leiam o original em inglês, “the gift of fear“.)

agradecimento público às mecenas

queridas mecenas,

esse texto é só para agradecer. mais uma vez. sempre.

vocês não imaginam o quanto eu valorizo, prezo, respeito o mecenato de vocês.

não acho trivial, não acho comum, não acho ordinário, que pessoas que eu nem conheço me contribuam dinheiro em troca…

bem, de nada, de textos que eu já dei e que já leram de graça.

não quero nunca me acostumar. não quero nunca ser a pessoa que acha normal receber esse tipo de contribuição.

penso no mecenato de vocês como um privilégio e como uma obrigação.

saber que vocês estão aí me faz ser uma pessoa melhor, um artista mais produtivo, um homem menos gastador.

eu penso:

não, não posso chutar o balde, não posso passar o mês só lendo game of thrones, não posso fazer aquela extravagância financeira.

não é para isso que essas 280 mecenas me sustentam.

eu tenho obrigação de ser essa pessoa que elas acham que eu sou.

e, talvez, quem sabe, na prática diária, um dia eu venha a ser.

vocês me ajudam muito, muito mais do que imaginam. (a ajuda financeira é a menor delas.)

e sou grato, muito grato.

* * *

você daria uma esmola para ele?

para também contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

distópicas e luditas

de repente, na rua, alguém fala comigo.

abro a boca para responder…

e a pessoa passa por mim como se eu fosse um fantasma:

estava apenas falando em seu fone bluetooth, totalmente imersa em seus próprios problemas, tratando a rua pública como se fosse uma esteira rolante por onde desliza fantasmagoricamente, sem estar realmente presente, enquanto resolve suas questões virtuais com pessoas virtuais através de uma tecnologia virtual.

errado sou eu de achar que a rua é um espaço público para interação concreta entre pessoas de carne e osso.

* * *

infelizmente, não aprendo. meus instintos ainda são totalmente antiquados, completamente século XIX:

sempre levanto os olhos otimista, achando que estão falando comigo, achando que estou prestes a embarcar em mais uma interação humana…

sempre abaixo os olhos cabisbaixo, sem conseguir reprimir uma inexplicável pontada de desamor e solidão.

* * *

outro dia, em copacabana, aconteceu de novo.

levantei os olhos para o moço, mas ele não estava falando comigo.

entretanto, pasmem!, conferi uma orelha, verifiquei a outra: nenhum fone!

era um maluco à moda antiga, falando sozinho pelas esquinas do bairro.

ninguém entende, mas aquilo me trouxe tanta esperança.

elogio aos cães

os cães foram criados pela humanidade, à nossa imagem e semelhança, tão variados entre si como são variadas as pessoas humanas e suas sociedades.

e são talvez nossa melhor, mais nobre criação.

se algum dia a humanidade desaparecer, que seja julgada não por suas bombas atômicas ou obras de arte, mas por essa criação magnífica e transcendental, coletiva e cumulativa, generosa mas interessada, verdadeiramente atemporal e transcultural: o cachorro.

se sumíssemos todas as pessoas, os cachorros seriam a melhor coisa que deixaríamos pra trás.

só que não aceitariam ser deixados para trás: viram junto conosco até o fim, se preciso.

trilhos do trem em nova orleans

oliver nos trilhos do trem, em nova orleans.

* * *

“eu sou a lenda“, com will smith, é um filme ruim baseado em um livro bom, mas vale pelo cachorro.

sozinhos em um mundo pós-apocalíptico, temos uma relação homem-cachorro paradigmática: acordam juntos, caçam juntos, dormem juntos – como tem de ser, em perfeita sintonia.

é a própria essência do companheirismo, uma relação tão primordial que chega a ser atemporal e transcultural: há 10 mil anos, um aborígine africano e seu cão, o que haveria de diferente?

resgata pós-katrina (2)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

* * *

algumas pessoas gostam de se perguntar: “o que jesus faria numa hora dessas?”

eu sempre me pergunto: “o que meu cachorro faria numa hora dessas?”

meu cão, oliver, foi encontrado na favela de rio das pedras em março de 2003. estamos juntos há quase doze anos. enfrentamos o furacão katrina. atravessamos os eua fugindo do furacão gustav. Viajamos o mundo, de carro e barco, trem e avião. vivemos aventuras mais inacreditáveis que tintim e milu. ao longo desses doze anos de vida pública na internet, esse cachorro sem-vergonha amealhou uma legião de fãs.

tantos cachorros se traumatizaram com o katrina, mas oliver continuou tranquilo. adora crianças e tem infinita paciência com tapas na cara e puxadas de bigode. anda pela rua olhando pra cima, fazendo contato visual com todas as pessoas. Éé amigo de todos os cachorros que encontra. não possui objetos que defende com rosnados possessivos. recebe bem todas os muitos invasores em potencial que aparecem na minha casa.

é um cachorro do bem.

oliver & alex na rede

ler na rede com o oliver, minha coisa preferida da  vida.

* * *

sempre que a vida fica pesada, confusa, complicada, eu tento me colocar no lugar do oliver. ver o mundo através das suas prioridades.

o oliver não liga pra dinheiro, prestígio, fama, respeito, vaidade. não tem medo da morte. não fica se admirando no espelho. não deixa seus fãs lhe subirem à cabeça. não tem apego a nenhum objeto. não faz ego search no twitter.

o oliver gosta de comer e de beber. de transar e de lamber pé. de correr e de brincar. de ficar imóvel ao sol por horas a fio. de entrar pulando no mar. de deitar juntinho de quem ele gosta. de seduzir as pessoas com seu olhar doce e sacana.

não é um cachorro perfeito, claro. tem medo de fogos de artifício, não gosta de motoqueiros e, mais do que tudo, não suporta não ser o centro das atenções.

na televisão

estrela da televisão.

* * *

pratico zen.

todo dia, no templo ou em casa, sento em uma almofada redonda e fico voltado para a parede, imóvel, por muitos minutos.

em nova orleans, em uma casa de vários quartos, eu me fechava em um dos aposentos vazios. agora, em copacabana, moro em um quitinete de um só ambiente.

medito junto com o oliver. e ele não tolera. como assim eu não vou dar atenção para ele? nada disso.

oliver rosna. oliver grita. oliver puxa a minha camisa. oliver lambe a minha cara.

e fico lá, imóvel, não coçando a coceira, lembrando as últimas palavras do mestre hakuin:

“meditar no meio da ação é milhões de vezes superior a meditar em meio à placidez.”

obrigado, oliver.

aturando crianças

aturando uma criancinha com toda a paciência do mundo. :)

* * *

perdi minhas maiores batalhas. tentei ser empresário e quebrei. tentei salvar meu casamento e falhei. ainda tento ter uma carreira literária e nada.

e, ainda assim, a pior noite da minha vida foi passada no aeroporto de detroit, véspera do katrina, dormindo sozinho no chão e chorando convulsivamente pelo amigo e companheiro que trouxera comigo do brasil e não conseguira salvar do pior furacão de todos os tempos.

nada nunca chegou perto do que senti essa noite.

na neve em nova orleans

na neve, em nova orleans.

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oliver se recusa a revelar a idade, mas já está velhinho. está comigo há 12 anos e já era adulto quando nos conhecemos.

na semana passada, ele chegou na veterinária com uma leve anemia e uma pequena infecção, mas foi tratado por uma semana inteira… para dor nas costas. e sempre piorando! resultado: uma semana depois, a anemia e a infecção estavam descontroladas!

quarta de manhã, quando o levei em outro veterinário, não conseguia nem ficar de pé.

estava com uma infecção, forte anemia, plaquetas baixíssimas, um terço do volume de sangue.

na quinta, teve quase todo o seu sangue trocado pelo de uma rotweiler fêmea de três anos chamada bones.

depois da dose maciça de sangue de rotweiler, ele já está querendo enfrentar um novo furacão.

agora, vai se recuperando mas ainda está internado.

internado (2)

internado, dezembro de 2014.

* * *

não quero que o oliver viva pra sempre, nem vou tentar estender a existência dele além da sua qualidade de vida. só o que quero mesmo é poder passar 2015 grudado nele, me despedindo, curtindo, e compensando as muitas viagens que fiz em 2013 e 2014.

e ainda existem outras questões. em um mundo tão desigual, com tantas crianças passando fome, o quão ético é gastar fortunas para salvar a vida de um cachorro idoso, especialmente um que já viveu mais aventuras e já viu mais do mundo do que a maioria dos cachorros?

não tenho uma resposta para essa questão, mas estou com ela sempre em mente.

a conta das últimas duas semanas está em quatro mil reais e, se não fossem as pessoas que estão me ajudando financeiramente, não sei onde eu estaria.

mas… qual é o limite?

(aliás, muito, muito obrigado mesmo a todo mundo que ajudou. para ajudar também, clique aqui.)

internado (1)

internado, dezembro de 2014.

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ter um cão significa não apenas uma lição diária sobre os verdadeiros prazeres da existência (afinal, o que são dinheiro e prestígio perto de correr ao sol e lamber quem se ama?), mas também sobre o inevitável ciclo da vida.

ter cachorro é aprender que a nossa juventude acaba mais rápido do que imaginamos e que logo atrás vem a velhice, a decadência física e a morte.

e ter cachorro também, por outro lado, é aprender que a morte pode e deve ser encarada com naturalidade e tranquilidade, com força e com estoicismo.

nessa minha vida cinófila, já perdi três grandes amigos: dolly, 1977-1989, júnior, 1990-1992, átila, 1993-2002. oliver, companheiro atual, de idade desconhecida, está comigo desde março de 2003, quando já era adulto. apareceu em minha vida no mesmo mês em que criei o lll, o blog que mudou minha vida. simbólico?

átila morreu depois de uma semana de esforços frenéticos para salvá-lo. não o deixamos sozinho nem por um instante. quando finalmente morreu, minha irmã e eu dormimos abraçados ao seu corpo. sentimos o rigor mortis progressivamente ir e vir. no dia seguinte, o enterramos debaixo das flores que ele gostava de cheirar toda manhã. entre as flores, minha mãe colocou uma plaquinha: “canto do átila”.

nenhum herói de filme teve morte mais digna, nenhum guerreiro valente foi mais bravo do que esses três animais ao encararem a própria morte. quem me dera ter essa força, essa tranquilidade, essa segurança.

quem me dera ter um cachorro pra me lamber a mão enquanto morro.

quem me dera ter uma pessoa querida para cuidar dele com amor e carinho depois disso.

internado (3)

internado, dezembro de 2014

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odeio textos piegas. escrevo muitos. quase sempre, tenho a sabedoria de não mostrá-los a ninguém. com uma exceção: textos piegas sobre cachorros. quando falo de cachorros, eu viro uma manteiga derretida sem vergonha alguma.

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mais fotos

resgata pós-katrina (4)

resgata pós-katrina (3)

resgata pós-katrina (1)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

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rapper

rapper.

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pronto para a viagem

embarcando.

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por do sol

pôr-do-sol.

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papo reto

papo reto.

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oliver & co em são francisco

oliver & co, em são francisco.

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observando as ruas de nova orleans

observando as ruas de nova orleans.

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no seu puff

no seu puff preferido, na casa da sônia.

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no metrô do rio de janeiro

no metrô do rio de janeiro.

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natalino

ho-ho-ho!

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lendo mulher de um homem só

no lançamento de mulher de um homem só.

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lagoas da barra da tijuca

lagoas da barra da tijuca.

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grafitti pós-katrina em nova orleans

grafitti pós-katrina em nova orleans.

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enxerido

enxerido.

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em ubatuba

em ubatuba.

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em paraty

em paraty.

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close up

tímido.

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chegando em nova iorque durante furacão gustav

em newark, new jersey, chegando em nova iorque, fugindo do furacão gustav.

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caminha bang & olufsen

ninguém acredita quando digo que o oliver já teve uma cama bang & olufsen.

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remando com o oliver na baía de guanabara

remando na baía de guanabara.

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oliver faleceu no dia 17 de dezembro de 2014.

zen

alguns pensamentos esparsos sobre a prática zen.

Aqui existe o vazio

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ontem ao assinar o livro de visitas do templo que frequento, escrevi “alex castro”.

alguns minutos depois, quando outro praticante olhou ali o meu nome e me chamou de “alex”, me bateu um estranhamento.

como se fosse esquisito ser chamado pelo meu nome-fantasia em um templo onde faço votos, entre outros, que a realidade é ilimitada e que devemos percebê-la.

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o que há em um nome?

o nome alex castro nasceu em 2005.

nos primeiros anos, ainda havia uma distinção clara entre as duas identidades: só me chamava de “alex” quem tinha me conhecido pela internet.

mas, nos cadastros de loja, nos sites de compras, no ex-libris dos livros que comprava, eu ainda assinava com o outro nome.

agora, já se vão lá quase dez anos de “alex castro” e ele claramente tomou conta.

até minha companheira me chama de “alex”.

(o pedro dória escreveu  uma coluna sobre a minha mudança de nome para a folha. não dá pra saber com certeza se ele está zoando de mim ou não.)

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sempre que menciono essa história, alguém pergunta:

“mas qual é seu nome verdadeiro?”

e me parece uma pergunta tão estranha!

ora, todos os meus nomes são verdadeiros. como não seriam?

mas, se você colocasse uma arma da minha cabeça e me mandasse escolher um, com certeza o meu nome mais verdadeiro, entre tantos nomes pelos quais respondo, é o nome que eu mesmo inventei, que eu mesmo me dei, o nome que a maioria das pessoas que me conhece associa a mim.

alex castro. muito prazer.

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samsara

comecei a praticar o caminho no templo zen de nova orleans (nozt.org) e agora pratico no templo zen de copacabana (sanghazen.com.br), dois lugares fortemente associados a putaria, sexo e turismo sexual.

isso deve querer dizer alguma coisa. não sei bem o quê.

como disse uma moça nas últimas prisões, fazer ecovila de permacultura na serra da mantiqueira é fácil: quero ver fazer na avenida brasil!

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o veneno e o antídoto

promovo os encontros “as prisões” porque eles ajudam alguns seres e porque são uma maneira digna e decente de ganhar a vida.

mas, pessoalmente, eles me fazem um certo mal.

meu principal projeto de vida hoje é o não-ego. sair de mim. ser menos auto-centrado.

e passar todo fim de semana cercado de pessoas que me admiram e, muitas vezes, viajaram longe e pagaram caro para estar comigo, só atrapalha.

encaro esses ossos-do-ofício como o meu atual desafio: promover o encontro “as prisões” sem deixar que ele me suba à cabeça.

para isso, a prática diária do zen é fundamental.

no templo, ninguém sabe quem eu sou, ninguém liga pra mim, ninguém leu meus textos, ninguém quer saber o que tenho a dizer. eu chego, sento, quebro o pão, varro o quintal, vou embora.

ontem, passei vários e vários longos minutos limpando cocô de passarinho do corrimão da escada externa.

e foi bom.

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recomendações de leitura

sempre deixando claro que eu não sei nada sobre zen e não tenho autoridade alguma para me manifestar publicamente sobre zen, esses são os livros básicos e introdutórios que estão disponíveis em português e me ajudaram nos primeiros passos no caminho.

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zen em quadrinhos, tsai chih chung

um dia, uma namorada me deu esse livrinho pra ler, dizendo que muitas dessas histórias pareciam com o meu “jeito”.

esse livro não é trivial. ele é uma quadrinização de alguns dos koans mais importantes do zen. (koan: uma narrativa que contém elementos inacessíveis à razão.)

abaixo, alguns dos meus preferidos.

leia o livro online, gratuitamente.

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introdução ao zen-budismo, d. t. suzuki

depois disso, curioso, comecei a procurar mais e caí nos livros de d. t suzuki, em especial esse introdução ao zen budismo.

suzuki, um japonês leigo que escrevia em inglês, foi o grande introdutor e popularizador do zen no ocidente.

muitos estudiosos consideram que suzuki não só está superado como que distorceu muito do zen para torná-lo mais palatável à sensibilidade ocidental.

mas a verdade é que funcionou: para mim e para muitos, muitos ocidentais, suzuki foi quem nos interessou, empolgou, fisgou para o zen.

linksverbete na wikipedia // pdf em inglês // em português, na saraiva // em inglês, na amazon

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budismo sem crenças, stephen batchelor

suzuki me atiçou o interesse intelectual e comecei a ler mais sobre zen.

naturalmente, ler sobre zen e nada é a mesma coisa. “interesse intelectual” é um outro modo de dizer “capricho intelectual”.

o zen é uma prática.

quem me fez finalmente começar a praticar foi esse livro.

embasado por uma leitura rigorosa dos sutras, batchelor propõe que não é preciso ser religioso, místico ou deísta para praticar o caminho.

para ele, o caminho é agnóstico.

(sutra: escrituras canônicas que são tratadas como registros dos ensinamentos orais de buda gautama.)

naturalmente, as ideias de batchelor são radicais e polêmicas, especialmente entre as muitas e muitas pessoas que consideram o caminho sua religião.

batchelor é polêmico mas respeitado. questionam suas ideias mas o levam a sério. em outras palavras, sua interpretação do caminho é viável e válida.

e, assim, satisfeito que eu não estaria me tornando uma pessoa religiosa por trilhar o caminho, eu visitei um templo zen pela primeira vez e comecei a praticar.

linksem português, na saraiva, ou em inglês, na amazon.

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o que faz você ser budista?, dzongsar jamyang khyentse

por fim, um livro que não foi especialmente importante para mim, mas que é a melhor obra de referência em português, acessível e recente, para explicar budismo para leigos.

quando comecei a frequentar um templo zen e minha família, coitada, não entendeu bulhufas, foi esse livro que dei para eles lerem.

linksna saraiva, em português, ou na amazon, em inglês.

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viver sem esperança

um trechinho do livro sempre zen, de joko beck:

“uma vida vivida sem esperança é pacífica, alegre e compadecida. enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo — e todos fazem isso —esperaremos que aconteçam coisas que, em nossa opinião, tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. esperamos ter sucesso. esperamos ter saúde. esperamos alcançar a iluminação. há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça; e, evidentemente, toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. a pessoa que já praticou o sentar, seja qual for o período que durou sua prática, sabe que não existe passado ou futuro, exceto em nossa mente. não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí, presente. …

o que de fato queremos é uma vida natural. mas nossas vidas são tão artificiais que essa busca, no começo, é bastante difícil.

apesar de estarmos começando um novo caminho, trazemos as mesmas atitudes que tínhamos anteriormente: não achamos mais que a resposta está em um novo carro de luxo, mas sim em alcançar a iluminação. continuamos na mesma corrida, apenas trocamos o troféu. agora temos um novo “se ao menos”: “se ao menos eu conseguisse entender um pouco melhor o universo, então eu seria feliz”; “se ao menos eu conseguisse atingir uma pequena experiência de iluminação, então eu seria feliz”, etc, etc.

muitas de nós acreditamos que se tivéssemos um carro maior, uma casa mais bonita, férias mais longas, um patrão mais compreensivo, ou um parceiro mais interessante, nossas vidas seriam muito melhores. não há quem não pense assim.

passamos a vida pensando que existe o “eu” e que existe essa outra coisa separada, “o tudo que não sou eu”, que nos causa alternadamente dor ou prazer. assim, evitamos tudo que nos fere ou desagrada ou causa dor; e buscamos ou toleramos ou aceitamos tudo que nos agrada ou nos envaidece ou nos causa prazer, fugindo de uns e perseguindo outros. sem exceção, todos fazemos isso.

ficamos apartados da vida, olhando para ela de fora para dentro, analisando, fazendo cálculos como “e o que eu ganho com isso? será que vai me trazer prazer ou conforto? será que devo fugir?” sob nossas fachadas agradáveis e amistosas, existe muita ansiedade.

se nosso barco cheio de esperanças, ilusões e ambições (de chegar a algum lugar, de tornar-se espiritual, de ser perfeito, de alcançar a iluminação) vira de cabeça pra baixo, o que é esse barco vazio? o que sobra? quem somos nós?”

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sua vida, de cabeça pra baixo

um trechinho do livro not for happiness, de dzongsar jamyang khyentse, o mesmo autor de o que faz você ser budista:

“esses dias, o objetivo de muitos ensinamentos é fazer as pessoas “se sentirem bem”, validando seus egos e suas emoções. mas é um erro considerar que a prática do caminho vai nos acalmar ou nos ajudar a viver uma vida tranquila. se você só está preocupado em se sentir bem, melhor fazer uma massagem relaxante ao som de uma música new age.

o caminho não é terapia. pelo contrário, ele foi elaborado sob medida para expor nossas falhas e virar nossa vida de cabeça pra baixo.

aliás, se você pratica o caminho mas sua vida ainda não virou de cabeça pra baixo, então sua prática não está funcionando.”

* * *

o zen enquanto paliativo consumista

hoje em dia, no ocidente rico (inclui o eixo morumbi-leblon), onde pessoas brancas ricas e bem-educadas morrem de culpa de seus níveis insustentáveis de consumo, uma meditaçãozinha com uma ioguinha, uma bananinha orgânica fair trade com um ovinho free-range, fazem com que pessoas politicamente alienadas pensem que estão fazendo alguma coisa para ajudar o mundo.

como disse o zizek, você tem o prazer de comprar o produto e ainda compra junto a redenção da sua culpa consumista. é perfeito.

sob esse aspecto, o zen ocidental pode ser considerado sintoma de uma sociedade doente.

nada disso é razão para deixarmos de praticar. mas não podemos ignorar nosso contexto cultural.

(um artigo e uma palestra do zizek: from western marxism to western buddhism & , parodiando weber, the buddhist ethic and the spirit of global capitalism.)

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as cinco lembranças

- adoecer faz parte da minha natureza. adoecer é uma lembrança da presença do mundo em mim.

– envelhecer faz parte da minha natureza. envelhecer é o ornamento da minha impermanência.

– morrer faz parte da minha natureza. morrer é uma dádiva da impermanência.

– tudo aquilo que amo ou odeio (objetos, parentes, pessoas amigas e inimigas) também compartilham da mesma natureza impermanente e passageira.

– somente as minhas ações são os meus pertences verdadeiros. não posso fugir às suas consequências. minhas ações são o chão que fazem o meu caminho.

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minhas poesias zen favoritas.

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o que aprendi na prática zen

assim que assumo a posição de meia-lótus, cruzo as pernas e pouso as mãos em frente ao umbigo, é nessa hora que meu nariz coça.

primeiro, vem a negação, imediatamente seguida pela revolta. caralho, não acredito que meu nariz escolheu coçar justo agora. putaqueopariu.

quanto mais tento esvaziar a mente, mais a coceira aumenta. em breve, a coceira está do tamanho do mundo. a coceira é maior do que eu, do que a vida, do que kafka, do que o sol, do que a vacuidade, dp que a morte.

a coceira é o universo. ali. na ponta do meu nariz.

mas não posso me mexer.

aí, vem a barganha.

que besteira!, penso. ninguém vai me ver. estão todos sentados, voltados pra parede, concentrados na prática. e, afinal, o que tem de mais coçar o nariz? o nariz não está coçando mesmo? não sou livre? não estou no templo praticando zen por vontade própria? não posso me levantar e ir embora a qualquer momento? por que não poderia coçar o nariz?

mas não. vai fazer barulho. o cotovelo vai estalar. o tecido da minha roupa vai farfalhar. naquele silêncio absoluto, esses sons seriam quase ensurdecedores.

então, a coceira some.

como tudo no universo, como nossas vidas, como as árvores, como o próprio sol, a coceira também passa.

porque se eu sinto coceira e não preciso coçar, então eu posso sentir fome e não preciso comer. posso sentir cansaço e não preciso sentar. posso sentir ira e não preciso gritar. posso sentir desprezo e não preciso humilhar.

porque a fome, o cansaço, a ira, o desprezo também passam.

a entropia e o tempo

a entropia aumenta com o tempo ou a entropia É o tempo?

aprendemos na escola que o universo favorece à entropia (é mais fácil quebrar uma caneca do que fazer uma caneca) e que tudo caminha em direção à própria dissolução.

ou seja, aprendemos que a entropia aumenta com o tempo.

entretanto, existe outra maneira de ver a coisa: talvez a entropia SEJA o tempo.

pois, afinal, só conseguimos perceber ou medir o tempo através da entropia que percebemos no universo. não há como dissociar entropia do tempo.

em outras palavras, sabemos que o tempo está passando porque podemos ver a rosa progressivamente murchando dia a dia.

mas talvez não seja a entropia da rosa aumenta com o tempo mas que é o próprio tempo que seja a entropia que destroi a rosa.

ficou claro? (se ficou, então você não entendeu nada.)

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sobre isso: four reasons you shouldn’t exist

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alguns textos entrópicos:

cajuína // eu, que vou morrer, os saúdo, que também vão morrer // você não tem tempo

 

história de uma caixa de farmácia

farmácia, tarde da noite.

vou até o balcão no fundo, onde o único atendente está conferindo a receita de um freguês. eu espero.

a senhora que estava no caixa percebe e vem correndo, ansiosa, como se me atender fosse a coisa mais legal do mundo, e pergunta o que estou procurando.

plasil, eu digo.

ela faz uma cara de que nunca ouviu falar daquele nome, mas vai procurar pela farmácia mesmo assim. daqui a pouco, ela retorna, dessa vez com uma nova expressão no rosto: sinto tanto, mas tanto por não ter podido ajudá-lo. jê suí dessolê!

e eu penso: plasil é um remédio muito comum, como pode não conhecer?

dentro de mim, sinto os primeiros tremores do velho alex acordando, o alex-godzilla, o alex-mr-hyde, o alex que dizia coisas como, “cara, eu aguento tudo, só não tolero gente incompetente!”

verdadeiro diabinho, o alex-que-eu-era sabe exatamente o que eu deveria dizer para a atendente da farmácia:

“a senhora poderia ir buscar alguém que saiba o que está fazendo, por favor?”

mas o velho alex era um babaca e eu não faço mais o que ele manda.

sorrio para a atendente e agradeço muito. continuo olhando coisas aleatórias pela farmácia até ela se afastar um pouco e, então, sem que ela escute, pergunto ao moço que está atrás do balcão:

por favor, plasil é aí dentro ou cá fora?

ocupado e ranzinza, ele faz um gesto impaciente na minha direção e grita:

dona maria, PLASIL!

ela se aproxima novamente:

eu já procurei, não tem.

ele aumenta o tom:

tem sim, caceta. tá ALI!

imperturbável e sorridente, dona maria se abaixa, encontra o plasil e entrega na minha mão:

aqui está, filho.

e ela me leva até o caixa, onde passa a minha compra.

* * *

aqui dentro de mim, no meu ó-tão-incrível ego, eu continuo sendo aquele horrível menino-criado-feito-um-reizinho cujo primeiro instinto teria sido destratar a dona maria.

quase sempre, consigo me controlar.

às vezes, falo coisas horríveis.

é como o alcoolismo: nunca se está realmente curado.

praticar ser a pessoa-que-queremos-ser nunca é fácil.

* * *

na saída da farmácia, seguro as duas mãos de dona maria e digo:

obrigado, viu? a senhora foi muito, muito gentil.

peludos & pelados, políticos & poéticos

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alex & claudia, na casa da let, em um ensaio fotográfico peludo & pelado, político & poético, por coletivo além.

(os fotógrafos, mateus & núbia, também estavam pelados & peludos.)

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nem toda nudez precisa ser objetificante.

tristemente, no mundo de hoje, um ensaio fotográfico onde a nudez não seja nem sexual, nem erótica, nem pornográfica, e onde os pelos do corpo humano sejam retratados de forma natural…

…é um ensaio fotográfico absolutamente político & transgressor.

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em janeiro de 2014, claudia e eu fomos clicados pelo coletivo de arte político-poética além.

(se você não puder abrir esse link no seu trabalho, leia a prisão trabalho.)

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quais comentários responder?

de repente, a Outra Significativa levanta a cabeça do seu latptop e pergunta:

“me diz se eu devo responder isso aqui.”

e eu, na lata: “não responde.”

“mas você nem viu.”

“não responde. vai por mim.”

mas ela veio e me mostrou. um babaca criticando uma foto linda só porque a modelo tinha cabelo nas pernas. e eu suspirei:

“ok, responde ao babaca. mas, por favor, da próxima vez, não me mostra o comentário. assim a minha opinião de “não responde” pode ser 100% isenta!”

voyeur

voyeur

ganha um doce quem adivinhar o que ela está fazendo.

como ganhar a vida dando meu trabalho de graça

nada pode ser mais mesquinho do que dizer “olha, tenho uma coisa legal aqui mas só te mostro se você pagar”.

e, na nossa sociedade capitalista, nada poderia ser mais tristemente comum.

* * *

todos os meus textos estão disponíveis gratuitamente na internet, para quem quiser ler, reler, linkar, distribuir.

todos os meus livros circulam gratuitamente, na forma de ebooks.

na revista fórum, escrevo gratuitamente, sem ganhar nada, por ativismo e por militância, porque a revista é importante para as causas que apóio.

todos os meus encontros têm a opção de entrar gratuitamente: paga somente quem quer, quem gosta de mim, quem acompanha meu trabalho, quem deseja colaborar.

ninguém precisa pagar para usufruir dos frutos do meu trabalho.

para mim, isso é o mais importante. senão, não faria sentido.

* * *

praticar arte de forma mais inclusiva e, ao mesmo tempo, ganhar a vida como artista é um dos grandes dilemas da arte contemporânea.

publicar minha literatura de graça na internet, sempre disponível para todos, e ganhar dinheiro vendendo esse mesmo conteúdo na forma de livros e encontros para quem pode e quer pagar… essa me parece ser uma das formas mais inclusivas de fazer literatura no brasil.

é o que posso fazer.

***

hoje, consigo ganhar a vida exclusivamente como escritor, graças à generosidade de cerca de 200 mecenas, entre elas 55 assinantes-pagantes, que contribuem com doações em dinheiro para a minha produção.

são elas que permitem que eu dê o meu trabalho de graça para quem deseja usufruir dele e não pode pagar.

muito, muito obrigado.

* * *

se você gosta do meu trabalho, e se não for fazer falta no leitinho das crianças, por favor, considere fazer uma doação.

se quer só acompanhar os meus textos, ler prévias, saber das novidades, assine meu newsletter (não custa nada!)

racismo reverso

uma camisa “100% branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar uma pessoa privilegiada celebrando seu privilégio.

uma camisa “100% negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.

existe uma enorme diferença.

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a partir de agora, quando alguém vier me falar de racismo reverso, vou mostrar esse vídeo. tem legendas em português.

um pouco sobre o encontro “as prisões”

 há doze anos, escrevo sobre as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. são elas:

verdade // dinheiro // trabalho // privilégio // sexismo // racismo // monogamia // religião // patriotismo // escolhas // respeito // certezas // os outros // medo // ambição // felicidade // narcisismo

agora, estou promovendo o encontro “as prisões” por todo brasil. o público-alvo são ovelhas negras em busca de interlocutores. o encontro oferece a oportunidade de passarmos o dia inteiro trocando histórias, compartilhando vidas, debatendo perplexidades. ao final, nós, todas as pessoas, estamos exaustas, gastas, esvaziadas. confusas, atarantadas, chacoalhadas. (veja os depoimentos de quem já foi.)

o encontro “as prisões” é independente por ideologia. não possui vínculo institucional algum. é divulgado pela internet de forma alternativa e realizado em praias, parques, quintais, praças. oferece frutas e castanhas para comermos ao longo do dia e tem um intervalo para almoço. começa sempre às nove da manhã de sábado ou de domingo e termina na hora que terminar. muitas vezes, a química é tanta que não queremos ir embora: o encontro mais longo durou 13 horas.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

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o encontro é pago. mas negar uma pessoa só porque ela não pode pagar seria dar importância demais a essa convenção arbitrária que chamamos dinheiro. portanto, algumas pessoas pagam, outras pagam menos, outras não pagam. na prática, as que pagam me possibilitam fazer o encontro para as que não pagam. nada poderia ser mais solidário do que isso. (para saber mais, consulte a política de gratuidades.)

não é auto-ajuda, terapia, coaching. não é palestra, aula, exposição de conteúdo. não tem apostila, powerpoint, frases de efeito pra anotar no moleskine. não oferece respostas, soluções, remédios. não promete uma vida mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.

não ajuda em nada. pelo contrário, só atrapalha. às vezes, nos transforma em pessoas ainda mais confusas, desajustadas, perdidas. afinal, ser bem-sucedida e bem-ajustada em um mundo canalha pode bem ser indicativo de nossa própria canalhice.

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calendário completo de encontros “as prisões” em todo o brasil em 2014.

sobre alex castro: bio, clipping, fotos, entrevistas.

dúvidas, questões, desabafos? fale com o alex.

prisões já publicadas: monogamia // patriotismo // dinheiro // trabalho // felicidade // narcisismo

o que você gosta de ouvir?, me perguntou um amigo

eu: mulher rindo. alho refogando. zíper abrindo. ondas quebrando. gemidos de gozo. criança brincando. zumbido de ar-condicionado começando a funcionar. dois sapatos caindo no chão, lentamente, um depois do outro. o apito do sorveteiro que passava pela minha casa. passos descalços no chão frio. “eu te amo, alexandre.” o oliver latindo quando chego em casa. saltos altos no mármore. máquina de escrever elétrica. pisada forte de mulher decidida. apito do recreio. pernas femininas, vestidas de couro ou látex, roçando uma contra a outra enquanto andam. suspiro saciado de prazer. ronco do oliver dormindo profundamente.

ele: não. eu quis dizer de música.

eu: ah.